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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

SANTA THEREZINHA ~ A Flor de Lisieux ~

SANTA THEREZINHA

~ A Flor de Lisieux ~


Santa Teresa do Menino Jesus
Doutora da Igreja


Cidade do Vaticano, 19 de outubro de 1997

O Papa João Paulo II elevou, hoje, Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face a doutora da Igreja. Isso significa que os escritos que deixou passam a ter status de doutrina. Santa Teresa, que morreu de tuberculose em 1897, aos 24 anos, e passou toda a sua juventude no convento das Carmelitas em Lisieux, na França, é o 34º nome da lista dos santos que se tornaram doutores da Igreja, e a terceira mulher a ser elevada a esta posição. O Vaticano informou que o Papa concedeu a honraria a Santa Teresa porque, apesar de jovem e de não ter cursos superiores, ela mostrou a todos os fiéis a importância da homilia no ensino teológico. A concessão da honraria aconteceu durante missa celebrada na basílica de São Pedro, no Vaticano, ante dezenas de milhares de fiéis. As Obras Completas de Santa Teresa acabaram de ser publicadas com o aval do Vaticano. Seus escritos eram, na maioria, poesias, mas Santa Teresa também escreveu um diário — História de uma alma — de grande impacto. Editadas em apenas um volume, as Obras Completas têm mais de 1.500 páginas. Segundo o Vaticano, a Santa explicou de maneira simples, com palavras próprias, como se chega a Deus "fazendo pequenas coisas", e demonstrou que qualquer pessoa pode alcançar a santidade. Santa Teresa foi canonizada em 1925 e se converteu em uma das santas mais populares, a quem vários milagres foram atribuídos.

Prólogo

"Nada é tão cheio de mistério como as silenciosas preparações que esperam pelo homem desde o limiar de cada vida. Tudo vem a termo, antes de completarmos nossos doze anos" (Péguy). No que diz respeito a Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, tudo veio realmente a termo só aos trinta de setembro de 1897, quando ela, minada pela tuberculose, expirou na enfermaria do Carmelo de Lisieux, com a idade de vinte e quatro anos. Sem embargo, por ela também falava Péguy, seu contemporâneo, se é verdade que um destino se arraiga num solo, numa época, numa família, e que se torna tributário de uma hereditariedade, de uma história. Ninguém é ilha. Teresa não desceu do céu, como se fosse um anjo. Nasceu em chão normando, na dependência de seus maiores e de sua terra. Antes que o mundo celebrasse Santa Teresa de Lisieux e seu caminho de infância, existiu uma criança: Thérèse Martin, de Alençon. Ela é exatamente o misterioso fruto daquelas preparações silenciosas. Tivessem seus pais: Louis Martin e Zélie Guérin, seguido cada qual o pendor de seu coração, "a maior Santa dos tempos modernos" não teria chegado à luz da existência, no dia 2 de janeiro de 1873.

Nos últimos séculos, nenhum santo tem merecido culto comparável ao de Santa Teresa do Menino Jesus. No entanto, houve autores cristãos que, durante uma certa época, quiseram provar que toda a doutrina de Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face não passaria de um entusiasmo popular passageiro, não resistindo a uma análise teológica mais acurada. Isto porque, até então, a noção de santidade era intimamente ligada a martírios de toda sorte, transportes místicos, vidas inteiramente diversas da que uma pessoa comum poderia levar. A influência universal e profunda exercida pela santa de Lisieux excedia, no entanto, tudo que se poderia imaginar. É de fato um fenômeno. História de uma alma, sua autobiografia publicada postumamente, transformou-a em objeto de um culto calcado principalmente na sensibilidade e na delicadeza, numa certa intimidade que em pouquíssimo tempo transformou Santa Teresa numa imagem "familiar". Esta espécie de catolicismo intimista e cotidiano fez com que os brasileiros viessem a chamá-la de Teresinha, em oposição à severa Santa Teresa d'Ávila, filósofa admirável da Fé.

Mas por que História de uma alma suscitou entre os católicos esta espécie de culto? Por que, ao ler o livro, temos a certeza de aproximarmo-nos inteiramente da alma de Santa Teresinha?

Pode-se dizer que esta intimidade criou um novo modelo de santidade, com uma postura inovadora para a época — sem mortificações excepcionais, nem fenômenos místicos tais como visões ou êxtases; ao contrário, incentivou coisas simples como orações e profundas meditações, sem atos externos de impacto. Trata-se do método da excelência da virtude nas pequenas coisas.

Suas características mais marcantes são basicamente a simplicidade, a magnanimidade e a mais profunda alegria, mesmo sob as mais rigorosas provações. Sabedoria e força, com doçura. Esta é a santidade possível e este foi o sistema de Santa Teresa.

No Brasil, sobretudo no início do século, a influência marcante da cultura francesa veio se somar ao catolicismo tradicional, herdado dos portugueses, propiciando uma acolhida peculiar à veneração da jovem santa. Em 1925 foi erigida no Rio de Janeiro, à entrada do túnel Novo, entre Botafogo e Copacabana, uma igreja em sua honra. A santa que já era chamada pelo apelido carinhoso de Teresinha, transformou-se em uma "santa da família". A dramaticidade luminosa da jovem freira, com sua intensa vida interior, exerceu grande apelo ao mesmo tempo popular e intelectual. O povo em geral passou a cultuá-la e sua vida começou também a inspirar nossos escritores.

No dia 14 de julho de 1921, na véspera da sua morte, o poeta Alphonsus de Guimaraens escreveu os seus "Últimos Versos", em louvor de Santa Teresa:

(...) Mais uma vez a mágoa imensa do teu clarão,
Veio tremendo na onda clara e densa,
Até meu coração.
E pude ver-te, contemplar-te pude,
Como a imagem da virtude
E da pureza,
Cheia de luz,
Como Santa Tereza
De Jesus!

Em 1928 Jorge de Lima dedica-lhe o poema "Santa Teresinha do Menino Jesus", e parece ter sido ele o primeiro a chamá-la pelo diminutivo carinhoso. Mais ou menos na mesma época, 1930, Manuel Bandeira escreveu "Oração a Teresinha do Menino Jesus", em que pede a alegria da santa para si. Sérgio Buarque de Holanda, no seu clássico Raízes do Brasil, ressalta-lhe o lado "amável e fraterno". Gilberto Freyre explica a veneração pela simbologia de "uma namorada mística". Dunshee de Abranches e Luís Guimarães dedicam-lhe poemas que ressaltam a figura delicada da "petite Thérèse", numa atmosfera simbolista, tão cara à juventude de ambos. Mas foi Ribeiro Couto que fez a descrição definitiva do estado de admiração da alma coletiva do brasileiro de então (1934), em seu livro Presença de Santa Teresinha, ilustrado por Portinari:

Cada criatura humana tem seu jeito pessoal de ficar de mãos postas diante do que vem de Deus. Não sei falar de Santa Teresinha senão à minha maneira. (...) (com) uma confiança poética e fraternal que tomei por ela, por instinto. (...) Santa Teresinha, mais do que qualquer pessoa celeste, é essencialmente quotidiana.

A inocência e o amor divino ganharam ressonância de modo inconsciente entre nós: inúmeras meninas foram batizadas com o nome de Teresinha e a canção de roda, tão conhecida, fez com que muitos desejassem ser "aquele a quem Teresa deu a mão".

A vocação de Teresa: o Carmelo de Lisieux

Quando Thérèse decidiu entrar para o Carmelo, muitos foram os obstáculos a vencer, tanto por parte dos familiares como também dos próprios religiosos. Mas Thérèse não desistiu. Sendo assim, havia ainda uma única chance: o Papa Leão XIII.

Para Thérèse, Leão XIII é maior do que todos os monumentos de Roma. Consciente ao extremo de sua própria pequenez, sente-se ainda menor diante de tanta grandeza. Diante do Bispo de Bayeux, ela já havia diminuído à dimensão de uma formiga. Face ao Papa, pensa que não passaria de um grão de pó. Leão XIII, que jamais admitiu a perda de Roma e do poder temporal, fez do Vaticano o símbolo de sua resistência. Papa desde 1878, conta, na época, setenta e sete anos. Nesse ancião já cansado é que Thérèse coloca sua última esperança, principalmente porque as últimas notícias de Lisieux não são nada animadoras.

Dom Hugonin mostra-se cada vez mais reticente em relação ao projeto de Thérèse. Uma menina de quinze anos entrando para o Carmelo, eis um motivo a mais para os protestos dos anticlericais que continuam a ver as religiosas com os olhos de Diderot e do seu livro A religiosa, que apresenta os conventos como sucursais de Lesbos!

Para vencer as resistências, enfrentar a opinião pública e fazer calar as comadres de Lisieux, uma só palavra de Sua Santidade seria suficiente. Thérèse sabe-o muito bem e escreve à Pauline: "Posto que o bispo não concorda. o último recurso que me resta é falar com o Papa." E assina a carta: "um brinquedinho de Jesus". Imagina-se como uma bola com que Jesus brinca e leva para onde quer, divertindo-se. Logo ela, que detesta brincar, quer ser o brinquedo de Jesus. Mas será que Ele jogaria sua bola no Vaticano? A vontade divina dobrará a vontade papal? Nada mais incerto...

A audiência está prevista para domingo, 20 de novembro. Na véspera do grande dia, Thérèse escreve à prima Marie Guérin: "Amanhã falarei ao Papa, (...) se você soubesse como meu coração bate forte quando penso em amanhã!" Para melhor compreender sua aflição é preciso saber que a imagem do Papa é, nesta época, assimilada à imagem de um deus vivo, não terreno, instalado em meio a nuvens de incenso, ofertado à veneração dos fiéis do alto de um andor carregado por guardas.

No romance Roma, de Émile Zola, que seria publicado em 1895, um dos protagonistas é justamente Leão XIII e o herói, abade Pierre Froment, apresenta assim o senhor do Vaticano:

Agora que seu reino terrestre teve fim, de que soberania espiritual se encontra investido este senhor, magro, pálido, diante do qual vira mulheres desmaiarem como atingidas por um raio da divindade duvidosa emanada de sua pessoa? Não eram apenas as glórias retumbantes, os triunfos dominadores da história que aconteciam diante dele, era o próprio Céu que se abria.

Diante de tanta majestade, Thérèse desmaiaria? Ela teme o pior. Na verdade, o centésimo-qüinquagésimo-quarto representante de São Pedro na terra é imponente e a perda de seu poder absoluto, diante de quem o rei da Itália se sentia como um menino. O que dizer, então, de Thérèse? Mesmo as nobres damas de Coutances e de Bayeux estão impressionadas. E essas damas sofrem por antecipação. Mas ninguém está mais perturbada do que esta "pobre Thérèse"...

Domingo, 20 de novembro. Vestida de negro, a cabeça coberta pela protocolar mantilha também negra, a senhorita Martin atravessa o portal do Vaticano. Agarra-se ao braço de seu pai — Ifigênia indo para o sacrifício. Como as jovens católicas de seu tempo, Thérèse lera as tragédias de Racine autorizadas pelos conventos: Esther e Atalie. Como Esther diante de Assuérus, a pequena rainha poderia dizer ao Papa:

Uma palavra de sua boca cessaria as penas minhas,
Tornando Esther a mais feliz entre todas as rainhas.

Mas Thérèse não é Esther, não passando de uma anônima que a pompa do Vaticano impressiona. Sente-se completamente perdida no meio das grandes damas de Coutances e Bayeux que tamborilam seus dedos nas mantilhas enquanto esperam ser apresentadas à Sua Santidade. Na ausência do bispo de Coutances, padre Révérony conduz os peregrinos. Primeiro as damas, depois os padres, em seguida os senhores. Lembra-lhes que estão formalmente proibidos de se dirigirem ao Santo Padre. Dá o exemplo, falando o menos possível e limitando-se a anunciar ao Papa as pessoas importantes. Desta maneira Louis Martin é apresentado como "o pai de duas carmelitas".

Thérèse não tem direito a nenhuma apresentação especial, não sendo apresentada como "irmã de duas carmelitas" ou como aspirante ao Carmelo. Ela bem sabe que deve enfrentar a proibição de falar ao Santo Padre. Hesita. Implora com o olhar a concordância de Céline que sussurra: "Fale." Thérèse obedece. Ajoelhada diante de Leão XIII, as mãos postas, encontra forças para articular: "Muito Santo Padre, tenho uma grande graça a vos implorar."

Surpreso, o Papa se inclina e examina aquela que ousou tomar a palavra em sua presença e que prossegue falando: "Muito Santo Padre, em honra de vosso júbilo, permiti minha entrada para o Carmelo aos quinze anos."

O Muito Santo Padre, cada vez mais surpreso, murmura: "Não estou entendendo bem." Volta-se para o padre Révérony, que já esperava o pior desta senhorita Martin — e o pior acontecera; ela não esconde seu descontentamento e explica: "Muito Santo Padre, esta criança quer entrar para o Carmelo aos quinze anos, mas os superiores estão examinando a questão neste momento."

Tranqüilizado, o Papa se contenta em sugerir à Thérèse: "Minha filha, faça como seus superiores lhe disserem." Resposta que adia a solução e que recebe imediatamente a réplica: "Oh, Muito Santo Padre, se vós dissésseis sim, todo mundo iria querer o mesmo."

A insistência de Thérèse ameaça provocar um incidente que o Papa evita com um irrefutável "Vamos, vamos, tu entrarás se o Bom Deus o quiser."

É de modo polido, porém firme, que o Papa afasta Thérèse, que gostaria de falar ainda para convencê-lo. Mas dois guardas, ajudados por padre Révérony, intervém para acabar com a entrevista, que não durara muito. Ajudam Thérèse a levantar e levam-na rapidamente:

No momento em que eu estava sendo conduzida, o Santo Padre levou sua mão a meus lábios e levantou-a para me abençoar e, então, meus olhos se encheram de lágrimas e padre Révèrony pôde ver tantos diamantes quantos havia visto em Bayeux.

Louis Martin e Céline tentam, em vão, consolar Thérèse, que se apercebe enfim que chovia em Roma: "naquele dia, (...) o céu (...) não parou de chorar junto comigo". Ela queria ser o brinquedo de Jesus. Este brinquedo foi quebrado. Na noite de 20 de novembro Thérèse escreve a irmã Agnes de Jesus:

O bom Papa é tão velho que se poderia dizer que está morto, eu não o imaginava assim, e ele não pode quase falar, (...) Oh! Pauline, não posso lhe contar o que senti, como fiquei aniquilada, eu me sentia abandonada.

Em História de uma alma Thérèse não faz um retrato tão espontâneo do Papa. Não evoca sua extrema velhice, mas sim seu esplendor.

A viagem à Itália, para Thérèse, perde todo o seu encanto. O objetivo foi frustrado. Não entrará para o Carmelo aos quinze anos, tinha planejado fazê-lo perto do Natal, nas vésperas dos seus quinze anos.

Thérèse esperava que seu diálogo com o Papa tivesse passado despercebido. Mas qual! Não se fala em outra coisa! O vigário-geral de Coutances, padre Legoux, aborda-a sorrindo com um "como vai nossa pequena carmelita?" A pequena carmelita vai mal, sofre em silêncio. Até os jornais fazem eco à sua incrível audácia. No L'Universe de 24 de novembro, sob a rubrica "Correspondência Romana", pode-se ler:

Entre os peregrinos encontrava-se uma jovem de quinze anos que pediu ao Santo Padre para poder entrar imediatamente no convento para fazer-se religiosa.

Após visitar cidades italianas, os peregrinos voltaram para a França. Thérèse constata que Lisieux a atrai como "um amante". Este amante tem um nome: o Carmelo, para onde ela corre assim que chega, em 2 de dezembro.

Durante a viagem, além do esplendor das paisagens e monumentos, Thérèse descobriu também a fraqueza dos padres, o poder das conversas de comadres, a inutilidade do luxo. "Que viagem! Ensinou-me mais do que longos anos de estudos", comenta. Descobriu ainda, com espanto, como a condição feminina na Itália era desprezada:

Não posso ainda compreender como as mulheres são tão facilmente excomungadas na Itália. A todo momento ouvíamos: "Não entrem aqui, não entrem lá, vocês serão excomungadas!" Ah! pobres mulheres, como são menosprezadas!

Seguindo os conselhos de Pauline, Thérèse escreve ao bispo de Bayeux, deixando falar seu coração: "Monsenhor, venho pedir à Vossa Eminência a resposta pela qual espero há tanto tempo." Assim ela começa sua súplica. Mostra a carta ao tio, que suprime os elances do coração, o que dá à missiva uma forma mais oficial e talvez menos imperiosa. Corrigida por M. Guérin, acaba ficando assim: "Monsenhor, venho lembrar à vossa Eminência o pedido de autorização que tive a honra de vos encaminhar." Thérèse não pede mais nada. limita-se a "esperar com confiança" e aspirar por esse "insigne favor". A carta é enviada em 18 de dezembro.

Escreve também ao padre Révérony par lembra-lhe, humildemente, a promessa que ele lhe havia feito de falar em seu favor com dom Hugonin, e para fazê-lo notar que "restam apenas oito dias até o Natal". Uma resposta afirmativa do bispo de Bayeux, que magnífico presente seria!

Chega o Natal. Thérèse contava assistir à Missa do Galo atrás dos muros do Carmelo. No entanto, deve contentar-se em ir à Catedral. Sente-se como Moisés, que contempla a Terra Prometida sem poder entrar.

No dia de Natal, em seu quarto, acha o presente de Céline, um desenho de um navio com o Menino Jesus adormecido, segurando uma bola. No barco, escreveu: 'Eu durmo, mas meu coração vela." e no casco, a palavra "abandono". Abandono à vontade do Senhor, que vale à Thérèse uma tarde inteira de pranto.

À tarde, ainda desanimada, vai ao Carmelo, e recebe um presente quase igual ao de Céline: um Menino Jesus segurando uma bola onde seu prenome está escrito. A coincidência chega a fazê-la sorrir.

Em 28 de dezembro, madre Maria de Gonzaga recebe a resposta de dom Hugonin: está autorizada a admitir Thérèse Martin no Carmelo, sem mais demora. Thérèse é avisada em 1 de janeiro. Demora inexplicável. Pior ainda, irmã Agnes de Jesus, que removeu céus e terras para ajudá-la a entrar no Carmelo o mais rapidamente possível, obtém de sua superiora o adiamento desta entrada até a Páscoa, sob a justificativa de poupar Thérèse dos rigores da quaresma, que Thérèse teria achado bem mais suaves comparados ao suplício da espera que não acaba mais, e que redobra mais uma vez, de forma imprevisível. "Não pude conter as lágrimas ao pensar em tão longo prazo", ela diz.

Thérèse poderia achar que tivesse sido traída por Pauline, e poderia perder-se em conjecturas sobre os motivos de tal combinação. Irmã Agnes de Jesus teria querido impor uma última prova a sua irmã, para ver como ela se sairia? Thérèse não faz nenhum julgamento sobre esta decisão. Corajosamente decide remar seu barco Abandono e chegar ao porto, custasse o que custasse, na Páscoa ou na Trindade. O principal, a aprovação de dom Hugonin, foi o melhor presente que poderia ter recebido por ocasião de seu décimo-quinto aniversário. Thérèse está satisfeita com as belezas da terra. Agora, aspira pelas do Céu!

~ A Entrada de Teresa Para o Carmelo ~

Escrito por ela mesma

(Primavera de 1888)

Jesus +

Escolheu-se para minha entrada uma segunda-feira, 9 de abril, data em que o Carmelo celebrava a festa da Anunciação, transferida por causa da Quaresma. Na véspera, toda a família estava reunida em torno da mesa, onde me assentaria pela última vez. Ah! como são pungentes reuniões assim, na intimidade!... Na ocasião que não queremos ser alvo de atenções, prodigam-se carinhos, palavras extremamente afetuosas, que fazem sentir o sacrifício da separação...

Papai não falava quase nada, mas seu olhar fixava-se em mim com amor... Titia chorava de vez em quando, e Titio dava-me mil demonstrações de afeto. Joana e Maria também se desdobravam em delicadezas para comigo; sobretudo Maria que, tomando-me à parte, pediu perdão das mágoas que julgava ter-me causado. Por fim, minha querida Leoniazinha que voltara há alguns meses da Visitação, cobria-me de beijos e carícias. Só resta Celina (após a morte da mãe, Teresa passou a considerar Celina, sua irmã, como mãe. Nota), de quem não falei, mas adivinhais, minha querida Mãe, como se terá passado a última noite que dormimos no mesmo quarto...

Na manhã do grande dia, depois de lançar um derradeiro olhar nos Buissonnets, gracioso ninho de minha infância, que já não tornaria a ver, saí ao braço de meu querido Rei para subir à montanha do Carmelo... Como no dia anterior, toda a família se reunira para ouvir a Santa Missa e comungar. Assim que Jesus desceu nos corações dos meus queridos parentes, não ouvi em redor de mim senão soluços. E era só eu que não derramava lágrimas, mas sentia o coração bater com tal violência, que me parecia impossível dar um passo, quando vieram dar sinal para que chegássemos à porta de clausura. Ainda assim, fui andando, e perguntava a mim mesma, se não iria morrer pela força das batidas do coração... Ah! que momento aquele! Para poder avaliá-lo, é preciso ter passado por ele...

Minha emoção não se manifestou por fora. Depois de haver abraçado todos os membros de minha querida família, pus-me de joelhos diante do meu incomparável Pai para lhe pedir a benção; ele mesmo se pôs de joelhos e abençoou-me a chorar... Devia fazer sorrir os anjos, esse espetáculo em que um pai apresenta ao Senhor sua filha ainda na primavera da vida!... Alguns instantes depois, as portas da Santa Arca se fechavam atrás de mim, e lá dentro recebi os abraços das queridas manas que me haviam servido de mães, e que dali por diante tomaria como modelos de minhas ações... Enfim, meus desejos estavam satisfeitos. Minha alma experimentava uma PAZ tão doce e tão profunda, que não poderia externá-la com palavras, e faz sete anos e meio que essa paz íntima se conserva como minha partilha, e não me abandonou no meio das maiores provações.

Como todas as postulantes, fui levada ao coro imediatamente depois de minha entrada. Estava escuro, por causa da exposição do Santíssimo Sacramento (conforme o costume de então, o coro era conservado em penumbra, para as Carmelitas não serem vistas da capela, quando os postigos da grade ficavam abertos. Nota), e o que em primeiro lugar surpreendeu minha vista foram os olhos de nossa santa Madre Genoveva, que se concentrava sobre mim. Demorei um instante de joelhos aos seus pés, e agradeci ao Bom Deus a graça que me concedia de ficar conhecendo uma santa. E depois acompanhei Madre Maria de Gonzaga a vários recintos da comunidade. Tudo me parecia fascinante. Imaginava-me transportada a um ermo; era principalmente minha celinha que me encantava, mas a alegria que sentia, era tranqüila. Nem a mais leve brisa fazia ondular as águas remansosas, nas quais navegava meu pequeno barco. Nenhuma nuvem toldava meu céu azulado... ah! estava plenamente ressarcida de todas as provações... Com que profunda alegria repetia as palavras: "Aqui estou para sempre, é para sempre..."

Esta felicidade não era efêmera, não se dissiparia com "as ilusões dos primeiros dias". Quanto a ilusões, o Bom Deus concedeu-me a graça de não ter NENHUMA, quando entrei para o Carmelo. Encontrei a vida religiosa tal qual a imaginara. Nenhum sacrifício me espantou. No entanto vós o sabeis, meus primeiros passos toparam mais em espinhos do que em rosas!... Sim, o sofrimento estendeu-me os braços, e lancei-me neles com amor... O que vinha fazer no Carmelo, declarei-o aos pés de Jesus-Hóstia no exame que precedeu minha profissão: "Vim para salvar as almas, e principalmente para rezar pelos sacerdotes". Quando se quer atingir um fim, é preciso aplicar os respectivos meios. Jesus deu-me a entender que pela cruz queria dar-me almas, e meu atrativo pelo sofrimento crescia na proporção que o sofrimento se avolumava. Durante cinco anos, meu sofrimento, tanto mais doloroso, quanto unicamente conhecido, por mim. Oh! se tivermos lido a história das almas, qual não será nossa surpresa no fim do mundo!... Quantas pessoas não ficarão admiradas ao verem por qual caminho foi levada a minha...

Isto é tão verdadeiro que, dois meses após minha entrada, vindo para a profissão da Irmã Maria do Sagrado Coração, Padre Pichon ficou surpreso ao verificar o que o Bom Deus operava em minha alma. Disse-me que, na véspera, me observou a rezar no coro, e achava meu fervor muito próprio de criança, e meu caminho muito suave. A conversa com o bom Padre foi para mim um consolo muito grande, embora anuviado de lágrimas, por causa da dificuldade que sentia em abrir minha alma.

Sem embargo, fiz confissão geral, como nunca fizera anteriormente. Ao cabo, disse-me o Padre estas palavras, as mais consoladoras que me vibraram aos ouvidos da alma: "Na presença do Bom Deus, da Santíssima Virgem e de todos os Santos, DECLARO QUE JAMAIS COMETESTES UM SÓ PECADO MORTAL". Acrescentou em seguida: "Agradecei ao Bom Deus o que fez por vós, pois se vos tivesse abandonado, em lugar de ser um anjinho, tornar-vos-íeis um demoninho".

Oh! não tive dúvida em admiti-lo. Sentia quanto era frágil e imperfeita, mas a gratidão inundava minha alma, que a declaração, saída da boca de um diretor, como os que nossa Santa Madre Teresa desejava, isto é, os que unissem a ciência à virtude (Caminho da Perfeição, VI.), me parecia proferida pela boca do próprio Jesus... Disse-me ainda o bom Padre as seguintes palavras, que ficaram carinhosamente gravadas em meu coração: "Minha filha, Nosso Senhor seja sempre vosso Superior e vosso Mestre de noviciado". De fato, Ele o foi, e foi também "meu diretor". Não quero dizer que minha alma se tenha fechado às minhas Superioras. Ah! longe disso, sempre me esforcei por lhes ser um livro aberto. (...)

Disse que Jesus fora "meu diretor". Ao entrar para o Carmelo, travei conhecimento com alguém que me serviria como tal, mas ele partiu para o desterro (o Padre Pichon foi enviado ao Canadá, na qualidade de pregador. Embarcou a 3 de novembro de 1888. Nota), logo depois de me admitir ao número de suas dirigidas... Assim, foi só conhecê-lo, para logo me privar dele... Limitada a receber uma carta sua por ano sobre as doze que lhe escrevia, meu coração de pronto se voltou ao Diretor dos diretores, e foi com quem me instruiu nessa ciência oculta aos sábios e entendidos, dignando-se comunicá-la aos pequeninos... (Cfr. Mt. 11,25.)

Transplantada para a montanha do Carmelo, a florzinha iria desabrochar à sombra da Cruz. As lágrimas, o Sangue de Jesus tornaram-se seu orvalho, e seu Sol era a sua adorável Face, velada de pranto... Até então não tinha sondado, ainda, a profundeza dos tesouros ocultos na Sagrada Face (a devoção da Sagrada Face desenvolveu-se no século XIX, em conseqüência das revelações de Nosso Senhor à Irmã Maria de São Pedro, do Carmelo de Tours. Desde o início de sua vida religiosa, Teresa foi iniciada nessa devoção pela Irmã Inês de Jesus. Nota), e foi por vosso intermédio, minha querida Mãe, que aprendi a conhecê-los. Como há tempos a nós todas precedestes no Carmelo, assim também fostes a primeira a penetrar os mistérios de amor, escondidos na Face de nosso Esposo. Chamastes-me então, e compreendi... Compreendi o que vinha a ser a verdadeira glória. Aquele, cujo Reino não é deste mundo (Cfr. Jo. 18,36.), mostrou-me que a verdadeira sabedoria consiste em "querer ser ignorada e tida por nada" (Imit. de Cristo I 2,3.), --- "em fazer constar a alegria no desprezo de si mesmo"... (Imit. de Cristo III 49,7.) Oh! como o de Jesus, queria que "meu rosto ficasse realmente velado, e que na terra ninguém me reconhecesse" (Cfr. Is. 53,3.). Tinha sede de sofrer e de ser esquecida...

Quão misericordioso é o caminho, pelo qual o Bom Deus sempre me guiou! Nunca me levou a desejar alguma coisa, sem que me desse. Por esta razão, seu amargo cálice pareceu-me delicioso... (...)

~ A Tomada de Hábito ~

Em 5 de janeiro de 1889, à tarde, Thérèse, que completava dezesseis anos, entrou para o retiro que precede a tomada de hábito. Durante quatro dias ela ficaria só consigo mesma, só com as imensidões que trazemos dentro de nós e que não exploramos jamais com medo de nos perdermos nelas. Imensidões que faziam temer os sábios mais reconhecidos ou os mais valorosos guerreiros de Deus!

Durante quatro dias ela percorreu sem descanso nem pausa os desertos interiores com a incansável impetuosidade de sua juventude. Não podia falar senão com a priora ou com a mestra das noviças. Tinha direito de se corresponder com suas duas irmãs, irmã Agnes de Jesus e irmã Maria do Sagrado Coração. E disso ela não se privou. Em 6 de janeiro, primeiro dia de retiro e também dia de Reis, escreveu a Marie:

Nada perto de Jesus, solidão!... Sono!... Mas ao menos o silêncio!... o silêncio faz bem à alma... Mas as criaturas, oh! as criaturas! (...) As que estão a meu lado são bastante boas, mas há algo que me afasta! (...) Meu único desejo é fazer a vontade de Jesus. (...) Oh! eu não quero que Jesus sofra no dia de meu noivado, gostaria de converter todos os pecadores da terra e salvar todas as almas do purgatório.

Solidão, sono e silêncio foram as companhias de Thérèse durante este retiro que ela tanto esperara. solidão da alma na espera do Salvador que não vinha, sono do corpo esgotado pelos rigores da vida do Carmelo, silêncio recebido como uma beatitude. O silêncio sucedeu às falações de suas companheiras durante recreios. Pois, se por um lado ela havia aceito os rigores da vida conventual, por outro não conseguira suportar suas companheiras que, iludidas por seu sorriso permanente, pareciam persuadidas do contrário. Apenas irmã Maria de Gonzaga, irmã Genoveva de Santa Teresa, irmã Febrônia, irmã Agnes de Jesus e irmã Maria do Sagrado Coração viam graça em seus olhos e lugar em seu coração, o mesmo coração que estendia seu amor a todos os pecadores da terra e às almas do purgatório. Thérèse poderia até mesmo recusar o paraíso caso soubesse que alguém sofria no purgatório ou no inferno.

No dia 8 de janeiro, e sempre à irmã Agnes de Jesus, ela confessou: "Creio que o trabalho de Jesus durante esse retiro foi o de me separar de tudo o que não fosse Ele..." Neste mesmo dia, mostrou também à irmã Maria do Sagrado Coração toda a sua impaciência: "Mais um dia e serei a noiva de Jesus, que graça!" Sustentada pela esperança desta graça, esperou a saída do deserto, o fim do túnel.

Os quatro dias de retiro foram uma prova da qual ela deveria sair vitoriosa. Foi então que irmã Agnes de Jesus fez saber a Thérèse dos tesouros dissimulados pela Santa Face do Cristo:

os mistérios do amor escondidos na face do nosso Esposo (...). Compreendi que era a verdadeira glória. Aquele cujo reino não é deste mundo me mostrará que a verdadeira sabedoria consiste em querer ser ignorada e considerada como um nada.

Thérèse decidiu acrescentar a seu nome de religiosa essa menção suplementar: "e da Santa Face".

Portanto, em 10 de janeiro de 1889, Thérèse Martin passou a ser irmã Teresa de Jesus e da Santa Face. Para celebrar o acontecimento, seu pai mandou para o convento vinho Champagne e um balão-surpresa que, quando aceso, explode numa chuva de bombons.

Nesse dia 10 de janeiro, no Carmelo, a cerimônia de tomada de hábito foi presidida pelo bispo de Bayeux, Monsenhor Hugonin. Os Guérin e os Martin estavam lá, mal contendo a emoção que redobrou quando Thérèse saiu da clausura. Vestia, oferecido por seu pai, um vestido de veludo branco ornado com plumas e renda de Alençon, o mesmo tipo de renda sobre o qual sua mãe passara tantos dias e noites... Coroada de lírios brancos, com a auréola de seus cachos louros, tinha a aparência, segundo os presentes, de uma madona flutuando sobre nuvens. Louis Martin acolheu a filha com um "Ah! Eis minha pequena rainha!"

A pequena rainha tomou o braço do seu rei e ambos entraram na capela, seguidos pelos membros da família que seguiam dois a dois, como para um casamento. Assistiu-se à missa e em seguida o cortejo voltou a ser formado para chegar à sacristia, onde Thérèse despediu-se dos seus. Trocou intermináveis abraços e depois cruzou o claustro onde as religiosas a esperavam, cada uma portando uma vela acesa. A superiora conduziu Thérèse até o coro, onde aconteceu a tomada de hábito, que os Guérin e os Martin acompanharam através das grades. Monsenhor Hugonin pronunciou as fórmulas sacramentais, enquanto irmã Maria de Gonzaga revestia Thérèse com seu hábito de lã rústica e com o manto branco. A partir daquele momento, Thérèse Martin passou a ser irmã Teresa de Jesus e da Santa Face. Estava tão esplendorosa que Monsenhor Hugonin entoou o Te Deum, contrariando o ritual, pois esse hino só deveria ser cantado por ocasião da profissão de votos.

O que se apresentou como um momento de atordoamento não passou, na verdade, de uma ironia do bispo dirigida a seu representante, o padre Delatroëtte, que havia obrigado as religiosas a cantar o mesmo Te Deum em 9 de abril de 1888, na ocasião da entrada de Thérèse no Carmelo. Um ano depois as carmelitas, guiadas por Monsenhor Hugonin, entoaram novamente o Te Deum, que deve ter ressoado bem desagradavelmente nos ouvidos do padre.

No final da cerimônia, Monsenhor Hugonin confirmou mais uma vez sua predileção por essa tão jovem carmelita:

ele foi de uma bondade paternal para comigo. Posso acreditar que estava orgulhoso por eu ter vencido. Dizia a todos que eu era sua neta.

Thérèse não deixara também de ser a filhinha de seu pai, com quem se encontrou no parlatório. Momento de perfeita felicidade. Como símbolo dessa perfeição, nevou sobre Lisieux, como ela havia desejado.

A neve, que ninguém poderia ter previsto, surpreendeu a todos, exceto Thérèse:

Que delicadeza de Jesus! Prevendo os desejos de sua noiva, lhe ofereceu essa neve... Neve... que mortal, por mais poderoso que fosse, poderia fazer cair neve dos céus para encantar sua bem-amada? Talvez as pessoas se fizessem esta pergunta, mas o certo é que a neve de minha tomada de hábito lhes pareceu um pequeno milagre que espantou toda a cidade. Acharam que eu tinha um gosto bem estranho por gostar da neve!

Thérèse amava a neve como um espelho em que podia se encontrar, imaculada.

A Profissão de Fé

(1890)

Thérèse preparou-se para sua profissão de fé com um retiro de dez dias, que começou em 28 de agosto. Ela esperava tudo deste retiro, mas nada recebera:

"Meu retiro de profissão foi, pois, como todos os subseqüentes, um retiro de grande aridez. Contudo, sem que eu o percebesse, o Bom Deus me indicava claramente o meio de Lhe agradar e praticar as mais sublimes virtudes. Observei, amiúde, que Jesus não me quer fornecer provisões. Nutre-me, a cada instante, com alimento sempre novo. Encontro-o em mim, sem saber como foi ali parar... Creio, com toda a simplicidade, que é o próprio Jesus, oculto no fundo do meu pobre coração, quem me concede a graça de atuar em mim, levando-me a pensar em tudo quanto quer que eu faça no momento presente.

Dias antes de minha profissão, tive a ventura de receber a benção do Soberano Pontífice. Tinha-a solicitado, por intermédio do bom Frei Simeão, para Papai e para mim. E muito me consolou poder retribuir ao meu querido Pai a graça que me proporcionara, quando me levou a Roma.

Chegou, finalmente, o belo dia de minhas núpcias (8 de setembro, uma segunda-feira. Nota). Passou sem nuvens. Na véspera, porém, tinha-se encastelado em minha alma uma tempestade, como nunca vira igual... Até então, jamais me viera à cabeça nenhuma dúvida em torno de minha vocação. Era-me necessário conhecer tal provação. À noite, quando fazia minha Via-Sacra depois de Matinas, minha vocação afigurou-se-me um devaneio, um sonho... Achava muito linda a vida do Carmelo, mas o Demônio insuflava-me a certeza de que não era feita para mim; que iludiria as superioras, caso prosseguisse num caminho, para o qual não era chamada... Tão grandes eram minhas trevas, que não via nem compreendia senão uma coisa: Não tinha vocação...

Oh! como descrever a angústia de minha alma?... Parecia-me (coisa absurda, mostrando ser o Demônio a tentação) que, se falasse de meus temores à minha Mestra, impedir-me-ia de fazer meus Sagrados Votos. Contudo, queria antes fazer a vontade de Deus e retornar ao século, do que, fazendo a minha, permanecer no Carmelo. Chamei, pois, minha Mestra para fora, e cheia de confusão lhe expus o estado de minha alma... Ela, felizmente, viu mais claro do que eu, e tranqüilizou-me por completo. Aliás, o ato de humildade que eu acabava de praticar, afugentava o Demônio, que talvez me julgasse com ânimo de confessar minha tentação. Tão logo acabei de falar, dissiparam-se minhas dúvidas. Todavia, para tornar mais cabal meu ato de humildade, quis ainda comunicar minha estranha tentação à nossa Madre, mas ela contentou-se em rir-se de mim.

Na manhã de oito de setembro, senti-me inundada por um rio de paz, e foi numa paz "a ultrapassar todo sentimento" (Filip. 4,7.) que proferi meus Sagrados Votos... Minha união com Jesus não se efetuou entre trovões e relâmpagos, isto é, entre graças extraordinárias, mas no halo de um brando zéfiro, semelhante ao que Nosso Pai Santo Elias ouviu na montanha... (Cfr. 1 Reis 19,12-13.)Quantas graças não pedi naquele dia!... Senti-me, realmente, como RAINHA. Por esta razão, valia-me do meu título para libertar os cativos, impetrar do Rei favores para os ingratos súditos. Queria, afinal libertar, todas as almas do purgatório e converter os pecadores... Rezei muito por minha Mãe, por minhas queridas irmãs... por toda a família, sobretudo pelo meu Pai, tão sofrido e tão santo... Ofereci-me a Jesus, para que torne perfeita sua vontade em mim, sem que jamais as criaturas ponham obstáculo... Passou o belo dia, à semelhança dos mais tristes, pois que aos mais radiosos sobrevém um amanhã. Não obstante, foi sem tristeza que depus minha grinalda aos pés da Santíssima Virgem. Sentia que o tempo não me arrebataria a felicidade... Como é bela a festa da Natividade de Maria pra nos tornarmos esposa de Jesus! Era a Santíssima Virgem, pequenina de um dia, que apresentava sua florzinha a Jesus... Nesse dia, tudo era pequeno, exceto as graças e a paz que recebi, exceto a tranqüila alegria que senti à noite, quando contemplava as estrelas que brilhavam no firmamento, enquanto imaginava que em breve o formoso Céu se abriria aos meus olhos extasiados, e poderia unir-me ao meu Esposo na amplidão de uma alegria eterna..."Em 24 de setembro, a tomada do véu completou a profissão de fé. O véu negro que Thérèse recebeu e com o qual se cobriria seria um véu de lágrimas. As decepções se acumularam para a jovem esposa: esperava uma melhora, mesmo que passageira, de seu pai, para que ele pudesse assistir à tomada de véu; mas seu tio Isidore se opôs, temendo o choque que esta vinda poderia acarretar. Monsenhor Hugonin, que havia prometido estar presente, caiu doente, enviando em seu lugar seu irmão, frei Jean-Baptiste Hugonin.

Thérèse não agüentou mais. Caiu em prantos e chorou como não chorava havia muito tempo. A assistência perdeu-se em conjecturas e pôs seus soluços na conta da incrível excentricidade das meninas Martin. Apenas sua prima Marie Guérin pôde compreender e resolveu também ser carmelita, para beber do mesmo cálice até o fim.

Apenas oito dias depois Thérèse pôde se divertir um pouco, apenas uma vez. Quando recebeu a participação de casamento de sua prima Jeanne, irmã de Marie Guérin, com o doutor Francis La Néele, ela resolveu fazer uma participação semelhante para seu casamento com Jesus: Carta-convite para as núpcias de irmã Teresa do Menino Jesus e da Santa Face. Divertimento bastante pueril. Foram de fato as núpcias do Menino Jesus e da menina Thérèse...

Teresa: autora teatral

Aconteceu no Carmelo uma oportunidade das irmãs Martin recuperarem a intimidade de outrora. foi em fins de 1894 que madre Agnes de Jesus, irmã Maria do Sagrado Coração, irmã Teresa do Menino Jesus e Céline, que tomara o nome de irmã Genoveva da Santa Face, reuniram-se na única sala aquecida do Carmelo, além, da enfermaria. Era a recreação, e as carmelitas tinham licença para falar. Thérèse recordou lembranças da infância, Irmã Maria disse à madre Agnes: "Será possível ter você permitido e encomendado poesias para festejar umas e outras, sem que Thérèse nos tenha escrito algo sobre suas lembranças da infância?" Madre Agnes hesitou, e em seguida encomendou à Thérèse um relato para sua festa, de Santa Agnes, que seria comemorada no dia 21 de janeiro seguinte.

Mas o relato não ficaria pronto a tempo, pois Thérèse escrevia como e quando podia. Levou um ano, entre janeiro de 1895 e janeiro de 1896, redigindo o texto em que consistira a primeira parte deHistória de uma alma.

Mas no final de 1894 Thérèse estava às voltas com o espetáculo de Natal. Prevenida, desde outubro havia escrito uma peça intitulada "Os anjos no presépio", que traduzia seu constante deslumbramento diante do Menino Jesus.

Ela teria um dos principais papéis, o de anjo do Menino Jesus, cercada de anjos da Santa Face, da Ressurreição, da Eucaristia e do Juízo Final. Todos celebrariam a beleza de seu Mestre, a grandeza de sua misericórdia e a razão das razões para o anjo exterminador punir os ingratos e os omissos. Mas o extermínio final não acontecia. Deus, na sua misericórdia infinita, perdoava. Eis as últimas frases de Jesus que fazem o anjo exterminador curvar-se:

Também na santa Pátria
Meus eleitos serão gloriosos
Comunicando-lhes minha vida
Os farei como deuses!

O amor divino pode tudo, mesmo transformar um homem em deus. Não se sabe se, naquela noite de Natal de 1894, as carmelitas de Lisieux entenderam a audácia e a novidade da mensagem que Thérèse transmitiu através dessas estrofes e do final do coro dos anjos que queriam virar crianças!

A serva de Deus abalou as crises mais cristalizadas de sua época, demoliu o Juízo Final, aboliu a punição dos maus sem que no Carmelo ninguém se desse conta. As carmelitas ouviram voar os anjos e não foram exatamente os que Thérèse tinha colocado em cena. Bem-aventurada incompreensão que pode ser considerada como um milagre de Natal. Caso as carmelitas formadas no temor de Deus tivessem compreendido a mensagem de amor e de liberação, o escândalo teria sido maior do que o que causara no Vaticano... "O pecado só existe na medida em que o criamos.", já dizia Gibran Kahlil Gibran.

Em 21 de junho de 1896, tiveram lugar o solstício de verão e a festa de madre Maria de Gonzaga. Esta quisera sua comemoração solene, para mostrar que votara a ser a rainha do Carmelo. Madre Maria de Gonzaga tinha então sessenta e dois anos. Vivera na ilusão de ser priora para o resto da vida. A tomada de poder por madre Agnes de Jesus não passara de um aborrecido intervalo que se encerraria com o seu retorno triunfal. Infelizmente, as eleições de 21 de março não acarretaram o triunfo esperado: sete turnos para se chegar ao resultado. Ela acreditava tanto ser a "amada de seu rebanho" e teve de render-se à evidência... em quem confiar? A superiora não escondia sua amargura e sua saúde ficara abalada.

Thérèse tentou persuadir madre Maria de Gonzaga de que ela não havia sido traída. Seu poder de persuasão se exprimiu em um conto, Lenda de um carneirinho, obra-prima de diplomacia carmelita que a priora adoraria.

A festa de São Luís Gonzaga, em 21 de junho, chegou a servir para desarmar os espíritos. Thérèse escreveu uma peça intitulada O triunfo da humildade, que seguia a linha cômica. A comunidade precisava rir um pouco depois das peripécias eleitorais... O título já era motivo de risos, por ser escrita em homenagem a madre Maria de Gonzaga, para quem a humildade não era a primeira virtude.

Deve-se à Santa Teresa d'Ávila a introdução de recreações, divertimentos destinados a romper a monotonia da vida carmelita. Festejava-se com peças de temas exclusivamente religiosos as datas do Natal, Páscoa, grandes acontecimentos da liturgia. No Carmelo de Lisieux celebrava-se ainda com brilho especial a festa da priora. No passado fora, todos os anos, o dia de glória de madre Maria de Gonzaga. Se Molière reconhecia que era difícil fazer rir as pessoas de bem, mais difícil ainda era distrair as carmelitas!

Aos risos sucederam-se gargalhadas, começadas logo ao levantar do pano. Três irmãs ocupavam a cena: a própria autora, irmã Maria Madalena e irmã Maria do Espírito Santo. Cada uma interpretava a si mesma, no convento. Coube a Thérèse dar a primeira deixa, perguntando, não sem malícia, à irmã Maria do Espírito Santo: "O que pensa da festa de nossa madre? Já viu algo mais encantador do que essa união de corações, do que esta doce alegria?", ao que a outra respondeu exaltando o "encanto especial" das festas do Carmelo e sublinhando "o espírito de família" que reinava ali. Aparentemente estavam, naquele dia 21 de junho, tão unidas quando estariam com os Astrides...

Nunca devemos nos levar a sério, mesmo às portas da morte: eis um dos ensinamentos de Thérèse e, talvez, um dos segredos de ter encontrado suas últimas forças...

(Nota) A primeira peça que Teresa compôs, cujo personagem, interpretada por ela mesma, foi: "A missão de Joana d'Arc", que tinha o subtítulo: "A pastora de Domrémy escutando suas Vozes". Essa peça foi escrita para a festa de sua irmã e superiora Agnes de Jesus, em 21 de Janeiro de 1894.

Uma Vida de Amor

Escrito por ela mesma

(1897)

J. M. J. T.

Este ano, minha querida Madre, o Bom Deus deu-me a graça de compreender em que consiste a caridade. Antes, eu a compreendia, é verdade, mas de uma maneira imperfeita. Não tinha tomado mais a fundo a palavra de Jesus: "O segundo mandamento é SEMELHANTE ao primeiro: "Amarás teu próximo como a ti mesmo" (Mt. 22,39). Aplicava-me, antes de tudo, a amar a Deus, e, pelo fato de amá-lo, cheguei a compreender que meu amor não devia manifestar-se apenas por palavras, pois "não são os que dizem: Senhor! Senhor! que entrarão no Reino dos Céus, mas os que fazem a vontade de Deus" (Mt. 7,21).

Essa vontade, Jesus a deu a conhecer várias vezes, diria eu, em cada página de seu Evangelho. (...) Como e por que amou Jesus seus discípulos? Ah! não eram suas qualidades naturais que poderiam exercer atração sobre Ele. Infinita era a distância que mediava entre eles e Ele. Ele era a Ciência, a eterna Sabedoria; eles, pobres pescadores, sem instrução, imbuídos de uma mentalidade terrestre. Jesus, contudo, lhes chama seus discípulos, seus irmãos (Cfr.Jo. 15,15). Quer vê-los reinar Consigo no Reino de seu Pai, e para lhes abrir o Reino, quer morrer na Cruz, pois declarou: Não existe amor maior do que dar alguém a vida por aqueles, a quem ama (Jo. 15,13).

(...) Ah! Senhor!, sei que não ordenais nada de impossível. Conheceis melhor do que eu minha fraqueza, minha imperfeição. Bem sabeis que não poderia jamais amar minhas irmãs, como vós as amais, se vós mesmo, ó meu Jesus, não as amásseis também em mim. Por me quererdes dar essa graça é que estabelecestes um novo mandamento. — Oh! quanto o amo! pois é o que me dá certeza de ser vossa vontade amar em mim todos aqueles, a quem me mandais amar!...

Thérèse compreendera que a vida devia ser uma vida de amor. Ela gostaria que cada vida fosse também uma vida de amor. Como qualquer apaixonada inspirada, não parava de colocar em versos seu amor por Jesus. Os Títulos dos poemas que escreveu (Thérèse também foi poeta e autora de peças de teatro) são eloqüentes: "Canto do reconhecimento da noiva de Jesus", "Quem tem Jesus tem tudo", Jesus, meu Bem-Amado, lembra-te!" e o "Viver de amor", sua obra-prima:

Viver de amor é abolir todo o medo
Toda lembrança dos erros do passado
De meus pecados não vejo nem sinal
Em um instante o amor tudo queimou...
Chama divina, oh tão doce fornalha!
No teu seio eu fixo minha morada
em teus fogos canto aliviada:
Eu vivo de amor!

No "Cantico de Céline*", Thérèse demonstrou que através de Jesus ela possuía o mundo, mesmo as ilhas mais longínquas. Em "Meus desejos junto a Jesus escondido em sua prisão de amor", ela era a chave do tabernáculo, a lâmpada do santuário, a pedra do altar, um ostensório vivo. O que ela não era? Era tudo, pois era Amor, à imagem do Criador que nos criou para o amor, sem medir conseqüências de seu ato... A ler os poemas escritos, acredita-se ouvir a música de Berlioz que começa por "De amor a ardente chama consome meus belos dias..." Pena não terem cantado Berlioz no Carmelo de Lisieux: Thérèse teria reconhecido nele um irmão na paixão.

* Nota: Ao entrar para o Carmelo, Céline levou consigo os ecos do mundo, um pouco da modernidade que poderia ser representada pela máquina fotográfica que conseguira conservar. O Carmelo vibrou: teriam fotografias! Graças à Céline podemos contemplar hoje a face da irmã Teresa do Menino Jesus. Essas são as únicas fotos que temos de Thérèse.

"Sim, quero passar meu Céu..."

Somente em 30 de maio Thérèse revelou à madre Agnes de Jesus ter tido duas hemoptises em abril de 1896. Com a revelação irmã Agnes voltou a ser, imediatamente, a Pauline de outrora, preocupada em poupar de qualquer sofrimento a sua pequena rainha. A partir de então, o relacionamento entre as duas irmãs tornou a ser como nos belos dias de Buissonnets.

O mais duro para madre Agnes de Jesus foi admitir que sua rival, madre Maria de Gonzaga, sabia das hemoptises enquanto ela as ignorava. Segredos de harém, ciúmes de gineceu, tudo esquecido diante da gravidade do estado de Thérèse.

Thérèse tinha nove anos quando conheceu madre Maria de Gonzaga, e portanto podia esperar um tratamento diferenciado e ver nesta temível priora uma mãe amorosa. Durante vinte anos procurara uma mãe substituta e havia tido, na verdade, quatro.

Sempre com a mesma simplicidade, ela confessou: "como a senhora sabe, madre, eu sempre desejei ser santa." Infelizmente ela constata que entre o desejo e a realidade havia uma diferença tão grande quanto entre um grão de areia e uma montanha.

Elevando seus propósitos um tom acima, passava da simplicidade infantil à divina simplicidade, anunciando sua intenção de não se deixar desencorajar. Em seu desejo de ser santa, ela abriu e inventou seu próprio caminho. Foi o seu famoso "pequeno caminho", capaz de devolver a esperança aos mais desesperançados e que ela definiu assim:

(...) em lugar de me desencorajar, eu me disse: o Bom Deus não seria capaz de inspirar desejos irrealizáveis, portanto, posso em minha pequenez aspirar à santidade; tornar-me grande é impossível, devo me aceitar como sou, com todas as minhas imperfeições, mas quero procurar um meio de ir para o Céu por um pequeno caminho bem reto, bem curto, um pequeno caminho completamente novo. Nós estamos em um século de invenções, agora não vale mais a pena escalar degraus de uma escada se entre os ricos um elevador a substitui com vantagens. Por mim, gostaria de também encontrar um elevador que me elevasse até Jesus, porque sou muito pequena para subir a difícil escada da imperfeição. (...) O elevador que deve me levar para o Céu são seus braços, oh Jesus! Por isso não tenho necessidade de crescer; ao contrário, é preciso que eu permaneça pequenina, que eu me torne menor cada vez mais.

Eis a mensagem de Thérèse, acessível a todos em seu extremo despojamento, com suas comparações simples como essa do elevador, um fabuloso meio de ascensão, que vira nos palácios italianos. Lembrando-se deles, Thérèse deve ter-se lembrado do fausto dourado, num átimo de memória, e depois voltado para sua cela pintada de branco. Depois dessa rápida incursão no passado, como não acreditar que a vida é um sonho? Ontem, o esplendor dos hotéis de luxo italianos e o conforto de Buissonnets. Hoje, o mínimo necessário que compõe uma cela carmelita.

Depois de ter sonhado com a lembrança da palavra "elevador", Thérèse retomou a demonstração de seu "pequeno caminho", que a conduziria ao grande vôo. "Madre bem-amada, parece-me que agora nada me impede de alçar vôo, pois não tenho grandes desejos, apenas o de morrer de amor." Uma vida de amor que se conclui com uma morte de amor.

Outras descobertas nascem da pena de Thérèse, como: "madre bem-amada, sou um pincel que Jesus escolheu para pintar sua imagem nas almas que me foram confiadas", ou outras confidências tocantes, como: "A recitação do rosário me é mais custosa do que usar um instrumento de penitência." confessa que não consegue fixar o espírito nos mistérios do rosário. Para Thérèse, a prece é um impulso do coração, uma união com Jesus, o que não tem nada a ver com a recitação do rosário. Repete, incansavelmente, sua confiança e amor a Deus. Com essas duas palavras ela terminou seu relato à madre Maria de Gonzaga, em 8 de julho:

Sim, eu o sinto, mesmo tendo plena consciência de todos os pecados que se pode cometer, irei com o coração partido de arrependimento jogar-me nos braços de Jesus, pois sei o quanto ama o filho pródigo que volta para Ele. Não é porque o Bom Deus, em sua prevenida misericórdia, preservou minha alma do pecado mortal que eu me elevo até Ele pela confiança e pelo amor.

O manuscrito está inacabado. Thérèse não tinha mais forças para continuar. Suas três irmãs de sangue, madre Agnes de Jesus, irmã Maria do Sagrado Coração e irmã Genoveva a substituem na escrita, anotando suas últimas palavras nos derradeiros encontros. Madre Agnes, desde 6 de abril, quando se deu conta da gravidade da situação, passou a anotar as declarações de Thérèse em um caderno amarelo, para não perder o que ela dizia. A partir de julho Marie e Céline seguem o exemplo de Pauline e anotaram tudo o que lhes confiava sua pequena rainha.

De 4 a 8 de julho Thérèse escrevera não apenas o que podemos considerar como um testamento, mas também cartas a seus correspondentes habituais, explicando à irmã Maria da Trindade que "para ir para o Paraíso" ela não contava com sua doença, mas com o amor. Esse mesmo amor ela evocou falando com o abade Bellière: "Como, quando jogamos as faltas no braseiro devorador do Amor, com confiança filial, como não seriam elas consumidas até o fim?"

Terminados o testamento e a correspondência, deixou-se fotografar numa sessão interminável de fotos feitas por Céline, que se revela uma fotógrafa bastante exigente. Thérèse se sentia no limite de suas forças. Tinha dores nas costas, sufocava, e, a partir de 6 de julho, as hemoptises retornaram. No dia 8, deixava a cela pela enfermaria. Concluiu que passara toda a sua vida à espera, impaciente: esperando para entrar para o Carmelo, esperando sua tomada de hábito, esperando a profissão de fé. Naquele momento esperava a morte, que tarda, já que gostaria de estar no Juízo Final, para saber o que se passaria depois. A curiosidade de Thérèse era mesmo infinita...

No dia 16 de julho, dia da festa de Nossa Senhora do Carmelo, duas de suas obras foram cantadas por irmã Maria da Eucaristia: "Tu que conheces minha extrema pequenez" e a décima quarta estrofe de "Viver de amor". No dia seguinte, 17 de julho de 1897, Thérèse pronunciou as palavras que foram tantas vezes repetidas desde então: "Sim, quero passar meu Céu a fazer o bem sobre a terra. Não é impossível, pois no âmago da visão beatífica, os anjos velam por nós. (...) eu não quero repousar enquanto houver almas para salvar."

O que era possível para os anjos o seria para irmã Teresa do Menino Jesus e da Santa Face!

Epílogo

... O que era possível para os anjos o seria para irmã Teresa do Menino Jesus e da Santa Face!

A esta altura, o lápis que substituíra a incômoda caneta, tombou das mãos de Teresa. O manuscrito mostra linhas trêmulas, a provarem a força de vontade daquela que, todavia, não pôde terminar o caderninho preto. Exausta, ela larga... Resta-lhe pouco menos de três meses para viver.

À simples leitura destas páginas, repassadas de sabedoria e tranqüilidade, quem suporia que a aurora se encontra gravemente enferma há várias semanas? Mal se deparam algumas alusões aos cuidados que lhe são dispensados. E na falta das anotações que Madre Inês de Jesus tomava, dia por dia, à cabeceira de sua irmã, ficaríamos sem conhecer os pormenores da enfermidade, da agonia e morte da Irmã Teresa do Menino Jesus e da Santa Face. Graças, porém, aos depoimentos de testemunhas, podemos segui-la passo a passo, e averiguar que ela viveu o que acaba de escrever.

Quando parou de redigir o manuscrito, Irmã Teresa encontrava-se desde alguns dias na enfermaria, no pavimento térreo. Seriamente atingida há meses, não foi considerada "oficialmente" enferma senão depois do fim da Quaresma. Febricitante, a tossir, a arrastar-se para o coro, foi sendo dispensada de todos os encargos, exceto o ofício em comum e as recreações. No mês de junho de 1897, sua única obrigação era ficar de repouso na cela, espairecer ao ar livre e ao sol no jardim, concluir suas reminiscências, como lhe ordenara a Priora em 3 de junho, por sugestão de Madre Inês. É a derradeira "pequena tarefa" que executa, mas não poderá terminar. "Para escrever minha 'curta' vida, não dou tratos à cabeça. É como se pescasse ao anzol. Escrevo o que me vem à fisga".

A 6 de julho, inesperada piora inicia uma série de hemoptises que durarão até 5 de agosto. Sufocada, a vomitar sangue "como se fosse do fígado", ardendo de febre, Irmã Teresa é tida como "agonizante" pelo Dr. de Cornière, o qual declara que, em caso como o seu, "só 2% consegue escapar".

"Num transporte de alegria", confessa-se ao capelão e pede a Unção dos Enfermos, que muito deseja. Na noite de quinta-feira, descem-na à enfermaria.

Dali por diante, ei-la num espaço restrito, que já não poderá abandonar. Ao canto, a cama de ferro, guarnecida de cortinas pardas, nas quais pediu se alfinetassem as imagens de sua predileção (a Sagrada Face de Cristo, a Virgem, seu "queridinho" Teófanes Vénard etc.). À esquerda, a estátua da Virgem do Sorriso, instalada no mesmo dia que ela; uma poltrona, onde repousará nos dias que a levantarem da cama. Através da janela, ela pode contemplar o jardim em plena floração.

A 9 de julho, o Superior do Carmelo difere a Unção dos Enfermos, por não achar Teresa "bastante doente". De fato ela demonstra ainda surpreendente vitalidade e deixa as irmãs atônitas com sua expansiva alegria. Vive à espera da iminente chegada do "Ladrão". Daquele que "romperá o tabique do afetuoso encontro". "Morrer de amor", pela descrição de São João da Cruz, constituiu sempre sua esperança. Madre Inês anotou o seguinte diálogo: "Tendes medo da morte, agora que a vedes de perto? ---- Oh! cada vez, menos! --- Tendes medo do Ladrão? Desta vez está diante da porta! --- Não, não está à porta, já entrou. Mas que dizeis, minha Mãezinha! Se tenho medo do Ladrão! Como quereis que tenha medo de alguém que amo tanto?!"

Não pára de escarrar sangue, de sentir dores de cabeça, do lado, e vomitar o leite receitado pelo médico. Cresce ainda mais a debilidade.

No correr do mês de julho, Teresa sente ainda bastante força para responder a inúmeras perguntas de Madre Inês e suas irmãs. Fazem-na precisar algum pormenor de sua vida, pedem-lhe conselhos. A doente concorda com a idéia de um aproveitamento póstumo de todas as anotações para a redação da circular do necrológio que, segundo o costume, será enviada a todos os Carmelos. Surge, aos poucos, a eventualidade de uma publicação mais ampla de suas reminiscências. Teresa confia a tarefa aos cuidados de Madre Inês, mas insiste muito em que termine o caderno inacabado com a história da pecadora que morreu de amor. "As almas compreenderão logo, pois é um exemplo tão frisante do que eu quisera dizer".

Falando de seus manuscritos, acrescenta: "Neles se contém o que sirva para todos os gostos, tirante as vias extraordinárias". Pressente que sua atuação póstuma se estenderá muito além da difusão de um livro, e que se fará sentir no mundo inteiro. "Quão infeliz não serei no Céu, se não puder promover pequenas alegrias aos que amo!" Repete amiúde promessas cheias de mistério: "Voltarei... Descerei..." E depois, a 17 de julho, a declaração que se tornou famosa: "Sinto, sobretudo, que minha missão vai começar, minha missão de fazer amar o Bom Deus como eu o amo de indicar às almas minha pequena trilha. Se o Bom Deus atender meus desejos, meu Céu se passará na terra, até o fim do mundo. Sim, quero passar meu Céu a fazer o bem na terra".

A 28 de julho, agravamento bem acentuado. Pela declaração da enferma, é o começo de "grandes sofrimentos". O médico pensa que não passará a noite. Na cela contígua à enfermaria (onde dorme Irmã Genoveva, sua enfermeira), prepara-se o necessário para os funerais, e às 18 horas, sexta-feira, 30 de julho, Padre Maupas administra-lhe enfim, a Unção dos Enfermos e a Comunhão como Viático.

Contra toda expectativa (sua própria, em primeiro lugar: "Já não entendo nada da minha doença"), ela contorna por ora a crise. Tais alternativas a desconcertaram. Entrega-se, porém, a um abandono total: "Esta noite, quando me disseram ser opinião do Sr. Cornière que ainda agüentaria um mês e até mais, não podia conter seu espanto. Tanta é a diferença com relação a ontem, quando ele declarava necessário administrar-me no mesmo dia os santos Sacramentos! Isto, todavia, me deixou em profunda tranqüilidade". "Não desejo mais morrer, do que viver. O que ele fizer, é o que eu gosto".

De fato, as hemoptises cessam definitivamente a 5 de agosto, e a doente beneficia-se de relativo repouso. O Dr. de Cornière parte em gozo de férias. Prescreve alguns medicamentos, depois de verificar que o pulmão esquerdo estava tomado. A melhora, porém não durará senão quinze dias, e Teresa ver-se-á sem assistência médica no momento de novo avanço do sofrimento e a começar na festa da Assunção.

Tosse, opressão, dores intercostais, inchaço das pernas, febre intensa... O sofrimento atinge o auge entre os dias 22 e 27 de agosto. A tuberculose (o primeiro a usar o termo foi o Dr. Francisco La Néele, primo afim de Teresa. o qual acudira de Caen, a chamado do Carmelo) alcança os intestinos. Muito emagrecida, como que "sentada em pontas de ferro", Teresa sofre atrozmente a cada respiração.

Teme-se a gangrena. "Ora, isso é melhor do que ter de sofrer muito e de todos os lados, do que ser atacada de várias doenças ao mesmo tempo", comenta Teresa. Mais tarde, exausta, desabafa-se: "Que seria de mim, se o Bom Deus me não desse força? Não se faz idéia do que é sofrer assim. Não, é preciso que a gente sinta". Pedindo desculpas, solta gritinhos. Que grande graça, possuir a fé! Não fosse minha fé, matar-me-ia, sem hesitar um só instante"...

Nos derradeiros dias de agosto, nova melhora, inesperada . Durará até 13 de setembro. O Dr. La Néele verifica que a prima já não tem senão metade de um pulmão para respirar. Resta-lhe, a ela, um mês de sobrevida.

A simples consideração das súbitas alternâncias da doença e das reações de Irmã Teresa não pode dar um gabarito de todos os aspectos de sua personalidade, quais se revelam através de suas últimas conversas e de sua correspondência (que cessa, definitivamente, a 10 de agosto). Nenhum hiato se abre entre o que ela vem de escrever no último manuscrito e o que agora está vivenciando na enfermaria.

Continua, antes de tudo, como uma doença igual a outras, e "que não conta com grande esperança": "Minhas irmãzinhas, rezai pelos pobres doentes em artigo de morte. Se soubésseis o que se passa! Pouca coisa basta para a gente perder a paciência!... Dantes, não o acreditaria". Perguntaram-lhe: "Como vos haveis agora em vosso dia-a-dia?"

--- Meu dia-a-dia é sofrer. É o que está, então, acontecendo!"

Entanto, com não fingida alegria (tem "horror ao fingimento"), esforça-se por atenuar o que possa haver de dramático em seu estado, e acabrunhar suas irmãs. Na enfermaria, não se respira ar de tristeza. "Quanto ao moral, sempre a mesma coisa, a jovialidade personificada, fazendo rir a todos quanto dela se acercam. Momentos há em que a gente pagaria para ter vez de ficar junto a ela (...) Creio que morrerá entre sorrisos, tão grande é sua alegria", escreve Irmã Maria da Eucaristia a seus pais, num de seus valiosíssimos boletins de enfermeira.

Trocadilhos, "brincadeiras" de vários gêneros, arremedos, humorismo a propósito de si mesma ou da perplexidade dos médicos, disso dispõe Teresa variado repertório, exprimindo o fundo de seu caráter e sua caridade fraterna. A fonte de sua alegria provém de sua onímoda aceitação da vontade do "Papai Bom Deus", a quem logo irá contemplar face a face. "Não vos entristeçais de me verdes doente, minha Mãezinha, pois vedes como o Bom Deus me torna feliz. Estou sempre alegre e satisfeita".

Generosa ternura de um "coração sensível e amoroso", dá a cada um de acordo com suas necessidades; aceita e pede até um beijo, "beijo que seja sonoro, enfim que estale nos lábios!" Fraternal caridade, sobre que tão bem escrevera em junho, manifesta agora as dimensões de seu oculto heroísmo. A gente vai à enfermaria mendigar, veladamente, um conselho ou um sorriso. Mestra de noviças, preocupa-se, até o fim com as lágrimas da Irmã Maria da Trindade, com os desalentos de sua "Babá" (Irmã Genoveva), ou desculpa as faltas da boa e velha Irmã Santo-Estanislau, sua enfermeira.

Quem então suspeitaria --- a não ser algumas raras confidentes --- que ela, habitualmente, continua engolfada na "noite", no "subterrâneo", como que diante de uma "parede"?

Pois, é a terrível provação, comunicada confidencialmente à Madre Maria de Gonzaga, só terminará no dia extremo. Em face da morte, sob a tortura dos sofrimentos físicos, Teresa aspira ao Céu com todas as veras de sua alma, e parece-lhe estar "fechado". "Tudo se refere ao Céu. Como é estranho e incoerente!" Emergem, como relâmpagos, rápidas confidências à Madre Inês: "Que a gente ame tanto o Bom Deus e a Santíssima Virgem, e tenha tais pensamentos!... Mas, não demoro neles". Ao divisar pela janela um "buraco negro" no jardim: "Num buraco desses me encontro, tanto de alma, como de corpo. Oh! sim, que trevas! Dentro delas, porém, estou tranqüila".

Em 8 de setembro, juncada de flores, festeja o sétimo aniversário de profissão. Chora de gratidão: "É por causa das finezas do Bom Deus para comigo. Exteriormente, sou cumulada delas; interiormente todavia, sempre me encontro em estado de provação... Ainda assim, estou tranqüila".Tece duas grinaldas de acianos para a estátua da Virgem do Sorriso.

De regresso, o Dr. de Cornière mostra-se consternado com a situação de sua doente. Irrompe nova e derradeira agravação, depois de dezenove dias de relativa melhora. O pulmão esquerdo está inteiramente tomado pela tuberculose. Teresa sufoca, já não pode falar senão em frases entrecortadas: "Mamãe!... Falta-me o ar da terra. Quando me dará o Bom Deus o ar do Céu?... Ah! nunca esteve tão curta! (sua respiração)".

Qual viajor exausto, titubear no fim da caminhada, ela chega ao termo final de sua via-sacra: "Sim, mas é nos braços do Bom Deus que vou tombar!" Sente, em face da morte, alguns instantes de incerteza: "Tenho medo de ter tido medo da morte... Mas, certo, depois, não tenho medo! E não lastimo perder a vida. Oh! não. Basta só dizer a mim mesma: Em que consiste a misteriosa separação de alma e corpo? Foi a primeira vez que tive tal sensação, mas de pronto me abandonei ao Bom Deus".

A agonia propriamente dita durará dois dias. Mas, desde 21 de setembro, Teresa geme: Oh! que é agonia? Parece-me estar nela todo o tempo".

Na manhã de quarta-feira, dia 29, a doente estertora penosamente. Madre Maria Gonzaga convoca a comunidade em redor do leito, reza durante uma hora as orações dos agonizantes. Ao meio-dia, Teresa pergunta à Priora: "Minha Madre, estou na agonia?... Como farei para morrer? Nunca saberei morrer!..." Depois da visita do médico, indaga ainda: "Será para hoje, minha Madre?" --- "Sim, minha filhinha". --- "Se morrer agora mesmo, que felicidade! Um pouco mais tarde: "... Quando de fato sufocarei!... Já não posso mais! Ah! rezem por mim!... Jesus! Maria!... Sim, quero muito..."

Sentada, solitária, à "mesa dos pecadores", não pode contar com nenhuma ajuda de fora. O capelão espantou-se com as tentações de sua penitente: "Não vos detenhais nelas, é muito perigoso!" Receosa de fazê-las participar de seus tormentos, ela mantém muita reserva para com suas irmãs. Já não pode sequer valer-se dos Sacramentos. A 19 de agosto, comunga pela última vez. "Quando lhe levam a Sagrada Eucaristia, entramos todas, a salmodiar o Miserere. Na última vez, estava tão debilitada, que só de ouvir-nos quase se lhe atacavam os nervos. Sofria um martírio".

A impossibilidade de comungar, desde essa data, nem por isso abatia o ânimo de Teresa: "Sem dúvida, grande graça; receber os Sacramentos. Mas, quando o Bom Deus o não permite, ainda assim acho bom. Tudo é graça".

Foi por intenção do ex-carmelita Padre Jacinto Loyson que ofereceu a derradeira Comunhão, pois "nada lhe pára nas mãos". "Tudo o que tenho, tudo o que ganho, é para a Igreja e para as almas". A obsessão pelos pecadores e pela salvação de todos não deixa de recrudescer. Nutre-a pela troca de correspondência com seus irmãos espirituais, a quem promete ajuda proficiente: "Quando tiver aportado, ensinar-vos-ei, querido irmãozinho de minha alma, como devereis singrar pelo mar tempestuoso do mundo: com o abandono e o amor de uma criança, ciente de que seu pai lhe quer bem e não poderia deixá-la abandonada à hora de perigo... O caminho da confiança, simples e amorosa, é bem indicado para vós", escreve ao Padre Bellière.

Na enfermaria, a vida decorre tão dia-a-dia e tão monótona, que ninguém imaginará que ali esteja uma Santa na iminência de morrer. De vez em quando, porém, misteriosas declarações projetam raios de luz num porvir muito próximo: "Minhas irmãzinhas, bem sabeis que cuidais de uma santinha!... Recolhei cuidadosamente as pétalas (de rosa), minhas irmãzinhas. Servir-vos-ão, mais tarde, para obséquios... Não percais nenhuma..." Ao mesmo tempo, porém, quando lhe sugerem várias datas para seu trespasse, protesta sua total pobreza: "Oh! minha Madre, são intuições! se soubésseis em que penúria me encontro! Nada sei além do que sabeis! Nada adivinho senão através do que vejo e sinto".

Todas as declarações feitas na enfermaria urdem um como que grandioso Magnificat, na linha dos manuscritos, que enaltecem a misericórdia do Senhor. Por mera graça alcançou Irmã Teresa tal abandono: "A palavra de Jó: 'Ainda que Deus me matasse, Nele sempre poria minha esperança', encantou-me desde a infância. Não obstante, levei muito tempo até me colocar nesse grau de abandono. Agora, nele estou. O Bom Deus pôs-me dentro, tomou-me aos braços, e lá me largou..."

Lúcida, reconhece suas limitações, aceitando todas as humilhações, decorrentes de seu estado de doente grave: atos de fraqueza, prantos, impaciência para com alguma irmã importuna: "Oh! como sou feliz em me conhecer imperfeita e sentir tanta necessidade da misericórdia do Bom Deus à hora da morte!"

Dá a impressão de tornar-se pura transparência: "Mas, como bem se verá, tudo vem do Bom Deus. E o que me couber de glória, será um dom gratuito, que a mim não pertencerá. Todo o mundo o verá exatamente"...

Todavia, passado o paroxismo dos sofrimentos do fim de agosto, mudou-se a cama para o meio da enfermaria. Pela janela aberta, pode Teresa contemplar o esplendor do jardim (ela que gosta de flores e frutos), o céu físico (o outro continua fechado), ouvir o salmodiar do Ofício Divino ou alguma música ao longe. A vida parece retornar. Eis que ela agora sente fome. Tia Guérin desdobra-se para satisfazer seus "apetites de coisas boas", inclusive de um bolo de chocolate!

A 30 de agosto, deitada num leito com rodas, Teresa é levada pelo interior do claustro até a porta do coro, que avista pela última vez. Irmã Genoveva aproveita, então para tirar o último retrato de sua irmã. Muito emagrecida, num esforço de sorrir, Teresa desfolha rosas por sobre o Crucifixo, do qual não se sapara.

De tarde, Padre Faucon vem confessá-la. Comovidíssimo, expande-se ao sair da enfermaria: "Que bela alma! Está ao que parece, confirmada na graça".

De noite, apesar de seus protestos, Irmã Genoveva e Irmã Maria do Sagrado Coração velam junto dela. Noite muito dolorosa. Pela manhã, suas três irmãs permanecem com ela durante a Missa. Teresa olha ofegante para a estátua da Virgem: "Oh! implorei-a com um fervor!... Agora é agonia de verdade, sem nenhum misto de consolação..."

Na tarde de quinta-feira, 30 de setembro, Teresa ergue-se um pouco da cama, senta-se, o que já não podia fazer várias semanas. "Vede quanta força tenho hoje! Não, não vou morrer! Levarei meses ainda, anos talvez!" No dizer de testemunhas, passa então "pelos últimos arrancos da mais atroz agonia".

Por volta das 15 horas, sentada na cama, estende os braços. apóia-se em Madre Inês e Irmã Genoveva, que a cercam. Por que não evocar, então as palavras proferidas em junho, a propósito da "morte de amor", que esperava: "Não vos amofineis, minhas irmãzinhas, se padeço muito, e, como já vo-lo disse, se não virdes nenhum indício de bem-aventurança. Nosso Senhor, por certo, morreu na Cruz angustiado, e não obstante eis aí a mais bela morte de amor (...). Morrer de amor não é morrer em êxtases. Com franqueza vo-lo confesso, parece-me ser isto o que sinto".

Madre Inês coligiu estas palavras de Teresa:

"Já não acredito em morte, para mim... Já não acredito
senão
em sofrimento... Pois, então, tanto melhor!"
"Ó meu Deus!..."
"Eu o amo, ao Bom Deus!"
"Ó minha boa Santíssima Virgem, vinde em auxílio!"
"Se isto é agonia, que será então a morte?!..."
"Ah! meu Bom Deus!... Sim, Ele é muito bom, acho-o muito bom..."
"Se tivésseis uma idéia do que é sufocar!"
"Meu Deus, tende piedade de vossa pobre filhinha! Apiedai-vos dela!"

À Madre Maria de Gonzaga:

"Ó minha Madre, asseguro-vos, o cálice está cheio até a borda!..."
"... Mas, o Bom Deus, com toda a certeza, não me abandonará..."
"... Ele nunca me abandonou".
"... Sim, meu Deus, tudo o que quiserdes, mas tende compaixão de mim!"
"... Minhas irmãzinha, minhas irmãzinhas rezai por mim!"
"... Meu Deus! meu Deus! que sois tão bom!!!"
"... Oh! sim, sois bom, eu o sei..."
"... Sim, parece-me que nunca procurei senão a verdade.
Sim, compreendi a humildade de coração... Parece-me que sou humilde". "...Tudo o que escrevi sobre meus desejos de sofrer, oh! apesar dos pesares, é muito verdadeiro!"
"... E não me arrependo de me haver entregue ao Amor!"

Com insistência:

"Oh! não, não me arrependo, pelo contrário!"

Madre Inês declara: "Estava sozinha junto dela, quando pelas quatro horas e meia, percebi pela sua súbita lividez que o derradeiro transe se aproximava. Nossa Madre veio de novo, e num instante estava reunida toda a comunidade. Ela sorriu-lhe, mas mas não falou mais até o momento da morte. Horrível estertor lancinou-lhe o peito por mais de duas horas. O rosto estava congestionado, as mãos arroxeadas. Tinha os pés gelados, e tremia de todos os membros. Copioso suor orvalhava-lhe a fronte em gotas enormes, destilando-lhe pelas faces. Sentia uma ofegação cada vez maior, e para respirar, soltava de vez em quando gritinhos involuntários".

Teresa sorri à Irmã Genoveva que lhe enxuga a testa, e lhe passa um pedacinho de gelo nos lábios ressequidos.

À hora de bater o Angelus (18 horas), a agonizante fita longamente a Virgem do Sorriso. Segura firmemente o Crucifixo. A comunidade que ficara cerca de duas horas na enfermaria, é dispersada pela Priora. Teresa suspira:

"Minha Madre! Não é ainda a agonia?... Não morrerei?...
--- Sim, minha pobrezinha, é a agonia,
mas o Bom Deus quer talvez prolongá-la algumas horas.
--- "Pois bem!... Vamos!...Vamos!...
Oh! não quisera sofrer menos tempo..."

A cabeça recai no travesseiro, inclinando-se para a direita. A Priora manda tocar a campa da enfermaria, as religiosas retornam às pressas. "Abri todas as portas!" ordena Madre Maria de Gonzaga. Mal a comunidade ajoelhada de novo em redor do leito, Teresa, olhando para o seu Crucifixo, profere distintamente: "Oh! eu o amo..." Um instante após: "Meu Deus... eu vos amo!"

De súbito, os olhos adquirem nova vida e fitam determinado ponto, abaixo da estátua da Virgem. O semblante volta à expressão que tinha em plena saúde. Ela parece estar em êxtase. O olhar durou o espaço de um Credo. Depois, cerra os olhos, e expira. São 19 horas e vinte minutos, aproximadamente.

Com a cabeça pendida à direita, com misterioso sorriso nos lábios, está com uma aparência muito linda, como o demonstra a fotografia tirada por sua irmã.

Ficou exposta, segundo o costume, dentro do coro, junto à grade, desde sexta-feira de tarde até domingo de noite, e foi sepultada em terra rasa na segunda-feira, 4 de outubro de 1897, no cemitério de Lisieux.

Da enfermaria, escrevera ao Padre Bellière: "Não morro, entro na vida".

Ia começar a prodigiosa vida póstuma desta desconhecida Carmelita...

Carta do papa Paulo VI ao bispo de Bayeux e Lisieux no centenário do nascimento de Santa Teresa - 2 de janeiro de 1973

Na nossa época, a intimidade com Deus permanece como um objetivo capital, mas difícil. Lançaram, de fato, a dúvida sobre Deus; qualificaram de alienação toda busca de Deus por ele mesmo; um mundo amplamente secularizado tende a isolar de sua fonte e finalidade divinas a existência e ação dos homens. E, no entanto, a necessidade de uma oração contemplativa, desinteressada, gratuita, faz-se sentir cada vez mais fortemente. O próprio apostolado, em todos os seus níveis, deve se enraizar na oração, convergir para o coração de Cristo, sob pena de se transformar numa atividade que de evangélico apenas conservaria o nome.

Diante dessa situação, Santa Teresa permanece antes de tudo como aquela que acreditou apaixonadamente no amor de Deus, que viveu sob seu olhar os mínimos atos da vida cotidiana, caminhando na sua presença; que fez da sua vida o Bem-amado e que aí encontrou, não somente uma extraordinária aventura espiritual, mas o ponto de onde alcançava os horizontes mais vastos e comungava intimamente nas preocupações e nas necessidades missionárias da Igreja.

Todos os que hoje estão em busca do essencial, que vislumbram a dimensão interior da pessoa humana, que procuram o Espírito capaz de suscitar uma verdadeira oração e de dar à sua vida um valor teologal, nós os convidamos, sejam eles contemplativos ou ativos, a se voltarem para a carmelita de Lisieux.

CRONOLOGIA

ALENÇON (1873-1877)

02/01/1873 às 23:30 hs.
Nasce Maria Francisca Teresa Martin, à Rua Sainte-Blaise, 36, hoje 42.

04/01/1873
Batismo na igreja de Nossa Senhora, pelo Pe. Lucien Dumaine. Padrinhos: a irmã mais velha, Marie (13 anos) e Paul Albert Boul (13 anos).

14/01/1873
Primeiro sorriso à sua mãe.

15/03 ou 16/03/1873
Partida para Semallé (Orne), casa de Rosa Taillé, a fim de ser amamentada.

02/04/1874
Retorna definitivamente para sua casa.

24/06/1874
Começa a falar quase tudo.

29/03/1875
Viagem com a mãe até Mans para visitar Irmã Maria Dositéia, no mosteiro da Visitação

16/07/1876
Primeiro retrato. Faz beicinhos para o fotógrafo.

24/12/1876
Sua mãe, Zélia Martin, consulta com Dr. Notta, em Lisieux, a respeito de seu tumor no seio. Não é mais possível fazer uma cirurgia.

03/04/1877
Aos quatro anos: "Serei religiosa em um claustro".

04/04/1877
Primeiro escrito de Teresa: um bilhete a Luisa Madalena, amiga de Paulina.

18 a 23/06/1877
Sra. Martin, Maria, Paulina e Leônia fazem uma peregrinação a Lourdes

28/08/1877
Morre da Sra. Martin

29/08/1877
Sepultamento da Sra. Martin. Teresa escolhe Paulina como sua segunda mãe.

LISIEUX - LES BUISSONNETS (1877-1888)

15/11/1877
Chegada de Teresa e suas irmãs a Lisieux, aos cuidados do tio Guérin

16/11/1877
Instalação nos Buissonnets

30/11/1877
Chega o pai, Sr. Louis Martin

08/08/1878
Pela primeira vez, Teresa vê o mar,
em Trouville

Verão
de 1879 (ou em 1880)
Visão profética a respeito da provação de seu pai

01/12/1880
Primeira carta (que se conserva) que ela escreveu sozinha (a Paulina)

12/01/1882
Inscrição na Obra da Santa Infância

16/02/1882
Paulina decide ingressar no Carmelo

verão 1882.
Fica sabendo da partida próxima de Paulina. Sente-se chamada ao Carmelo. Fala com Madre Maria de Gonzaga

Outubro 1882
O nome Teresa "do Menino Jesus" lhe é proposto por Madre Maria de Gonzaga.

25/03/1883
Páscoa. Sr. Martin, Maria e Leônia estão
em Paris. Teresa adoece na casa dos Guérin. Tremores nervosos, alucinações

06/04/1883
Tomada de hábito de Paulina (Irmã Inês de Jesus). Teresa pôde abraçar sua irmã no locutório.

07/04/1883
Recaída, nos Buissonnets.

13/05/1883
Pentecostes. Sorriso da Virgem, cura repentinamente Teresa.

01/10/1883
Ano de preparação para a Primeira Eucaristia.

02/04/1884
Exame do catecismo

04/05/1884
Retiro preparatório de quatro dias.

07/05/1884
Confissão geral

08/05/1884
Primeira Eucaristia na Abadia das Beneditinas. Profissão de Irmã Inês de Jesus no Carmelo.

22/05/1884
Comunga pela segunda vez.

14/06/1884
Crisma, por Dom Hugonin, bispo de Bayeux, na Abadia. Madrinha: Leônia, sua irmã.

25/09/1884
Inscreve-se na Confraria do Santo Rosário

14/12/1884
Teresa é nomeada Conselheira da Associação dos Santos Anjos, na Abadia.

26/04/1885
Inscreve-se na Confraria da Sagrada Face de Tours

15/10/1885
Inscreve-se no Apostolado da Oração

02/02/1886
Recepção como aspirante das Filhas de Maria.

15/10/1886
Entrada de Maria no Carmelo (Irmã Maria do Sagrado Coração de Jesus)

25/12/1886
Aos trezes anos, depois da Missa da Meia Noite, Graça da Conversão, nos Buissonnets.

29/05/1887
Pentescostes. Teresa consegue do pai licença para ingressar no Carmelo aos quinze anos de idade.

31/10/1887
Visita a Dom Hugonin, em Bayeux, para solicitar ingresso no Carmelo.

20/11/1887
Audiência de Leão XIII. Teresa apresenta seu pedido ao Papa.

28/12/1887
Resposta favorável de Dom Hugonin à priora do Carmelo, Me. Maria de Gonzaga, para admissão de Teresa.

01/01/1888
Resposta positiva, mas o Carmelo delonga em três meses a entrada de Teresa, para depois da Quaresmas.

09/04/1888
Festa da Anunciação. Entrada de Teresa no Carmelo de Lisieux.

NO CARMELO (1888-1897)

9/04/1888 a 10/01/1889
Postulantado

abril 1888
ocupação: rouparia. Deve também varrer um dormitório.

28/05/1888
Confissão geral ao Pe. Pichon

fim de outubro de 1888
Teresa é admitida pelo Capítulo Conventual à tomada de hábito.

Novembro de 1888
em razão do estado de saúde do Sr. Martin, a tomada de hábito de Teresa é adiada

10/01/1889
Tomada de hábito. Última festa para o Sr. Martin. Teresa acrescenta "da Santa Face" ao seu nome religioso.

10/01/1889 a 24/09/1890
Noviciado

Janeiro 1889
Ocupação: refeitório, com Irmã Inês de Jesus e serviço de vassoura.

Julho 1889
Teresa recebe uma graça marial no eremitério de Santa Madalena e "semana do silêncio".

Janeiro 1890
Retardamento da profissão de Teresa. Ela
lê Les fondements de la vie spirituelle, do Pe. Surin.

28/08/1890
início do retiro para profissão. Secura espiritual.

02/09/1890
Exame canônico na capela.

07/09/1890
Teresa duvida de sua vocação

08/09/1890
Profissão de Teresa. "Inundada de um rio de paz"

10/02/1891
Designada como segunda sacristã com Irmã Santo Estanislau

07 a 15/10/91
Retiro pregado pelo franciscano Fr. Alexis Prou. Teresa é lançada "nas ondas da confiança e do amor"

12/05/1892
Última visita do Sr. Martin ao locutório.

02/02/1893
Compõe sua primeira poesia, O orvalho Divino.

20/02/1893
Eleição de Madre Inês como Priora. Teresa torna-se auxiliar da Mestra de Noviças, Madre Maria de Gonzaga.

02/01/1894
Atinge a maioridade. Compõe "A Missão de Joana d'Arc"

Primavera 1894
Começa a sofrer da garganta

29/02/1894
Morte do Sr. Martin no Castelo de
La Musse (Eure), às 8h e 15m.

Dezembro 1894
Recebe da Madre Inês de Jesus a ordem de escrever suas memórias.

1895
ano da redação do Manuscrito A

abril 1895
Confidencia a Irmã Teresa de Santo Agostinho: "Morrerei em breve".

09/06/1895
Recebe, durante a missa, a inspiração de oferecer-se ao Amor Misericordioso.

11/06/1895
Faz, com Celina, a oblação do Amor, diante da Virgem do Sorriso.

17/10/1895
Teresa é designada, por Madre Inês, irmã espiritual do Pe. Maurício Bellière, seminarista e aspirante a missionário.

20/01/1896
Teresa entrega a Madre Inês o Manuscrito A.

21/03/1896
Difícil eleição (sete dias) de Madre Maria de Gonzaga. Teresa é confirmada no cargo de Mestra auxiliar no noviciado. Outros ofícios: sacristia, pintura, rouparia (com Maria de São José).

2 a 3/03/1896
Noite de Quinta para Sexta-feira Santa: primeira hemoptise, na cela.

05/04/1896
Entrada "nas mais densas trevas", provação da fé, que durará até sua morte.

30/05/1896
Madre Maria de Gonzaga confia a Teresa um segundo irmão espiritual: Pe. Roulland, das Missões Estrangeiras.

08/09/1896
Redação da segunda parte do Manuscrito B

Início de abril 1897
Gravemente enferma.

06/04/1897
Início das Últimas Palavras.

03/06/1897
Redação do Manuscrito C, por ordem de Madre Maria de Gonzaga.

08/07/1897
Teresa desce para a enfermaria. Manuscrito C inacabado

30/08/1897
Última fotografia, no claustro

14/09/1897
Desfolha uma rosa sobre o crucifixo.

29/09/1897
Agonia. Confissão ao Pe. Faucon.

30/09/1897
Morte de Teresa, diante da comunidade reunida, por volta das 19h e 20m.

04/10/1897
Sepultamento no Cemitério de Lisieux

VIDA PÓSTUMA

30/09/1898
Publicação de 2000 exemplares de "História de uma Alma".

26/05/1898
Reine Fauquet, menina cega de quatro anos de idade é curada sobre o túmulo de Teresa.

14/08/1921
Bento XV promulga o Decreto sobre a heroicidade das Virtudes da Venerável Serva de Deus.

29/04/1923
Beatificação da Irmã Teresa do Menino Jesus por Pio XI.

17/05/1925
Solene Canonização na Basílica de São Pedro, em Roma.

14/12/1927
Proclamada Padroeira Universal das Missões.

03/05/1944
Nomeada Padroeira secundária da França, juntamente com Santa Joana d'Arc.

30/09/1997
Primeiro Centenário de Sua Morte.

19/10/1997
Solene Proclamação como Doutora da Igreja, pelo Papa João Paulo II.

13/12/1997
A urna com suas relíquias chega ao Brasil para peregrinar por várias dioceses, trazida pelo Cardeal Primaz Dom Lucas Moreira Neves.

30/09/1998
Primeiro Centenário da Publicação de "História de uma Alma".

Traços delicados, rosto de uma beleza suave, um leve sorriso. Uma jovem carmelita segurando um crucifixo: eis a Santa Teresinha de todos nós, aquela que nos habituamos a ver na Igreja, nos livros e, sobretudo, dentro de nós mesmos.

Toda essa suavidade era acompanhada de uma literatura que fazia aumentar ainda mais o aspecto irreal de Teresinha.

Sendo uma santa contemporânea, o renome de sua santidade, entretanto, era de tal vulto, que em poucos anos o mundo inteiro a conhecia. E a conhecia assim. Um anjo que passara pela terra, distribuindo rosas. O gosto pelo “fru-fru” e as novelas açucaradas tinham atingido a santinha. Ela se transformara no protótipo da água com açúcar dos conventos. Algumas pessoas começaram a estranhar que uma santa tão mal equipada de méritos, estivesse incluída no calendário cristão. Torceram o nariz.

O seu livro “História de Uma Alma” começou a ser lido com espírito crítico. Eis o que diz Ida Görres, no seu notável livro sobre a santa: “Sejamos sinceros, qual o cristão vulgar do século XX que não se sente desapontado ao ler, pela primeira vez, a ‘História de Uma Alma?’ Qual de nós gostou espontaneamente desse livro, sem que a nossa consciência intranqüila nos levasse, modestamente, a atribuir essa desilusão à nossa própria inferioridade?”.

Essa queixa de sua hagiógrafa tem sua razão. Como literatura propriamente dita, “História de Uma Alma” trazia uma contribuição mais para o lado de Delly do que de Proust. Quanto ao conteúdo parecia diluído, uma mensagem, sim uma mensagem, mas como extraí-la do meio de tanta miudeza, de tantos “ahs” e “ohs” ? “De início o livro não apresenta nenhum indício de grandeza”.

De início, dizemos. Como esse livro é pequeno e dolorosamente insignificante. É como se tivéssemos de nos abaixar para entrar num mundo onde tudo é representado em dimensões reduzidas, onde tudo é pálido, suave, frágil, como as rendas que a mãe da santa executava” (Teresa de Lisieux, Ida Görres).

No entanto daquele mundo que era “uma sala acanhada da classe média, cheia de bibelôs”, ia nascer a doutrina teresiana, doutrina que renovaria o espírito de penitência e criaria uma nova força, dentro do mundo cristão.

Bem precisado disso andava o mundo. Não somente o mundo religioso, como o outro, aquele dentro do qual vivemos todos religiosos ou não. É verdade que nosso velho mundo jamais oferece qualquer originalidade: volta e meia está decadente.

A doutrina da infância espiritual chega num instante em que o velho mundo, como sempre, arqueja. A figura suave e doce de Teresinha é uma claridade no coração de toda gente.

“Quem poderia imaginar que no início do nosso século, uma tal onde de veneração, de amplitude mundial, por uma santa, seria possível no seio da Igreja! Na verdade, o culto dos santos parecia na iminência de ser relegado para o campo do ‘paganismo’ católico, isto é: para um domínio coberto de ridículo, como era o dos conventos, das aldeias, da devoção infantil, dos crentes ‘ignorantes’ e ‘reacionários’. O católico culto via-se obrigado a explicar o culto com uma certa indulgência e embaraço, como uma certa sobrevivência e uma curiosidade tolerada, análoga, aos costumes tribais de uma reserva de índios” – E continua Ida Görres, com agudo espírito analítico que Deus lhe deu: “No entanto, esse movimento, nascido nos anos de mais esmagador materialismo de classe média, irrompia da decadência religiosa, da indolência e do vácuo, do período anterior à guerra”.

Não sei se tiveram a mesma impressão que eu, mas ao ler isso tive que voltar à literatura para verificar se a autora estava se referindo ao século dezenove ou a este final de século vinte. Todos aqueles sintomas voltam à tona em toda a Igreja. Puseram lantejoulas e um rótulo novo: chama-se “Igreja Moderna”. No fundo é aquilo que sabemos.

Foi contra o farisaísmo demoníaco de uma época que o Senhor lançou esse livrinho de aparência pálida e sem valor e a figurinha suave e lírica de uma carmelita segurando rosas.

Uma bomba atômica não teria sido mais eficiente. É talvez um pouco desconcertante a figura da guerreira que o Senhor chamou a seu serviço para sustentar o estandarte da fé e combater o ateísmo. Porém, figura melhor não fez David quando lançou a queixada de burro contra o gigante Golias.

O “Caminho da Infância Espiritual” era aparentemente uma coisa fácil e a Santa, uma santinha medíocre. A investigação sistemática do “pequeno caminho” mostrou que era um caminho heróico. Quanto à santinha, pouco a pouco foi revelando uma nova face. Debaixo daquela montanha de pétalas e plumas emergia uma figura de impressionante fortaleza.

Cabe aqui, agora, lembrar que há muitas almas desprevenidas quanto ao caminho da santidade. Estivéssemos nós vivendo em tempos mais amenos eu tocaria a história para frente sem me deter nisto. Mas, como estamos vivendo os mesmíssimos problemas do século dezenove e de outros séculos, é bom fazer uma pequena pausa. Santos e santidade estão sempre enrolados com romantismo. O santo nada tem de romântico. Ele é um ser que aceitou a espada de Cristo, está combatendo, quase sempre contra sua própria pessoa. Essa pessoa que quer crescer e se agigantar, matando por completo o Cristo que há nele, o “homem novo” que surgirá de uma escultura de mortificações, orações, trabalhos e sofrimentos. Assim, muitos pensam que santos já nascem santos, sem ambições, sem amor próprio, gostando somente de servir e nunca ser servido. E que entre orações e visões maravilhosas, um dia, sobem aos céus e começam a fazer milagres. Essa perigosa imagem, tentaram dar a Teresinha. Entretanto, só Deus sabe o quanto lhe custou subir, passo a passo, o seu pequeno caminho. Julgam que foi uma criança sem defeitos, um anjo sem problemas. Eis aqui um depoimento, de certa forma autêntico, mas, romantizado: “uma criança cujo olhar meigo e penetrante, longas madeixas louras e angélico sorriso, lembrava a aparição de um querubim” (P. Feitosa “Santa Teresinha”). E agora a carta de Zélie Martin, mãe de Teresinha, à sua filha mais velha Paulina, então no internato em Mans: “Sou obrigada a corrigir essa pobre criança que se deixa levar por crises de furor espantosas, quando as coisas não lhe correm bem”.

É verdade que possui uma inteligência superior, que é meiga e afetuosíssima. Mas, não isenta de defeitos. E os defeitos a fazem sofrer. Quando se convence de que cometeu uma falta, chora, pede perdão, fica transtornada. Mas, logo depois torna a cair em falta. A criança amada, mimada por todos, parece ter tido uma infância cor de rosa, sem lagrimas, toda doçuras. Mas no limiar dos quatro anos, a irmã mais velha que partiu para o convento, e mais tarde, aos onze anos, a segunda carmelita a partir Paulina tudo a faz sofrer intensamente. A criança sensível bebe o cálice amargo, até adoecer de dor.

No dia vinte e nove de julho de 1897, sua irmã lembrava que uma freirinha comentara: “Não sei porque se fala de Teresinha como uma santa. É verdade que ela praticou a virtude, mas não foi uma virtude adquirida pelas humilhações e sofrimentos”. E Teresa, já bem perto da morte respondeu: “E, no entanto eu sofri tanto, desde a mais tenra infância!...” (Novíssima Verba, Notas de Madre Inês de Jesus).

E eis o quadro da infância sem nuvens dissipado, e a cruz de Cristo pendendo sobre os ombros fracos de uma menininha de olhos azuis e cabelos louros, mas de caráter resoluto e “teimosa” como ninguém, conforme dizia sua própria mãe.

Mas, em tudo é preciso andar com cautela. O perigo de se querer levantar o véu de uma criatura estereotipada como um anjo terreno está no fato de, com o ímpeto, irmos parar do outro lado, como quem dá um salto violento e mal calculado. Seria horrível se em lugar dessa figurinha suave e quase incolor surgisse uma megera feroz. Deus nos livre. Assim também Teresa criança que “lembrava um querubim”, não devemos ver o oposto, isto é, uma criança indomável, voluntariosa e mimada. Ela foi, antes de tudo, inteligente e sensível.

Da mesma maneira que seu caráter poderia sofrer uma distorção se nos atirássemos para o lado oposto, também fisicamente Teresinha seria prejudicada em um julgamento drástico.

Convencionalmente, era uma moça belíssima. Vê-se pelas fotografias que foi bonita, de fato, alta, de porte elegante, olhos azulados e cabelos louros. A adolescente que o Papa Leão XIII teve aos seus pés era de fato, linda.

Teria a adolescente traído a garota que aos nove anos dizia “quero ser religiosa”? Não traiu.

Teresa Martin estava se desenvolvendo firme e seguramente para a santidade. Ela pisava o caminho dos pequenos sacrifícios. Um sacrifício da bonita Teresa Martin era jamais se olhar ao espelho. Podiam dizer dela o que quisessem. Não ia buscar confirmação no espelho, de jeito nenhum. Só Deus – que fez a mulher é que pode avaliar o quanto isso lhe custou.

Fazer violência sobre si mesma era um exercício que sabia ser necessário enquanto vivesse. E foi fazendo violência sobre si mesma que contou ao pai seu desejo de se tornar carmelita, ainda que se desmanchando em lágrimas.

Mas a grande violência, aquela que a faz tremer, - foi quando, obedecendo à sugestão da Madre Superiora do Carmelo, Madre Marie de Gonzague, a menina ousou quebrar o protocolo, desobedecer às instruções do Mestre de Cerimônias e falar ao Papa:

Em honra de Vosso jubileu, deixai-me entrar para o Carmelo aos quinze anos de idade!

Choque. Escândalo. Reprimendas. Teresinha suava por todos os poros, mas obedeceu às irmãs. Era para falar? Falou. Queria deixar o mundo, imolar-se por amor de Deus, para salvação das almas, mas principalmente, pelos sacerdotes.

Era uma adolescente de quinze anos que abominava a vida e este mundo que a tantos seduzia? Nada disso. Eis o que diz Jean François Six (“La véritable enfance de Thérèse de Lisieux”, pág. 266): “Durante a viagem, Teresa queria ver tudo ‘eu gostaria de poder estar, ao mesmo tempo, dos dois lados do vagão para não perder nada!’” A beleza da paisagem a arrebatava e a jovem extasiada sorvia aquele instante de maravilhamento. Como toda criatura sensível, amava as flores, os prados, os montes, os rios e o largo céu azulado. Como uma heroína, também isso queria sacrificar, por amor de Deus e de seus amados sacerdotes. E muitas vezes, penso comovida, que deve ter havido tanto ingratidão por esse lado, que mesmo no céu, Teresinha deve ter repetido o seu exercício de perfeição “é preciso dar, sem esperar nada em troca”. Nada, pode significar até mesmo ofensas e desprezo, pois o que há de negativo no nada, está incluído nessas palavras.

Do seu famoso livro “História de Uma Alma”, que ela escreveu “sem se preocupar com o estilo” (Manuscrits autobiographiques) muito se falou e muito se falará ainda. Foi também um ato de heróica obediência que a levou a escrevê-lo. A principio há um toque de amenidade em seu trabalho. No seu depoimento publicado pelo Carmelo de Lisieux, Maria Paulina, segunda mãe de Teresa, conta detalhadamente como se deu o fato. Durante uma hora de recreação, no convento, as irmãs rememoravam incidentes da infância e Teresinha narrava com tamanha graça os acontecimentos daquele tempo que Maria, a Irmã do Sagrado Coração, pediu á Superiora que lhe ordenasse escrever aquelas histórias. Só assim, um dia, poderiam lembrar carinhosamente um tempo que se fora e que tanta saudade deixara. Era então Superiora do Carmelo a própria Paulina, então Madre Maria Inês. Atendendo ao pedido da irmã, ordenou a Teresinha que escrevesse as lembranças de sua infância, conta a Madre que Teresinha obedeceu, utilizando para isso suas horas vagas, os momentos que lhe pertenciam e que, em geral, as freiras prezam imensamente. Feito o trabalho entregou-o à Madre que ocupadíssima deixou-o meses e meses, num estante, sem sequer olhá-lo. Teresa jamais lhe perguntou se havia lido ou não.

O pedido feito em dezembro de 1894 e a entrega feita em janeiro de 1896. Dois anos depois. O que significa que Teresinha tinha poucos momentos de folga e que, embora lentamente, cumpriu a ordem, entregando o trabalho por ocasião da festa da Madre Superiora.

Um dia a doença a colheu, e Teresinha começou a dar sinais de que iria partir para o que ela sempre considerou sua verdadeira pátria: o céu. Madre Maria Inês não era mais superiora do Carmelo. A leitura daqueles primeiros trabalhos de Teresinha, lhe davam um depoimento da infância e adolescência. Mas como religiosa, pouca coisa havia ali. Então, aproximando-se da atual Superiora, repetiu o que sua irmã havia feito há anos atrás: pediu-lhe que ordenasse a Teresa que prosseguisse com os escritos e que desse um testemunho mais vivo da sua fé e de seu caminho espiritual. No dia 12 de junho de 1897, pouco mais de três meses antes de sua morte, Teresinha, por obediência, voltou ao trabalho. Todos sabem que as últimas páginas foram escritas a lápis, numa letra trêmula, num esforço que só Deus poderia explicar.

Depois da sua morte, começou a grande obra desse livrinho e também a grande polêmica em torno dele. Ida Görres no seu estudo sobre Teresinha, declara que foram feitas nada menos que sete mil correções. Isso fez com que de repente, todo mundo começasse achar que o livro era “outro”, coisa apócrifa, inventada pelas freiras. Foi preciso restaurar, dar-lhe a forma original, e, por fim, aos olhos dos desconfiados leitores, surgiu aquilo mesmo que era antes. Muito severa, muito aguda, Ida Görres tem um comentário irônico sobre a celeuma levantada em torno das correções: “alterando levemente a forma, em nada alteraram o conteúdo”. Sob esse aspecto a grande hagiógrafa alemã é cem por cento a favor da coordenação, do arranjo e da apresentação. Ela acha que seria impossível ler aquela “coisa caótica”, num tempo em que o nome de Teresinha e sua doutrina eram desconhecidos.

Entretanto, pesquisando os manuscritos e comparando a publicação oficial com os seus escritos, diz Ida Görres: “Os manuscritos em ‘fac-simile’ não nos trazem revelações sensacionais, nem alterações substanciais à nossa imagem da santa. A este respeito, a montanha deu à “luz um rato”.

Por outro lado, as fotografias de Teresa também oferecem margem a mil contradições. Muita gente tomou, e era natural, os desenhos de Celina pelas fotos autênticas. Por outro lado as fotos em que Teresa parecia mesmo linda eram dadas como muito retocadas. Pelo que ela corre ainda o risco de ser considerada uma mulher feia e braba. Valha-me Deus, era mesmo como toda moça bonita, às vezes a fotografia exagerava para um lado, outra vez para o outro. Como todo mundo. Nem nisso Teresinha fugiria ao corriqueiro. Às vezes bem, outras vezes mal. Mas, o que se pode notar em todas elas, é sem dúvida o traço marcante de sua personalidade, uma espécie de firmeza, de beligerância contida. Aquele rosto de nova reformadora do Carmelo, da menina que veio para confirmar a reforma de Teresa de Ávila, da guerreira a quem o Senhor entregara a defesa de seu reino devastado pelas heresias. Vendo-a tão jovem, tão bela, tão silenciosa, quem havia de dizer? Ninguém. Nem mesmo depois de sua morte, quando a santidade era comentada, havia quem não entendesse bem a história. Entre eles, o jesuíta Konstantin Kampf, 1929, dedica um lugar muito modesto à irmã Teresa entre cinqüenta e quatro fundadores de ordens modernas e sete religiosas notabilizadas por estigmas e visões.

Do livro de Kampf, talvez uma dúzia de figuras santificadas e apresentadas por ele, sejam conhecidas. Mas Teresinha suplantou enormemente a todos. Que estranho, que espantoso mistério, a vontade de Deus.

Por ocasião das festas da canonização, o Jesuíta Padre Rubillon foi o infatigável pregador da devoção à santa. O Brasil disse presente, às manifestações de louvor.

Os ossos de Teresinha repousam numa urna de prata, oferecida pelos brasileiros. Foi nessa urna, guarnecida de pedras preciosas do Brasil que seus despojos desfilaram em triunfo pelas ruas de Lisieux. Padroeira secundária da França, Padroeira das Missões, mestre de santidade, Teresinha parece ocultar toda sua grandeza para estar sempre perto de nós, como uma de nós, pequena e amiga. Mas, dessa criatura humilde e fiel, diante de cinqüenta mil católicos o Papa Pio XI disse:

“Para honra da Santíssima Trindade e de cada uma das Pessoas Divinas, para exaltação da fé católica, e aumenta da religião cristã, por autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo e dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo, depois de madura deliberação e tendo reiteradas vezes implorado o auxílio divino e tomado conselho com os cardeais da Santa Igreja Romana, patriarcas, arcebispos e bispos, presentes nesta cidade de Roma declaramos Santa a beata Teresa do Menino Jesus como tal a definimos e inscrevemos no catálogo dos Santos, ordenando que todos os anos, no dia de seus nascimento para o céu, isto é, a 30 de setembro, se comemore festivamente na Igreja Universal, sua piedosa memória. Em nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo, Amém”.

Assim será, pelos séculos dos séculos.



TEXTOS E ORAÇÕES EM HONRA DE

SANTA TERESINHA



Julgamos oportuno dedicar um número inteiro de PERMANÊNCIA à memória de Thérèse Martin (2 de janeiro de 1873) que entrou no Carmelo de Lisieux com quinze anos de idade, e pronunciou os santos votos em 8 de setembro de 1890. No mesmo mês recebeu o hábito com o nome de Soeur Thérèse de l’Enfant-Jesus et de la Saint Face. Viveu somente sete anos a vida obscura e silenciosa de uma pequenina religiosa ignorada do mundo, rejeitada pelo mundo, mortificada, morta antes de morrer porque nunca escolheu nada entre os nadas do mundo, tendo escolhido TUDO da Santa Vontade de DEUS. Deixou por obediência um caderno de apontamentos onde registrou os pequeninos passos, ínfimos, quase imperceptíveis, de uma vida exterior insignificante. Esse caderno, depois de sua morte, foi publicado pelas freiras de Lisieux com o título “História de uma Alma”. E aqui começa uma outra história, a desse livro, que pode sem nenhum exagero ser considerada um dos espantosos milagres do século que terminava engalanado, estrepitoso, iluminado para festejar as grandezas de uma civilização desviada de Deus. Misteriosamente, incompreensivelmente, milagrosamente o insignificante livro de uma história insignificante, que facilmente poderia ser afastada como convencional ou como presunçosa, começa a difundir-se, aos milhares, aos milhões, e chega em pouco tempo até os confins do Extremo Oriente. Mas o milagre ainda maior foi o de ter sido compreendido, diríamos quase adivinhado, por carvoeiros, cozinheiros, por padres, por Papas e até por intelectuais. Muitos desses leitores descobriram o segredo profundo de Teresinha, o segredo da santidade, a grandeza da pequenês, a glória da humildade, e todos os demais paradoxos da Cruz, sinal de contradição, de tropeço e de escândalo. O sucesso explosivo, humanamente inexplicável da pequenina carmelita de Lisieux foi uma resposta de Deus ao estardalhaço dos homens.

Nas matinas de Natal a Igreja rezava (ainda reza?) o Salmo II com que a Esposa de Cristo muito visivelmente respondia às insolências do mundo: “Quare fremuerunt gentes: et populi medittati sunt insânia?” E adiante: “Aqueles que habita nos céus se rirá deles”, se rirá dos poderosos que se coligaram contra o Senhor.

O nascimento de Jesus na terra foi, como nos ensina assim a liturgia sagrada, um grande riso de Deus; o nascimento de Teresinha no céu foi um eco daquele, e outra vez às almas de fé foi oferecido, como consolo dos escárnios dos homens que meditam coisas vãs, um largo clarão do riso do céu. Vejam! Mas passados treze anos de sua morte obscura e pequenina, a insignificante carmelita Teresinha, sempre inha, sempre pequenina, tem o diminuído nome espalhado no mundo inteiro, e um Papa imenso lê com pasmo a história de uma freira escondida em Lisieux, e manda logo iniciar-se o processo de sua beatificação. Consta que exclamou: “é a maior santa dos tempos modernos!”; mas só teve vida para assinar, dois meses antes de sua própria morte, o decreto de beatificação. A alegria da canonização Pio X só a teve no céu; mas não esperou muito porque seu antecessor Benedicto XV mandou suspender a isenção canônica que manda esperar cinqüenta anos post mortem para o inicio do processo de canonização. Também este Papa não viu Teresinha nos altares, mas seu sucessor parecia impaciente, e em 23 de abril de 1925 foi solenemente declarada Santa, e oferecida à veneração de milhões de impacientes fiéis, Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face. E Pio XI logo declarou que seria ela a “estrela de seu pontificado”. E desde 1927 apequenina e imóvel religiosa de Lisieux, que depois da entrada no convento só saiu para entrar no céu, a menos viajada religiosa do mundo, a menos espalhada, a menos empreendedora foi escolhida como padroeira de todas as Missões.

Os paradoxos da santidade se multiplicam em torno da bendita humildade dessa menina imensa. Em 1944, no ano trágico em que a França se deixou vencer por si mesma, mais humilhantemente do que em 1940, Santa Teresinha é colocada ao lado de Joana d’Arc como padroeira da França que tão bem serviu quando, logo depois de sua canonização fez tudo no céu para convencer Pio XI na terra que fora vítima de uma conjuração dos inimigos da Igreja no ato que o levou a separar dolorosamente os melhores católicos franceses. Hoje é conhecidíssima a atuação de Lisieux na reconciliação do Papa Pio XI com Charles Maurras, e as bênçãos com que o cumulou, anos antes da reconciliação oficial da Igreja com a Action Française em 1939, num dos primeiros atos de Pio XII.

E a nossa convicção é que o trabalho de Teresinha no céu é o de amparar a Igreja da Terra neste século de demências. E a menina que nunca, nos mínimos atos se esqueceu da vontade do Senhor Jesus, poderá agora interceder poderosamente pela Igreja, pelo Papa, pelo clero, pelo povo de Deus, com a amorosa certeza de que agora é a vez de Jesus fazer a vontade de Teresinha. Nesta intenção, e contra todas as malignidades que desfiguram a Igreja tão bela e tão amada pelas almas sensíveis à santidade, que vem de Deus, “tu solus sanctus” mas tão maravilhosamente se manifesta nos pequeninos, peçamos a intercessão de Santa Teresinha. Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, ora por nós.

Eu temia que o bom Deus

depressa a levasse para si”.

A irmã mais velha de Teresa Martin assim exprimiu sua admiração e seu temor quando, aos oito anos, a irmãzinha lhe pedia mais oração, como quem tem sede. E tinha razão de admirar e tremer, porque na vida de Teresinha tudo a infância precoce, a adolescência abreviada, a licença especial de entrar no Carmelo com 15 anos, o noviciado, os sete anos de vida consagrada, o tempo escasso de escrever por obediência sua história pequenina, a morte rápida e devorante tudo na vida de Teresinha parece acelerado, abreviado, como se Deus efetivamente tivesse pressa de levá-la para si. Ou tudo parece espicaçado e exigido por um Senhor impaciente como há quatro séculos aconteceu com outra grande pequenina de França, a quem o próprio São Miguel veio soprar:

- Va fille de Dieu! Va!

A Igreja também teve pressa de

a reclamar para si, para nós.

Em outubro de 1897, quando a Europa se aprontava para encerrar pomposamente o século das luzes e das glórias do homem, e se preparava para entrar no ainda mais estridente século XX, Teresa do Menino Jesus e da Santa Face morria no silêncio e na obscuridade. Mas ela mesma anunciara que seu céu seria trabalhoso, e que lá cumpriria o que seu Amor não permitira que fizesse na terra em tão curta vida. “Je veux passer mon ciel à faire du bien sur la terre”.

Para isto, porem, de algum modo ela teria de voltar. E foi isto que anunciou: “Eu descerei” (Nov. verba 12-julho-97); e mais: “Depressa percorrerei todo o mundo” (carta a Sr. Geneviève, set. 97).

O prodígio se efetua com a aparição de História de uma alma que de mão em mão dá a volta ao mundo, transforma vidas, salva almas, converte corações endurecidos, chega ao Extremo Oriente, traduz-se em chinês e japonês, e chega a Roma. E aí, aonde a rotina e a prudência, ora uma ora outra, aconselham a lentidão dos processos, faz-se sentir novamente o ímpeto de Teresinha e a pressa de Deus. Pio X maravilha-se com o que lê e manda apressar o processo de beatificação que ele mesmo assina dois meses antes de morrer. Benedito XV, não menos impressionado que Pio X, promulga solenemente o decreto com que a Igreja reconhece a herocidade das virtudes da Serva de Deus, faz o panegírico da “via de infância espiritual”, e isenta dos cinqüenta anos de espera impostos pelo Direito Canônico o processo de canonização; mas foi Pio XI que teve a gloriosa solicitude de assinar o decreto de canonização da “maior santa dos tempos modernos”, “estrela de seu pontificado”, e que teve a confiante pressa de colocar sob sua proteção o México e a Rússia que padeciam sob o comunismo desumano e ateu. Indo mais longe, Pio XI declara a nova santa padroeira de todas as missões.

Como se não bastassem, em resposta à impaciência de Jesus que logo a levou, a impaciência do povo de Deus e a pressa de três papas, registremos agora um fato que só pode ser atribuído a uma especial solicitude dos anjos; e é o mesmo São Miguel que inspirará a Pio XII a idéia de associar Santa Teresinha a Santa Joana d’Arc na proteção da França, em 1944, “nas horas mais sombrias de toda sua história” como diz muito bem o Pe. Philipon.

Seja-nos dado agora o direito de imaginar todo esse entrecruzamento de linhas visíveis e invisíveis, entre o céu e a terra, e seja-nos permitido ver duas meninas vestidas de luz se entreolharem e se sorrirem quando ouvem a voz sonora do arcanjo ressoar por cima dos séculos: “Va fille de Dieu! Va! sem saberem a qual das duas se dirige o grito de guerra, ou bem sabendo, ambas, que estão irmanadas no mesmo trabalho do céu, no mesmo trabalho na terra.

“Tenho sede!” diz Teresa.

“Tenho sede!” diz Jesus.

Com treze anos Teresa tinha a vocação religiosa decidida, firmada, mas creio que André Combes (Introduction à la Spiritualité de Sainte-Thérèse de l’Enfant-Jésus) tem razão de dizer que “nessa vocação que ainda não chegara à seu máximo de generosidade se enxertará, de modo manifestamente sobrenatural, um apelo ao apostolado” uma espécie de refluxo do amor de Deus sobre os homens, para amor de Deus ainda maior, que o ano de 1887 será um marco na história espiritual de Teresinha, e por conseguinte na história da Igreja.

Certo domingo depois de Pentecostes, em 1887, no fim da missa e no instante exato em que fechava seu missal, Teresa viu a ponta de uma imagem a sair de entre as páginas. Essa imagem que se acha reproduzida em Novíssima Verba representa Cristo crucificado. No primeiro momento Teresa só viu uma das mãos perfurada e sangrando. Experimentou um sentimento que ela qualifica de “novo” e de “inefável” (H. A., cap. V): “Meu coração rasgou-se à vista desse sangue precioso que caia no chão sem ninguém para recolhê-lo. Resolvi então estar continuamente em espírito ao pé da cruz para receber o divino orvalho da salvação e logo espargi-lo sobre as almas”.

Neste primeiro instante o Espírito Santo vulnera-lhe o coração com o zelo da salvação das almas que logo se tornará sede ardente. Ela mesma nos descreve esse momento infinito: “Desde esse dia o grito de Jesus moribundo: tenho sede! Ressoava sem cessar em meu coração para nele acender um ardor desconhecido e muito intenso. Queria dar de beber ao meu Bem Amado, e eu mesma me sentia devorada pela sede das almas. A todo custo queria arrancar os pecadores às chamas eternas”.(Ibid.).

E aqui o Pe. Combes deixa transparecer uma emoção vivíssima quando se imagina a mergulhar um olhar fraterno e sacerdotal naqueles dois grandes olhos glaucos que acabavam de contemplar, pela primeira vez, um jato de sangue espalhado na Cruz e que ninguém sonhava recolher, e sente um frêmito de esperança ao descobrir naquela menina transtornada e cândida a graça das graças de uma espécie de ordenação personalíssima por cima dos ritos, dos símbolos, das cerimônias comemorativas e do hieratismo da Liturgia, por cima das espécies sacramentais e dos véus dos santos mistérios, para atingir, além do espaço e do tempo, a realidade viva do Calvário, e para dar a Jesus crucificado a consolação de ver a seus pés uma alma capaz de compreender o preço de seu sangue no próprio momento em que ele corria. “A partir desse dia Teresa se torna contemporânea do Crucificado”.

No contato com a Cruz aprende instantaneamente o amor das almas pelas quais Jesus padeceu, e esse novo e mesmo amor se integra sua vocação de amor fazendo da contemplação e da sede das almas o mesmo ardor de heroísmo e de loucura que a abrasará e depressa a consumirá. “Tenho sede!” dirá ela a vida inteira com febre de amor. Ainda antes de tentar a entrada no Carmelo, e incendiada pela dimensão nova de suas vocação contemplativa e ativíssima, Teresa ousa pedir a Deus um sinal. Deus lhe concede o sinal que tantas vezes se repete na história da Igreja: um sinal do cadafalso. O criminoso Pranzini, que praguejava e blasfemava a caminho do cadafalso, de repente, no último momento se volta para o padre que o acompanhava e beija três vezes o crucifixo. Teresinha lera por acaso a notícia da condenação e do dia marcado para a execução, e depois lera a notícia do sinal: “Eu obtivera o sinal pedido. Não fora diante das chagas de Jesus, vendo correr seu sangue divino que penetrava em meu coração a sede da salvação das almas? Quisera dar-lhes a beber esse sangue imaculado que lhes lavasse de todas as impurezas, e eis que os lábios ‘de meu primeiro filho’ vieram se colar às chagas divinas. Que resposta inefável! Ah! desde essa graça única, meu desejo de salvar as almas cresce dia a dia. Parecia-me ouvir Jesus falar-me como à Samaritana: ‘Dá-me de beber’. Era uma verdadeira troca de amor: às almas eu servia o sangue de Jesus, à Jesus oferecia essas mesmas almas refrigeradas no orvalho do Calvário, e assim eu pensava desalterar Jesus, mas quanto mais lhe dava a beber mais crescia a sede de minha pobre pequenina alma, e eu recebia o ardor dessa sede como a mais deliciosa recompensa” (H. A., cap. V).

Salvar as almas, sofrer e se oferecer pelos padres, eis as razões aparentemente contraditórias, as razões de amor divino, que levaram Teresinha a se enclausurar nove anos no Carmelo para “passar seu céu” trabalhando pelas almas. Jesus e Teresa tinham pressa; Jesus e Teresa tinham sede.

A alma sacerdotal de Teresinha, como tão bem notou o Pe. Combes, tinha sede especial das almas sacerdotais, e não cessava de dizer: “Celina, rezemos pelos padres, Jesus me faz sentir todos os dias que espera de nós duas essa vida consagrada aos padres”.

“A Igreja vos apresenta um novo

e admirável modelo de virtudes que

deveis incessantemente contemplar”.

Todas as variadas e mais ou menos sábias tentativas de esboçar o retrato espiritual de Teresa se comprimem e se atrofiam em esquemas ou se perdem e se diluem em análises psicológicas desconcertantes por seus paradoxos. O que mais se sabe de Teresinha é o que ela mesma nos diz no livro em que praticamente só fala de si mesma, e no qual, dirigida por três papas sucessivos, Pio X, Benedito XV e Pio XI, a Igreja viu sinais incontestáveis de heróica humildade. Esse livro não tem a beleza poética dos poemas de São João da Cruz nem a vivacidade de ensino de Teresa d’Ávila. O estilo é aplicado, convencional, e bem se vê que foi escrito por obediência, o que já seria um dado para esfriar o interesse de qualquer leitor.

O Pe. Petitot O.P. (Saint Thérèse de Liseux, une renaissance religieuse) começa seu proveitoso estudo pela enumeração de quatro ausências, na obra e na vida de Teresinha: ausência de “mortificações violentas” ou de enfática ascese, ausência de método de oração, ausências de favores extraordinários e ausência de obras múltiplas. Na segunda parte do livro o Pe. Petitot se aplica em mostrar o equilíbrio e a coexistência das virtudes antinômicas, simplicidade e prudência, humildade e magnanimidade, força e sentimento de seu nada, que se encontrava em grau heróico na Santa de Lisieux, mas o próprio Petitot, com Santo Tomás e São João da Cruz, é o primeiro a nos advertir que “tal é a regra das virtudes sobrenaturais: onde há uma haverá outra, onde esta fraqueja faltarão as outras” (São João da Cruz). Estamos pois diante de uma exigência de equilibrado esplendor da santidade, sem nenhuma singularidade que nos autorize a falar numa “nova via” ou num “novo estilo de espiritualidade”.

Nem por isso o Pe. Philipon O.P. (Sainte Thérèse de Liseux) hesitou em anunciar Teresinha como “criadora de uma nova via de espiritualidade”. Mas o mesmo autor, na Conclusão de seu estudo nos tranqüiliza a respeito da nova via que hoje, diante da pavorosa inflação de coisas novas, nos assustaria, e diz: “O toque de gênio de Teresinha foi o de ter trazido a santidade à sua pura essência, e de ter mostrado o ideal e a perfeição acessíveis a todos pela via comum”.

Não vejo nenhum inconveniente grave no uso das expressões “a escola da pequena via”, a “espiritualidade” ou a “doutrina” de Santa Teresinha, desde que sejam usadas no sentido amplo que não implique nenhuma pretensão de lhe darmos, antes da Igreja, um título de doutora. Os melhores autores e os próprios papas usam essas expressões que implicam a idéia exata de que temos muito a aprender com Teresinha. Mas aprender sobretudo pelo exemplo. Sem se propor como mestra ou como fundadora de uma “nova via”, Teresinha nos deixou o legado de uma experiência singular, concreta, vivida deixou-nos, por obediência, a singela narração, hora a hora, da experiência a que se entregou totalmente. E é essa experiência, esse modelo, mais exemplo do que lição, que a Igreja, pela voz calorosa de Pio XI, nos apresenta na Bula de canonização “Fiéis de Cristo, a Igreja vos apresenta hoje um novo e admirável modelo de virtudes que todos deveis contemplar incessantemente”.

“Novo” aqui não quer dizer “novo” por originalidade, por novidade, por oposição aos antigos: quer apenas dizer “mais um” modelo, exemplo, que tem a singularidade de ser uma experiência pessoal e que tem a garantia de ser exemplar por ser configurada pelo nosso único e eterno Modelo.

E aqui me permitam uma audácia: creio que, como escola de espiritualidade ou como fundadora Teresinha talvez tivesse na memória da Igreja vida mais curta do que simplesmente como exemplo, pequenino modelo que teve o atrevimento de dizer que, na sua pequenez, ficaria conosco até o fim do mundo.

Diz muito bem o Pe. Philipon (conclusão) que o “furacão de glória” que logo após sua morte tornou Teresinha popularmente amada, não somente nos meios católicos, como também em todo o mundo e até nos meios maometanos, deve ter um sentido, uma significação. Cremos, com Philipon, que ela reside no fato de ter conseguido Teresinha, a imensa Teresinha, tornar-se pequena para ganhar as pequenas almas, ou de ter apresentado o ideal de santidade não como coisa fácil e barateado, mas como dom de Deus realmente acessível a todas as estaturas: “O bom Deus não nos pede grande coisas, mas simplesmente o abandono e o agradecimento” (H. A. XI). Não nos iludamos com a simplicidade das palavras: as coisas que Deus nos pede são enormes, se as medirmos com os padrões de nossos complicados critérios, e sobretudo se as aquilatarmos pelas resistências de nossa carne (amor próprio), do mundo e do demônio Tornaram-se maravilhosamente acessíveis quando vemos – como neste maravilhoso exemplo de Teresinha que Deus já percorreu todo o caminho ao nosso encontro, e que só falta o pequenino e imenso abandono de nosso nada no Tudo de Deus. Seja como for, seja qual for o mérito da obra de Teresinha vista como “petite voie”, vista como novo estilo, ou como escola, o que realmente ela nos traz na sua experiência canonizada pela Igreja é um frêmito novo de esperança: o cristianismo é praticável. Apesar de todas as arrogâncias de uma civilização apóstata, que tudo apostou na autonomia do homem e que hoje se prosterna diante da própria figura do homem-que-foi-à-lua, apesar de todas as glórias da máquina a vapor e da eletricidade, Teresinha traz a notícia sensacional, a notícia que produz um frêmito no mundo das almas machucadas e sedentas: a notícia da vitória da humildade que libera, porque a “humildade é a verdade” (Sta. Teresa d’Ávila).

“Sede perfeitos como vosso

Pai celestial é perfeito”.

A espiritualidade de Teresinha é nova e antiga, é própria para nossos tempos e é clássica. Pensando na escola que Teresa freqüentou e na linhagem de mestres que teve, ocorre-me dizer, contradizendo-me, que foi um curso de vinte séculos, e a primeira mestra espiritual que teve foi aquela outra menina de quinze ou dezesseis anos que foi ao encontro de Isabel para cantar o Magnificat, onde tão bem se encontram as antinomias do Pe. Petitot. Mas o Mestre dos Mestres é e só pode ser aquele que certamente veremos se, com a pupila da Fé, atravessarmos a figura de Teresa e chegarmos à Santa Face. Depois vêm os mestres de todas as épocas, especialmente o da Imitação de Cristo, o da Subida do Monte Carmelo e a das Moradas. Haverá linhagem mais clássica e menos nova?

Vale a pena agora meditarmos um pouco no “lado de Deus” dessa maravilhosa experiência. Já dissemos atrás que Deus tem sempre a primeira iniciativa, e a parte total de nossa santificação. Segundo os doutos, nosso processo de santificação, para ser adequado ao homem, há de ser progressivo como é todo o crescimento humano. Observe-se porém uma curiosa simetria, e uma oposição de itinerários da pedagogia humana e o da pedagogia do Espírito Santo: a primeira progride na direção da crescente autonomia do educando; a segunda, ao contrário, progride na direção da crescente heteronomia, do crescente abandono, da crescente obediência. E esta linha clássica traçada por todos os mestres espirituais, pode ser descrita assim: nas primeiras estações o progresso espiritual tem o modo das virtudes que, mesmo as teologias, guardam certa feição das virtudes naturais. Esse modo das virtudes, é geralmente comparado à uma força que o homem tem de fazer para progredir: assim o remador tem de fazer força para impulsionar o barco. À medida que a alma progride sua marcha ascensional dia a dia mais se entrega, ao modo dos dons com que o Espírito Santo, como vento que sopra nas velas da alma, torna mais ágeis, mais prontas e mais filiais as virtudes. Todo o organismo espiritual se aprimora nessa direção da espontaneidade e do pronto instinto das coisas de Deus. De baixo para cima, do dom do temor que “é o princípio da sabedoria” e que aprimora a humildade, constrói-se o edifício cuja cúpula está a perfeição suprema do amor divino, que é o dom de sabedoria.

Nesse estado de perfeição a alma está toda abandonada e entregue ao Espírito Santo que nela esculpe a Santa Face do Filho e assim se veste e prepara para a festiva e definitiva volta ao Pai. E nesse jogo das quatro causas, em que podemos atribuir ao Pai a causa final, ao Filho a causa formal, e ao Espírito Santo a causa eficiente, o papel da causa material deixa a alma na condição quase inerme e passiva das criancinhas. E assim vemos que a “infância espiritual” é uma árdua e longa conquista, e é uma idéia clássica entre os Evangelhos: “Se não fordes como um desses pequeninos não entrareis no Reino de Deus”.

Aplicada a doutrina dos grandes autores espirituais a Teresinha descobrimos que Deus operou nela grandes coisas, e a abreviou rapidamente a sua subida.

“O vento sopra onde quer”.

Depressa achou-se Teresinha abandonada e entregue aos dons do Espírito Santo, na sétima morada descrita por Teresa d’Ávila, a doutora.

Na homilia da missa de canonização, 17 de maio de 1925, Pio XI disse solenemente que o mesmo Deus que se esconde dos sábios e orgulhosos agradou-se “em sua Divina Bondade de enriquecer a pequena Teresa com um excepcional dom de sabedoria”.

Ora, é precisamente esse dom dos dons que dá à alma a experiência da presença de Deus, e da habitação da Trindade Santíssima. E é também esse dom dos dons que do alto impera e governa todos os dons e virtudes e que, da mais alta forma de contemplação desce aos vasos capilares das mais pequeninas atividades de cada minuto. Sob o sopro poderoso dos dons, e sobretudo do Dom de Sabedoria, a oração espontaneamente transvasa na ação e então o espectador maravilhado se tiver olhos de fé para tal espetáculo verá uma pequenina vida toda bordada de pontos de cruz, verá o que viram as almas agradecidas no que puderam ver atrás da espessura de um livro. Mas o melhor dessa vida exemplar escapou às próprias irmãs, e a todos nós escapa, como se a misericórdia de Deus continuasse a cobrir com um véu o brilho ofuscante daquela alma para que assim não nos assustemos, e continuemos a ver na doce irmãzinha um modelo ao nosso alcance.

E para terminar, o que com gosto prolongaríamos anos e anos, façamos nossa a suprema súplica de Teresa, tornada súplica da Igreja na homilia de canonização de Pio XI:

“Ó JESUS SUPLICO-TE QUE ABAIXES TEU DIVINO OLHAR SOBRE A MULTIDÃO DE ALMAS PEQUENAS. SUPLICO-TE QUE NESTE MUNDO ESCOLHAS UMA LEGIÃO DE ALMAS PEQUENAS VÍTIMAS, DIGNAS DE TEU AMOR”.

Festa litúrgica em 1 de outubro

Em 30 de setembro de 1897, uma discreta carmelita, desconhecida até de suas irmãs de convento, morre de tuberculose aos 24 anos, sob atrozes sofrimentos, em Lisieux (França).

O que se poderá na realidade dizer da irmã Teresa do Menino Jesus após sua morte? É uma gentille petite soeur [boa irmãzinha], mas ela nada fez” (1). Eis o comentário que ela ouve, em seu leito de morte, proveniente de uma de suas companheiras... “Ela nada fez de notável, não se a vê praticar a virtude, não se pode sequer dizer que seja uma boa religiosa” (2), acrescenta a carmelita crítica, a quem aprazia passar horas prosternada diante do Tabernáculo...

Essa “desconhecida” causa agora emoção em todo o orbe, sendo comemorada nos quatro cantos da Terra, por ocasião do centenário de sua morte.

“L enfant chérie du Monde entier” (a criança querida do Mundo inteiro) (3), em torno de quem levantou-se “um furacão de glória” (4), que se transformou num dos personagens mais populares do século XX, está para ser proclamada... Doutora da Igreja universal (5).

Essa “desconhecida”, “a maior santa dos tempos modernos” (6), “a estrela de meu pontificado”, como dizia Pio XI (7), não é, contudo, desconhecida... para ela mesma: “Bem sabeis que cuidais de uma santa!”, assevera ela a suas três irmãs, seis semanas apenas antes de sua morte (8). E, prevendo sua glória futura, misteriosamente diz: “O que o bom Deus me reserva para depois de minha morte, o que eu pressinto de glória .... vai de tal modo além de tudo que se pode conceber que por vezes sou obrigada a parar de pensar: sinto uma como que vertigem” (9).

Lisieux: grande centro de peregrinação

Ainda hoje, apesar do desinteresse crescente do público católico pelos santos, na época dessacralizada em que vivemos, Lisieux acolhe a cada ano 2 milhões de peregrinos (10), fenômeno que transformou a capital do Pays d Auge num dos locais mais visitados da França, rivalizando com os maiores centros de atração turística.

Ali se recolhem eles, ávidos de conhecer os Buissonnets, onde a Santa residiu durante sua infância e adolescência; a catedral de Saint Pierre, do século XII, por ela freqüentada diariamente, testemunha comovente de tantas reminiscências; por fim, o Carmelo, a montanha sagrada de sua santificação.

Até 7 de junho de 1944 — data do arrasador bombardeio na II Guerra Mundial, por ocasião do desembarque das tropas aliadas na Normândia — havia em Lisieux 2.900 casas, boa parte delas em estilo medieval, construídas entre os séculos XIV a XVI. Após tal bombardeio, numa só noite, 2.100 dessas residências foram totalmente destruídas.

Do Céu, no entanto, a Santa carmelita velava: os três edifícios acima mencionados foram milagrosamente poupados, bem como a Basílica a ela dedicada.

Um presente dado pelos brasileiros

Tão logo começou a explodir o culto dos fiéis por ela, essa “desconhecida tornou-se enormemente popular no Brasil.

No Rio de Janeiro, a igreja de Santa Teresinha, situada no bairro da Tijuca (uma paróquia dirigida pelos padres Carmelitas Descalços), pretende ter sido a primeira no mundo a ser erigida em sua honra. É certo que, em reconhecimento, um dente da admirável carmelita é ali venerado, rara relíquia e notável privilégio para uma santa que, no momento da exumação de seu corpo, encontrou-se pouco mais que pó.

O “furacão de glória” atingiu o Brasil de tal forma que, ao pensar-se na urna que teria a suma honra de conter suas relíquias, a superiora de Lisieux, Madre Inês de Jesus, sua irmã segundo a carne, dirigiu-se aos brasileiros, preterindo outros povos.

Em 1995, como preparação de seu centenário, a “châsse du Brésil” (urna do Brasil) percorreu toda a França. E foi assim que pudemos venerar suas relíquias, envoltas em indizível halo de bênçãos.

Estava aprazado que, no ano de seu centenário, a “urna do Brasil” percorreria toda a Terra de Santa Cruz. Quantas multidões não acorreriam para venerar essa “desconhecida”! Entretanto, círculos bem informados da Cúria Romana advertem que outros episcopados não o permitiriam, caso tão venerável urna não fosse também visitar seus respectivos países. O projeto complicar-se-ia tanto que acabou sendo postergado, sine die.

Adentrando os muros do Carmelo

Uma série de artigos devem ser publicados a respeito da “una do Brasil” na revista “Vie thérésienne”.

Curiosamente, nisto estivemos envolvidos. Certa manhã, no Carmelo de Lisieux, tendo conhecimento de que eu era brasileiro, um sacerdote francês disse-me ser público e notório que a devoção a Santa Teresinha no Brasil era especialmente notável.

Falamos, naturalmente, da “urna do Brasil”, e eu lhe disse que possuía um livro narrando sua história (11). Seus olhos se arrregalaram, e exclamou: “Na completíssima bilblioteca do Carmelo falta esse livro. Procuramo-lo desesperadamente e não há meios de se encontrar um exemplar em país algum!

Uma semana depois, recebi carta de outro sacerdote — este brasileiro, com funções na Cúria Romana — impaciente por obter o precioso volume que narra a história da “urna do Brasil”.

Após encontros em Roma e Lisieux, tudo terminou no parlatório do Carmelo, em julho último: doei à biblioteca do mesmo Carmelo de Lisieux o precioso opúsculo, que relata a história de mais esse elo existente entre os brasileiros e Santa Teresinha, mediante o qual nosso sentimento todo peculiar nos inclina a considerá-la, por assim dizer, um tanto brasileira.

As circunstâncias acima descritas permitiram-me realizar um anseio acalentado por mim há mais de 40 anos: adentrar os muros sagrados desse Carmelo bendito! (12)

Em junho passado, sem saber bem se sonhava ou se estava de olhos abertos, pude percorrer o mesmo solo que os santos pés da “maior Santa dos tempos modernos” pisaram, deitar meu olhar nas mesmas paredes em que seus olhos pousaram, recolher-me na enfermaria onde ela, transida de dor e de indescritíveis provações, exalou seu último suspiro; e, sobretudo, sentir minha alma embeber-se de uma atmosfera de indefinível paz, de indizível elevação e de inabalável confiança que banha o Carmelo de Lisieux. De forma tal que se passarão anos até que eu consiga, para mim mesmo, exprimi-las e senti-las inteiramente. Alimento para uma eternidade...

Doutor Plinio e a pequena Teresa

Em 1928, casualmente, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, o insigne pensador e líder católico, Fundador da TFP, tomou conhecimento da “História de uma alma”. Tal foi o impacto produzido em seu espírito pela célebre autobiografia da Santa, que, certo dia, ele me confidenciou: “Até o momento dessa leitura eu pensava ter como meta ser um muito bom católico; mas foi a partir daí que compreendi a santidade e que eu devia ser santo; e foi então que tomei a decisão de o ser”.

Rezou ele então uma novena à Santa pedindo que lhe concedesse uma graça, a qual representasse grande avanço em sua vida espiritual, proporcional à mencionada compreensão da santidade. Durante a recitação da novena, caiu-lhe fortuitamente nas mãos o Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria Grignon de Monfort, que veio a ocupar uma posição central em sua espiritualidade e em toda sua obra apostólica.

Tal novena, o Fundador da TFP transformou-a em oração que rezou diariamente até seu último suspiro. Santa Teresinha passou a ocupar um dos lugares de mais alto relevo em sua riquíssima vida espiritual.

Doutor Plinio sentia com ela profundas consonâncias e similitudes de alma. Porém o que mais o impressionava era a vocação profética da Santa quanto às novas gerações do século XX: “Sinto que minha missão vai começar — disse ela no leito de morte —, minha missão de fazer amar o bom Deus como eu O amo, de dar a minha pequena via às almas” (13).

Essa via se adapta como uma luva a gerações inteiras, estropiadas pela revolucionária e apocalíptica crise que caracteriza nosso dantesco século XX. “A minha via é segura e eu não me enganei seguindo-a”, disse ela, a 16 de janeiro de 1910, à priora do Carmelo de Gallipoli, em aparição que alcançou na época grande repercussão (14).

O Doutor Plinio tinha num conceito tão elevado a Santa Carmelita de Lisieux, que dizia ser favorável a que ela fosse declarada Doutora da Igreja. Servo amoroso dos princípios, devido ao “mulieres in ecclesia taceant — as mulheres estejam caladas nas igrejas” (I Cor. 14, 34), não lhe aprazia a idéia de que uma mulher recebesse esse glorioso título. Mas, uma vez que Santa Teresa de Avila e Santa Catarina de Siena o receberam, dizia ele ser tendente à concessão do título a Santa Teresinha. Esta era a alta conta em que ele tinha a “pequena” Teresa.

Até Prefeito socialista reconhece...

O clima de perseguição religiosa de fins do século passado, contribuíram para fazer desabrochar em sua alma apelos de guerreiro e de cruzado, de zuavo pontifício e de mártir, que tanto entusiasmaram Doutor Plinio (vide nas “Verdades Esquecidas” da presente edição, frases de Santa Teresinha, mediante as quais fica patente o aspecto heróico dessa grande carmelita).

O ambiente ultramontano daquele período a marcou. Já em sua infância, o ambiente de lutas político-religiosas em Lisieux era violento e polêmico.

No “Le Normand”, jornal monarquista de Lisieux, seu tio Guérin terçava armas contra Henry Chéron, fundador do “Le Progrès lexovien”, — republicano, socialista e anti-clerical — em torno dos grandes temas polêmicos da época: defesa do Papado, laicismo, monarquia ou república, ou ainda o affaire Dreyfus.

Quem diz republicano diz adversário da Igreja, e quem diz adversário da Igreja diz republicano”, resume assim o clima de Lisieux nessa época o Pe. André Deroo (15).

A peregrinação a Roma — largamente comentada pela imprensa francesa quanto pela italiana — da qual participou Santa Teresinha para obter de Leão XIII licença para entrar no Carmelo aos 15 anos, era de cunho ultramontano. Durante essa peregrinação, a pequena Teresa, aos 14 anos, descobre e compreende a importância da inter-relação dos problemas políticos e religiosos. “A maioria dos católicos franceses é monarquista, contra a República, vigorosamente contra a maçonaria”, comenta D. Guy Gaucher (16).

Doutor Plinio comentava que, em tal contexto, é fácil compreender que na primeira metade do século XX o Carmelo de Lisieux tenha sido um assinalado bastião das direitas, sob a égide de Madre Inês de Jesus, irmã da Santa, até sua morte, ocorrida em 1951.

Henry Chéron, o incorrigível líder socialista, diversas vezes ministro da República, fora em sua juventude empregado da farmácia do tio de Santa Teresinha, Isidore Guérin. Naquela época, ele não podia imaginar que, mais tarde, enquanto prefeito da cidade, determinaria a abertura de uma larga avenida, que daria acesso à Basílica de Santa Teresa de Lisieux! Aquela mesma menina para quem tocava ele acordeão aos domingos, nos fundos da farmácia de seu tio!...

Oh, grande Henry Chéron, sic transeat gloria mundi! (assim passa a glória do mundo!). Hoje, quem conhecerá Henry Chéron, se não folhear alguma biografia especializada de... Santa Teresinha?! E, quem, na face da Terra, desconhece a pequena Teresa de Lisieux?

Assim, melhor se aquilata o ultraje lançado pela atual prefeita socialista da cidade, Yvette Roudy. Sim, Lisieux tem hoje uma administração socialista! A prefeita declarou constituir a desgraça para Lisieux o fato de ter colado a seu nome o de Santa Teresinha! “Que sabe o geral dos homens sobre Cirene, senão que era a terra de Simão?”, escreveu em sua já renomada Via-Sacra o Doutor Plinio. Excetuando-se os franceses, poderíamos parafraseá-lo: “O que sabe o geral dos homens sobre Lisieux, senão que era a terra de Santa Teresinha”? Agrade ou não a Mme. Roudy, ela é a grande, a imensa glória de sua cidade!

“De Theresia nunquam satis”

Afirma-se de Maria, a Virgem Santíssima, a Mãe do Verbo Encarnado: “de Maria nunquam satis”. De Nossa Senhora jamais alguém fica saciado.

Ora, logo que uma alma se torna devota da contagiante Santa Teresinha, uma sede incontenível faz com que nada mais a sacie. Ela sempre quer saber mais, conhecer mais elementos de sua vida, os menores detalhes atraem outros, sem jamais saciar essa alma.

Os livros e as pesquisas sobre sua vida e obra multiplicam-se e sucedem-se a uma cadência sem esmorecimento. Recentemente a livraria do Carmelo de Lisieux foi grandemente ampliada. Não há o que baste. Por isso, à uma, dizem os tereseólogos, os especialistas daquela que, em vida, foi “desconhecida”: “de Theresia nunquam satis!

Se de Nossa Senhora se pode dizer que quase não há igreja na face da Terra que não tenha dEla um altar, também de Santa Teresinha — observava o Fundador da TFP — é difícil encontrar uma igreja sem um altar ou, pelo menos, uma imagem a ela dedicados.

“Para quem é esta festa?”

Incontáveis pressentimentos sobre sua missão futura — por que não dizer profecias? — pontuam a vida de Santa Teresinha. Um dos mais impressionantes, recolheu-o sua fiel discípula, irmã Maria da Trindade.

No dia da trasladação de suas relíquias do cemitério de Lisieux para o Carmelo, a 26 de março de 1923 — por ocasião de sua beatificação — a referida religiosa, cheia de estupor, bruscamente lembra-se do sonho que Santa Teresinha lhe narrara em 1896, um ano antes de sua morte:

Ontem à noite, durante a hora do silêncio, pensava em minha morte próxima; e cochilei um instante. Nesse estado de meio sono, encontrava-me num campo que parecia um cemitério: as aubépines estavam em flor, os pássaros cantavam, via grande número de pessoas em festa. Era como um dia de triunfo! E me perguntava: Mas o que é isto? Para quem é esta festa? No entanto, não se trata de um enterro...‘ Apesar de tudo, pressentia que se tratava mesmo de mim. Este sonho me parece bem misterioso e não posso deixar de pensar que, cedo ou tarde, conheceremos seu significado” (17).

1997 celebra o centenário desse mistério...

Para entender o que os santos significam para nós, vou transcrever as belíssimas páginas onde Santa Teresinha do Menino Jesus conta um sonho que teve. Suas palavras são muito significativas! Elas nos mostram, com a autoridade de uma Doutora da Igreja, doutora na fé, como a verdade da "comunhão dos santos" é extremamente significativa para nós. Nessas páginas da sua autobiográfica "História de uma alma", ela nos conta o período de grande provação pelo qual estava passando nos últimos anos de sua vida. Descreve-se como imersa em uma tenebrosa tempestade. Em meio a esse sofrimento aconteceu o sonho...

"...pensando nos misteriosos sonhos que por vezes ocorrem a certas almas, dizia comigo que deveriam constituir um consolo muito suave, mas nem por isso o pediria ( a Deus)...Aos primeiros albores da madrugada, encontrava-me (a sonhar) numa espécie de corredor, onde mais à distância demoravam várias outras pessoas. Nossa Madre estava sozinha perto de mim. Senão quando percebo três carmelitas, revestidas de suas capas e véus compridos, sem que tivesse visto como entraram. Pareceu-me que vinham em assuntos com nossa Madre, mas o que claramente entendi é terem chegado do Céu. No fundo do coração exclamei: Oh! Como me sentiria feliz, se pudesse ver o semblante de uma dessas carmelitas! Então, como se tivesse escutado a minha oração, a mais alta das santas veio em minha
direção. Instantaneamente, caí de joelhos. Oh! Que ventura! A Carmelita ergueu o véu, ou melhor, soergueu-o e cobriu-me com ele...Sem a menor hesitação, reconheci a venerável Madre Ana de Jesus, fundadora do Carmelo na França. O rosto era formoso, de uma formosura imaterial. Não desprendia se si nenhuma luminosidade. Não obstante o véu que nos envolvia a ambas, divisava-lhe o rosto celestial, aclarado por uma luz
inefavelmente branda, não recebida de fora, mas produzida por ele mesmo... Não poderia descrever o júbilo de minha alma. São coisas que
a gente sente e não consegue externar...Vários meses já passaram após o inefável sonho. Contudo, a impressão que me ficou na alma, nada perdeu de seu frescor, de seus celestiais encantos... Vejo ainda o olhar e o sorriso CHEIOS DE AMOR da venerável Madre. Creio sentir ainda as carícias com que me favoreceu...Vendo-me tão ternamente amada, tive ânimo de proferir estas palavras: "Ó minha Madre! suplico-vos, dizei-me se o Bom Deus
me deixará muito tempo na terra...Virá logo buscar-me?..."

Com um sorriso de ternura, a santa segredou: "Sim, logo, logo...Eu vo-lo prometo". - "Minha Madre, acrescentei, dizei-me ainda se Deus não me pede algo mais do que minhas pobres e humildes ações e desejos. Está contente comigo?" A fisionomia da santa tomou uma expressão incomparavelmente mais afetuosa do que a primeira vez, quando me falava. Seu olhar e seus
carinhos eram a mais doce das respostas. Entrementes, respondeu-me: "O Bom Deus não exige outra coisa de vós. Está contente, muito contente!"...Depois de ter me afagado com mais amor do que a mais afetuosa das mães jamais faria por uma filha, vi que se retirava... Meu coração exultava de júbilo. Lembrei-me, então de minhas irmãs e quis impetrar
algumas graças para elas. Mas, que pena!...Tinha acordado!...Ó Jesus, então a tempestade já não bramia, o céu estava calmo e sereno...Eu acreditava, eu sentia que existe um Céu, e que o Céu é povoado de almas que me estremecem, que me consideram como filha...Permanece a impressão em meu coração, tanto mais que a venerável Madre Ana de Jesus até então me era
absolutamente indiferente. Nunca a tinha invocado, e sua lembrança só me acudia ao espírito, quando ouvia falar a seu respeito, o que raramente acontecia. Por conseguinte, depois de compreender a que ponto me amava, e quão longe estava de lhe ser indiferente, meu coração derreteu-se de amor e gratidão, não só pela santa que me visitara, como também por todos os bem-aventurados moradores do Céu..." (História de uma Alma, p. 196-198)

As palavras de Santa Teresinha são muito significativas. Ela ressalta o fato de a Venerável Ana de Jesus lhe ser indiferente, isto é, não tinha por ela alguma devoção especial. O mesmo não acontecia da parte da Santa vinda do céu: tinha por ela maior amor que a mais afetuosa das mães não poderia ter por uma filha. Porque? Porque os santos no céu estão imersos no Amor infinito de Deus. Todo o seu ser está pleno desse Amor, que se irradia para todas as criaturas. A Venerável Ana de Jesus não amava somente Irmã
Teresinha, mas todas as outras pessoas, naquele tempo e hoje também, eu, você, todos nós. Não existe limitação no Amor de Deus, é infinito e eterno, não se altera, não diminui. E mesmo sendo um amor por todas as pessoas, não deixava de ser real. Santa Teresinha sentiu-o profundamente, e isso fez com que ela se derretesse "de amor e gratidão", não só pela Venerável Ana, mas "por todos os bem-aventurados moradores do céu". Exatamente porque ela percebeu que eles também tinham esse mesmo Amor por ela, como a Venerável Ana.

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