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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sacramentologia

0 – Índice

0 – Índice ....................................................................................... 1

1 – Introdução ................................................................................ 2

2 – As comidas de Jesus ................................................................. 3

2.1 – Sentido antropológico – religioso das refeições ... 4

2.2 – Significado messiânico-profético ......................... 4

3 – A ceia Pascal dos judeus ......................................................... 6

4 – Os relatos da instituição da Eucaristia .................................... 7

5 – Conceito e prática memorial .................................................. 10

6 – Eucaristia / memorial pascal do Crucificado ......................... 11

7 – Consequências da Eucaristia para a Igreja ............................. 15

8 – Conclusão .............................................................................. 17

9 – Bibliografia ........................................................................... 18

1 – Introdução

Este trabalho, elaborado para a disciplina de Sacramentologia II, visa sobre a Eucaristia, sob o aspecto de esta ser memorial pascal do crucificado.

O Sacramento da Eucaristia é o símbolo por excelência do Jesus que nos prometeu «Estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo»[1].

Desta feita, podemos traçar um caminho temporal que nos leva desde a última ceia (ceia de despedida)[2] até a Eucaristia do Domingo passado.

A instituição da Eucaristia, por parte de Jesus teve em conta um conjunto de costumes e práticas culturais de tom mais ou menos religioso que existiam entre o povo judeu. A compreensão desses costumes podem esclarecer-nos bastante acerca da intenção de Jesus ao instituir este sacramento, assim como, nos pode ajudar a entender a primeira concepção que os cristãos dela tiveram e notar que ao longo dos tempos foi-se configurando nas comunidades cristãs.

Entre essas práticas judaicas relacionadas com a Eucaristia dos cristãos incluem-se as comidas sagradas, o memorial, o sacrifício, a festa da Páscoa, as bênçãos, as eulogias e acções de graças.

Contudo, e para delinear o tema a tratar, interessa-nos abordar apenas a refeição, o memorial e a Páscoa.

2 – As comidas de Jesus[3]

Não só para os Judeus, mas também como as culturas em geral, as refeições tiveram sempre um significado religioso; note-se que nas religiões pagãs do tempo de Cristo, assim como as orientais, tinham comidas sagradas e refeições religiosas com o intuito de aprofundar a comunicação e comunhão com a divindade.

Os sinópticos apresentam Jesus a participar frequentemente em refeições e banquetes. Jesus fazia desses encontros um lugar priveligiado para manifestar o seu ensinamento e os seus sinais. Jesus comia em casa de Pedro[4], Mateus[5], de um fariseu[6], de Marta[7], de Zaqueu[8], entre outros.

Não menos importantes são as refeições que Jesus realiza com os discípulos, depois da ressurreição. Entre várias vezes que aparece “aos seus”, algumas delas acontecem em ambiente de refeição[9].

A que merece especial referência é a aparição aos discípulos de Emaús. Nesse encontro acontece uma transformação no coração dos discípulos, e de acordo com os diferentes períodos da caminhada: o caminho, percorrido com alguma desilusão; a paragem, para escutar as palavras dos Profetas e o convite para ficar; o interior da casa, onde se repete o acto da última ceia e consequente reconhecimento ao partir do pão; o retorno a Jerusalém, que é o regresso à fonte, passagem da tristeza à alegria, da dispersão comunhão. Encontramos, desta feita, um esquema muito parecido ao da celebração eucarística.

Conclui-se que são estas experiências pascais o motivo e a raiz das celebrações eucarísticas, já que é através delas que os discípulos compreendem a necessidade de repetir os gestos da última ceia.

2.1 – Sentido antropológico – religioso das refeições

Como ainda hoje acontece, as refeições não servem apenas para restabelecer as forças físicas do indivíduo. Elas são um momento privilegiado da vida humana, em que se põem em relação e se fortalecem as dimensões da existência do homem.

O comer e beber juntos é um sinal de participar juntos também na vida[10]

As refeições foram adquirindo significados humano-religiosos, tais como: a comida é fonte de vida, enquanto alimento que dá força e evita a morte; fonte de unidade comunitária, porque é símbolo de solidariedade, de comunicação inter-pessoal e de festa; é relação com a realidade criadora, com a terra de onde procedem os alimentos[11]; acontecimento onde os Judeus viviam aesperança escatológica; é sinal do trabalho do homem, do seu esforço por fazer produzir a terra; manifestação da satisfação de uma necessidade do homem, padece de fome e sede; é sinal debenevolência e acolhimento, ou seja, doação e recepção, gratuidade e gratidão.

Estes elementos antropológicos-religiosos permitem-nos encontrar, na celebração de um banquete familiar ou fraterno, a profunda conexão da Eucaristia com a vida humana, assim como o significado eucarístico da refeição, que nos remete ao transcendente e nos abre ao mistério da Páscoa do Crucificado.

2.2 – Significado messiânico-profético.

A mensagem dos profetas da imagem do banquete em prol do messianismo:

a)- Is 55,1-3: Anuncia-se ao povo uma Nova Aliança, onde abundam os bens elementares e essências na gratuidade;

b)- Is 25,6-8: o profeta Isaías apresentou o banquete futuro do Senhor, o banquete messiânico com uma grandeza de imagens, um fausto banquete para todos, quem nele participa garante uma vida sem dor nem lágrimas. Comer e beber favorece o encontro com Deus.

c)- Os livros sapienciais apresentam a mesma esperança escatológica. Pelos banquetes demonstrou Cristo que o Reino estava próximo. Era a Parábola-em-acção. A resposta ao anuncio dos profetas.

3 – A ceia Pascal dos judeus

Para recordarem a saída do Egipto, os judeus celebravam todos os anos a festa da Páscoa, a mais importante de todas. As raízes desta festa São antigas e complexas. Desde os tempos de Canaã e dos Patriarcas, os povos nómadas imolavam cordeiros na primavera para oferecer as primícias dos rebanhos a Deus. Também os povos sedentários tinham o hábito de celebrar a festa dos pães ázimos, com a finalidade de oferecer a Deus as primícias das colheitas agrícolas.

A ceia judaica, no tempo de Cristo, dividia-se em quatro partes distintas. Primeiro eram servidos os pães ázimos e as ervas amargas, prosseguindo-se a primeira bênção (Geddush). Em seguida, a partir da pergunta das crianças, o chefe da família explica o sentido da libertação do Povo Hebreu de terras egípcias (haggadah). Num terceiro momento come-se o cordeiro pascal e procede-se a una outra bênção de acção de graças, a mais solene da ceia (berakah). Por fim, profere-se o salmo da aliança (hallel), cujas palavras, alem de bênção, São de projecção futura.

O grande significado deste ritual e o aprofundar a consciência de pertencer ao Povo da Salvação; e o renovar a aliança com Deus; e o experimentar a passagem da morte para a vida (salvação pascal).

Também os elementos constituintes do banquete possuem um significado próprio: o cordeiro pascal e símbolo da salvação expiatória; o pão ázimo recorda as dificuldades do Êxodo; o vinho e sinal da alegria dos dons da terra prometida; e a Ceia Pascal, em si, converge o passado e o futuro no presente da salvação.

Desta forma, fica claro que a Eucaristia nasceu em ambiente de celebração pascal, quer tenha sido durante a Ceia Pascal, como afirmam os sinópticos; quer não, como pressupõe S. João.

4 – Os relatos da instituição da Eucaristia

A ceia da instituição, sendo ou não pascal, tem de facto traços muito próprios e bastante carregados de significado. Contudo, há dois grandes momentos, na dita Ceia, que lhe conferem todo um carácter sacramental único. O primeiro momenta é a altura em que Jesus estabelece a relação explicita e formal do pão e do vinho com o Seu corpo e o Seu sangue, respectivamente. O outro momento chave é o mandato de Jesus de repetir essa refeição pelo tempo fora: “Fazei isto em memória de mim”.

Centrando-nos nas quatro passagens do N.T., que tradicionalmente se consideram as fontes formais do relato eucarístico[12], não podemos ignorar que os textos, sendo muito semelhantes entre si, nenhum deles e igual ao outro. Todos eles têm as suas variantes e particularidades, donde resulta uma certa dificuldade de interpretação.

Estes quatro textos agrupam-se em dois pares, dependendo de duas tradições distintas e complementares: Mateus – Marcos; Lucas – 1ª Coríntios.

Algumas semelhanças, entre os quatro relatos merecem referência. São elas: O contexto de despedida, no qual se realiza a refeição; a proximidade da ceia com a morte de Jesus, que se entrevê nos vários relatos; os gestos e palavras específicos de Jesus, sobre o pão e o vinho; e a perspectiva escato1ógica latente em todos os textos.

A par destas analogias não podemos deixar de apurar as diferenças entre os dois grupos de relatos. Assim, as palavras sobre o pão em Lc – 1Cor acrescentam “entregue por vós, o que não acontece nos outros dois; no grupo Mt – Mc não aparece o mandato “fazei em memória de mim” por sua vez, Lucas emprega-o só depois de tomar o pão e 1Cor emprega-o depois do pão e do vinho; enquanto Lucas e 1Cor afirmam expressamente que as palavras sobre o vinho e o pão são proferidas por Jesus depois da Ceia, Mt – Mc não se pronunciam acerca disso; sobre o Sangue, Mt – Mc dizem “este é o meu sangue, sangue de Aliança”, Lc – 1Cor dizem “este é o cálice da nova aliança no meu sangue”, depois das palavras sobre o sangue Mt – Mc acrescentam “entregue por muitos e Lc – 1Cor dizem “entregue por vós[13].

a)- As palavras sobre o pão[14]

As palavras que Jesus pronuncia sobre o pão são uma bênção ou acção de graças onde refere as palavras da consagração. Ao relacionar o pão com “meu corpo”, quer dizer, isto é a minha pessoa viva e em relação convosco. Entregue por vós remete-nos a Is 53,10-12, em que o Servo de Javé se entrega voluntariamente em sacrifício pelos outros. O mandato “Fazei isto indica que se repetem os gestos e as palavras especiais de Jesus sobre o pão. A expressão “em minha memoriaou “como memorial meudeixa transparecer a convicção de que celebrar a Eucaristia é fazer memorial de Cristo.

b)- As palavras sobre o vinho[15]

Lucas e 1Cor, em relação ao vinho, usam a expressão “Depois da ceia que pode ser uma referência a um estado mais antigo da tradição, em que a Eucaristia se celebrava ainda com refeição incluída. O “dando graças trata-se de uma bênção à semelhança daquela que o pai de família pronunciava sobre a taça, na ceia Pascal. Mc e Mt ao relatar “este é o meu Sangue da Aliançaestão a referir Ex. 24,8, onde encontramos a descrição da primeira aliança, por meio de Moisés, selada com o sangue dos animais. Por sua vez, 1Cor e Lucas ao escrever “Esta é a nova aliança no meu sangue aludem a Jer 31,31, em que Deus anuncia urna nova aliança que vai fazer com o Seu povo. Afirmar “Derramado por muitos (Mt – Mc) ou “por vós (Lc – 1Cor) quer exprimir o valor sacrificial, de substituição redentora, que tem a morte de Cristo. E Mateus ao acrescentar “Para remissão dos pecados explicita ainda mais o dito anteriormente.

c) Leitura teológica que os autores sagrados fazem da Eucaristia

Do que acabamos de analisar dos relatos da instituição eucarística, uma certeza nos resta, os Sinópticos não se preocupam em afirmar que a Última Ceia tenha ou não sido pascal, o que procuram é dizer o que e a Eucaristia crista. Assim, e importante ressalvar alguns aspectos que nos relatos nos conduzem ao sentido teológico da Eucaristia.

1) A Eucaristia e, antes de mais, entendida como uma refeição que assume e transcende o sentido de alimentação, da união fraterna e da relação de comunhão com Deus. Esta refeição possui um tom messiânico, pascal, revestida de todo um significado de despedida e marcada pela, iminência escatológica do Reino de Deus, que vem.

2) A Ceia, como Eucaristia, está intimamente relacionada com a morte de Cristo, que eles entendem como morte expiatória, sacrificial e vicária.

3) Memorial dessa morte Salvadora de Cristo, e a categoria com que os relatos neo-testamentários entendem a Eucaristia. Não só recordação, mas também actualização e participação do grande acontecimento salvador, apresentado em linguagem sacrificial.

4) As palavras sobre o pão e sobre o vinho acompanhadas do respectivo gesto são a nova expressão de Cristo glorioso, na Sua permanente auto-doação sacramental pelos outros. A sua morte não é entendida como o fim da comunhão com os seus discípulos, mas como aprofundamento da mesma, embora agora estendida ás dimensões da Humanidade e do Cosmos.

5) Supõe-se a presença real de Cristo nos dons eucarísticos (pão e vinho), na medida em que Jesus pretende fazer uma doação continuada de si mesmo aos outros e pelos outros. Embora de forma sacramental, aquela é a única forma de que Jesus passa a dispor para se fazer presente aos seus após a Morte e Ressurreição.

5 – Conceito e prática memorial[16]

Ao celebrarem a Eucaristia, as primeiras comunidades cristãs, tinham consciência de estarem a cumprir o mandato de Jesus Fazei isto em memória de mim”. Estas palavras evocam a categoria de “memorial”, bastante importante no A. T. e repetidas vezes empregue.

O memorial era tido como recordação, em dois sentidos. No sentido descendente, em que Deus recorda aos homens a aliança com eles; no sentido ascendente, no qual os homens recordam tudo aquilo que Deus fez e por isso lhe dão graças.

Contudo, o memorial não era algo meramente subjectivo, mas uma recordação objectiva, um sinal visível, sacramental, tangível, de uma realidade que não se considera passada, mas presente. Símbolo da acção salvadora de Deus que hoje, repete, as maravilhas em favor dos homens deste tempo.

O memorial para os judeus apontava sempre em três direcções: para o passado, recapitulando a actuação salvadora de Deus; para o futuro, estimulando a esperança escatológica e para ohoje da celebração, onde se concentra o actuar salvífico de Deus.

6 – Eucaristia / memorial pascal do Crucificado

A experiência da vida mostra-nos que o homem transporta em si a tendência para recordar e comemorar, por meio de palavras e gestos mais ou menos ritualizados, aqueles acontecimentos que no passado marcaram a sua história pessoal, familiar ou social, ou que tenham decidido o seu futuro. São celebrações comemorativas actualizando momentos significativos, que merecem ser conservados na memória. Não obstante, o mesmo se passa no campo do religioso. O homem, pessoalmente ou em comunidade, sente a necessidade de comemorar eventos que teceram a relação salvadora de Deus com a Humanidade. Neste sentido, o acontecimento por excelência para esta comemoração é a Eucaristia.

Na verdade, o termo chave para definir Eucaristia é o de “memorial da Páscoa de Jesus”, no sentido de recordar o acontecimento da morte de Cristo, de anunciar a segunda vinda do Messias e de renovar actualmente a força salvífica de Jesus, para bem dos indivíduos e da comunidade.

Não podemos, portanto, esquecer a capital importância que a categoria “memorial” tem na compreensão da Eucaristia. Isto porque memorial indica “contemporaneidade” de um acontecimento passado, respeitante a comunidade que celebra no presente e se vê projectada no futuro escatológico. Ao ponto de podermos acreditar e afirmar que a celebração da Eucaristia concentra em si o passado salvífico, o presente actual e o futuro escatológico, que se encontram e coincidem num mesmo acontecimento, que é histórico e meta-histórico ao mesmo tempo, a Páscoa[17].

Esta contemporaneidade leva a superar a objectivação materialista do mistério pascal e afasta o perigo de repetição historicista do único sacrifício de Cristo. Assim como, pelo contrário, induz a viver a Eucaristia como presença dinâmica do mistério, que actua no “já” da comunidade celebrante, mas que “ainda não” se manifestou na sua plenitude[18].

a) Sistematização do Memorial Eucarístico

Uma vez decifrado genericamente o significando do memorial eucarístico devemos agora proceder a uma reflexão sistemática que nos permite esclarecer um pouco acerca das diferentes dimensões deste memorial.

1) Memorial transtemporal: O memorial cristão tem uma nota fundamental, é o que se faz e celebra no tempo, mas o seu conteúdo supera as fronteiras do próprio tempo como Kronos, para se situar na esfera do transtemporal, do metafísico, do permanente e do eterno, sem perder as suas características espacio-temporais. Sendo este acontecimento celebrativo (memorial) dos homens, ele instala-se sobretudo no tempo de Deus sem história e imerge no grande mistério do amor do mesmo Deus, da sua eternidade e transtemporalidade.

2) Memorial objectivo: para evitar algumas ambiguidades que tiveram lugar na teologia do passado, e oportuno entender memorial objectivo num duplo sentido: Negativamente, memorial não significa repetição, até porque não se pode repetir um acontecimento único, como instituição eucarística, com as suas circunstâncias espacio­-temporais. E muito menos significa recordação subjectiva.

Positivamente, memorial é o cumprimento do mandato de Cristo, que nos remete à sua origem e fundamento; e o meio pelo qual somos atraídos para o acontecimento que recordamos, tomando-nos assim participantes da sua força e dinâmica salvadoras.

3) Memorial pascal: do que já foi dito podemos deduzir que o conteúdo deste memorial se concentra no mistério pascal. Mas entendamo-lo em diversos aspectos. Primeiro, e necessário afirmar que este fazer memoria implica toda a historia da salvação, concentrada no acontecimento Cristo, no Kairos sacrificial de Jesus. Em segundo lugar, abrangendo o memorial cristão, todos os momentos de vida de Cristo implicam de forma especial a Sua morte e ressurreição. Em terceiro lugar, este memorial pressupõe uma relação entre os três grandes momentos Cristológicos: o Cenáculo, o Calvário e a Eucaristia.

4) Memorial trinitário-epiclético: O memorial eucarístico é sempre epicléptico num duplo sentido: enquanto se faz memoria do Espírito enviado pelo Pai e pelo Filho como dom escatológico e enquanto se invoca o Espírito para que a memoria seja eficaz, tanto pela transformação dos dons, como pela transformação da comunidade na caridade e no amo. Nisto se manifesta de forma magnifica o mistério da Trindade e a estrutura trinitária da Eucaristia. Até porque a Eucaristia e memorial da Historia da Salvação, na qual as três pessoas divinas estão implicadas necessariamente.

5) Memorial da Igreja inteira: O memorial eucarístico não é algo pessoal mas comunitário, que implica e compromete a Igreja inteira, presente na assembleia celebrante. O mandamento deixado directamente aos apóstolos e seus sucessores de fazer memoria d'Ele e indirectamente dirigido a todos os baptizados, como exigindo que participem e comunguem nesta celebração, assim como tem o dever anunciar a salvação que ela representa.

Sem esquecer nunca que a iniciativa memorial pertence sempre a Cristo ressuscitado, a Deus - Pai e ao seu Espírito, temos de reconhecer que cabe impreterivelmente à Igreja, pela sua ministerialidade, significá-Lo e celebrá-Lo em toda a sua vida e, sobretudo, na Eucaristia.

6) Memorial simbólico pelo sinal do pão e do vinho: O memorial eucarístico faz-se de uma dupla maneira: mediante a repetição do gesto da fracção do pão e da comunhão; e por meio da palavra oracional que e a anáfora, cujo o núcleo gira em torno do relato da última ceia. É Cristo quem escolhe estes sinais do pão e do vinho para o memorial da sua auto-doação até à sua morte e ressurreição. Estes símbolos eucarísticos tornam-se, daí em diante, sinais de uma salvação presente e de uma esperança além da morte.

7) Memorial escatológico: como já o dissemos anteriormente, o memorial eucarístico abarca passado - presente - futuro. É um mistério que não só acolhe o passado de uma história antiga de salvação, mas que também projecta a sua definitividade histórica para a plena realização do Reino, que está por chegar.

7 – Consequências da Eucaristia para a Igreja

Tudo o que fomos dizendo tem consequências profundas na maneira como o homem celebra e sente a Eucaristia no seu pleno sentido. Assim, importa que, quem faz memorial eucarístico sinta que aquele momento é memória da Páscoa de Cristo, é oportunidade singular de gratidão. Pois, só a gratidão é resposta ajustada e íntima que se pode dar a Deus, pela Páscoa.

Um outro aspecto é que a Eucaristia, sendo memorial da Páscoa, celebra a “passagem” de Cristo da morte à vida, pela qual nos salva. Portanto, a verdadeira forma de participar neste acontecimento e deixar que em nós aconteça a “passagem” do pecado à graça, do ser-para-si ao ser-para-os-outros.

Uma outra chamada de atenção é que, como não podemos reviver a Ceia da instituição no tempo de Cristo e com Ele, deve haver uma forte preocupação em realçar bem cada gesto importante da Eucaristia, até mesmo explicando o valor de cada sinal e de cada silêncio.

Ressalve-se ainda a importância da Eucaristia que, ao ser memorial de libertação e liberdade, tem um carácter “contestatário” e “denunciante” de toda a escravidão e pecado. E o crente chamando a ser memorial existencial de Cristo, que se expressa e renova no sacramento que celebra, há-de não só sentir-se envolvido pela liberdade, mas comprometer-se na libertação dos outros, passando de libertado a libertador.

Todas estas repercussões da Eucaristia na existência cristã convergem para um mesmo fim: a comunhão e a unidade. Esta consequência da Eucaristia está presente na Igreja desde os primeiros tempos da era cristã. Podemos constatá-lo logo no NT; entre outras passagens, em 1 Cor 10, 16-17, onde nos aparece duas vezes seguidas, e no mesmo versículo, a palavra comunhão, para explicar o significado do pão e do vinho como comunhão com o corpo e o sangue de Cristo, e a comunhão de uns com os outros pela participação do único pão, que é o Corpo de Cristo.

S. Justino descreve a Eucaristia como criadora de unidade e comunhão de todos os homens. Assim também S. João Crisóstomo apresenta a mesa eucarística como a mesa da igualdade e da fraternidade, onde se superam as diferentes e na qual os dons de Deus não são repartidos segundo as dignidades ou as honras. Portanto, a Eucaristia surge como o sacramento da unidade e da universalidade da Igreja.

A Eucaristia é também expressão da comunhão com o Espírito Santo. E o povo cristão – que é comunidade, por se encontrar unido na mesma fé – professa essa fé em Cristo por meio do Espírito Santo, e pela comunhão com o mesmo Espírito o povo tem acesso ao Pai e ao Seu amor. E algumas anáforas da Eucaristia vão nesta linha da epiclese de comunhão.

O sinal mais visível da comunhão eucarística e, porventura, a assembleia eucarística, com crianças, jovens, adultos e idosos, doentes e marginais, e na qual todos participam a seu modo, gerando harmonia do conjunto, e a qual expressa visivelmente a comunhão eclesial.

8 – Conclusão

Posto este trabalho, bem se verifica que a eucaristia é o sacramento por excelência. É a melhor e privilegiada maneira que o homem tem para aceder a Deus, não ainda face-a-face, mas nessa preparação.

A própria designação de “Santíssimo Sacramento” vem nessa linha de pensamento.

É no sacramento da Eucaristia que se verificam, num grau supremo, as características da noção e descrição de sacramento; tais como:

- símbolo de encontro com o mistério de Deus, manifestado historicamente na pessoa de Jesus;

- celebrado ritualmente em momentos decisivos da existência pessoal e social;

- instituído pela prática transformadora de Jesus e pelo poder da Páscoa;

- actuado pelo Espírito do Senhor por mediação da comunidade eclesial organicamente constituída;

- implica e introduz ao crente a existência e dinamismo escatológico do Reino de Deus, da aliança definitiva e constrói assim a igreja como comunidade missionária no mundo;

- para glória de Deus Pai.

A Eucaristia, como memorial pascal do crucificado, fá-lo “em memória” de Cristo e é superior à Páscoa judia, daí sendo o “novo memorial”. É o sacrifício agradável de acção de graças, havendo uma presença real de Cristo:

- Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

9 – Bibliografia

BOROBIO, Dionísio – Eucaristia. BAC, Madrid, 2002.

PAREDES, José Cristo Rey Garcia – Teologia fundamental de los sacramentos. Ediciones Paulinas, Madrid, 1991.

PAREDES, José Cristo Rey Garcia – Iniciación Cristiana y Eucaristia. Ediciones Paulinas, Madrid, 1992.

PEÑA, Juan Luís Ruiz de la – La Pascua de la creación. BAC, Madrid, 2002.



[1] - PAREDES, José Cristo Rey Garcia – Iniciación Cristiana y Eucaristia. Ediciones Paulinas, Madrid, 1992. pg 199.

[2] - Cf. Idem. Pg 242-247.

[3] - Cf. Idem. Pg 205 sg.

[4] - Mt 8,15 sg.

[5] - Mt 9,9 sg.

[6] - Lc 7,36 sg.

[7] - Lc 10,38 sg.

[8] - Lc 19,1 sg.

[9] - Cf. Act 1,4-11; Jo 21, 1-19.

[10] - SCHANZ, J.P. – Los Sacramentos en la vida y en el culto. Pg 249 in PAREDES, José Cristo Rey Garcia – Iniciación Cristiana y Eucaristia. Ediciones Paulinas, Madrid, 1992. pg 207.

[11] - Dimensão cósmica-criatural da eucaristia.

[12] - Mt 26, 26-30; Me 14, 22-25; Lc 22, 15-20 e lCor 11, 23-25

[13] - Cf. PAREDES, José Cristo Rey Garcia – Iniciación Cristiana y Eucaristia. Ediciones Paulinas, Madrid, 1992. pg 252 e sg.

[14] - Cf. Ibidem pg 259 e sg.

[15] . Cf. Ibidem pg 263 e sg.

[16] - Cf. Ibidem pg. 270 e sg.

[17] - Cf. 5 – Conceito e prática memorial.

[18] - Cf. Peña, Juan Luís Ruiz de la – La Pascua de la creación. BAC, Madrid, 2002.

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