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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

SANTO AGOSTINHO CONTRA OS ACADÉMICOS

SANTO AGOSTINHO

CONTRA OS ACADÉMICOS

DIÁLOGO EM TRÊS LIVROS

TRADUÇÃO E PREFACIO DE

VIEIRA DE ALMEIDA

PROF. DA UNIVERSIDADE DE LISBOA

COIMBRA — MCMLVII

DO AUTOR

OPUSCULA PHILOSOPHICA — (dispersos).

OPUSCULA CRITICA—(dispersos).

LACRIMAE RERVM—(poemas) [publ, I Bucólica, II Nocturna].

GARRET — Sn /ftfff. Í/Í7 £íV. /-;>-,'. n&S SéC$r XIX 0 jKX

GABRIELA I/AKKUHJHO— in ÍCst, um. em Portugal, n,° i,

í AMPAN-ELLA— &&F, n.Q 2.

PIRANBELLO — tfjtíf.

A ATITUDE KEffTAL DE MONTAlGNIí - ín /&/, *>/ ^tf/írf. rftf$ Ciências,

vol. V.

AHTFJRO DE QUENTAL - in BitlL des êiudes portugaUes, 1938.

DECADÊNCIA DO ÍMI\ PORT, NO OKUíNTE ín I/isL da expansão port.

no mu mio.

FARÀUOLA VIVA (romance) —(ed. Ocidente, 1941)*

AMORES DO POETA—trad- do Dichteriiebe, de íleine — Coimbra,

edit, 1942.

FILOSOFIA DA ARTE — (Cot, Studinm, Coimbra, 1933),

TEATRO CAHOKEANQ— 1 Anfitriões, u KL-Rei Seleuco — ed. Ocidente

(1942 e 1944),

INTRODUÇÃO A FILOSOFIA —(Col. Stndiumf Coimbra, 1943).

LÓGICA ELEMENTAR — (Col. Studium, Coimbra, 1944),

A MÁSCARA DE EÇA — (ed. Romcro, 1945).

À JANELA DE TORMES — ed. Rev. de Portuga/, 1945J.

CQLUKATA (romance)— ed. Ocidente, 1945).

CONTRA os ACADÉMICOS —trad.» pref. e notas —in Arq* da Univ. de

Lisboa, 1945*

os ÚLTIMOS FINS DO HOMEM preí. e notas (ed. RCZK de Portugal,

1946).

EÇA Df, QUEIRÓS - in Pers. da HL portuguesa.

PARADOXOS SOCIOLÓGICOS — (Col. Studium, Coimbra, 1947).

ESBOÇO DE HIST. DA TEORIA DO REAL E DO IDEAL, d e S ç h o p e n h a n e r

— trad, e pref, — ed, Atlântida, 1948.

A LÍNGUA PORT, E O CANTO — in Boi. do Conservatório JV>J> vol. I, n.n 2,

HOMENS DA ÍNDIA DE QUINHENTOS — ed, Emp, N-«> de Publicidade,

1955.

J UDlTH — ed. Ociden te, 1950,

ORAÇÃO DA COROA — trad., pref, e notas - ed. Sá da Costa, [956.

INICIAÇÃO LÓGICA —ed. Europa-América, 1956.

PREFÁCIO

l) Itaquê avidissime arripiti vemrabihm síilum spin

tus tui et prae caeteris apostolum Patdtim et perierunt

illae quaestiones in quiòus mihi aliquando visus est adversari

sibi et non congruere tesiimoniis Legis et Propketarum

textus sermonis ejus. Et apparuxt mihi una fácies etoqu

ioru tn cas to rum et exsu Itare cu ? n ire m o rc didic i [co ÍT *. ,

VII, 27].

Não é por acaso que o apóstolo Paulo aparece nas

CONFISSÕES de Agostinho, como alavanca do seu movimento

para a doutrina que tão larga- e profundamente havia

de ilustrar (l); entusiasmo semelhante parece animar 03

(l) Santo Agostinho (Aurélio Agostinho) n. 354, nos Idos de

Novembro (dia 13 — Cf. i)e beata vila, 6) m. 430, Mocidade aventurosa.

Professor de retórica em Milão, deixa esse cargo (386) depois

de convertido — do maniqueísmo ao cristianismo — por influência

de Mónica, sua mãe (Santa Mónica) e do bispo milanês Ambrósio,

mais tarde canonizado, que o baptizou. Querendo meditar livremente,

retira-se para Cassiciacum aonde o acompanham seu irmão

Navígio, sua mãe, seu filho Adeodato, Alípio, seu amigo, Licencio

e Trigccio, seus discípulos; o primeiro, filho de outro sen

amigo e protector, Romanàano, a qnem ê dedicado o CONTRA ACADÉMICOS.

Pelo contexto o diálogo ê verdadeiramente preliminar na obra

agostiniana, porque nele se procura invalidar o cepticismo da «Nova

5

dois homens na missão que têm por sua; vibração e

ardência análogas transparecem da obra e da atitude de

um e de outro; em ambos se produz crise espiritual

profunda; ambos perguntam ansiosamente que lhes cumpre

fazer. E um ouve no caminho a voz que o manda

esperar em Damasco a ordem divina [ACTOS, IX, 7]; outro,

informado da vida de Santo Antão (¹), e das conversões

por ele operadas, ouve também na solidão do campo o

Academia», (Arcesilaa, IV e III séc. a. C., Carnéades, II séc. a. C.,

Filon de Larissa> 11 e 1 séc* a. C.) para poder assentar base dogmática

e simultaneamente ligar de novo em sentido cristão o conhecimento

com a ética e com a felicidade do homem.

Esta ligação reaparece no r>£ BEATA VITA e no DE ORDINÊ, com

postos em um intervalo da realização do CONTRA ACADÉMICOS, C* àk

o núcleo da sistematização de que Santo Agostinho íoi o mais nota

vel representante na patrística ocidental.

Vários passos o confirmariam. Haste citar, íora de esta obra, <*

das CONFISSÕES : Et ipsa est beato vi/a gaudere ad te, de. fe, propter te :

ipsa est et non est altera (X; XXII, 32); e ainda: Beata quippe vita est

gaudium de mriíaíe (id., xxm, 33). E no LÍBER DE VERA REUGIONE

(112): Ecce unnm Dium colo unnm omnium principiam et sapieniian?

qua sapiens est úuaecumque anima sapiens est et ip.sum múnus qu&

beata sunt qttaecumque beata strnL

O passo referido encontra-se também confirmado em termos

semelhantes no CONTRA ACADÉMICOS (If, II, 5): Itaqite íifubans, pro

perans, haesitans, arripio apostolam Pautum*,. Perhgi iotum inten

tissime atque cautissiwe*

(i) Audicram enim de António quod §x evangélica tectione cm

forte supervencrat admonUus fmriU K o anacoreta da Tebaida

(250-356) que se retirou ã vida contemplativa e solitária, inspirado

pelas palavras do Evangelho de Sâo Mateus: — «Se queres ser perfeito,

vende os tens bens e dá o produto aos pobres» — ouvidas em

uma igreja. Teve grande fama e popularidade, não só pelos iiiila

grés que lhe atribuíram como pela coragem com que afrontou o

perigo mais de uma vez para combater heresias ou defender e ani

mar cristãos oprimidos,

õ

folie, tege da voz ignorada [CONF., VIU, 29 J que o leva a

buscar na Bíblia sentença orientadora. Volta para junto

do seu grande amigo Alipío, que surpreso o vira afastar-

se, pede ao livro que ali deixara uma espécie de

oráculo, e lê em silencio o que lhe cai debaixo dos

olhos:

Non in comessationibus et ebrietatibus, non in cuhilibus

et imptidicitiis, non in contentionc et aemulaiione;

sed indulte Dominum Jesum Christum et carnis providentiam

ne feceritis in concitpiscentiis (Não em glotonaria e

embriaguez, não em desonestidade e impudicícia, não era

disputa e emulação; mas revesti-vos do Senhor Jesus

Cristo e afastai a concupiscência [AD BOM., £111,13-14)),

O apóstolo dos gentios e o bispo hiponense aprenderam

assim lição igual, e salva a diferença do tempo

seguiram trajectória semelhante; e a tal ponto que apesar

de essa diferença—ou talvez em função de ela —mais

impressionante se revela a semelhança. Convertidos

ambos, Paulo sai da hostilidade feroz, Agostinho de uma

inquieta dúvida perturbadora. Um e outro deixam testemunho

veemente de sua crise violenta e crucial, Paulo

narra a conversão própria, evocando o seu ódio aos

cristãos e decerto o suplício e morte de Estêvão, a que

estivera presente e em que consentira [AD FILTP. III, 6 —

I AB T1M. 1, I 3 — 1 AU COR. XV, 9 AD GAL. I, 13] \ AgOStinhO

relata longamente nas CONFISSÕES vicissitudes da sua

trajectória espiritual.

Tom ardente de entusiasmo doloroso e vibração de

proselitismo infatigável encontram-se nas EPÍSTOLAS de

Paulo como nas CONFISSÕES de Agostinho, e a agitação é

visível em um e outro texto; no primeiro, por exemplo^

quando o apóstolo conta o que sofreu durante a prédica

[AD COIÍ., 11, XJ, 24 e segs.]; no segundo, em vários passos,

7

como no fim do Livro VIII, em que a expressão, simultaneamente

desolada e esperançada, ressoa com extraordinária

pl&ngOncta:

*Logo que uma reflexão profunda me revelou ao

coração toda a minha miséria, uma furiosa tempestade

desencadeou torrencial chuva de lágrimas».

Ksta agitação de temperamento arrebatado serve em

um e outro caso para compreender os dois aspectos

característicos da obra de cada um de eles, ou antes»

a intensidade notável que vieram a alcançar, e é fonte

viva da sua repercussão. Colocados perante uma oposição

que para Paulo, apóstolo, é mais violenta e perigosa

e para Agostinho, bispo, já mais erudita e especulativa,

a obra naturalmente se desenvolve em dois

pianos correlatos e complementares: polémico e doutrinário.

A polémica de Paulo é parte da sua mesma vida

apostólica; às suas discussões de Atenas se referem os

ACTOS dos Apóstolos (xvn, 18):

— . .E alguns filósofos epicúrcos e estóicos disputavam

com ele e diziam :

%Qu€ quer dizer este falador ?* E outros:

«Parece que prega novos deuses» Porque lhes anunciava

fesus e a ressurreição.

A parte doutrinária é a colecção das EPÍSTOLAS,

2) A polémica de Agostinho dirige-se contra heresias

do cristianismo; a parte doutrinária está contida nos

OPÚSCULOS, obra vasta, de notável importância histórica;

cerca de nove séculos depois, no auge da Escolástica, a

obra agostiniana é um dos pilares da sistematização.

A tradição aristotélica funde-se em São Tomás com a

filosofia de Santo Agostinho, de nítida e confessada

8

influência platónica e neo-platónica (em certos pormt

nores corrigida nas RETRATAÇÕES (l)); e se Aristóteles serve

(*) O Livro primeiro das RETRATAÇÕES respeita aos livros quns

. ripsit nondum episcopus, e o Capítulo 1 à obra que ele chama

CONTRA ACADKM1COS Veí DE ACADEMICIS,

As restrições são poucas e quase puramente verbais. Refere-se

a primeira (Liv, I, 1, 1) à palavra fortuna, várias vezes empregada.

receando que alguém a entendesse como nome de uma deusa, ao

passo que ele apenas a usara no sentido de «evento fortuito»; e aceu

tua o passo em que no texto o deixou bem claro ; Etenim fortas>

quae vulgo fortuna nomlnatur oceulto quodam ordine regitur nthitqw

atiud in rehus casam vocatnas nisi cujas ratio et causa secreta esL

A segunda (ibiá.) é a da desnecessidade da disjuntiva: sivepro

meritis nostris sive pro :tecessitate naturae, pois essa dura necessidade

resulta do pecado de Adão,

A terceira (i, I, 3) explicita que em vez de quidquid ullns sensus

adtingitf deveria ter dito quidquid mortalis corporis ullus Sênsuè

adtirtgit, para evitar qualquer ambiguidade.

A quarta (1,11, 5) mantendo a verdade da afirmação de que a nuns

tt ratio constitui o melhor do homem, restringe que se tratada natureza

humana, pois no sentido amplo, Deo meus nostra suhcttnda est*

A quinta (I, IV, a) repele a palavra omen (augúrio) que empre

gara não a serio mas jocosamente, por ser de carácter pagão.

No Livro segundo (III, 7» rejeita em primeiro lugar aquela como

fábula da Philocalia et Philosophin, a que chama inepta e insulsa :

mas como é evidente, o diálogo uada perde e nada ganha com essa**

Jxnhas colaterais.

A segunda (11, LX, 22) refere-se à frase «secaras rediturus itt

:aetum-»t em que para evitar interpretações erradas teria sido prefr

rível dizer i/urus, se bem que no seu pensamento in caelum seja

equivalente a ad Deum.

Finalmente quanto ao Livro terceiro:

Na primeira observação diz que julgaria preferível dizer in Deo*.

em vez de in mente arbitrar esse snmmum hominis honttm (XII, 27).

Na segunda declara desagradar-lhe a frase — liquet dejerare p*

omne divinum (XVI, 35).

Na terceira corrige um pormenor de interpretação (XVIII, 40)

Fendo dito que os Académicos conheciam a verdade, e chamado

9

lie base ao Poeto? - Ingelicus, que o «interpreta» em sentido

cristão, Agostinho aparece como autoridade primacial,

e basta citar-lbe a opinião para haver motivo de

reconsiderar na tese que o autor parecia levado a apresentar

como exacta, embora verdadeiramente já pensasse

em chegar a uma conclusão incompatível com ela. Tal

é frequentemente a marcha do raciocínio nos capítulos

da SUMMA de São Tomás,

Na fase apostólica, Paulo tem de afirmar pontos capitais

de dogmática, de encontro a uma religião tradicional

definida, não menos exclusivista do que uma religião

nascentej e por ela tornada mais zelosamente combativa.

Importa portanto fixar doutrina, «pregar a Cristo cruciíicado

que é escândalo para judeus e estultícia para

gentios» (AD COK., 1, i, 23^; na época de Agostinho consumara-

se aquela pulverização de que há sintomas aludidos

nas EPÍSTOLAS de São Paulo, empenhado não só em propagar

a doutrina mas em manter-lhe unidade, evitando

até o gérmen de divisão que seria supersticiosa [AO CQH.,

I, 1, 10 e segs ]*

A polémica de Santo Agostinho foi objecto de vários

opúsculos sobre os pagãos, maniqueus, novacianos, arianos,

donatistas e pelagianos; contra os maniqueus Agosfalso

ao verosímil por eles aprovado, Santo Agostinho reconhece

duas causas de erro: primeiro, o verosímil ê verdadeiro também in

gentre suo; eles Dão o aprovaram porque o sábio nada devia aprovar.

O erro proveio, diz Santo Agostinho, da palavra «provável*^

por eles também usada.

Na quarta restringe o louvor exagerado a Platão e aos Platónicos

ou Académicos (XVII, 37)*

Na quinta e última (XX, 45) contra o que dissera ao terminar o

diálogo considera ter refutado CfceTO certíssima rationc e só por

ironia pudera dizer o contrário. O argumento permanecia; a convicção

é que se reforçara.

IO

tihho, além da oposição doutrinária, tinha o ressentimento

do convertido, apaixonado pela refutação do erro em que

ele mesmo caíra.

Havia ainda outra razão e essa não apenas psicológica

e fácil de supor, senão que documentada claramente na

obra. Ao passo que muitas heresias podiam dizer-se no

aspecto geral como formas aberrativas internas ao sistema,

a dos maniqueus tinha por base uma noção tradicional,

dominante, sugestiva —o princípio dos contrários—

transeunte da ordem física à ordem moral, e que

se por um lado era incompatível com a ordem hierárquica

do sistema, por outro se mantinha e manteve por séculos

até no domínio do conhecimento físico, Conservando-se

apenas nesse domínio, a hierarquia aristotélica tinha no

termo um hiato lógico, aliás quase permanente na filosofia

anterior, e que o Estagirita não pensara sequer

eliminar —a cansa prima — ; saindo de esse domínio, o

hiato adquire aspecto duplo: lógico e ontológico,

Huine, embora para concluir pela indiferença da fonte

original de todas as coisas quanto ao bem e ao mal, vê

no maniqueísmo uma primeira e natural solução:

*Here the manichaean sysiem occurs as a proper hypothêsis

to solve the difficulty; and no douòt, in some respects,

it is very specious, and kas more probabihty íhan the

common hypothêsis by giving a piausible account of

the strange mixture of good and ill which appears in

lifê*.

A dificuldade surgiu a Santo Agostinho e perturbou-o

demorada* e profundamente: Et quaerebam unde ma~

lutn.. * Ubi ergo malum?*.. Unde est wialum? [CONF,.

VII, Cap. v, 73*»* quaerebam aestuans unde sit maluwt.

Ouae illa tormenta parturientts corais mci, qui gemilus,

Deus meus ? [iòid. Cap» vn-11].

11

julgou, resolvê-la ao concluir que «o mal não é uma

substância*, quia si substaníia cz^cí buuum vsset [tòtd.

Cap. xu-i8]. Era uma degradação metafísica, de base

ética, isoladora do Sumo Bem na sua omnipotência, mas

punha em perigo a oposição «substancial» do verdadeiro

e do falso, que também não são da natureza exterior»

oposição implícita no desenrolar de todo aquele raciocínio-

Certo que «o Mal não é uma substância», admitido

que a írase tem sentido rigoroso; mas sê-lo-á o Bem r

Cur et hoc? como diria Santo Agostinho. Só por valorização

arbitrária. O desequilíbrio era claro. Se a dualidade

do maniqueu abalava a hierarquia, a degradação

de um dos princípios aportava à incongruência.

E é sempre análogo o resultado quando se pretende

o absurdo — neste caso uma demonstração metafísica,

Na discussão Bayle-Leibnitz, o inglês, com ar de boa fé

quase ingénua, pergunta —Mas devo na verdade acre*

ditar que este inundo seja o melhor dos mundos possíveis?

E Leibnitz com desnorteante segurança responde:

— Sem dúvida; porque se assim não fosse, Deus teria

escolhido outro,

Esta petição de principio, praticada por um homem

superior, de nome solidamente incrustado na história da

ciência, assombra pelo desvario a que pode levar qualquer

atitude metafísica enraizada e perturbadora,

3) O diálogo CONTRA ACADKMICOS não é apesar do título

obra essencialmente polémica. Nem o ambiente em que

se trava nem o problema de que trata provocam o entusiasmo

ou convidam à exaltação. Além de isso, Agostinho

não crê que a doutrina verdadeira dos Académicos

fosse tal qual eles deixaram crer aos profanos e a isso se

refere no fim do diálogo,

12

A exposição e análise da tese dos Académicos constituem

ponto de partida para certa base de teoria do

conhecimento — aquela mesma por onde deveria ficar

ligado e transponível o hiato aberto na hierarquia; e por

isso inevitavelmente imaginativa e ética. O esquema

poderia assim enunciar-se:

à) Ninguém pode ser feliz sem achar a verdade

(condicionalismo ético do conhecimento)*

b) Mas o homem é capaz de achar a verdade*

c) Podem refutar-se os que o negaram, em especial

os sectários da Nova Academia.

Só por si o esquema já ê bem elucidativo; com efeito,

a análise dos argumentos dos Académicos, a que se refere

a alínea ct pode considerar-se questão técnica, A afirmação

da alínea at como ponto de partida e determinante

do ponto de chegada, funde em modo racionalístico uma

realidade psíquica, um estado — a felicidade—(substantivado

metafisicamente e não apenas vocabularmente)

com uma relação adjectiva —a verdade — substantivada

por igual.

Quanto á alínea òt ê ponte insegura, dependente na

aparência da primeira; mas só pode ser aceita depois de

demonstrar-se generalizável a conclusão da última; e

supondo ainda concedido que está certa a proposição da

primeira.

Recusar a substantivação da «verdade* não é só

possível; é conclusão exacta. A este respeito o diálogo

é naturalmente incompleto — bem o mostra a própria

conclusão do autor —e tem carácter provisório, como se

vê do último parágrafo, apesar de corresponder a uma

convicção sólida; positivamente consiste na refutação

do cepticismo e na conclusão de que o homem, necessitado

de procurar ardentemente a verdade (outra a/ir-

13

mação psicológica falível, tomada como ponto de partida

lógico) tem o caminho livre, pois são falsos os argumentos

contra a possibilidade de encontrá-la.

Claro que Santo Agostinho vê na sua fé aquela

verdade primacial a que as outras são aferentes; mas de

isso não cura em especial este diálogo,* exteriormente

mantido no piano da estrita discussão das condições do

conhecer (salvo o intróito de cada livro e unia alusão no

final do terceiro); assim é que iniciado o debate pela

pergunta radical:— «Duvidais de que precisamos de

conhecer a verdade ?» — o diálogo sem transição ou fórmula

explicativa se desenvolve sob a influência dos piacita

dos Académicos, como se a pergunta inicial fora:—

«Duvidais, com os Académicos, de que possamos atingir

verdades?*

O que é inteiramente diverso. No primeiro caso tratar-

se-ia da Verdade transcendente, modelo e origem de

verdades: no segundo, tudo se passa no domínio do

conhecer, sem recurso algum à transcendência.

4) De notar que Descartes procurou também, no

Discurso do Método e nas Meditações metafísicas análoga

justificação transcendente da validade do conhecimento,

única forma que julgou possível para quebrar a cadeia

da sua dúvida metódica; a sua transcendência justificava-

se moralmente; era o postulado ingénuo — com perdão

do génio de Descartes — de que Deus não podia ter

querido iludir o homem; mas ê muito mais simples

admitir a validade pelo menos pragmática do conhecimento

objectivo (é o que faz o homem na generalidade)

do que pretender em vão alicerçá-lo sobre base muito

menos evidente, embora o grande filósofo, preso a essa

ideia—quem sabe por que laço! — insistisse em que

14

ela era mais evidente do que as proposições da geometria.

Acresce haver aqui um «circulo», pois a «aspiração*

ontológica só vinha revelar-se «depois», quando podia

vestir-se-ihe o aspecto de relação lógica. Esta atitude

mental é frequente e proteiforme na história do pensamento!

e além do mais, os postulados, como das árvores

e dos homens diz a Bíblia, pelos frutos se conhecerão*

Postulado estéril, fantasia inútil,

A afirmação simétrica e vulgar de que «Deus é a verdade*

tem desde logo aspecto metafórico e sugestivo; de

aí o seu êxito primeiro; mas reduzida a significado puro

inteligível, ou vem dar a afirmação cartesiana — já de

modo nenhum evidente -ou corresponde em termos

modernos à afirmação pitagórica de que o inteligível

humano laboriosamente obtido reflecte o inteligível

divino, o pensamento da causa absolutamente inteligente,

Mais uma vez uma expressão parece resolver uma

dificuldade que apenas reexpõe em forma diferente,

Trata-se de mais um aspecto verbal da concepção que

levou ao «princípio» (fusão híbrida do lógico e do material)

dos jónios, ao WJCF ordenador, de Anaxágoras, ao

dualismo pitagórico, ao cogito-sum de Descartes, à ideia

da racionalidade intrínseca do real (fonte, ao longo da

história, da repetida confusão do «absurdo» com o aimpossível

») e à recíproca — a de que todo racional é reai —o

que tem favorecido imponentes afirmações de existência

com o auxilio de pobres iogoinaquias. Tudo aspecto3

multímodos do hiato referido anteriormente (cf. 2).

Ora, como as verdades da ciência ou da filosofia não

são reveladas e nelas o erro é sempre possível, a revelação

da existência de Deus — que aliás não nos permite

15

abranger-lhe a essência — não nos elucida sobre verdades

da filosofia, onde só indirectamente e sem eficácia

podemos limitar-nos a glosar com maior ou menor entusiasmo

essa afirmação fundamental; quer dizer, essa verdade

(neste caso «afirmação de existência*) funcionará

como origem mas não como metro de verdades ou como

princípio de conhecimento; só o fervor de combater

doutrina oposta ou incompatível pode dar a ilusão de

que a posse de tais verdades se prenda com a da Verdade

substantivada, cousificada.

Tanto mais quanto o jogo dialéctico para estabelecer

por via puramente humana qualquer verdade revelada é

luxo estético que não a confirma, pois ela desnecessitaria

de confirmação; tudo que possa acrescentar-se—(o

desenvolvimento é quase ad libitum) — não passa de escólio

sem interesse intelectual de maior, a não ser como

prova de argúcia, imaginação, ou talento do escoliaste.

5) Estranhou Pascal que Descartes com o seu mecanismo

se tivesse limitado a reconhecer o impulso inicial

da divindade, ficando sem saber de aí por diante o papel

que devia dar à acção divina: — «Je ne puis pardonner à

Descartes; ii aurait kien vouíu dans touie sa philosophie

pouvoir se passer de Dieu; mais il na pu s*empêcher de

lui faire donner une chiquenaude pour meítre h monde en

mouvement; après cela^ il na plus que faire de Dieu (PENSÉKS,

Art. x, xu).

No entanto aqui era Descartes que tinha razão, independentemente

do mecanismo ou de qualquer outra teoria

de ordem física. Nenhuma forma de explicação pode derivar-

se logicamente de aquela condição prévia, constante

e por isso inaplicável como princípio de conhecimento em

domínios que o método individualiza e distingue.

16

De aqui no CONTRA ACADÉMICOS a independência do primeiro

livro relativamente aos outros, pois «as verdades

impossíveis de alcançar», segundo a doutrina da Nova

Academia^ não podem ser «a verdade* de que depende

a «vida feliz», só possível se a mens ou ratio achou a verdade

una, racional, exemplar, e condicionante. Os exemplos

de verdades irrefutáveis a que Santo Agostinho dà

nome dialécticas ou obtidas directamente pela dialéctica,

não constituem de modo algum base ou elemento de felicidade.

Assim, excluída a verdade fundamental da sua fé que

ê revelada, e portanto, ainda quando se pretenda tratá-la

racionalmente, não se obtém por exercício racional puxo,

o que fica para a «vida feliz» entendida por este modo é

a afirmação de que é possível achar a verdade, e de ai a

convicção de que o esforço de procurá-la não è inútil

imas aqui já o conteúdo do termo é diferente e complexo);

e então a tese aproxima-se tangencialmente da

de Licencio, que na busca e não no achado (à maneira

de Lessing mas catorze séculos antes) fazia consistir a

felicidade. Demais, o próprio Santo Agostinho, pensando

na verdade por ele encontrada ao converter-se, afirma

no final estar ainda longe de alcançar a sapiência (III,

xix, 43); está portanto, relativamente ao que importa

saber, na fase da investigação; e embora se julgue

imperfeito, segundo a terminologia ali empregada, não

se tem decerto por infeliz, pois encontrou o seu sentido

da vida. Quer dizer, o que verdadeiramente lhe

importa é justificar a possibilidade do conhecimento por

uma verdade originária em que se fundem por hipótese

existência e validade, substância e relação lógica.

Êt salva a forma de exposição, o objectivo da solução (?)

cartesiana.

I?

O ajustamento e resumo da altura da discussão, feitos

por Agostinho no fim do Livro I (Cap. íx) e o seu apoio

a Trigécio elucidam bem sobre o seu pensamento, sobre

relações implícitas, que tomam a conhecida forma de definições

por postulados:

i) Só o sábio é feliz (L m, 7).

2) O sábio deve ser perfeito (ibid.)

3) Quem ignora a verdade não é perfeito {(ibid., 9).

4) Logo não é sábio e portanto não é feliz.

Este conceito de «felicidade-racional-defini vel» é socrático

e depois estóico, sem querer dizer neste caso que

Santo Agostinho o receba de tal fonte, dada a sua repulsa

pela posição estóica. Na essência, a discussão de Sócrates

com Polus e Calliclès [GORGIAS] é o estabelecimento da

concepção racionalística (l) e normativa da felicidade;

e a simetria é completa com a discussão Licencio-

-Trigécio ao longo de este diálogo, sobre a ciência e a

vida feliz; com a de Sócrates e Eutífron [EUTÍFRON]

sobre o bem, necessariamente amado pelos deuses, ou

— inversamente — constituído por aquilo que eles amam ;

com a posição de Duns Scott e a de S. Tomás, confiado

o segundo na realidade do bem-em-si, afirmando

o primeiro ser o bem ex instituto da livre vontade divina.

Como se vê, a cadeia é longa e poderiam buscar-se mais

elos.

Procurar a felicidade com a ilimitação do desejo, conduz

à impotência pelo limite da capacidade humana,

excepto se o esforço mesmo constituir a felicidade do

homem; o que é resolver o problema por uma atitude

psicológica. Atitude individual, não teoria. Procurá-la

(l) Não devem confundir-se «racionalístico» e «racional». O primeiro

pode ser oposto ao segundo.

18

pela «ciência» e pela renúncia é a atitude negativa correspondente:

uni remendo hábil, não uma teoria.

O alto, embora variável, coeficiente de subjectividade

da chamada «vida feliz» é como desprezável para Santo

Agostinho, colocado na linha da teorização racionalista.

Assim, Romaniano seria infeliz (I, 1, 2) apesar de todas

as honras e do theatricus plausus, se ignorasse o que é

verdadeiramente a vida feliz. É esse o tema do diálogo

DE BEATA VITA, escrito em um intervalo da execução dos

três livros CONTRA ACADÉMICOS. AÍ é Santa Mónica, mãe

de Agostinho, que responde à pergunta do filho, feita

sobre afirmação idêntica à do diálogo CONTRA ACADÉMICOS,

de que o homem deseja ser feliz:

— «E feliz quem tem o que deseja? — Si bona velit et

habeat beatus est; si autem mala velit quamvis habeat

miser est. «Se quer e possue o bem, é feliz; se quer o

mal, ainda que o possua é desgraçado» (ro).

Agostinho aplaude vivamente citando o HORTENSIO de

Cícero, que também em outro passo escreveu: Nihil

aliud est bene et beate vivere nisi rede et honeste vivere;

mas a ideia é igualmente socrática e estóica. Parte da definibilidade

de «vida feliz». E o argumento de Santa Mónica

de que o homem que se contentasse com certos bens teria

a felicidade não pela posse do desejado mas pela moderação

do desejo, aplica-se reflexamente ao sábio modelar

que se julgasse feliz embora despojado de qualquer

bem material; a sua felicidade estaria também na atitude

racionalizada, níío na substancialidade do bem usufruído.

O desenvolvimento do raciocínio sobre esta base

exige ainda, como em um e outro diálogo expressamente

se lê (c. A., I, íii, 9; DK «. v., passim) a disjunção

classificadora — feliz ou infeliz — sem gradação

19

ou escala de intensidade e sem variação possível no

tempo.

Licencio vacila como inexperiente sobre uma tendência

de visão relacional — e justa — da dificuldade, embora

depois seja esmagado pelo aparato bélico da erudição, e

pelo realismo desorientador e âs vezes um pouco espesso

de Trigécio, como se vê nos seus exemplos e comparações.

A oposição Licêncio-Trigécio é uma de muitas formas

conhecidas do conflito entre um pseudo-realismo conceituai

e uma intuição que se debate, por se aperceber de

que o contraditor está em erro e não saber como demonstrá-

lo, Se na mor parte dos casos não aproximamos tais

formas da sua raiz comum é pela distância no tempo,

pela diferença de tema (o que lhes dá por vezes aspecto

de questão particular) pelo mérito real ou suposto das

pessoas ou por alguns erros inclusos na argumentação

de um ou de ambos os lados e que subjectivamente

valorizados positiva- ou negativamente bastam a realçar

ou prejudicar o conjunto de argumentação.

Assim, não seria difícil mostrar por exemplo que a

justa objecção de Caíliclès a Sócrates: — «falas segundo

a lei ao tratar-se da natureza e segundo a natureza ao

tratar-se da lei& —revela que Sócrates passa sem transição

do normativo ao real e reciprocamente, como se do

mesmo plano fossem, julgando o conceito ponte segura

em todos os casos. Certa classe de conceitos é com

efeito ponte mas entre o empírico e o racional, não entre

exemplos e norma, o que constitui pseudo-aplícaçãoj e

a ponte como tal é sempre móvel e substituível por

insuficiência ou ruína, o que Sócrates não aceitaria.

Também quando Eutífron pretende que * justo» apenas

seja o que os deuses querem —no século xni Duns Scott

veio a retomar a tese em sentido cristão — Sócrates pre-

20

tende uma definição intemporal do «justo», o *justo-em-

-si*. Definição impossível* O diálogo não conclui.

O que no diálogo platónico parece tirar força às

razões de Caíliclès, assentes na intuição viva de uma

realidade psicológica, é em primeiro lugar o estar Platão

do iado de Sócrates e deixar ver que o seu opositor nâo

Levaria talvez muito ionge o escrúpulo da injustiça se

íosse ele próprio o agente e qualquer outro o paciente.

Isto que não deveria ter significação no caso torna-se

uma espécie de argumento ad hominem contra as razões.

O que tira algum valor ao raciocínio de Licencio, ã sua

visão rápida e justa da realidade, é em primeiro lugar a

sua insegurança de neófito, e a aceitação do ponto de

partida: possibilidade de definir «vida feliz»; em segundo

lugar os exemplos concretos e de pura imaginação de

que se serve, também nesse ponto de acordo com Trigécio

com quem discute. Nessa discussão aparece (I, iv, 2)

o duplo sentido da palavra «errar», correspondente a

«error» e a «erro*. A definição de Licencio é incompleta;

basta notar que tanto erra quem toma o falso por verdadeiro

como quem toma o verdadeiro por falso; mas a de

Trigécio é de todo metafórica e inadequada, como no

DE BEATA vfTA a analogia da alimentação da alma e do

corpo (8),

E tanto assim é que Santo Agostinho, encerrando o

Livro I considera inútil prosseguir na discussão, desde

que um e outro — Licencio e Trigécio — davam o máximo

valor à investigação da verdade.

6) A questão concentra-se pois em dilucidar os

motivos para afirmar que a verdade é atingível, visto

haver acordo (que não é demonstrativo mas constitui

um dos postulados iniciais) sobre a necessidade de pro-

21

curá-la» Sendo os Académicos os impugnadores da tese,

e havendo no grupo quem não julgue desarrazoada a sua

opinião — Licencio e Navígio — impunha-se a análise e

refutação da doutrina atribuída à Nova Academia.

No esboço de discussão com Licencio, depois convertido

ao parecer contrário, Agostinho, convicto como

revela mais tarde, de que os Académicos nunca tinham

negado sinceramente que «a verdade» íosse atingível, e

apenas procuravam ocultar o seu pensamento exacto a

profanos, insiste sobre o duplo absurdo de ialar de «verosímil

» desconhecendo o «verdadeiro» e de possibilidade

de agir quando o espirito não tenha dado assentimento,

Não parece haver forte razão histórica para supor tal

hermetismo nos sectários da Nova Academia, antes è

crível que eles representassem a fase céptica relativa ao

dogmatismo anterior; mas os argumentos apresentados

contra os dois «absurdos», assim como o aplauso à definição

do «verdadeiro» dada por Zenão, merecem decerto

referência.

Santo Agostinho que reconhece o talento dos Académicos

e de Cícero, seu grande comentador e admirador,

sinonimiza deliberadamente «verosímil» e «provável»,

alegando a competência de uns e outro em dar nome às

coisas e lembrando que eles assim tinham feito (II, xi,

26). No entanto a dúvida de LicGncio chama justamente

a atenção. «Verosímil» e «provável» podem equivaler

em linguagem corrente, onde está longe de rigorosa a

distinção entre «verdade» e «realidade», como também

ocorre em alguns passos do diálogo,

Precisamente, «verosímil» aplica-se a uma relação, a

uma proposição, e «provável» diz-se do que pode ser, ter

sido, ou vir a ser real. «Verosímil» é característica da

afirmação; «provável», característica do facto afirmado.

22

Pode dar-se outro sentido aos termos, decerto, contanto

que explicitemos o uso que de eles vamos fazer; mas a

distinção aqui estabelecida, a mais próxima do uso corrente

e a melhor talvez para o uso lógico dos dois termos,

tem de fazer-se em qualquer caso porque é basilar; a

.sinonímização feita pelos Académicos e por Cícero

implica posição diferente da de Agostinho relativamente

;i afirmativa de Zenão.

Situados no passado a confusão é fácil, pois deixa

de haver espectativa possível e a forttori confirmação,

pelo que «facto» e «afirmação» parecem assimptóticos.

Por exemplo, há quase convertibilidade entre a probabilidade

de que os portugueses tenham chegado à América

antes de Colombo, e a aíirmação «verosímil» de que eles

devem ter lá chegado* Mas no futuro, domínio privilegiado

do «provável», ele não é nem deixa de ser «verosímil

», Já Aristóteles notara que a categoria dupla e

suplementar do «falso» e do «verdadeiro» não se aplica

ao futuro contingente:

«Não é íalso nem verdadeiro que amanhã chova no

Pireu.»

E pode acrescentar-se, se o conhecimento empírico

do estado do tempo nos leva pelo aspecto do céu, hoje,

a esperar chuva amanhã no Pireu, a afirmação é verosímil

pois se funda em conhecimento empírico válido

embora não rigoroso; e a vinda da chuva é provável,

pois se trata de facto futuro.

Em que pode o provável vir a ser objecto de afirmação

verosímil, no sentido estrito, quer dizer, semelhante

ao verdadeiro? Em poder vir a ser verdadeira a afirmação

que ^e lhe refere, A afirmação do provável é uma

função proposicional em que se conhece o domínio dos

valores das variáveis mas em que a substituição não pode

23

fazer-se intemporalmente para validar ou invalidar a

proposição.

Dir-se-á que a distinção embora exacta é ulterior e

nao fora estabelecida pelos Académicos? Ou que é uma

espécie de distinção técnica, derivada da necessidade de

fixar domínio diferente a dois termos anteriormente usados

em equivalência?

Em qualquer hipótese e sejam quais forem os termos

empregados, se eles se mantiverem no sentido original

apenas com modificação do âmbito respectivo, claro que

podemos pôr de parte raciocínios em que eles apareçam

confundidos, intencionalmente ou não. Entretanto a confusão

dos dois termos não impede no diálogo um esboço

de distinção, logo apagado na fusão voluntária entre o

«verosímil» relativo ao conhecimento e o «provável»,

relativo ao conhecido.

7) Vagamente (II, vmt 20) e apesar de ver a sua posição

apoiada por Agostinho, Trigécio pressente a diferença

entre os Académicos e o homem do exemplo agostiniano,

que realiza em caricatura o argumento — de

carácter filológico, poderia dizer-se — consistente em

perguntar como pode conhecer o «semelhante ao verdadeiro*

quem o verdadeiro desconhece»

Este o absurdo endossado aos Académicos. Sê-lo-á?

Suponhamos — diz Agostinho a Licencio (II, vn, 16)

que um homem, vendo teu irmão e não tendo conhecido

teu pai, declare: —«Bem me tinham dito que são muito

parecidos» — Quem não riria de ele ?

Ora o caso, como Trigécio palpitou, não é o mesmo

de modo algum. No exemplo de Agostinho há a semelhança

sensível de dois objectos de percepção, que por

isso apenas pode afirmar-se por comparação perceptiva

24

directa. No verosímil dos Académicos ou de quem quer

que seja, tal comparação não tem sentido. Até surpreende

um pouco ver que Santo Agostinho neste passo não receie

a aparente facilidade da objecção formulada, tanto mais

quanto a sua consideração pelos Académicos deveria

levá-lo apesar da divergência a supor menor simplicidade

no caso,

Com efeito, em que é que uma verdade (ou uma

relação verdadeira, que é o mesmo, pois em teoria do

conhecimento não se reconhece verdade substantiva) se

parece com outra; ou em que é que uma afirmação se parece

com uma verdade ? Em ser ou poder ser a verdade, agora

adjectiva, seu predicado comum* Só pode passar-se de

uma à outra por elo demonstrativo — inadmissível para

o céptico radicai — mas nunca por semelhança» expressão

imaginativa, aqui destituída de sentido* Mesmo

quanto às «verdades irrefutáveis» de que fala Santo

Agostinho — e a elas temos de referir-nos ainda — a

semelhança não tem significado nem a verosimilhança

ali se estabelece em função de qualquer verdade definida.

A ideia genérica e só por isso aparentemente sólida,

é esta: — Se não conhecêssemos alguma verdade como

conheceríamos e até como baptizaríamos o verosímil?

Ora o Académico precisamente contesta a posse de uma

verdade por falta de critério exacto (l), JE neste ponto se

esclarece o motivo por que o Académico sinonimiza «provável

» e «verosímil»; pois que sempre, inevitavelmente,

se verificam factos, isto é, alguma coisa se passa, o conhecimento

empírico do que se repete dá-nos probabilidade

(i) Jnlgo ter feito a prova de esta indispensabilidade do critério,

seja qual for a noção da «verdade», na Revista Filosófica, D.* 3-1051.

35

mas não certeza de que se passem como prevemos; a

afirmação de que tal se dê é portanto verosímil. Neste

caso a verdade seria expressão de encadeamento rígorosoi

que também a experiência desmente, A verdade-

-tipo é conceito-íimite de essa maior ou menor probabilidade;

não é, nunca foi, não pode ser base sobre que

assente qualquer verdade em qualquer domínio.

Quer dizer; o conceito do «verosímil» exige um conceito

de verdade, mas não uma verdade achada (absoluta) nem

sequer a existência de ama verdade. Nfto esquecer que um

conceito não pode deixar de ter sentido mas pode deixar

de ter conteúdo. Digo «uma verdade» e não «a verdade»,

porque então entraríamos no domínio do transcendente

em que é legitimo recusarmo-nos a entrar neste caso.

«Afirmação verdadeira» e «verdade» são termos sinónimos,

exclusão íeita do transcendente; apenas o primeiro

linguisticamente mais analítico. Como se sabe, é equivalente

aíinnar a verdade de uma proposição ou afirmar

a proposição mesma. K o chamado em lógica princípio

de asserção.

Ora esse conceito de verdade pode ser errado, como

o da verdade substantiva; e até qualquer suposta verdade

pode ser um erro sem deixar de servir de ponto de

referência, de origem do verosímil e do provável. Quando

os homens, e entre eles Aristóteles, suposeram impossível

a vida humana para aquém de certa latitude, pelo

carácter tórrido do clima —o que fez sorrir séculos depois

alguns missionários que sentiram frio nessa mesma zona

— partiam de uma ideia tida por verdadeira e tiravam

uma consequência; que nada tem que ver com esse conceito

auto-contraditório — «a verdade*.

Se quisermos privilegiar qualquer verdade nenhuma

outra forma é possível senão a aventura da metafísica

26

ontológica; nisso convergem e não poderiam deixar de

concordar Descartes e Agostinho; se fosse necessário

verificar a impossibilidade de uma verdade transcendente

servir de referência e base a verdades particulares

;L história do saber e mostraria com suas ilusões ridículas

e suas suficiCncias grotescas ; mas não vale a pena, porque

talta possibilidade de derivação lógica,

De modo que não podendo qualquer afirmação transcendente

ser padrão ou modelo — o que justificaria, pelo

menos, pragmaticamente, a sua incorporação sistemática,

— o problema não deve põr-se nem tem sentido relativamente

aos Académicos, desconhecedores de aquela verdade

que não lhes tinha sido revelada e portanto não

pode servir de ponto de partida contra eles. A discussão

só é portanto admissível no plano das verdades cientificas

ou filosóficas. Tudo mais ê colateral,

E aqui se desarticula o diálogo, porque a relação da

primeira parte (onde se fala de vida feliz, da posse da

verdade, do conhecimento das coisas divinas e humanas,

da definição absolutamente indefensável de ciência, dada

por Trigécio — I, vn—) com as outras duas, pode ser

teleológica e ética mas não é de forma alguma ligação

lógica.

II

9) Pospondo o que nos Livros segundo e terceiro é

penetração do primeiro, no último se concentra a análise

da posição dos Académicos e Agostinho desenvolve a

sua tese em discurso seguido,

Apesar do acordo em princípios comuns, como se vê

na definição de «sábio» e «filósofo», desenha-se a oposição

entre Agostinho e Alípio, como antes se produzira

27

entre aquele e Licencio, que salvos os exemplos analógicos

e impróprios com razão afirmara não poderem eles

mesmos, os interlocutores, considerar-se infelizes, apesar

de nada terem encontrado no termo da discussão anterior.

Como para mostrar que a articulação entre as duas

partes do diálogo se fazia em plano diferente, e era portanto

ilusória, Agostinho volta a acentuar que o separa

dos Académicos julgar ele mesmo provável e eles improvável

o achado da verdade. Não que ele a tenha encontrado,

mas o sábio poderá descobri-la: illis probabile

visum esi vcriiatem non posse comprehendi mihi auiem

nondum quidem a me inventam inveniri tamen posse a

sapiente videatur (III, m, 5).

Esta improbabilidade é pois para os Académicos

resultado de uma indução, talvez aventurosa mas normal

como processo, reforçada pela verificação resultante de

aplicar concretamente o critério de Zenão; o nondum a

me inventam transforma a afirmativa agostiniana em

indução semelhante, a partir das «verdades dialécticas»,

estéreis para conclusão afirmativa, como eles partiam da

ilusão e do erro, para conclusão negativa; e se ele próprio

não a encontrou só pode julgar provável que o sábio

a encontre por um acto de fé, de que os Académicos não

podiam compartilhar.

Já antes, em outro passo característico do diálogo

íll, nrf 9) Santo Agostinho diz que só se sabe alguma

coisa quando a sabemos como que um mais dois mais

crês mais quatro são dez. E acrescenta: Mas não julgueis.

. . que a verdade em filosofia não possa conhecer-se

de essa forma.

Esta duplicidade — a verdade, característica adjectiva

da proposição verdadeira, e a verdade substantiva —

informa todo o diálogo e domina a marcha da refutação;

28

mas o trânsito da primeira para a segunda (que até os

Académicos podiam aceitar como hipótese, considerando-

a irrealizável por não aceitarem a primeira) não

pode eíectivar-se racionalmente; e Agostinho diz com

razão: plus adhuc /ide concepi quam ratione comprehendi

lòid. 11, 4).

Partir de afirmações tidas por evidentes pode levará

concepção (e à obtenção) de verdade abstracta e geral,

não ã de verdade substantiva.

Poderia Licencio nesta altura, recordando o colóquio

anterior, alegar:

— Logo és infeliz, porque não a encontraste e ainda

a procuras.

E então provavelmente o argumento contrário em

resposta seria o de que encontrara aquela verdade sobre

todas importante, assunto principal do DE IÍKATA VITA;

licaria nesse caso bem esclarecido o que no diálogo é

evidente como intuito e como conteúdo geral, embora

velado na forma dialéctica da exposição: que tudo quanto

ali aparece como conclusão discursiva constituía ao invés

ponto de partida plenamente aceito por via diferente; e

que a «racionalização» de algumas proposições, independentemente

da argúcia e do talento com que se realize, e

operação diferente da que leva por via lógica estrita a

uma conclusão demonstrada.

Esta hipotética resposta de Licencio teria ainda outra

importância: e é que no momento da declaração de Agostinho

de que o sábio poderá encontrar a verdade já não

se trata da verdade transcendente mas de uma verdade

geral e por assim dizer medianeira para atingir aquela

que ele próprio, Agostinho já encontrara peia fé. Usando

uma frase sua neste diálogo, Agostinho poderia dizer ao

seu sábio conjectural, ou dizermos nós por ele, parafra-

29

seando-o: — «Acha, se podes, uma verdade medianeira,

capaz de ser ponte entre uma existência transcendente

que não é verdadeira nem falsa mas só real ou irreal,

pois só a afirmação de existência pode ser falsa, duvidosa

ou verdadeira] e as verdades que procuramos no

nosso conhecimento»;

Alípio estabelece distinção entre saber e julgar saber,

identificando «sapiência* com «investigação» e dístinguindo-

a portanto da verdade. Embora posta mais agudamente,

a ideia é a mesma que Licencio não conseguiu

defender; mas Agostinho insiste pela resposta categórica,

formulando assim a pergunta:

— Parece-te, sim ou não, que o sábio conhece a

sapiência?

Alípio, apertado peia insistência mas sentindo obscuramente,

ao que parece, que o problema não comporta

aquela solução dilemática, responde:

— Se existe um sábio como a razão no-lo apresenta,

ele conhece a sapiência.

Agora a conclusão agostiniana:

— Portanto, ou a sapiência nada ê ou a razão desconhece

o sábio descrito pelos Académicos*

10) Com a liberdade filosófica reconhecida por Santo

Agostinho e por ele louvada em Trigécio, é possível

reconhecer que Alípio, embora contra vontade, concedeu

mais do que devia e Agostinho conclui muito rapidamente

sobre tal concessão. Alípio poderia ter-se recusado

a considerar a sapiência uma «coisa» que o sábio conhece

ou possui, considerando antes a palavra — como é realmente—

nome abstracto da qualidade atribuída (e susceptível

de grau) ao homem de certo tipo de mentalidade,

quando atinja hipotético nível de intensidade ou vastidão,

não determinável exactamente* Neste sentido e

30

neste a sapiência é alguma coisa, isto é, sabemos o significado

do termo*

Pode portanto aceitar-se a afirmação de Alípio se «o

sábio como a razão no-lo apresenta* for apenas a designação

do sábio ideal em função dos sábios mais ou menos

profundos que a observação nos mostra, e «a sapiência»

o limite de essa qualidade característica do sábio* O que

tanto vale como dizer que o sábio como a razão no-lo

apresenta não difere àe o sábio como a imaginação nos

sugere. E como no pensamento de Agostinho é sempre

a sua verdade fundamental que está no núcleo da «sapiência

» (v, g* III, vi) isso corresponde a afirmar que nunca no

mundo houve sábios antes de ela ser possível, nem depois,

se ela não lhes for nuclear.

No entanto Alípio, ainda que fugidiamente, consegue

apreender o argumento que no caso tornaria inúteis todos

os diálogos com soas circunvoluções acumuladas e ainda

quando sinceras, dilatórias e perturbadoras; é quando

afirma (III, v, 12) quu ss Académicos podem comparar-se

com Proteio, só possível de apanhar com o auxílio de um

nume; e conclui:

— «Que ele venha mostrar-nos a verdade procurada

e confessarei que os Académicos foram vencidos, o que

não creio»*

Esta a resposta radical à tese da verdade substantivada*

Não vale a pena discutir com esforço se ela é ou não

possível, em que condições, sobre que plano ou em que

base. Tudo será retórica, e só uma prova neste caso é

adequada: apresentá-ia; enquanto assim não for há direito

de ser céptico, mesmo sem recurso às razões hoje claras

em que se mostra o contrário,

Importa ainda notar que a redução interpretativa e

esquemática das afirmações dos Académicos à fórmula

31

de que «o sábio nada sabe» (III, iv, 10) lhe dá o aspecto

violento de afirmação auto-contraditória, e o senso comum

opõe-se-lhe irredutivelmente nessa forma; mas trata-se

de uma falsa passagem ao limite, pois se «sábio» ê por

definição «aquele que sabe», «saber» fora do uso corrente

não é palavra unívoca. Se quiséssemos empregar

linguagem de tipo cousificante (a nosso ver sempre

errada) poderíamos afirmar, de acordo com a história

da ciência, que a «sapiência» é aquela atitude por que

o sábio começa a duvidar do que lhe parecera exacto,

enquanto de acordo com o senso comum.

Há decerto uma solução; mas essa consiste em modificar

o conceito do saber — facto corrente por exigência

de precisão e necessidade de generalizar — e de modo

nenhum em contestar inutilmente o progresso da dúvida.

Porque o conhecimento exacto parece fugir-nos é que o

rigor se nos torna cada vez mais precioso. O não poder

haver medidas experimentais absolutamente exactas leva

à delicadeza extrema das medições; e se alguém viesse

dizer-nos que a existência de uma medida transcendente

exacta é que dava sentido às nossas, teoricamente sempre

imperfeitas, não hesitaríamos em considerar a afirmação

destituída de sentido.

n ) Se uma variável tende para um limite finito,

esse limite é um dos elementos da compreensão que de

ela temos, assim como o conjunto ordenado de seus

valores possíveis nos dá a inteligibilidade do limite;

mas ao passo que no domínio bem estruturado do

conhecer a relação não se altera, em metafísica é sempre

possível e tem sido frequentemente praticado considerar

o limite origem da variável e sua interpretação

causal.

32

Quando Descartes afirma que temos a ideia do perleito,

de aquisição impossível pela experiência, fala com

evidência plena, quase diz um truísmo no que se refere

;i uma experiência perfeita, isto é, de resultado absoluto;

outrotanto não pode dizer-se quanto a termos «ideia do

perfeito». A noção do perfeito é uma variável que tende

para o infinito e a que no aspecto imaginativo, contraditoriamente,

quereríamos atribuir limite finito. A noção

do perfeito não pode em verdade «provir» da experiência

directamente pois o perfeito não é experienciável,

mas também não é concebível estaticamente; no entanto,

cia experiência se parte para a noção de variável de limite

igual ao infinito; demais nesta «ideia do perfeito» fundiam-

se para Descartes como para todos um aspecto

valorativo e um aspecto de realidade.

De modo que ao ver Descartes considerar a ideia do

perfeito produzida —- aliás misteriosamente — pela perfeição

transcendente real, nem todo o seu génio pode já nã,o

direi demonstrar mas sequer fazer aceitar como sólida a

sua afirmação. É tão falso falar da perfeição-origem5

estática, transcendente e contraditória, como afirmar que

na série dos números inteiros é o final da série que dá

origem e sentido às nossas séries reais, que foram objecto

de especulação muitos séculos antes de poder ser o infinito

base especulativa.

Simetricamente, tanto a ideia de «provável» não

depende da de «certo» que o cálculo das probabilidades,

incomparável no rigor com a vaga noção subjectiva do

tempo de Agostinho, assenta hoje preferentemente no

conhecimento da frequência, onde não há lugar para a

priori condicionante ou causalidade estrita; e assim o

«certo* (probabilidade igual a 1) é caso especial do provável-

Não que se trate apenas de concepção especulativa,

33

mas por ser na realidade a zona do provável incompa-J

ràvelmente mais vasta, como a da opinião é muito mate

ampla do que a da ciência* Por isso a verdade-origem à

uma ilusão, correspondente ao conhecido processo dei

transformar em princípio {muita vez sem aplicação útil)

o que não pode atingir-se como conclusão. «Que seria)

da navegação sem a fixidez da estrela polar*? — perguntava

um dia argumentando, um poeta enamorado da vern

dade substantiva como tipo e justilicação da verdade

relativa e particular. Infelizmente para o argumento a

estrela polar nao é fixa, o que não impediu que poil

séculos eía fosse orientadora da navegação.

Poderá dizer-se quanto às teorias da probabilidade

que se elas são verdadeiras, algo sabe quem as sabe*

E o argumento essencial de Santo Agostinho, especialmente

desenvolvido ao examinar a definição dada por

Zenão, o estóico. —Importa por isso examinar este ponto,

— Se a definição é verdadeira, diz ele (111, ix) quem a

conhece algo verdadeiro conhece, ainda quando mais

nada conheça; se é falsa não deve ter abalado ânimos

fortes (Sin falsa non debuit constantíssimos commovere).

Ponha-se de parte a força ou fraqueza dos ânimos

que não está em causa e nada interessa à validade da

definição, Aceitando-a, como expressamente declara,

Agostinho concorda com o critério dos Académicos;

«O verdadeiro nada deve ter comum como falso.* Sabe-se

hoje da Lógica elementar que o falso implica o verdadeiro

e que a recíproca é falsa* Não serã aspecto suficiente

de comunidade possível? Não o seriam também

teorias cientificas de astronomia ou de física em que verdades

e erros eram elementos da construção ? Não podem

sMo os devaneios pítagóricos (justamente quando eles

pretendiam partir das suas concepções para a realidade)

\ construção ptolemaica, o eclectismo regressivo de

Tycho-Brahe, o erro da força viva, de Descartes, a mistura

de verdade e erro nas ideias fecundas de Carnot, e

tantos outros exemplos, sem contar — o que também é

bom exemplo—o renascimento em forma nova de teorias

anteriormente postas de parte? E se aquele «nada

comum» não respeita ao domínio da lógica pura nem ao

-lo saber concreto, onde se verifica essa negação radical?

Mas diz Santo Agostinho (III, ixf 21) que nada haveria

a opor se alguém pedisse a demonstração de que 3

própria definição pode ser falsa. Porque se tal fosse possível

cessaria o obstáculo à percepção justa; se não fosse

possível teríamos nesse caso uma proposição certa.

O que não parece exacto, A demonstração da falsidade

da definição provaria apenas que teria de modificar-

se a concepção do verdadeiro, suposta a necessidade

-que não existe — de tal delinição prévia, que nessa

íorma só pode constituir uma espécie de molde ou ideal

epistemológico, inaplicável, prejudicial e hoje prejudicado.

Com ele seria incompatível, por exemplo, o método

itxiomãtico.

Por outro lado, a impossibilidade de demonstrar que

1 proposição é falsa também não teria como consequência

a sua verdade mas a possibilidade de ser verdadeira;

a sua probabilidade aumentaria com o emprego útil como

postulado da teoria do conhecimento. Assim a proposição

é por hipótese «critério* ideal de conhecimento

válido sem ser ela mesma conhecimento no mesmo sentido,

O parecer justa a homens de opinião contrária, o

poder concluir-se de ela contra a possibilidade do conhecimento

verdadeiro (Académicos) ou a favor de essa

possibilidade (Agostinho) prova a suaambiguidade quanto

10 conhecimento e portanto a sua insuficiência e inade-

34 35

quação. Só a aplicação poderia mostrá-la fecunda ou

inútil e coníerir-ihe verdadeiro significado.

Enquanto o Académico diz: «ela é verdadeira, e aceitando-

a como critério concluo pela impossibilidade do

conhecimento exacto, isso mostra que ele a utiliza como

base metodológica e faz depender da verificação saber

se ela se aplica positivamente a algum conhecimento.

Santo Agostinho também a considera verdadeira porque

há conhecimentos que nada têm comum com o falso.

E cita exemplos.

12} Exemplificar pode parecer nesta altura objectivar.

É, mas não satisfatoriamente. Supondo irrefutáveis

os exemplos aduzidos, ó claro que eles não podem

ser base, como vamos ver, para indução segura; e assim,

ainda quando o parecer dos Académicos ficasse refutado

quanto à interpretação, à consequência total que da definição

tiravam, nem por isso a posição de Agostinho, que

ele reconhece não ser definitiva, fica alterada em qualquer

sentido; pode continuar a achar «provável» a «descoberta

» da verdade.

Não parece muito a propósito citar argumentos tirados

de ilusões dos sentidos, do sonho, da alucinação, já

por tratar-se de problema secundário, já porque as alegações

dos Académicos embora dignas de atenção, meditação,

e resposta, não tinham interesse igual ao do seu

critério genérico de estabelecimento da verdade. Apenas

importa lembrar que «não ultrapassar a convicção de queas

coisas nos parecem de certa forma» (111, x, 26) para

não errar, não é ponto de partida para refutar os Académicos

; é antes forma particular de concordar com eles,

por singular que pareça. Pois se sobre a falsidade da

aparência em parte assentava a sua recusa de dar assen-

36

imento, limitar a afirmação a essa mesma aparência é

eliminar arbitrariamente a questão.

Claro que, por exemplo ao saborear um fruto, um

homem pode afirmar com razão que ele tem paladar

suave; e «nenhuma argumentação grega pode desviá-lo

de esse conhecimento» (III, x, 26); mas também é certo

|ue o conhecimento das impressões recebidas, variáveis

com o sujeito, e até variáveis no mesmo sujeito, como

Santo Agostinho recorda (id. iôidj não têm o carácter

objectivo, exigido pelo critério em que ambas as partes

concordavam. A afirmação é verdadeira mas não é

comum e obrigatória e a essas se referiam os Académicos.

E se o bode é guloso das folhas do zambujeiro, tão amargas

para o homem — (outro exemplo citado) — isso prova

que para o bode, se ele pudesse exprímir-se, seria falsa

:Í afirmação de que elas são intragáveis. Na verdade o

axemplo dos sentidos não parece adequado; é arma de

^ume duplo, pelo menos; a indiscutibilidade de tais

afirmações está na sua relatividade, ou melhor, na sua

subjectividade.

13) Tamen quod Zeno definivit quantum stulti possumus,

discuiiamtts (III, ix, 21).

O tamen do início de este parágrafo resulta da ironia

em que no anterior Santo Agostinho acentuava a «contradição

» já aludida: — ser sábio e ignorar a sapiência —.

Ora, em primeiro lugar, ali não há definição. «Só

pode aceitar-se como verdadeiro o que não tenha qualquer

aparência comum com o falso» (Id visam ait posse

comprcheudi quod sic appareret ut falsum apparere non

posset). Não se define aqui o falso, o que implicitamente

seria definir o verdadeiro e reciprocamente. Admitem-se

como noções primitivas e irredutíveis as de «verdadeiro»

37

e «falso»; e supondo-as absolutamente adequadas à realidade,

estabelece-se um critério genérico de distinção

para em domínio determinado poder distingui-los. Faz-se

implícita afirmação existencial; concebe-se distinção dilemática

relativa à realidade; e nega-se depois a eficácia do

processo, a possibilidade de distinguir racionalmente as

duas pontas do dilema, a verificação no concreto de essa

impossibilidade teórica. Em resumo: afirma-se um critério

ideal; contesta-se-lhe aplicabilidade. A prova de

que assim é dá-no-la a aceitação integral por ambas as

partes, do critério de Zenão; a contraprova temo-la na

dupla conclusão oposta.

Chegados a este ponto o processo de análise e discussão

parece deveria ser o exame das noções de «falso»

e «verdadeiro», intuitivas, incompatíveis, suplementares,

no pensamento de todos; e em consequência pedir credenciais

a um critério afirmado como idealmente válido,,

e revelado como ambíguo na aplicação; mas tal caminho

não ocorreu, assim como durante séculos foi impossível

pôr em discussão ou sujeitar à análise as de «causa» e

«efeito». Como o critério de Zenão assenta na validade

integral da bivalência lógica (e real) — nem podia ser de

outro modo — e como a Santo Agostinho sucedeu outrotanto,

o recurso agostiniano só podia ser o da verdade

transcendente, a fusão de «verdade» e «realidade» no

acumen da série hierárquica de verdades; por isso alega

contra os Académicos a «verdade de aquela proposição

de Zenão, que seria simultaneamente definição e exemplo

do que pode compreender-se: Itaque comprehensibilibus

rebus et deftnitio est et exemplum (id., ibid.).

Exemplo para os Académicos não pode ser, porque é

única. Definição, vimos que não é. Santo Agostinho

examina-a como se se tratasse de uma proposição auto-

38

-referencial subsistente e portanto irrefutável, mas afirma

que se fosse falsa servir-lhe-ia de igual modo, porque não

poderia nesse caso contestar-se a possibilidade de um

conhecimento (absolutamente) verdadeiro : si autem refelíeris

unde a percipiendo impediaris non habes.

É uma variedade do argumento multiplamente usado

contra cépticos e probabilistas.

A proposição é uma forma derivada — por ser um

critério —da afirmação de carácter céptico (ou pseudo-

-céptico) de que «nada é verdadeiro em absoluto». Se

esta proposição é verdadeira — diz-se — ela mesma não

c verdadeira em absoluto; é portanto auto-contraditória.

Sendo assim teríamos a conclusão de ser a sua falsidade

compatível com a sita veracidade. Este resultado mostra

que se construiu um paradoxo por confusão verbal.

Em primeiro lugar a sintaxe, com o sujeito ilusório e

vago — «nada» — pôde atraiçoar a Lógica; se dermos à

proposição outra forma de perfeita equivalência lógica,

por exemplo: — «verdade absoluta» é uma contradição nos

termos —, o paradoxo desvanece-se, a proposição é verdadeira;

em segundo lugar o termo «em absoluto», tomado

literalmente, falseia a expressão, levando a considerá-la

elemento contraditório de um conjunto quando pode

tomar-se como expressão (certa ou inexacta) de indução

completa relativa a um conjunto. Caso análogo ocorre

em certas expressões algébricas ou lógicas onde o cálculo

directo para certo valor da variável dá em resultado uma

indeterminação; mas a investigação do «verdadeiro valor»

dá-lhes valor determinado.

Se é certo que em Matemática e em Lógica surgiram

paradoxos (alguns no entanto já resolvidos) fora das ciências

exactas pode surgir muito mais facilmente o paradoxo

ou a ilusão do paradoxo. Na frase aludida exprime-se

39

uma consequência de certa concepção da verdade, e a

incompatibilidade da concepção relacional e funcional

com a aceitação de um «conhecimento» absoluto. Nada

mais simples, certo, e claro do que o «antes» e o «depois»,

quando referenciáveis a coordenadas conhecidas. Tão

simples e tão claro que se julgou absoluto, até o momento

em que a amplitude do domínio considerado mostrou a

impossibilidade da generalização ilimitada.

Portanto o que poderia contrapor-se àquela afirmação

não era o facto de ser contraditória, por abrangida na

relação que enuncia; mas a apresentação de um conhecimento

absolutamente verdadeiro (e não apenas totais

mente, em domínio definido) e isso é que é contraditório,

A tese dos Académicos (e a fórmula de Zenão também"

correspondiam, embora com realização imperfeita e sem

conhecimento claro, à tentativa de separar do que chamaríamos

hoje a axiomática de uma teoria, o conhecimento

exacto em domínio definido. Da matemática pôde

dizer-se que é exacta quando puro especulativa, inexacta

quando aplicada ao real; o que não impede que fosse

desejável em muitos domínios a aproximação por esse

meio obtida. E os argumentos contra a validade da afirmação

anterior, por vício quase circular poderiam fazei

lembrar a conclusão de Gonseth: — O que é vicioso é a

ideia de uma demonstração completamente recorrente,

14) «Resta a dialéctica»—diz Santo Agostinho—J

«O sábio decerto a sabe bem e ninguém pode saber d

falso».

Será certo que o sábio — embora o sábio segundo umd

concepção determinada e muito discutível —sabe bem a

dialéctica? Não estará aqui (III, xni, 29) a dialéctica, assid

como antes a sabedoria, arbitrariamente cousificadal

40

O sábio sabe a dialéctica? Ou «não devemos ter por

sábio quem não seja dialecta?»

«Ninguém pode saber o falso», isto é, o falso não pode

ser objecto de conhecimento exacto; mas se todos podem

errar — mesmo sem licença de Trigécio — todos podem

julgar saber e portanto em sua opinião saber o que julgam

verdadeiro e é falso. Voltaríamos à tese dos Académicos

da indiscernibilidade entre o falso e o verdadeiro.

A afirmação apenas consiste em dizer-nos o que

deve ser o saber mas não é critério discriminador. E deve

ser porquê? Pela transformação apriorística da «incompatibilidade

relativa e escalar» que é racional, em «incompatibilidade

absoluta» ou contrariedade irredutível, e

estática, existente nas coisas. Sobre esta base decorre a

argumentação de Sócrates no Protágoras, que apertado

pela insistência de Sócrates aceita contra vontade a unicidade

do contrário e se vê depois ilaqueado pela concessão

; mas a prova de que o argumento não parece decisivo

:t Platão consiste em que o diálogo verdadeiramente não

conclui e a tese de Sócrates fica suspensa.

Entretanto em que consistem fundamentalmente aquelas

«verdades dialécticas» sem qualquer incidência lógica

com o falso? Em disjuntivas irrefutáveis que o próprio

Agostinho, sem receio da abundância, declara poderem

repetir-se quase ilimitadamente: — «Se há um sol não há

dois»; «aqui não é simultaneamente noite e dia»; neste

momento ou estamos acordados ou a dormir» —, etc.

fui, XIII, 29].

Diz que pela dialéctica ficou sabendo, nos exemplos

como o primeiro, que assumido o antecedente, de necessidade

se segue o condicionado; nos do tipo do terceiro,

que uma (ou mais) parte da disjunção uma vez negada,

a outra será verdadeira.

41

Poderia examinar-se talvez se um conhecimento dado

é ou não de modalidade dialéctica e o sentido possível de

esta afirmação; o que certamente é metafórico é a afirmação

de que a dialéctica ensine seja o que for. Mas voltemos

aos exemplos:

O primeiro exemplo — e quaisquer outros de igual

estrutura — não é proposição condicional; é disjuntiva,

posta em ilusória forma condicional, a que se atribui no

condicionado falsa precisão pois qualquer número serviria;

reduz-se a «o sol é um ou são mais», afirmação

tautológica e no plano existencial em que aparece, de

completa esterilidade. Por esse carácter existencial substituí

na tradução a falsa aparência de predicação pela

afirmação de existência; o «não serem dois» não é uma

conclusão. Não há pois antecedente e consequente ou

hipótese e tese. A existência de um sol não é uma

hipótese; o ser ou não ser único pode ser hipotético em

dado momento do saber; nesse caso o serem muitos

é outra hipótese, suplementar da primeira e que por

isso esgota com ela o domínio respectivo da possibilidade.

Acrescente-se que «o sol» dá no exemplo falso aspecto

de conhecimento, porque a frase poderia ser a mesma

para qualquer objecto real; reduzida ao esquema simples,

a afirmação seria:

Seja qual for x, x é singular ou é plural;

e substituída a variável pelo termo «o sol» teremos a

disjuntiva, onde afinal um só conhecimento se encontra

e esse é existencial perceptivo: «há um sol.»

O conhecimento seria neste caso a eliminação de um

dos ramos da alternativa; e até se a alternativa ê verdadeira

ê justamente por abranger o falso, abrangendo

também a nossa ignorância no problema de que se trata.

42

De este modo, constituídas por termos lógicos suplementares,

poderíamos efectivamente construir um número

incalculável de disjunções, pois que fundadas na Lógica

bívalente elas correspondem a outras tantas afirmações

da disjunção geral — ou verdadeiro ou falso — disjunção

(jue só o é em domínio determinado.

Portanto a exigência da opção era perfeitamente justa

para transformar em conhecimento a alternativa duvidosa

e tanto mais duvidosa quanto não se demonstrara

a suplementaridade dos seus termos ou seja a exclusividade

mútua. A impossibilidade de optar sugere um terceiro

valor —o provável — e mostra que os Académicos

parece terem tido como Protágoras — a intuição de

que a mútua exclusividade podia procurar-se mas não

é caso geral. Tipo de essa forma é o terceiro exemplo

em que a gradação é visível. E a alternativa ali é imperfeita

por os termos significarem estados psicológicos reais

e não suplementares. Rigorosa, aquela soma lógica seriai

— ...«estamos acordados ou não-acordados.»

Decerto não vale a pena referir especialmente as

supostas consequências imorais do probabilismo; esse

é o fruto conhecido do entusiasmo, ainda quando nobre

e generoso, dos adversários veementes. É de supor que

o descrédito nesse aspecto lançado sobre os Sofistas já.

tenha tido origem em grande parte no desejo de derrubar

definitivamente adversários incómodos; o diálogo

de Platão (Eutídemo) ou é uma caricatura ou representa

de facto dois írritos pedantes que só de nome e abusivamente

podem incluir-se na classe de Protágoras.

15) Alguma coisa importa ainda referir.

Santo Agostinho considera ridículo um ponto de vista

em que na prática se segue o «provável» e monstruosa a

43

afirmação de que alguém procure a verdade convicto de

náo poder encontrá-la,

A este ponto fazem alguns exemplos.

Descartes, bem longe de ser sectário da nova Academia,

e a dezoito séculos de distância, vendo a impossibilidade

de bem articular no seu sistema a solução do problema

ético (tentativa malograda tanto na Antiguidade

como na Idade Moderna) aceitou o oportunismo — o provável—

da moral vigente no tempo e no espaço contra

a aspiração do seu racionalismo mas de acordo com a

exigência do seu rigor.

Pascal escreveu nos Pensamentos que se apenas

devêssemos lutar pelo certo não poderíamos faztVlo pela

religião que não é certa — car elle nest pas certame.

Dada a fé ardente de Pascal vê-se que o «provável» e o

«verosímil* se insinuam até em espíritos de convicção

profunda.

Quanto a procurar com grande dúvida de alcançar

o fim, não é preciso ir em busca de grandes exemplos

como Descartes ou Pascal; o homem médio constantemente

procura o que sabe ser pouco provável

encontrar; joga na lotaria, arrisca a vida em aventuras,

forma projectos audaciosos e despropositados* Já

a propósito de vãos esforços de metafísicos escreveu

há muitos anos Ribot que «procurar sem esperança

não é insensato nem vulgar» {La psyck. angl. contemporainet

lntrod.). Poderia ter acrescentado ser essa precisamente

a justificação dos metafísicos e da metaíísica

ontológica.

Pouco importa agora concordar ou discordar de esta

afirmaçíío; basta que tenha sido possível enunciá-la como

evidente para se verificar a mudança radical. O que a

Santo Agostinho parecia absurdo parece a um homem

44

culto do século xix superior ao vulgar; e independentemente

de qualquer parecer abstracto, dado em função

do resultado a que se pretende chegart o homem constantemente

luta e se esforça por aquilo que tem escassa

probabilidade de encontrar. E também está longe de

ser certo que nada faça quem nada aprova. Pelo contrário:

é característica ou índice de superioridade (conquanto

só por si não baste para demonstrá-la) proceder

apesar da dúvida. Não da dúvida do êxito, porque enlãc

nem valeria a pena exemplificar, tanto é vulgar o facto;

mas da dúvida até do valor ou da legitimidade do acto,

Compreende-se perfeitamente a atitude de um homem

contrário ao duelo, convencido de que é errado bater-se,

e ao mesmo tempo capaz, se o provocam, de proceder

como se fosse partidário do combate singular. É questão

de atitude, de reacção da sensibilidade e não de inteligência,

Nada de isto diminui o significado do diálogo, como

definidor de uma posição. O próprio Santo Agostinho,

embora mais tarde tivesse retirado essas frases, reconheceu

no termo do diálogo a «probabilidade» da solução

adoptada; mas a posição ê necessidade pragmática^ não

realidade cientifica. O problema assim posto resolve-se

por uma atitude, resolve-se psicológica- não logicamente,

como recomendou Pascal em caso diferente:

«devem segurar-se firmemente os dois extremos da cadeia

e não largar um nem outro»* Assim é, porque o corte

existe*

Claro que também de modo nenhum o que fica dito

pode significar validade da argumentação académica em

pormenor, Sígniííca apenas como única conclusão possível

neste caso que a verdade substantiva e exemplar,

conceito em que estavam de acordo tanto a tradição dos

45

homens da Nova Academia que a supunham provável*

mente inatingível, quanto o seu notável opositor, que a

tinha como certamente acessível ao homem, levava a

pôr o problema em plano onde a solução é impossível.

16) Unia verdade —ou uma afirmação verdadeira —

nâo se descobre, constroe-se. Não 6 como uma ilha que

o navegador encontra mas como um edifício que o arquitecto

planeia e traça, uma estrutura que o inventor eleva

sob condições materiais e mentais a que não pode eximir-

se (por isso as afirmações são relativas) mas em que

as segundas dão ao mesmo tempo possibilidade de estruturar,

Jã na percepção a estrutura é essencial como se

sabe há muito tempo. Tanto vale dizer que a verdade

é funcional.

Dada a expressão

a2 = f/à _|_ C2

teremos uma P condicional indeterminada, que a substituição

das variáveis por valores definidos tornará falsa

ou verdadeira, pois na sua generalidade, e apesar de constituída

por uma relação simétrica, ela não é uma nem

outra coisa. No espaço intuitivo bidimensional se supusermos

ò = £, e perpendiculares entre si (duas condições)

a expressão, tornada verdadeira por quaisquer valores

definidos que a verifiquem traduzirá a solução do problema

particular da duplicação do quadrado, tratado no

Mênonf de Platão, para justificar a maiêutica socrática;

para ô^=c ê a relação mais geral do teorema de Pitágoras,

que engloba a anterior como caso limite da desigualdade

decrescente de b e c\ e se estabelecermos ura

sistema de coordenadas rectangulares, exprimindo as

46

relações em distância aos eixos respectivos, a igualdade

é a equação da circunferência. Tudo verdades relativas

e «em função de» *.»

Sabemos que os menores inteiros capazes de tornar

verdadeira a igualdade são 5, 4, 3, como já sabiam

:>s agrimensores egípcios* Neste, como em inúmeros

templos, a condicionalidade da afirmação que pode tornar-

se verdadeira ou ialsa, è comunidade entre grupos

de valores que verificam ou falsificam.

Poderia insistir-se em que determinado um grupo de

valores capaz de verificar a expressão temos um conhecimento

exacto. Temos, embora condicionado; mas há

outros casos, como o do problema da decisão; e sem ir

tão longe, basta a equação de Fermat

tf3 -f Ó3 = £$

para vermos que o resultado «determinado» a que cheguemos

substituindo as variáveis por números nada tem

:-]ue ver com a sua exactidão t1)*

Em resumo: A verdade, entidade metafísica, é inatingível,

não por deficiência da capacidade humana, mas

por ser mítica e contraditória. Mítica, por ser uma

substantivação simultaneamente vulgar e transcendente,

como a dos raios de Júpiter, ou Vulcano e a sua forja;

contraditória por transitar insensivelmente do racional

ibstracto (conteúdo do conhecimento não-empírico) a

uma concreção (neste caso de nível muito elevado) que

caracteriza os elementos da relação J só eles são o con-

(*) Não sei com precisão onde vi este exemplo que me parece

concludente,

47

creto, de maior ou menor grau, conforme o domínio da

relação. «Verdade» é um «termo» morfologicamente

substantivo, símbolo de uma característica possível de

qualquer relação determinada.

O processo único de justificá-la seria a sua formulação

; e depois de isso, demonstrar algumas verdades

particulares de ela derivadas, isto é, que adoptando-

a como hipótese pudessem corresponder-lhe como

tese.

A insuficiente, pouco nítida relatividade dos Académicos

podia levá-los a conclusões erradas e ao cepticismo,

por desvio da directriz. E assim sucedeu.

Vimos que a dificuldade é velha (cf. 4) e a tentativa

de solução também. A partir de Santo Agostinho uma

curiosa gradação pode reconhecer-se. Para o bispo hiponense

a existência da verdade exemplar não sofre dúvida,

e embora sem estabelecer qualquer inferência — que seria

impossível — estabelece uma como analogia com verdades

dialécticas, tidas por irrefutáveis e absolutas. Séculos

depois Descartes aceita a verdade transcendente e considera-

a fonte e justificação das verdades científicas;

mas, impossibilitado de estabelecer o como, serve-se

de essa ideia apenas como justificação ideal da verdade

das proposições científicas. O transcendente continua

assim a evocar-se mas à maneira de justificação

ética. Finalmente, já na contemporaneidade nossa,

Husserl renova a tentativa com a sua hipótese — ele

considera-a conclusão exacta — de uma «intuição das

essências» que tornaria possível a descrição rigorosa e

fenomenológica dos «seres ideais». Quer dizer, desapareceu

a transcendência do tipo agostiniano, desapareceu

a justificação ética e transcendente cartesiana, e

colocou-se no plano puramente humano a intuição rigo-

48

rosa (?!) do que é inapreensível pela forma discursiva da

ciência.

Como se vê, o mesmo problema, a progressiva «humanização

» da solução adoptada, e a mesma impossibilidade

de resolvê-lo, assentando o raciocínio sobre a fictícia base

de uma verdade-em-si.

49

LIVRO PRIMEIRO

Exorta-se Romaniano à filosofia, no proêmio de este

livro, em que se lêem as três discussões de seu filho Licencio

com Trigécio. Aquele, com os Académicos, sustenta

que a vida feliz consiste na investigação, este, na posse da

verdade. Discute-se a definição do erro, e a da sapiência,

que claramente se explica.

CAPÍTULO I

i) Pudesse a virtude, Romaniano, assim como não

tolera que a fortuna lhe roube alguém, arrancar por força

à fortuna o homem que lhe é próprio! Decerto já te

teria proclamado seu de direito, e dando-te posse dos

verdadeiros bens, libertar-te-ia até da submissão ao

acaso feliz. Mas acontece, por culpa nossa, ou por natural

necessidade, que a alma divina dos mortais não

arriba ao porto da sapiência, onde não há que temer

vento próspero ou adverso da fortuna, sem que a mesma

fortuna, adversa ou próspera, lá conduza; nada em teu

favor nos resta senão pedir a Deus, de quem tais cuidados

dependem, que te restitua a ti próprio e assim te

restituirá a nós; e permita à tua mente, que há tanto o

5i

deseja, vogar na aura da verdadeira liberdade» O que

vulgarmente se chama fortuna é talvez governado por

ordem oculta, e diz-se acaso aquilo de que não penetramos

a razão e a causa; e nada agradável ou desagradável

para nós deixa de ser côngruo no universo. Sentença

das mais íecundas doutrinas, incompreensível à

inteligência dos profanos, a filosofia a que te convido

promete demonstrá-la a seus verdadeiros amadores. Por

isso, não te desprezes a ti mesmo se te ferirem muitos

males. Pois se a divina providencia, como deve crer-se,

se estende até nós, acredita-me, tudo se passa contigo

como deve passar-se. Porque tu, com a índole que sempre

admiro, desde a adolescência entraste na vida cheia

de erros, quando a razão é fraca e hesitante; cercou-te a

influência das riquezas, que começaram a mergulhar no

mar dos prazeres aquela idade e ânimo sequiosos de

quanto parece belo e honesto; mas o sopro da fortuna,

tido por contrário, salvou-te à beira da queda,

2) Mas se dando, generoso, aos nossos concidadãos,]

espectáculos de ursos e outros nunca vistos, sempre

tivesses tido o maior aplauso; se fosses elevado às alturas

pelo grito unânime dos estultos, que são turba

imensa; se ninguém se atrevesse a ser-te inimigo; se as

inscrições municipais te designassem no bronze, patrono

de concidadãos e até de vizinhos; se te erguessem estátuas

e cobrissem de honras, e de poder superior ao da

função municipal; se nos banquetes diários, em ricas

mesas, todos pudessem pedir e obter certamente o que

desejavam por necessidade ou sede de prazer, e até achai

o que não procuravam; se o teu haver, bem e fielmente

administrado pelos teus, permitisse tão grande luxo; í

tu entretanto vivesses em habitações sumptuosas, ns

52

translucidez dos banhos, nos jogos honestos, na caça,

nos banquetes, e fosses — como eras de facto — na boca

dos clientes, dos concidadãos e das multidões, o mais

humano, o mais puro, liberal e venturoso; quem ousaria,

ííomaniano, íalar-te de outra vida feliz, da única feliz?

Quem te persuadiria de que não só não eras feliz, mas

tanto mais infeliz quanto o ignoravas? Mas agora muitos

e grandes avisos te deu a adversidade; não foram exemplos

alheios que te persuadiram de que tudo quanto os

homens julgam bens é transitório, frágil, cheio de calamidades;

e o exemplo do que experimentaste permítir-

nos-á convencer a outros.

3) Pois a tua inclinação para o digno e o honesto; a

tua preferência peia liberdade sobre a riqueza, pela jusfciça

mais do que pelo poderio; a intransigência perante

a adversidade e a improbidade; este nfto sei quê divino

— repito—que em ti existia em sono letárgico, quis

excitá-lo a divina providência com aqueles avisos rudes,

Desperta, Ouve-me; desperta. Crê que hás de congratulaste

por quase não conhecer o afago das prosperidades

do mundo, tão amadas dos incautos, e que a mim

próprio tentavam prender-me, apesar do que todos os

dias dizia, se uma dor de peito não me tivesse obrigado

a deixar a profissão retórica e refugiar-me na filosofia,

Ela agora me nutre e acalenta neste ambicionado ócio;

ela me libertou daquela superstição em que te precipitara

comigo; ela me ensina — e bem — que nada é venerável

e tudo importa desprezar de quanto olhos mortais

vêem ou qualquer sentido alcança. Ela promete demonstrar-

nos claramente o Deus verdadeiro e secretíssimo^ e

pouco a pouco no-lo entre-mostra, como por entre nuvens

lúcidas,

53

4) Nela vive comigo, aplicadíssimo, o nosso Licencio;

de tal modo nela converteu o ardor dos prazeres

juvenis, que eu não receio propô-lo como exemplo ao

pai. Esta é uma filosofia de que nenhuma idade pode

queixar-se de ser excluída; para te incitar a hauri-la

mais avidamente, embora saiba a sede que de ela tensr

quis enviar-te, e espero que não seja em vão, um antegosto

suave ou, por assim dizer, ura aperitivo, Mando-te

a discussão travada entre Trigécio e Licencio* O serviço

militar, que nos levara algum tempo Trigécio adolescente,

como para lhe tirar o fastio do estudo, restítuíu-

no-lo cheio de ardor pelos grandes estudos. Poucos

dias depois de termos começado a viver no campo, tendo-

os visto mais dispostos e até ansiosos pelos estudos

a que eu os exortava e animava, quis averiguar o que

poderiam na sua idade; em especial porque o Horèensius

de Cícero parecia tê-los conquistado em grande

parte para a filosofia. Chamei um taquígrafo para que

o vento não levasse o nosso trabalho. Neste livro lerás

o que disseram e também as minhas palavras e as de

Alípio.

CAPÍTULO II

PRIMEIRA DISCUSSÃO

5) Reunidos todqs, portanto, a meu pedido, dísse-ihes,

logo que pareceu oportuno:

— Duvidais de que precisemos de conhecer a verdade?

— De modo algum, disse Trigécio; e os outros deram

mostras de aprovação,

— Então, disse eu, se pudermos ser felizes sem a posse

da verdade, ainda a julgareis indispensável?

54

Alípio — Nesta questão julgo preferível ser juiz. Tenho

de ir à cidade, devo ser dispensado de defender qualquer

opinião; além de isso é mais íácil delegar o papel de juiz

do que o de defensor. Por isso não espereis que me

declare por qualquer das partes.

Todos concordaram; e repetida a minha pergunta,

respondeu

Trigécio ~ De certo, queremos ser felizes; se podemos

consegui-lo sem alcançar a verdade, não temos de

procurã-la.

— Como assim? — disse eu. Pensais que podemos

ser felizes sem ter achado a verdade ? Então disse

Licencio — Podemos, se a procurarmos*

Vendo-se que eu pedia a opinião dos outros, disse

Navígio — Concordo com Licencio. Talvez seja o

mesmo viver feliz e viver na busca da verdade.

Trigécio — Define então «vida íeliz*, para eu saber

que resposta convém.

— Que outra coisa, disse eu, julgas seja viver feliz,

senão viver segundo o que no homem é superior?

Trigécio — Não quero falar imprudentemente. Penso

que deves definir-me esse superior,

— Quem duvidará, tornei eu, que é a parte da alma

a que todas as faculdades do homem devem obedecer?

E para que não peças outra definição, pode chamar-se-

-lhe «mente» ou «razão». Se discordas, dize tu próprio

como defines quer a vida íeliz quer o que é superior no

homem.

— Concordo, disse ele.

6) Tornando ao nosso propósito — disse eu —parece-

te que a simples busca da verdade baste para viver

feliz ?

55

Trigêcio — Repito: não me parece.

— E vós, qual o vosso parecer?

Licencio— A mim parece-me claro» pois os nossos

maiores que temos por sábios e leiizes viveram bem e

felizmente, só porque proctiravam a verdade.

— Agradeço, disse eu, terdes-me feito juiz com Alípio,

a quem, confesso, já começava a invejar. Ora como para

um de vós a simples investigação e para o outro só a

posse da verdade conduz à vida feliz, e Navígio há pouco

mostrou inclínar-se para a opinião de Licencio, espero

com todo o interesse a defesa das vossas opiniões*

O assunto é grande e bem merece discussão aturada,

Licencio — Se o assunto é grande exige grandes

homens.

— Não procures, dísse eu, em especial aqui, o que

por toda a parte é difícil encontrar; explica antes o que

disseste, penso que com alguma base, e a razão de esse

parecer, pois os grandes assuntos magnificam geralmente

os humildes que de eles se ocupam.

CAPÍTULO III

7) Licencio — Vejo que insistes na nossa discussão,

e creio que a julgas útíí. Pergunto por que não pode ser

feliz quem procura a verdade, embora não a encontre,

Trigêcio — Porque íeliz, a nosso ver, só é o sábio perfeito.

Mas quem procura não é perfeito; portanto não

sei como podes considerá-lo feliz.

Licencio — Aceitas a autoridade dos antepassados?

Trigêcio — Não de todos.

Licencio—Então de quais?

Trigêcio —Dos que foram sábios.

56

Licencio — Carnéades não é de esses?

Trigêcio — Não sou grego. Desconheço esse Carnéades*

Licencio — Que te parece o nosso Cícero?

Depois de longo silêncio, respondeu

Trigêcio — Foi sábio.

Licencio— Julgas de acatar a sua opinião neste caso?

Trigêcio — Julgo.

Licencio — Fica então sabendo — pois que parece ler-te

esquecida — que ele tem por íeliz quem investiga, ainda

quando não chegue â verdade.

Trtgêcio — Onde diz ele isso ?

Licencio —Ninguém ignora que ele insistiu na impossibilidade

do conhecimento e em que ao sábio só restava

a investigação aturada; pois se tivesse assentido em

coisas incertas, ainda quando verdadeiras, não poderia

libertar-se do erro; o que é a máxima culpa do sábio.

Portanto, se o sábio deve necessariamente ser tido por

íeliz e se a busca da verdade é única e perfeita íunção

da sapiência, por que duvidar de que a vida feliz se

alcance pela investigação mesma?

8) Trigêcio — Pode retírar-se o que tiver sido concedido

irreflectidamente?

— Só o recusa,. respondi, quem discute por vaidade

pueril e não por amor da verdade. Perante mim, em

especial duraute a vossa formação, não só é concedida

mas dada como regra a faculdade de voltar a discutir o

que inadvertidamente tiverdes aceitado.

Licencio — Não julgo pequeno proveito em íilosofia

um contendor desprezar a vitória, preferindo achar o

verdadeiro e o justo. Com prazer aceito a regra e o teu

parecer, e, como é de meu direito, concedo que Trigêcio

retire o que julgar ter concedido imprudentemente»

57

Alipio— Bem vedes que ainda não tive ocasião de

intervir. Mas como a partida já marcada me força a

interromper, que o meu com participante no juízo não

recuse o seu duplo poder até que eu volte; porque vejo

que a vossa discussão há-de ser longa.

Depois de ele se afastar, disse

Licencio — Dize o que concedeste irreflectidamente.

Trigicio—Concedi, sem reflectir, que Cícero foi sábio,

Licencio—Então Cícero, o iniciador e aperfeiçoador

da filosofia em língua latina, não foi sábio?

Trigêcio — Ainda quando o conceda, não o aprovo em

tudo.

Licencio — Na verdade, muitas outras coisas suas terás

de rejeitar, para que não pareça que imprudentemente

contestas aquilo de que se trata.

Trigêcio — Se estou resolvido a afirmar que só nisso

ele se enganou, parece-me que nada mais vos importa

senão o peso das razões que aduzo. Continua.

Licencio — Como atrever-me contra quem se declara

adversário de Cícero?

9) Trigêcio—Repara tu, nosso juiz, na definição de

«vida feliz*, há pouco dada; disseste que era feliz quem

vive segundo aquela faculdade de alma que deve governar

as outras. Tu, Licencio, conceder-me-ás (pois com

a liberdade que a filosofia nos permite, já sacudi o jugo

da autoridade) que não é perfeito quem procura a

verdade.

Então, depois de silencio demorado:

Licencio — Não concedo,

Trigêcio — Porquê? Explica, Bem desejo ouvir como

pode alguém ser perfeito e procurar ainda a verdade.

Licencio — Concordo em que não é perfeito quem não

58

atinge o próprio fim* Mas a verdade creio que só Deus

a conhece, e talvez a nossa alma, depois de liberta do

tenebroso cárcere corpóreo. Mas o fira do homem é

procurar perfeitamente a verdade, Procuramos o perfeito,

não esqueçamos que é homem.

Trigêcio — Não pode então o homem ser íeliz, pois

não alcança o que tão ardentemente deseja. Mas o

homem pode viver feliz, se pode viver segundo a parte

da alma que nele deve ser dominante. Pode portanto

alcançar a verdade. Ou então reílita e não a ambicione,

para não ser infeliz por não poder alcançá-la.

Licencio — Mas a felicidade do homem é procurar

perfeitamente a verdade; porque é atingir o seu objectivo

inultrapassável. Portanto, quem procura a verdade

com menor estorço do que deve não chega ao fim próprio

do homem; quem pelo contrário, põe nessa tarefa

quanto deve e pode, é feliz, embora não a alcance, porque

realiza integralmente o fim para que nasceu. Se não

o consegue, è por lhe ter faltado o que a natureza recusou,

Finalmente, se o homem necessariamente há-de ser

feliz ou infeliz, não è loucura chamar infeliz a quem

procura noite e dia a verdade com todo o empenho?

Logo será feliz. Além de que a definição parece-me vir

antes em meu apoio; pois se é feliz — e é — quem vive

segundo aquela faculdade da alma que deve dirigir as

outras e se chama * razão»! pergunto se não vive segundo

a razão quem procura perfeitamente a verdade. Se pensá-

lo é absurdo, porque duvidaremos de que o homem

seja feliz só pela investigação da verdade?

59

CAPITULO IV

10) Trigccio — N&o me parece que viva racionalmente

ou seja feliz quem erra. Mas erra quem sempre procura

e não acha. Deves pois mostrar — ou que quem erra

pode ser feliz, ou que quem procura e não encontra não erra*

Licencio — Quem é feliz não pode estar em erro —

(E depois de longo silêncio): — mas quem procura não

erra; pois para não errar procura perfeitamente,

Trigècio — Para não errar, procura; mas erra quando

não encontra. Julgaste aproveitar dizendo que ele não

quer errar, como se ninguém errasse contra vontade ou

alguém errasse a não ser contra vontade.

Então eu, vendo que ele se demorava a procurar resposta,

disse: — Deveis definir o erro, pois mais facilmente

podeis ver o fim de aquele em que caístes»

Licencio — Não sei dar definições; embora, quanto ao

erro, seja mais fácil defini-lo que dar-lhe fim.

Trigècio — Definirei eu, e é facílimo, não por talento

meu, mas por ser óptimo o tema. Errar é na verdade

procurar sempre e nunca encontrar,

Licencio —St refutar esta definição já serei útil á

minha causa. Mas porque o problema é, ou se me afigura,

árduo, peço-vos que a discussão se adie para amanhã,

se hoje não achar resposta, depois de pensar nisso

cuidadosamente.

Julguei que devíamos conceder-lho, e como todos

tivessem concordado, levantámo-nos e falámos de vários

assuntos, enquanto ele reflectia profundamente. Vendo

que nada conseguia, preferiu distrair-se e vir conversar

connosco. Depois, quando já ia anoitecendo, voltaram à

mesma discussão; mas pus-lhe termo e convenci-os a

deixá-la para outro dia; e fomos aos banhos,

6o

5EGUKDA DISCUSSÃO

n ) No dia seguinte, quando nos reunimos, disse eu:

— Continuai o que ontem tínheis começado.

Licencio — Se não me engano, fui eu que pedi o adiamento,

por me ser dificílimo definir o erro.

— Nisso não te enganas, disse eu, e oxalá te seja bom

augúrio para o resto.

Licencio — Ouve então o que ontem eu teria dito, se

não fosse a tua intervenção, O erro parece-me ser a

aprovação do falso pelo verdadeiro; e nele não pode

cair quem julga que a verdade deve sempre busc:ir-se>

pois não aprova o falso quem nada aprova; logo não

pode errar mas pode facilimamente ser feliz* Para não ir

mais longe, se nós próprios pudéssemos sempre viver

como ontem, não vejo razão para não nos julgarmos felizes.

Na verdade, vivemos de alma tranquila, livre de

toda mácula do corpo, afastados do fogo do desejo, reflectindo

quanto ao homem é dado; i. é, vivendo segundo

aquela divina faculdade, que, segundo a nossa definição

de ontem, constitui a vida feliz; e creio que nada achámos

e só procurámos a verdade» Pode o homem portanto

viver vida feliz, só pela investigação da verdade,

ainda quando não chegue a encontrá-la. Vê com que

facilidade a tua definição é refutada por uma noção vulgar

» Disseste que errar é procurar sempre e nunca achar,

Ora se a alguém que nada procure, perguntarem por

exemplo se é dia, e te mera ria mente supuser e íogo responder

que é noite, não te parece que erra? Esta espécie

de erro títo grande, não o abrange a tua definição.

E se abrange também os que não erram, pode haver

definição mais viciosa? Se alguém se dirigir a Alexandria

pelo verdadeiro caminho, não podes dizer que erra;

61

mas se, impedido por vários motivos, se demorar muito ea

morte o surpreender no caminho, não é verdade que sempre

procurou e, sem contudo errar, não achou o que buscava?

Trigècio — Não procurou sempre.

12) Licencio —Dizes bem. E de aí se vê que a tua

definição é inadequada; nem eu disse que era feliz quem

procura sempre a verdade, o que aliás é impossível; primeiro,

porque o homem não existe sempre; segundo, porque

nem desde que existe, por defeito da idade, pode logo

o homem procurar a verdade. Ou se julgas que «sempre*,

significa não dever perder tempo algum em que

possa investigar, voltemos ao exemplo de Alexandria.

Supõe alguém que, logo que lho permitam a idade e o

trabalho, começa a seguir aquele caminho e, como acima

digo, sem nunca se desviar; e que morra antes de ter

chegado* Decerto muito errarias se julgasses que esse

errara, embora durante o tempo em que pôde não tenha

deixado de procurar nem achado o que procurava» Se é

exacta a minha descrição e, segundo ela, não erra quem

bem procura, embora não ache a verdade, e é feliz porque

vive conforme a razão, a tua definição está prejudicada;

e quando não estivesse, não teria eu de ocupar-me

de ela, porque só a minha esclarece definitivamente o

problema. Nesse caso, porque não demos ainda esta

questão por esclarecida?

CAPÍTULO V

13) Trigècio — Concedes que a sapiência é o recto

caminho da vida?

Licencio — Certamente ; mas quero que a definas para

saber se lhe damos sentido igual.

62

Trigècio — Parece-te insuficiente a pergunta mesma?

Concedeste o que eu queria; pois, se não erro, pode jusumentedizer-

se que a sapiência 6 o recto caminho da vida.

Licencio — A definição parece-me bem ridícula.

Trigècio — Talvez; mas bom será que a razão previna

o teu riso; nada mais fastidioso que o riso digno

de irrisão.

Licencio — Então não dirás que a morte v contrária

á vida?

Trigècio — Sem dúvida.

Licencio — Para mim o caminho da vida nada mais c

do que o que seguimos para não morrer»

— Trigècio concordou —

Portanto, se um viajante que evite um atalho por

saber que o infestam ladrões, escapar assim â morte,

chamará alguém sapiência ao recto caminho da vida que

cie seguiu? Como é então sapiência todo o recto caminho

da vida? Concedo que seja, mas não só ela. A definição

nada estranho deve conter. Por isso, faze favor de

definir outra vez o que julgas ser sapiência,

14) Trigècio (depois de longo silêncio) — Torno a

definir, visto teres decidido não acabar. Sapiência ê o

caminho directo para a verdade.

Licencio — Também contesto. Quando, em Vergílio,

a mãe de Eneias lhe diz:

*Por esta via os passos encaminha», {*).

seguindo este caminho chega aonde se dissera, i, é, à

verdade. Vê se .pode chamar-se «sapiência» o lugar onde

(i) *Perge modo et qua te ducit ma dirige gressutn* Aen,, 1, 401.

63

ele põe os pés; demais é estulto querer eu combater

esta tua definição, porque nada é mais útil do que ela

ao meu propósito. Disseste que a sapiência não é a verdade,

mas o caminho que a ela conduz. Quem segue

esse caminho segue a sapiência, e quem segue a sapiência

necessariamente é sábio Sê-lo há portanto aquele

que procurar perfeitamente a verdade, ainda quando não

a encontre; parece-me que nada pode melhor entender-se

por caminho da verdade que a sua aturada investigação.

Logo, quem a seguir será sábio; mas nenhum sábio é

infeliz; e como todo homem é feliz ou infeliz, a felicidade

não está só no achado mas também na procura da

verdade.

15) Trigêcio (rindo-se) — E bem feito que isto me

aconteça para não conceder ao adversário coisas não

necessárias; como se eu fosse grande definidor ou julgasse

alguma coisa mais supérflua na discussão. Que

sucederia se eu te pedisse definição de tudo, até de cada

uma das palavras da definição e das consequências, fingindo

nada entender? Que definição poderia eu deixar

de exigir com razão, se com razão se me pede a de

«sapiência»? Que outra noção poderá haver mais clara

no nosso espírito? Mas não sei porquê, parece que à^

noção, ao deixar o porto da nossa inteligência e ao soltar

as velas da palavra, logo ocorrem mil naufrágios de

má interpretação. Pelo que, ou não deve pedir-se a definição

de «sapiência», ou venha o nosso juiz em sua defesa.

Então eu, vendo que a noite já não deixava escrever,

e surgia novo problema, transferi para outro dia. Tínhamos

começado já com o sol para o ocaso, e gastáramos

quase todo o dia a tratar dos trabalhos do campo, e a

rever o primeiro livro de Vergílio.

64

CAPITULO VI

TERCEIRA DISCUSSÃO

16) Logo que amanheceu, — tudo se preparara de

véspera para ter mais tempo livre — retomámos imediatamente

a discussão. E disse eu;

— Ontem pediste-me, Trigêcio, que passasse de juiz

a defensor da sapiência, como se algum de vós a tivesse

combatido, ou por falta de defensor ela se visse obrigada

a pedir auxílio.

Ora a vossa única oposição consiste em saber o que

é «sapiência», e nenhum de vós a combate porque ambos

a quereis. Se julgas ter errado na definição, nem por

isso deves desertar da defesa do teu parecer. Por isso

me limitarei a dar-vos a definição de «sapiência», que não

é nova nem minha mas antiga; e até me surpreende não

vos ter ocorrido. Não ouvis pela primeira vez que

«sapiência» é a ciência das coisas divinas e humanas.

17) Licencio (que depois de esta definição eu julgava

que procuraria muito tempo que responder) disse

imediatamente:

— Então por que não chamar sábio aquele nosso bem

conhecido Albicério, homem impudico e cheio de vícios,

que em Cartago maravilhou por muitos anos os consulentes

com respostas certas? Poucas bastam, das inúmeras

que poderia recordar, se não falasse com quem as

conhece. — (E dirigindo-se a mim): — Não é verdade que

tendo-se perdido uma colher, ele, interrogado por tua

ordem, não só disse de que se tratava, mas respondeu

segura e imediatamente de quem era e onde estava?

E na minha presença, sem falar de que nunca respondeu

errado às perguntas, quando um rapaz, que levava

65

dinheiro, roubou uma parte no caminho, obrigou-o à

nossa vista a declarar o que levava e a entregar o que

roubara, antes de ter visto o dinheiro e sem que tivéssemos

dito quanto levávamos.

18) Tu mesmo nos contaste que Flaciano, homem

ilustre e doutíssimo, ficara surpreendido, porque tendo

falado com o adivinho para pedir-lhe o parecer sobre a

compra de uma herdade, ele imediatamente não só falou

do género de negócio mas até disse o nome da herdade.

O que ainda mais espantou Flaciano, que mal se lembrava

dele. E não posso lembrar sem pasmo aquele

nosso amigo e teu discípulo, que, para confundi-lo, lhe

perguntou petulantemente em que estava a pensar nesse

momento. E o adivinho respondeu que em um verso de

Vergilio. Estupefacto, não podendo negar, perguntou

que verso era. E Albicério que só alguma vez de passagem

teria visto a escola de um gramático, não hesitou,

seguro e gárrulo, em recitá-lo. Portanto, ou o

objecto de tais consultas não eram coisas humanas ou

sem a ciência das coisas divinas não podia responder

com tanta certeza às consultas. Uma e outra hipótese

é absurda. Porque as coisas humanas nada mais são do

que as coisas dos homens, como prata, dinheiro, terras

e finalmente o próprio pensamento; e quem negará que

as divinas são as por que o homem adivinha? Logo

Albicério foi sábio, se, como definimos, sapiência é a

ciência das coisas divinas e humanas.

CAPITULO VII

19) Trigécio — Primeiro, não chamo ciência aquela

em que erra às vezes o que a professa. A ciência consiste

não só em compreender mas cm lazê-lo de tal modo

que nela ninguém deve errar, nem hesitar sob :i pressão

de objecções. De onde justamente disseram alguns filósofos

que ela só pode achar-se no sábio que não NÓ deve

compreender o que mantém, mas mantô-lo firmemente.

Mas esse de que falas errou muitas vezes, o que sei por

ouvir dizer e por eu mesmo ter visto Hei-de ter por

sábio, apesar de muitos erros, aquele a quem o não chamaria

ainda quando tivesse acertado sem hesitação?

Notai que assim falo dos arúspices e augures e de todos

quantos consultam astros e interpretam sonhos. Ou

então mostrai-me algum de este género que nunca duvidasse

das suas respostas e nunca tivesse errado. Dos

adivinhos não vale a pena tratar, porque falam fora

de si.

20) Finalmente, dado que «coisas humanas* são

coisas dos homens, como julgas nosso o que o acaso

pode dar-nos ou tirar-nos?

Como pode chamar-se ciência das coisas humanas à

de saber quantas ou quais herdades temos; quanto ouro

ou prata, ou os versos em que pensamos? Só o é a que

ensina a luz da prudência, o decoro da temperança, a

firmeza inquebrantável, a santidade da justiça. Estas

sim, que são nossas, independentemente da fortuna; se

Albicério as tivesse aprendido, crê-me, nunca teria vivido

tão torpemente. Quanto a saber o verso em que pensava

o consulente, creio que não faz parte de coisas

nossas; não que eu negue pertencerem ao nosso espí-

66

67

rito disciplinas honestas, mas porque até os ignorantes

podem recitar um verso alheio. Por isso, quando nos

ocorrem, não é estranho se os ouvirem certos animais

tenuíssimos, chamados «Espíritos*, que concedo nos levem

vantagem na subtileza dos sentidos, não na razão. Ignoro

de que modo secretíssimo e afastadíssimo dos nossos sentidos

isto se passa. Se admiramos uma abelha, preparando

o mel, com sagacidade superior à do homem,

voando de aqui para ali, nem por isso a antepomos ou

sequer a comparamos connosco.

ai) Preferiria eu que esse Albicério, interrogado por

quem desejasse aprender, ensinasse versos próprios ou

os dissesse coagido por um consulente, a respeito do que

lhe íora proposto. Costumas lembrar o que o mesmo

Flaciano dizia frequentemente, zombando com grande

elevação de aquele género de adivinhação; e não sei a

que abjectíssima anímula ele atribuía como por inspiração,

as respostas do adivinho. Perguntava aquele doutíssimo

varão aos que tais coisas admiravam se Albicérip

seria capaz de ensinar gramática, música ou geometria,

Mas quem ignorava que de tudo isto ele nada sabia?

Por isso exortava calorosamente os que tal tivessem

aprendido a antepor o seu espírito sem hesitar àquela

adivinhação, e a esforçar-se por instruir e servir a inteligência

própria nas disciplinas com que pudessem domii

nar e superar a natureza subtil dos espíritos invisíveis

CAPÍTULO VIII

22) Sendo as coisas divinas, na opinião de todos

muito superiores às humanas, como poderia atingi-la^

aquele que a si próprio se desconhecia?

68

Não julgas, talvez, que os astros, que diariamente

contemplamos, sejam alguma coisa grande, comparados

com o verdadeiro e santo Deus a quem raro a inteligência

e nunca os sentidos alcançara. Mas eles estão à nossa

vista; não são pois as coisas divinas, só conhecidas pela

sapiência; mas as outras, de que os adivinhos abusam

por vaidade ou lucro, decerto são muito inferiores aos

astros. Portanto Albicério nada soube das coisas divinas

e humanas e em vão por esse meio atacaste :i minha

definição. Finalmente, devendo nós desprezar e ter por vil

o qué está fora das coisas divinas e humanas, pergunto

onde é que o teu sábio há-de ir procurar a verdade.

Licencio — Nas divinas; porque a própria virtude no

homem é de certo divina.

Trigêcio — Então Albicério já sabia o que o teu sábio

procurará sempre?

Licencio — Conhecera as divinas mas não as que o

sábio deve procurar. Quem não torça o sentido das palavras,

se lhe concede o dom divinatório, como lhe nega

as coisas divinas que à adivinhação dão nome?

Pelo que a vossa definição, se não erro, não sei que

incluiu estranho à sapiência.

23) Trigêcio — A definição, defenda-a quem a deu, se

quiser. Voltemos ao nosso tema ; peço que me respondas.

Licencio — Seja.

Trigêcio —Concedes que Albicério soube a verdade?

Licencio — Concedo.

Trigêcio — Melhor que o teu sábio?

Licencio — De modo nenhum ; porque o género de

verdade que o sábio procura não só aquele adivinho

delirante mas nem o próprio sábio alcança na vida; e é

de tal valor que antes procurar este sempre do que achar

alguma vez aquele,

69

Trigècio — Tenho de recorrer à definição, Se te pareceu

viciosa, por abranger quem não podemos chamar

sábio, dize-me se aprovas que sapiência é a ciência das

coisas divinas e humanas necessárias à vida feliz.

Licencio — É, mas não única; a definição anterior

invadta o campo alheio; esta reduz o próprio; peca a

primeira por excesso, esta por defeito, Para íalar claro

desde já, direi que a sapiência me parece consistir não

só no conhecimento das coisas divinas e humanas concernentes

à vida feliz mas também na sua busca diligente.

Se quiseres dividir esta definição, a primeira parte, a da

ciência, é relativa a Deus; a segunda, a da investigação,

respeita ao homem. Pela primeira, Deus é feliz; pela

segunda, o homem,

Trigècio — Surpreende-me o teu asserto de que o teu

sábio trabalha em vão,

Licencio — Como em vão se é tão grande o proveito?

Porque procura é sábio, e por sábio é feliz; liberta quanto

pode a alma das prisões do corpo, e concentrando-se em

si próprio, nenhuma ambição o dilacera, mas tranquilo

em si e em Deus esíorça-se por gozar na terra a felicidade

tal qual a deíinimos; e no último dia, preparado

para alcançar o que desejou, por gozar merecidamente a

divina beatitude, como gozara anteriormente a humana,

CAPÍTULO IX

24) Como Trigècio tardasse em achar resposta,

disse eu;

— Não creio, Licencio, que se o deixássemos pensar

tranquilamente, lhe faltassem argumentos. Que lhe faltou

alguma vez para responder? Êle viu logo, levantada

70

a questão da vida feliz, que sô è feliz o sábio, pois no

próprio juízo dos estultos a estultícia é desgraçada; que

o sábio deve ser perfeito; mas não o õ quem ignora o

que seja a verdade, e portanto também não é feliz,

Aqui tu opuseste argumento de autoridade e pcrturbaste-

o com o nome de Cícero; no entanto, logo se refez

e com nobre obstinação retomou plena liberdade, apoderando-

se do que lhe íôra violentamente arrancado; e

uerguntou-te se te parecia perfeito quem ainda procurasse;

para que se confessasses que não era perfeito, ele pudesse

voltar ao princípio e demonstrar por aquela definição,

rjue perfeito era o homem que orienta a vida pela lei da

razão; e por isso não poderia ser feliz se não fosse perfeito.

Tu, tendo evitado o laço melhor do que eu supunha,

disseste que perfeito era o investigador diligentíssimo

fia verdade, e contra a própia deíiniçâo de vida íeliz, isto

é, racionalmente vivida, em que concordáramos, te

bateste abertamente* Ele respondente com clareza,

ocupando a posição de onde, repelido, terias perdido

tudo, se não te tivessem valido as tréguas. Pois qual a

cidadela dos Académicos a quem aprovas, senão a definição

do erro? E se ela, talvez durante o sono, não te

tivesse lembrado, faltar-te-ia que responder, embora

tivesses lembrado anteriormente a opinião de Cícero,

Viemos finalmente à definição de sapiência, e tão vivamente

a impugnaste que nem o teu próprio auxiliar

Albicério compreenderia talvez os teus estratagemas,

Com quanta cautela e esforço ele te resistiu e quasi te

envolveu e derrubou! Finalmente, refugiaste-te na nova

definição: que a sapiência humana é aquela busca da

verdade, pela qual, devido à tranquilidade da alma, se

:ttinge a vida feliz, A isto não responderá ele, principalmente

se pedir lhe seja concedido prorrogar a discussão.

7i

25) Mas se vos parece, encerremos esta conversação

cujo prolongamento julgo inútil- O assunto está discutido

e poderia ter-se concluído em poucas palavras,

se eu não tivesse grande empenho de exercitar-vos e pôr

à prova os vossos nervos e aplicação* Exortei-vos a procurar

a verdade com todo o ardor e comecei por perguntar

o valor que lhe dáveis; destes-lhe tanto que nada

mais desejo- Se queremos ser felizes, quer isso dependa

do achado quer simplesmente da busca da verdade, é

certo que temos de procurá-la. Terminemos pois esta

discussão e transcrevâmo-la, para enviar a teu pai, Licencio,

que sei como é inclinado á filosofia. Procuro ocasião

de o atrair; ora poderia entusiasmar-se por este estudo,

não só por ouvir mas lendo estas coisas em que te ocupas

comigo. Mas se como julgo, estás de acordo com os Académicos,

prepara as forças para defendê-los, porque quero

citá-los como réus.

Neste momento vieram dizer que o jantar estava)

pronto e levantámo-nos.

72

LIVRO SEGUNDO

[De novo, com ânimo grato, exorta o seu Mecenas,

Romaniano, a dedicar-se ã filosofia e descreve-lhe três

reuniões, na primeira das quais se explicam as opiniões

dos Académicos; na segunda, traia-se da diferença entre

a Nova e a Velha Academiaf e refutam-se os filósofos

que pretendem seguir o verosímil, negando a possibilidade

do verdadeiro; na terceira, diz-se o que eles entendem por

verosímil ou provável]*

CAPITULO I

1} Se fosse tfio necessário achar a sapiência quando

se procura, como para ser sábio, conhecê-la e possuí-la,

decerto a falsa argúcia, a obstinação, a teimosia dos

Académicos, ou ainda, como julgo, a razão válida naquele

tempo, teriam ficado sepultas com o mesmo tempo, e com

os corpos de Carnéades e de Cícero. Mas, ou pelas vicissitudes

da vida que em ti experimentaste, Romaniano,

ou por certa apatia, indolência e lentidão dos espíritos;

ou pela desesperança de encontrar, porque a estrela da

sapiência mais dificilmente nasce do que esta luz; ou

ainda (e é o erro vulgar) porque os homens, crendo erradamente

ter encontrado a verdade, deixam de procurá-la

73

diligentemente — se é que a procuram — sucede que a

ciência é rara e para poucos* De aí o julgarem, não só os

medíocres, mas os argutos e os cultos, que as armas dos

Académicos, se a luta se trava, são invencíveis e como

vulcânicas. Por isso, contra as ondas e tempestades da

fortuna deve lutar-se com os remos das virtudes e principalmente

pedir devota e piedosamente o auxílio divino,

para manter firme a intenção dos bons estudos e para

que nenhum acaso nos tolha abordar o porto seguro e

jucundo da filosofia. Tal a tua primeira tarefa. Receio

por t i ; desejo libertar-te; para isso, em preces cotídianas

(se acaso sou digno de pedir) não cesso de pedir para ti

ventos prósperos» Rezo à virtude e sapiência de Deus.

Que outra coisa é senão o que os mistérios nos mostram

como Filho de Deus?

2) Muito me ajudaras nas preces por ti se não desesperares

de que eu seja ouvido, e te esforçares comigo

não só por preces mas pela vontade e pela natural elevação

do teu espírito, que em ti me atrai, que sempre

admiro e estimo singularmente, mas que, por desgraça,

os cuidados domésticos ocultam, como as nuvens ao

raio, e por isso muitos, quase todos ignoram; de mim e

de uru ou outro dos teus íntimos é que não pode esconder-

se, porque ouvimos atentamente alguns murmúrios

e vimos alguns relâmpagos precursores do raio. Para

não dizer mais e lembrar um só íacto, quem è que alguma

vez trovejou tanto e brilhou com tal fulgor de inteligência

que a um só írémito da razão, a um só brilho de temperança

aniquilou em um dia a sua paixão rude da véspera?

Não brotará esta virtude, transformando em horror e

espanto o riso de muitos que não têm fé, e falando na

terra como um preságio do futuro, não se elevará de novo

74

ao céu, repelindo o peso corpóreo ? Agostinho terá falado

em vão de Romaniano? Não o permitirá aquele a quem

me entreguei e agora começo a conhecer um pouco,

CAPÍTULO II

3) Dá-te pois comigo à filosofia; nela está o que

admiravelmente te torna ansioso e hesitante. De ti não

receio apatia de costumes ou lentidão de engenho. Quando

te era dado respirar, quem mais atento às nossas conversações?

Quem mais penetrante? Nilo poderei recompensar-

te? Acaso te devo pouco? Quando adolescente

e pobre, vindo a estudar em terra estranha, recebeste-me

em casa, à tua custa, e o que é mais, no teu afecto.

Morto meu pai, consoiaste-me com amizade, animaste-me

com o conselho, ajudaste-me com o teu auxílio. No nosso

município tornaste-me quase ilustre e notável como tu,

pelo favor, pela familiaridade, pela intimidade na tua

casa. Quando a ti só e a nenhum dos meus, revelei a

intenção e a esperança de voltar a Cartago, para uma

situação mais elevada, embora concordasses, o amor da

pátria, onde eu ]á ensinava, pôs-te em dúvida\ mas não

podendo dissuadir o adolescente, ambicioso de situação

que julgava melhor, com admirável benevolência passaste

a dar-lhe auxílio* Tu me forneceste o necessário para o

caminho. Tu que auxiliaras o berço e como o ninho dos

meus estudos quando na tua ausência e sem teu conhecimento

embarquei, sem te exaltares por não ter comunicado,

como era costume, não me acusaste de orgulhoso,

mantiveste firme a tua amizade, e valeram menos a teus

olhos os filhos deixados pelo mestre do que a íntima

rectidão do meu intuito,

75

4) E agora que enfim me alegro no meu ócio, quebrado

o elo de desejos vãos, sacudido o peso de cuidados

mortos, respiro, reentro em mim; agora que procuro ardentemente

a verdade que começo a encontrar, e espero chegar

ao máximo de essa medida, tu animaste, tu impeliste,

tu realizaste. Aquele de quem foste ministro, mais o

concebi pela fé do que o compreendi pela razão. Quando

te expus o íntimo impulso da minha alma e afirmei

veemente e repetidamente que só considerava fortuna

próspera a que me permitisse entregar à filosofia, e

vida feliz a vida assim vivida, mas que me retinha ou

um pudor vão ou receio da triste miséria dos meus, que

dependiam do meu trabalho, tão grande foi a tua alegria,

tão inflamado o teu santo ardor por esta vida, que prometeste

quebrar todas as minhas cadeias, até com participação

minha no teu património, se te visses liberto

das tuas importunas demandas.

5) Por isso quando partiste, deixando-nos o estímulo,

não mais deixámos de aspirar à filosofia e àquela vida

que a ambos tinha atraído, E embora com menos ardor,

julgávamos esforçar-nos bastante. Como ainda não chegara

aquela chama que devia arrebatar-nos, tínhamos

por máxima aquela que lenta nos ia queimando. Mas eis

que certos livros bem repletos, como diz Celsino, exalaram

para nós perfumes da Arábia, e deixaram cair na

chamazinha pouquíssimas gotas de perfume precioso!

incrível, Romaniano, incrível, mais do que podes pensar.

Que posso acrescentar? Atearam em mim um incêndio

incrível até para mim próprio. Que me importavam então

a honraria, a pompa humana, o vão desejo de fama, e

finalmente as prisões de esta vida mortal? Rapidamente

voltava a mim. Confesso que olhei quase de relance para

76

aquela religião em que vivera desde criança, e me penetrava

até a medula; mas ela atraía-me sem eu saber,

E assim, titubeando, apressando-me, hesitando, procuro

o apóstolo Paulo. Estes, disse eu, teriam podido tanto

e teriam vivido como se sabe que eles viveram se as suas

razões e letras íossem opostas a um bem tão grande?

Li-o todo, atentíssima e minuciosamente.

6) Mas então, já banhado por fraca luz, de tal modo

se me revelou a face da filosofia, que se pudesse mostrá-

la, não a ti que sempre ardeste na fome de esta incógnita,

mas ao teu adversário, de quem não sei se te è

estímulo mais do que obstáculo, esse mesmo, rejeitando

e deixando os banhos, os pomares amenos, os banquetes

delicados e brilhantes, os histriões domésticos, enfim

tudo quanto o impele fortemente para estes prazeres,

voaria, como puro amante, para esta beleza, admirado,

anelante e ardente* Deve confessar-se que ele tem certa

beleza espiritual ou antes certa semente de beleza, que

se esforça por florir, e tortuosa e contorcidamente brota

entre a solidez dos vícios e a falácia das opiniões. No

entanto continua a ter fronde, e a sobressair, quanto é

possível, ao olhar agudo e diligente de poucos que ali a

descobrem. De aqui a hospitalidade, o requinte dos banquetes,

a elegância, brilho, e polidez de todas as coisas,

a espalhar em tudo uma graça velada.

CAPÍTULO III

7) Chama-se isto vulgarmente «filocalia». Não desprezes

o termo, pelo seu uso vulgar. Porque elas têm

nome semelhante e querem ser e são aparentadas. Pois

77

que é a filosofia? O amor da sapiência. Que é a filocalia

? O amor da beleza. Consulta os gregos. E que é

a sapiência? Não é a verdadeira beleza? Portanto são

irmãs, geradas pelo mesmo pai. Mas a primeira, arrancada

do céu pelo atractivo da volúpia e encerrada em

gaiola vulgar, conservou a semelhança de nome, para

lembrar ao caçador que não a desprezasse. A irmã,

voando livremente, muita vez a reconhece, embora sem

penas, sórdida e miserável; mas a íilocalia ignora qual

a sua origem. Toda esta fábula (aqui estou feito Esopo)

Licencio ta dirá mais suavemente em verso; é poeta

quase perfeito, Portanto se aquele que ama a íalsa beleza

pudesse contemplar um pouco a verdadeira com os olhos

sãos, com que encanto viria dedicar-se à filosofia 1 Não

te abraçaria como irmão, se ali te encontrasse? Admiras-

te e ris talvez. Que faria se eu me explicasse à vontade!

Ou se ouvisses a própria voz da filosofia, por não

poder ainda contemplá-la! Ficarias admirado, mas não

ririas; não desesperarias* CrO que nfto deve desesperar-

se de alguém e nunca de homens como esse. Muitos

são os exemplos de evasão e regresso fácil de tais aves,

com grande surpresa de muitos enclausurados.

8) Mas voltemos a nós, Romaniano, e filosofemos.

Devo agradecer-te: teu filho já começou a filosofar; eu

reprimo-o, para que, se levante mais firme e forte, depois

de cultivar as disciplinas necessárias, às quais, se bem

te conheço, para não temer ser alheio, só te desejo vento

próspero. Que direi da tua capacidade? Oxalá não fora

rara entre os homens como em ti é certa! Restam dois

vícios e obstáculos ao achado da verdade, que em ti não

receio muito; mas receio que te menosprezes e desesperes

de achar, ou suponhas ter encontrado. O primeiro,

78

se existe, pode talvez esta discussão tirar-to. Muita vez,

cora efeito, te exaltaste contra os Académicos tanto mais

duro quanto menos erudito mas tanto mais sincero quanto

mais atraído pela verdade. Sob o teu patrocínio vou

discutir com Alípio, e é provável que te convença; mas

a verdade só poderás vê-la se te deres à filosofia.

O segundo, que é o de supores ter achado alguma coisa,

ainda que te separes de nós duvidando e procurando,

qualquer superstição do teu espírito será repelida, quer

se te enviar alguma das nossas discussões sobre religião

quer quando discutir muitas coisas contigo,

9) Por ora nada mais faço do que libertar-me de vãs

e perniciosas opiniões. Não duvido de que te levo vantagem,

Uma só coisa te invejo: a companhia do meu

Luciliano, lnvejar-me-ás tu por dizer «meu»? Mas não

ê o mesmo que dizer «teu» e, de todos nós, que somos

um só? Que te pedirei para atenuar a minha saudade?

Pergunta a ti próprio o que deves pedir por mim. Mas

agora falo a ambos: Não julgueis saber alguma coisa, a

não ser como sabeis que a soma de um, dois, três e quatro

é dez. Mas não penseis também que é impossível

achar a verdade em filosofia, Acreditai-me, ou antes,

aquele que disse: «Procurai e achareis». Não deve

desesperar-se de um conhecimento mais evidente do que

o de aqueles números. Voltemos ao propósito. Começo

a recear tardiamente que o discurso ultrapasse a medida,

o que é grave, porque ela é de certo divina, e conduz-nos

suave e insensivelmente; serei mais cauto, quando for

mais sábio,

79

CAPITULO IV

PRIMEIRA DISCUSSÃO

10) Depois da discussão narrada no primeiro livro,

passámos quase sete dias sem discutir, revendo apenas

o segundo, terceiro e quarto livros de Vergílio, conforme

o tempo ia permitindo. De tal modo a poética inflamou

Licencio que tive de reprimi-lo um pouco. Já lhe era

difícil pôr de parte esse trabalho; mas como eu exaltava

quanto podia a luz da filosofia, concordou em retomar

a adiada questão dos Académicos. O dia estava tão

luminoso e sereno que nada poderia melhor serenar-nos

o espírito. Levantámo-nos mais cedo que de costume, e

pouco falámos com os camponeses, porque o tempo urgia.

Alipio — Antes de ouvir-vos discutir sobre os Académicos,

preciso de ouvir ler o que dissestes na minha

ausência, forma única de na discussão que vai seguir-se,

evitar confundir-me ou fazer esforço vão,

Assim fizemos e tendo gasto quase toda a manhã,

decidimos voltar a casa.

Licencio — Se não te custa, peço-te que exponhas

brevemente, antes de jantar, a doutrina dos Académicos,

para que não me falte coisa alguma útil ao meu intento.

— Com tanto maior prazer — disse eu — quanto a pensar

nisso comerás pouco.

Licencio — Fia-te nisso. Sei de muitos e em especial

de meu pai, que comia tanto mais quanto o cuidado era

maior. E bem sabes que o meu cuidado pela poesia não

punha a mesa em segurança. Já eu tenho perguntado a

mim próprio por que teremos maior apetite quando o

espirito está preocupado, ou porque será o espírito mais

imperioso quando as mãos e os dentes trabalham.

8o

— Ouve antes, — disse eu — o que perguntaste sobre

os Académicos, não vá eu ter de suportar-te, de ocupado

em tais medidas, sem medida alguma quer na mesa quer

nos problemas. Se eu ocultar alguma coisa em meu

proveito, Alipio o dirá.

Alipio — Ê indispensável a tua boa fé. Ser-me-ia

difícil descobri-lo se ocultasses alguma coisa. Ouem me

conhece, sabe com quem aprendi estas coisas; c ao

mostrar-nos a verdade, não atenderás mais à vitoria do

que ao teu pensamento.

CAPÍTULO V

u ) Fá-lo-ei — disse eu-—de boa fé, como justamente

queres. Dizem os Académicos que o homem não pode

alcançar a ciência no domínio da filosofia (Carnéades

afirmava desinteressar-se de qualquer outro) e no entanto

pode ser sábio, para o que basta a busca da verdade,

como tu, Licencio, também disseste; de aqui se segue

que o sábio não deve assentir em coisa alguma, porque

necessariamente erraria — o que para ele é culpa máxima

— se assentisse em coisas incertas. E não só diziam mas

tentavam demonstrar copiosamente que tudo é incerto.

Parece que tiravam a ideia da inacessibilidade da verdade

da definição de Zenão, o estóico, para quem só

pode ser verdadeira uma impressão do real no espírito,

quando não pudesse existir se o objecto não fosse real.

Ou mais rápido e mais claro: o verdadeiro só pode

reconhecer-se por sinais que o falso não possa ter. Os

Académicos esforçaram-se por mostrar que não podem

encontrar-se tais sinais. Reforçavam-lhes a causa as

dissensões dos filósofos, os erros dos sentidos, o sono e

81

os delírios, os sofismas e sorites. E tendo aprendido

com o mesmo Zenão que nada é mais vil do que a

opinião, concluíram que se nada pode apreender-se, nunca

o sábio deve aprovar coisa alguma.

12) De aqui grande malevolência contra eles; pois

em rigor parece que nada deve fazer quem nada aprova.

O sábio dos Académicos dir-se-ia um dormente, desertor

de qualquer trabalho. Por conclusão provável, que

também chamavam verosímil, afirmavam que o sábio

cumpria os seus deveres, desde que tinha norma orientadora.

Mas a verdade está oculta ou confusa, quer por

obscuridade da natureza, quer por semelhança das coisas.

No entanto, diziam que a própria refrenação do assentimento

era grande actividade do sábio.

Creio que resumi e expus como querias, Alipio, isto

éf de boa fé. Se alguma coisa omiti ou se fui menos

exacto, foi involuntariamente. A intenção era boa.

Quem erra deve ser ensinado; quem engana, evitado.

O primeiro precisa de bom mestre, o segundo, de discípulo

cauteloso.

13) Alipio — Agradeço-te por teres acedido a Licencio

e por teres-me libertado do encargo. Não tinhas

tanto que recear qualquer omissão, para pôr-me á prova

(e nem outro motivo era possível) como eu tinha que

temer, se tivesse de corrigir-te. Se não te aborrecesse,

pediria que expusesses a diferença entre a Nova e ai

Velha Academia, o que mais importa aqui ao questionador

do que á questão.

— Confesso — disse eu — que me aborrece. Agradecer-

te-ia, se enquanto descanso ura pouco, quisesses distinguir

esses dois nomes e mostrar a origem da Nova

82

Academia, porque a tua observação é muito pertinente

ao assunto.

Alipio — Isso faria supor que também me queres

impedir de jantar, se não te julgasse aterrado com o

pedido de Licencio, de resolvermos antes de jantar todas

ostas complicações.

E já ia continuar quando minha mãe (porque tínhamos

chegado a casa) tão instantemente nos chamou para

jantar que não era ocasião de prosseguir.

CAPÍTULO VI

SEGUNDA DISCUSSÃO

14) Tomado o alimento bastante para saciar a fome,

voltamos ao prado.

Alipio — Não me atreveria a recusar o que pedes.

Se acertar, agradecerei tanto à tua doutrina como à minha

memória. Se errar, corrigir-me-ás, para que não torne a

recear o encargo.

Parece-me que a separação da Nova Academia era

mais contra os Estóicos do que contra a doutrina antiga.

Nem deve considerar-se separação, porque apenas era

necessário discutir e resolver um novo problema posto

por Zenão. Com certo motivo se pensou que a doutrina

da dificuldade do conhecimento exacto, embora não discutida,

não foi estranha aos antigos Académicos. Prová-

-lo-ia facilmente a autoridade de Sócrates, Platão e

outros, que só julgaram defender-se do erro se evitassem

issentir temeráriamente. Entretanto não discutiram o

ponto nas suas escolas nem averiguaram se a verdade

pode alguma vez aprender-se. Zenão é que renovou o

problema, afirmando que nada podia ter-se por verda-

83

deiro senão o que se distinguisse do falso por características

de dissemelhança, e que ao sábio não era dado

opinar; Arcesilau em consequência negou que o homem

pudesse alguma vez achar tal critério e que a vida do

sábio não deveria arriscar-se ao nauirágio da opinião.

De onde concluiu que não devia assentír-se em coisa

alguma,

15) Neste ponto quando a velha Academia parecia

mais reforçada que combatida, Antíoco, discípulo de Fílon,

mais cubiçoso — dizem — de glória que da verdade, pôs

em conflito a doutrina de uma e outra Academia, Afirmava

ele que os novos Académicos introduziam doutrina

insólita e muito afastada da dos antigos. Alegava o

parecer dos antigos físicos e de outros grandes filósofos,

combatendo também os Académicos que afirmavam seguir

o provável, confessando desconhecer o verdadeiro Reunira

muitos argumentos que julgo inútil lembrar. Mas

afirmava, acima de tudo, que o sábio pode apreender a

verdade. Creio ter sido esta a controvérsia entre novos

e velhos Académicos* Se é de outra maneira, informa tu

Licencio com exactidão, peço-o por nós ambos. Se é como

eu disse, continuai a discussão iniciada,

CAPÍTULO VII

16) Então disse eu: —Há quanto tempo, Licêncioj

estás a descansar, nesta conversa mais longa do que eul

a julguei? Ouviste o que são os teus Académicos?

Ele sorriu, um tanto perturbado por este apelo.

Licencio - Pesa-me ter afirmado contra Trigécio qua

a felicidade consiste em buscar a verdade. Tanto mes

84

perturba a questão que sou quási infeliz, e vós se tendes

iiumanidade, deveis lastimar-me. Mas porque afligir-me

ou tremer se me firmo em causa boa? Só cederei à

verdade.

— Agradam-te — disse eu — os novos Académicos ?

Licencio — Muito,

— Então pareceste que falam verdade/

Licencio (que ia concordar^ hesitou, prevenido pelo

rriso de Alipio). Repete a pergunta.

— Achas que os Académicos falam verdade?

Licencio (depois de silêncio longo). Não sei se é

xdade; mas é provável. Nem vejo que possa alirar-

se mais.

— Sabes que ao provável chamam também verosímil,

Licencio — Creio que sim,

— Logo a opinião dos Académicos é verosímil,

Licencio —É.

— Ouve com atenção. Se alguém, que não conheça

teu pai, afirmar que teu irmão se parece com ele, não te

parecerá inepto ou insano?

Licencio—(no fim de silêncio demorado). Não me

carece absurdo.

17) Quando eu ia responder, pediu-me que esperasse

um pouco, e disse-me depois, sorrindo:

Licencio — Estás certo de vencer?

-Suponhamos que sim. Nem por isso deves deixar

ima discussão travada em especial para exercício e afinarão

do teu espírito,

Licencio—Mas eu não li os Académicos nem sou

orudito em tantas disciplinas com que me atacas,

— Também os não tinham lido os primeiros defensores

da tua opinião. Se te falta erudição vasta, nem por

85

isso a tua inteligência deve sucumbir logo a quaisquer

palavras e perguntas minhas. Já temo que mais cedo do

que quero te suceda Alípio, adversário com quem não

estou tão seguro.

Licencio — Tomara já ser vencido, porque nenhum

espectáculo pode ser-me mais grato que o da vossa discussão.

Embora possa ler-vos, pois que o estilo grava

os vossos discursos, unia boa discussão, se não é mais

útil é certamente mais agradável ao espírito.

18) Agradeço-te—disse eu —; mas a alegria súbita

fez-te dizer que seria para ti o espectáculo mais feliz.

Se aqui estivesse a discutir connosco teu pai, que ninguém

excederia no desejo de íilosofar depois de tão longa sede,

que dirias e sentirias tu, se eu próprio me julgaria felicíssimo?

Arrasaram-se-lhe os olhos, e quando pôde falar levantou

a mão para o céu.

Licencio — Quando verei isso, meu Deus? Mas de ti

tudo pode esperar-se.

Tinham os os olhos rasos de água, mas eu reagi e

disse:

— Reúne as forças, de que bem precisas, como te avisei,

para defender a Academia, Não quero que «antes

da tuba o medo te corra os membros», ou que pelo

desejo de ver a pugna alheia queiras ser cativo*

Então, vendo-nos já serenos, disse

Trigécio — Por que não há-de Deus ouvir um homem

tão virtuoso, antes de ele o pedir? Se tu, Licencio, não

tens que responder e pretendes ser vencido, fraca fé a tua.

Rimo-nos.

Licencio — Fala tu que és feliz sem achar a verdade,

e decerto, sem procurá-la,

86

19) Divertiu-nos a alegria dos rapazes. Então disse eu:

— Repara na minha pergunta, e firma-te com maior

valentia, se puderes.

Licencio — Pronto, Aquele que viu meu irmão e ouviu

dizer que ele se parece com meu pai, será inepto ou

insano se acreditar?

— Podemos ao menos considerá-lo estulto?

Licencio — Não, se riíio julgar sabê-lo, e apenas seguir

como provável o que ouviu repetir.

— Vejamos isso bem de perto. Suponhamos que o

tal homem vê chegar teu irmão e pergunta: De quem

è filho este rapaz? Respondem-lhe: De certo Romamano.

E ele: Bem me tinham dito que se parece muito

com o pai. Então, tu ou outro: Conheceste Romaniano?

Não, mas vejo que se parecem. Quem deixaria de rir-se?

Licencio — Decerto que ninguém.

— Então, já vês o que se segue,

Licencio — Vejo mas quero ouvir-t'o. Tens de começar

a sustentar quem prendeste,

— Que concluirei? Evidentemente são ridículos os

teus Académicos, que pretendem seguir o verosímil,

ignorando o verdadeiro.

CAPITULO VIII

20) Trigécio — Muito diferente me parece da inépcia

de esse homem a cautela dos Académicos. Eles seguem

peia razão o que chamam verosímil: este seguiu a fama,

que é a autoridade mais baixa de todas.

— E não seria mais inepto dizer; Não conheci o pai

nem tive informação alguma mas parecem-me semelhantes?

87

Trigêcio — Mais inepto de certo» E então?

— Tais são os que dizem; Não conhecemos o verdadeiro;

mas o que vemos é semelhante ao que desconhecemos.

Trigêcio — Provável, é que eles dizem. •.

— Quê! Negas que lhe chamem verosímil?

Trigêcio — Só quis excluir a semelhança, Parecia-me

que a fama não viera a propósito, pois os Académicos

não crêem os olhos humanos, e menos os milhares da

Fama, fingidos pelos poetas. Mas eu não sou defensor

da Academia- Tendes inveja da minha tranquilidade

nesta questão! Aí tens Alípio; peço que a sua chegada

nos de descanso. Creio que justamente o receias.

21) Feito silêncio, ambos olharam para Alípio,

AUpio — Queria auxiliar-vos quanto pudesse, mas o

vosso augúrio assusta-me. Espero no entanto vencer

esse temor. Consola-me ao mesmo tempo que o adversário

presente dos Académicos quase tomou o encargo

de Trigêcio vencido, e agora julgais provável a sua vitória.

O que mais receio é ser tido por negligente era

um cargo, e impudente, aceitando outro. Creio que vos

lembrais de me terdes feito juiz.

Trigêcio —O caso é outro agora; pedimos-te que o

deixes por algum tempo.

AHpio — Fá-lo-ei; para que, evitando a presunção e

a negligênciat não caia no torpe vicio da soberba, retendo,

para além da vossa permissão, a honra que me destes.

88

CAPÍTULO IX

22} Quereria que me dissesses, bom acusador dos

Académicos, quem defendes ao atacá-los. Receio que

refutando-os queiras mostrar-te Académico,

— Bem sabes que há dois géneros de acusadores*

Cícero disse modestissimamente que só era acusador de

Verres por ser defensor dos Sículos; mas não se segue

que quem acusa uma parte seja necessariamente defensor

da outra,

Alipio — Tens ao menos alguma base para manter a

tua opinião?

— É fácil responder-te, porque já pensei nisso demoradamente.

Ouve pois, Alípio, o que julgo que sabes

muito bem* Não provoquei esta discussão pelo prazer

de discutir. Basta o que já fizemos com estes rapazes,

em que a íilosofia como que brincou connosco. Deixemos

as fábulas pueris* Trata-se da nossa vida, dos nossos

costumes, da nossa alma que espera vencer todos os

enganos, conhecer a verdade, como se voltasse à sua origem,

triunfar dos desejos, desposar a temperança, dominar-

se e tornar mais segura ao céu. Sabes o que te digo?

«Façamos armas para um homem forte» (*); nada me agrada

menos do que ver surgir entre os que muito conviveram

e discutiram, alguma espécie de conflito. Mas como a

memória é frágil, quis escrever o que temos discutido,

para que estes rapazes aprendam ao mesmo tempo a dar

atenção a estas questões, e a atacar ou defender.

23) Não sabes que até agora nada sei certo e que os

argumentos e discussões dos Académicos me impedem

(*) Arma acri facienda viro* VERGÍLIO Acu*, vm, 441,

89

de procurá-lo? Não sei como imaginaram uma probabilidade

(para voltar à sua palavra) de que o homem não

pode achar a verdade. Isto me fizera preguiçoso e lento;

nem ousava procurar o que homens inteligentes e doutíssimos

não tinham encontrado. Se não me convencer

de que a verdade pode achar-se, tanto quanto eles se

convenceram do contrário, não ousarei investigar nem

tenho causa que defender. Deixemos isto e discutamos

primeiro, com todo o cuidado se a verdade pode achar-se#

Por mim creio ter muitas razões contra as dos Académicos

» Entretanto a diferença está em que eles julgam

provável que não pode achar-se a verdade e eu julgo

provável que eía pode achar-se. Ou a ignorância da

verdade é só minha, se eles fingiam, ou certamente nos

é comum,

CAPITULO X

24) Alipto — Já posso ir seguro; vejo que és mais

auxiliar do que acusador. Façamos desde já que esta

discussão, em que sucedo aqueles que te cederam, não

seja controvérsia de palavras, o que, de acordo contigo,

que citaste a autoridade de Túlio, reconhecemos muita

vez ser vergonhoso. Se não erro, tendo Licencio falado

da «probabilidade» dos Académicos, perguntaste-lhe e

ele concordou, se sabia que também lhe chamavam «verosimilhança*.

Sei, porque tu mas deste a conhecer, que

conheces as opiniões dos Académicos. Se as tens no

espírito, não sei porque vais atrás de palavras.

— Crê — disse eu —que não é de palavras mas de coisas

a importante questão. Nem eles eram homens que

não soubessem dar nome às coisas; parece-me que escolheram

estas palavras para esconder aos medíocres e

90

significar aos hábeis a sua opinião. Direi como e porque

assim me parece, depois de discutir o que se lhes atribue

e os faz tomar por inimigos do conhecimento humano.

Por isso muito me agrada que tenhamos chegado a um

ponto em que o nosso objectivo está tão claro. Parece-me

que eles foram inteiramente graves e prudentes. E teremos

de discutir contra aqueles que pensaram serem os

Académicos contrários a invenção da verdade. Não julgues

que os temo; combatê-los-ia, se o que defenderam

nos seus livros fosse sincero e não para ocultar a sua

opinião e certas formas sagradas da verdade a espíritos

corruptos e como profanos. Fá-lo-ia hoje, se o fim do

dia não nos obrigasse a recolher.

E por esse dia terminou a discussão*

CAPÍTULO XI

TERCEIRA DISCUSSÃO

25) Embora o dia seguinte amanhecesse não menos

sereno e tranquilo, gastámos a maior parte do tempo em

trabalhos domésticos, principalmente a escrever cartas,

Restavam-nos quando muito duas horas, quando fomos

ao prado. Atraía-nos a serenidade do ceu e não quisemos

perder o tempo que tínhamos. Chegados á nossa árvore^

e acomodados, disse eu:

— Como hoje não podemos ocupar-nos de assunto

importante, quereria que vós, rapazes, me lembrásseis a

resposta de Alípio ã pergunta que ontem vos perturbou.

Licencio—Foi tão breve que nada custa fazê-lo. Se é

leve, tu o dirás. Creio que te impediu, pois o assunto

era claro, de fazer questão de palavras.

9i

— E percebeis o que isso é e a força que tem?

Licencio— Creio que sim, mas peço-te que o exponhas

brevemente. Muitas vezes te ouvi que é vergonhoso continuar

na discussão em questões de palavras, quando já

não há dúvida quanto às coisas. Mas isto é subtil de mais

para que me peçam explicação.

26) — Então, ouvi. Chamam os Académicos provável

ou verosímil o que pode levar-nos a acção sem assentimento.

Quero dizer, sem julgar verdadeiro o que fazemos,

e convictos de que ignoramos a verdade* Por exemplo

: se na noite anterior, tão límpida e pura, alguém nos

perguntasse se hoje brilharia um soí claro, creio que

diríamos ignorá-lo, mas que assim nos parecia. Tal me

parece, diz o Académico, tudo o que ]ulgo dever chamar

provável ou verosímil. Se preferes outro nome, níío me

oponho. Basta que tenhas entendido o que digo, isto é,

a que coisas dou esse nome. O sábio não deve ser obreiro

de palavras mas investigador de coisas. Compreendestes

bem como me íoram tirados da mão aqueles brinquedos

com que vos excitava?

Disseram ambos que sim, mas via-se4hes na cara que

me pediam uma resposta*

— Julgais que Cícero, de quem são estas palavras,

fosse tão ignorante da língua latina, que desse nomes

impróprios ãs coisas que tinha em mente?

CAPITULO XII

27) Trigécio —Não discutiremos palavras, agora que

a essência é conhecida. Vê antes o que respondes àquele

que nos libertou, visto voltares a atacar-nos.

92

Licencio — Espera um pouco. Acode-me vagamente

que não deviam arrancar-te tão facilmente argumento

de tal peso.

E depois de reflectir em silencio:

Nada me parece mais absurdo do que afirmar alguém

que segue o verosímil e ignora a verdade- Nem a tua

comparação me perturba. Se alguém me pergunta se o

estado do tempo não ameaça chuva para amanhã, respondo

que é verosímil, porque não nego conhecer alguma

coisa verdadeira. Sei que esta árvore não pode ser de

prata e sem receio afirmo saber muitas outras coisas

como esta, com as quais se parecem as que chamo verosímeis.

Mas tu, Carnéades, ou qualquer outra peste grega,

sem falar dos nossos (por que duvidarei de passar ao partido

de aquele que me íez cativo por direito de vitória?)

tu, quando dizes ignorar a verdade, como sabes que segues

o verosímil? Nem posso dar-lhe outro nome* Como discutir

com quem não pode sequer falar?

28) Alipio — Não receio os trânsfugas; menos os teme

Carnéades, que tu, com leviandade não sei se juvenil ou

pueril, antes quiseste maldizer que atacar. Para corroborar

a sua opinião sempre fundada no provável bastar-

Ihe-ia alegar que tão longe estamos de conhecer a

verdade que tu mesmo foste um grande argumento contra

ti, pois que uma só perguntazinha te desorientou

completamente. Por enquanto deixemos isto e aquela

tua opinião quanto a árvore. Embora já tenhas tomado

outro partido, precisas de apreender cuidadosamente o

que eu disse* Parece-me que ainda não entrámos bem

na questão de saber se a verdade pode descobrír-se.

Tive por necessário começar a minha defesa só pelo

ponto em que te vira cansado e prostrado, isto é: se não

93

deve procurar-se o verosímil ou provável — chama-lhe

como quiseres — que os Académicos dizem bastar-lhes,

Não me importa se já te julgas óptimo inventor da verdade,

Se não fores depois ingrato a este meu patrocínio»

talvez venhas a ensinar-ma.

CAPITULO XIII

29) Como Licencio, modestamente, receasse o ímpeto

de Alípio, disse eu:

—-Preferiste dizer tudo, Alípio, a discutir, á nossa

maneira, com aqueles que não sabem falar

Alípio — De há muito sabemos todos, e a tua profissão

o mostra, que és perito em falar* Quereria que nos

explicasses previamente a utilidade da sua pergunta que

ou é supérflua, e portanto é supérfluo responder-lhe, ou

é sensata e não sei explicá-la; peço-te que nesse caso

não te pese o cargo de professor.

— Lembras-te — disse e u - q u e prometi ontem adiar

as questões de palavras. Agora o sol manda-nos recolher

nos cestos os brinquedos dados às crianças, tanto

mais quanto os expus mais para ornato que para venda.

Mas antes que as trevas, habituais padroeiras dos Académicos,

não nos deixem escrever, quero que assentemos

na questão que será nosso objecto de amanhã, Peço que

me digas se te parece que os Académicos tiveram opinião

segura sobre a verdade, e não quiseram apresentá-

la temerá ria mente a espíritos desconhecidos ou impuros

ou se julgaram realmente o que resulta das suas

discussões.

Alípio— Não afirmarei temeràriamente o que lhes

estava no ânimo. Quanto aos seus livros, sabes melhor

94

do que eu os termos em que expuseram doutrina. Quanto

a mim, se mo perguntas, creio que ainda não se encontrou

a verdade. Para responder à tua pergunta relativa

aos Académicos, acrescento que ela não pode achar-se;

éP como sabes, a minha antiga opinião, apoiada na autoridade

de notabilíssimos filósofos, perante quem nos obrigam

a curvar a cabeça a fraqueza do nosso espirito ou a

penetração inultrapassável do seu.

— Nada mais quero— disse eu.— Receava que o teu

parecer fosse igual ao meu e nada nos obrigasse a discutir

para exame diligente da questão. E até me preparava

para pedir-te que tomasses o partido dos Académicos,

como se julgasses que eles não só diziam mas

pensavam que a verdade não pode alcançar-se, Trata-se

portanto de averiguar se pelos seus argumentos é provável

que n:ida pode saber-se, e em nada é lícito assentir.

Se o conseguires, inclinar-me-ei sem custo; mas se eu

puder demonstrar que é muito mais provável que o sábio

alcance a verdade, e que nem sempre o assentimento

deve suspender-se, creio que nada te impedirá de vir

para o meu lado.

Alípio concordou, bem como todos os presentes; e

voltámos a casa, já envolvidos nas sombras da noite.

95

LIVRO TERCEIRO

Contêm duas discussões e de começo estabelece que para

o sábio a fortuna não ê auxilio nem obstáculo. Pt ova

Agostinho contra o patecer defendido por A li pio, que

alguma coisa o sábio conhece, pois conhece a sapiência.

Depois ãiscute a definição de Zenão e contesta as duas

opiniões dos Académicos: «Nada pode compreender-se»

e «Nada deve aprovar-se». Dtz finalmente parecer-lhe

que os Académicos não pensaram o que geralmente se

supõe.

CAPITULO I

i) No dia seguinte ao da discussílo contida no segundo

livro, tendo-nos reunido nos banhos, porque o tempo

obscuro não convidava a ir ao prado, principiei assim:

— Creio que já vistes bem qual o problema que temos

de discutir. Mas antes de expor o meu parecer e de

explicar o que ao caso importa, peço que ouçais de bom

grado algumas coisas n^o alheias ao propósito sobre a

esperança, a vida, e a nossa doutrinação, Buscar a verdade

com todo o esforço, julgo que não é leve nem supérfluo

mas importantíssimo e necessário. Nisto concordamos,

eu e Alípio, Todos os íilósofos julgaram que o

seu sábio a encontrara; e os Académicos ensinaram que

97

o sábio devia procurá-la e a procurava com o maior

esforço; mas ou porque jazia escondida, ou por confusa

não se revelava, ele tinha, para conduzir-se, de recorrer

ao verosímil e provável. Assim estabeleceu também a

vossa discussão anterior. Um julga o homem feliz pela

posse da verdade, outro pela investigação aturada; mas

todos concordamos que nenhum outro trabalho pode

comparar-se-lhe. Por isso, que vos parece o nosso dia

de ontem? Pudestes gastá-lo nos vossos estudos. Tu,

Trigécio, deleitaste-te com os versos de Vergílio; e

Licencio passou-o a fazer versos, o que de tal modo o

entusiasma, que principalmente por ele julguei dever

travar-se esta discussão, para que no seu espírito a filosofia

(e vai sendo tempo) adquira e mantenha lugar

maior não só do que a poesia mas do que qualquer

outra disciplina.

CAPITULO U

2} Não tivestes pena de nós, quando ontem nos deitámos

no intento de voltar à questão adiada e a nada mais,

ao ver que tantos negócios domésticos inadiáveis nos

impediram a tal ponto que mal pudemos concentrar-nos

nas duas últimas horas do dia? Sempre fui de parecer que

o sábio de nada precisa; mas para chegar a sábio, a fortuna

é muito necessária; Àlípio é talvez de outra opinião*

Alipio— Ainda não sei bem que valor dás à fortuna.

Se julgas que para desprezá-la, ela própria é necessária,

estamos de acordo. Se apenas lhe concedes aquilo que

sem sua licença não pode satisfazer o que é necessário

ao corpo, não te acompanho. Na verdade, ou aquele que

deseja mas ainda não possue a sabedoria pode, contra a

fortuna, obter o que temos por indispensável à vida; ou

98

temos de conceder que a fortuna domina a vida do sábio,

pois ele não pode deixar de precisar das coisas necessárias

ao corpo.

3) — Afirmas então — disse eu — que a fortuna é necessária

ao que aspira a sabedoria mas negas qtic o .seja ao

sábio.

Alipio — Não é despropositado repetir. Por isso vou

perguntar-te se a fortuna pode auxiliar-nos a despresarmo-

la, Se o pensares, digo que quem deseja a sabedoria

muito precisa da fortuna.

— Penso, pois que por ela virá a ser capaz de desprezá-

la. E não é absurdo. Também na infância precisamos

do seio materno, para depois, sem ele, podermos

viver e ter saúde.

Alipio — Vejo que as nossas opiniões concordam, se

t que a nossa concepção é a mesma. Entretanto deve

talvez distinguir-se que não é o seio ou a fortuna mas

alguma outra coisa que nos leva a desprezar a fortuna

ou o seio materno.

— E fácil achar outro símile. Assim como ninguém

atravessa o Egeu sem navio ou qualquer veículo, e até,

[iara não temer o próprio Dédalo, sem aparelhagem adequada

ou algum poder oculto j e apenas chegado ao termo

desejado está pronto a rejeitar e desprezar os meios de

fjue se servira; também quem quiser chegar ao porto da

sabedoria, à terra firme e segura (pois, para não me alargar,

não o conseguirá se íôr cego ou surdo, o que depende

da fortuna) a fortuna parece-me indispensável, para obter

o que deseja. Logo que o alcançou, ainda quando julgue

precisar de certas coisas necessárias à saúde do corpo,

sabe que não precisa de elas para ser sábio mas para

viver entre os homens*

99

Alipio — Melhor: esse homem, se for cego e surdo,

desprezará, e a meu ver com razão, tanto a acquisição da

sapiência quanto a mesma vida, pela qual se procura a

sapiência*

4) No entanto— disse eu — como a nossa própria

vida terrena está na mão da fortuna, e só quem vive

pode vir a ser sábio, não devemos confessar que só com

o favor da fortuna podemos chegar à sabedoria?

Alipio - Mas como só aos vivos a sapiência é necessária,

e perdida a vida a sapiência é inútil, não temo a

fortuna no avançar da vida- Desejo a sapiência porque

vivo, não quero a viria por desejar a sapiência. Por isso,

para vir a ser sábio, não tenho que desejar o favor ou

temer a hostilidade da fortuna,

— Então - disse eu — não te parece que a quem deseja

a sapiência possa a fortuna a impedi-lo de o conseguir,

mesmo sem lhe tirar a vida?

Alipio — Não me parece.

CAPÍTULO 111

5 — Quereria saber — disse eu —que diferença fazes

entre sábio e filósofo,

Alipio — Nenhuma; a não ser que as coisas que no

sábio estão em hábito, no filósofo estão em desejo.

— Mas quais são essas coisas? Porque para mim a

única diferença está em que um conhece e o outro pretende

conhecer a sapiência.

Aiipto - Se desses uma pequena definição da ciência,

a coisa ficaria mais cíara.

— Fosse qual fosse a minha definição, todos concorj

dam em que não há ciência de coisas falsas.

1 0 0

Alipio — Pus esta objecção prévia, para evitar que

írreíletída concessão minha desse nesta questão ao teu

discurso campo largo para cavalgar.

— Pois nenhum espaço me deixaste para isso — disse

nu —. Se não erro, chegámos ao fim que eu tinha pensado.

Se entre sábio e filósofo a diferença, como disseste

com verdade e subtileza, está em que este deseja c aquele

possue a sapiência — de onde o justo nome dtr hábito

que lhe deste; se ninguém, sem ter aprendido, pode

possuir uma disciplina e nada aprendeu quem nada sabe,

e ninguém pode saber o falso, então o sábio, que tu mesmo

confessaste que possuia a ciência, isto é, esse hábito,

conhece a verdade.

Alipio — Seria impudente negar que reconheci no sábio

o hábito da inquirição das coisas divinase humanas. Mas

ião sei porque lhe negas o do achado das probabilidades.

— Concedes que ninguém sabe o falso?

Alipio — Concedo.

— Então afirma, se podes, que o sábio ignora a

sapiência.

AUpio — Mas porque limitas assim tudo, de modo que

não possa parecer ao sábio que conhece a sapiência?

— Dá-me a tua mão. Foi isso que ontem eu disse

que mostraria, e folgo que essa conclusão agora seja tua.

Lembras-te que a diferença entre mim e os Académicos

estava em que eles julgavam improvável achar a verdade,

e eu, embora sem encontrá-la, julgo que o sábio

poderá descobri-la. Agora, obrigado a dizer se o sábio

conhece a sapiência, respondes: Julga conhecê-la.

Alipio- E então?

— Então, se julga conhecê-la, não julga que o sábio

não pode conhecer coisa alguma. Ou é preciso que afirmes

que a sapiência nada é.

1 01

6) — AUpio — Julguei que chegáramos ao fim; e de

repente, ao apertarmos a mão, vejo-nos cada vez mais

afastados; ontem só se tratava de saber se pode o sábio

atingir a verdade. Tu afirmáva-lo, eu contestava. Agora

só concedi que pode parecer ao sábio ter alcançado em

coisas prováveis a sapiência, que entendo ser a investigação

das coisas divinas e humanas — e nenhum de nós

o põe em dúvida.

— Nada explicarás complicando, Parece que discutes

para exercício. E como sabes que estes rapazes dificilmente

penetram por ora em discussão subtil, abusas um

pouco da ignorância dos juizes, para falar à vontade, sem

protesto algum. Quando há pouco perguntei se o sábio

conhece a sapiência, disseste que lhe parecia conhecê-la,

Aquele a quem parece que o sábio conhece a sapiência

não pode, claro está, parecer que o sábio nada sabe, A

não ser que diga que a sapiência nada é, Somos pois do

mesmo parecer, porque eu creio que o sábio sabe alguma

coisa e tu julgas que ao sábio parece que o sábio conhece

a sapiência.

Alipio —Julgo não querer, mais do que tu, exercitar o

espírito; e admiro-me, porque tu já não precisas de isso.

Talvez por cegueira minha, parecem-me diferentes saber

e julgar saber, assim como a sapiência, que é investigação,

e a verdade, Náo sei como pôr de acordo as nossas

opiniões,

Então, como nos tivessem chamado para jan tar, disse eu:

— Não me desagrada a tua teimosia. Ou nenhum de

nós sabe o que diz, e é preciso evitar esta vergonha; ou

só um de nós, e não seria menos vergonhoso ficar indiferente.

Falaremos esta tarde. Julguei que tinha acabado,

quando começaste aos socos,

Então riram-se e fomo-nos embora,

1 0 2

CAPÍTULO IV

•SEGUNDA DISCUSSÃO

7) Ao voltar encontrámos Licencio, que nem o Helicon

dessedentaria, boquiaberto, a fazer versos. A meio

do jantar, aliás brevíssimo, saíra a furto e nada bebera.

— Desejo-te — disse eu — o domínio da tSo ambicionada

poética; não porque me deleite essa perfeição, mas

porque é tal o teu ardor que só o fastio te curará, como

é costume. Demais, como tens boa voz, prefiro que nos

cantes versos teus, a que, à maneira das aves engaioladas,

nos digas os de aquelas tragédias gregas que não

entendes. Melhor c que vás beber e voltes à nossa escola(

se alguma coisa te merecem Hortensio e a filosofia, cuja

doçura prelibaste naquela discussão e te inflamou bem

mais do que a poética no empenho das coisas grande»

e verdadeiramente frutuosas. Mas no desejo de chamar-

vos as disciplinas que cultivam o espirito, receio

meter-vos em um labirinto e quàsi me arrependo de

reprimir te o ímpeto.

Corou e foi beber. Tinha muita sede e ao mesmo

tempo evitava que eu lhe dissesse talvez outras coisas e

mais ásperas.

8) Quando ele voltou, comecei, perante a atenção

de todos;

— Não é verdade, Alipio, que discordamos em coisa

evidente, segundo julgo?

Alicio — Não admira que seja obscuro para mim o

que para ti é claro. Muitas coisas claras para uns podem

sê-lo ainda mais para outros; e as que uns têm por obscuras,

a outros parece-lo ainda mais. Se isto para ti é

103

manifesto, outrem haverá para quem o seja mais, e para

alguém a minha obscuridade será mais obscura, Mas não

quero que me julgues obstinado e peço que esclareças

essa clareza,

— Pois ouve atento, pondo de parte o cuidado de

responder. Se a ti e a mim conheço, pequeno esforço

mostrará o que digo e em breve um persuadirá o outro*

Disseste, se não erro, que o sábio julgava conhecer a

sapiência?

Assentiu.

— Deixemos um pouco o sábio. Tu próprio és sábio

ou não ?

Alipio — De modo nenhum.

— Quero que me respondas o que pensas do sábio

Académico. Parece-te que ele conhece a sapiência?

Alipio —Julgas o mesmo ou diferente que ele julgue

sabê-la ou que a saiba? Receio que esta confusão sirva

de defesa a um de nós.

9) Isso é o que costuma chamar-se disputa toscana:

opor a uma pergunta não a resposta mas uma

objecção diferente* Também o nosso poeta (deixa-me

falar para que Licencio ouça) julga isso próprio de

aldeãos e de pastores; se um de eles pergunta onde é

que o céu tem apenas três côvados, o outro responde:

«Dize-me em que terra nascem flores que têm inscritos

os nomes dos reis.» Alipio, que isso não valha nesta

casa de campo, onde estes pequenos banhos recordam

um pouco a grandeza dos ginásios. Peço-te que me respondas:

Parece-te que o sábio dos Académicos conhece

a sapiência?

Alzpio —Para não me alongar em palavras: parece-me

que ele crê conhece-la,

104

— E a ti, parece-te que não a conhece? Não te pergunto

o que julgas que ele cr£, mas se te parece, a ti,

que o sábio conhece a sapiência. Creio que podes afirmar

ou negar.

Alipio — Oxalá isso me fosse fácil como a ti, ou a ti

difícil como a mim! Serias menos molesto e estarias

menos esperançado. Respondi à tua pergunta que, na

minha opinião, ele julgava conhecê-la. Pareceu-me leiueridade

afirmar que eu ou ele o sabiamos.

— Seria grande favor responder à minha pergunta e

não a que tu formulas a ti próprio. Além disso, deixemos

as minhas esperanças, que te preocupam tanto como

as tuas. Se me engano, passarei logo para o teu lado e a

discussão terminará. Finalmente, deixando a inquietação

vaga que em ti noto, atende bem, para compreender que

resposta desejo de ti. Disseste nao afirmar nem negar,

npesar de serem indispensáveis um ou outro para responder

à minha pergunta, para não dizer temeráriamente

que sabes o que ignoras; como se eu te perguntasse o

que sabes e não o que te parece. Pergunto agora mais

claro (se é possível). Crês ou não que o sábio conhece

a sapiência?

Alipio —Se há um sábio, como a razão o apresenta,

creio que conhece a sapiência.

— Portanto, segundo a razão, o sábio conhece a sapiência;

muito bem. Não podias decentemente pensar de

outro modo,

10) Pergunto agora se pode haver um sábio. Se pode,

pode conhecer a sapiência e a questão morreu. Mas se

dizes que não há, não temos de investigar se ele sabe

alguma coisa mas se alguém pode ser sábio. Isto assente,

deixemos os Académicos e discutamos diligente e cau-

105

tamente. Pensaram eles que o homem pode ser sábio,

mas que a ciência não é dada ao homem. Portanto afirmaram

que o sábio nada sabe. Tu crês que ele conhece

a sapiência, o que é saber alguma coisa. E tanto nós,

como os antigos e os próprios Académicos, concordamos

em que ninguém pode saber o íaíso; só te resta portanto

ou afirmar que a sapiência nada é ou que o sábio descrito

pelos Académicos, a razão o desconhece*

CAPÍTULO V

IT) Deixando isto, examinemos se ao homem é dada

a sapiência, tal qual a razão mostra e é a única digna de

esse nome,

Alipio — Ainda quando conceda o que tanto te esforças

por obter, que o sábio sabe a sapiência, e que achámos

algo que ele pode saber, não julgo vencidos os

Académicos. Vejo que conservam uma deíesa e podem

suspender o juízo e nfto desertar da sua causa, pela

razão mesma com que julgas vencê-los. Podem dizer

que tudo ê tão incerto e o assentimento tilo errado, que

o seu próprio princípio, sempre julgado provável, o teu

argumento lho destruiu ; então, como agora, por força do

argumento ou por incompreensão minha, eles poderão

manter-se e continuar ousadamente a afirmar que não

deve assentir-se em coisa alguma. Talvez algum dia

possam, eles ou alguém, achar outro argumento subtil e

provável. Como em um espelho, devemos ver-lhes a imagem

em Proteio, que os perseguidores só puderam apanhar,

sem que lhes escapasse, com o auxílio de um nume.

Que ele nos assista e mostre a verdade procurada, e

então confessarei que eles foram vencidos, o que não

creio.

106

12) — Está bem; nada mais quero. Ora vede quantas

vantagens tenho. Primeiro diz-se que aos Académicos

só resta a deíesa de que ela é impossível. Quem acreditará

que o vencido se glorie da vitória por ser vencido?

Além de isso, a questão agora já não está em

dizerem que nada se pode saber, mas em pretenderem

que em nada deve assentir-se. Estamos pois de acordo,

Parece-lhes, a eles como a mim, que o sábio conhece a

sapiência. Mas aconselham que se evite o assentimento.

Só dizem que lhes parece e não que sabem; como se eu

afirmasse saber. Também a mim me parece; e sou

estulto, como eles, se desconhecem a sapiência. Mas

creio que temos de aprovar alguma coisa, isto é, a

verdade. Perguntar-lhes-ei se negam assentimento ã

verdade. Nunca tal dirão, mas sim que ela não pode

achar-se. E aqui de algum modo concordaremos, pois

a mim e a eles parece necessário consentir na verdade

CAPITULO VI

13} Tu disseste, Alípio, com brevidade efe — e tudo

farei para concordar contigo — que só algum nume pode*

ria mostrar ao homem o que é a verdade. Nesta conversação

nada ouvi mais grave, nada mais provável, e se,

como creio, o nume está presente, nada mais verdadeiro.

Proteio, que lembraste com grande elevação e

com a mais pura intenção filosófica, aquele Proteio, para

que vós, adolescentes, não penseis que a filosofia deve

desprezar os poetas, é a imagem da verdade. Digo que

Proteio revela e mantém nos versos o papel da verdade,

que ninguém alcançará, se, levado por falsas imagens,

afrouxar ou desfizer os nós da compreensão» Tais imagens,

pelo nosso hábito de empregar os sentidos nas coi-

107

sas necessárias à vida, iludem-nos até quando se diria

termos a verdade na mão. Nem sei como apreciar o terceiro

bem que me sucedeu. O meu grande amigo concorda

comigo não só quanto à probabilidade da vida

humana, mas quanto à religião, o que é o mais certo

indício do amigo verdadeiro. A amizade foi justa e santamente

definida «a concordância de coisas divinas e

humanas, com benevolência e caridade».

CAPÍTULO VII

14) No entanto, para que os argumentos dos Académicos

não pareça perturbarem-nos ou para que não se

julgue que resistimos por soberba â autoridade de

homens doutíssimos, entre os quais Túlio não pode deixar

de impressionar-nos, direi primeiro, se achais bem,

alguma coisa contra os que julgam estas discussões combates

à verdade. Direi depois por que motivo, a meu

ver, os Académicos ocultaram a sua opinião. For isso,

Alípio, embora estejas do meu lado, defende-os e responde-

me,

Alípio — Pois que o teu combate de hoje, como dizem,

íoi bem augurado, não impedirei a tua vitória plena, e,

visto que nTo impões, tomarei tranquilamente o seu partido;

a não ser que prefiras e te seja cómodo mudar as

questões em discurso seguido, para que eu, como adversário

pertinaz, e (já cativo, não sofra as ílechazinhas que

me atires, contra a tua humanidade,

15) Como todos o esperavam, comecei uma espécie

de exórdio: Vou satisfazer-vos- Embora esperasse descansar,

com leve armadura, depois do trabalho da escola

de retórica, mais perguntando que discorrendo, no entanto,

108

como somos poucos e não preciso de molestar-me falando

alto, e como o estilo, em favor da minha saúde, regula

e modera o meu discurso, para evitar o entusiasmo, que

me prejudicaria, ouvi então o meu parecer, em discurso

seguido,

Mas primeiro vejamos aquilo de que se gloriam os

partidários dos Académicos* Nos livros em que Cícero

os deíende há um passo, a meu ver de grande primor, e

segundo outros de grande solidez. Difícil é realmente

que ele não nos impressione: Todos os sábios das outras

seitas dão o segundo lugar ao Académico, pois que o primeiro

todos o reservam para si. Pode com probabilidade

concluir-se que tem razão de julgar-se primeiro quem no

juízo de todos os outros é segundo,

16) Suponhamos presente, por exemplo, o sábio

estóico, pois foi contra esses que mais se esforçaram os

Académicos, Se perguntarmos a Zenão ou Crísipo quem

é o sábio, responderá que é o que ele próprio descreve.

Epicuro ou qualquer outro adversário dirá que não, t

que o sábio é antes um eomo captador da ave da voluptuosidade.

Surge conflito. Clama Zenão e tumultua o

Pórtico, que o homem só nasceu para a virtude; que ela

atrai os espíritos pelo seu esplendor, sem qualquer lucro

extrínseco e sem mercê, que seria um como lenocínio;

e que não deve iançar-se o homem e o sábio na sociedade

dos animais, a quem é própria a voluptuosidade

epicúrea. Mas Epicuro chama de seus jardins a turba

ébria, que furiosa procura quem despedace com unhas

grosseiras e áspera fauce; insiste, dando o povo como

testemunha, exagerando o nome de voluptuosidade, suavidade,

repouso, que só por eles o homem pode ser feliz,

se entretanto aparecer um Académico, uns e outros ten-

109

tarâo atraí-lo; se ceder a algum, o outro di-lo-á insano,

ignorante e temerário* Ouvidas ambas as partes e interrogado,

dirá que duvida. Pergunta agora ao Estóico se

prefere Epicuro, que o julga delirante ou o Académico,

que julga indispensável reflectir» Claro que preferirá o

Académico, Pergunta agora a Epicuro quem prefere:

Zenão qne lhe chama animal ou Arcesilau, que lhe diz:

Talvez tenhas razão, mas importa inquirir mais diligentemente,

Não é claro que Epicuro julgará doido todo o

Pórtico e que, comparados com ele, os Académicos são

homens modestos e cautelosos? Assim e justíssimamente,

apresenta aos leitores um como espectáculo jucundíssimo,

mostrando que se nenhum de aqueles, como é

fatal, deixa de atribuir a si próprio o primeiro lugar,

concede o segundo a quem vê que não combate mas

duvida. Nada tenho a opor nem lhes diminuirei a glória»

A alguns parecerá que Cícero aqui não quis divertir-se

mas reunir palavras inanes e ocas, por detestar a frivolidade

dos mesmos gregos,

CAPÍTULO VIII

17) Pois que me impedirá, se quiser resistir a esta

verdade, de mostrar facilmente que menor mal é ser

indouto que indócil? C1) E assim, quando esse Acadé-

(*) Lê-se em um sermão do P,e António Vieira: --«Quem nlo

Ê dócil não pode ser donto; antes a mesma docilidade é um sinónimo

de ciência.» A frase de Vieira parece acentuar primeiro o

afastamento semântico resultante da generalidade do termo «dócil»

e da maior restrição no termo «douto* regressando depois à comunidade

da raiz de um e outro. Santo Agostinho parece apoiar-se

desde logo na origem comum dos dois termos, visto que ser cdocil»

«ensinável* 6 o caminho para vir a ser «rdouto*.

I IO

Liiico um tanto vaidoso se apresenta a todos como discípulo

e ninguém o convence do que ele crê saber, todos

de acordo se riem de ele. Todos pensarão que se nenhum

dos adversários aprendeu coisa alguma, ele nada pode

aprender- Será repelido de todas as escolas, não com a

íérula, mais humilhante que molesta, mas com as clavas

£ bastões dos homens do manto. Nem será grande trabalho

pedir o auxilio quase hercúleo dos Cínicos contra

;i peste comum, Mas se me agradar disputar-lhes esta

vilissima glória, o que a um íilosofante como eu, ainda

nao sábio, mais facilmente se desculpa, que poder5o eles

impugnar? Suponhamos que eu e um Académico entramos

naquelas discussões, estando todos presentes. Que exponham

rapidamente as suas opiniões* Pergunte-se a de

Carnéades. Dirá que duvida. Cada um portanto o preíere

aos outros. Logo todos a todos. Grande e altíssima

glória. Quem não quereria imitá-lo? Interrogado eu também,

respondo o mesmo; o louvor será igual. Então a

glória do sábio ê aquela em que o estulto o iguala? E se

este o superar facilmente? O pudor será inútil? Demorarei

o Académico ao sair do julgamento. A estultícia é

ávida de tais vitórias, E retendo-o, direi aos juízes o

que eles ignoram, Dir-lhes-ei: Senhores, eu, como este,

duvido qual de vós está na verdade; mas cada um de

nós tem também opiniões próprias e peço que as julgueis.

Embora vos tenha ouvido, ignoro onde está a

verdade, por isso que ignoro qual de vós é sábio. Mas

este contesta que o sábio saiba alguma coisa; nem sequer

a sapiência, pela qual se chama sábio* Quem náo vê a

quem caberá a palma? Se o meu adversário concorda,

vencerei com glória» Se envergonhado confessar que o

sábio conhece a sapiência, a minha opinião vencerá.

I I I

CAPITULO IX

18) Mas saiamos de este tribunal litigioso para onde

nenhuma turba nos moleste e oxalá seja a escola de Platão,

que dizem ter recebido o nome de se segregar do

povo. Tratemos quanto pudermos, não da glória, objecto

leve e pueril, mas da vida mesma e da esperança da

alma feliz. Negam os Académicos que possa saber-se

alguma coisa. De onde o concluis, homens diligentíssimos

e doutíssimos? «Convence-nos, dizem, a definição

de Zenão. «Porquê?* pergunto* Se è verdadeira, alguma

coisa sabe quem a sabe; se falsa, não deve abalar espíritos

fortes. Mas vejamos o que diz Zenão : Só pode compreendesse

e perceber-se o que não tenha sinais comuns

com o [also. Foi isto, platonizante, que com todas as

tuas forças te fez afastar os estudiosos da esperança de

aprender, a ponto de eles, com o auxílio de certa preguiça

mental, deixarem de todo a filosofia?

19) Mas como nao convenceria, se nada pode ser tal

e só o que tal for pode perceber-se? Se assim é, mais

valia dizer que o homem nao pode ser sábio, do que

dizer que o sábio ignora por que vive, como vive e se

vive; finalmente, o que é de tudo o mais perverso, delirante,

e insano, que o sábio pode ignorar a sapiência.

Que é mais duro? que o homem nao possa ser sábio ou

que o sábio ignore a sabedoria? Se a questão assim

posta não fica resolvida, não vale a pena discutir* Se

assim se dissesse, os homens seriam talvez afastados da

íilosofia; mas agora devem ser atraídos pelo nome dulcíssimo

e santíssimo da sapiência, para que chegando a

uma idade avançada sem ter aprendido coisa alguma,

persigam com grandes maldições tendo deixado a volup-

J 1 2

tuosidade corpórea, aquele a quem seguiram para tormento

da alma*

20) Mas vejamos quem os afasta fia filosolia, Será

quem diz: «Ouve, amigo, a filosoJia nao é a sapiência,

mas o desejo da sapiência; se te lhe dedicares, nao serás

sábio em vida (só em Deus ela existe e nao no homem)

mas quando bem exercitado em tal estudo e de alma

limpa, facilmente gozarás de ela depois de esta vida,

quando deixares de ser homem.» Ou será quem disser;

«Homens, vinde à filosofia: o fruto é grande; que há

mais caro ao homem do que a sapiência? Vinde poisf

para serdes sábios e ignorardes a sapiência». Não, dirá

Cie, nunca tal direi». Mas é engano, porque é o que em

ti se encontra. Se assim falasses, todos fugiriam como

de um doido; se de outro modo atraísses alguém, farias

loucos. Mas suponhamos que ambas as opiniões afastam

os homens da íílosolia. Se a definirão de Zenão

obrigava a dizer alguma coisa perniciosa â filosofia,

deveria dizer-se o que é para o homem motivo de pena

ou o que é para ti motivo de ridículo?

St) Mas, embora estultos, discutamos o que Zenão

definiu. Diz ele que pode perceber-se o qne parece tal

que nao possa parecer faiso, É certo que nada mais pode

ser percebido, «Concordo, diz Arcesilau, por isso ensino

que nada pode perceher-se, pois que nada assim pode

encontrar-se». Talvez tu, e outros estultos; mas por que

não poderá o sábio? E ao próprio estulto não poderias

responder, se te pedisse que com a tua penetração mostrasses

que podia ser falsa a própria definição de Zenão;

se não pudesses, tinhas nela algo percebido; se a relutasses,

não poderias contestar o conhecimento. Por mim,

I r 3

julgo-a verdadeira e irrefutável. Conhecendo-a, por

estulto que seja, sei alguma coisa. Vê-se a contestas

com a tua agudeza. Usarei um argumento seguríssimo,

Ou ela é verdadeira oú falsa; se ê verdadeira, estou

seguro; se falsa, algo pode perceber-se, embora tenha

sinais comuns com o falso. «Como assim?» dirá ele.

Pois Zenão definiu muito bem, e ninguém errou, concorT

dando com ele nisto. Teremos em pouco uma definição

que contra os que iam argumentar contra a percepção,

mostrava ser tal qual devia ser o que pode perceber-se?

Assim ela é definição e exemplo do que é compreensível

«Não sei, dirá ele, se é verdadeira; mas como é provável,

mostro, seguíndo-a, que nada existe tal qual ela diz

que pode perceber-se». Talvez o mostres, excepto para

ela; e creio que vês o que se segue. Se de ela mesma

estamos incertos, a ciência não nos deixa, porque sabemos

que é verdadeira ou falsa; logo sabemos alguma

coisa. Mas nunca serei ingrato, e considero esta definição

exacta. Ou se pode perceber o falso» o que os Académicos

tanto receiam e na verdade é absurdo; ou não

pode conhecer-se o que se parece com o falso. Logo a

definição é verdadeira. Mas vejamos o restante.

CAPITULO X

22^1 Se não errot isto basta à vitória, mas talvez não

à plenitude da vitória. Os Académicos formulam duas

sentenças que pretendo combater. Nada pode perceher-òe,

e Em nada devemos assentir. Falarei do segundo; vou

agora dizer alguma coisa da percepção.

Dizeis que nada pode perceber-se? Aqui despertou

Carnéades, pois nenhum dormiu menos do que ele, e

114

examinou a evidência das coisas. Suponho-o a falar consigo,

como ás vezes sucede, dizendo: Então, Carnéades,

dirás que não sabes se és homem ou formiga? Ou Crisipo

triunfará de t i? Digamos ignorar o que entre filósofos

se procura; o resto não nos diz respeito; e se eu

hesitar na luz quotidiana e vulgar, evocarei aquelas trevas

dos ignorantes onde só os olhares divinos podem

ver; e se me virem ofegante e caído, não me entregarão

tos cegos e menos aos arrogantes que têm vergonha de

ser ensinados. Vens na verdade bem preparado, talento

i^rego; mas não vês que essa definição é invento de filósofo

assente no vestíbulo da filosolia. Se tentares cortá-la,

o machado de dois gumes voltar-te-á ás pernas. Impugnada

ela, não só pode saber-se alguma coisa, mas até o

<|ue é muito semelhante ao falso, se não ousares destrui-

la, E o teu esconderijo, de onde atacas os incautos

que desejam avançar; algum Hércules te sulocará na tua

caverna, como fez ao semi-homem Caco, e te esmagará

sob as ruínas, ensinando-te que há em filosofia alguma

coisa que não podes tornar incerto, por semelhante ao

falso, Passo a outras coisas. Quem nisto insiste, Carnéades,

afronta-te, julga-te como morto que posso vencer

como e onde quiser. Se tal não cuida, é cruel, obrigando-

me a deixar o forte e a lutar contigo em campo

raso; mal começava a descer, aterrado pelo teu nome,

recuei, e do alto atirei alguma coisa que só os nossos

árbitros dirão se atingiu o alvo ou que resultado teve.

Mas ê inepto recear. Se bem me lembra, estás morto,

nem Alípio já tem direito de combater pelo teu sepulcro.

Deus me ajudará facilmente contra a tua sombra.

23) Dizes que em filosoíia nada pode perceber-se.

E para difundir o teu parecer, pensas que te ministrara

115

armas contra os filósofos as suas querelas e dissensões,

Como julgaremos a contenda entre Demócrito e os físicos

anteriores sobre o mundo único ou os mundos inúmeros,

se entre ele e o seu herdeiro Epicuro não pôde haver

acordo? Porque este voluptuoso, quando permitiu aos

átomos, como seus servos, isto é, aos corpúsculos que

lhe aprouve achar nas trevas, que não seguissem o seu

caminho mas declinassem em vários sentidos, dissipou

todo o seu património em constelações. Mas isto não

me respeita, Com efeito se à sapiência compete saber

alguma destas coisas, o sábio não pode ignorá-lo. Mas

se a sapiência é outra coisa, o sábio sabe-a, despreza o

resto. Eu, que nem sequer me aproximo da vizinhança

do sábio, algo sei de estas coisas físicas. Sei que o mundo

é uno ou múltiplo; se múltiplo, será em número finito

ou infinito. Ensine Carnéades que esta opinião é falsa,

Sei também que o nosso mundo foi disposto por natureza

dos corpos ou por alguma providência; ou que sempre

existiu e existirá, ou começou e não acabará; ou não

começou no tempo mas terá fim, ou teve começo e terá

iim, E muitas outras coisas físicas analogamente sei,

Estas disjuntivas são verdadeiras e inconfundíveis com

o falso, por semelhança com ele. Mas opta, diz o Académico.

Não quero. O mesmo é dizer: «Deixa o que

sabes, afirma o que não sabes». Mas a opinião fica suspensa

Antes suspensa que derrubada", mas é clara; mas

pode já dizer-se verdadeira ou falsa. Portanto digo que

a sei. Tu que não negas que tais coisas respeitem à

filosofia e aíirmas que nada pode saber-se de elas, prova

que não as sei, Dize que estas disjuntivas ou são falsas

ou tem algo comum com o falso, pelo que se confundem

com ele.

116

24} Se os sentidos enganam — diz —como sabes que

'> mundo existe? Nunca os vossos raciocínios puderam

lestruir a força dos sentidos a tal ponto que julgássemos

-íada aparecer; nem vós o tentastes alguma vez; tentastes

só persuadir-nos de que o parecer ê diferente do sen

Eu também, a este todo, seja qual for, que nos contém e

alimenta, que nos aparece como céu e terra, ou semelhante

ao céu e terra, chamo-lhe mundo. Se dizes que

nada me parece, nunca errarei. Só erra aquele que afirma

temerãriamente o que lhe parece. Dizeis que o falso

pode parecer verdadeiro aos sentidos, não dizeis que

nada lhes parece. Mas toda discussão cessa em que vos

agrada ter êxito se não só nada sabemos mas até nada

nos parece. Se negas que o que me parece seja o inundo,

a questão é só verbal pois disse já que chamo mundo o

que me parece,

25} Dirás: Durante o sono, mundo é o que vês? Já

:lísse que seja o que for que me aparece, lhe chamo

mundo. Mas se te agrada dar esse nome só ao que vêem

os despertos e os sãos, prova se podes que não è nesse

mundo que os doidos e os dormentes desvairam e dormem.

Digo por isso que esta mole de corpos, esta

máquina em que estamos, ou dormentes ou loucos, ou

despertos ou sãos, é una ou múltipla. Mostra que esta

opinião pode ser falsa. Pois se durmo, bem pode ser que

nada tenha dito; ou se ao dormir, algumas palavras proferi,

como sucede às vezes, pode ser que não as tenha

dito aqui, assim sentado e a estes ouvintes; mas não é

possível que isto seja falso. Nem digo que o percebi

por estar acordado. Poderias dizer que eu poderia assim

julgar durante o sono e portanto poderia assemelhar-se

LO falso. Mas se há um mundo e mais seis, há sete mundos,

117

seja qual for o modo como me afectam, e isto afirmo sem

receio que o sei. Esta conexão ou aquelas disjuntivas^

prova que possam ser falsas no sono, na loucura ou na

ilusão dos sentidos, e se acordado me lembrar de elas,

declarar-me-ei vencido. Creio bem patente que as coisas

que o sono e a demência revelam falsas, pertencem

aos sentidos; mas que três vezes três são nove e quadrado

de números inteligíveis, é verdade ainda que o

género humano ressone. Além de que muito poderia

dizer-se a favor dos sentidos, que não vemos contestado

pelos Académicos. Não creio na verdade que devamos

acusar os sentidos do delírio dos doidos ou das falsidades

do sono. Se eles informam bem os despertos e sãos,

que têm com as ficções do espírito dormente ou insano?

26) Resta saber se quando falam, falam verdade. Se um

epicurista disser: Não me queixo dos sentidos. E injusto

exigir-lhes mais do que podem; vejam os olhos o que

virem, vêem justo E então exacto o que vêem de um

remo na água? Inteiramente exacto. Dada a causa por

que assim parece, se o remo na água me parecesse

direito, então deveria acusar de engano os olhos, pois

não veriam em tal caso o que deveriam ver. Que mais

acrescentar ? O mesmo se diria do movimento das

torres, das aves, de factos inumeráveis. Alguém dirá

que me engano, se assentir. Pois não assintas para além

da convicção de que a coisa te parece assim, e não haverá.

decepção. Nem vejo como possa o Académico refutar

quem diga: sei que isto me parece branco; sei que isto

me deleita o ouvido; sei que me agrada este aroma; sei

que este sabor me é doce; sei que para mim isto é frio.

Dize-me se são amargas em si mesmas as folhas do zambujeiro,

que o bode devora com gosto. Que impertinente!

118

Bem mais modesto é o bode. Não sei como lhe sabem a

ele, mas para mim são amargas. Que mais queres? Mas

talvez o não sejam para alguns homens. Outra vez!

Acaso eu disse que o eram para todos? Falei de mim

e não o afirmo para sempre. Não é verdade que por

qualquer razão certas coisas nos são ora amargas ora

doces? O que digo é que o homem, quando saboreia,

pode jurar de boa fé que o sabor é suave ou não; e

nenhuma argúcia grega pode tirar-lhe este conhecimento.

Quem teria a impudência de dizer-me quando

me delicio com alguma coisa: «Talvez isso não passe

de um sonho!» Pois eu disse o contrário? Mas até no

sonho o sabor me deleitaria. Pelo que, o que digo que

sei nenhuma semelhança tem com o falso. E Epicuro

ou os Cirenaicos muito mais diriam a favor dos sentidos

e não sei que os Académicos os tivessem refutado.

Nem me importa. Até os ajudaria, se quisessem e pudessem

refutar. O que alegam contra os sentidos não vale

contra todos os filósofos. Alguns há que das impressões

recebidas dos sentidos pelo espírito afirmam poder vira

opinião, não a ciência. Esta julgam-na contida na inteligência,

fora dos sentidos. Talvez seja de estes o sábio

que procuramos. Passemos a outra coisa; pelo que dissemos,

se não erro, em breves palavras o explicaremos.

CAPÍTULO .XI

27) Em que é que os sentidos ajudam ou se opõem

a quem trate de moral? Se nada impede os que vêem

na voluptuosidade o sumo bem do homem, seja o pescoço

da pomba, ou uma voz incerta ou o peso grande

para o homem e pequeno para o camelo ou muitas outras

119

coisas, de dizer que se sabem deleitados pelo que os

deleita, magoados pelo que os magoa (e não vejo como

desmenti-los) abalarão aquele que encerra na mente o

fim do bem? Qual escolhes? Se me perguntares, penso

que está na mente o sumo bem do homem. Vejamos

agora quanto à ciência. Interroga o sábio que não pode

ignorar a sapiência; mas a mim, ainda quando tardo e

estulto, é-me lícito entretanto saber que o fim do bem

humano, pelo qual a vida é feliz, ou não existe, ou existe

na alma ou no corpo ou em ambos. Convence-me, se

podes, de que o não sei; as vossas conhecidíssimas razões

são impotentes. Se não podes, pois não lhe acharás

semelhança alguma com o falso, porque não concluirei

que julgo com razão que o sábio sabe quanto há verdadeiro

em filosofia, pois que eu próprio ali achei tantas

verdades ?

28) Mas talvez receie escolher, dormindo, o sumo

bem. Não importa; ao despertar, repudiá-lo-á, sç lhe

desagradar, conservá-lo-á, se lhe agradar. Quem o censurará

por ter visto algo falso em sonho? Ou receará

talvez perder no sono a sabedoria, aprovando o falso por

verdadeiro? Nem um dormente ousa sonhar que haja

na vigília de chamar sábio, a quem o não chama no sono.

O mesmo pode dizer-se da loucura; mas devo passar a

outro assunto. No entanto, não esquecerei uma conclusão

seguríssima. Ou pela loucura se perde a sabedoria

e já não é sábio aquele que dizeis ignorar a verdade ou

a ciência lhe fica na inteligência, ainda quando a restante

parte da alma imagine como em sonho o que recebeu

dos sentidos.

1 20

CAPÍTULO XII

29) Resta a dialéctica, que o sábio bem conhece e

ninguém pode conhecer o falso. Mas se a ignora, não

pertence à sapiência o conhecimento sem o qual ele

pôde ser sábio, e supérfluo é buscarmos se ela é verdadeira

ou pode conhecer-se. Alguém me dirá: —Costumas,

estultamente, apresentar quanto sabes. De dialéctica

nada aprendeste? Mais do que em qualquer outra

parte da filosofia. Primeiro, aprendi nela que são verdadeiras

as proposições de que me servi; e além disso

aprendi muitas outras verdades. Contai-as se puderdes.

«Se há quatro elementos no mundo, não são cinco; se o

sol é um, não são dois. A mesma alma não pode ser

mortal e imortal. O homem não pode ser simultaneamente

feliz e infeliz. Aqui não pode ao mesmo tempo

luzir o sol e ser noite. Neste momento ou dormimos ou

estamos acordados. O que julgo ver ou é ou não é corpo».

Estas e muitas outras coisas de longuíssima enumeração

por ela aprendi que são verdadeiras em si, independentemente

dos sentidos. Ela me ensinou que, aceito o antecedente

nas proposições anteriores, o consequente é

necessário. Nos enunciados incompatíveis ou disjuntivos,

negados algum ou alguns o restante é confirmado pela

eliminação dos primeiros, Também me ensinou que,

feito o acordo nas coisas, não devem discutir-se palavras;

quem o fizer, se for imperito, ensine-se; se malévolo,

deixe-se. Se não pode ensinar-se, avise-se de que

não perca tempo e trabalho inutilmente; se não obedecer,

despreze-se, Quanto a razões capciosas e falazes, é

simples a regrar se assentam em concessão má, deve

regressar-se ao ponto de partida. Se misturam verdade

e erro, aceite-se o inteligível, deixe-se o inexplicável,

121

Se era alguma coisa a verdade se oculta ao homem, não

tentemos sabê-la. isto e muitas coisas que é inútil lembrar,

aprendi na dialéctica. Não devo ser ingrato. Mas

ou o sábio despreza tudo isto ou, se a dialéctica é a própria

ciência da verdader conhece-a bem para desprezar

e deixar morrer de fome o falsíssimo raciocínio: — se é

verdadeiro é falso; se falso, é verdadeiro. Julgo isto

bastante quanto á percepção, pois quando me ocupar do

assentimento voltarei ao mesmo tema.

CAPITULO XIIÍ

30) Passemos agora ás dúvidas de Alípio* E vejamos

primeiro o que te move com tanta agudeza e cautela

» Se a tua ideia que nos força a conlessar muito

mais provável que o sábio conhece a sapiência, se opõe

à opinião dos Académicos apoiada em tantas e tão sólidas

razões (como disseste) de que o sábio nada sabe,

mais deve evitar-se o assentimento. Por isso prova que

sejam quais íorern os argumentos copiosíssimos e subtilíssimos,

sempre é possível, com algum engenho, opor-

-lhes outros talvez mais fortes* E assim, vencido, o Académico

vencerá. Oxalá seja vencido, pois que nenhuma

outra arte pelasga fará que ele se aparte ao mesmo tempo

vencido e vencedor. Nada pode alegar-se em contrário e

já me declaro vencido. Mas não se trata de lutar pela

glória, mas de achar a verdade. Basta-me ultrapassar

de qualquer modo a mole que se opõe aos neófitos da

filosofia, e ameaça torná-la em não sei que tenebrosos

recessos e não permite a esperança de nela achar a

menor claridade* Se é provável que o sábio já sabe

alguma coisa, nada mais desejo. Com efeito, nenhuma

J 2 2

outra razão havia para parecer verosímil dever suspender

o assentimento senão o ser verosímil que nada

pode saber-se* Se assim não ét pois se concede que o

sábio conhece a sapiência, nada impede que ele dê

assentimento à sapiência mesma. Sem dúvida é mais

monstruoso o sábio não aprovar a sapiência do que

ignorá-la,

31) Ora vejamos esse capítulo de luta entre o sábio

e a sapiência. Que dirá ela, senão que é a sapiência ?

E o sábio, em resposta: Não creio. Mas quem diz à

sapiência não crer que ela o seja? Quem, senão aquele

a quem ela falou e onde habitou, isto é, o sábio ? Pedi-me

agora que lute com os Académicos! Aqui tendes nova

luta: o sábio contra a sapiência. O sábio não quere

assentir na sapiência. Eu espero tranquilo convosco.

Pois quem não a julga invencível? Mas consideremos

outro argumento* Ou o Académico vence a sapiência e

é vencido por mim, porque não será sábio; ou será ven*

eido por ela e nós ensinaremos que o sábio aprova a

sapiência* Assim, ou o Académico nao é sábio ou o

sábio assentirá em alguma coisa; a não ser que quem

se envergonhou de dizer que o sábio ignora a sapiência,

não se envergonhe de dizer que o sábio não aprova a

sapiência. Mas se já é verosímil que a percepção da

sabedoria compete ao sábio, e nada impede de assentir

ao que pode perceber-se, vejo que é verosímil o que eu

pretendia, isto é, que o sábio deve assentir na sapiência.

Se perguntares onde encontra ele a sapiência, respondo:

em si mesmo. Se disseres que ele ignora o que tem, voltas

ao absurdo de o sábio ignorar a sapiência* Se negas

que ele possa encontrar-se, a discussão já não é com os

Académicos, mas contigo, e de isso falaremos. Pois que

123

eles, quando isto discutem, é certamente do sábio que

discutem. Clama Cícero que ele próprio opina mas

que se ocupa do sábio. Se vós, rapazes, ainda o ignorais,

decerto lestes em Horlènsio: Se nada é certo, e

não é de sábio opinar, o sábio nunca aprovará coisa

alguma. De onde se vê que tratavam do sábio nas discussões

contra as quais nos batemos.

30 Julgo pois que a sapiência é certa para o sábio,

isto é que ele a apreende. E portanto não opina quando

aprova a sapiência, pois só aprova aquilo sem cuja percepção

não será sábio. Eles só afirmam que não deve

aprovar-se senão o que pode conhecer-se. Mas a sapiência

é alguma coisa. Portanto, sabendo a sapiência e aprovando

a sapiência, o sábio sabe e aprova alguma coisa.

Que mais quereis ? Falaremos do erro que, segundo eles

se evita não assentindo em coisa alguma. Erra — dizem

— quem aprova não só o íalso mas o duvidoso, ainda

quando verdadeiro; mas nada acho que não seja duvidoso.

Mas o sábio, como dissemos, achou a sapiência.

CAPÍTULO XIV

33) Quereis talvez que eu mude de assunto. Não

devem deixar-se facilmente razões seguríssimas ao lidar

com homens muito astutos; mas vou fazêlo. Mas que

direi ? O velho assunto de que eles próprios falam.

Que hei-de fazer, expulso por vós da minha fortaleza?

Pedirei o auxílio dos mais doutos, para que se, com eles

não vencer, talvez me envergonhe menos de ser vencido?

Atirei pois com toda a força o dardo gasto e enferrujado,

mas se não erro, certeiro. Quem nada aprova nada faz.

124

Pobre rústico! É o provável? E o verosímil? Era o

que queríeis. Ouvis o som dos escudos gregos? O tiro

foi certeiro; mas com que mão o atirámos! Os meus

nada me sugeriram mais forte; nem fizemos, como vejo,

a menor ferida. Voltar-me-ei para o que ministram vila

e campo; coisas maiores mais me pesam do que auxiliam.

34) Pensando demoradamente, aqui no campo, de

que modo o provável ou verosímil poderia defender do

erro os nossos actos, pareceu-me primeiro, como quando

vendia estas coisas, bem coberto e protegido. Depois,

circunv^igando-o cauteloso, julguei ver uma entrada por

onde o erro atacava os desprevenidos. Porque não creio

que só erra quem segue trilho errado, mas também quem

não segue o verdadeiro. Suponhamos dois viajantes, que

vão para o mesmo sítio, um, crédulo em excesso, outro

resolvido a duvidar de tudo. Chegam a uma encruzilhada.

O crédulo pergunta a um pastor ou qualquer

aldeão: — Deus te salve, amigo. Dize-me por favor, por

onde se vai para tal lugar?—Responde-lhe: Por aqui

vais certo. — O crédulo diz ao companheiro: — Vamos

por aqui. — O cauteloso ri-se, chaqueia do assentimento

fácil e fica ali enquanto o outro se afasta; e já começa

a achar vergonhosa a situação, quando se aproxima, do

outro lado, um cavaleiro nobre e urbano. Alegra-se.

Saúda e pergunta que caminho deve seguir. Diz-lhe o

motivo da paragem, para lisongeá-lo pela preferência

sobre o pastor. Por acaso, ele era dos que o vulgo

chama Samardacos. Esse homem péssimo procede como

costuma, sem qualquer vantagem. — E de lá que eu

venho. — Enganou-o e afastou-se. Quando é que ele foi

enganado? Não diz que aprova a informação como ver-

125

dadeira mas como provável; parar não é útil nem decoroso;

segui-la-ei. Entretanto aquele que errou, assentindo

rapidamente às palavras do pastor, já descansava no

lugar do destino, ao passo que o outro, sem errar, pois

que seguiu o provável, perde-se em não sei que florestas,

nem acha quem o oriente, A falar verdade, ri-me

ao pensar que, segundo os Académicos, erra quem por

acaso segue o bom caminho e o que segue o provável,

por montes ínvios e não aclia o lugar procurado, não

parece errar. Para condenar o assentimento temerário,

eu diria que ambos erram, nunca porém que não erre o

segundo, Comecei por isso a considerar cuidadosamente

as palavras, actos, e até os costumes de esses homens,

Acudiram-me então tais e tantas razões contra etes, que

já não ria, mas em parte me irritava em parte lamentava

ver homens tão doutos e penetrantes, convictos de tão

criminosas sentenças e erros indesculpáveis.

CAPÍTULO XV

35) Certo não pecam todos os que erram; mas quem

peca sem dúvida erra ou pior ainda. Se um rapaz os

ouvir dizer: — E vergonhoso errar, por isso nunca devemos

dar assentimento; mas quem segue o provável nem

peca nem erra; basta lembrar que não deve aprovar-se

por verdadeiro o que se apresenta ao espirito ou aos

sentidos — ouvindo isto, o adolescente irá atentar contra

o pudor da mulher alheia* A ti te consulto, M. Túlio.

Tratamos da vida moral dos adolescentes, que as tuas

cartas procuram educar e formar* Que dirás, senão que

não julgas provável que o adolescente assim proceda?

Mas para ele é provável. Se devemos seguir o provável

126

alheio, não deverias governar o Estado pois que a Epicuro

não pareceu que devesse fazer-se. O rapaz seduzirá, portanto

a mulher alheia; se for apanhado, onde te achará

para defendê-lo? E se te encontrar, que dirás? Claro

que negarás. Mas se o caso for tão claro que a negação

seja inútil ? Alegarás decerto, como no ginásio de dunas

ou de Nápoles, que não houve erro nem pecado. Não

julgou verdadeiro que o adultério não devia ser cometido.

Seguiu o provável, executou-o; ou talvez não e

só lhe pareceu que o executava» Mas o estúpido do

marido perturba tudo, litiga pela castidade da mulher,

com a qual talvez agora dorme e não o sabe. Os juízes

então ou desprezam os Académicos e punem um crime

autêntico, ou seguein-nos e condenam o homem verosímil

e provavelmente, de modo que o defensor não sabe

que fazer. Não poderá acusar alguém, todos dirão que

erraram, fazendo o que lhes pareceu provável sem dar

o seu assentimento. Passará então de defensor a consolador

filósofo. Convencerá facilmente o adolescente, tão

instruído na Academia, a pensar que foi condenado em

sonho. Julgais que gracejo; juro por quanto há divino

que não sei como ele pecou se quem segue o que julga

provável não peca. A não ser que digam muito diferente

errar e pecar e que nos deram preceitos para não errar;

mas o pecar não o têm por muito importante,

36) Nada direi de homicídios, parricídios, sacrilégios,

em suma, dos erros e crimes que podem praticar-se

ou pensar-se, que em poucas palavras e o que é mais

grave, junto de juizes sapientíssimos, se defendem. Nada

aprovei e portanto nada errei. Como não fazer o que

parece provável? Quem julga que isto não pode persuadir-

se com probabilidade, leia a oração de Catilina

127

que aconselha o parricídio da pátria, que abrange todos

os crimes. Quem não rirá de isto? Eles próprios dizem

que na prática seguem o provável, e procuram a verdade,

embora julguem improvável achá-la. Admirável

monstruosidade! Mas deixemos isto, que nos interessa

menos a nós, ao rumo da nossa vida, ao perigo da nossa

sorte. O que é capital, temeroso, assustador para as

almas justas, é que se aquela razão é provável, pode

cometer-se qualquer crime sem ser acusado de infâmia,

nem sequer de erro, contanto que se julgue seguir o provável

sem assentir em coisa alguma. E então? Não

viram isto? Certamente o viram com o maior cuidado

e prudência; nem eu pretendo de modo algum igualar a

indústria, penetração, talento, doutrina de M. Túlio; no

entanto, quando ele diz que o homem nada pode saber,

se alguém dissesse apenas — sei que assim me parece —

nada teria que responder.

CAPITULO XVI

37) Como é que tão grandes homens pertinazmente

discutiram que ninguém parecia possuir o conhecimento

da verdade? Ouvi agora o que reservei para o fim, para

mostrar o que julgo ser o pensamento dos Académicos.

Platão, o homem mais sábio e erudito do seu tempo, que

falou de tal modo que tudo quanto disse íoi grande e

não se apoucou, diz-se que depois da morte de Sócrates,

seu mestre amado, aprendera muitas coisas com os pitagóricos.

Pitágoras, não contente com a filosofia grega,

então quási nula ou oculta, impressionado pelas discussões

de certo Sírio, Ferécidas, acreditou na imortalidade

da alma e nas suas viagens ouviu muitos sábios. Platão,

128

juntando à finura e subtileza socráticas na moral, o saber

das coisas naturais e divinas, que recebera dos que acabo

de referir e acrescentando-lhes como organizadora e juiz

a dialéctica, que ou é a sabedoria ou sem a qual não

existe a sabedoria, diz-se que compôs a filosofia perfeita,

de que não temos de falar agora. Basta ao que pretendo

que Platão julgou haver dois mundos: um, inteligível,

domínio da verdade, outro sensível, que conhecemos pela

vista e pelo tacto. Aquele é verdadeiro, este verosímil

e feito à imagem do primeiro. Do primeiro pode gerar-se

a verdade límpida e serena na alma que se conhece; do

segundo, na alma dos estultos, não a ciência mas a opinião.

Contudo, quanto se faz no mundo pelas virtudes

que chamava civis, semelhantes às verdadeiras, só de

poucos sábios conhecidas, podia apenas chamar-se verosímil.

38) Estas e outras coisas análogas, julgo que os sucessores

as conservaram como mistérios. Ou não são facilmente

percebidas senão pelos que se limpam de vícios

em vida mais que humana ou quem as conhece não

peca gravemente querendo transmiti-las a todos. Assim

quando Zenão, príncipe dos Estóicos, depois de muito

ouvir e aceitar, veio à escola platónica, então dirigida

por Polemon, suponho que foi suspeito e não o julgaram

digno de comunicar-lhe facilmente os decretos sacrosantos

de Platão, antes de esquecer o que aprendera em

outras escolas. Morre Polemon e sucede-lhe Arcesilau,

condiscípulo de Zenão sob o magistério de Polemon.

Pelo que, quando Zenão se deleitava com doutrina sua

do mundo e principalmente da alma, objecto da verdadeira

filosofia, dizendo que ela é mortal, que só existe o

mundo sensível, que nele só o corpo actua e o próprio

129

Deus é fogo, Arcesilau, prudentíssima e utilissimamente,

creio eu, vendo irradiar o mal, ocultou a opinião da Academia,

como oiro que os sucessores haviam de vir a

desenterrar. E como a turba aceita mais prontamente as

falsas opiniões, e facilmente mas com prejuízo o hábito

do corpóreo leva a supor que tudo o é, preferiu aquele

homem, de grande saber e penetração deseducar os que

sentia indoutos a ensinar os que não supunha dóceis.

De aqui o que se atribui à Nova Academia e de que as

velhas não tinham precisado,

39) E se Zen^lo, alguma vez esclarecido, tivesse

visto que só era perceptível o que a sua própria definição

abrangia e que nos corpos, a que ele atribuía tudo,

tal não podia encontrar-se, teriam lindado tais discussões,

ateadas por grande necessidade. Mas Zenão, enganado

por falsa ideia da constância, no parecer dos próprios

Académicos, e no meu também, íoi pertinaz, e a

sua perniciosa fé no corpóreo foi sobrevivendo até Crisipo,

que lhe dava (e bem podia) grandes forças de difusão,

se Carnéades mais penetante e meticuloso que os

seus predecessores não se lhe tivesse oposto de tal modo

que me surpreende o valor que aquela opinião ainda

pôde manter. Foi Carnéades o primeiro que desprezou

a impudência com que Arcesilau era atacado e infamado

seriamente; não atacou tudo para não parecer vaidoso

mas propôs-se derrubar e vencer os Estóicos e Crísipo.

CAPÍTULO XVII

40) Atacado então por todos, pois que se o sábio

nada aprova nada fará (homem admirável, na verdade

não admirável, pois que fluia das mesmas fontes de Pia-

130

tão) estuda sabiamente as acções aprovadas e vendo-as

semelhantes a não sei que acções verdadeiras, chamou

verosímil ao que no mundo orienta a acção» Bem sabia

ele e ocultava prudentemente com que se parecia esse

verosímil ou provável. Sabe aprovar a imagem quem

conhece o original. Como pode o sábio aprovar ou

seguir o verosímil se ignora o verdadeiro'/ Assim

conheciam e aprovavam coisas falsas em que achavam

Jóuvável semelhança das verdadeiras. Mas como não

era licito nem fácil mostrá-lo aos profanos, deixavam

aos pósteros e a alguns da sua época, um sitiai do seu

parecer. E impediam, pelo insulto ou pelo escárneo os

bons díalectas de discutir as palavras. Por isso Carnéades

é considerado chefe e autor da terceira Academia.

41) Durou a discussão até o nosso Túlio, já enfraquecida,

e deu às letras latinas o último influxo intumecedor.

O pior intu meei mento, a meu ver, é falar

sem convicção com tanta abundância e tantos ornatos-

Parece-me, entretanto, que por esse vento íoi dissipado

e disperso o célebre platónico Ántíoco. Os rebanhos de

Epicuro colocaram os seus estábulos ao sol no espirito

dos povos sensuais. Por isso Anti oco, discípulo de

Fílon, homem que julgo circunspectíssimo, que já começava

como que a abrir as portas aos inimigos vencidos

e a trazer a Academia de novo à autoridade e leis de

Platão, como antes tentara Metrodoro, foi — diz-se — o

primeiro que confessou não ser opinião dos Académicos

que nada pode saber-se, mas que tinham tido de combater

com essas armas os Estóicos. Antíoco, portanto,

como ia dizendo, tendo ouvido o Académico Fílon e o

estóico Mnesarco, entrara como adjutor ou sócio na Academia,

quase vazia de defensores e de inimigos, levando

*&

aão sei que mal das cinzas dos estóicos, que violava 05

segredos de Platão. Mas Filon arrancadas essas armas

resistiu até à morte, e o nosso Túlio destruiu o que restava,

não consentindo que em sua vida se perdesse ou

contaminasse o que ele amava; pouco tempo depois, perdida

toda pertinácia e teimosia, o pensamento platónico,

o mais límpido e lúcido da filosofia, alugentou as nuvens

do erro, principalmente em Plotino, lilósolo platónico

tido por tão semelhante a Platão, que se diria terem

vivido juntos, se o longo intervalo não levasse . crer

que nele reviveu,

CAPÍTULO XV 111

42) E assim, quase não vemos agora íilosóíos, senão

Cínicos, Peripatéticos ou Platónicos; e os Cínicos, é porque

os deleita a liberdade e licença da vida. Quanto ã

erudição e à doutrina, e aos costumes, que governam a

lima, alguns homens penetrantíssimos e muito cuidadosos

ensinaram, em suas discussões, que só os imperitos

e os desatentos podiam julgar discordes Aristóteles e

Platão; mas creio que só discussões multi-seculares

purificaram uma disciplina de verdadeira íilosofia. Não

a íilosofia de este mundo, justamente abominada pelos

nossos mistérios mas a do inteligível a que esta razão

BUbtiiíssima nunca teria atraído as almas, cegas pela

treva multiforme do erro e esquecidas na sordidez corpórea,

se o sumo Deus clemente não tivesse declinado

e submetido ao próprio corpo humano a autoridade da

inteligência divina, para que elas pudessem, excitadas

não só pelos preceitos mas pelos factos, concentrar-se e

contemplar a pátria, sem o conflito das discussões.

132

CAPÍTULO XIX

43) Tal o juízo provável que vim, conforme pude, a

lormardos Académicos. Se é íalso, Dão importa; basta-me

não crer que o homem não pode alcançar a verdade,

}uem aos Académicos dá esta opinião, oiça o próprio

Cícero. Pois ele diz que ocultavam a sua doutrina e só

a revelavam aos que com eles conviviam até a velhice.

• teus sabe qual era; eu julgo iosse a de Platão. Mas,

ara falar-vos claro, seja o que lôr a sapiência humana;

*ejo que ainda não a possuo* Mas apesar dos meus

rinta e três anos julgo que não devo desesperar de

ilcançá-la, Desprezando tudo o que os homens chamam

bens, resolvi procurá-la. Como as razões dos

Académicos me arrastavam, julgo ter-me armado contra

eles por esta discussão. Ninguém ignora que só

aprendemos pelo peso da autoridade ou da razão. Para

mim é certo que nunca me afastarei da autoridade de

Cristo, que tenho por superior a todas. Quanto ao que

exige raciocínio subtil, pois que desejo ardentemente não

só crer mas compreender a verdade, confio poder encontrar

entre os platónicos o que não repugne aos nossos

mistérios,

44^ Então, vendo terminado o discurso, os rapazes,

embora já íosse noite e se tivesse escrito alguma coisa

á luz de uma candeia, esperavam atentos a resposta ou

a promessa de resposta de Alipio.

Alipio — Nunca tive maior desejo do que o de ficar

vencido nesta discussão, e julgo que esta alegria não é

30 minha. Partilhá-la-ei convosco, meus companheiros

3U juízes nossos. Talvez de esta maneira desejaram os

Académicos ser vencidos pela posteridade. Que pode-

133

riam dar-nos mais jucundo pela graça, mais ponderado

pela gravidade das sentenças, mais pronto pela benevolência

e mais perito pela doutrina do que este discurso?

Nunca admirarei demais ver tratadas tão delicadamente

as asperezas, tão fortemente as diiiculdades, tão moderadamente

as convicções, tão lucidamente as obscuridades.

Companheiros, convertei a espectativa da minha resposta

na segura esperança de vos instruirdes comigo. Temos

guia para os arcanos da verdade, que Deus já nos mostra.

45) Aqui eu, vendo no rosto de eles que se julgavam

defraudados pela falta de resposta de Alípio, disse-lhes

rindo:

— Invejais os meus louvores ? Mas como já não receio

Alípio, por estar seguro da sua constância, instruir-vos-ei

contra ele, para que me agradeçais, visto ele ter iludido

a vossa esperança. Lede os «Académicos» e quando

achardes (nada mais fácil) Cícero vencedor de estas bagatelas,

obrigai-o a defender este meu discurso contra aquelas

razões invencíveis. Esta dura mercê te dou, Alípio,

em paga do teu falso louvor.

Riram-se; e concluímos assim a longa discussão, não

sei se com firmeza, mas com moderação e rapidez maiores

do que eu esperava.

*34

ÍNDICE

Prefácio

Pág.

5

LIVRO i 5I

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.. . . . 61

2.a discussão

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