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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

S. Teresa de Jesus - CAMINHO DE PERFEIÇÃO

S. Teresa de Jesus

CAMINHO DE PERFEIÇÃO



Índice Geral

JHS

JHS. PRÓLOGO.

CAPÍTULO 1. Da causa que me moveu a fazer este convento com tanta estreiteza.

CAPÍTULO 2. Trata como se hão-de descuidar das necessidades corporais, e do bem que há na pobreza.

CAPÍTULO 3. Prossegue no assunto que começou a tratar e persuade as irmãs a que se ocupem sempre em suplicar a Deus que favoreça os que trabalham pela Igreja. Termina com uma exclamação.

CAPÍTULO 4. Em que persuade a que se guarde a regra, e três coisas importantes para a vida espiritual. Declara a primeira destas coisas, que é o amor do próximo e o dano que causam as amizades particulares.

CAPÍTULO 5. Prossegue acerca dos confessores. Diz o que importa que sejam letrados.

CAPÍTULO 6. Volta à matéria que começou: o perfeito amor.

CAPÍTULO 7. Trata do mesmo assunto do amor espiritual e dá alguns avisos para o alcançar.

CAPÍTULO 8. Trata do grande bem que é o desprendimento interior e exterior de todas as coisas.

CAPÍTULO 9. Trata do grande bem que há em fugir dos parentes os que deixaram o mundo, e de quantos mais verdadeiros amigos encontram.

CAPÍTULO 10. Trata de como não basta desprender-se do que fica dito, mas sim de nós mesmas, e de como anda junta esta virtude com a humildade.

CAPÍTULO 11. Prossegue na mortificação e diz a que se há-de adquirir nas enfermidades.

CAPÍTULO 12. Trata como há-de ter em pouco a vida e a honra o verdadeiro amador de Deus.

CAPÍTULO 13. Prossegue na mesma matéria da mortificação e como se há-de fugir dos pontos de honra e das razões do mundo para chegar à verdadeira razão.

CAPÍTULO 14. Trata do muito que importa não dar a profissão a nenhuma cujo espírito vá contra as coisas que ficam ditas.

CAPÍTULO 15. Trata do grande bem que há em não se desculpar, ainda que se vejam condenar sem culpa.

CAPÍTULO 16. Da diferença que deve haver entre a perfeição da vida dos contemplativos e dos que se contentam com oração mental, e como é possível algumas vezes Deus subir uma alma distraída à perfeita contemplação e a causa disto. É muito de ter em conta este capítulo e o que lhe segue.

CAPÍTULO 17. De como nem todas as almas são para a contemplação e como algumas chegam ela tarde e que o verdadeiro humilde há-de ir contente pelo caminho por onde levar o Senhor.

CAPÍTULO 18. Prossegue na mesma matéria e diz quanto maiores são os trabalhos dos contemplativos do que os dos activos. É de grande consolação para eles.

CAPÍTULO 19. Começa a tratar da oração. Fala com almas que não podem discorrer com o entendimento.

CAPÍTULO 20. Trata de como, por diferentes vias, nunca falta consolação no caminho da oração, e aconselha as irmãs a que disto sejam sempre as suas práticas e conversações.

CAPÍTULO 21. Diz o muito que importa começar com grande determinação a ter oração e não fazer caro dos inconvenientes que o demónio sugere.

CAPÍTULO 22. Declara o que é oração mental.

CAPÍTULO 23. Trata de quanto importa não voltar atrás quem começou o caminho da oração e volta a falar do muito que importa que seja com determinação.

CAPÍTULO 24. Trata de como se há-de rezar com perfeição a oração vocal e quão junta anda esta com a mental.

CAPÍTULO 25. Diz o muito que ganha uma alma que reza vocalmente com perfeição e como acontece Deus elevá-la disto a coisas sobrenaturais.

CAPÍTULO 26. Vai declarando o modo de recolher o pensamento. Dá meios para isso. Este capítulo é muito proveitoso para os que começam a ter oração.

CAPÍTULO 27. Trata do grande amor que o Senhor nos mostrou nas primeiras palavras do «Pai Nosso», e o muito que importa não fazer nenhum caso da nobreza de linhagem as que deveras querem ser filhas de Deus.

CAPÍTULO 28. Declara o que é oração de recolhimento e dá alguns meios para se acostumarem a ela.

CAPÍTULO 29. Prossegue dizendo os meios a empregar para procurar esta oração de recolhi mento. Diz o pouco em que se há-de ter o ser favorecidas pelos prelados.

CAPÍTULO 30. Diz quanto importa entender o que se pede na oração. Trata destas palavras do «Pater Noster»: «Santificetur nomen tuum, adveniat regnum tuum». Aplica-as à oração de quietude e começa a explicá-la.

CAPÍTULO 31. Prossegue na mesma matéria. Declara o que é oração de quietude. Dá algum avisos para os que a têm. É muito para notar.

CAPÍTULO 32. Trata destas palavras do Pai Nosso: «Fiat voluntas tua sicut in coelo et in terra», e o muito que faz quem diz estas palavras com toda a determinação, e como o Senhor lho paga bem.

CAPÍTULO 33. Trata da grande necessidade que temos de que o Senhor nos dê o que pedimos nestas palavras de Pater noster: «Panem nostrum quotidianum da nobis hodie».

CAPÍTULO 34. Prossegue na mesma matéria. É muito útil para depois de se ter recebido o Santíssimo Sacramento.

CAPÍTULO 35. Acaba a matéria começada com uma exclamação ao Pai Eterno.

CAPÍTULO 36. Trata destas palavras do Pai Nosso: «Dimitte nobis debita nostra».

CAPÍTULO 37. Fala da excelência desta oração do «Pater noster» e corno acharemos nela consolação de muitas maneiras.

CAPÍTULO 38. Trata da grande necessidade que temos de ,suplicar ao Pai Eterno que nos conceda o que Lhe pedimos nestas palavras: «Et ne nos inducas in tentationem, sed libera nos a malo» e declara algumas tentações.

CAPÍTULO 39. Prossegue a mesma matéria e dá avisos sobre tentações, sendo algumas de diversos modos, e propõe remédios para que se possam livrar delas.

CAPÍTULO 40. Diz como, procurando andar sempre em amor e temor de Deus, iremos seguras entre tantas tentações.

CAPÍTULO 41. Fala do temor de Deus e como nos havemos de guardar dos pecados veniais.

CAPÍTULO 42. Trata destas últimas palavras do Pater noster: «Sed libera nos a malo. Amen». Mas livrai-nos do mal. Amen.

S. Teresa de Jesus

CAMINHO DE PERFEIÇÃO

Livro chamado Caminho de Perfeição, composto por Teresa de Jesus, freira da Ordem de Nossa Senhora do Carmo. Vai dirigido às freiras descalças de Nossa Senhora do Carmo da Primeira Regra.

JHS

Este livro trata de avisos e conselhos que Teresa de Jesus dá às Religiosas, irmãs e filhas suas, dos mosteiros que, com o favor de Nosso Senhor e da gloriosa Virgem Mãe de Deus, Senhora Nossa, tem fundado da Regra Primitiva de Nossa Senhora do Carmo. Dirige-se em especial às Irmãs do Mosteiro de S. José de Ávila, que foi o primeiro e em que era prioresa quando o escreveu.

Em tudo o que nele disser, me sujeito ao que me ensina a Santa Madre Igreja Romana e, se alguma coisa for contrária a isto, é por não o entender. E assim, aos letrados que o hão-de ver, peço, por amor de Nosso Senhor, que o vejam muito particularmente e o corrijam, se alguma falta nisto houver, e outras muitas que terá noutras coisas. Se nele houver alguma coisa boa, seja para glória e honra de Deus e serviço de Sua Sacratíssima Mãe, Padroeira e Senhora Nossa, cujo hábito eu trago, ainda que muito indigna dele?

JHS. PRÓLOGO.

1. Sabendo as irmãs deste Mosteiro de S. José que eu tinha licença do Padre Presentado Frei Domingo Bánes, da Ordem do glorioso S. Domingos, que presentemente é meu confessor, para escrever algumas coisas de oração, em que parece que poderei atinar por ter tratado com muitas pessoas espirituais e santas, têm-me importunado tanto para que lhes diga alguma coisa sobre ela, que me determinei a obedecer-lhes, vendo que o grande amor que me têm pode fazer-lhes mais aceite o mau estilo e imperfeito daquilo que eu disser, do que alguns livros muito bem escritos por quem sabia o que escreveu. E confio nas suas orações, pois poderá ser que, por elas, o Senhor seja servido que eu acerte em dizer alguma coisa do mais conveniente ao modo de viver que temos nesta casa. E, se for pouco acertado, o Padre Presentado, que há-de ser o primeiro a ver isto, o remediará ou queimará, e eu nada terei perdido obedecendo a estas servas de Deus, e elas verão o que eu posso por mim mesma quando Sua Majestade não me ajuda.

2. Penso dar aqui alguns auxílios para umas pequenas tentações que o demónio nos apresenta que, - por serem tão diminutas -, talvez não se faça caso delas. Direi ainda outras coisas, conforme o Senhor me der a entender e eu me for lembrando, porque, como não sei o que irei dizer, não posso dizê-lo com concerto. Creio mesmo que melhor será não o ter, pois é já coisa bem desconcertada eu escrever isto. O Senhor ponha a Sua mão em tudo o que eu fizer, para que vá conforme à Sua santa vontade; estes são sempre os meus desejos, ainda que as obras sejam tão falhas como eu sou.

3. Sei que não me falta amor e desejo de ajudar naquilo que puder, para que as almas das minhas irmãs vão muito adiante no serviço do Senhor. Este amor, junto com os anos e a experiência que tenho de alguns conventos, poderá ser que sirva para eu atinar, mais do que os letrados, em coisas pequenas. Por terem eles outras ocupações mais importantes e serem varões fortes, não fazem tanto caso de coisas que em si não parecem nada, e a nós, mulheres, como somos tão fracas, tudo nos pode causar dano; porque as subtilezas do demónio são muitas para as que vivem muito encerradas, porque vê que precisa de armas novas para lhes fazer mal. Eu, como sou ruim, tenho-me sabido defender mal, e assim quereria que minhas irmãs escarmentassem em mim. Não direi coisa de que não tenha experiência, por a ter visto em mim ou em outras.

4. Há poucos dias mandaram-me escrever certa relação da minha vida, onde tratei algumas coisas de oração. Mas poderá ser que o meu confessor não queira a vejais e, por isso, direi aqui algumas coisas das que ali disse e outras que também me parecem necessárias. O Senhor o ponha por Sua mão, como Lhe tenho suplicado, e o ordene para Sua maior glória, amen.

CAPÍTULO 1. Da causa que me moveu a fazer este convento com tanta estreiteza.

1. No princípio da fundação deste mosteiro (pelos motivos referidos no livro que escrevi e onde referi algumas grandezas do Senhor, em que Ele deu a entender o muito que seria servido nesta casa), não era minha intenção que houvesse tanto rigor no exterior, nem que fosse sem renda; antes quisera que houvesse possibilidades para que nada nos faltasse. Enfim, agia como fraca e ruim, ainda que alguns bons intentos tivesse em vista mais que meu regalo.

2. Neste tempo, chegaram-me notícias dos danos e prejuízos causados em França por estes luteranos e quanto ia em crescimento esta desventurada seita. Deu-me grande pesar e, como se eu pudesse ou fosse alguma coisa, chorava com o Senhor e suplicava-Lhe pusesse remédio a tanto mal. Parecia-me que mil vidas daria para remédio de uma alma, das muitas que ali se perdiam. E, como me vi mulher, ruim e impossibilitada de trabalhar como eu quisera no serviço do Senhor, toda a minha ânsia era, e ainda é, pois Ele tem tantos inimigos e tão poucos amigos, que estes fossem bons. Determinei-me, pois, fazer este pouquito que está em minha mão: seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição que eu pudesse e procurar que estas poucas que aqui estão fizessem o mesmo. Punha a minha confiança na grande bondade de Deus que nunca falta em ajudar a quem por Ele se determina a deixar tudo; e que, sendo elas tais quais eu as imaginava em meus desejos, entre as suas virtudes não teriam força as minhas faltas, e poderia assim contentar nalguma coisa o Senhor, e que todas, ocupadas em oração pelos defensores da Igreja e pregadores e letrados que a defendem, ajudássemos, no que pudéssemos, a este Senhor meu, que tão atribulado O trazem; aqueles a quem fez tanto bem. Dir-se-ia que estes traidores O querem agora de novo pregar na cruz, e que não tivesse onde reclinar a cabeça.

3.Ó Redentor meu! o meu coração não pode chegar aqui sem se afligir muito! Que é isto agora nos cristãos? Hão-de ser sempre os que mais Vos devem os que Vos aflijam? Aqueles a quem melhores obras fazeis, aos que escolheis para Vossos amigos, entre quem andais e Vos comunicais pelos Sacramentos? Não estão ainda fartos dos tormentos que por eles passastes?

4. Por certo, Senhor meu, nada faz quem agora se isola do mundo. Pois Vos têm tão pouco amor, que esperamos nós? Porventura merecemos mais que no-lo tenham? Porventura fizemos-lhes melhores obras para que nos tenham amizade? Que é isto? Que esperamos ainda os que, por bondade do Senhor, estamos sem aquela astúcia pestilencial? Esses são já do demónio? Bom castigo têm ganho com suas próprias mãos e bem granjeado têm com seus deleites o fogo eterno. Lá se avenham, ainda que não deixa de se me partir o coração o ver como se perdem tantas almas. Mas, para que o mal não seja tanto, quisera não ver perder mais cada dia.

5. Ó irmãs minhas em Cristo! Ajudai-me a suplicar isto ao Senhor, que para isto vos juntou Ele aqui. Esta é a vossa vocação; estes hão-de ser os vossos negócios; estes hão-de ser os vossos desejos; aqui as vossas lágrimas; estas as vossas petições; não, minhas irmãs, por negócios do mundo, de que eu me rio e até me aflijo, nem pelas coisas que aqui nos vêm encarregar de suplicar a Deus, de pedir a Sua Majestade rendas e dinheiros, e isto algumas pessoas que, antes, quereria suplicassem a Deus graça para calcarem aos pés tudo isso. Boa intenção têm e, por fim, faz-se-lhes a vontade por ver a sua devoção, ainda que eu tenha para mim, que nestas coisas, nunca sou ouvida. O mundo está ardendo, querem tornar a condenar Cristo, como dizem, pois Lhe levantam mil falsos testemunhos; querem deitar por terra a Sua Igreja, e havemos de gastar tempo em coisas que, se Deus lhas desse, teríamos porventura uma alma a menos no Céu? Não, minhas irmãs; não é tempo de tratar com Deus negócios de pouca importância.

6. Por certo que, se não olhasse à fraqueza humana, que se consola de ser ajudada em tudo (e bom seria valêssemos alguma coisa), regozijar-me-ia que se entendesse que não são estas as coisas que se hão-de suplicar a Deus com tanto cuidado.

CAPÍTULO 2. Trata como se hão-de descuidar das necessidades corporais, e do bem que há na pobreza.

1. Não penseis, minhas irmãs, que, por não andar a contentar os do mundo, vos há-de faltar de comer; isto vos asseguro. Jamais, por artifícios humanos, pretendais sustentar-vos, porque morrereis de fome, e com razão. Ponde os olhos em vosso Esposo; Ele vos há-de sustentar. Contente Ele, ainda que o não queiram, dar-vos-ão de comer os vossos menos devotos, como tendes visto por experiência. Se, fazendo vós isto, morrerdes de fome, bem-aventuradas as freiras de S. José. Não vos esqueçais disto, por amor do Senhor. Já que deixais as rendas, deixai os cuidados da comida; se não, tudo vai perdido. Aqueles que o Senhor quer que a tenham, em boa hora tenham esses cuidados, que é de muita razão, pois é a sua vocação; mas em nós, Irmãs, é disparate.

2. Cuidado de rendas alheias, me parece seria estar pensando no que os outros gozam. Sim; porque, com o vosso cuidado, não muda ninguém o seu pensamento, nem lhe vem o desejo de dar esmola. Deixai este cuidado a Quem os pode mover a todos, que Ele é o Senhor das rendas e dos rendeiros. À Sua chamada viemos aqui; as Suas palavras são verdadeiras; não podem faltar; antes faltarão os céus e a terra. Não Lhe faltemos nós, e não haja medo de que Ele falte. Se alguma vez vos faltar, será para maior bem, tal como faltava a vida aos Santos quando os matavam pelo Senhor, e era para lhes aumentar a glória pelo martírio. Boa troca seria acabar depressa com tudo e ir gozar da fartura imperdurável!

3. Olhai, irmãs, que isto importa muito depois da minha morte; e, por isso, aqui vo-lo deixo escrito. Enquanto eu viver, eu vo-lo recordarei, pois vejo, por experiência, o grande lucro que há nisto. Quando menos há, mais descuidada estou, e o Senhor sabe que, segundo me parece, dá-me mais pena quando sobra muito do que quando falta. Não sei se o faz como já tenho visto; o Senhor logo no-lo dá. Outra coisa seria enganar o mundo, fazendo-nos pobres não o sendo de espírito, mas somente no exterior. Isto seria, para mim, um caso de consciência, a modo de dizer, e parecer-me-ia serem ricas a pedir esmola. Praza a Deus que não seja assim; pois onde há estes cuidados excessivos para que dêem, uma vez ou outra irão pelo costume, ou poderiam ir e pedir aquilo de que não precisam a quem talvez tenha mais necessidade. Esses, nada podem perder com isso, senão ganhar; mas nós, sim perderíamos. Não o queira Deus, minhas filhas; se isto houvesse de suceder, mais quisera eu que tivésseis renda.

4. De nenhum modo se ocupe nisto o vosso pensamento, eu vo-lo peço como esmola, por amor de Deus. E quando a mais pequena de entre vós, alguma vez verificasse isto nesta casa, clame a Sua Majestade e lembre-o à Maior. Diga-lhe com humildade que vai errada e tanto, que, pouco a pouco, se vai perdendo a verdadeira pobreza. Eu espero no Senhor que não será assim e que Ele não abandonará as Suas servas. Para isso, ainda que para mais não seja, sirva-vos isto que me mandastes escrever como um despertador.

5. E creiam, minhas filhas, que, para vosso bem, deu-me o Senhor a entender um poucochinho dos bens que há na santa pobreza e, as que o experimentarem, entendê-lo-ão; talvez não tanto como eu, porque não só eu não tinha sido pobre de espírito, ainda que o tivesse professado, mas sim louca de espírito, porque experimentei o contrário. É este um bem que encerra em si todos os bens do mundo. É grande senhorio. Digo que é um assenhorear-se de novo de todos os bens da terra para quem deles não faz caso. Que me importam os reis e senhores, se não quero as suas rendas, nem os pretendo mesmo contentar, se para isso se me atravessa por diante um tudo-nada que seja o ter de descontentar nalguma coisa a Deus? Ou, que se me dá das suas honras, se tenho entendido que, para um pobre, a maior honra está em ser verdadeiramente pobre?

6. Tenho para mim, que honras e dinheiro quase sempre andam juntos e, quem quer honras, não aborrece o dinheiro e, quem o aborrece, pouco se lhe dá de honras. Entenda-se bem isto, pois me parece que isto de honras sempre traz consigo algum interesse de rendas ou dinheiro. É que, só por maravilha, é digno de honra no mundo o que é pobre; antes, pelo contrário, ainda que de si a mereça, é tido em pouco. A verdadeira pobreza traz consigo uma tal honra, que não há quem lhe resista. Digo a pobreza que é abraçada só por Deus, pois que não precisa de contentar senão a Ele. E é coisa muito certa, em não havendo necessidade de ninguém, ter muitos amigos. Eu bem o tenho visto por experiência.

7. Porque há tanto escrito sobre esta virtude, não sei porque falo dela, pois nem o saberei entender, quanto mais dizer; assim, para não lhe fazer agravo, louvando-a eu, nada mais digo. Só tenho dito o que sei por experiência, e confesso ter estado tão embebida nisto, que nem me dei conta,até agora, do que escrevi. Mas, porque está dito, por amor do Senhor vos peço: já que as nossas armas são a santa pobreza, e o que no princípio da fundação da nossa Ordem era tão estimada e guardada pelos nossos Santos Padres (que me disse quem o sabe que dum dia para o outro não guardavam nada), ainda que no exterior não se guarde agora com tanta perfeição, procuremos tê-la no interior. Duas horas temos de vida e grandíssimo é o prémio; e mesmo que não houvesse nenhum, a não ser o de cumprir o que nos aconselhou o Senhor, seria já grande paga imitar em alguma coisa a Sua Majestade.

8. Estas armas hão-de ter nossas bandeiras, que, de todas as maneiras, queiramos guardar: na casa, no vestido, nas palavras e muito mais no pensamento. E, quando isto fizerem, não tenham medo que decaia a religião desta casa com o favor de Deus; pois, como dizia Santa Clara, grandes muros são os da pobreza. Destes, dizia ela, e da humildade, queria cercar os seus conventos; e, certo é que, se isto se guarda de verdade, a honestidade e tudo o mais estará muito melhor fortalecido do que em sumptuosos edifícios. Destes, guardem-se, por amor de Deus; eu vo-lo peço pelo Seu sangue; e, se em consciência o posso dizer, digo: que, no dia em que tal fizerem, voltem a cair.

9. Muito mal parece, filhas minhas, que da fazenda dos pobrezinhos se façam grandes casas. Não o permita Deus, mas pobres em tudo e pequenas. Pareçamo-nos em alguma coisa ao nosso Rei, que não teve casa, a não ser o presépio de Belém, onde nasceu, e a cruz onde morreu. Casas eram estas em que se podia ter pouca recreação. Os que as fazem grandes, lá se avenham; têm outras intenções santas. Mas, a treze pobrezitas, qualquer canto lhes basta. Se tiverem campo, porque é necessário pelo muito encerramento (e até ajuda à oração e devoção), com algumas ermidas para se apartarem a orar, tanto melhor. Mas, edifícios e casa grande e curiosa, nada! Deus nos livre! Lembrai-vos sempre que há-de cair tudo no dia do juízo; e E sabemos se será em breve?

10. Que faça muito ruído ao desmoronar-se a casa de treze pobrezitas, não é bem, pois os verdadeiros pobres não hão-de fazer ruído; gente sem ruído hão-de ser, para que deles tenham pena. E, como se alegrarão, se virem alguém, pela esmola que lhes tiver feito, livrar-se do inferno; tudo é possível, porque estais muito obrigadas a rogar muito continuamente por suas almas, pois vos dão de comer.' E o Senhor também quer, embora venha da Sua parte, que agradeçamos às pessoas, por cujo meio Ele no-lo dá. Nisto não haja descuido.

11. Não sei o que tinha começado a dizer, pois me distraí. Creio que o Senhor assim quis, porque nunca pensei escrever o que disse Sua Majestade nos tenha sempre de Sua mão para não decairmos disto, amen.

CAPÍTULO 3. Prossegue no assunto que começou a tratar e persuade as irmãs a que se ocupem sempre em suplicar a Deus que favoreça os que trabalham pela Igreja. Termina com uma exclamação.

1. Voltando ao fim principal para que o Senhor nos juntou nesta casa, e pelo que muito desejo sejamos alguma coisa para contentarmos a Sua Majestade, digo que, vendo tão grandes males, que forças humanas não bastam para atalhar o fogo destes hereges, embora se tenha pretendido reunir gente, pôr remédio, se possível, à força de armas, a tão grande mal e não vá tão por diante, pareceu-me necessário fazer, como quando os inimigos, em tempo de guerra, invadem e percorrem toda a terra. Vendo-se perseguido o senhor dela, acolhe-se a uma cidade bem fortificada, è dali acontece muitas vezes dar nos contrários, e serem tais os que estão na cidade como é gente escolhida poderem eles a sós mais do que poderiam com muitos soldados se estes fossem cobardes, e desta maneira, ganha-se muitas vezes a vitória; pelo menos, ainda que não se ganhe, não são vencidos; porque, como não há traidores, a não ser pela fome, não lhes podem ganhar. Aqui, esta fome, que baste a que se rendam, não a pode haver; a morrer sim, mas não a ficar vencidos.

2. Mas, para que disse eu isto? Para que entendais, minhas irmãs, que o que temos de pedir a Deus é que deste castelinho onde temos já bons cristãos, não nos fuja nenhum para os adversários, e os capitães deste castelo ou cidade, que são os pregadores e teólogos, sejam muito avantajados no caminho do Senhor. E, como os mais de entre eles estão nas Religiões, que vão muito adiante na sua própria perfeição e vocação, pois é muito necessário; porque, como já tenho dito, agora nos há-de valer o braço eclesiástico, e não o secular. E, pois nem para um nem para outro valemos nada para ajudar ao nosso Rei, procuremos ser tais que valham as nossas orações para ajudar estes servos de Deus que, com tanto trabalho, se têm fortalecido com letras e vida boa, e esforçam para agora ajudar o Senhor.

3. Poderá ser que digais: para que recomendo eu tanto isto e digo que temos de ajudar os que são melhores que nós? Eu vo-lo direi, porque creio não entendeis ainda bem o muito que deveis ao Senhor por vos ter trazido aonde tão afastadas estais de negócios, ocasiões e tratos; é grandíssima esta mercê. Não o estão os que eu digo, nem é bom que estejam e, nestes tempos, menos do que em outros; porque têm de ser eles os que encorajem a gente fraca e dêem ânimo aos pequenos. Bons ficariam os soldados sem capitães!... Têm de viver entre os homens e tratar com eles e estar nos palácios e até afazer-se algumas vezes com eles exteriormente. Pensais, filhas minhas, que é preciso pouco para tratar com o mundo e viver no mundo e tratar negócios do mundo, e afazer-se, como já disse, à conversação do mundo, e ser interiormente estranhos ao mundo e inimigos do mundo e estar como quem está em desterro, e, enfim, não serem homens senão anjos?

Porque, a não ser assim, nem merecem o nome de capitães, nem permita o Senhor que saíam de suas celas, pois farão mais dano do que proveito. Não é agora tempo de ver imperfeições nos que hão-de ensinar.

4. E, se no interior não estão fortalecidos em entender o muito que exige ter tudo debaixo dos pés e estar desapegados das coisas que se acabam e atidos às eternas, por mais que o queiram encobrir, disso darão sinal. Pois, com quem tratam eles senão com os do mundo? Não tenham medo que lhes perdoem, nem que deixem de notar alguma imperfeição. Coisas boas, muitas hão-de-lhes passar por alto, e até, porventura, não as terão por tais; mas, má ou imperfeita, não tenhaís medo. Agora eu me espanto de quem é que lhes ensina, a perfeição, não para a guardar (que disso parece-lhes não ter nenhuma obrigação, muito fazem, a seu parecer, se guardam razoavelmente os mandamentos), mas para tudo condenar e até, por vezes, parecer-lhes-á regalo o que é virtude.

Assim, não penseis que é preciso pouco favor de Deus para esta grande batalha em que se metem, mas grandíssimo.

5. Para estas duas coisas vos peço que procureis ser tais, que mereçamos alcançá-las de Deus: a primeira, que haja muitos, dos muito muito letrados e dos religiosos que tenham as qualidades precisas para isto, como tenho dito;- e aos que não estão muito dispostos, livres de negócios, os disponha o Senhor, que mais fará um perfeito do que muitos que o não são. A outra, que, depois de metidos nesta peleja a qual - como digo - não é pequena, o Senhor os tenha de Sua mão para que se possam livrar de tantos perigos como há no mundo e tapar os ouvidos ao canto das sereias neste perigoso mar. Se nisto podemos alguma coisa com Deus, estando encerradas, pelejemos por Ele, e eu darei por muito bem empregados os trabalhos que passei para fazer este recanto, onde também pretendi que se guardasse esta Regra de Nossa Senhora e lmperadora com a perfeição com que se começou.

6. Não vos pareça inútil ser contínua esta petição, porque há algumas pessoas a quem lhes parece dura coisa não rezar muito por sua própria alma, que melhor oração do que esta? Se tendes pena porque não se vos desconta a pena do purgatório, também se vos há-de descontar com esta oração, e o mais que faltar, que falte. Que se me dá a mim em que eu esteja até ao dia do juízo no purgatório, se com a minha oração se salvasse uma só alma? Quanto mais o proveito de muitas e a honra do Senhor! De penas que se acabam não façais caso, quando interferir um maior serviço a prestar a Quem tantas passou por nós. Informai-vos sempre do que é mais perfeito.

Assim peço-vos, por amor do Senhor: pedi a Sua Majestade que nos ouça nisto. Eu, ainda que miserável, peço-o a Sua Majestade, pois é para glória Sua e bem da Sua Igreja; nisto vão os meus desejos.

7. Parece atrevimento pensar que eu hei-de ser parte para alcançar isto. Eu confio, Senhor meu, nestas Vossas servas que aqui estão, e sei que não querem outra coisa nem a pretendem, mas só contentar-Vos. Por Vós deixaram o pouco que tinham e quereriam ter mais para com isso Vos servir. Pois, Criador meu, Vós não sois desagradecido para que eu pense que deixareis de fazer o que Vos suplicam. Nem aborrecestes, Senhor, as mulheres, quando andáveis no mundo, antes as favorecestes sempre com muita piedade. Quando Vos pedirmos honras, não nos ouçais, ou rendas ou dinheiro ou coisa que saiba a mundo; mas, para honra de Vosso Filho, porque não haveis de ouvir, Pai Eterno, a quem perderia mil honras e mil vidas por Vós? Não por nós, Senhor, que não o merecemos, mas pelo Sangue de Vosso Filho e pelos Seus merecimentos.

8. Ó Pai Eterno! Olhai que não são para esquecer tantos açoites e injúrias e tão gravíssimos tormentos. Como, pois, Criador meu, podem sofrer umas entranhas tão amorosas como as Vossas, que aquilo que fez vosso Filho com tão ardente amor e para mais Vos contentar (pois Lhe mandaste que nos amasse), seja tido em tão pouco como hoje em dia têm esses hereges o Santíssimo Sacramento, que Lhe tiram as Suas moradas, destruindo as Igrejas? Se alguma coisa Lhe ficasse por fazer para Vos contentar! Mas tudo fez com perfeição. Não bastava, Pai Eterno, que não tivesse onde reclinar a cabeça enquanto viveu e sempre em tantos trabalhos, senão que agora, essas moradas que tem para convidar Seus amigos (por nos ver fracos e saber que é preciso que os que hão-de trabalhar se sustentem com tal manjar) lhas tirem? Não tinha Ele já pago suficientemente pelo pecado de Adão? Sempre que tornamos a pecar, há-de pagá-lo este amantíssimo Cordeiro? Não o permitais, Imperador meu. Aplaque-se já Vossa Majestade. Não olheis aos nossos pecados, mas sim a que nos redimiu o Vosso Sacratíssimo Filho, e aos Seus merecimentos e aos da Sua gloriosa Mãe e de tantos santos e mártires que morreram por Vós!

9. Ai de mim, Senhor, e quem se atreveu a fazer esta petição em nome de todas! Que má intercessora, filhas minhas, para serdes ouvidas e para que fizesse por vós a petição! Mais se há-de indignar este soberano Juiz ao ver-me tão atrevida, e com razão e justiça! Mas vede, Senhor, já que sois Deus de misericórdia, tende-a desta pecadorazita, pequeno verme que assim se atreve diante de Vós! Vede, Deus meu, os meus desejos e as lágrimas com que isto Vos suplico e olvidai as minhas obras, por quem sois e tende lástima de tantas almas que se perdem e favorecei a Vossa Igreja! Não permitais já, Senhor, mais danos na Cristandade. Dai luz a estas trevas!

10. Eu vos peço, minhas irmãs, por amor do Senhor, que encomendeis a Sua Majestade esta pobrezita e Lhe supliqueis lhe dê humildade, como coisa de que tendes obrigação. Não vos recomendo particularmente os reis e prelados da Igreja, em especial o nosso Bispo;"' vejo as de agora tão cuidadosas disto, que me parece não ser assim preciso mais. Vejam, as que vierem, que, tendo uni prelado santo, sê-lo-ão as súbditas e, como coisa tão importante, ponde isto sempre diante do Senhor. Quando as vossas orações e desejos e disciplinas e jejuns não se empregarem nisto que digo, pensai que não fazeis nem cumpris o fim para que vos juntou aqui o Senhor.

CAPÍTULO 4. Em que persuade a que se guarde a regra, e três coisas importantes para a vida espiritual. Declara a primeira destas coisas, que é o amor do próximo e o dano que causam as amizades particulares.

1. Já vistes, filhas, a grande empresa que pretendemos ganhar. Que tais havemos de ser para que, aos olhos de Deus e do mundo, não nos tenham por muito atrevidas? Está claro que temos necessidade de trabalhar muito, e ajuda muito ter altos pensamentos para nos esforçarmos a que o sejam as obras. Pois, com tal que procuremos guardar perfeitamente a nossa Regra e Constituições com grande cuidado, espero no Senhor que Ele admitirá os nossos rogos. Não vos peço coisas novas, filhas minhas, senão que guardemos a nossa profissão, pois é a nossa vocação e aquilo a que estamos obrigadas, ainda que de guardar a guardar vá muito.

2. Diz a nossa primeira Regra que oremos sem cessara. Logo que se faça isto com todo o cuidado que pudermos, que é o mais importante, não se deixarão de cumprir os jejuns e disciplinas e o silêncio que manda a Ordem. Porque já sabeis que a oração, para ser verdadeira, se há-de amparar nisto: que regalo e oração não são compatíveis.

3. Nisto de oração é que me pedistes que diga alguma coisa. Em paga do que disser, peço-vos que observeis e leiais muitas vezes de boa vontade o que disse até agora.

Antes de falar do interior, que é a oração, direi algumas coisas que são necessárias às que pretendem ir por este caminho, e tão necessárias são que, tendo-as, ainda mesmo que não sejam muito contemplatívas poderão ir muito adiante no serviço do Senhor, e é impossível, se não as tiverem, ser muito contemplativas; e quando pensarem que o são, estão muito enganadas. O Senhor me dê o Seu favor para isto e me ensine o que devo dizer, a fim de que seja para Sua glória, amen.

4. Não penseis, amigas e irmãs minhas, que serão muitas as coisas que vos recomendarei, porque, praza ao Senhor façamos as que os nossos Santos Padres ordenaram e guardaram, que por este caminho mereceram este nome. Erro seria buscar outro, ou aprendê-lo alguém. Alongar-me-ei somente em declarar três, que são da mesma Constituição, porque importa muito entendamos o muito que nos convém guardá-las para possuirmos, interior e exteriormente, a paz que o Senhor tanto nos recomendou: uma é o amor de umas para com outras; outra, o desapego das coisas criadas; e a terceira, a verdadeira humildade que, embora a diga no fim, é a principal e as abrange todas.

5. Quanto à primeira, que é amar-vos muito umas às outras, vai nisto muito, muito; porque não há coisa enfadonha que não se passe com facilidade entre os que se amam, e forte há-de ser a coisa quando lhe causa enfado. E se este mandamento se guardasse no mundo como se deveria guardar, creio que aproveitaria muito para se guardarem os demais; mas, em mais ou em menos, nunca conseguimos guardá-lo com perfeição.

Parece que em demasia, entre nós, não pode ser mau; traz, no entanto, consigo tanto mal e tantas imperfeições, que não creio o acredite senão quem tiver sido testemunha ocular. Aqui, faz o demónio muitos enredos, que, em consciências que tratam por alto de contentar a Deus, se sentem pouco e lhes parece virtude; mas as que tratam de perfeição, entendem-no muito bem, porque, pouco a pouco, tira a força à vontade e a impede que de todo se possa empregar em amar a Deus.

6. E em mulheres, creio deve ser isto ainda mais que nos homens; e causa danos muito notórios à Comunidade; porque daqui vem o não se amar tanto a todas, o sentir o agravo feito à amiga, o desejar ter com que lhe dar prazer, o buscar tempo para lhe falar e, muitas vezes, para lhe dizer quanto lhe quer e outras coisas impertinentes, mais do quanto ama a Deus.

Porque estas grandes amizades poucas vezes vão ordenadas a se ajudarem a amarem mais a Deus; antes creio que o demónio as faz começar por criarem partidos nas religiões. Quando é para servir a Sua Majestade, logo se conhece que a vontade não é levada pela paixão, mas procura ajuda para vencer outras paixões.

7. E destas amizades quereria eu muitas onde há grandes conventos, que, nesta casa, onde não são mais de treze, nem o hão-de ser, todas têm de ser amigas, todas se hão-de amar. Guardem-se destas particularidades, por amor do Senhor, por santas que sejam, que até entre irmãos costuma ser peçonha e nenhum proveito vejo nisso; e se são parentes, muito pior; é pestilência! E creiam-me, irmãs, que, embora isto vos pareça um extremo, nisso há grande perfeição e grande paz, e evitam-se muitas ocasiões às que não estão muito fortes. Se, porém, a nossa vontade se inclinar mais para uma que para outra (o que não poderá deixar de ser, pois é natural, e muitas vezes somos assim levadas a amar o mais ruim, se tem mais graças naturais), tenhamos muita mão em não nos deixarmos assenhorear por aquela afeição. Amemos as virtudes e o bom interiormente falando, e tenhamos sempre um cuidadoso empenho em não fazer caso de tudo quanto é exterior.

8. Não consintamos, ó irmãs, que a nossa vontade seja escrava de ninguém senão d'Aquele que a comprou com o Seu sangue. Olhem que, sem entenderem como, se acharão presas a não se poderem libertar. Oh valha-me Deus! As ninharias que daqui vêm não têm conta! E porque são tão miúdas, só quem as vê o entenderá e acreditará, não há para que dizê-las aqui. Somente direi que em qualquer uma será mau e, na prelada, pestilência.

9. Em atalhar estas parcialidades é preciso grande cuidado logo desde o princípio, quando começa a amizade; e isto mais com jeito e amor do que com rigor. Para remédio disto é grande coisa não estarem juntas, nem se falarem, a não ser nas horas marcadas, conforme o costume que agora temos, como manda a Regra, que é de não estarem juntas, senão cada uma na sua cela. Livrem-se, em S. José, de ter casa de lavor; porque, embora seja louvável costume, com mais facilidade se guarda o silêncio estando cada uma de per si, e acostumar-se à soledade é grande coisa para a oração; pois este há-de ser o fundamento desta casa e para isto nos juntamos, é preciso por o nosso cuidado em nos afeiçoarmos ao que a isto mais nos ajuda.

10. Voltando ao amarmo-nos umas às outras, parece coisa impertinente recomendá-lo; pois, que gente haverá tão rude que não se ganhe mútuo amor estando em contínuo trato e vivendo juntas e não tendo outras conversações nem outros tratos com pessoas de fora de casa e crendo que Deus nos ama e elas a Ele, pois, por Sua Majestade, deixaram tudo? Especialmente porque já por si a virtude convida sempre a ser amada, esta, espero que, com o favor de Deus, sempre a haverá nas desta casa. Assim nisto não há, a meu parecer, muito a recomendar.

11. Como há-de ser este amar-se e que coisa é «amor virtuoso», - aquele que eu desejo haja aqui - e em que veremos se temos esta virtude que é bem grande, pois Nosso Senhor tanto no-la recomendou e tão encarecidamente a Seus Apóstolos, quereria eu dizer agora um poucochinho, conforme a minha rudeza. Mas, se em outros livros tão por miúdo o encontrardes, não tomeis nada de mim, que, porventura, não sei o que digo.

12. De dois modos de amor é o que eu quero tratar: um é espiritual, porque parece que nenhuma coisa toca na sensualidade nem na ternura da nossa natureza, de modo a que lhe tirem a sua pureza; o outro é também espiritual, mas, junto com ele, vai a nossa sensualidade e fraqueza ou amor bom, que parece lícito, como o de parentes e amigos. Deste, já fica dito alguma coisa.

13. Do que é espiritual, sem que intervenha paixão alguma, quero eu agora falar, porque, em havendo paixão, vai desconcertado todo este concerto; e se tratamos com moderação e discrição com as pessoas virtuosas, especialmente confessores, é proveitoso. Mas, se no confessor se perceber tendência a alguma vaidade, tenham tudo por suspeito e, de modo algum, por boas que sejam suas conversações, se tenham com ele, mas confessar-se com brevidade e concluir. E o melhor seria dizer â Prelada que a alma não se acha bem com ele e mudar. Isto é o mais acertado, se se pode fazer sem lhe tocar na honra.

14. Em caso semelhante e outros em que, nas coisas dificultosas, o demónio poderia enredar e não se sabe que conselho tomar, o mais acertado será procurar falar a alguma pessoa que tenha letras; - pois, havendo necessidade, dá-se liberdade para isso -, e confessar-se com ele e fazer o que lhe disser naquele caso; porque, como não se pode deixar de dar algum remédio, poder-se-ia errar muito fazendo coisas sem tomar conselho, especialmente no que toca em prejudicar alguém. E quantos erros se dão no mundo por não se fazer assim! Deixar de lançar mão de algum meio, não se sofre; porque, quando o demónio começa por aqui, não é para pouco dano se não se atalha com prontidão. E assim, o que eu já disse para procurar falar com outro confessor, é o mais acertado se houver disposição, e espero no Senhor que haverá.

15. Olhem que nisto vai muito, pois é coisa perigosa e um inferno e dano para todas. E digo que não esperem a compreender que o mal é muito, mas logo no princípio o atalhem por todas as vias que puderem e entenderem, com boa consciência podem fazê-lo. Mas espero no Senhor que Ele não permitirá que, pessoas que hão-de tratar sempre de oração, possam ter amizade, senão a quem for muito servo de Deus, que isto é muito certo, ou elas não têm oração, nem perfeição, conforme ao que se pretende nesta casa, porque, se não virem que ele entende a sua linguagem e é afeiçoado a falar de Deus, não lhe poderão ter amizade, porque não é seu semelhante. Mas se o é, com as pouquíssimas ocasiões que aqui haverá, ou será muito simples, ou não há-de querer desassossegar-se e desassossegar as servas de Deus.

16. Já que comecei afalar disto, que - como já disse - é grande o dano que o demónio pode fazer e muito tardio em se dar a conhecer, e assim, sem se saber como nem por onde, se pode ir estragando a perfeição. Porque, se este tal quer dar lugar a vaidades por ele as ter, tem tudo em pouco, ainda mesmo para os outros. Deus nos livre, por Quem Sua Majestade é, de coisas semelhantes! Isto seria o bastante para perturbar todas as religiosas, porque a consciência lhes diz o contrário do que diz o confessor e, se as constrangem a ter um só, não sabem que fazer nem como se sossegar; porque, quem as devia aquietar e remediar, é quem lhes faz dano. Bastas aflições destas deve haverem algumas partes; faz-me grande lástima, e assim não vos espanteis que eu ponha muito empenho em dar-vos a conhecer este perigo.

CAPÍTULO 5. Prossegue acerca dos confessores. Diz o que importa que sejam letrados.

1. Não dê o Senhor, por Quem Sua Majestade é, a provar a ninguém desta casa o trabalho que fica dito, de se verem oprimidas na alma e no corpo; se a prelada se dá bem com o confessor, nem a ele dela, nem a ela dele, ousam dizer nada. Aqui sobrevirá a tentação de deixar de confessar pecados muito graves, por medo de ficar em desassossego. Oh! Valha-me Deus! Quanto dano pode aqui fazer o demónio e que caro lhes custa o constrangimento e a honra! Como não tratam mais do que com um confessor, pensam que granjeiam grande proveito para a religião e a honra do convento, e, por esta via, ordena o demónio colher as almas, já que não pode por outra. Se pedem outro confessor, logo lhes parece que vai perdido o concerto da religião, ou, se não é da Ordem, ainda que seja um santo, até o tratar com ele lhes parece que lhes faz.

2. Esta santa liberdade peço eu, por amor do Senhor, à que estiver por Maior; e com o Bispo ou Provincial procure sempre que, além dos confessores ordinários, ela e todas possam algumas vezes tratar e comunicar suas almas com pessoas que tenham letras, em especial se os confessores não as têm, por bons que sejam. Grande coisa são as letras para dar luz em tudo. Possível será encontrar-se juntas em alguma pessoas uma e outra coisa. E quanta mais mercê o Senhor vos fizer na oração, mais necessário é ir bem fundada a oração e suas obras.

3.Já sabeis que a primeira pedra há-de ser a boa consciência e, com todasas vossas forças, livrai-vos até de pecados veniais e segui o que é mais perfeito. Parecerá que isto qualquer confessor o sabe; mas é engano. A mim aconteceu-me tratar de coisas de consciência com um que tinha ouvido todo o curso de Teologia, e me fez muito dano em coisas que me dizia não serem nada; e sei que não pretendia enganar-me nem havia para quê, senão que não sabia mais. Com outros dois ou três, sem ser este, aconteceu-me na mesma.

4. Isto de ter verdadeira luz para guardar a lei de Deus com perfeição é todo o nosso bem. Sobre esta assenta bem a oração. Sem este forte alicerce, todo o edifício vaiem falso. Se não lhes derem liberdade para confessar-se, para tratar de coisas de sua alma com pessoas semelhantes, ao que tenho dito, atrevo-me a dizer mais: que, embora o confessor tenha todas as qualidades, algumas vezes se faça o que digo; pois bem pode ser que ele se engane e é bem que não se enganem todas por ele, procurando sempre que não seja contra a obediência, pois há meios para tudo, e vale muito às almas, e assim é bem que, pelos meios que puder, isto se procure.

5. Tudo isto que disse pertence à prelada. E assim lhe torno a pedir, pois aqui não se pretende ter outra consolação senão a da alma, que procure nisto a sua consolação. Pois há diferentes caminhos por onde Deus leva as almas e não por força os saberá todos um confessor. Eu vos asseguro que não faltarão pessoas santas que queiram tratar e consolar suas almas, se elas forem o que hão-de ser, .ainda mesmo sendo pobres; pois Aquele que lhes sustenta os corpos, despertará e dará boa vontade a quem, com ela, dê luz a suas almas, e remedeia-se este mal, que é o que eu temo. Porque, ainda que o demónio tentasse o confessor, enganando-o em alguma doutrina, se este souber que tratam com outros, terá mais cuidado e olhará melhor para tudo o que faz.

Fechada esta entrada ao demónio, espero que Deus não mais o terá nesta casa; e assim peço, por amor do Senhor, ao Bispo que for, que deixe esta liberdade às irmãs, e que não lha tire, quando as pessoas forem tais, que tenham letras e bondade, o que logo se entende num lugar tão pequeno como este.

6. Isto que disse aqui, tenho-o visto, entendido e tratado com pessoas doutas e santas que têm olhado ao que mais convém a esta casa, para que a perfeição dela vá para diante. E entre os perigos - que em tudo os há enquanto vivemos -achamos ser este o menor; e nunca haja vigário que tenha direito de entrar e sair, nem confessor com esta liberdade, mas que estes sejam para zelar pelo recolhimento e honestidade da casa e aproveitamento interior e exterior, e para o dizer ao Prelado quando houver falta; mas não seja ele Superior.

7. E isto é o que se faz agora, e não só por meu parecer; porque o Bispo que agora temos, debaixo de cuja obediência estamos (que, por muitas causas que houve, não se deu obediência à Ordem), é pessoa amiga de toda a religião e santidade, e grande servo de Deus (chama-se D. Álvaro de Mendoza, de grande nobreza e linhagem e muito afeiçoado a favorecer estas casas por todas as maneiras); fez juntar, para tratarem deste ponto, pessoas de letras, espírito e experiência e assim ficou determinado. Razão será para que os Prelados que vierem se atenham a este parecer, pois, por tão bons está determinado e com muitas orações foi pedido ao Senhor que mostrasse o melhor; e, ao que se entende até agora, isto é certo. O Senhor seja servido de o levar sempre adiante, porque será mais para glória Sua, amen.

CAPÍTULO 6. Volta à matéria que começou: o perfeito amor.

1. Muito me desviei; mas importa tanto o que fica dito, que não me culpará quem o entender. Voltemos agora ao amor que é bom e lícito que nos tenhamos: aquele que digo ser puramente espiritual. Não sei se sei o que digo, pelo menos, parece-me não ser preciso falar muito dele, porque poucos o têm. A quem o Senhor o tiver dado, louve-O muito, porque deve ser de grandíssima perfeição. Quero, pois, dizer alguma coisa dele. Porventura será de algum proveito, porque, pondo diante dos nossos olhos a virtude, afeiçoa-se a ela quem a deseja e pretende ganhar.

2. Praza a Deus eu o saiba entender, quanto mais dizer, pois creio que nem sei qual é espiritual, nem quando se lhe mistura o sensível, nem sei como me ponho a falar disto. É como quem ouve falar ao longe e não entende o que dizem; assim sou eu; algumas vezes não devo entender o que digo e o Senhor permite que seja bem dito. Se de outras vezes for disparate, é o mais natural em mim não acertarem nada.

3. Parece-me agora a mim que, quando Deus chega uma pessoa ao claro conhecimento do que é o mundo, e que coisa é o mundo, e que há outro mundo e a diferença que vai de um ao outro, e que um é eterno e o outro sonhado; ou que coisa é amar ao Criador ou à criatura (isto conhecido por experiência, que são coisas bem diferentes o pensar e crer), e ver e experimentar o que se ganha com um e se perde com o outro; e o que é ser Criador e o que é ser criatura, e outras muitas coisas que o Senhor ensina a quem se quer prestar a ser ensinado por Ele na oração, ou a quem ama Sua Majestade, essa pessoa ama muito diferentemente dos que não chegamos ainda aqui.

4. Poderá ser, irmãs, que vos pareça que tratar disto é descabido, e digais que estas coisas que digo já todas as sabeis. Praza a Deus que assim seja e que saibais isto do modo que faz ao caso: impresso nas entranhas; pois, se o sabeis, vereis que não minto ao dizer que, a quem Deus traz a este ponto, tem este amor. Estas pessoas, que Deus faz chegar a este estado, são almas generosas, almas reais; não se contentam com amar coisa tão ruim como estes corpos, por formosos que sejam, por muitas graças que tenham, bem que lhes agrade à vista e louvem o Criador. Mas, para aí se deter, não. Digo "deter-se", de maneira a que, por estes motivos, lhe tenham amor. Parecer-lhes-ia que amam coisa sem substância e que se empregam em querer bem a uma sombra; teriam vergonha de si mesmos e não teriam cara, sem grande confusão sua, para dizer a Deus que O amam.

5. Dir-me-eis: "esses tais não saberão amar nem retribuir a amizade que lhes tiverem". Pelo menos, pouco se lhes dá que lha tenham. E ainda que num repente a natureza os leve, algumas vezes, a se alegrarem por serem amados, em voltando a si, vêem que é disparate, a menos que se trate de pessoas que lhes hão-de aproveitar à alma com sua doutrina e oração. Todas as outras vontades as cansam, pois entendem que nenhum proveito trazem consigo, antes lhes poderia até causar dano, não porque as deixam de agradecer e retribuir, encomendando a Deus aqueles que lhes têm essa amizade. Mas consideram-no como se esses que as estimam deixassem a paga a cargo do Senhor, pois entendem que d'Ele é que procede isto de serem amadas por outras pessoas. Parece-lhes que em si não têm por que se lhes queira, e assim, logo lhes parece que lhes querem porque Deus lhes quer, e deixam a Sua Majestade o pagar e Lhe suplicam que o faça, e com isto ficam livres, como se isto em nada as tocasse. E, olhando bem as coisas, a não ser com as pessoas que digo que nos podem fazer bem para ganhar virtudes, penso algumas vezes na grande cegueira que trazemos neste querer que nos queiram!

6. Agora notem que, quando queremos o amor de alguma pessoa, sempre se pretende algum interesse de proveito ou satisfação nossa, e estas pessoas perfeitas já têm debaixo dos pés todos os bens e regalos que o mundo lhes pode dar; já estão de maneira que contentamentos, ainda mesmo que os queiram, a modo de dizer, não os podem ter, a não ser que seja com Deus ou em tratar de Deus. Que proveito, pois, lhes pode vir de serem amadas?

7. Quando se lhes representa esta verdade, riem-se de si mesmas, da preocupação que algum tempo tiveram, se era ou não paga a sua amizade. Embora a vontade seja boa, logo nos é muito natural querer a paga. Vindo esta a cobrar-se, a paga é em palha; que tudo é ar e sem tomo que o vento leva. Porque, ainda quando muito nos quisessem, que é isto que nos fica? Assim, se não é para proveito da alma com as pessoas que tenho dito, porque vem a ser de tal sorte o nosso natural que, se não há algum amor, logo se cansa, tanto se lhes dá de ser queridas como não.

Parecer-vos-á que estas tais não querem a ninguém nem sabem querer senão a Deus. Querem muito mais, e com verdadeiro amor, e com mais paixão e amor mais proveitoso; enfim, é amor. E estas tais almas são sempre afeiçoadas a dar muito mais do que a receber; até com o mesmo Criador lhes acontece isto. Digo que este merece o nome de amor, pois estas outras afeições baixas têm-lhe usurpado o nome.

8. Parecer-vos-á também que, se não amam pelas coisas que vêem, a que se afeiçoam?

Verdade é que amam o que vêem e afeiçoam-se ao que ouvem; mas estas coisas que vêem são estáveis. Logo estes, se amam, passam além dos corpos, põem os olhos nas almas e olham se há nelas coisas para se amar. Se as não há, mas vêem algum princípio ou disposição para que, se aprofundarem, achem ouro nesta mina, têm-lhe amor, não lhes dói o trabalho; não há coisa custosa que uma alma destas não faça de boa vontade por aquela a quem quer bem, porque deseja continuar a amá-la e sabe muito bem que, se ela não tem bens espirituais e ama muito a Deus, é impossível. E digo que é impossível, por mais que a obrigue e se mate, querendo-lhe, e lhe faça todas as boas obras que puder e possua reunidas em si todas as graças da natureza; a vontade não terá força, não poderá permanecer firme. Já sabe e tem experiência do que é tudo; não lhe farão pagar em moeda falsa. Vê que não são um para o outro e que é impossível perdurar o quererem-se mutuamente, porque é amor que se há-de acabar com a vida. Se a outra não guarda a lei de Deus e entende que não O ama, hão-de ir para lugares diferentes.

9. E este amor, que só aqui dura, uma alma, a quem o Senhor já infundiu verdadeira sabedoria, não o estima em mais do que vale, nem em tanto.

Porque, para os que gostam de gozar coisas do mundo, deleites e honras e riquezas, alguma coisa valerá, se for rica e tiver partes para dar passatempo e recreação; mas, a quem tudo isto aborrece, já pouco ou nada se lhe dará disto.

Ora, pois, aqui, - se tem amor -, é a paixão para fazer com que essa alma ame a Deus, para ser por Ele amada; porque sabe, como digo, que, de outro modo, não pode perdurar em lhe querer. É amor muito à própria custa; não deixa de fazer tudo o que pode para que lhe aproveite. Perderia mil vidas por um pequeno bem seu.

Oh! precioso amor, que vai imitando o Capitão do Amor, Jesus, nosso Bem!

CAPÍTULO 7. Trata do mesmo assunto do amor espiritual e dá alguns avisos para o alcançar.

1. É coisa estranha quão apaixonado amor é este; quantas lágrimas custa; quantas penitências e oração; como se preocupa por pedir a todos os que pensam lhe hão-de aproveitar com Deus para que Lhe encomendem essa alma que ama; que desejo contínuo; não sente alegria se não a vê aproveitar. Se, pois, lhe parece não está melhorada e vê que volta um poucoatrás, parece que já não há-de ter prazer na vida. Nem come, nem dorme, só com este cuidado, sempre temerosa de que alma, a quem tanto quer, se venha a perder, e se hão-de apartar para sempre, pois a morte de cá debaixo não a tem em nada, pois não quer apegar-se àquilo que, com um sopro, se lhe vá das mãos sem a poder segurar. É - como tenho dito - amor sem pouco nem muito de interesse próprio. Tudo o que deseja e quer é ver rica aquela alma em bens do Céu.

Isto é amor, e não estes «querer-se» de cá da terra, desastrosos, e já não falo dos maus, que desses Deus nos livre!

2. Em coisa que é um inferno, nada há para nos cansarmos de falar mal, pois não se pode en- carecer o menor de seus males. Isto, irmãs, não há que nomeá-lo entre nós, nem pensar que o há no mundo; e nem por graça, nem deveras, ouvir nem consentir que diante de vós se trate nem se conte nada de semelhantes amizades. Para nada é bom e, só de se ouvir, poderia causar dano; já não tanto as outras amizades lícitas, de que já falei, que nós temos umas às outras, ou a parentes e amigas. Todo o nosso desejo é que não nos morram; se lhes dói a cabeça, parece que nos dói a alma; se os vemos em trabalhos, foge-nos a paciência - como dizem -; e tudo por este modo.

3. Aquele outro amor não é assim. Ainda que, pela fraqueza natural, se sinta alguma coisa, rapidamente a razão olha a ver se é para bem daquela alma, se ela se enriquece mais na virtude, e como o sofre, e roga a Deus lhe dê paciência e mérito nos trabalhos. Se vê que a tem, nenhuma pena sente; antes se alegra e consola, embora sofresse de melhor vontade do que vê-la sofrer, se lhe pudesse dar todo o mérito e ganho que há em padecer, mas não para que se inquiete nem desassossegue.

4. Torno outra vez a dizer a que este amor se parece e vai imitando ao que nos teve o bom amador Jesus; e assim aproveitam muito, porque abraçam todos os trabalhos, e quereriam que os outros, sem trabalhar, deles se aproveitassem. Assim ganhariam muitíssimo os que gozam da sua amizade; creiam que, ou deixarão de tratar com eles - digo, com particular amizade - ou acabarão por alcançar de Nosso Senhor que andem pelo seu caminho, pois vão para a mesma terra, como fez Santa Mônica s com Santo Agostinho. Não lhes sofre o coração tratá-los com falsidade, porque, se os vêem torcer caminho, ou cometerem alguma falta, logo lho dizem. Não podem deixar de fazer outra coisa. E como disso não se emendarão, nem os tratam com lisonja, nem lhes dissimulam nada, ou eles se hão-de emendar ou acabará a amizade; porque não poderão sofrê-lo, nem é para sofrer; para um e para outro é contínua guerra. Com andar descuidados de todo o mundo e não tendo conta se os outros servem a Deus ou não, que só consigo mesmos a têm, com os seus amigos não há poder para fazer isto, nem coisa que se lhes encubra. Até argueirinhos vêem. Digo que trazem bem pesada cruz

5. Esta maneira de amar é que eu quereria tivéssemos umas às outras. Ainda que a princípio não seja tão perfeita, o Senhor a irá aperfeiçoando. Comecemos por um meio termo que, embora leve um tanto de ternura, não fará dano, como seja em geral. É bom e necessário mostrar algumas vezes ternura na amizade, e até mesma tê-la, e sentir alguns trabalhos e enfermidades das irmãs, ainda que sejam pequenos; porque, algumas vezes, acontece uma coisa muito leve dar tão grande pena a uma, como a outra daria um grande trabalho, pois há pessoas que têm de natural afligirem-se muito por pouca coisa. Se o vosso é ao contrário, não vos deixeis de compadecer; talvez Nosso Senhor tenha querido preservar-nos destas penas e as teremos em outras coisas, e as que para nós são grandes -posto que de si o sejam-para outra serão leves. Assim, nestas coisas, não julguemos por nós mesmas, nem nos consideremos no tempo em que, porventura, sem trabalho nosso, o Senhor nos fez mais fortes, mas antes, consideremo-nos no tempo em que fomos mais fracas.

6. Olhai que importa muito este aviso para nos sabermos condoer dos trabalhos do próximo, por pequenos que sejam, em especial em almas como as que ficam ditas, porque estas, como já desejam trabalhos, tudo se lhes faz pouco, e é muito necessário terem cuidado de olhar a quando eram fracas e ver que, se o não são, não é delas que isso vem; porque poderia por aqui o demónio ir esfriando a caridade com os próximos, e fazer-nos entender que é perfeição o que é defeito. Em tudo é preciso cuidado e andar vigilantes, pois que ele não dorme; e isto ainda mais para os que andam em maior perfeição, porque são muito mais dissimuladas as tentações, que ele não se atreve a outra coisa, pois parece não se entende o dano até que esteja já feito, se - como digo - não se tem cuidado. Enfim, é sempre necessário vigiar e orar; que não há melhor remédio para descobrir estas coisas ocultas do demónio e fazê-lo dar sinal de si, do que a oração.

7. Procurai também recrear-vos com as irmãs, quando têm necessidade de recreação e no tempo em que é costume, ainda que não seja de vosso gosto, porque, indo com prudência, tudo é perfeito amor. Assim é muito bom que umas se compadeçam das necessidades das outras. Atendam a que não seja com falta de discrição em coisas que sejam contra a obediência. Ainda que interiormente pareça áspero o que mandar a prelada, não o mostrem nem o dêem a entender a ninguém, a não ser à mesma prioresa, com humildade, porque faríeis muito dano. E procurai entender quais são as coisas que haveis de sentir e apiedar-vos das irmãs, e senti sempre muito qualquer falta notória que vejais nelas. Aqui se mostra e exercita bem o amor em sabê-las sofrer e em não se espantar com isso, que assim farão as outras com as faltas que tiverdes, pois, até aquelas que não entendeis, devem ser muitas mais; e encomendá-la muito a Deus e procurar exercer com grande perfeição a virtude contrária à falta que a outra parece ter. Esforçai-vos nisto, para lhe ensinar por obra o que, porventura, ela não entenderá por palavra, nem lhe aproveitará, nem mesmo o castigo. E isto, de fazer uma o que vê resplandecer de virtude em outra, pega-se muito. É bom este aviso: não o esqueçais.

8. Oh! que bom e verdadeiro amor será o da irmã que pode aproveitar a todas, deixando o seu próprio proveito pelo das outras, adiantar muito em todas as virtudes e no guardar com grande perfeição a sua Regra! Melhor amizade será esta do que todas as ternuras que se podem dizer, pois estas não se usam nem se hão-de usar nesta casa, tal como: «minha vida», «minha alma», «meu bem», e outras coisas semelhantes, como algumas pessoas se chamam umas às outras. Estas palavras afectuosas deixem-nas para seu Esposo, pois hão-de estar tanto com Ele, e tão a sós, que de tudo hão-de ter necessidade de se aproveitar, visto que Sua Majestade as sofre e, muito usadas entre nós, não enternecem tanto com o Senhor. E mesmo não há para quê; é muito de mulheres e eu não quereria, minhas filhas, que o fôsseis em nada, nem o parecêsseis, senão varões fortes; que, se fizerern quanto estiver em vossas mãos, o Senhor vos fará tão varonis, que espante os mesmos homens. E como isto é fácil a Sua Majestade, que nos fez do nada!

9. É também muita boa mostra de amor procurar tirar-lhes o trabalho, e tomá-lo sobre si nos ofícios da casa, e também alegrar-se e louvar muito ao Senhor pelo aumento que vir em suas virtudes. Todas estas coisas, deixando de parte o grande bem que trazem consigo, ajudam muito à paz e conformidade de umas com as outras, como, pela bondade de Deus, nós agora o vemos por experiência. Praza a Sua Majestade levá-la sempre avante, porque o contrário seria coisa terrível e muito duro de sofrer; poucas e mal avindas... não o permita Deus!

10. Se por acaso alguma palavrinha, dita de repente, se vos atravessa por diante, remedeiem-na logo e façam muita oração. E em qualquer destas coisas que perdurem, ou grupinhos, ou desejos de ser mais, ou pontinhos de honra (que parece até se me gela o sangue quando isto escrevo, ao pensar que isto se pode dar em algum tempo, porque vejo que é o maior mal dos conventos), quando isto houver, dêem-se por perdidas. Pensem e creiam que deitaram o seu Esposo fora de casa e O obrigam a procurar outra pousada, pois O expulsam da Sua própria casa. Clamem a Sua Majestade; procurem dar remédio, porque, se não o põe o confessar-se e comungar tão amiúde, temam que haja algum Judas.

11. Atenda muito a prioresa, por amor de Deus, a não dar lugar a isto, atalhando muito os princípios, que nisto está todo o dano ou remédio. À que ela entender que é causa do alvoroço, procure que se vá a outro convento, que Deus lhe dará com que a dotar. Afastem de si esta peste. Cortem como puderem os ramos; e, se não bastar, arranquem a raiz. E, quando isto não puderem, não saia dum cárcere quem destas coisas tratar: muito mais vale isto do que se pegue a todas tão incurável pestilência. Oh! que grande é este mal! Deus nos livre de mosteiro aonde entra! Mais quisera eu que neste entrasse um fogo que nos abrasasse a todas. Porque, noutra parte, creio, direi mais alguma coisa sobre isto, como de coisa que tanto nos importa, não me alongo mais aqui.

CAPÍTULO 8. Trata do grande bem que é o desprendimento interior e exterior de todas as coisas.

1. Agora vamos ao desprendimento que devemos ter, pois tudo está nisto se for com perfeição. Digo que aqui está tudo, porque, abraçando-nos só com o Criador e não se nos dando nada de todas as coisas, Sua Majestade infunde as virtudes de maneira que, trabalhando nós a pouco e pouco o que está em nosso poder, não teremos muito mais a pelejar, pois o Senhor toma em mão a nossa defesa contra os demónios e contra todo o mundo.

Pensais, irmãs, que é pequeno bem procurar este bem de nos darmos todas ao Todo sem fazermos partilhas? E, pois que n'Ele estão todos os bens, como digo, louvemo-lO muito, irmãs, por nos ter reunido aqui onde não se trata de outra coisa senão disto. E assim, não sei porque o digo, pois todas as que aqui estais me podeis ensinar a mim. Confesso não ter neste caso tão elevada a perfeição como eu a desejo e entendo que convém, tal como em todas as virtudes, pois é mais fácil escrever do que cumprir; e ainda nisto não atinara, porque, algumas vezes, sabê-lo dizer consiste na experiência, e se eu atinar é por ter feito o contrário a estas virtudes.

Quanto ao exterior, já se vê quão apartadas aqui estamos de tudo. Ó irmãs, entendei, por amor de Deus, a grande mercê que o Senhor fez às que trouxe aqui e cada uma pense nisto bem para si, pois em somente doze quis Sua Majestade que fôsseis uma. E quantas delas, melhores do que eu, tomariam este lugar de boa vontade, e o Senhor deu-mo a mim, mere- cendo-o tão mal! Bendito sejais Vós, meu Deus, e louvem-Vos todas as coisas, que por esta mercê bem pouco Vos posso servir, assim como por outras muitas que me tendes feito, pois só o dardes-me estado religioso foi grandíssima. E, como tenho sido tão ruim, não Vos fiaste, Senhor, de mim, porque, onde havia muitas boas reunidas, não se chegaria assim a ver a minha ruindade até se me acabar a vida; e trouxeste-me aonde, por serem tão poucas, parece impossível deixar-se de se entender, para que ande com mais cuidado, tirais-me todas as ocasiões. Já não há desculpa para mim, Senhor, eu o confesso, e assim tenho mais necessidade da Vossa misericórdia para me perdoardes a ruindade que ainda tiver.

3. O que eu vos peço muito é que, aquela que vir em si que não é feita para levar a vida que aqui se costuma, diga-o. Outros conventos há onde também se serve ao Senhor; não perturbem estas poucachinhas que Sua Majestade aqui juntou. Noutras partes há liberdade para se consolarem com os parentes; aqui, se alguns se admitem, é para consolo dos mesmos. Mas a freira que deseja ver os parentes para seu próprio consolo, se não são espirituais, tenha-se por imperfeita; creia que não está desprendida, não está sã, não terá liberdade de espírito, não terá inteira paz; necessita de médico, e digo que, se o mal não a deixa e não sara, não é para esta casa.

4. O melhor remédio que vejo é de não os ver até que se veja liberta e o alcance do Senhor com muita oração. Quando se vir de modo a que tome isto como uma cruz, veja-os em boa hora, que então lhes dará proveito e não se danificará a si.

CAPÍTULO 9. Trata do grande bem que há em fugir dos parentes os que deixaram o mundo, e de quantos mais verdadeiros amigos encontram.

1. Oh! se entendêssemos, nós as religiosas, o dano que nos vem de tratar muito com parentes, como fugiríamos deles! Eu não entendo que consolação é esta que dão, mesmo pondo de parte o que a Deus pertence, mas somente para o nosso sossego e descanso, pois da sua recreação não podemos nem é lícito gozar, e sim sentir os seus trabalhos, que nenhum deixamos de chorar, e algumas vezes mais do que eles mesmos. A ousadas, se algum regalo dão ao corpo, paga-o bem o espírito. Disto estais aqui livres, porque, como tudo é em comum e nenhuma pode ter regalo particular, a esmola que lhe fazem é para todas e assim ficam livres de os contentar por isto, pois já se sabe que o Senhor há-de prover a todas por junto.

2. Espantada estou do dano que faz o tratar com os parentes; não creio o acredite senão quem tiver experiência. E que esquecida parece estar hoje em dia esta perfeição nas Religiões! Eu não sei o que é que deixámos do mundo as que dizemos que tudo deixámos por Deus, se não nos apartarmos do principal que são os parentes. Chega já a coisa a tal estado, que se tem por falta de virtude os religiosos não quererem e tratarem muito com seus parentes, e assim o dizem e alegam suas razões.

3. Nesta casa, filhas, haja muito cuidado de os encomendar a Deus, que é de razão; no demais, apartá-los da memória o mais que pudermos, porque é coisa natural apegar-se a eles o nosso coração mais do que a outras pessoas.

Eu fui muito querida por eles, ao que diziam, e queria-lhes tanto, que não os deixava esquecerem-se de mim. E tenho a experiência, por mim e por outras que, deixados à parte os pais (que só por maravilha deixam de se lembrar dos filhos, e é de razão que não nos façamos estranhos para com eles, quando tiverem necessidade de consolo, se virmos que não nos faz mal ao mais importante, pois isto se pode fazer com desapego, e também com os irmãos), todos os demais parentes, embora eu me tenha visto em trabalhos, têm sido os que menos me têm ajudado neles; os servos de Deus, sim.

4. Crede, irmãs, que, servindo-O como deveis, não encontrareis melhores parentes que os que Sua Majestade vos enviar. Eu sei que é assim, e afeitas a isto, - como estais -, e entendendo que em fazer outra coisa faltais ao vosso verdadeiro Amigo e Esposo, crede que muito em breve ganhareis esta liberdade, e que, daqueles que vos quiserem só por Ele, podeis fiar-vos mais do que de todos os vossos parentes, pois não vos faltarão; e, em quem menos pensais, encontrareis pais e irmãos. Porque, como estes pretendem a paga de Deus, tudo fazem por nós; os que a pretendem de nós, como nos vêem pobres e que em nada lhes podemos dar proveito, cansam-se depressa. E, ainda que isto não seja em geral, é o mais usado agora no mundo; porque, enfim, é mundo.

Quem vos disser outra coisa, e que é virtude fazê-lo, não lhe acrediteis, que se eu dissesse todo o dano que traz consigo, havia de me alongar muito; e, porque outros, que sabem melhor o que dizem, o têm escrito, basta o que fica dito. Parece-me, pois, se com ser tão imperfeita o tenho entendido tanto, que será dos que são perfeitos?

5. Todo este dizerem-nos que fujamos do mundo, como nos aconselham os Santos, claro está que é bom. Pois crede-me: o que mais se apega dele, como já disse, são os parentes e é o mais custoso de desapegar. Por isso, fazem bem os que fogem de suas terras, se isto lhes vale, digo, pois não creio esteja o remédio em fugir o corpo, mas em que determinadamente a alma se abrace com o Bom Jesus, Senhor Nosso, pois, como ali encontra tudo, tudo esquece; embora seja muito grande ajuda o apartamo-nos enquanto não tivermos compreendido esta verdade; depois poderá ser que o Senhor, para nos dar cruz naquilo em que costumávamos ter gosto, queira que tratemos com eles.

CAPÍTULO 10. Trata de como não basta desprender-se do que fica dito, mas sim de nós mesmas, e de como anda junta esta virtude com a humildade.

1. Desprendendo-nos do mundo e dos parentes e encerradas aqui nas condições que estão ditas, parece que já temos tudo feito e que não há que pelejar com ninguém. Ó minhas irmãs, não vos tenhais por seguras, nem vos deiteis a dormir, pois acontecer-vos-á como àquele que se deita muito sossegado, tendo fechado muito bem as portas por medo dos ladrões, e os deixa em casa. E já sabeis que não há pior ladrão que o que está em casa, pois ficámos nós mesmas, e se não se anda com grande cuidado, e cada uma - como no negócio mais importante de todos - não olha muito a andar contradizendo a própria vontade, muitas coisas há a impedirem esta santa liberdade de espírito para que possa voar ao seu Fazedor sem ir carregada de terra e de chumbo.

2. Grande remédio é para isto trazer muito de contínuo no pensamento a vaidade que tudo é e quão depressa se acaba, para tirar as afeições das coisas que são tão vãs e pô-la no que jamais se há-de acabar. E ainda que pareça fraco meio, fortalece muito a alma, nas coisas mais pequenas pôr grande cuidado; e, em afeiçoando-nos a alguma, procurar apartar dela o pensamento e volvê-lo para Deus, e Sua Majestade ajuda. E faz-nos grande mercê, pois nesta casa, o mais está feito; irias resta desprendermo-nos de nós mesmas e este apartar-nos de nós mesmas e sermos contra nós é coisa dura, porque estamos muito unidas e nos amamos muito.

3. Aqui pode entrar a verdadeira humildade, porque esta e aquela virtude parece-me que andam sempre juntas; são duas irmãs que não há para que separá-las. Não são estes os parentes de que eu aviso se afastem, senão que os abracem e as amem e nunca se vejam sem elas. Oh! soberanas virtudes! senhoras de todas as coisas, imperatrizes do mundo, libertadoras de todos os laços e embaraços postos pelo demónio, tão amadas do nosso ensinador Cristo, que nunca um instante se viu sem elas! Quem as tiver, bem pode sair a pelejar com todo o inferno junto e contra todo o mundo e suas ocasiões. Não haja medo de ninguém, que seu é o reino dos Céus. Não tem a quem temer, porque não se lhe dá nada de perder tudo, nem a isso tem por perda; só teme descontentar a seu Deus e suplicar-Lhe que a sustente nelas para que as não perca por sua culpa.

4. Verdade é que estas virtudes têm tal propriedade, que se escondem de quem as possui, de maneira que nunca as vê nem acaba de crer que tem alguma, embora lho digam; mas tem-nas em tanto, que sempre anda procurando tê-las e as vai aperfeiçoando em si cada vez mais, ainda que bem se assinalem os que as têm; logo se dão a conhecer aos que com eles tratam, sem mesmo o quererem.

Mas, que desatino pôr-me eu a louvar a humildade e a mortificação, estando elas tão louvadas pelo Rei da glória e tão confirmadas por tantos trabalhos Seus! Pois, filhas minhas, aqui é o trabalhar para sair da terra do Egipto, que, em as achando, achareis o maná; todas as coisas saber-vos-ão bem; por mau sabor que tenham ao gosto dos do mundo, se vos farão doces.

5. Agora, pois, o que primeiro temos de procurar é tirar de nós mesmas o amor a este corpo, porque somos algumas tão regaladas por natureza, que não há pouco que fazer aqui, e tão amigas da nossa saúde, que é para louvar a Deus a guerra que isto faz, às freiras em especial, e mesmo aos que o não são. Mas, algumas de nós parece que não viemos a outra coisa ao convento senão a procurar não morrer. Cada uma o procura como pode. Aqui, na verdade, é que pouco lugar há para isso em obras, mas eu não quereria que houvesse o desejo. Determinai-vos, irmãs, que vindes a morrer por Cristo e não a regalar-vos por Cristo; que o demónio põe no pensamento que isto é preciso para seguir a Regra; e em boa hora se pretende guardá-la procurando ter saúde para, com ela, a guardar e conservar, que se morre sem a ter guardado inteiramente um mês, nem, porventura, um dia. Pois não sei a que viemos.

6. Não tenham medo de que nos falte discrição neste caso por maravilha, pois logo temem os confessores que nos vamos matar com penitências. E é tão aborrecida para nós esta falta de discrição, que oxalá assim cumpríssemos tudo! Às que fizerem o contrário, sei que nada se lhes dará de que eu diga isto, nem a mim de que digam que julgo por tnim, pois dizem a verdade. Tenho para mim que assim quer o Senhor que sejamos mais enfermas; pelo menos a mim, em sê-lo, fez-me grande misericórdia, porque, como eu me havia de regalar, assim como assim, quis que fosse com causa.

Pois é coisa daninha as que andam com este tormento que elas se dão a si mesmas, e, algumas vezes, sentem um desejo de fazer penitências, sem ordem nem concerto, que duram dois dias, a modo de dizer. Depois, põe-lhes o demónio na imaginação que lhes fez mal; faz-lhes temer a penitência e não ousar depois cumprir o que manda a Ordem, "pois já o experimentaram". Não guardamos umas coisas muito pequenas da Regra - como o silêncio, que não nos há-de fazer mal - e não nos doeu a cabeça quando deixamos de ir ao coro, - o que também nos não mata -, e queremos inventar penitências da nossa cabeça, para que não possamos fazer nem uma coisa nem outra. E, às vezes, é pouco o mal, e parece-nos que não estamos obrigadas a fazer nada e, com pedir licença, cumprimos.

7. Direis: mas, para que a dá a prioresa? Se conhecesse o interior, talvez não a desse; mas, como lhe dais informação de necessidade e não falta médico que ajude reforçando, levado pela mesma informação que lhe dais a ele, e uma amiga ou parente que chore ao lado, que há-de ela fazer? Fica com escrúpulo se falta à caridade; antes quer que falteis vós de que ela.

8. Estas são coisas que pode ser aconteçam algumas vezes e, para que vos guardeis delas, as ponho aqui. Porque, se o demónio nos começa a amedrontar com que nos faltará a saúde, nunca faremos nada. O Senhor nos dê luz para acertar em tudo, amen.

CAPÍTULO 11. Prossegue na mortificação e diz a que se há-de adquirir nas enfermidades.

1. Parece coisa imperfeita, minhas irmãs, este queixarmo-nos sempre de males leves; se podeis sofrê-lo, não o façais. Quando é grave o mal, ele por si mesmo se queixa; é outro queixume e logo se dá a conhecer. Olhai que sois poucas e, se uma tem este costume, é bastante para cansar a todas, se vos amais e há caridade; se não, a que tiver um mal verdadeiro, diga-o e tome o necessário; que, se perdeis o amor próprio, sentireis tanto qualquer alívio, que não tenhais medo o tomeis sem necessidade, nem vos queixeis sem causa. Quando o há, seria muito pior não o dizer, que tomá-lo sem ela, e muito mal se não se apiedassem de vós.

2. Quanto a isso, é bem certo que, onde há caridade e sendo tão poucas, nunca falta o cuidado de vos tratardes. Mas, de fraquezas e molestiazitas de mulheres, não façais caso nem vos queixeis, que algumas vezes põe o demónio na imaginação essas dores; vão e vêm. E, se não se perde o costume de o dizer e de nos queixarmos de tudo, a não ser a Deus, nunca mais se acabará. Porque este corpo tem uma falha: quanto mais o regalam, mais necessidades descobre. É coisa estranha como quer ser bem tratado ou como sabe dar cor de necessidade, por pouca que seja, e engana a pobre da alma para que não possa medrar.

3. Lembrai-vos de quantos pobres enfermos haverá que não terão a quem se queixar. Pois, pobres e regaladas, não faz sentido. Lembrai-vos também de muitas casadas; - eu sei que as há - e pessoas de categoria que, mesmo com males graves, para não enfadarem seus maridos, não ousam queixar-se, e com grandes trabalhos. Ai de mim, pecadora! Sim, que não viemos aqui para sermos mais bem tratadas que elas. Oh! já que estais livres dos grandes trabalhos do mundo, sabei sofrer um poucochinho por amor de Deus sem que todos o saibam! Pois, se uma mulher muito mal casada, para que o não saiba seu marido, nem o diz nem se queixa e passa muita desventura sem desabafar com ninguém, não sofreremos, nós a sós com Deus, um pouco dos males que nos dá por causa de nossos pecados? Tanto mais que é um quase nada com que se aplaca o mal.

4. Em tudo o que disse, não trato de doenças graves, como quando há muita febre, embora peça que haja moderação e sempre saibam sofrer, mas trato dumas molestiazinhas que se podem aguentar de pé. Mas, que seria, se isto se viesse a ler fora desta casa? que diriam todas as freiras de mim? E, que de boa vontade, se alguma se emendasse, eu o sofreria! Porque, por uma que haja assim, chega a coisa a termos que, a maior parte das vezes, não acreditam em nenhuma, por males graves que tenham.

Lembremo-nos dos nossos antigos santos Padres eremitas cuja vida pretendemos imitar; quantas dores passavam a sós: frio, fome, sol e calor, sem terem a quem se queixar, senão a Deus! Pensais que eram de ferro? Pois eram tão delicados como nós. E crede, filhas, que, em começando a vencer estes miseráveis corpos, já não nos cansam tanto. Muitas haverá que olhem pelo que vos é necessário, descuidai-vos de vós mesmas, se não for necessidade reconhecida. Se não nos determinarmos a tragar de uma vez a morte e a falta de saúde, nunca faremos nada.

5. Procurai não a temer e entregai-vos de todo a Deus, venha o que vier. Que importa que morramos? Por quantas vezes zombou de nós o corpo, não zombaríamos dele também alguma? E crede que esta determinação importa mais do que podemos entender; porque muitas vezes que o vamos fazendo pouco a pouco, com o favor do Senhor, ficaremos senhoras dele. Pois, vencer um tal inimigo, é grande negócio para avançar na batalha desta vida. Faça-o o Senhor como pode. Creio bem que não entenderá o lucro, senão quem já goza da vitória, que é tão grande, segundo creio, que ninguém sentiria passar trabalhos para ficar neste sossego e senhorio.

CAPÍTULO 12. Trata como há-de ter em pouco a vida e a honra o verdadeiro amador de Deus.

1. Vamos a outras coisas que também importam muito, ainda que pareçam diminutas. Trabalho grande parece tudo, e com razão, porque é guerra contra nós mesmos; mas, começando-se a trabalhar, opera Deus tanto na alma e faz-lhe tantas mercês, que tudo lhe parece pouco quanto se possa fazer nesta vida. E, pois que nós, freiras, fazemos o mais, que é dar a nossa liberdade por amor de Deus, pondo-a em poder de outrem e passam-se tantos trabalhos, jejuns, silêncio, encerramento, assistência ao coro, que por muito que nos queiramos regalar, é alguma vez, e porventura tenha sido só eu em muitos conventos que tenho visto, porque não iremos, pois, mortificando o interior, se nisso está o tornar tudo isto muito mais meritó rio e perfeito, e depois realizá-lo com muito mais suavidade e descanso? Isto se adquire indo, - como disse - pouco a pouco, contrafazendo a nossa vontade e apetites ainda em coisas pequenas, até acabar de render o corpo ao espírito.

2. Torno a dizer que consiste tudo, ou grande parte, em perder o cuidado de nós mesmos e das nossas comodidades, pois, quem de verdade começa a servir ao Senhor, o menos que Lhe pode oferecer, é a vida. Se já lhe deu a sua vontade, que teme? Claro está que, se é verdadeiro religioso ou homem de oração e pretende gozar favores de Deus, não há-de voltar costas ao desejo de morrer por Ele e sofrer martírio. Pois não sabeis, irmãs, que a vida do bom religioso, que quer ser dos amigos mais chegados de Deus é um longo martírio? Longo, porque, para comparar aos que de pronto eram degolados, pode-se chamar longo; mas toda a vida é curta e algumas curtíssimas. E que sabemos nós se a teremos tão curta, que na hora ou momento em que nos determinamos a servir de todo a Deus, logo se acaba? Seria possível; enfim, de tudo o que tem fim, não se deve fazer caso; e pensando que cada hora é a derradeira, quem não há-de trabalhar? Pois, acreditai-me, que pensar isto é o mais seguro.

3. Por isso, esforcemo-nos a contradizer em tudo a nossa vontade; que se tendes esse cuidado, como disse, pouco a pouco, sem saber como, achar-vos-eis no cume. Mas, que grande rigor parece este dizer que não tomemos prazerem nada, porque não se dizem os gostos e deleites que traz consigo esta contradição e o que se ganha com ela ainda mesmo nesta vida! Que segurança! Aqui, como todas o fazeis, o pior está feito; umas às outras se despertam e ajudam. Nisto há-de cada uma procurar ir à frente das outras.

4. Nos movimentos interiores tenha-se muito cuidado, em especial no que toca a primazias. Deus nos livre, por Sua Paixão, de dizer, nem mesmo de pensar, detendo-nos nisso, «se sou mais antiga», «se tenho mais anos», «se tenho trabalhado mais», « se tratam a outra melhor». Estes pensamentos se vierem, é mister atalhá-los com presteza; que, se se demoram neles, ou os põem em prática, é pestilência e daí nascem grandes males. Se tiverem prioresa que consinta coisas destas, por pouco que seja, creiam que, por vossos pecados, permitiu Deus que a tivessem para começarem a perder-se e façam muita oração para que dê remédio, porque estão em grande perigo.

5.Poderá ser que digam, «por que ponho tanto empenho nisto» e «estou com tanto rigor»; «que Deus faz mercês a quem não está tão desprendido». Eu creio que, com Sua sabedoria infinita, vê que assim convém para levá-los a deixarem tudo por Ele. Não chamo «deixar tudo», o entrar na vida religiosa; que pode haver impedimentos e em qualquer parte a alma perfeita pode ser desprendida e humilde, embora com mais trabalho, que grande coisa são os meios da vida religiosa. Mas creiam-me numa coisa: se há ponto de honra ou de fazenda (e isto também pode havê-lo nos conventos como fora, ainda que mais afastadas estão aqui das ocasiões e maior seria a culpa), embora tenham anos de oração (ou, para melhor dizer, de consideração porque, enfim, a oração perfeita acaba com estes ressaibos), nunca hão-de medrar muito nem chegar a gozar do verdadeiro fruto da oração.

6. Vede se vos toca nisto alguma coisa, irmãs, porque não estais aqui para outra coisa. Não ficareis mais honradas, e o proveito perdido para o que poderíeis mais ganhar. Assim, desonra e prejuízo cabem aqui juntos.

Cada uma veja em si o que tem de humildade e verá o que tem aproveitado. Parece-me que, ao verdadeiro humilde, até do primeiro movimento não ousará o demónio tentá-lo em coisa de primazias; porque, como é tão sagaz, teme o golpe. É impossível, se alguém for humilde, que não ganhe mais fortaleza nesta virtude e aproveitamento se o demónio o tentar por aí; porque é claro que há-de dar voltas à sua vida passada, e comparar o que tem servido ao Senhor com o que Lhe deve e as grandezas que Ele nos fez em se abaixar a Si para nos deixar exemplo de humildade; e olhar nossos pecados e onde merecíamos estar por causa deles. Sai a alma com tanto ganho, que o demónio não ousa voltar outro dia, para não se ir de cabeça quebrada.

7. Tomai de mim este conselho e não o esqueçais: não só no interior (que seria grande mal não ficar com ganho), mas no exterior procurai que as irmãs o tirem também da vossa tentação. Se quereis vingar-vos do demónio e livrar-vos mais depressa da tentação, mal ela vos venha, pedi à prelada que vos mande fazer algum serviço humilde ou, como puderdes, o façais vós mesmas e andai estudando a maneira de dobrar a vossa vontade em coisas contrárias, que o Senhor vo-las descobrirá, e com isto durará pouco a tentação.v Deus nos livre de pessoas que O querem servir a lembrarem-se da honra. Olhai que é fraco lucro e, como disse, a mesma honra se perde com desejá-la, em especial em primazias, pois não há veneno no mundo que assim mate a perfeição, como estas coisas.

8.Direis «que são coisas naturais que não há que fazer caso». Não vos enganeis com isto; cresce como espuma, e não há coisa pequena em perigo tão notório, como são estes pontos de honra e olhar a se nos fizeram agravo. Sabeis porquê, sem muitas outras razões? Porventura, numa começa por um pouco e é mesmo um quase nada. Mas logo o demónio move uma outra a parecer-lhe que foi muito e pensará até que é caridade dizer-lhe como consente esse agravo; que Deus lhe dê paciência; que Lho ofereça; que um santo não sofreria mais. Procura seduzi-Ia adulando, de modo a que, embora acabeis por aceitar sofrer, ficais ainda tentada de vanglória de não ter sofrido com a perfeição com que se devia sofrer.

9. É esta natureza tão fraca que, ainda mesmo dizendo-nos a nós mesmas que não há motivos para sofrermos, pensamos que fizemos algo e o sentimos, quanto mais vendo que o sentem por nós. Assim vai a alma perdendo as ocasiões que tinha tido para merecer e fica mais fraca e aberta a porta ao demónio, para que outra vez venha dizer que sois tola, pois é bem que se sintam estas coisas. Oh! por amor de Deus, irmãs minhas!: que a nenhuma a mova caridade indiscreta para mostrar pena de outra em coisas que toquem estes falsos agravos. É como a que tiveram os amigos do santo Job com ele, e sua mulher.

CAPÍTULO 13. Prossegue na mesma matéria da mortificação e como se há-de fugir dos pontos de honra e das razões do mundo para chegar à verdadeira razão.

1. Muitas vezes vo-lo digo, irmãs, e agora quero-o deixar aqui escrito, para que não vos esqueçais de que, nesta casa, e até mesmo toda a pessoa que quiser ser perfeita, fuja a mil léguas de: «tive razão», «fizeram-mo sem razão», «não teve razão quem isto fez comigo»... De más razões livre-nos Deus. Parece que haveria razão para que o nosso bom Jesus sofresse tantas injúrias e Lhas fizessem, e tantas injustiças? A que não quiser carregar a cruz, senão a que lhe derem muito assente em razão, não sei para que está no convento; volte para o mundo, e ainda aí lhe não guardarão essas razões. Porventura podeis sofrer tanto, que não fiqueis a dever nada? Que razão é esta? Por certo, eu não a entendo.

2. Quando vos fizerem alguma honra, ou mercê ou bom tratamento, venham então essas razões, que certamente é contra a razão o fazerem-nos isto nesta vida. Mas, quando agravos - que assim os nomeiam sem nos fazerem agravo -, eu não sei que haja a dizer. Ou somos esposas de tão grande Rei, ou não. Se o somos, que mulher honrada haverá que não participe das desonras feitas a seu esposo? Ainda que o não queira por sua própria vontade, enfim, de honra ou desonra participam ambos. Pois, ter parte no Seu reino e dele gozar, e nas desonras e trabalhos querer ficar sem nenhuma parte, é disparate.

3. Que Deus não nos deixe querer isto, mas, aquela a quem lhe parecer que entre todas é tida em menos, considere-se a mais feliz; e assim é, se o souber levar como deve, que não lhe faltará honra nesta vida nem na outra. Acreditai-me nisto. Mas que disparate eu dizer que creiam em mim, dizendo-o a verdadeira Sabedoria!

Pareçamo-nos, filhas minhas, nalguma coisa com a grande humildade da Virgem Sacratíssima, cujo hábito trazemos, pois é confusão chamarmo-nos freiras suas; que, por muito que nos pareça que nos humilhamos, ficamos bem longe de ser filhas de tal Mãe e esposas de tal Esposo.

Assim que, se as ditas coisas se não atalham com diligência, o que hoje não parece nada, amanhã será porventura pecado venial; e é de tão má digestão que, se não tiverdes cuidado, não ficará só por aí: é coisa muito má em Congregações.

4. A isto deveríamos atender muito, nós as que vivemos nelas, para não causar dano às que trabalham por nos fazer bem e nos dar bom exemplo. E se entendêssemos o grande dano que se faz em dar começo a um mau costume, antes quereríamos morrer do que ser causa dele;- porque é morte corporal, e perdas nas almas é grande perca, que parece não se acaba de perder; porque, mortas umas, vêm outras, e a todas cabe, porventura, mais parte num mau costume que pusemos, que em muitas virtudes; porque o demónio não o deixa decair e, as virtudes, a própria fraqueza natural as faz perder.

5. Oh! que grandíssima caridade faria e que grande serviço a Deus, a freira que, se em si visse que não pode seguir os costumes que há nesta casa, o reconhecesse e se fosse! E olhe que é o que lhe cumpre fazer, se não quer ter um inferno cá na terra; e praza a Deus não tenha depois outro, porque há muitas razões para temer isto, e, porventura, nem ela nem as demais o entenderão como eu.

6. Crede-me nisto e, se não, dou-vos o tempo por testemunha. Porque o estilo que pretendemos levar não é só o de ser monjas, mas eremitas; assim nos desprendemos de todas as coisas, e a quem o Senhor tem escolhido particularmente para aqui, vejo que lhe faz esta mercê. Ainda que não seja logo com toda a perfeição, vê-se que já vai nela pelo grande contentamento e alegria que lhe dá o ver que não há-de voltar a tratar de coisas da vida, e o gosto que tem em todas as da Religião.

Torno a dizer que, se se inclina a coisas do mundo, se não vê que vai aproveitando, que se vá; e, se todavia quer ser freira, que vá para outro convento e, se não, verá o que lhe sucede. Não se queixe de mim, que comecei este, por não a ter avisado.

7. Esta casa é um Céu, se o pode haver nesta terra, para quem se contenta só de contentar a Deus e não faz caso do seu próprio contentamento; leva-se muita boa vida. Em querendo mais alguma coisa, perderá tudo, porque não a pode ter; e alma descontente, é como quem tem grande fastio que, por bom que seja o manjar, causa-lhe enjoo; e o que os sãos comem com grande gosto, causa-lhe asco no estômago. Noutro lugar salvar-se-á melhor, e poderá ser que, pouco a pouco, chegue à perfeição, que não pode aqui aguentar por se tomar tudo por junto. Porque, embora no interior se dê tempo para de todo se desapegar e mortificar, no exterior há-de ser logo. E quem não aproveita em um ano, vendo que todos o fazem e andando sempre em tão boa companhia, temo que em muitos não aproveitará mais, senão menos. Não digo que seja tão completamente como nas outras, mas que se entenda que vai cobrando saúde, pois logo se vê quando o mal é mortal.

CAPÍTULO 14. Trata do muito que importa não dar a profissão a nenhuma cujo espírito vá contra as coisas que ficam ditas.

1. Creio bem que o Senhor favorece muito a quem bem se determina e, por isso, se há-de ver que intenção tem a que entra; não seja só para se remediar (como acontecerá a muitas), posto que o Senhor pode aperfeiçoar este intento se é pessoa de bom entendimento, porque, se não o é, de nenhuma maneira se aceite, pois nem ela entenderá porque entra, nem depois entenderá as que a quiserem levar a mais perfeição. Porque, a maior parte das vezes, aquelas que têm esta falta, sempre lhes parece que atinam melhor no que lhes convém do que os mais sábios; e é mal que tenho por incurável, porque, só por milagre, deixa de trazer consigo malícia. Onde houver muitas, poder-se-á tolerar, mas entre tão poucas, não se poderá sofrer.

2. Um bom entendimento, se se começa a afeiçoar ao bem, apega-se a ele com fortaleza, pois vê que é o mais acertado; e, quando não aproveita para muito espírito, aproveitará para bom conselho e para muita coisa, sem ser pesada a ninguém. Quando isto falta, não sei em que possa aproveitar à Comunidade e poderia causar muito dano.

Esta falta não se vê logo ao princípio, porque muitas falam bem e entendem mal, e outras falam pouco e sem muita correcção, mas têm entendimento para muita perfeição. Porque há umas simplicidades santas que sabem pouco de negócios e estilo do mundo e muito para tratar com Deus. Por isso, é mister sérias informações para as receber e muita provação para as deixar professar. Entenda por uma vez o mundo que tendes liberdade para as despedir e que, em convento onde há tanta aspereza, muitas ocasiões haverá, e, como isto seja uso, não o considerarão ofensa.

3. Digo isto, porque são tão desventurados estes tempos e tanta a nossa fraqueza, que não basta tê-lo por preceito de nossos antepassados, para que deixemos de olhar aquilo que os presentes têm por honra, para não ofender os parentes. Praza a Deus não o paguemos na outra vida as que as admitimos, pois nunca falta pretexto para dar a entender que se pode fazê-lo.

4. E este é um negócio que cada uma, de per si, o havia de considerar e encomendar a Deus e animar a prelada, pois é coisa que tanto importa. E assim, suplico a Deus que nisto vos dê luz, que grande bem tendes em não receber dotes, porque, onde se tomam, poderia acontecer que, para não tornar a dar o dinheiro que já não têm, deixem o ladrão em casa para que lhes roube o tesouro, que não é pequena lástima. Vós, neste caso, não tenhais pena de ninguém, porque será causar dano a quem pretendeis fazer bem.

CAPÍTULO 15. Trata do grande bem que há em não se desculpar, ainda que se vejam condenar sem culpa.

1. Grande confusão me faz o que vos vou persuadir, porque deveria ter praticado, pelo menos alguma coisa do que vos digo nesta virtude; é assim que eu confesso ter aproveitado muito pouco. Nunca, ao que me parece, me falta motivo para me parecer maior virtude o desculpar-me. Como algumas vezes é lícito e seria mal não o fazer, não tenho discrição - ou, para melhor dizer, humildade - para o fazer quando convém. Porque, verdadeiramente, é de grande humildade ver-se condenar sem culpa e calar, e é perfeita imitação do Senhor que tomou sobre Si todas as culpas. E assim, rogo-vos para terdes nisto grande cuidado, porque traz consigo grandes lucros, e em procurarmos nós mesmas livrar-nos de culpa, não vejo nenhum, a não ser - como digo - nalgum caso em que poderia causar agravo ou escândalo não dizer a verdade. Isto, quem tiver mais discrição do que eu, o entenderá.

2. Creio que vai muito em se acostumar a esta virtude, ou em procurar alcançar do Senhor verdadeira humildade, que daqui deve vir; porque o verdadeiro humilde há-de desejar, de verdade, ser tido em pouco, e perseguido e condenado sem culpa, mesmo em coisas graves. Porque, se quer imitar o Senhor, em que melhor o pode do que nisto? Pois aqui não são necessárias forças corporais nem ajuda de ninguém, senão de Deus.

3. Estas grandes virtudes, minhas irmãs, quereria eu estudássemos muito e fossem a nossa penitência, que em demasiadas penitências já sabeis vos vou à mão, porque podem fazer mal à saúde, se são sem discrição. Aqui, porém, não há que temer, porque, por grandes que sejam as virtudes interiores, não tiram as forças do corpo para servir a Religião, senão que fortalecem a alma; e em coisas muito pequenas - como tenho dito de outras vezes - se podem acostumar para sair vitoriosas nas grandes. Nestas, não tenho eu podido fazer esta prova, porque nunca ouvi dizer coisas más a meu respeito que não visse que ficavam aquém: porque, embora não fosse nas mesmas coisas, tinha ofendido a Deus em outras muitas e parecia-me que tinham feito muito em deixar aquelas, e sempre me alegro mais que digam de mim o que não é, do que as verdades.

4. Ajuda muito a consideração do que se ganha nisto por todas as vias e como nunca - bem vistas as coisas -, nos culpam sem razão, pois o justo cai sete vezes ao dia e seria mentira dizer que não temos pecado. Assim, pois, ainda que não seja naquilo em que nos culpam, nunca estamos totalmente sem culpa, como estava o bom Jesus.

5. Ó Senhor meu! quando penso de quantas maneiras padecestes, e que de nenhuma o merecíeis, não sei o que diga de mim, nem onde tinha o siso quando não desejava padecer, nem onde estou quando me desculpo. Já Vós sabeis, meu Bem, que, se tenho algum bem, não é dado por outras mãos senão pelas Vossas. Pois, que se Vos dá, Senhor, em antes dar muito do que dar pouco? Se é por eu não o merecer, tão-pouco merecia as graças que me tendes feito. E será possível que haja eu de querer que alguém faça bom conceito de coisa tão má, tendo-se dito tanto mal de Vós, que sois o bem sobre todos os bens? Não, não se pode sofrer, Deus meu - nem quisera eu sofrêsseis Vós - que haja em Vossa serva coisa que não contente os Vossos olhos. Pois olhai, Senhor, que os meus estão cegos e se contentam com muito pouco. Dai-me Vós a luz e fazei que, com verdade, deseje que todos me aborreçam, pois tantas vezes Vos tenho deixado a Vós, que me amais com tanta fidelidade!

6.Que é isto, meu Deus? Que lucro pensamos tirar em contentar as criaturas? Que se nos dá de ser muito culpadas por todas elas, se diante do Senhor estamos sem culpa? Ó minhas irmãs, nunca acabamos de entender esta verdade, e assim nunca acabaremos de chegar à perfeição, se não andamos considerando muito e pensando o que ela é e não é!

Pois, embora não houvesse outro lucro senão a confusão que ficará à pessoa que vos tiver culpado, ao ver que vós, sem culpa, vos deixais condenar, isso já seria bem grande; porque, às vezes, uma coisa destas mais levanta uma alma do que dez sermões. E todas devemos procurar ser pregadoras por obras, pois o Apóstolo e a nossa inaptidão nos impedem que o sejamos nas palavras.

7. Nunca penseis que há-de ficar oculto o mal ou o bem que fizerdes, por encerradas que estejais. E pensais, filhas, que ainda que vós não vos desculpeis, há-de faltar quem tome a vossa defesa? Vede como respondeu o Senhor pela Madalena em casa do Fariseu, quando sua irmã a culpava. Não vos levará pelo rigor como fez consigo mesmo, pois, quando teve um ladrão a tomar a Sua defesa, estava já pregado na cruz. Assim, Sua Majestade moverá a quem a tome por vós, e, quando não, é que não será necessário. Isto o tenho eu visto e é assim, ainda que não quisera que isto se vos recordasse, mas antes folgásseis de ficar culpadas. E, do proveito que vereis em vossa alma, o tempo vos dou por testemunha. Porque se começa a ganhar liberdade e tanto se vos dará que digam mal ou bem de vós, antes parece ser negócio alheio. É como quando estão a falar duas pessoas e, como não é connosco, estamos descuidadas da resposta. Assim aqui, com o costume que tomámos em não dar resposta, dir-se-ia que não falam connosco.

Parecerá isto impossível aos que somos muito sensíveis e pouco mortificados. A princípio, é dificultoso; mas eu sei que se pode alcançar esta liberdade, negação e desprendimento de nós mesmos, com o favor do Senhor.

CAPÍTULO 16. Da diferença que deve haver entre a perfeição da vida dos contemplativos e dos que se contentam com oração mental, e como é possível algumas vezes Deus subir uma alma distraída à perfeita contemplação e a causa disto. É muito de ter em conta este capítulo e o que lhe segue.

1. E não vos pareça muito tudo isto, pois vou entabulando o jogo, como dizem. Pedistes-me que vos dissesse os princípios da oração; e eu, filhas, ainda que Deus não me levou por este princípio, porque nem mesmo o devo ter destas virtudes, não sei outro. Pois crede que, quem não sabe colocar as peças no jogo do xadrez, mal saberá jogar; e, se não souber dar xeque, não saberá dar mate. Assim me havíeis de repreender pois falo em coisas de jogo, não havendo jogos nesta casa, nem os podendo haver. Por aqui vereis a madre que Deus vos deu, que até esta vaidade sabia; mas dizem que é licito algumas vezes. E quão lícita será para nós esta maneira de jogar, e quão depressa, se muito a usarmos, daremos xeque-mate a este Rei divino que não poderá escapar-nos das mãos, nem quererá!

2. A dama é a que mais guerra Lhe pode fazer neste jogo e todas as outras peças ajudam. Não há dama que assim O force a render-se como a humildade. Esta trouxe-o do Céu no seio da Virgem; e também por ela O traremos preso por um fio de cabelo às nossa almas. E crede: quem maior a tiver, mais O possuirá, e quem menos, menos. Porque não posso entender como haja nem possa haver humildade sem amor nem amor sem humildade, nem é possível haver estas duas virtudes sem grande desapego de todas as coisas.

3. Direis, minhas filhas, «para que vos falo em virtudes, quando tendes tantos livros que vo-las ensinam e não quereis senão contemplação». - Digo que, se pedísseis meditação ainda pudera falar-vos dela e aconselhar a todos que a tivessem, ainda mesmo que não tenham virtudes; porque é princípio para alcançar todas as virtudes e coisa em que o começá-la nos vai a vida, a todos nós os cristãos, e nenhum, por perdido que esteja, se Deus o desperta para tão grande bem, havia de a deixar, como já escrevi noutro lugar,s e outros muitos o têm feito, pois sabem o que escrevem; eu, por certo, não sei. Deus bem o sabe.

4. Mas contemplação é outra coisa, filhas, que este é o engano que todos temos, pois, em chegando alguém a pensar uns momentos cada dia em seus pecados (a isso está obrigado, se é cristão mais que de nome), dizem que é muito contemplativo; e logo o querem com tão grandes virtudes, como está obrigado a tê-làs o muito contemplativo, e até ele assim o quer, mas está errado. Nos princípios não soube entabular o jogo; pensou que bastava conhecer as peças para dar mate, e é impossível, pois este Rei não se dá, senão a quem se dá de todo a Ele.

5. Assim pois, filhas, se quereis que vos diga o caminho para chegar à contemplação, sofrei que me alongue um pouco em coisas que, embora à primeira vista não vos pareçam muito importantes, todavia, a meu parecer, não o deixam de ser. E, se não as quereis ouvir nem pôr por obra, ficai-vos com a vossa oração mental toda a vossa vida, que eu vos asseguro e a todas as pessoas que pretenderem este bem (e bem pode ser que me engane, porque julgo por mim que o procurei vinte anos), que não chegareis à verdadeira contemplação.

6. Quero agora declarar - porque algumas de vós não o entendereis - o que é oração mental; e praza a Deus que tenhamos esta como se deve ter. Mas também tenho medo que se tenha com muito trabalho se não se procuram ter as virtudes, ainda que não são precisas em tão alto grau como para a contemplação. Digo que não virá o Rei da Glória à nossa alma - a estar unido com ela -, se não nos esforçarmos por ganhar as grandes virtudes. Quero-o declarar, porque, se me apanhardes nalguma coisa que não seja verdade, não acreditareis nada, e teríeis razão se fosse com advertência, mas não me dê Deus lugar a tal; será por não saber mais ou não o entender. Quero, pois, dizer que, algumas vezes, quererá Deus fazer tão grande favor a pessoas que estejam em mau estado para as tirar, por este meio, das mãos do demónio.

7. Ó Senhor meu, quantas vezes Vos fazemos andar a braços com o demónio! Não bastou que Vos deixásseis tomar neles quando Vos levou ao pináculo, para nos ensínardes a vencê-lo? Mas, que seria, filhas, ver aquele Sol junto com as trevas e que temor não levaria aquele desventurado sem saber de quê, pois Deus não permitiu o entendesse! Bendita seja tanta piedade e misericórdia; que vergonha deveríamos ter os cristãos, de O fazer andar cada dia a braços com tão suja besta. Bem preciso foi, Senhor, que os tivésseis tão fortes; mas, como não Vos ficaram eles fracos de tantos tormentos que passastes na cruz? Oh! que tudo o que se sofre com amor torna a curar-se! E assim creio que, se ficásseis com vida, o mesmo amor que nos tínheis, tornaria a soldar Vossas chagas, e não seria mister outra medicina. O Deus meu! E quem tal a pusesse em todas as coisas que me dessem pena e trabalhos! Que de boa vontade as desejaria se tivesse por certo ser curada com tão salutar unguento!

8. Voltando ao que dizia, há almas que Deus entende que, por este meio, as pode granjear para Si. Já que as vê de todo perdidas, quer Sua Majestade que de Sua parte nada falte; e, ainda que estejam em mau estado e falhas de virtudes, dá-lhes gostos, regalos e ternura que começam a mover-lhe os desejos e até a pô-las algumas vezes em contemplação, ainda que poucas e dura pouco. E faz isto, como digo, porque as prova para ver se, com aquele favor, elas se querem dispor para O gozar muitas vezes. Mas, se não se dispõem, perdoem - ou, para melhor dizer, perdoai-nos Vós, Senhor - que grande mal é que Vos chegueis Vós a uma alma desta sorte e ela se achegue depois a coisa da terra para se apegar a ela.

9. Tenho para mim que há muitos a quem Deus Nosso Senhor faz essa prova e poucos os que se dispõem para gozar desta mercê. Pois, quando O Senhor a faz e nós não faltamos, tenho por certo que nunca cessa de dar até chegar a muito alto grau. Quando não nos damos a Sua Majestade com a determinação com que Ele se dá a nós, muito faz em nos deixarem oração mental e de nos visitar, de quando em quando, como criados que trabalham em Sua vinha. Mas estoutros são filhos queridos, não os quereria afastar de ao pé de Si; nem os afasta, porque já eles não se querem afastar; senta-os à Sua mesa, dá-lhes do mesmo que come, até tirar o bocado da boca para lho dar.

10. Oh! Ditoso cuidado, filhas minhas! Oh! Bem-aventurada renúncia de coisas tão pequenas e tão baixas que leva a tão alto estado! Vede o que se vos dará, estando nos braços de Deus, que vos culpe todo o mundo! Poderoso é para livrar-vos de tudo; uma vez que quis fazer o mundo, mandou e foi feito: Seu querer é operar. Pois não tenhais medo que, se não for para maior bem daquele que O ama, consinta que outros falem contra vós; não quer pouco a quem Lhe quer. Pois, porquê minhas irmãs, não Lhe mostraremos nós, tanto quanto pudermos, o nosso amor? Olhai que bela troca dar o nosso amor pelo Seu; vede que Ele pode tudo, e aqui não pudemos nada senão o que Ele nos faz poder. Pois, que é isto que fazemos por Vós, Senhor, nosso Fazedor? É tanto como nada, uma determinaçãozita. Pois se, pelo que não é nada, quer Sua Majestade que mereçamos o Tudo, não sejamos desatinadas.

11. Ó Senhor! Que todo o dano nos vem de não ter os olhos postos em Vós, que, se não olhássemos a outra coisa senão o caminho, depressa chegaríamos; mas damos mil quedas e tropeçamos e erramos o caminho por não pôr os olhos, como digo, no verdadeiro caminho. Parece que nunca se andou por ele, tanto se nos faz novo. É coisa para se lastimar, por certo, o que algumas vezes se passa.

Pois, tocar-se numa pontinha de se ser tido em menos, não se suporta, nem parece que se possa suportar; logo dizem: «não somos santos!».

12. Deus nos livre, irmãs, quando fizermos alguma coisa imperfeita, de dizer: «não somos anjos», «não somos santas». Olhai que, embora o não sejamos, é grande bem pensar que, se nos esforçamos, o poderemos ser, dando-nos Deus a mão; e não tenhais medo que falhe por Ele, se não falharmos nós. E porque não viemos aqui a outra coisa, mãos à obra, como dizem; não vejamos coisa em que se sirva mais ao Senhor que não presumamos sair bem dela, com o Seu favor. Esta presunção quereria eu nesta casa, porque faz sempre crescer a humildade: ter uma santa ousadia, pois Deus ajuda aos fortes e não faz acepção de pessoas.

13. Muito me tenho desviado do assunto; quero voltar ao que dizia,` que é declarar o que é oração mental e contemplação. Impertinente parece, mas para vós tudo passa; e poderá ser que o entendais melhor no meu grosseiro estilo, do que noutros elegantes. O Senhor me dê o Seu favor para isto, amen.

CAPÍTULO 17. De como nem todas as almas são para a contemplação e como algumas chegam ela tarde e que o verdadeiro humilde há-de ir contente pelo caminho por onde levar o Senhor.

1. Parece que vou entrando na oração, mas falta-me um pouco por dizer que importa muito, porque é da humildade e é necessário nesta casa; porque é o exercício principal da oração e, como disse, importa muito qu trateis de entender como exercitar-vos na humildade. E este é um pont muito importante dela e muito necessário para todas as pessoas que se exei citam na oração. Como poderá o verdadeiro humilde pensar que é tão boi como os que chegam a ser contemplativos? Que Deus o pode fazer ta sim, por Sua bondade e misericórdia. Mas, a meu conselho, ponha-se sempre no lugar mais baixo, que assim nos disse o Senhor o fizéssemos e no-lo ensinou por obra.; Disponha-se para ir por esse caminho, se Deus o quis levar por ele. Quando Ele não o quiser, para isso é a humildade; e cada uir de vós- tenha-se por ditosa em servir as servas do Senhor e louva-lO porque, merecendo ser serva dos demónios no inferno, a trouxe Sua Maje tade para junto delas.

2. Não digo isto sem grande causa, porque, como tenho dito, é coisa que importa muito entender que Deus não leva a todos por um só caminho e, porventura, aquele a quem parecer que vai por um muito mais baixo, es mais alto aos olhos do Senhor.

Assim, nem porque nesta casa todas tratem de oração, hão-de ser todas contemplativas. É impossível. E será grande desconsolo para a que não é, não entender esta verdade, que isto é coisa dada por Deus. E, pois não é necessária à salvação, nem Ele no-la pede, não pense que lha exigirá alguém; e não deixará de ser por isso muito perfeita, se fizer o que fica dito: até poderá ser que tenha muito mais mérito por isso ser com mais trabalho seu, e a leva o Senhor como a forte e tem-lhe guardado, para lhe dar por junto, tudo o que não goza aqui. Não esmoreça por isso, nem deixe a oração e de fazer o mesmo que todas, que, às vezes, vem o Senhor muito tarde e paga tão bem e tão por junto, como em muitos anos tem dado a outros.

3. Eu estive mais de catorze que não podia ter nem mesmo meditação sem recorrer à leitura. Haverá muitas pessoas deste teor, e outras que, embora seja com leitura, não podem ter meditação, senão só rezar vocalmente, e nisto se detêm mais. Há pensamentos tão ligeiros, que não se podem fixar numa coisa, mas sempre desassossegados, e em tal extremo que, se querem detê-lo a pensar em Deus, se lhes vai a mil disparates e escrúpulos e dúvidas.

Eu conheço uma pessoa bem idosa, de vida muito boa, penitente e muito serva de Deus, e emprega muitas horas, há muitos anos, em oração vocal, e na mental não há remédio; quando mais pode, pouco a pouco, vai-se detendo nas orações vocais. E outras muitas pessoas há deste género e, se têm humildade, não creio que no fim fiquem pior servidas, senão muito a par das que têm muitos gostos; e, em parte, com mais segurança, porque não sabemos se os gostos são de Deus ou se os põe o demónio. E se não são de Deus, é maior o perigo, porque, o que o demónio aqui procura, é incutir soberba; mas, se são de Deus, não há que temer; consigo trazem humildade, como escrevi largamente no outro livro.

4. Estes outros andam com humildade e suspeitosos de que seja por sua culpa, sempre com cuidado de ir adiante. Não vêem a outros chorar uma lágrima, se as não têm, que não lhes pareça estar muito atrás no serviço de Deus, e devem estar, porventura, muito mais adiante; porque as lágrimas, ainda que boas, não são todas perfeitas; e na humildade, mortificação, desapego e noutras virtudes, sempre há mais segurança. Não há que temer, nem tenhais medo que deixeis de chegar à perfeição como os muito contemplativos.

5. Santa era santa Marta, e não dizem que fosse contemplativa. Pois, que mais quereis do que chegar a ser como esta bem-aventurada, que mereceu ter a Cristo Nosso Senhor tantas vezes em sua casa e dar-Lhe de comer e servi-lO e comer com Ele à sua mesa? Se se ficasse como a Madalena, embevecida, não teria havido quem desse de comer a este divino Hóspede. Pois pensai que esta Congregação é a casa de Santa Marta e que há-de haver de tudo. As que forem levadas pela vida activa, não murmurem das que se embeberem na contemplação, pois sabem que, ainda que elas se calem, o Senhor há-de tomar-lhes a defesa, pois, pela maior parte, as faz descuidar de si e de tudo.

6. Lembrem-se que é necessário haver quem Lhe guise a comida, e tenham-se por ditosas de O andar a servir como Marta. Olhem que a verdadeira humildade consiste, em grande parte, em estar muito pronto em se contentar com o que o Senhor quiser fazer de cada um de nós, achando-nos sempre indignos de nos chamarmos Seus servos. Pois, se contemplar e ter oração mental e vocal, e cuidar dos enfermos, e servir nas coisas de casa e trabalhar, - mesmo no mais humilde -, se tudo é servir o Hóspede que vem estar, comer e recrear-se connosco, que mais se nos dá que seja nisto ou naquilo?

7. Não digo que falhe pela nossa parte, mas que vos exerciteis em tudo, porque não está isto no vosso escolher, senão no do Senhor; mas, se depois de muitos anos, quiser a cada uma para seu ofício, bonita humildade seria quererdes escolher! Deixai o Senhor da casa fazer o que quiser: sábio é Ele e poderoso e entende o que nos convém e o que Lhe convém a Ele também. Estai certas que, fazendo o que está da vossa parte, e preparando-vos para a contemplação com a perfeição que fica dita, se Ele não vo-la dá (e creio não deixará de dar, se é verdadeiro o desapego e a humildade), é que vos tem guardado este regalo para vo-lo dar por junto no Céu, e - como já disse de outra vez - quer levar-vos como a fortes, dando-vos a cruz, como Sua Majestade sempre aqui teve. E que maior amizade do que querer para vós o que quis para Si? E poderia ser que não tivésseis tão grande prémio na contemplação. São juízos seus, não há para que nos metermos neles. Grande bem é que não fique à nossa escolha, pois logo -como nos parece de mais descanso - seríamos todos grandes contemplatívos.

Oh! Grande ganho não querer ganhar segundo o nosso parecer para não temer perda, pois nunca Deus permite que a tenha o bem mortificado, se não para ganhar mais!

CAPÍTULO 18. Prossegue na mesma matéria e diz quanto maiores são os trabalhos dos contemplativos do que os dos activos. É de grande consolação para eles.

1. Pois eu vos digo, filhas, àquelas a quem Deus não leva por este caminho de contemplação, ao que tenho visto e entendido dos que vão por ele, que não levam cruz mais leve e vos admiraríeis das vias e modos pelas quais Deus lhas dá. Eu sei de uns e de outros, e sei claramente que são intoleráveis os trabalhos que Deus dá aos contemplativos; e são de tal sorte que, se não lhes desse aquele manjar de gostos, não se poderiam sofrer. E claro está que, pois aqueles a quem Deus muito quer leva por caminhos de trabalhos, e quanto mais os ama, maiores eles são, não há razão para crer que aborreça os contemplativos, pois por Sua boca os louva e tem por amigos.

2. Pois, crer que admite à Sua estreita amizade gente regalada e sem trabalhos, é disparate. Tenho por muito certo que Deus lhos dá muito maiores. E assim como os leva por caminho barrancoso e áspero e, por vezes, até lhes parece que vão perdidos e que têm de começar de novo e tomá-lo a andar, Sua Majestade tem o cuidado de lhes dar mantimento, e não de água, mas de vinho, para que, embriagados, não entendam o que passam e o possam sofrer. E assim vejo poucos verdadeiros contemplativos que os não veja animosos e determinados a padecer; que, a primeira coisa que o Senhor faz, se são fracos, é incutir-lhes ânimo e fazer com que não tenham trabalhos.

3. Creio que pensam os da vida activa, por um nadinha que os vejam regalados, que não há senão aquilo. Pois eu digo que um dia do que eles passam não o poderíeis porventura suportar. Assim o Senhor, como conhece a todos para o que são, dá a cada um o seu ofício, o que vê mais convir à sua alma, ao mesmo Senhor e ao bem dos próximos; e, como nãt falhe por não vos terdes disposto, não tenhais medo que se perca o vosso trabalho. Olhai que digo que todas o procuremos, pois não estamos aqui para outra coisa; e não só um ano, nem dois, nem mesmo dez, para que não pareça que o deixamos por ser cobardes, e é bem que o Senhor entenda que não é por nossa parte que se falha; sejamos como soldados, que, embora muito tenham servido, sempre hão-de estar a postos para que o capitão os mande para qualquer ofício em que os queira pôr, pois lhes dará o seu soldo. E, quanto melhor paga dá o nosso Rei, de que os da terra!

4. Como vê que estão presentes e com vontade de servir e tem já entendido para o que é cada um, reparte os ofícios conforme as forças que lhes vê; e se não estivessem presentes, não lhes daria nada em que O servissem.

Assim, pois, irmãs, oração mental; quem isto não puder, vocal e leitura e colóquios com Deus, como depois direi. Não se deixem as horas de oração que todas têm. Não se sabe quando chamará o Esposo (não vos aconteça como às virgens loucas), e se lhes quererá dar mais trabalhos disfarçados com gostos. E se não, entendam que não são para isto e que lhes convém aquilo; aqui entra o merecer com humildade, crendo com verdade, que até nem mesmo são para o que fazem.

5. Andai alegres, servindo no que lhes mandam, como tenho dito; e se é verdadeira esta humildade, bem-aventurada tal serva da vida activa, que não murmurará senão de si mesma. Deixe as outras com sua guerra que não é pequena. Porque, embora nas batalhas o alferes não peleje, nem por isso deixa de estarem grande perigo, e no interior deve trabalhar mais que todos; porque, como leva a bandeira, não se pode defender, e ainda que o façam em pedaços não a há-de largar das mãos. Assim, os contemplativos hão-de levar alevantada a bandeira da humildade e sofrer quantos golpes lhes derem, sem dar nenhum; porque o seu ofício é padecer como Cristo, levar alçada a cruz, não a largar das mãos, por mais perigos em que se vejam, nem mostrar fraqueza no padecer; por isso lhe dão tão honroso ofício. Veja o que faz, porque, se larga a bandeira, perder-se-á a batalha. E assim creio que se faz grande dano aos que não estão tão adiante, se vêem nos que eles já têm na conta de capitães e amigos de Deus, não serem as obras conforme ao ofício que têm.

6. Os demais soldados lá se arranjam como podem e, por vezes, fogem de onde vem maior perigo e ninguém repara neles, nem perdem honra; os outros levam todos os olhos postos neles, não se podem mexer.

Assim bom é o ofício, e grande honra e mercê faz o rei a quem o dá, mas não se obriga a pouco quem o aceita. Assim, irmãs, não sabemos o que pedimos; deixemos o Senhor fazer o que quiser, que algumas pessoas há que, por direito de justiça, parece quererem pedir a Deus regalos. Engraçada maneira de humildade! Por isso, bem faz o Conhecedor de todos, que poucas vezes, creio, os dá a estes; vê muito bem que não servem para beber o cálice.

7. O entenderdes, filhas, se estais aproveitadas, estará em ver cada uma se se considera a pior de todas, e isto de modo a dar a perceber pelas suas obras que assim o reconhece, para aproveitamento e bem das outras; e não por ter mais gostos na oração e arroubamentos ou visões ou mercês deste teor que o Senhor concede por vezes, pois temos de aguardar pelo outro mundo para ver o seu valor. Estoutro é moeda corrente, renda que não falha, juros perpétuos e não censos remíveis, que estes tiram-se e põem-se; é uma grande virtude de humildade e mortificação, de grande obediência em não ir num só ponto contra o que manda o prelado, que sabeis verdadeiramente que vo-lo manda Deus, pois está em Seu lugar.

Nisto de obediência é no que mais havia de pôr empenho, pois me parece que, se não a há, é não ser freira. Não digo, no entanto, nada a esse respeito, porque falo com freiras a meu parecer boas, pelo menos que o desejam ser. Em coisa tão sabida e importante, apenas uma palavra para que se não esqueça.

8. Digo que, quem estiver por voto debaixo de obediência e faltar, não trazendo todo o cuidado em como cumprirá com maior perfeição este voto, não sei para que está no convento. Pelo menos eu lhe asseguro que, enquanto nisto faltar, nunca chegará a ser contemplativa, nem mesmo boa activa; e isto tenho por muito, muito certo. E ainda que não seja pessoa que tenha isto como obrigação, se quer ou pretende chegar à contemplação, precisa, para ir com muito acerto, de sujeitar a sua vontade com toda a determinação a um bom confessor. Porque isto é já coisa muito sabida: que aproveitam mais desta sorte em um ano do que, sem isto, em muitos, e como para vós não é mister, não há pois que falar disto.

9. Concluo dizendo que estas virtudes são as que eu desejo que tenhais, minhas filhas, que procureis e santamente invejeis. Essas outras devoções não cureis de ter pena de não as terdes; é coisa incerta. Poderá acontecer que noutras pessoas sejam de Deus e em vós permitirá Sua Majestade seja ilusão do demónio e que ele vos engane, como tem feito a outras pessoas.

Em coisa duvidosa, para que quereis servir o Senhor, tendo tanto em que o podeis fazer com segurança? Quem vos mete em tais perigos?

10. Alarguei-me tanto nisto, porque sei que convém, pois esta nossa natureza é fraca e, a quem Deus quiser dar contemplação, Sua Majestade a fará forte; aos que não, folgo de dar estes visos, com os quais também se humilharão os contemplativos.

O Senhor, por quem é, nos dê luz para seguir em tudo a Sua vontade e nada teremos a temer.

CAPÍTULO 19. Começa a tratar da oração. Fala com almas que não podem discorrer com o entendimento.

1. Há tantos dias que escrevi o que fica para trás, sem ter tido lugar para voltar a isto, que, se não o torno a ler, não sei o que dizia. Para não ocupar tempo, terá de ir como sair, sem concerto. Para entendimentos bem ordenados e almas exercitadas e que podem recolher-se em si mesmas, há tantos livros escritos e tão bons e por pessoas tais, que seria erro fizésseis caso do que digo em coisas de oração; pois, como digo, tendes esses livros onde, pelos dias da semana, são repartidos os mistérios da vida do Senhor e da Sua Paixão, e meditações sobre o juízo e o inferno, o nosso nada e o muito que devemos a Deus, com excelente doutrina e ordem para o princípio efim deoração. Quem puder e tiver já costume de seguir este modo de oração, nada há a dizer, pois por tão bom caminho o Senhor o levará a porto de luz, e com tão bons princípios, o fim também o será. Todos os que puderem ir por ele, levarão descanso e segurança, porque, atado o entendimento, vai-se com descanso.

Mas, do que eu quereria tratar e dar algum remédio, se o Senhor quisesse que acertasse (se não, ao menos que entendais que há muitas almas que passam este trabalho para que, se o tiverdes, não vos aflijais), é isto:

2. Há almas e entendimentos tão desenfreados como cavalos sem freio, que não há quem os faça parar. Vão para aqui, vão para ali, sempre com desassossego: e é a sua mesma natureza ou Deus que o permite. Tenho-lhes muita lástima, porque me parecem tal como umas pessoas que têm muita sede e vêem a água de muito longe e, quando querem ir até lá, encontram quem lhes embargue o passo no princípio, no meio e no fim. Acontece que, quando com o seu trabalho - e com quanto trabalho! - já têm vencido os primeiros inimigos, deixam-se vencer pelos segundos e antes querem morrer de sede que beber água que tanto lhes há-de custar. Acaba-se-lhes o esforço, falta-lhes o ânimo. E, já que alguns o têm para também vencer os segundos inimigos, para os terceiros acaba-se-lhes a força não estando porventura a mais de dois passos da fonte viva da qual o Senhor disse à Samaritana que, quem dela bebesse, não teria mais sede de água. E com quanta razão e verdade, como dito pela boca da mesma Verdade, pois não a terá de coisas desta vida, embora cresça muito mais do que podemos aqui imaginar, por esta sede natural, a das coisas da outra vida. E com que sede se deseja ter esta sede! Porque a alma entende o seu grande valor, e ainda que seja sede penosíssima que aflige, traz consigo a mesma satisfação com que se mata aquela sede de maneira que é uma sede que não abafa senão a das coisas terrenas, antes dá fartura; e assim, quando Deus a satisfez, a maior mercê que Ele pode fazer à alma é de a deixar com a mesma necessidade, e maior lhe fica sempre a de voltar a beber desta água.

3. A água tem três propriedades, que agora me lembro e me fazem ao caso,e muitas mais terá.

Uma é que refresca: por maior calor que tenhamos, em chegando a água, desaparece; e, se há grande fogo, com ela se extingue, salvo se for de alcatrão, que se ateia mais. Oh! valha-me Deus, que maravilhas há neste incendiar-se mais o fogo com a água, quando é fogo forte, poderoso, não sujeito aos elementos; pois este, com ser seu contrário, não o impede, antes o faz crescer! Muito me auxiliaria falar aqui com quem soubesse filosofia, porque, conhecendo as propriedades das coisas, saber-me-ia explicar, mas vou-me deleitando nisto e não o sei dizer, nem porventura o sei entender.

4. Desde que Deus vos traga, irmãs, a beber desta água, e as que agora dela bebeis, experimentareis isto e entendereis como o verdadeiro amor de Deus - se ele está em toda a sua força, já de todo livre de coisas da terra e paira sobre elas -, é senhor de todos os elementos e do mundo. E, como a água procede dá terra, não tenhais medo que mate esse fogo de amor de Deus; não é de sua jurisdição. Embora sejam contrários, é já senhor absoluto, não lhe está sujeito.

E assim não vos espanteis, irmãs, do muito que tenho dito neste livro, a fim de que busqueis esta liberdade. Não será coisa agradável uma pobre freira de S. José poder chegar a assenhorear-se de toda a terra e dos elementos? E será muito que os santos fizessem deles o que queriam, com o favor de Deus? A S. Martinho, o fogo e as águas obedeciam-lhe; a S. Francisco, até as aves e os peixes; e assim a muitos outros santos, nos quais se via claramente que eram tão senhores de todas as coisas do mundo, porque muito tinham trabalhado para o terem em pouco, sujeitando-se deveras, com todas as suas forças, Àquele que é o Senhor dele. Assim pois, como digo, a água que nasce da terra não tem poder contra este fogo; suas chamas são muito altas e sua nascente não começa em coisa tão baixa.

Outros fogos há de pequeno amor de Deus, que qualquer sucesso os pode matar, mas este não! Ainda que sobrevenha todo um mar de tentações, não farão com que ele deixe de arder de modo a não se assenhorear delas.

5. Mas, se é da água que chove do céu, muito menos o apagará; não são contrários, mas sim da mesma origem. Não tenhais medo que um elemento faça mal ao outro, antes um ajuda ao efeito do outro. Porque a água das lágrimas verdadeiras (que são as que procedem da verdadeira oração, dadas pelo Rei do céu), ajuda este fogo a incendiar-se mais e fá-lo durar, e o fogo ajuda a água a esfriar. Oh! valha-me Deus! que coisa tão bela e de tanta maravilha, que o fogo faça arrefecer! Sim, e até chega a gelar todas as afeições do mundo quando se junta com água viva do céu, que é a fonte donde procedem as lágrimas de que falei acima, que são dadas e não adquiridas, por nossa indústria. Assim, bem certo é que não deixa calor em coisa alguma do mundo, de modo a deter-se nelas, a não ser que possa pegar este fogo, porque é de sua natureza não se contentar com pouco, antes, se pudesse, abrasaria todo o mundo.

6. A outra propriedade é limpar o que não está limpo. Se não houvesse água para lavar, que seria do mundo? Sabeis que tanto limpa esta água viva, esta água celestial, esta água clara, quando não está turva, quando não tem lodo, mas cai do céu? Por uma só vez que se beba, tenho por certo deixa a alma clara e limpa de todas as culpas. Porque - como já tenho escrito Deus não dá lugar a que se beba desta água (porquanto isto não está em nosso querer, pois esta divina união é coisa muito sobrenatural), a não ser para purificar a alma e deixá-la limpa e livre do lodo e miséria em que, por suas culpas, estava metida. Os outros gostos, que vêm por meio do entendimento, por muito que se faça, trazem a água correndo pela terra; não é bebida junto à fonte; nunca faltam neste caminho coisas lodosas em que se detenha e não chegue tão pura e tão límpida. A esta oração - que como digo, vai discorrendo com o entendimento - não chamo eu «água viva», conforme ao meu entender, porque, por mais que façamos, sempre no caminho se pega à nossa alma alguma coisa do que não quereríamos, ajudando a isso este nosso corpo e baixo natural.

7. Quero explicar melhor: estamos pensando no que é o mundo e como tudo se acaba, para o menosprezar. Quase sem o entendermos, achamo-nos metidos nas coisas que dele amamos. Desejando fugir-lhes, estorva-nos pelo menos sempre um pouco o pensar como foi e como será e o que fiz e o que farei. E, a pensar o que faz ao caso para nos livrarmos, metemo-nos, às vezes, de novo no perigo. Não que isso se deva deixar de fazer, mas temer. É preciso não irmos descuidados.

O mesmo Senhor toma aqui este cuidado; não quer que confiemos em nós mesmos. Tem em tal conta a nossa alma, que não a deixa meter-se em coisas que lhe possam causar dano, no tempo em que a quer favorecer; mas, põe-na logo junto de Si e mostra-lhe, num momento, mais verdades e dá-lhe mais claro conhecimento do que é tudo, do que quanto cá na terra poderíamos terem muitos anos. Pois, por não termos livre a vista, cega-nos o pó conforme vamos caminhando. Aqui, porém, leva-nos o Senhor ao termo da viagem sem entendermos como.

8. A outra propriedade da água é que sacia e tira a sede. Porque sede parece-me a mim significar desejo de uma coisa que nos faz grande falta, que, se de todo nos falta, nos mata. Estranha coisa é que, se nos falta, nos mata; e, se nos sobra, nos acaba com a vida, pois vêem-se morrer muitos afogados. Ó Senhor meu! E quem se visse tão engolfada nesta água viva que se lhe acabasse a vida! Mas, não poderá isto ser? Sim; é que tanto pode crescer o amor e o desejo de Deus, que não o possa sofrer o desejo natural, e assim há pessoas que têm morrido. Eu sei duma que, se Deus não a socorresse de pronto, esta água viva era em tão grande abundância, que quase a tirava de si com arroubamentos. Digo quase a tirava de si, porque aqui descansa a alma. Parece que, afogada por não poder sofrer o mundo, ressuscita em Deus e Sua Majestade a torna apta a poder gozar o que, estando em si, não pudera sem que se lhe acabasse a vida.

9. Entenda-se de aqui, como em nosso Sumo Bem não poder haver coisa que não seja perfeita, tudo o que Ele dá é para nosso bem e, por maior abundância que dê desta água, não pode haver demasia em coisa Sua; porque, se dá muito, torna a alma apta - como já disse -, para que seja capaz de beber muito; tal como o oleiro que faz a vasilha do tamanho que vê ser mister para nela caber o que lhe quer deitar.

No desejarmos isto, como é coisa nossa, nunca deixa de haver falha. Se tem alguma coisa boa, é aquilo em que o Senhor ajuda. Mas somos tão indiscretos que, como é pena suave e gostosa, nunca pensamos fartar-nos desta pena; comemos sem medida, ajudamos este desejo conforme podemos, e assim algumas vezes ele chega a matar. Ditosa morte! Mas porventura, com a vida ajudaria outros a morrer com desejos desta morte. E isto creio que faz o demónio, porque entende o dano que estes tais lhe hão-de fazer vivendo, e assim tenta-os aqui com indiscretas penitências a fim de lhes tirar a saúde, e não ganha pouco nisto.

10. Digo que, quem chegar a ter esta sede tão impetuosa, que se acautele muito, pois creia que terá esta tentação; e, embora não morra de sede, acabará com a saúde e dará sinais exteriores, mesmo que não queira, os quais se hão-de evitar por todos os modos. Algumas vezes aproveitará pouco a nossa diligência, pois não poderemos encobrir tudo como quiséramos. Mas tenhamos cuidado quando vêm estes ímpetos tão grandes de crescimento deste desejo para não o aumentarmos, mas antes, com suavidade, cortemos o fio com outra consideração, pois poderá ser que a nossa natureza tenha, às vezes, tanta parte nisso como o amor, pois há pessoas que desejam qualquer coisa, ainda que seja má, com grande veemência. Não creio que serão estas muito mortificadas, que para tudo aproveita a mortificação.

Parece desatino que se atalhe coisa tão boa; mas não é, que eu não digo que se afaste o desejo, senão que se atalhe e, porventura, será com outro com o qual se mereça o mesmo.

11. Quero dizer algo para melhor me dar a entender. Vem um grande desejo de se ver já com Deus e liberto deste cárcere, como o tinha S. Paulo; pena que, por tal causa, deve ser em si muito saborosa; não será preciso pouca mortificação para atalhá-la, e de todo não poderá. Mas quando vir que aperta tanto, que quase lhe faz perder o juízo (como eu vi uma pessoa não há muito tempo e de natureza impetuosa, ainda que habituada a quebrar a sua vontade - e me parece tê-la já perdido, como se vê por outras coisas -, que a vi por instantes como que desatinada pela grande pena e esforço que fez para a dissimular), digo que, em caso tão excessivo, embora seja espírito de Deus, tenho por humildade temer, porque não devemos pensar que temos tanta caridade que nos ponha em tão grande risco.

12. Digo que não terei por mau - se puder, pois talvez nem todas as vezes poderá ser -, que troque o desejo, pensando que, se vive, servirá mais a Deus, e poderá ser que dê luz a alguma alma que se viria a perder e, servindo mais, por aí mereça poder gozar mais de Deus. Tema-se do pouco que O tem servido. E são boas consolações para tão grande trabalho, e aplacar-se-á a sua pena e ganhará muito, pois, para servir o mesmo Senhor, quer sofrer e viver com a sua pena. É como consolar alguém que tivesse um grande trabalho ou grave dor, dizendo-lhe que tenha paciência, se entregue nas mãos de Deus e que se cumpra nisso a Sua vontade, pois o entregarmo-nos a ela é o mais acertado de tudo.

13. E, se o demónio ajudou de algum modo a tão grande desejo, o que seria possível, como conta, creio, Cassiano, de um eremita de aspérrima vida a quem deu a entender que se deitasse a um poço para ver mais depressa a Deus; eu creio bem que este não devia ter servido a Deus com humildade, nem bem, porque fiel é o Senhor e Sua Majestade não consentiria que se cegasse em coisa tão manifesta. Mas está claro: se o desejo fora de Deus, não lhe fizera mal; traz consigo a luz, a discrição e a medida. Isto é claro; mas este nosso adversário, nosso inimigo, por onde quer que possa, procura causar-nos dano; e, pois ele não anda descuidado, não o andemos nós. Este ponto é importante para muitas coisas, tal como, para encurtar o tempo de oração, por saborosa que seja, quando vemos que se nos acabam as forças corporais ou se cansa a cabeça. Em tudo é muito necessária a discrição.

14. Para que pensais, filhas, que pretendi declarar o fim e mostrar o prémio antes da batalha, dizendo o bem que traz consigo o chegar a beber desta fonte celestial, desta água viva? Para que não vos entristeçais com o trabalho e contradição que se encontram pelo caminho e andeis com ânimo e não vos canseis. Porque - como já disse - poderá ser que, depois de terdes chegado, quando não vos falte senão abaixar-vos a beber na fonte, deixeis tudo e percais este bem, pensando que não tereis força para chegar a ele e que não sois para tanto.

15. Olhai que o Senhor convida a todos. Pois que Ele é a mesma Verdade, não há que duvidar. Se não fora geral este convite, o Senhor não nos chamara a todos e, ainda que nos chamasse, não diria: «Eu vos darei de beber». Poderia dizer: «Vinde todos que, enfim, não perdereis nada, e ao que Me parecer, Eu vos darei de beber». Mas como disse « a todos», sem esta condição, tenho por certo que a todos os que se não ficarem no caminho, não lhes faltará esta água viva.

O Senhor, que a promete, nos dê a Sua graça, por quem Sua Majestade é, para a buscarmos como se deve buscar.

CAPÍTULO 20. Trata de como, por diferentes vias, nunca falta consolação no caminho da oração, e aconselha as irmãs a que disto sejam sempre as suas práticas e conversações.

1. Parece que me contradigo, neste último capítulo, daquilo que tinha dito; porque, quando consolava as que não chegavam aqui, disse que o Senhor tinha diferentes caminhos por onde levava as almas até Ele, assim como havia muitas moradas. Assim torno-o agora a dizer; porque Sua Majestade entendeu a nossa fraqueza, providenciou como quem é. Mas não disse: «por este caminho venham uns, e por este, outros»; antes foi tão grande a Sua misericórdia, que não impediu ninguém de procurar vir beber a esta fonte de vida. Bendito seja para sempre, e com quanta razão mo impediria a mim!

2. Pois não me mandou que deixasse este caminho quando o comecei, nem fez que me lançassem nas profundezas, certamente que não o tolhe a ninguém, mas antes nos chama publicamente em alta voz. Mas, como é tão bom, não nos força, antes dá de beber de muitas maneiras aos que O querem seguir para que nenhum se vá desconsolado nem morra de sede. Porque desta fonte caudalosa saem arroios, uns grandes, outros pequenos e, algumas vezes, charcozitos para crianças, que isso lhes basta, e mais seria amedrontá-los ver muita água; estes são os que estão ainda nos princípios.

Assim, pois, irmãs, não tenhais medo de morrer de sede neste caminho. Nunca a falta de água da consolação é tanta que não se possa sofrer. E posto que isto é assim, tomai o meu conselho e não vos fiqueis no caminho, mas pelejai como fortes até morrer na demanda, pois não estais aqui para outra coisa senão para pelejar. E indo sempre com esta determinação de antes morrer que deixar de chegar ao fim do caminho, se o Senhor vos levar com alguma sede nesta vida, na que é para sempre, Ele vos dará de beber com toda a abundância e sem temor de que vos venha a faltar. Praza ao Senhor não lhe faltemos nós, amen.

3. Agora, para se começar este caminho que fica dito de modo a não errar nele desde o princípio, tratemos um pouco de como se há-de principiar esta jornada, porque é o que mais importa; digo que importa, de todo em todo. Não digo que quem não tiver a determinação que aqui direi o deixe de começar, porque o Senhor o irá aperfeiçoando; e mesmo que não fizesse mais do que dar um passo, tem em si tanta virtude, que não haja medo que o perca nem deixe de ser muito bem pago!

É - digamos assim - como quem tem umas contas de indulgências que, se as reza uma vez ganha, e quantas mais vezes, mais. Mas se nunca lhes pega e as tem na arca, melhor fora não as ter. Assim, ainda que não continue depois pelo mesmo caminho, o pouco que nele tiver andado, lhe dará luz para ir bem por outros e, se mais andar, melhor. Enfim, tenho por certo que não lhe fará dano em coisa nenhuma o tê-lo começado, embora o deixe, porque o bem nunca faz mal.

Por isso, a todas as pessoas que tratam convosco, filhas, havendo disposição e alguma amizade, procurai tirar-lhes o medo de começar tão grande bem. E, por amor de Deus vos peço, que o vosso trato seja sempre ordenado a fazer algum bem àqueles com quem falardes, pois a vossa oração há-de ser para proveito das almas. E, pois que isto haveis de pedir sempre ao Senhor, mal parecerá, irmãs, não o procurardes de todas as maneiras.

4. Se quereis ser boa parente, esta é a verdadeira amizade; se boa amiga, entendei que o não podeis ser senão por este caminho. Ande a verdade em vossos corações, como deve andar pela meditação, e vereis claramente o amor que somos obrigadas a ter ao próximo.

Já não é tempo, irmãs, de jogos de meninos, que outras coisas não são estas amizades do mundo, ainda que sejam boas; não haja entre vós tais ditos como «se me quereis», «não me quereis», nem com parentes nem com ninguém, a não ser que vá fundado num grande fim e proveito daquela alma. Pois pode acontecer, para que vos escute o vosso parente ou irmão ou pessoa semelhante e admita uma verdade, de terdes de o dispor com estes dizeres e mostras de amor, que sempre contentam a sensibilidade; e acontecerá terem em mais conta uma boa palavra - que assim a chamam -e dispô-los melhor, do que muitas sobre Deus, para que depois estas tenham entrada. E assim, usadas com advertência, com o fim de dar proveito, não as impeço. Mas, se não é para isto, nenhum proveito podem trazer e poderão causar dano sem o entenderdes. Já sabem que sois religiosas e que o vosso trato é de oração. Não se vos ponha diante: «não quero que me tenham por boa», porque é proveito ou dano comum aquilo que aqui virem em vós. E é grande mal, nas que tanta obrigação têm de não falar senão de Deus, como as freiras, que lhes pareça bem a dissimulação neste caso, a não ser alguma vez para maior bem.

Este é o vosso trato e linguagem; quem quiser tratar convosco, aprenda-o, e se não, guardai-vos vós de aprender o seu; será um inferno.

5. Se vos tiverem por grosseiras, pouco vos vai nisso; se por hipócritas, ainda menos. Ganhareis com isto que não vos vejam senão os que entenderem esta linguagem; porque não faz sentido que, quem não sabe algaravia, goste de falar largamente com quem não sabe outra língua. E, assim não vos cansarão nem vos farão dano, que não seria pouco dano começardes a falar uma nova língua, e todo o tempo se vos iria nisso. E não podeis saber, como eu, que o experimentei, o grande mal que é para a alma; porque, para saber uma, esquece a outra, e é um perpétuo desassossego de que por todos os modos haveis de fugir. O que mais convém para este caminho, do qual começamos a tratar, é paz e sossego na alma.

6. Se os que convosco tratam quiserem aprender a vossa linguagem, já que vos não cabe ensinar, podeis dizer as riquezas que se ganham com aprendê-la e disto não vos canseis, mas fazei-o com piedade e amor e oração a fim de que aproveitem, para-que, entendendo o grande ganho, vão buscar mestre que os ensine; que não seria pouca mercê que o Senhor vos fizesse despertar alguma alma para este bem.

Mas, quantas coisas se oferecem em começando a tratar deste caminho, ainda mesmo a quem tão mal por ele tem andado como eu! Praza ao Senhor vo-lo saiba dizer, irmãs, melhor do que tenho feito, amena

CAPÍTULO 21. Diz o muito que importa começar com grande determinação a ter oração e não fazer caro dos inconvenientes que o demónio sugere.

1. Não vos espanteis, filhas, das muitas coisas a que é preciso olhar para começar esta viagem divina, que é caminho real para o Céu. Ganha-se, indo por ele, um grande tesouro; não é, pois, demasiado que custe muito, a nosso parecer. Tempo virá em que se entenda como tudo é nada para tão grande preço.

2. Agora, voltando aos que querem ir por ele sem parar até ao fim, que é chegar a beber desta água de vida, como devem começar, digo que importa muito, e tudo, ter uma grande e muito determinada determinação de não parar até chegar a ela, venha o que vier, suceda o que suceder, trabalhe-se o que se trabalhar, murmure quem murmurar, quer lá se chegue, quer se morra no caminho, ou não se tenha ânimo para os trabalhos que nele há, quer se afunde o mundo, como muitas vezes acontece ouvir-se dizer: «nisto há perigos», «fulano perdeu-se por aqui»; «o outro se enganou»; «aquele outro que rezava muito, caiu»; «causam dano à virtude»; «não é para mulheres, pois podem-lhes advir ilusões»; «melhor será que fiem»; «não necessitam dessas delicadezas»; «basta o Pater Noster e Ave-maria»...

3. Isto também eu digo, irmãs; e se basta! Ê sempre grande bem fundar a vossa oração sobre orações ditas por uma tal boca como a do Senhor. Nisto têm razão que, se a nossa fraqueza não estivesse tão fraca e a nossa devoção tão tíbia, não seriam precisos outros concertos de orações nem seriam precisos outros livros. E assim (pois, como digo, falo com almas que não podem recolher-se noutros mistérios e lhes parece necessário usar de artifício e há alguns espíritos tão engenhosos que nada os contenta), pareceu-me bem ir agora fundando por aqui uns princípios e meios e fins de oração, sem me deter, no entanto, em coisas subidas. E assim não vos poderão tirar livros, e, se fordes atentas, tendo humildade, não tereis necessidade de mais nada.

4. Sempre fui afeiçoada às palavras do Evangelho e mais me têm recolhido do que livros muito bem escritos, em especial, se o autor não era muito aprovado, não tinha vontade de os ler. Apoiada, pois, neste Senhor e Mestre da Sabedoria, talvez me ensine alguma consideração que vos contente.

Não digo que vá fazer o comentário destas orações divinas (pois não me atreveria e muitas há já escritas; e, ainda que não as. houvesse, seria disparate, mas somente considerações sobre as palavras do Pai Nosso. Porque algumas vezes parece que, com muitos livros, se perde a devoção àquilo a que tanto nos vai de a ter, pois é claro que todo o mestre, quando ensina uma coisa, toma amor ao discípulo e gosta de que este se contente com o que ele lhe ensina e ajuda-o muito a que aprenda, e assim fará connosco este Mestre celestial.

5. Por isso, não façais nenhum caso dos medos que vos meterem, nem dos perigos que vos pintarem. Engraçada coisa que quisesse eu, sem perigos, ir por um caminho onde há tantos ladrões, e ganhar um grande tesouro! Bonito vai o mundo para que vo-lo deixem tomarem paz, mas por um maravedi de interesse, ficam sem dormir muitas noites e desassossegam-vos corpo e alma! Pois, se procurando ganhá-lo - ou rouba-lo, como diz o Senhor que o arrebatam os esforçados e se por caminho real e por caminho seguro por onde foi o nosso Rei e por onde foram todos os Seus escolhidos e santos, vos dizem que há tantos perigos e vos metem tantos terrores, os que vão só por seu parecer e sem caminho à busca deste bem, que perigos não correrão eles?

6. Ó minhas filhas! e muitos mais, sem comparação, só que não os entendem até dar de cara com o verdadeiro perigo, quando não há quem lhes dê a mão, e de todo perdem a água, sem beberem pouca nem muita, nem do charco nem do arroio.

Pois já vedes; sem uma gota desta água, como se passará por caminho onde há tantos com quem pelejar? Está claro que, quando menos pensarem, morrerão de sede; porque, quer queiramos, quer não, filhas minhas, todos caminhamos para esta fonte, posto que de diferentes modos. Enfim, crede-me a mim; não vá alguém enganar-vos, mostrando outro caminho que não seja o da oração. Não falo agora em se há-de ser mental ou vocal para todos; para vós digo que, de uma e de outra, tendes necessidade. Este é o ofício dos religiosos. A quem vos disser que isto é um perigo, a esse tende-o pelo verdadeiro perigo e fugi dele. E não vos esqueçais, que porventura tereis necessidade deste conselho. Perigo será não ter humildade nem as outras virtudes; mas caminho de oração ser caminho de perigo, nunca Deus tal permita. Parece que o demónio inventou pôr estes medos, e assim tem sido manhoso em fazer cair alguns que tinham oração, ao que parece.

8. E vede que cegueira a do mundo, pois não vêem os muitos milhares que têm caído em heresias e em grandes males sem terem oração, senão distracção; e, se entre a multidão destes, o demónio, para melhor fazer o seu negócio, tem feito cair alguns que tinham oração, logo faz com que ponham em outros tanto temor para as coisas de virtude. Estes, que recorrem a este amparo para se livrar,' acautelem-se, pois fogem do bem para se livrarem do mal. Nunca vi tão má invenção; bem parece do demónio. Ó Senhor meu! defendei a vossa causa; vede que entendem ao revés as Vossas palavras. Não permitais semelhantes fraquezas em Vossos servos.

9. Há, a par disto, um grande bem: achareis sempre alguns que vos ajudem, porque isto tem o verdadeiro servo de Deus a quem Sua Majestade esclareceu acerca do verdadeiro caminho: com estes temores, cresce-lhe mais o desejo de não parar. Entende claramente onde o demónio vai dar o golpe, furta-lhe o corpo e quebra-lhe a cabeça. E ele sente mais isto do que o contentam quantos prazeres os outros lhe dão. Quando em tempos de alvoroço, numa cizânia que o demónio semeou - ele parece levar todos meio cegos atrás de si, porque os engana sob a cor do bom zelo -, Deus suscita alguém que lhes abra os olhos e diga que vejam que lhes pôs uma névoa para não verem o caminho. Que grandeza a de Deus, que mais pode por vezes um só homem ou dois que digam a verdade do que muitos juntos! tornam pouco a pouco a descobrir o caminho, dá-lhes Deus ânimo. Se dizem que há perigo na oração, procura dar a entender quanto é boa a oração, quando não é por palavras, com obras; se dizem que não é bem comungar amiúde, fazem-no então com mais frequência. E assim, quando haja um ou dois que siga sem temor o melhor, logo o Senhor torna, pouco a pouco, a ganhar o perdido.

10. E assim, irmãs, deixai-vos destes medos; nunca façais caso em coisas semelhantes da opinião do público. Olhai que não estamos em tempo de acreditarem todos, senão naqueles que virdes que vão conformes à vida de Cristo. Procurai ter a consciência limpa, humildade, desprezo de todas as coisas do mundo e crer firmemente o que ensina a Santa Madre Igreja, e ficai certas que ides por bom caminho.

Deixai-vos - como disse - de temores onde não há que temer. Se alguém vo-los meter, mostrai-lhe com humildade o caminho. Dizei que tendes Regra que vos manda orar sem cessar, - pois assim no-lo manda - e que a tendes de guardar. Se vos disserem que é vocalmente, perguntai se o entendimento e o coração hão-de estar no que dizeis. Se vos disserem que sim, - e não poderão dizer outra coisa -, vede como confessam que estais obrigadas a ter oração mental, e até contemplação, se Deus vo-la der ali.

CAPÍTULO 22. Declara o que é oração mental.

1. Sabeis, filhas, que não está a diferença, para ser ou não ser oração mental, em ter a boca fechada; se, estando a falar, estou perfeitamente a entender e a ver que falo com Deus, pondo nisto mais advertência do que às palavras que digo, juntas estão aqui oração mental e vocal. Salvo se vos dizem que podeis estar falando com Deus, a rezar o Pai Nosso e pensando no mundo: aqui me calo. Mas se quereis estar, como é de razão que se esteja, falando com tão grande Senhor, é bem que estejais olhando com quem e quem sois, sequer ao menos para falar com cortesia. Porque, como podeis chamar a el-rei «alteza», sem saber as cerimónias que se têm para falar a um grande, se não conheceis bem o estado que tem e o estado que vós tendes? Porque, conforme a isto e conforme ao uso, há-de ser o acatamento. Que até isto é mister que também saibais, se não quiserdes ser despedidas como simplórias e não conseguireis nada.

Pois, que é isto, Senhor meu?... Que é isto, meu Imperador? Como se pode sofrer isto? Sois Rei, Deus meu, para sempre, e não é emprestado o reino que tendes. Quando se diz no Credo: «Vosso Reino não terá fim», isto dá-me quase sempre particular consolação. Louvo-Vos, Senhor, e bendigo-Vos para sempre; enfim, o Vosso reino durará para sempre. Nunca permítais, Senhor, que se tenha por bom que, quem for a falar convosco, o faça só com a boca.

2. Que é isto, cristãos, os que dizeis que não é preciso oração mental, entendeis-vos a vós mesmos? Certo é que penso não vos entendeis e assim quereis que todos nós desatinemos; nem sabeis o que é oração mental, nem como se há-de rezar a vocal, nem mesmo o que é contemplação, porque, se o soubésseis, não condenaríeis por um lado o que louvais por outro.

3. Eu hei-de juntar, sempre que me lembrar, a oração mental à vocal, para que não vos assustem, filhas. Sei no que vêm a parar estes temores, porque passei alguns trabalhos neste caso, e assim não quereria que ninguém vos trouxesse desassossegadas, pois é coisa de causar dano andar com medo neste caminho, Importa muito entender que ides bem, porque, em se dizendo a algum caminhante que vai errado e que perdeu o caminho, fazem-no andar de um lado para o outro e, enquanto anda buscando por onde há-de ir, cansa-se e gasta o tempo e chega mais tarde.

Quem poderá dizer que é mal, se começamos a rezar as Horas ou o rosário, que se comece por pensar com quem se vai falar e quem é aquele que fala, para ver como se deve tratar? Pois eu vos digo, irmãs; se o muito que há a fazer para entender estes dois pontos se fizesse bem, antes de começardes a oração vocal que ides rezar, ocupareis assaz tempo na mental. Sim, não nos devemos aproximar para falar a um príncipe com o mesmo descuido que a um lavrador ou como a uma pobre como nós, pois, como quer que seja que nos falem, está bem.

4. E assim, já que por humildade deste Rei, se eu por grosseira não Lhe sei falar, Ele nem por isso deixa de me ouvir, nem de me chegar a Si, nem me lançam fora Seus guardas; porque bem sabem os anjos que ali estão a índole do seu Rei, que gosta mais desta rudeza dum pastorzinho humilde pois vê que, se mais soubera mais diria, que dos mui sábios e letrados por elegantes arrazoados que façam, se não vão acompanhados de humildade, não é razão que, por Ele ser bom, sejamos nós descomedidos. Sequer ao menos para Lhe agradecer o que Ele sofre da vizinhança, consentindo a uma como eu ao pé de Si, é bem que procuremos conhecer a Sua limpeza e quem é. É verdade que, logo em chegando, se conhece, não como a senhores de cá que, em nos dizendo quem foi seu pai e os contos que tem de renda e o título, nada mais há a saber. Porque cá nesta terra não se têm em conta as pessoas para lhes dar honras, por muito que as mereçam, mas sim suas fazendas.

5. Oh! miserável mundo! Louvai muito a Deus, filhas, por terdes deixado coisa tão ruim, onde não fazem caso do que eles têm em si, mas do que têm seus rendeiros e vassalos; e se estes faltam, logo lhes faltam com as honras. Coisa engraçada esta para folgardes quando tiverdes todas de tomar alguma recreação, que é bom passatempo entender quão cegamente passam o tempo os do mundo.

6. Ó Imperador nosso, sumo Poder, suma Bondade, a mesma Sabedoria, sem princípio, sem fim, sem haver limite em Vossas obras! São infinitas, sem se poderem compreender, um pélago sem fundo de maravilhas, uma formosura que contém em si todas as formosuras, a mesma Fortaleza! Oh! valha-me Deus! quem tivesse aqui junta toda a eloquência e sabedoria dos mortais para bem saber - como aqui se pode saber, que tudo é não saber nada, para este caso - dar a entender algumas das muitas coisas que podemos considerar para conhecerem algo quem é este Senhor e Bem nosso.

7. Sim, aproximai-vos pensando e entendendo, ao chegar, com quem ides falar ou com quem estais falando. Em mil vidas das nossas não acabaremos de entender como merece ser tratado este Senhor, diante de quem tremem os anjos. Em tudo manda, tudo pode; Seu querer é operar. Pois, razão será, filhas, que procuremos deleitar-nos nestas grandezas que tem o nosso Esposo e entendamos com quem estamos casadas e que vida havemos de ter. Oh! valha-me Deus! Pois aqui, quando alguém se casa, primeiro quer saber com quem, quem é e o que tem. Nós, já desposadas, antes das bodas não pensaremos em nosso esposo, que nos há-de levar para Sua casa? Pois se aqui não se impedem estes pensamentos às que estão desposadas com os homens, porque nos hão-de impedir que procuremos entender quem é este Homem, e quem é Seu Pai, e qual a terra para onde me vai levar e quais são os bens que me promete dar, qual a Sua condição, como melhor poderei contentar, em que Lhe darei prazer, e estudar como hei-de tornar a minha condição conforme à Sua? Se a uma mulher, para ser bem casada, não a avisam de outra coisa senão que procure fazer assim, e isto ainda mesmo que seu marido seja de mui baixa condição.

8. Pois, Esposo meu, em tudo hão-de fazer menos caso de Vós que dos homens? Se isto não lhes parece bem, que Vos deixem às Vossas esposas, que hão-de fazer vida convosco. E em verdade é vida boa! Se um esposo é tão ciumento que não quer que sua esposa fale com ninguém, linda coisa seria se ela não pensasse em lhe dar esse prazer e a razão que tem para o suportar e de não querer tratar com mais ninguém, pois tem nele tudo o que pode desejar. Isto, filhas, o entender estas verdades, é oração mental. Se quereis ir entendendo isto e rezando vocalmente, pois seja muito em boa hora. Não estejais falando com Deus e pensando em outras coisas, que isto faz que não se entenda que coisa é oração mental. Creio que está dado a entender. Praza ao Senhor o saibamos pôr em prática, amen.

CAPÍTULO 23. Trata de quanto importa não voltar atrás quem começou o caminho da oração e volta a falar do muito que importa que seja com determinação.

1. Pois digo que vai muitíssimo em se começar com uma grande determinação, e isto por tantas causas, que seria preciso alongar-me muito se as dissesse. Só duas ou três vos quero dizer, irmãs.

Uma é que não é razão ou justo que não demos a quem tanto nos tem dado e continuamente dá, uma coisa que já nos tínhamos resolvido a querer-Lhe dar, (não certamente sem interesse, mas antes com tão grandes lucros para nós) e que é esta preocupação em sermos fiéis, com toda a determinação, e não como quem empresta uma coisa para voltar a tirar. Isto não me parece a mim que seja dar; antes fica sempre com algum desgosto aquele a quem emprestaram uma coisa e lha tornam a tirar, em especial se lhe faz falta e já a tinha como sua; ou então, se são amigos, e aquele que lha emprestou é devedor de muitas dádivas feitas sem qualquer interesse, com razão isto lhes parecerá mesquinho e de muito pouco amor, pois nem ainda uma coisita quer deixar em seu poder, nem sequer ao menos como sinal de amor.

2. Que esposa haverá que, recebendo muitas jóias de valor de seu esposo, não lhe dê sequer um anel, não pelo que vale, que tudo é já seu, mas em testemunho de que é sua até morrer? Pois, merecerá menos este Senhor, para que d'Ele façamos tão pouco, dando e retomando um nada que Lhe demos? Que este bocadinho de tempo que nos determinamos a dar-Lhe do muito que gastamos connosco e com quem não nos há-de agradecer, já que Lhe queremos dar esses instantes, dêmos-Lhe o pensamento livre e desocupado de outras coisas, e com toda a determinação de nunca mais Lho tornarmos a tirar, por mais trabalhos que daí nos advenham, nem por contradições, nem securas; mas que eu já tenha esse tempo por coisa não minha, e pense que mo podem pedir por justiça, quando eu de todo não Lho quiser dar.

3. Digo «de todo», para que não se entenda que, deixar de o dar algum dia ou em alguns, por ocupações justas ou por qualquer indisposição, já seja retomá-lo. A intenção seja firme, que não é nada melindroso o meu Deus; não olha a minudências, antes terá de que vos agradecer, pois isto é dar alguma coisa. O demais é bom para quem não é franco, senão tão apertado que não tem coração para dar; muito faz se empresta. Enfim, faça-se alguma coisa, que tudo toma em conta este Senhor nosso; tudo faz conforme queremos. Para tomar-nos contas não é nada mesquinho, mas generoso; por grande que seja o alcance tem em pouco perdoá-lo. Para nos pagar é tão cuidadoso, que não tenhais medo deixe um só erguer de olhos, se nos lembrarmos d'Ele, sem prémio.

4. Outra razão é porque o demónio não tem tanto pé para tentar. Tem grande medo às almas determinadas, pois já tem experiência do muito dano que lhe fazem e que tudo quanto dispõe para as prejudicar, vem a ser em proveito delas e de outros, e ele sai com perda. Não devemos, no entanto, andar descuidadas nem confiar nisto, porque nos havemos com gente traidora, e aos avisados não ousa tanto acometer, porque é muito cobarde; mas, se visse descuido, faria grande dano. E se tem a alguém por mudadiço e que não está firme no bem, nem com grande determinação de perseverar, não o deixaria em paz nem a sol nem a sombra. Meter-lhe-á medos e mostrar-lhe-á inconvenientes que não mais acabam. Eu sei isto muito bem por experiência; e assim o soube dizer e digo, pois ninguém sabe o muito que isto importa.

5. A outra razão - e faz muito ao caso -, é que a alma peleja com mais ânimo. Já sabe que, venha o que vier, não há-de voltar atrás. É como quem está numa batalha e sabe que, se o vencem, não lhe perdoarão a vida e, se não morre na batalha, há-de morrer depois. Peleja com mais determinação, quer vender bem cara a vida - como dizem - e não teme tanto os golpes, porque tem diante dos olhos o quanto lhe importa a vitória e que nela lhe vai a vida.

É também necessário começar com a segurança de que, se não nos deixamos vencer, sairemos bem da empresa; isto, sem nenhuma dúvida, pois, por pouco lucro que se tire, sairemos muito ricos. Não tenhais medo que vos deixe morrer de sede o Senhor que nos chama para que bebamos desta fonte. Isto já ficou dito e quisera eu dizê-lo muitas vezes, porque este temor acobarda muito as pessoas que ainda não conhecem de todo a bondade do Senhor por experiência, ainda que o conheçam pela fé. Mas é grande coisa ter experimentado a amizade e carinho com que trata aos que vão por este caminho e como faz quase tudo à Sua custa.

6. Os que isto não experimentaram, não me maravilho que queiram a segurança de algum interesse. Pois já sabeis que é de cem por um ainda nesta vida, e que o Senhor disse: «Pedi e recebereis». Se não credes a Sua Majestade nas passagens do Seu Evangelho em que nos assegura isto, de pouco aproveita, irmãs, que eu quebre a cabeça em vo-lo dizer. Digo, no entanto, a quem tiver alguma dúvida, que pouco perde em experimentá-lo; isto tem de bom esta viagem: nela dão-nos mais do que pedimos e até do que acertaríamos a desejar. Isto é infalível, eu o sei; e aquelas de vós que, por bondade do Senhor, o sabeis por experiência, eu posso apresentar por testemunhas.

CAPÍTULO 24. Trata de como se há-de rezar com perfeição a oração vocal e quão junta anda esta com a mental.

1. Voltemos, pois, agora a falar com as almas que eu disse não se poderem recolher, nem prender o entendimento em oração mental, nem fazer considerações. Não mencionaremos aqui estas duas coisas, pois isto não é para vós; mas há, de facto, muitas pessoas a quem só o nome de oração mental ou contemplação parece que atemoriza, e porque, se algumas destas viera esta casa porque, como já disse, nem todas vão pelo mesmo caminho.

Quero agora aconselhar-vos (e até posso dizer ensinar-vos porque, como mãe, pelo ofício que tenho de prioresa, é lícito), como haveis de rezar vocalmente, porque é justo entendais o que dizeis. E, como quem não pode pensar em Deus, pode ser que também se canse com largas orações, tão-pouco me quero intrometer nelas, senão nas que forçosamente devemos rezar, pois somos cristãos, que são o Pai Nosso e a Ave-Maria, para que não possam dizer de nós que falamos e não entendemos o que dizemos, salvo se nos parecer que basta fazê-lo por costume, pronunciando só as palavras, e que isto basta. Se basta ou não, nisso não me intrometo: os letrados o dirão. O que eu quereria, filhas, que fizéssemos é que não nos contentássemos só com isso. Porque, quando digo «Credo», parece-me ser de razão que entenda e saiba o que creio; e quando digo «Pai Nosso», será amor compreender quem é este Nosso Pai e quem é o Mestre que nos ensinou esta oração.

3. Se quereis dizer que já o sabeis e que não há porque vo-lo recordar, não tendes razão; pois, de mestre a mestre vai muito; e é grande desgraça não nos lembrarmos aqui daqueles que nos ensinam; em especial, se eles são santos e são mestres da alma, é impossível esquecê-los, se somos bons discípulos. Pois de tal Mestre como o que ensinou esta oração e com tanto amor e desejo de que nos aproveitasse, nunca Deus permita que não nos lembremos d'Ele muitas vezes, quando dizemos esta oração, embora por sermos fracos, não seja todas as vezes.

4. Pois, quanto à primeira coisa, já sabeis que Sua Majestade nos ensina que seja a sós; e assim fazia Ele sempre que orava, não por necessidade, mas para nosso ensinamento. Já está dito que não se sofre falar com Deus e com o mundo, pois outra coisa não é estar a rezar e a ouvir, por outro lado, o que se está a dizer, ou a pensar no que se nos depara sem nos irmos à mão; salvo em certas ocasiões em que, ou por maus humores - especialmente se é pessoa que tem melancolia -ou por fraqueza de cabeça, nada se consegue fazer por mais que se queira, ou em que Deus permite que haja em Seus servos dias de grande tempestade para nosso maior bem e, ainda que então se aflijam e procurem aquietar-se, não podem nem estão atentos ao que dizem, por mais que façam; não assenta em nada o entendimento, antes parece ter frenesi, de tal modo anda desbaratado.

5. Na pena que isto dá a quem está assim, verá que não é sua a culpa. Não se aflija, que é pior, nem se canse em querer dar juízo a quem, por então, não o tem, que é o seu entendimento, mas reze como puder; e até nem reze, mas, como enferma, procure dar alívio à sua alma; e ocupe-se em outra obra de virtude.

Isto é já para pessoas que têm cuidado com a sua perfeição e já compreenderam que não devem falar a Deus e ao mundo ao mesmo tempo.

O que podemos fazer da nossa parte é procurar estar a sós, e praza a Deus que isto baste, como digo, para entendermos com quem estamos e que o Senhor responde às nossas petições. Pensais que está calado? Embora não O ouçamos, bem fala Ele ao coração, quando do coração Lhe pedimos.

E bom é que consideremos, cada uma, que foi a nós mesmas a quem o Senhor ensinou esta oração e que no-la está apontando, pois nunca o mestre fica tão longe do discípulo que seja preciso falar em altas vozes, mas muito perto. Isto quero eu que entendais para rezar bem o Pai Nosso: convém-vos não vos apartar de junto do Mestre que vo-lo ensinou.

6. Direis que isto já é meditação e que não podeis, nem mesmo quereis, senão rezar vocalmente. Porque também há pessoas mal sofridas e amigas de se não incomodar que, como não têm o costume, é-lhes difícil recolher o pensamento e isto a princípio; para não se cansarem um pouco, dizem que mais não podem nem sabem, senão rezar vocalmente.

Tendes razão em dizer que isto já é oração mental. Mas eu vos digo, na verdade, que não sei como apartá-la da vocal, se é que esta há-de ser bem rezada e entendendo com quem falamos. E é mesmo obrigação procurarmos rezar com advertência. E praza ainda a Deus que, com estes remédios, vá bem rezado o Pai Nosso e não acabemos em outra coisa impertinente. Tenho-o experimentado algumas vezes, e o melhor remédio que encontro é procurar trazer o pensamento n'Aquele a quem dirijo as palavras. Por isso, tende paciência e procurai criar o costume de coisa tão necessária.

CAPÍTULO 25. Diz o muito que ganha uma alma que reza vocalmente com perfeição e como acontece Deus elevá-la disto a coisas sobrenaturais.

1. E, para que não penseis que se tira pouco lucro em rezar vocalmente com perfeição, digo-vos que é muito possível, estando a rezar o Pai Nosso, ou rezando outra oração vocal, que o Senhor vos ponha em contemplação perfeita. Por estas vias mostra Sua Majestade que ouve a quem Lhe fala e até mesmo Sua grandeza lhe fala, suspendendo-lhe o entendimento e atalhando-lhe o pensamento, tirando-lhe - como se costuma dizer - a palavra da boca, pois, ainda que queira, não pode falar, a não ser com muito custo. Entende que, sem ruído de palavras, o está ensinando este Mestre Divino, suspendendo as potências, porque estas antes causariam dano que proveito com as suas operações. Gozam sem entender como gozam. A alma está abrasando-se em amor e não entende como ama. Conhece que goza do que ama e não sabe como goza. Percebe bem que não é gozo ao alcance do entendimento para o poder desejar. Abraça-o a vontade sem entender como. Mas, em podendo entender alguma coisa, vê que este bem não se pode merecer com todos os trabalhos juntos que na terra se passassem para o ganhar. É dom do Senhor do Céu e da terra, que, enfim, dá como quem é.

Esta, filhas, é que é contemplação perfeita.

3. Agora entendereis a diferença que há entre ela e a oração mental, que é o que fica dito: pensar e entender o que dizemos e a Quem o dizemos e quem somos nós que ousamos falar com tão grande Senhor. Pensar nisto e noutras coisas semelhantes, o pouco que O temos servido e o muito que somos obrigadas a servi-lO, é oração mental. Não penseis que é outra algaravia, nem vos espante o nome. Rezar o Pai Nosso e a Ave Maria, ou o que quiserdes, é oração vocal.

Mas vede que mal sairá a música sem a primeira; até mesmo as palavras nem sempre irão bem concertadas. Nestas duas coisas algo podemos com o favor de Deus; na contemplação de que agora falei, nenhuma coisa podemos . Sua Majestade é quem tudo faz, é obra Sua, está acima da nossa natureza.

4. Como isto de contemplação já foi dado a entender bem extensamente o melhor que eu o soube explicar na relação que disse ter escrito da minha vida, para ser vista por meus confessores - e por sua ordem -, não o digo aqui, nem faço mais do que tocar nisto de passagem. As que tiverem sido tão ditosas que o Senhor vos tenha trazido a estado de contemplação, se a pudésseis ler, ela tem pontos e avisos que o Senhor quis eu acertasse a dizer, os quais muito vos consolariam e aproveitariam, a meu parecer e no de alguns que a têm visto e a têm em conta. Que vergonha é para mim eu dizer-vos que façais caso de coisa minha! O Senhor bem sabe a confusão com que escrevo muito daquilo que escrevo! Bendito seja Ele, que assim me sofre! As que tiverem, como digo, oração sobrenatural, procurem ler, depois da minha morte, esta relação da minha vida; as que não a tiverem, não há para quê, mas sim esforçarem-se para fazer o que vai dito neste livro e deixem o mais ao Senhor, que é quem o há-de dar, e não vo-lo negará, se não vos ficardes no caminho, mas vos esforçardes até chegar ao fim.

CAPÍTULO 26. Vai declarando o modo de recolher o pensamento. Dá meios para isso. Este capítulo é muito proveitoso para os que começam a ter oração.

1. Voltemos, pois, agora à nossa oração vocal para que se reze de modo que, sem entendermos como, Deus nos dê tudo junto, e - como tenho dito - para se rezar como é de razão.

O exame de consciência, dizer a confissão e persignar-se, já se sabe que há-de ser a primeira coisa.

Procurai logo, filhas, pois estais sós, arranjar companhia. E que melhor que a do mesmo Mestre que ensinou a oração que ides rezar? Representai-vos o mesmo Senhor junto de vós e vede com que amor e humildade Ele vos está ensinando. E crede-me, enquanto puderdes, não estejais sem tão bom Amigo. Se vos acostumardes a trazê-lO ao pé de vós e Ele vir que o fazeis com amor e andais procurando contentá-lO, não podereis - como dizem - afastá-lO de vós; nunca vos faltará; ajudar-vos-á em todos os vossos trabalhos; achá-lO-eis em toda a parte; e pensais que é pouco ter um tal Amigo a vosso lado?

2. Ó irmãs; as que não podeis discorrer muito com o entendimento, nem podeis manter o pensamento sem vos distrairdes, acostumai-vos, acostumai-vos! Vede: eu sei que podeis fazer isto, porque passei muitos anos por este trabalho de não poder sossegar o pensamento numa coisa, e é muito grande este trabalho! Mas sei que o Senhor não nos deixa tão desamparados que, se nos chegamos a Ele a pedir-Lho com humildade, não deixa de nos acompanhar. E, se num ano não o pudermos conseguir, que seja em mais! Não nos doa o tempo em coisa em que tão bem se gasta. Quem corre atrás de nós? Digo que a isto se podem acostumar e trabalhar por andar junto deste verdadeiro Mestre.

3. Não vos peço agora para pensardes n'Ele, nem que formeis muitos conceitos, nem que façais grandes e deliberadas considerações com o vosso entendimento; não vos peço senão que olheis para Ele. Pois, quem vos impede de volver os olhos da alma, mesmo que seja por um instante, se mais não puderdes, para este Senhor? Pois podeis olhar para coisas muito feias, não podereis olhar para a coisa mais formosa que se pode imaginar? E nunca, filhas, o vosso Esposo desvia de vós os olhos, e tem-vos sofrido mil coisas feias e abominações contra Ele, e tudo não tem bastado para que deixe de olhar para vós; e será muito que, desviados os olhos dessas coisas exteriores, olheis para Ele algumas vezes? Olhai que não está aguardando outra coisa, conforme disse à Esposa, senão que olhemos para Ele. Como O quiserdes, O achareis. Tem em tanta conta que O voltemos a olhar, que não falhará por menos diligência Sua.

4. Tal como dizem que há-de fazer a mulher, para ser bem casada com seu marido: se ele está triste, ela se há-de mostrar triste, e alegre se está alegre, ainda que nunca o esteja (vede de que sujeição vos livrastes, irmãs). Isto, em verdade, sem fingimento, faz o Senhor connosco: faz-se Ele o escravo e quer que sejais vós a senhora, e andar Ele a vosso gosto. Se estais alegres, vede-O ressuscitado: só O imaginar como saiu do sepulcro vos alegrará. Com quanta claridade e com que formosura! que majestade! quão vitorioso e alegre! Como quem se saiu tão bem da batalha onde ganhou um tão grande reino, o qual quer todo para vós e a Si mesmo com ele. Será, pois, muito que, a quem tanto vos dá, volvais uma vez os olhos a fitá-lO?

5. Se estais em trabalhos ou tristes, vede-O a caminho do Horto: que aflição tão grande levava em sua alma, pois, com ser a mesma paciência, confessa essa aflição e dela se queixa. Ou vede-O atado à coluna, cheio de dores, Sua carne toda feita em pedaços pelo muito que vos ama; tanto padecer, perseguido por uns, cuspido por outros, negado pelos Seus amigos, desamparado por eles, sem ninguém que seja por Ele, gelado de frio, posto em tanta soledade, que um com o outro vos podeis consolar. Ou vede-O carregado com a cruz, que nem O deixavam tomar fôlego. Olhar-vos-á, com olhos tão formosos e piedosos, cheios de lágrimas, e olvidará Suas dores para consolar as vossas, só por irdes consolar-vos com Ele e voltardes a cabeça a fitá-lO.

6. Ó Senhor do mundo, verdadeiro Esposo meu! - Podeis dizer-Lhe, se o vosso coração se enterneceu de O ver assim, que não só queirais olhar para Ele, mas tenhais gosto de falar com Ele; não orações compostas, mas da pena do vosso coração, que Ele as tem em muita, muita conta -, tão necessitado estais, Senhor meu e meu Bem, que queirais admitir uma pobre companhia como a minha e vejo em Vosso semblante que Vos consolastes comigo? Pois como, Senhor meu, é possível que vos deixem só os anjos e que nem mesmo Vos console o Vosso Pai? Se assim é, Senhor, que tudo isto quereis passar por mim, que é isto o que eu passo por Vós? De que me queixo? Que já tenho vergonha de assim Vos ter visto e quero passar, Senhor, todos os trabalhos que me vierem e tê-los em grande bem para Vos imitar nalguma coisa. Andemos juntos, Senhor; por onde fordes, tenho de ir; por onde passardes, tenho de passar.

7. Pegai, filhas, naquela cruz. Não se vos dê nada que vos atropelem os judeus, para que Ele não vá em tanto trabalho. Não façais caso do que vos disserem. Fazei-vos surdas às murmurações. Tropeçando, caindo com o vosso Esposo, não vos aparteis da cruz, nem a deixeis. Olhai muito ao cansaço com que vai e quanto Seus trabalhos levam vantagem ao que vós padeceis. Por grandes que os queirais pintar, e por muito que os queirais sentir, saireis consoladas deles, porque vereis serem uma farsa comparados com os do Senhor.

8. Direis, irmãs, como poderá ser isto; que se O vísseis com os olhos do corpo no tempo em que Sua Majestade andava no mundo, o faríeis de boa vontade e olharíeis sempre para Ele.

Não acrediteis nisso, pois quem agora não quer fazer um poucochinho de esforço, ao menos para recolher a vista e ver dentro de si a este Senhor (que pode fazê-lo sem perigo, apenas com um nadinha de cuidado), muito menos ficaria ao pé da cruz com Madalena, que via a morte diante dos olhos. Oh! quanto deve ter passado a gloriosa Virgem e esta bendita Santa! Quantas ameaças, quantas palavras más e que descomedidas e quantos encontrões. Pois, que gente cortês era essa com quem se haviam? Sim! eram cortesãos do inferno, eram ministros do demónio. Por certo que devia ter sido terrível coisa o que passaram; mas diante de outra maior dor, não sentiriam a sua.

Assim, irmãs, não vos julgueis prontas para tão grandes trabalhos, se não sois para coisas tão pequenas. Exercitando-vos nestas, podereis chegar a outras maiores.

9. O que podeis fazer para ajuda disto é procurar trazer uma imagem ou retrato deste Senhor que seja a vosso gosto; não para trazê-lo no seio e nunca para ele olhar, mas para falar com Ele muitas vezes, que Ele mesmo vos ensinará o que Lhe haveis de dizer. Assim como falais com outras pessoas, porque hão-de faltar-vos mais as palavras para falardes com Deus? Não o acrediteis, pelo menos eu não vos acreditarei se Vos acostumais; porque é o não tratar com uma pessoa que causa estranheza e o não sabermos como falar com ela, pois parece não a conhecemos até mesmo que seja parente; parentesco e amizades perdem-se com a falta de comunicação.

10. É também grande remédio pegar num bom livro em língua vulgar, mesmo para recolher o pensamento e vir a rezar bem vocalmente; e, pouco a pouco, se vai acostumando a alma, com afagos e artifícios, para não a amedrontar. Fazei de conta que há muitos anos se apartou de seu esposo e, até que queira voltar para sua casa, é bem preciso sabê-lo convencer; que assim somos os pecadores. Está tão acostumada a nossa alma e pensamento, a andar a seu belo prazer, ou pesar, para melhor dizer, que a pobre alma não se entende, e, para que volte a tomar amor a estar em sua casa, é mister muito artifício, e se não é assim e pouco a pouco, nunca faremos nada.

E torno-vos a certificar que, se com cuidado vos acostumais a isto que digo, tirareis tão grande lucro que, embora eu vo-lo queira dizer, não saberei. Chegai-vos para junto deste bom Mestre, muito determinadas a aprender o que vos ensina, e Sua Majestade fará com que não deixeis de sair boas discípulas, nem vos deixará se O não deixais vós. Olhai as palavras que diz aquela boca divina e logo à primeira entendereis o amor que vos tem que não é pequeno bem e consolo para o discípulo ver que seu mestre o ama.

CAPÍTULO 27. Trata do grande amor que o Senhor nos mostrou nas primeiras palavras do «Pai Nosso», e o muito que importa não fazer nenhum caso da nobreza de linhagem as que deveras querem ser filhas de Deus.

1. «Pai Nosso, que estais nos Céus».

Oh! Senhor meu, como pareceis Pai de tal Filho e como o Vosso Filho parece filho de tal Pai! Bendito sejais para todo o sempre! No fim da oração, não seria já tão grande, Senhor, esta mercê? Mas logo, em começando, nos encheis as mãos e fazeis tão grande mercê que seria grande bem o encher-se dela o entendimento para ocupar a vontade de modo a que não pudesse dizer palavra.

Oh! Que bem viria aqui, filhas, a contemplação perfeita! Oh! com quanta razão entraria em si a alma a fim de melhor poder subir acima de si mesma para que este santo Filho lhe desse a entender qual é o lugar onde diz que está Seu Pai, que é nos Céus! Saiamos da terra, filhas minhas, que, mercê como esta, não é razão que se tenha em tão pouco, que depois de entender quão grande é, nos fiquemos na terra.

2. Ó Filho de Deus e Senhor meu! Como dais tantos bens juntos logo à primeira palavra? Já que Vós mesmo Vos humilhais em tão grande extremo até juntar-Vos connosco a pedir, e fazer-Vos irmão de coisa tão baixa e miserável, como é que ainda nos dais, em nome do Vosso Pai, tudo o que se pode dar, pois quereis nos tenha por filhos, e a Vossa palavra não pode faltar?; Assim O obrigais a cumpri-Ia, o que não é pequeno encargo, pois, sendo Pai, nos há-de sofrer, por graves que sejam as ofensas. Se tornamos a Ele como o filho pródigo, terá de perdoar, de nos consolar em nossos trabalhos, de nos sustentar, como fará um Pai, que forçosamente há-de ser melhor que todos os pais do mundo, porque n'Ele não pode haver senão a perfeição de todo o bem e, depois de tudo isto, fazer-nos participantes e herdeiros convosco.

3. Vede, Senhor meu, visto que, com o amor que nos tendes e com a Vossa humildade, nada se Vos põe diante, enfim, Senhor, estais na terra e revestido dela, tendes a nossa natureza, tendes assim algum motivo, parece, para olhar ao nosso proveito; vede que o Vosso Pai está no Céu, Vós o dizeis: razão é, pois, que olheis por Sua honra. Já que Vos tendes oferecido fi a ser desonrado por amor de nós, deixai livre o Vosso Pai; não O obrigueis a tanto por gente tão ruim como eu, que tão mal agradecida Lhe há-de ser.

4. O Bom Jesus! com que clareza mostrastes ser uma mesma coisa com Ele e que a Vossa vontade é a Sua, e a d'Ele a Vossa! Que confissão tão clara, Senhor meu! Que amor é esse que nos tendes! Andastes rodeando e encobrindo ao demónio que sois Filho de Deus, e com o grande desejo que tendes do nosso bem, nada se Vos põe diante para nos fazerdes tão grande mercê. Quem a podia fazer senão Vós, Senhor? Não sei como o demónio, nesta palavra, não entendeu quem éreis, sem lhe ficarem dúvidas. Ao menos bem vejo, meu Jesus, que falastes como Filho dilecto, em Vosso nome e no nosso, e sois poderoso para que se faça no Céu o que dizeis na terra. Bendito sejais para sempre, Senhor meu, que tão amigo sois de dar, que nada se vos põe na frente.

5. Não vos parece, filhas, que é bom este Mestre, para nos mover a que aprendamos com gosto o que nos ensina, pois começa fazendo-nos tão grande mercê? E não vos parece agora que haverá razão, ainda mesmo que digamos vocalmente esta palavra - Pai Nosso - para a deixarmos de entender com o entendimento e assim se faça em pedaços o nosso coração ao ver tanto amor? Pois, que filho há no mundo que não procure saber quem é seu pai, quando o tem bom e de tanta majestade e senhorio? Ainda se o não fora, não me espantaria que não nos quiséssemos dar a conhecer por filhos, porque anda o mundo de tal sorte que, se o pai é de mais baixa condição que o filho, este não se tem por honrado em o reconhecer por pai.

6. Isto não vem para aqui, porque, nesta casa, praza a Deus nunca haja lembrança duma coisa destas; seria um inferno! A que for mais, tenha menos a seu pai na boca: todas hão-de ser iguais.

Oh! Colégio de Cristo em que tinha mais mando São Pedro, com ser pescador e assim o quis o Senhor, que São Bartolomeu que era filho de rei! Sabia Sua Majestade o que se havia de passar no mundo a respeito de quem era de melhor terra, o que não é outra coisa senão debater se será melhor para adobes ou para taipas. Valha-me Deus! que grande trabalho este em que andamos! Deus vos livre, irmãs, de semelhantes contendas, ainda que seja a brincar. Espero em Sua Majestade que assim fará. E, quando alguma coisa disto houvesse em alguma, ponha-se-lhe logo o remédio e ela tema não ser um Judas entre os Apóstolos; dêem-lhe penitências até que entenda que nem mesmo terra muito vil merecia ser.

Tendes bom Pai, que vos dá o Bom Jesus. Não se conheça aqui outro para se falar dele. E procurai, minhas filhas, ser tais que mereçais consolar-vos com Ele e lançar-vos em seus braços. Já sabeis que não vos afastará de Si, se fordes boas filhas; quem, pois, não procurará não perder tal Pai?

7. Oh! valha-me Deus! quanto tendes aqui com que vos consolar; mas para não me alongar mais, quero deixá-lo aos vossos entendimentos; que, por desbaratado que ande o pensamento, entre tal Filho e tal Pai, forçosamente há-de estar o Espírito Santo; que Ele enamore vossa vontade, e vo-la prenda tão grandíssimo amor, se para isto não bastar tão grande interesse.

CAPÍTULO 28. Declara o que é oração de recolhimento e dá alguns meios para se acostumarem a ela.

1. Agora vede o que diz o vosso Mestre: «Que estais no Céu».

Pensais que importa pouco saberdes que coisa é o Céu e onde se deve procurar vosso Sacratíssimo Pai? Pois eu digo-vos que, para entendimentos distraídos, importa muito, não só crer nisto, mas procurar entendê-lo por experiência, porque é uma das coisas que muito prende o entendimento e faz recolher a alma.

2. Já sabeis que Deus está em toda a parte. Ora está claro que, onde está o rei, ali está, como dizem, a corte. Enfim, onde está Deus, é o Céu. Sim; sem dúvida o podeis crer: onde está Sua divina Majestade, está toda a glória. Vede que Santo Agostinho diz que O buscava em muitas partes e O veio a encontrar dentro de si mesmo. Pensais que importa pouco a uma alma distraída entender esta verdade e ver que, para falar a seu Eterno Pai, não precisa de ir ao Céu, nem para se consolar com Ele é mister falar em voz alta? Por muito baixo que fale, está tão perto que nos ouvirá; nem é preciso asas para ir em busca d'Ele; basta pôr-se em recolhimento e olhá-lO dentro de si mesma, e não se estranhar de tão bom Hóspede; mas falar-Lhe com grande humildade, como a um pai; pedir-lhe como a pai, contar-Lhe os seus trabalhos, pedir-Lhe remédio para eles, entendendo que não é digna de ser Sua filha.

3. Deixe-se de uns acanhamentos que têm algumas pessoas e pensam ser humildade. Sim; não está a humildade em que, se o rei vos faz uma mercê, não a recebais, mas em aceitá-la e entender quão excessiva é e alegrai-vos com ela. Engraçada humildade, que eu tenha ao Imperador do Céu e da terra em minha casa, que a ela vem para me fazer mercê e recrear-se comigo, e, por humildade, não Lhe queira responder nem estar com Ele, nem aceitar o que me dá, senão que O deixe só! E estando-me a dizer e a rogar que Lhe peça, por humildade eu fique pobre, e mesmo O deixe ir, por ver que não acabo de me determinar!

Não cuideis, filhas, saber destas humildades, mas tratai com Ele como a pai e como a irmão e como a Senhor e como a Esposo; às vezes de uma maneira, outras vezes de outra, que Ele vos ensinará o que deveis fazer para O contentar. Deixai-vos de ser tolas; pedi a palavra e falai-Lhe, pois é vosso Esposo, que vos trate como tal.

4. Por este modo de rezar, ainda que seja vocalmente, recolhe-se o pensamento com muita mais brevidade e é oração que traz consigo muitos bens. Chama-se de recolhimento, porque a alma recolhe todas as potências e entra dentro de si com o seu Deus e o seu divino Mestre vem ensiná-la e dar-lhe oração de quietude, com mais brevidade que de qualquer outro modo. Porque, metida consigo mesma, pode pensar na Paixão e representar ali ao Filho e oferecê-lO ao Pai e não cansar o entendimento andando-O a buscar no monte Calvário, no Horto e atado à Coluna.

5. Aquelas que desta maneira se puderem encerrar neste pequeno céu da nossa alma, onde está Aquele que o fez, e também a terra, e se acostumarem a não olhar nem estar onde se distraiam estes nossos sentidos exteriores, creiam que levam excelente caminho e que não deixarão de chegar a beber a água da fonte, porque caminham muito em pouco tempo. É como quem vai num navio que, com um pouco de bom vento, se põe no fim da viagem em poucos dias, e os que vão por terra tardam mais.

6. Estes, como se diz, já se fizeram ao mar; pois, ainda que de todo não tenham deixado a terra, naquele momento fazem o que podem para livrar-se dela, recolhendo os seus sentidos em si mesmos. Se é verdadeiro o recolhimento, sente-se muito claramente, porque produz um certo efeito que não sei como dar a entender, mas quem o tiver o entenderá. É que a alma vê que todas as coisas deste mundo não são mais do que um jogo e levanta-se, por assim dizer. Ergue-se, na melhor altura, e faz como aqueles que entram num castelo forte, a fim de não temerem os contrários. É um retirar-se os sentidos destas coisas exteriores e dar-lhes de mão de tal maneira que, sem saber como, se lhe cerram os olhos para não as ver e para mais se despertar a vista dos da alma.

Assim, quem vai por estes caminhos, quase sempre que reza, tem fechados os olhos e é admirável costume para muitas coisas, pois é fazer-se força para não olhar as de cá da terra. Isto, ao princípio, porque depois não é preciso; maior a terá então de fazer para os abrir. Parece que se vê a alma fortalecer-se e esforçar-se à custa do corpo, e que o deixa só e enfraquecido, e ela abastece-se ali para ir contra ele.

7. E, ainda que a princípio não se entenda isto por não ser tanto - pois há mais e menos neste recolhimento -, se nos acostumamos (embora a princípio dê trabalho, porque o corpo pugna pelos seus direitos, sem entender que bate em si mesmo não se dando por vencido), se o fazemos alguns dias e assim nos esforçamos, ver-se-á claramente o ganho e, em começando a rezar, logo se entenderá que as abelhas vêm para a colmeia e entram nela para fabricar o mel, e isto sem cuidado da nossa parte. É que o Senhor quis, em paga do tempo que tiveram esse cuidado, haja merecido ficar a alma e a vontade com tal senhorio que, em fazendo sinal, sem mais, de se querer recolher, lhe obedeçam os sentidos e se acolham a ela. E, embora depois tornem a sair, é uma grande coisa terem-se já rendido, porque saem como cativos e escravos e não fazem o mal que antes poderiam fazer; e, em voltando a chamá-los a vontade, vêm com mais presteza, até que, com muitas destas entradas, o Senhor quer que se fiquem já de todo em contemplação perfeita.

8. Entenda-se bem isto que fica dito, porque, embora pareça obscuro, o entenderá quem o quiser pôr por obra.

Assim, caminham por mar; e, pois tanto nos vaiem não ir tão devagar, falemos um pouco de como nos acostumaremos a tão bom modo de proceder. Estão mais a coberto de muitas ocasiões; pega-se-lhes mais depressa o fogo do amor divino porque, com um poucochinho que soprem com o entendimento, como estão junto do mesmo fogo, uma centelhazita que lhes toque, a alma toda se abrasará. Como não há embaraços do exterior, a alma está a sós com o seu Deus, tem grandes disposições para se entender.

9. Façamos, pois, de conta que dentro de nós há um palácio de enormíssima riqueza, todo feito de ouro e pedras preciosas, enfim, como sendo para tal Senhor, e vós sois parte para que este edifício seja tal, como na verdade é; pois não há edifício de tanta formosura como uma alma limpa e cheia de virtudes, e quanto maiores mais resplandecem as pedras, e neste palácio está este grande Rei, que houve por bem ser vosso Pai, e está em trono de grandíssimo preço, que é o vosso coração.

10. Parecerá isto, a princípio, coisa impertinente - digo, o fazer esta ficção para vo-la dar a entender - e poderá ser que aproveite muito, a vós em especial; porque, como nós as mulheres não temos letras, tudo isto é preciso para que entendamos com verdade que dentro de nós há outra coisa mais preciosa, sem comparação alguma, que o que vemos por fora. Não nos imaginemos ocas e vazias interiormente. E praza a Deus sejam só as mulheres que andem com este descuido, pois tenho por impossível, se tivéssemos cuidado de nos lembrarmos que temos dentro de nós tal Hóspede, que nos déssemos tanto às coisas do mundo, porque veríamos como são baixas, em comparação das que dentro possuímos. Pois, que outra coisa faz uma fera que, em vendo o que lhe contenta a vista, farta a sua fome na presa? Sim, que alguma diferença há-de haver entre ela e nós!

11. Rir-se-ão talvez de mim, e dirão que isto está bem de ver, e terão razão; porque para mim foi isto obscuro durante algum tempo. Bem compreendia que tinha alma, mas o que merecia esta alma, e Quem estava dentro dela, não o entendia, porque eu mesma me tapava os olhos com as vaidades da vida para o não ver. Que, a meu parecer, se eu então entendera, como agora entendo, que neste pequenino palácio da minha alma cabe tão grande Rei, não O deixara tantas vezes só, algumas ter-me-ia ficado com Ele; mais, procuraria que não estivesse tão suja. Mas, que coisa de tanta admiração! Quem enchera mil mundos e muitos, muitos mais com a Sua grandeza, encerrar-se em coisa tão pequena! É que, em verdade, como é o Senhor, traz consigo a liberdade e, como nos ama, faz-se à nossa medida.

12. Quando uma alma começa, a fim de que ela não se alvorote vendo-se tão pequena para conter em si tanta grandeza, o Senhor não Se dá a conhecer até que a vá alargando pouco a pouco, conforme ao que entende é mister para o que nela quer pôr. Por isso digo que traz consigo a liberdade, pois tem o poder de tornar grande todo este palácio. O ponto está em que Lho demos como Seu, com toda a determinação, e Lho desembaracemos, para que possa pôr e tirar como em coisa própria. E tem razão Sua Majestade; não Lha neguemos. Como Ele não quer forçar a nossa vontade, toma o que Lhe damos, mas não Se dá a Si de todo, até que de todo nos demos a Ele.

Isto é coisa certa e, porque importa muito, eu vo-lo recordo tantas vezes; nem opera na alma, como quando de todo, sem embaraços, é Sua, nem sei como possa operar: é amigo de todo o concerto. Ora, se enchemos o palácio de gente baixa e de bagatelas, como há-de caber o Senhor com a Sua corte? Muito faz em estar um poucochinho entre tanto embaraço.

13. Pensais, filhas, que vem sozinho? Não vedes o que diz Seu Filho: «que estais nos Céus?» Pois, a um tal Rei, certamente que não o deixam só os cortesãos; mas estão com Ele rogando-Lhe por todos nós, em proveito nosso, porque estão cheios de caridade. Não penseis que é como cá na terra que, se um senhor ou prelado favorece a alguém para algum fim, ou porque assim quer, logo são as invejas e o ser malquisto o pobre do homem, sem nada Ter feito aos demais.

CAPÍTULO 29. Prossegue dizendo os meios a empregar para procurar esta oração de recolhi mento. Diz o pouco em que se há-de ter o ser favorecidas pelos prelados.

1. Fugi, filhas, por amor de Deus, de fazerdes caso destes favores dt prelados. Procure cada uma fazer o que deve e, se o prelado não lho agra decer, segura pode estar que lho pagará e agradecerá o Senhor. Sim; não viemos aqui a buscar prémio nesta vida. Sempre o pensamento no que per, dura, e das coisas de cá de baixo nenhum caso façamos, pois, ainda mesmo para o tempo que se vive, não é durável; hoje, a prelada está bem com uma amanhã, se vir em vós uma virtude a mais, estará melhor convosco; e, se não, pouco fará ao caso. Não deis lugar a estes pensamentos, que às vezes começam por pouco e podem desassossegar-vos muito; atalhai-os, pen. sando que não é aqui o vosso reino e que bem depressa tudo terá fim.

2. Mas isto mesmo é fraco remédio, e não de muita perfeição. O melhor é que isto assim dure e vos vejais desfavorecida e abatida e queirais continuar a sê-lo por amor do Senhor que está convosco. Ponde os olhos em vós e olhai-vos interiormente, como fica dito; achareis o vosso Mestre, que não vos faltará; mas quanto menos consolações exteriores, mais mercês vos fará. É muito piedoso, e a pessoas aflitas e desfavorecidas jamais falta, se só n'Ele confiam. Assim o diz David: o Senhor está com os atribulados. Ou credes isto, ou não: se o credes, porque vos atormentais?

3. Ó Senhor meu! se deveras Vos conhecêssemos, não se nos daria nada de nada, porque dais muito aos que de todo se querem fiar de Vós! Crede, amigas: grande coisa é entender que isso é verdade, para ver que os favores de cá são todos mentira quando desviam a alma, um tanto que seja, de andar dentro de si. Oh! valha-me Deus! quem vos fizesse entender isto! Não eu, por certo; sei que, devendo eu mais que ninguém, não acabo de o entender, como se deve entender.

4. Pois, tornando ao que dizia, quisera eu saber declarar como esta companhia santa acompanha o nosso Companheiro, o Santo dos Santos, sem impedir a soledade que têm a alma e seu Esposo, quando, dentro de si, ela quer entrar neste paraíso com o seu Deus, e cerra a porta atrás de si a tudo o que é do mundo. Digo «quer», porque entendei que isto não é coisa sobrenatural , senão que está no nosso querer e podemos fazê-lo, com o favor de Deus pois, sem ele, não se pode nada, nem mesmo podemos ter um bom pensamento. Porque isto não é silêncio das potências; é encerramento delas dentro da própria alma.

5. Vai-se ganhando isto de muitas maneiras, como está escrito em alguns livros: temos de nos desocupar de tudo para nos chegarmos interiormente a Deus e, ainda nas mesmas ocupações, retirarmo-nos em nós mesmos. Ainda que seja só por um momento, aquele recordar de que tenho companhia dentro de mim, é de grande proveito. Enfim, vamo-nos acostumando a gostar que não é mister falar-Lhe em voz alta, porque Sua Majestade dará a sentir como está ali.

6. Desta sorte, rezaremos vocalmente com muito sossego e livrar-nos-emos de trabalhos; porque, por pouco tempo que nos esforcemos a nós mesmos para estar junto deste Senhor, Ele nos entenderá por sinais, de maneira que, se havíamos de dizer muitas vezes o «Pai Nosso, bastará uma só para nos entender. É muito amigo de nos tirar trabalho; ainda mesmo que numa hora não o digamos mais que uma vez, logo que entendamos que estamos com Ele, e o que Lhe pedimos, e a vontade que Ele tem de nos dar, e com que boa vontade está connosco, não é amigo de que estejamos a partir a cabeça falando-Lhe muito.

7. O Senhor o ensine às que não o sabem, que eu por mim confesso que nunca soube o que era rezar com satisfação até que o Senhor me ensinou este modo. E sempre encontrei tanto proveito neste costume de me recolher dentro de mim, que isto me fez alongar tanto.

Concluo dizendo que, quem o quiser adquirir- pois, como digo, está na nossa mão -, não se canse de se acostumar ao que fica dito, que é assenhorear-se pouco a pouco de si mesmo, não se perdendo de balde, mas sim ganhando-se a si para si, porque é tirar proveito dos seus sentidos para a vida interior. Se falar, procure lembrar-se que tem dentro de si mesmo com quem falar; se ouvir, lembre-se que deve ouvir a quem de mais perto lhe fala. Enfim, terem conta que pode, se quiser, não se apartar nunca de tal companhia, e pesar-lhe quando, por muito tempo, deixa a seu Pai sozinho, pois necessita d'Ele. Se puder, muitas vezes ao dia; se não puder, seja poucas. Logo que se acostume, sairá com lucro, ou mais cedo ou mais tarde. Depois que o Senhor lho der, não o há-de querer trocar por nenhum tesouro.

8. Pois nada se aprende sem um pouco de trabalho, por amor de Deus, irmãs, dai por bem empregado o cuidado que nisto dispensardes; e eu sei que, se o tiverdes, em um ano e talvez em meio, saireis com lucro, com o favor de Deus. Vede quão pouco tempo para tão grande ganho, ou seja, o de pôr um bom fundamento para que, se o Senhor vos quiser levantar a grandes coisas, encontre em vós disposição, achando-vos junto de Si. Praza a Sua Majestade não consinta que nos apartemos da Sua presença, amen.

CAPÍTULO 30. Diz quanto importa entender o que se pede na oração. Trata destas palavras do «Pater Noster»: «Santificetur nomen tuum, adveniat regnum tuum». Aplica-as à oração de quietude e começa a explicá-la.

1. Quem haverá, por disparatado que seja, que, quando pede alguma coisa a uma pessoa de respeito, não leve já pensado como lhe há-de pedir para que a contente e não lhe seja molesto, e o que lhe vai pedir, e para que necessita o que lhe há-de dar, especialmente se pede coisa assinalada, como a que nos ensina a pedir o nosso bom Jesus? Uma coisa, me parece, é para notar: Não poderíeis, Senhor meu, concluir com uma palavra e dizer: «Dai-nos, Pai, o que nos convém» pois, para quem tão bem entende tudo, não parece fora preciso dizer mais?

2. Ó Sabedoria eterna! Entre Vós e Vosso Pai isto bastava, e assim pedistes no Horto; mostrastes a Vossa vontade e temor, mas entregastes-Vos à Sua. Mas conheceis-nos, Senhor meu, e sabeis que não estamos tão rendidos como Vós o estáveis à vontade de Vosso Pai, e vistes que era mister pedir coisas determinadas, para que nos detivéssemos a ver se é bem a nosso gosto o que pedimos e, não sendo, não Lho peçamos. Porque, segundo a nossa maneira de ser, se não nos dão o que queremos, com este livre alvedrio que temos, não admitiremos o que o Senhor nos der, porque, ainda que seja melhor, enquanto não nos vemos com o dinheiro nas anãos, nunca julgamos ver-nos ricos.

3. Oh! valha-me Deus! o que faz ter tão adormecida a fé para uma e outra coisa, que nunca acabamos de entender quão certo teremos o castigo, nem como certo é o prémio! Por isso é bem, filhas, que entendais o que pedis no «Pai Nosso», para que, se o Pai Eterno vo-lo der, não Lhe vireis a cara e pensai muito bem se vos convém e, se não, não Lho peçais, mas pedi que Sua Majestade vos ilumine; porque estamos cegos e com fastio para comer os manjares que vos hão-de dar a vida, e não para os que hão-de levar à morte, e que morte tão perigosa e tão para sempre!

4. Pois diz o bom Jesus que digamos estas palavras em que pedimos que venha a nós um tal reino: «Santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino».

Agora vede, filhas, que sabedoria tão grande a do Nosso Mestre! Considero eu aqui, e é bem que entendais o que pedimos com este reino. Como Sua Majestade viu que, conforme ao poucochinho que podemos por nós mesmos, não podíamos santificar, nem louvar, nem engrandecer, nem glorificar, este santo nome do Pai Eterno, de maneira a que se fizesse como é de razão, se Sua Majestade não providenciasse dando-nos aqui o Seu reino, o bom Jesus pôs assim estas duas petições uma ao pé da outra, para que entendamos, filhas, o que pedimos, e quanto importa para nós importunar por isso e fazer o que pudermos para contentar a Quem no-lo há-de dar. Quero dizer-vos aqui o que entendo. Se com isto não vos contentardes, fazei vós outras considerações: licença nos dará o nosso Mestre, .logo que em tudo nos sujeitemos ao que ensina a Igreja; e assim o faço eu aqui.

5. Ora, pois, o grande bem que me parece a mim que há no reino do Céu, com outros muitos, é o de já não ter cuidado com coisa alguma da terra, mas um sossego e glória em si mesmos, um alegrar-se que se alegrem todos, uma paz perpétua, uma grande satisfação no íntimo de si mesmos, que lhes vem de ver que todos santificam e louvam ao Senhor, e bendizem o Seu nome e ninguém O ofende. Todos O amam e a própria alma não atende a outra coisa senão a amá-lO, nem pode deixar de O amar, porque O conhece. E assim O amaríamos aqui, ainda que sem ser com esta perfeição, nem totalmente; mas se O conhecêssemos, ama-lO-íamos muito por outro modo de que O amamos.

6. Parece que vou dizer que devemos ser anjos para Lhe fazer esta petição e rezar bem vocalmente. Bem o quisera o nosso divino Mestre, pois tão alta petição nos manda pedir; e é bem certo que não nos disse para pedir coisas impossíveis, que possível seria, com o favor de Deus, chegar a isto uma alma ainda neste desterro, embora não na mesma perfeição em que estão as que saíram deste cárcere, porque andamos no mar e trilhamos este caminho; mas há momentos em que, de cansados de andar, o Senhor os põe num sossego de potências e quietude da alma, em que, como por sinais, lhes dá claramente a entender ao que sabe o que o Senhor dá àqueles a quem leva ao Seu reino. E àqueles a quem lhes dá aqui, como pedimos, dá-lhes penhores para que eles tenham grande esperança de ir gozar perpetuamente do que aqui lhe dá a tragos.

Se não dissésseis que trato de contemplação, vinha aqui bem a propósito falar nesta petição um pouco do princípio da pura contemplação, que aqueles que a têm chamam oração de quietude; mas, como digo que trato de oração vocal, parece não dizer uma coisa com a outra a quem não 0 souber, e eu sei que diz. Perdoai-me, que o quero dizer, porque sei que muitas pessoas, rezando vocalmente - como já foi dito - as levanta Deus, sem elas entenderem como, a subida contemplação. Conheço uma pessoa que nunca pode ter senão oração vocal e junto com esta tinha tudo; e, se assim não rezava, ficava-lhe o entendimento tão perdido, que não o podia sofrer. Mas, tal como esta, tivéssemos todas a nossa oração mental! Em certos «Pai nossos» que ela rezava em honra das vezes com que o Senhor derramou sangue - e em mais um pouco que rezava -se ficava algumas horas. Veio uma vez ter comigo muito contristada, que não sabia ter oração mental, nem podia contemplar, mas só rezava vocalmente. Perguntei-lhe o que rezava e vi que, junto com o «Pai Nosso», tinha pura contemplação, e o Senhor a levantava até juntá-la consigo em união; e bem se percebia em suas obras receber tão grandes mercês, porque preenchia muito bem a vida. Assim, louvei ao Senhor e tive inveja da sua oração.

Se isso é verdade, - como o é -, não penseis, os que sois inimigos de contemplativos, que estais livres de o ser, se rezais as orações vocais como se devem rezar, tendo a consciência limpa.

CAPÍTULO 31. Prossegue na mesma matéria. Declara o que é oração de quietude. Dá algum avisos para os que a têm. É muito para notar.

1. Quero todavia, filhas, declarar - tal como o tenho ouvido dizer, ou c Senhor tem querido dar-mo a entender e porventura para que vo-lo diga esta oração de quietude, onde, me parece a mim, o Senhor começa, como já disse, a dar a entender que ouve a nossa petição, e começa, já aqui neste mundo, a dar-nos o Seu reino, para que deveras O louvemos e santifiquemos o Seu Nome e procuremos que todos o façam.

2. É já coisa sobrenatural e que não podemos procurar por nós mesmos, por mais diligências que façamos; porque é um pôr-se a alma em paz, ou pô-la o Senhor, para melhor dizer, com a Sua presença, como fez ao justo Simeão, porque todas as potências se sossegam. Entende a alma, de um modo muito diverso do entender com os sentidos exteriores, que já estcali junto, mesmo ao pé de Deus, que, com mais um poucochinho, chegará a estar feita uma mesma coisa com Ele por união. Isto, não porque O vejo com os olhos do corpo, nem com os da alma. O justo Simeão também não via do glorioso Menino pobrezinho, mais do que as faixas em que O levavam envolto e a pouca gente que ia com Ele na procissão, que mais puder, julgá-lO filho de gente pobre, que filho do Pai celestial; mas o mesmc Menino deu-se-lhe a conhecer. E é assim que entende aqui a alma, embora, não com essa clareza; porque até mesmo ela não entende como o entende senão que se vê no reino, ou ao menos junto do Rei que lho há-de dar, e parece que a própria alma está com tal respeito que nem mesmo ousa pedir É como um amortecimento interior e exterior, pois não quereria o homem exterior (digo o corpo, para que melhor me entendais), não quereria, digo, mexer-se, mas, como quem já chegou quase ao fim do caminho, descansa para melhor poder voltar a caminhar; para isso ali se lhe redobram as forças.

3. Sente-se grandíssimo deleite no corpo e grande satisfação na alma. Está tão contente, só de se ver junto á fonte que, ainda mesmo sem beber, já está satisfeita. Não lhe parece que haja mais a desejar. As potências sossegadas, não se quereriam bulir, tudo lhes parece as estorva de amar, ainda que não estejam tão perdidas que não possam pensar ao pé de quem estão, porque as duas estão livres. Aqui só a vontade é a cativa e, se alguma pena pode ter, estando assim, é por ver que há-de voltar a ter liberdade. O entendimento não quereria entender mais de uma coisa, nem a memória ocupar-se em mais. Aqui vêem que só esta é necessária, todas as mais perturbam. Não quereriam que o corpo se movesse, porque lhes parece que hão-de perder aquela paz e assim não ousam mexer-se; dá-lhes pena o falar; em dizer «Pai Nosso» uma vez, vai-se-lhes uma hora. Estão tão perto que vêem que se entendem por sinais. Estão no palácio, junto do seu Rei, e vêem que Ele já lhes começa a dar aqui o Seu reino. Não lhes parece estar no inundo nem o quereriam ver nem ouvir, senão a seu Deus. Nada lhes dá pena, nem parece que possa dar. Enfim, enquanto isto dura, com a satisfação e deleite que em si têm, estão tão embebidas e absortas, que não se lembram que haja mais a desejar, mas de boa vontade diriam com São Pedro: «Senhor, façamos aqui três moradas».

4. Algumas vezes, nesta oração de quietude, faz Deus outra mercê bem difícil de entender, se não há grande experiência; mas, se houver alguma, logo o entenderá aquela que a tiver e dar-vos-á grande consolação saber o que é, e creio que muitas vezes faz Deus esta mercê juntamente com estoutra. Quando é grande, e por muito tempo, esta quietude, parece-me a mim que, se a vontade não estivesse presa a alguma coisa, não poderia permanecer tanto tempo naquela paz; porque acontece que nos vemos andar um dia ou dois com esta satisfação e não nos entendemos - digo os que a têm -, e vêem, na verdade, que não estão cônscios no que fazem falta-lhes o melhor, que é a vontade, que, a meu parecer, está unida con Deus, e deixa as outras potências livres para que atendam às coisas do Sei serviço. Para isto, têm então muita maior habilidade; mas para tratar coisa do mundo estão entorpecidas e, por vezes, como que aparvalhadas.

5. É grande mercê esta a quem o Senhor a faz, porque estão juntas vide activa e contemplativa. De todo em todo se serve então ao Senhor, porque a vontade se fica em seu ofício sem saber como age e em sua contemplação e as outras duas potências servem no que é ofício de Marta; assim ela e Maria andam juntas.

Eu sei de uma pessoa a quem o Senhor punha assim muitas vezes e não sabia entender-se a si mesma, e perguntou-o a um grande contem plativo, que lhe disse ser muito possível, que lhe acontecia a ele o mesme Assim penso: pois a alma está tão satisfeita nesta oração de quietude, que a potência da vontade deve estar quase de contínuo unida Àquele que somente a pode satisfazer.

6. Parece-me que será bom dar aqui alguns avisos para aquelas de entre vós, irmãs, que o Senhor trouxe até aqui, só por Sua vontade; e sei que são algumas.

O primeiro é que, como se vêem naquele contento e não sabem como lhes veio, vêem pelo menos, que por si mesmas não o podem alcançar dá-lhes esta tentação de lhes parecer que poderão retê-lo e assim até nen mesmo respirar quereriam. E é tolice, pois assim como não podemos faze com que amanheça, tão-pouco podemos que deixe de anoitecer. Já não é obra nossa, é sobrenatural e coisa muito sem nós a podermos adquirir. Con o que mais poderemos deter esta mercê é entender claramente que nela nada podemos tirar nem pôr, mas recebê-la, como indigníssimos de a merecer, com acções de graças; e estas não com muitas palavras, mas com um erguer de olhos, como o publicano.

7. É bom procurar mais soledade para dar lugar ao Senhor e deixar a Sua Majestade agir como em coisa sua; e, quando muito, dizer uma palavra de tempos a tempos, suave, como quem dá um sopro na vela, quando vê que se vai a apagar, para a tornar a atear; mas se está a arder, não serve senão para mais a apagar, a meu parecer. Digo que seja suave o sopro, para que, em concertar muitas palavras com o entendimento, não se ocupe a vontade.

8. E notai bem, amigas, este aviso que agora vos quero dar, porque vos vereis muitas vezes às voltas com estas duas potências sem vos poderdes valer. Pois acontece estar a alma com grandíssima quietude, e andar com o entendimento ou pensamento tão no ar, que nem parece ser em sua casa o que ali se passa; e assim o parece então: não está senão como que hóspede em casa alheia e buscando outras pousadas onde estar; aquela não o contenta, por mal saber que coisa é estarem um mesmo ser. Porventura sou só eu, que não devem os outros ser assim; de mim falo, que algumas vezes desejo morrer, porque não posso remediar esta diversidade do entendimento. Outras vezes parece ter assento em sua casa e acompanha a vontade; e quando todas as três potências se concertam entre si, é uma glória. Como dois casados que, quando se amam, um quer o que o outro quer; mas, se são mal casados, já se vê o desassossego que o marido dá à mulher. Nestas condições, quando a vontade se vir nesta quietude, não faça mais caso do entendimento que de um louco, porque se o quer trazer a si, forçosamente se há-de ocupar e inquietar algum tanto. E neste ponto de oração tudo será trabalhar e não ganhar mais, mas sim perder o que lhe dá o Senhor sem qualquer trabalho seu.

9. E adverti muito a esta comparação, que me parece quadra muito bem. Está a alma como uma criança que ainda mama, quando está aos peitos de sua mãe, e esta, sem que a criança mova os lábios, lhe deita o leite na boca para a regalar. Assim é nisto: sem trabalho do entendimento está a vontade amando e quer o Senhor que, sem o pensar, entenda que está com Ele, e que só engula o leite que Sua Majestade lhe põe na boca e goze daquele suavidade; conheça que lhe está o Senhor fazendo aquela mercê e goze de a gozar; mas não queira entender corno a goza, e o que é que goza: descuide-se por então de si mesma, pois Aquele que está junto dela não se descuidará de ver o que lhe convém. Porque, se vai pelejar com o entendimento para que, trazendo-o consigo, ele tome parte no seu gozo, não O pode de forma alguma. Forçosamente deixará cair o leite da boca, e perde aquele mantimento divino.

10. Nisto difere esta oração de quando toda a alma está unida com Deus; porque, então, nem mesmo tem o trabalho de engolir o mantimento; dentro de si, sem entender como, lho põe o Senhor. Aqui, parece querer que a alma trabalhe um poucochinho, ainda que é com tanto descanso, que quase não se sente. Quem a atormenta é o entendimento; o que este não faz quando é união de todas as três potências, porque então as suspende Aquele que as criou, e com o gozo que lhes dá, ocupa todas sem elas saberem como, nem o poderem entender.

Assim, como digo, em sentindo em si esta oração, que é um contentamento grande e quieto da vontade, ainda que sem poder determinar designadamente de quê, a alma bem distingue que é muito diferente dos contentamentos cá da terra, e não bastaria assenhorear o mundo com todos os seus contentos para sentir dentro de si aquela satisfação, que é no interior da vontade, - que os outros contentos da vida parece-me a mim que os goza o exterior da vontade, como que a sua casca, digamos assim -. Quando, pois, a alma se vir neste tão subido grau de oração (que é, como já disse, muito conhecidamente sobrenatural), se o entendimento - ou pensamento, para melhor me explicar - chegar aos maiores desatinos do mundo, ria-se dele e deixe-o como a néscio, e fique-se na sua quietude, que ele vai e vem; aqui é senhora e poderosa a vontade; ela o trará a si, sem que vos ocupeis disso. E se quiser trazê-lo à força de braços, perde a fortaleza que tem para o combater, que lhe vem de comer e receber aquele divino sustento, e nem um nem outro ganharão nada, antes perderão ambos. Dizem que quem muito quer abarcar, tudo perde, e assim me parece será também aqui.

A experiência dará isto a entender, pois, a quem não a tem, não me espanto que isto lhe pareça muito obscuro e coisa não necessária; mas já disse que, por pouca experiência que tenha, o entenderá e poderá aproveitar-se disto, e louvará ao Senhor, porque foi servido em que eu acertasse em dizê-lo aqui.

11. Concluamos, pois, agora: posta a alma nesta oração, já parece ter-lhe concedido o Pai Eterno a Sua petição de lhe dar aqui o Seu reino. Oh! Ditosa petição, em que tanto bem pedimos sem o entendermos! Ditosa maneira de pedir! Por isso quero eu, irmãs, que olhemos como rezamos esta oração do Pai Nosso e todas as outras orações vocais. Porque, feita por Deus esta mercê, descuidar-nos-emos das coisas do mundo que, em chegando o Senhor dele, tudo lança fora. Não digo que todos os que a tiverem estejam forçosamente neste desapego total do mundo; mas quereria, ao menos, que entendessem quanto lhes falta, se humilhem e procurem ir-se desapegando de tudo, porque, se não o fazem, ficar-se-ão por aqui. E alma a quem Deus dá tais prendas, é sinal que a quer para muito: se não for por sua culpa, irá muito adiante. Mas se Ele vê que, metendo-lhe como em casa o reino do Céu, ela se torna para a terra, não só não lhe mostrará os segredos que há no Seu reino, mas serão poucas as vezes em que lhe fará este favor e por breve tempo.

12. Bem pode ser que eu me engane nisto, mas vejo-o e sei que é assim, e tenho para mim que é por isso que não há muitos mais espirituais. Porque, como não correspondem nos serviços, conforme a tão grande mercê, pois não tornam a preparar-se para recebê-la, mas tiram das mãos do Senhor a vontade que já Lhe tinham dado por Sua e a põem em coisas baixas, vai-se Ele a buscar aonde O queiram para dar mais, ainda que não tire de todo o que deu, quando vivem com a consciência limpa.

Mas há pessoas, e eu fui uma delas, que as está o Senhor enternecendo e dando-lhes inspirações santas, e luz do que tudo é, e enfim, dando-lhes este reino e pondo-as nesta oração de quietude, e elas fazendo-se surdas. Porque são tão amigas de falar e de dizer muitas orações vocais muito depressa, como quem quer acabar uma tarefa, pois já tomaram à sua conta o dizê-las todos os dias, que embora, - como digo -, o Senhor lhes ponha o Seu reino nas mãos, não o recebem; pensam que, com o seu rezar, fazem melhor, e distraem-se.

13. Isto, não o façais, irmãs, mas ficai de sobreaviso, para quando o Senhor vos fizer esta mercê. Olhai que perdeis um grande tesouro, e que fazeis muito mais com uma palavra do Pai Nosso, dita de quando em quando, do que em dizê-lo muitas vezes à pressa. Aquele a quem pedis, está muito perto de vós, não deixará de vos ouvir. Crede que este é o verdadeiro louvar e santificar o Seu nome, porque já, como de Sua casa, glorificais ao Senhor e O louvais com mais afecto e desejo, e parece que não podeis deixar de O servir.

CAPÍTULO 32. Trata destas palavras do Pai Nosso: «Fiat voluntas tua sicut in coelo et in terra», e o muito que faz quem diz estas palavras com toda a determinação, e como o Senhor lho paga bem.

1. Agora que o nosso bom Mestre pediu por nós e nos ensinou a pedir coisa de tanto valor, que encerra em si todas as coisas que cá podemos desejar, e nos fez tão grande mercê como a de nos fazer irmãos Seus, vejamos o que Ele quer que demos a Seu Pai e o que Lhe oferece em nosso nome e o que nos pede, pois é de razão que O sirvamos em alguma coisa por tão grandes mercês. Ó bom Jesus, que recebeis tão pouco da nossa parte, como pedis tanto para nós! Sim, que isso que damos, em si é nada para tanto que se deve, e para tão grande Senhor! Mas certo é, Senhor meu, que não nos deixais sem nada, e que damos tudo quanto podemos, se o damos como dizemos.

2. «Seja feita a Vossa vontade; e como é feita no Céu, assim se faça na terra».

Bem fizestes, nosso bom Mestre, em fazer esta última petição, para que possamos cumprir aquilo que dais em nosso nome; porque de certo, Senhor, se assim não fora, seria impossível, me parece. Mas fazendo o Vosso Pai aquilo que Lhe pedis, de nos dar aqui o Seu reino, eu sei que Vos deixaremos ficar por verdadeiro em dardes o que dais por nós; porque, feita a terra céu, será possível fazer-se em mim a Vossa vontade. Mas sem isto, e em terra tão ruim como a minha, e tão sem fruto, eu não sei, Senhor, como seria possível. É coisa bem grande o que ofereceis!

3. Quando penso nisto, acho graça às pessoas que não ousam pedir trabalhos ao Senhor, pois pensam que logo lhos vão dar.; Não falo dos que deixam de o fazer por humildade, parecendo-lhes que não serão capazes de os sofrer; ainda que tenha para mim que, Aquele que lhes dá amor para pedir meio tão árduo para Lho mostrar, dar-lho-á também para os trabalhos. Quereria eu perguntar aos que, por temor de que logo lhos dêem, não os pedem: que dizem quando pedem ao Senhor que neles cumpra Sua vontade? ou será que o dizem só por dizer o que dizem todos, mas não para o fazer? Isto, irmãs, não estaria bem. Olhai que o bom Jesus aparece aqui como nosso embaixador que quis intervir entre nós e Seu Pai, e não foi pouco à Sua custa; não é justo, pois, que, o que Ele oferece por nós, o deixemos de fazer, ou então não o digamos.

4. Agora quero apresentar-vos outro caminho. Vede, filhas: isto há-de cumprir-se, quer queiramos quer não, e há-de fazer-se a Sua vontade no Céu e na terra; acreditai-me e aceitai o meu parecer e fazei da necessidade virtude. Oh Senhor meu! que grande dádiva é para mim, que não deixásseis um querer tão ruim como o meu no cumprir-se a Vossa vontade! Bendito sejais por sempre e louvem-Vos todas as coisas! Seja glorificado o Vosso nome para sempre! Que bonito seria, Senhor, se estivesse nas minhas mãos o cumprir-se ou não a Vossa vontade! Dou-Vos agora a minha livremente, ainda que em tempo de não ver-se livre de interesse; já tenho provas e grande experiência do lucro que há em deixar livremente a minha vontade na Vossa. Oh amigas! quão grande lucro há nisto, ou que grande perda se não cumprimos o que dizemos ao Senhor quando Lhe dizemos isto no Pai Nosso!

5. Antes de vos dizer o que se ganha, quero declarar-vos o muito que ofereceis, não vades cair depois no engano, dizendo que não o entendestes. Não seja como a algumas religiosas que não fazemos senão prometer e, como não o cumprimos, há esta desculpa de dizer que não se entendeu o que se prometia. Bem pode ser porque, dizer que abandonamos a nossa vontade na do outro, parece muito fácil até que, na realidade, se compreende ser a coisa mais difícil que se pode fazer, cumprindo como se deve cumprir. Nem todas as vezes, os prelados nos levam com rigor por nos verem fracos; e, às vezes a fracos e fortes, seguem o mesmo caminho. Aqui não é assim, pois sabe o Senhor o que cada um pode suportar e, a quem vê com coragem, não se detém em cumprir nele a Sua vontade.

6. Quero-Vos agora avisar e recordar qual é a Sua vontade. Não tenhais medo que seja dar-vos riquezas, nem prazeres, nem honras, nem todas estas coisas de cá da terra. Não vos quer tão pouco, e tem em muito o que Lhe dais, e vo-lo quer pagar bem, pois ainda em vossa vida vos dá o Seu reino. Quereis ver como Ele procede com os que Lhe dizem isto deveras? Perguntai-o a Seu glorioso Filho, que Lho disse quando da oração do Horto. Como foi dito com determinação e com toda a vontade, vede como o Pai a cumpriu bem n'Ele, no que Lhe deu de trabalhos e dores e injúrias e perseguições; enfim, até que se Lhe acabou a vida, com a morte da cruz.

7. Pois vedes aqui, filhas, o que deu Àquele a quem mais amava, por onde se entende qual é a Sua vontade. Assim, são estes os Seus dons neste mundo. Dá conforme ao amor que nos tem: aos que mais ama, dá mais destes dons; àqueles que menos ama, dá menos, e conforme ao ânimo que vê em cada um e o amor que têm a Sua Majestade. A quem O amar muito, verá que pode padecer muito por Ele; ao que O amar pouco, pouco. Tenho para mim que a medida de se poder levar cruz grande ou pequena, é a do amor. Assim, irmãs, se o tendes, procurai que não sejam palavras de mero cumprimento as que dizeis a tão grande Senhor, mas esforçai-vos a aceitar o que Sua Majestade quiser. Porque, se de outra maneira Lhe dais a vossa vontade, é mostrar-Lhe a jóia, ir-Lha a dar e rogar-Lhe que a tome e, quando estende a mão para nela pegar, torná-la a guardar muito bem guardada.

8. Não são zombarias estas que se façam a Quem tantas fizeram por nossa causa; e, ainda que não houvesse outro motivo, não é razão que estejamos a zombar já tantas vezes, que não são poucas as que Lhe dizemos no Pai Nosso. Dêmos-Lhe a jóia de uma vez para sempre, pois tantas tentámos em Lha dar; é verdade que não nos dá primeiro, senão para que Lha dêmos. Os do mundo já fazem muito se têm de verdade a determinação de cumprir. Mas vós, filhas, dizendo e fazendo, palavras e obras, como de verdade parece que fazemos nós os religiosos; senão que, por vezes, não só procuramos dar a jóia, mas pomos-Lha nas mãos, e tornamos-Lha a tirar. Somos repentinamente generosos, e depois tão tacanhos, que, em parte, mais valera que nos tivéssemos detido em dar.

9. Porque todos os avisos que vos tenho dado neste livro vão dirigidos a este ponto de nos darmos de todo ao Criador, e pôr a nossa vontade na Sua, desapegar-nos das criaturas, e já tereis entendido o muito que isto nos importa, nada mais digo; somente direi o motivo porque o nosso bom Mestre põe aqui estas sobreditas palavras, como quem sabe quanto ganharemos em prestar este serviço a Seu Eterno Pai, a fim de nos dispormos para, com muita brevidade, nos vermos com o caminho acabado de andar, e bebendo da água viva da fonte que fica dita. Porque, sem darmos totalmente a nossa vontade ao Senhor para que, em tudo o que nos toca, Ele faça conforme à Sua vontade, nunca nos deixará beber dela.

Isto é a contemplação, de que me dissestes que escrevesse. E nisto - como já tenho escrito - nenhuma coisa fazemos da nossa parte: nem trabalhamos, nem negociamos, nem nada mais é preciso; porque tudo o mais estorva e impede de dizer: «Fiat voluntas tua»: cumpra-se em mim, Senhor, a Vossa vontade de todos os modos e maneiras que vós, Senhor meu, quiserdes. Se quereis com trabalhos, dai-me esforço e venham; se com perseguições e enfermidades e desonras e necessidade, aqui estou, não voltarei o rosto, Pai meu, nem é razão para voltar as costas. Pois Vosso Filho deu em nome de todos esta minha vontade, não é razão que falhe por minha parte; mas sim me façais Vós mercê de me dar o Vosso Reino para que eu possa fazê-lo, pois Ele mo pediu e disponde em mim corno em coisa Vossa, conforme a Vossa vontade.

11. Ó irmãs minhas, que força tem este dom! Se vai com a determinação com que deve ir, não pode menos do que trazer o Todo-Poderoso a ser um com a nossa baixeza e transformar-nos em Si, e fazer uma união do Criador com a criatura. Vede se ficareis bem pagas e se tendes bom Mestre, pois, como sabe por onde há-de ganhar a amizade de Seu Pai, nos ensina como, e com que O havemos de servir.

12. E enquanto mais se vai entendendo pelas obras que não são meras palavras de cumprimento, mais e mais nos chega o Senhor a Si, e levanta a alma acima de todas as coisas de cá da terra e de si mesma, para a habilitar a receber grandes mercês, pois não se farta de nos pagar nesta vida este serviço. Tem-no em tanta conta, que já não sabemos que Lhe pedir, e Sua Majestade nunca se cansa de dar. Porque, não contente de ter feito esta alma uma só coisa consigo por a ter já unido a Si mesmo, começa a ter as Suas delícias com ela, a descobrir-lhe segredos, a gostar que ela entenda quanto tem ganho e conheça alguma coisa daquilo que Ele tem para lhe dar. Faz-lhe ir perdendo estes sentidos exteriores, para que nada a ocupe. Isto é arroubamento; e começa a tratar de tanta amizade, que não só a torna a deixar a sua vontade, mas com ela lhe dá a Sua; porque apraz ao Senhor, já que trata de tanta amizade, que manda cada um por sua vez, - como dizem - e cumprir Ele o que ela Lhe pede, assim como ela faz o que Ele lhe manda, e muito melhor, porque é poderoso e pode quanto quer, e não deixa de querer.

13. A pobre alma, ainda que queira, não pode fazer como quisera, nem pode nada sem que lho dêem. E esta é a sua maior riqueza: ficar tanto mais endividada quanto mais serve a Deus e muitas vezes aflige-se por se ver sujeita a tantos inconvenientes e embaraços e atilhos, como traz consigo o estar no cárcere deste corpo, pois quereria pagar um pouco do que deve. Mas é muito tola em se afligir, porque, ainda que faça tudo quanto está em sua mão, que poderemos nós pagar os que, como digo, nada temos para dar se não o recebermos, mas conhecermo-nos e isto sim podemos, que é dar a nossa vontade, fazê-lo perfeitamente? Tudo o mais, para uma alma que o Senhor trouxe até aqui, embaraça, causa dano e não proveito, porque só a humildade é que pode alguma coisa, e esta não adquirida pelo entendimento, mas com uma clara verdade que compreende num momento o que em muito tempo, trabalhando a imaginação, não pudera alcançar acerca do muito nada que somos e do mui muito que é Deus.

14. Dou-vos este aviso: não penseis chegar aqui por força e diligências vossas que é por demais; pois, se antes sentíeis devoção, ficareis frias; mas com simplicidade e humildade que é a que tudo vence, dizer: « fiat voluntas tua».

CAPÍTULO 33. Trata da grande necessidade que temos de que o Senhor nos dê o que pedimos nestas palavras de Pater noster: «Panem nostrum quotidianum da nobis hodie».

1. Pois, entendendo o bom Jesus, como já disse, que difícil coisa era esta a que Ele oferece por nós, pois conhece a nossa fraqueza, e que muitas vezes damos a entender que não entendemos qual é a vontade do Senhor, - como somos fracos e Ele tão piedoso -, viu que era mister dar remédio, porque, deixar de dar o que está dado, de maneira nenhuma nos convém, porque nisso está todo o nosso ganho. Mas viu ser dificultoso o cumpri-lo, porque dizer a um regalado e rico que é vontade de Deus que tenha conta em moderar a sua mesa, para que comam, ao menos um pouco de pão, outros que morrem de fome, achará mil razões para não entender isto, senão a seu propósito; pois, dizer a um murmurador que é a vontade de Deus querer tanto para o seu próximo como para si, não o pode levar com paciência, nem há razão que baste para o entender. Pois, dizer a um religioso habituado a liberdade e a regalo que tem de ter conta em dar bom exemplo, e veja que não é já só com palavras que há-de cumprir o que disse com esta palavra, senão que o jurou e prometeu e que é vontade de Deus que cumpra seus votos, e veja que, se dá escândalo, vai muito contra eles, ainda que de todo não os quebrante; que prometeu pobreza, que a guarde sem rodeios, pois isto é o que o Senhor quer e, não há meio, ainda agora, de o quererem alguns; que seria, pois, se o Senhor não fizesse o demais com o remédio que deixou? Não haveria senão muito poucos que cumprissem esta palavra que por nós disse a Seu Pai: «Fiat voluntas tua».

Pois vendo o bom Jesus a necessidade, buscou um meio admirável por onde nos mostrou o máximo de amor que nos tema e, em Seu nome e no de Seus irmãos, fez esta petição: «O pão nosso de cada dia, nos dai hoje, Senhor».

Entendamos, irmãs, por amor de Deus, isto que pede o nosso bom Mestre, que nos vai a vida em não passar de corrida sobre isto, e tende em muito pouco o que haveis dado, pois tanto haveis de receber.

2. Parece-me agora a mim - salvo outro melhor parecer - que, vendo o bom Jesus o que por nós tinha dado, e a grande dificuldade que havia como está dito por sermos nós tais como somos e tão inclinados a coisas baixas e de tão pouco amor e ânimo, era mister vermos o Seu para despertarmos, e isto não urna vez, mas cada dia, aqui se deve ter determinado a ficar connosco. E, como era coisa tão grave e de tanta importância, quis que nos viesse da mão do Eterno Pai. Porque, ainda que sabia que o que Ele fizesse na terra o faria Deus no Céu e o teria por bom, pois são uma mesma coisa e a Sua vontade e a de Seu Pai uma só, era tanta a humildade do bom Jesus, que quis como que pedir licença, porque já sabia que era amado do Pai e que n'Ele se deleitava. Bem entendeu que pedia mais nisto do que tinha pedido em tudo o mais, porque já sabia a morte que Lhe haviam de dar, e as desonras e afrontas que havia de padecer.

3. Pois, que Pai haveria, Senhor, que tendo-nos dado Seu Filho, e tal Filho, e pondo-O em tal estado, quisesse consentir que ficasse entre nós a padecer de novo cada dia? - Por certo, nenhum, Senhor, a não ser o Vosso; bem sabeis a Quem pedis.

Oh! valha-me Deus! que grande amor o do Filho, e que grande amor o do Pai! Ainda não me espanto tanto do bom Jesus, porque como já tinha dito « fiat voluntas tua», tinha-o de cumprir como Quem é. Sim, que não é como nós, pois, como a conhece, cumpre-a amando-nos como a Si, e assim andava a buscar como cumprir este mandamento com maior perfeição, embora fosse à Sua custa. Mas Vós, Pai Eterno, como o consentistes? Como quereis ver cada dia em tão ruins mãos o Vosso Filho? Já que uma vez quisestes que o estivesse e o consentistes, bem vedes como Lhe pagaram!

Como pode a Vossa piedade, cada dia, ver as injúrias que Lhe fazem? E quantas não se hão-de hoje fazer a este Santíssimo Sacramento! Err quantas mãos inimigas Suas não O há-de ver o Pai! Que desacatos o deste hereges!

4. Ó Senhor Eterno! Como aceitais tal petição? Como o consentis? Não vejais o Seu amor, que a troco de fazer perfeitamente a Vossa vontade e de a fazer por nós, se deixará fazer em pedaços cada dia! É de Vós Senhor meu, o olhar a isto, já que a Vosso Filho nada se Lhe põe diante, porque há-de ser todo o nosso bem à Sua custa? Porque a tudo Se cala e não sabe falar por Si, senão por nós? Pois, não haverá quem fale por este amantíssimo Cordeiro?

Tenho reparado que só nesta petição duplica as palavras, porque diz primeiro e pede que Lhe deis este pão de cada dia, e torna a dizer «dai-no-lo hoje, Senhor». Põe-se também diante de Seu Pai, como a dizer-Lhe: já que uma vez no-lO deu para que morresse por nós, que já é «nosso», não no-lO torne a tirar, mas O deixe servir, cada dia, até se acabai o mundo; que isto vos enterneça o coração, filhas minhas, para amar o Vosso Esposo: não há escravo que, de boa vontade, diga que o é, e o bom Jesus parece que se honra disso.

5. Ó Eterno Pai! Muito merece esta humildade! Com que tesouro compraremos o Vosso Filho? Vendê-lO, já sabemos que por trinta dinheiros; mas para O comprar, não há preço que baste! Como se faz aqui uma sé coisa connosco pela parte que tem de nossa natureza e, como Senhor da Sua vontade, lembra a Seu Pai, pois que é Sua, que no-la pode dar. E assim diz: « O Pão Nosso». Não faz diferença entre Si e nós, mas nós fazemo-la entre nós e Ele, para não nos darmos cada dia por Sua Majestade.

CAPÍTULO 34. Prossegue na mesma matéria. É muito útil para depois de se ter recebido o Santíssimo Sacramento.

1. Nesta petição, «de cada dia», parece dizer que é «para sempre». Estando eu a pensar porque razão, depois do Senhor ter dito «cada dia», tornou a dizer «nos dai hoje, Senhor», pareceu-me a mim que, o Ele ser nosso cada dia, é porque O possuímos aqui na terra e o possuiremos também no Céu, se nos aproveitarmos bem da Sua companhia, pois não fica conosco para outra coisa senão para nos ajudar e sustentar e animar a fazer esta vontade que já dissemos se cumpra em nós.

2. O dizer «hoje», me parece que é para um dia, isto é, enquanto durar o mundo, e não mais. E é bem na verdade um só dia! Quanto aos desventurados que se condenam e não O gozarão na outra, não é por culpa do Senhor se se deixam vencer, pois Ele não os deixa de animar até ao fim da batalha. Não terão assim com que se desculpar nem de que se queixar do Pai, por lho ter tomado na melhor altura. E assim Lhe diz Seu Filho, que pois não é mais que um dia, Lho deixe passar em servidão; e que Sua Majestade já no-lO deu e enviou ao mundo só por Sua vontade, que Ele quer agora por Sua própria vontade não nos desamparar, mas ficar-se aqui connosco para maior glória de Seus amigos e pena dos Seus inimigos.

Que agora novamente não pede mais que «hoje» ao dar-nos este Pão sacratíssimo; Sua Majestade no-lo deu para sempre - como já disse - este mantimento e maná da humanidade, que O achamos como queremos; e, a não ser por nossa culpa, não morreremos de fome, pois, de todos os modos e maneiras que a alma quiser comer, achará no Santíssimo Sacramento sabor e consolação. Não há necessidade, nem trabalho, nem perseguição que não seja fácil de passar, se começamos a saborear os Seus.

3. Pedi, filhas, juntamente com este Senhor ao Pai, que vos deixe hoje a vosso Esposo, que não vos vejais neste mundo sem Ele. Já basta, para temperar tão grande contentamento, ficar tão escondido nestes acidentes de pão e vinho, que é farto tormento para quem não tem outra coisa que amar, nem outro consolo; mas suplicai-Lhe que não vos falte, e vos dê a disposição necessária para O receber dignamente.

4. De outro pão, não tenhais cuidado, vós as que mui deveras vos entregastes à vontade de Deus; digo, neste tempo de oração, tratai de coisas mais importantes, que outro tempo há para trabalhar e ganhar de comer.

Mas com cuidado, não cureis em tempo algum de gastar nisso o pensamento; senão que trabalhe o corpo, pois bem é que procureis sustentar-vos, e descanse a alma. Deixai este cuidado - como longamente ficou dito a vosso Esposo: Ele o terá sempre.

5. É como se um criado entra a servir: tem conta em contentarem tudo o seu senhor. Mas este está obrigado a dar de comer ao servo enquanto está em sua casa e o serve, salvo se é tão pobre que não tem para si nem para ele. Aqui não se dá isto: é e será sempre rico e poderoso. Pois, não seria bonito andar o criado pedindo de comer, pois sabe que seu amo tem cuidado de lho dar e o há-de ter. Com razão lhe dirá que se ocupe ele em o servir e em como o há-de contentar por andar com o cuidado ocupado naquilo em que não o devia ter, não faz coisa com coisa.

Assim pois, irmãs, tenha quem quiser cuidado de pedir esse pão; quanto a nós, peçamos ao Pai Eterno que mereçamos receber o nosso Pão celestial de modo que, embora os olhos do corpo não se possam deleitar em O ver por estar encoberto, Ele se descubra aos da alma e se lhe dê a conhecer, pois é outro mantimento de contentos e regalos, e sustenta a vida.

6. Pensais que não é mantimento ainda mesmo para estes corpos, este manjar santíssimo, e grande medicina até para males corporais? Eu sei que o é, e conheço uma pessoa de grandes enfermidades que, estando muitas vezes com fortes dores, como com a mão se lhe tiravam e ficava boa de todo. Isto era muito de ordinário e de males muito conhecidos, que não se podiam fingir, a meu parecer. E porque as maravilhas que faz este santíssimo Pão nos que dignamente o recebem são muito notórias, não digo muitas das que poderia dizer desta pessoa, que digo que o podia saber, e sei que não é mentira. Mas a esta tinha-lhe o Senhor dado fé tão viva que, quando ouvia alguém dizer que quisera ter vivido no tempo em que Cristo, nosso Bem, andava no mundo, ria-se dentro de si, parecendo-lhe que, tendo-O tão verdadeiramente no Santíssimo Sacramento como então, que mais se lhes dava?

7. Mais sei desta pessoa que durante muitos anos, embora não foss muito perfeita, quando comungava, procurava reforçar a fé, nem mais ner menos do que se visse com os olhos corporais entrar em sua pousada, Senhor; e, como cria verdadeiramente que este Senhor entrava na su pobre pousada, se desocupava de todas as coisas exteriores tanto quant, lhe era possível, e entrava com Ele. Procurava recolher os sentidos, par que todos entendessem tão grande bem, digo, não embaraçassem a alui para O conhecer. Considerava-se a Seus pés e chorava com a Madalena nem mais nem menos que se O vira com os olhos corporais em casa d fariseu; pois, embora não sentisse devoção, a fé lhe dizia que Ele estava a: realmente.

8. Porque, se não nos queremos fazer parvos e cegar o entendimento não há que duvidar que isto não é representação da imaginação, como quando consideramos o Senhor na cruz, ou noutros passos da Paixão, que represer tamos em nós o que se passou. Isto passa-se agora e é inteira verdade, e não há para que O ir buscar a outra parte mais longe; mas, visto que sabeme que, enquanto o calor natural não consome os acidentes do pão, est connosco o bom Jesus, cheguemo-nos a Ele. Pois, se quando andava no mundo só o tocar Suas vestes sarava os enfermos, como duvidar, se tema fé, que faça milagres estando tão dentro de mim, e que nos dará o que Lhe pedirmos, pois está em nossa casa? E não costuma Sua Majestade paga mal a pousada, quando Lhe dão boa hospedagem.

9. Se vos dá pena o não O ver com os olhos corporais, olhai que não nos convém: uma coisa é vê-lO glorificado e outra quando andava pelo mundo. Não haveria quem o sofresse com este nosso fraco natural, nem haveria mundo, nem quem quisesse parar nele. Porque, ao ver esta Verdade eterna, ver-se-ia ser mentira e engano todas as coisas de que fazemos caso cá na terra. E vendo tão grande Majestade, como ousaria uma pecadorazinha como eu, que tanto O tenho ofendido, estar tão perto d'Ele? Debaixo das aparências daquele pão está mais acessível; porque, se o rei se disfarça parece que nada se nos daria de conversar com ele sem tantas cerimónias e respeitos; parece estar obrigado a sofrê-lo, pois se disfarçou. Quem ousara aproximar-se tão indignamente, com tanta tibieza, com tantas imperfeições!

10. Oh! como não sabemos o que pedimos, e como o viu bem melhor a Sua Sabedoria! Porque, àqueles a quem vê que se hão-de aproveitar de Sua presença, Ele se descobre; e, ainda que O não vejam com os olhos corporais, tem muitos meios de se mostrar à alma por grandes sentimentos interiores e por diversas vias. Ficai-vos com Ele de boa vontade; não percais tão boa ocasião de negociar, como é a hora depois de ter comungado. Se a obediência, irmãs, vos mandar outra coisa, procurai deixar a alma com o Senhor; porque, se logo levais o pensamento a outra coisa e não fazeis caso, nem tendes em conta Quem está dentro de vós, como se há-de dar a conhecer? Esta, pois, é boa ocasião para que vos ensine o nosso Mestre, e para o ouvirmos e Lhe beijarmos os pés por nos ter querido ensinar, e suplicar-Lhe que não se vá.

11. Se havemos de pedir isto, olhando para uma imagem de Cristo que estamos a ver, tolice me parece deixar a própria pessoa a fim de olhar para um seu retrato. Não o seria, de facto, se tivéssemos um retrato de uma pessoa a quem quiséssemos muito, e a própria pessoa nos viesse ver, deixar de falar com ela e ter toda a conversação com o seu retrato? Sabeis quando isso é muito bom, e coisa em que muito me deleito? Quando está ausente a mesma pessoa ou nos quer dar a entender, por meio de muita aridez, que o está, é grande consolo ver uma imagem de Quem amamos com tanta razão. Para todos os lados que volvêssemos os olhos, a quisera eu ver. Em que melhor coisa, nem mais aprazível à vista, os poderemos empregar, do que n'Aquele que tanto nos ama e tem, em Si, todos os bem? Desventurados estes hereges que perderam, por sua culpa, esta consolação, além de outras.

12. Mas acabando de receber o Senhor, pois tendes a própria pessoa diante de vós, procurai cerrar os olhos do corpo e abrir os da alma, e olhai para o vosso coração; eu vos digo, e outra vez o digo e muitas o quereria dizer, que, se tomais este costume todas as vezes que comungardes, e procurardes ter tal consciência que vos seja lícito gozar amiúde deste Bem, não vem tão disfarçado que, como já disse, de muitas maneiras não se dê a conhecer conforme ao desejo que temos de O ver; e tanto O podeis desejar, que de todo se vos descubra.

13. Mas, se não fazemos caso d'Ele, e ao recebê-lO, nos vamos com Ele buscar outras coisas mais baixas, que há-de fazer? Há-de nos trazer à força para que vejamos que se nos quer dar a conhecer? Não! que não O trataram assim tão bem quando se deixou ver por todos a descoberto e dizia claramente quem era, pois muito poucos foram os que n'Ele acreditaram. E assim, já muita misericórdia nos faz a todos, querendo Sua Majestade entendamos ser Ele que está no Santíssimo Sacramento. Mas que O veja a descoberto, e comunicar Suas grandezas e dar Seus tesouros, não quer senão àqueles a quem entende que muito O desejam, porque estes são Seus verdadeiros amigos. Que eu vos digo, quem não o for, e não O chegar receber como tal, tendo feito o que está em si, que nunca O importune para que se lhe dê a conhecer. Não vê chegar a hora de ter cumprido com o que manda a Igreja, e logo se vai da Sua casa e procura afastá-lO de si. E assim este tal, com outros negócios, ocupações e embaraços do mundo, parece que o mais cedo possível, se dá pressa a que não lhe ocupe a casa o Senhor dela.

CAPÍTULO 35. Acaba a matéria começada com uma exclamação ao Pai Eterno.

1. Tenho-me alongado tanto nisto, embora também tenha falado na oração de recolhimento, do muito que importa este entrarmos a sós com Deus, por ser coisa tão importante. E quando não comungardes, filhas, e ouvirdes Missa, podeis comungar espiritualmente, que é de grandíssimo proveito, e fazer depois o mesmo de vos recolherdes em vós, que assim se imprime muito o amor deste Senhor. Porque, quando nos preparamos para receber, jamais deixa de dar, por muitas maneiras que não entendemos. É chegarmo-nos ao fogo que, ainda que seja muito grande, se estais desviadas e escondeis as mãos, mal vos podeis aquecer, conquanto dê mais calor do que estando onde não haja fogo. Mas outra coisa é queremo-nos chegar a Ele, que se a alma está disposta -digo, com desejo de perder o frio - e se estiver ali um pouco, fica por muitas horas com calor.

2. Olhai pois, irmãs, se ao princípio não vos achardes bem (e poderá ser, porque o demónio, sabendo o grande dano que daqui lhe advém, vos fará sentir aperto de coração e tristeza), dar-vos-á a entender que achais mais devoção em outras coisas e aqui menos, crede-me: não deixeis este modo; aqui provará o Senhor quanto Lhe quereis. Lembrai-vos que há poucas almas que O acompanhem e O sigam nos Seus trabalhos; passemos alguma coisa por Ele, que Sua Majestade no-lo pagará. E lembrai-vos também de quantas pessoas haverá que, não só não querem estar com Ele, mas com grosseria O expulsam de si. Pois, alguma coisa temos de passar para que entenda que temos desejo de O ver. E pois tudo sofre e sofrerá para achar uma só alma que O receba e tenha em si com amor, seja esta a vossa; porque, a não haver nenhuma, com razão não Lhe consentiria o Pai Eterno ficar conosco. Mas é tão amigo de amigos e tão Senhor de Seus servos que, vendo a vontade de Seu Filho, não o quer estorvar em obra tão excelente e onde tão perfeitamente mostra o amor que tem a Seu Pai.

3. Pois, Pai santo, que estais nos Céus; já que o quereis e aceitais, e claro está que não havíeis de negar coisa que tanto bem nos faz, alguém deve haver, -como disse a princípio -, que fale por Vosso Filho, pois que Ele nunca se defendeu. Sejamos nós, filhas, ainda que seja atrevimento, sendo como somos, mas confiadas em que o Senhor nos manda pedir, achegadas a esta obediência, em nome do bom Jesus, supliquemos a Sua Majestade que, fazendo aos pecadores tão grande benefício como este, nenhuma coisa Lhe ficou por fazer, queira a Sua piedade e se sirva de pôr remédio para que não seja tão maltratado. E, pois, Seu santo Filho nos dá um meio tão bom para que O possamos oferecer em sacrifício muitas vezes, valha-nos tão precioso dom para que não vá avante tão grandíssima mal e desacatos, como se fazem nos lugares onde havia este Santíssimo Sacramento entre os luteranos, destruídas as igrejas, perdidos tantos sacerdotes, tirados os Sacramentos.

4. Pois, que é isto, meu Senhor e meu Deus! Ou dai fim ao mundo, ou ponde remédio a tão gravíssimos males; não há coração que o sofra, ainda dos que somos maus. Suplico-Vos, Pai Eterno, não queirais mais sofrê-lo: atalhai este fogo, Senhor, pois o podeis, se quiserdes. Vede que ainda está no mundo o Vosso Filho; por respeito para com Ele, cessem coisas tão feias e abomináveis e sujas; por Sua formosura e limpeza, não merece estar onde há coisas semelhantes. Não o façais por amor de nós, Senhor, que não O merecemos: faiei-o por amor a Vosso Filho. Suplicar-Vos que não esteja connosco, não ousamos pedir: que seria de nós? Se alguma coisa Vos aplaca, é termos cá tal penhor. E pois algum meio há-de haver, Senhor meu, ponha-o a Vossa Majestade.

5. Ó meu Deus! quem pudera importunar-Vos muito, e ter-Vos servido muito para poder-Vos pedir tão grande mercê em paga de meus serviços, pois não deixais nenhum sem paga! Mas nada tenho feito por Vós, Senhor, antes sou eu porventura quem Vos tenho irritado de modo a que, por meus pecados, sobrevenham tantos males. Pois que hei-de fazer, Criador meu, senão apresentar-Vos este Pão sacratíssimo, e, ainda que no-lo destes, tornar-Vo-lo a dar e suplico-Vos pelos méritos de Vosso Filho, me façais esta mercê, pois Ele por tantos modos a tem merecido? Fazei, Senhor, que se acalme este mar. Não ande sempre em tamanha tempestade a nave da Igreja! E salvai-nos, Senhor meu, que perecemos!

CAPÍTULO 36. Trata destas palavras do Pai Nosso: «Dimitte nobis debita nostra».

1. Vendo pois o nosso bom Mestre que, com este manjar celestial, tudo nos é fácil, a não ser por nossa culpa, e que podemos cumprir bem o que dissemos ao Pai: que se faça em nós a Sua vontade, diz-Lhe agora que nos perdoe as nossas culpas, pois nós também perdoamos. E assim, prosseguindo tia oração que nos ensina, diz estas palavras: «E perdoai-nos, Senhor, as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido».

2. Reparemos, irmãs, que não disse «como perdoaremos», para nos dar a entender que, quem pede um dom tão grande como o passado, e já pôs a Sua vontade na de Deus, isto já deve ter feito e assim diz: «como nós perdoamos». Assim, quem deveras tiver dito ao Senhor esta palavra: «Seja feita a Vossa vontade», tudo isto há-de ter feito, ao menos com a determinação.

Vede aqui como os santos se alegravam com as injúrias e perseguições, porque tinham assim alguma coisa a apresentar ao Senhor quando Lhe pediam. Que fará uma tão pobre como eu, que tão pouco tenha tido a perdoar e tanto que se perdoe?

Coisa é esta, irmãs, para olharmos muito a ela; uma coisa tão grave e de tanta importância como é o perdoar-nos Nosso Senhor as nossas culpas que mereciam fogo eterno, se nos perdoem com coisa tão pequena como é o nós perdoarmos. E ainda destas pequenezes tenho tão pouco a oferecer, que a troco de nada me haveis de perdoar, Senhor! Aqui, tem lugar a Vossa misericórdia. Bendito sejais Vós, por me sofrerdes a tuim tão pobre que, falando o Vosso Filho em nome de todos nós, sendo eu tal como sou e tão pobre de haveres, tenho de me pôr fora da conta.

3. Mas, Senhor meu, haverá pessoas que me tenham feito companhia e não hajam entendido isto? Se as houver, em Vosso nome lhes peço que se lembrem disto e não façam caso dumas coisitas a que chamam agravos; parece que fazemos como as crianças, casas de palhinhas, com estes pontos de honra! Oh! valha-me Deus, irmãs! Se entendêssemos que coisa é honra, e em que está perder a honra! Agora não falo convosco, pois grande mal seria não terdes já isto como entendido, mas comigo, no tempo em que me prezei de ter honra sem entender o que era: ia na peugada de toda a gente. Oh! de quantas coisas sentia agravo, das quais agora tenho vergonha e não era eu ainda das que muito olhavam a estes pontos; mas errava no ponto principal, porque não olhava nem fazia caso da honra que traz consigo algum proveito, porque esta é a que dá proveito à alma. E que bem disse quem disse que honra e proveito não podiam andar juntos, embora não sei se foi a este propósito. E assim é, ao pé da letra; porque proveito da alma e isto a que o mundo chama honra, nunca se podem juntar. Coisa de espantar é como o mundo anda ao revés. Bendito seja o Senhor que nos tirou dele!

4. Mas olhai, irmãs, que o demónio não nos tem esquecidas. Também nos conventos inventa suas honras e põe leis, as quais elevam e abaixam em dignidades como as do mundo. Os letrados devem andar conforme as suas letras - que isto não o sei -; quem chegou a ler Teologia não liá-de baixar a ler Filosofia, porque é um ponto de honra, e esta está em que há-de subir e não baixar. E, mesmo que lho mandasse a obediência, o teria por agravo e não faltaria quem pugnasse por ele dizendo que é afronta. E logo o demónio descobre razões, e até na lei de Deus parece ter razão. E, entre nós, a que foi prioresa há-de ficar inabilitada para outro ofício mais baixo; um olhar a que é mais antiga, e isto não se esquece, e ainda às vezes nos parece merecermos por isso, porque assim manda a Ordem.

5. É caso para rir, ou antes com mais razão, para chorar. Sim, porque não manda a Ordem que não tenhamos humildade; manda que haja concerto. Mas não hei-de eu estar tão concertada em coisas de minha estima que tenha tanto cuidado neste ponto da Regra como de outras coisas dela que, talvez guardemos imperfeitamente; não esteja toda a nossa perfeição em a guardar nisto; outras olharão por mim, se eu me descuidar. Porém o caso é que somos tão inclinadas a subir, -que mesmo sabendo que não subiremos por aqui ao Céu -, não queremos baixar. Ó Senhor, Senhor! Não sois Vós o nosso Modelo e Mestre? Sim, por certo. Pois, em que esteve a Vossa honra, honrador nosso? Não a perdestes, por certo, em ser humilhado até à morte. Não, Senhor, senão que a ganhastes para todos.

6. Oh! Por amor de Deus, irmãs! temos perdido o caminho, porque vai errado desde o princípio, e praza a Deus não se perca alguma alma por guardar estes negros pontos de honra, sem entenderem que está a honra. E depois chegaremos até a pensar que temos feito muito se perdoamos unia coisita destas, que nem era agravo, nem injúria, nem nada; e tal como quem tem feito algo, viremos pedir ao Senhor que nos perdoe, pois temos perdoado! Dai-nos, meu Deus, a entender que não nos entendemos, e que estamos com as mãos vazias, e perdoai-nos Vós por Vossa misericórdia! Que em verdade, Senhor, eu não vejo coisa alguma (pois todas as coisas se acabam e o castigo não tem fim) que mereça pôr-se diante de Vós para nos fazerdes tão grande mercê, a não ser por amor de Quem Vo-lo pede.

7. Mas, quanto deve ser estimado pelo Senhor este amar-nos uns aos outros! Jesus teria podido apresentar outras coisas a Seu Pai, e dizer: «perdoai-nos, Senhor, porque fazemos muita penitência, ou porque rezamos muito ou jejuamos, e deixámos tudo por Vós, e Vos amamos muito». Também não disse: «porque perderíamos por Vós a vida»; e - como digo -outras coisas que poderia dizer, mas disse somente: «porque perdoamos».

Porventura o disse porque, como nos conhece por tão amigos desta negra honra e sabe que é a coisa mais difícil de alcançar de nós, viu ser a mais agradável a Seu Pai e assim Lha oferece da nossa parte.

«Efeitos que deixa o bom espírito».

8. Mas tende muito em conta, irmãs, em que diz: «como perdoamos», como de coisa já feita, como já disse. E adverti muito nisto: quando uma alma, a quem Deus faz mercê das coisas que disse na oração de contemplação perfeita, não sai muito determinada a perdoar qualquer injúria, por grave que seja, não estas ninharias a que chamam injúrias e, quando se oferece ocasião, não o põe por obra, não há muito que fiar da sua oração. À alma que Deus chega a Siem oração tão subida, essas coisas não chegam, nem a ela se lhe dá mais ser estimada ou não. Não digo bem: que muita mais pena dá a honra do que a desonra, e o muito folgar com descanso, do que os trabalhos. Porque, quando deveras o Senhor lhe deu aqui o Seu reino, ela já não o quer neste mundo; e, para mais subidamente reinar, entende ser este o verdadeiro caminho, pois já viu, por experiência, o grande lucro que daqui lhe advém, e quanto adianta uma alma em padecer por Deus. Porque, só por maravilha, é que Sua Majestade chega a fazer tão grandes regalos, senão a pessoas que tenham passado de boa vontade muitos trabalhos por Ele. Porque, como disse em outra parte deste livro, são grandes os trabalhos dos contemplativos, e assim procura o Senhor gente experimentada.

9. Entendei, pois, irmãs, que, como estes já entenderam o que tudo é, em coisas que passam não se detêm muito. Se, num primeiro movimento, lhes dá pena uma grande injúria e trabalho, ainda bem o não sentiram, quando acode por outra parte a razão, que parece levantar bandeira em seu favor, e deixa quase aniquilada aquela pena com o gozo que lhes dá o ver que o Senhor lhes pôs nas mãos meios de poderem em uni dia ganhar mais mercês e favores perpétuos perante Sua Majestade, do que poderiam talvez ganharem dez anos de trabalhos que quisessem tomar por sua vontade. Isto é muito habitual, ao que eu entendo, pois tenho tratado com muitos contemplativos, e sei de certeza que se passam assim as coisas. Tal como outros apreciam ouro e jóias, apreciam eles os trabalhos e os desejam, porque entenderam que estes os hão-de fazer ricos.

10. Nestas pessoas está muito longe qualquer estima de si própria em coisa alguma; gostam que entendam seus pecados e de os dizer quando vêem que são estimadas. Assim acontece a respeito da sua linhagem, pois já sabem que no reino, que não terá fim, nada hão-de ganhar por aqui. Se acaso estimassem ser de boa estirpe, seria só quando fosse preciso para mais servir a Deus; quando assim não é, pesa-lhes o serem tidos em mais do que são, e sem nenhuma pena, mas com todo o gosto, desfazem o engano. Deve ser o caso para quem Deus faz mercê de ter esta humildade e grande amor a Deus, que em coisa que seja servi-lO mais, já está tão esquecida de si mesma, que nem ainda pode crer que outros sintam certas coisas e as tenham por injúrias.

11. Estes efeitos, que digo agora no fim, são de pessoas já muito chegadas à perfeição, e a quem o Senhor muito ordinariamente faz mercês de as chegar a Si por contemplação perfeita. Quanto à primeira coisa que disse: que é o estar determinadas a sofrer injúrias e sofrê-las embora seja sentindo pesar, digo que muito depressa tem esta disposição quem já recebeu esta mercê do Senhor, de chegar à união. E, se não sente estes efeitos e não sai da oração muito fortalecida neles, creia que a mercê não era de Deus, mas sim alguma ilusão e regalo do demónio, para que nos tenhamos por mais honrados de Deus.

12. Pode ser que, a princípio, quando o Senhor começa a fazer estas mercês, a alma não fique logo com esta fortaleza; mas digo que, se lhas continua a fazer, em breve tempo o fará com fortaleza, e ainda que não a tenha em outras virtudes, nisto de perdoar, sim. Não posso eu crer que uma alma, que tão junta se chega à mesma Misericórdia, onde conhece quem é e o muito que Deus lhe tem perdoado, deixe de perdoar logo com toda a facilidade, e não fique disposta a ficar muito de bem com quem a injuriou. Porque tem bem presente o regalo e mercê que Deus lhe fez, onde viu sinais de grande amor e alegra-se, quando se lhe oferecer ocasião de Lhe mostrar algum.

13. Torno a dizer que conheço muitas pessoas a quem o Senhor fez mercê de as levantar a coisas sobrenaturais, dando-lhes esta oração ou contemplação que fica dita. E ainda que as veja com outras faltas e imperfeições, com esta não tenho visto nenhuma, nem creio haverá, se as mercês são de Deus, como já disse. Aquele que as receber maiores, olhe muito a como vão crescendo em si estes efeitos; e, se não vir nenhum em si, arreceie-se muito e não creia que esses regalos são de Deus, - como disse -, o Qual sempre enriquece a alma aonde chega. Isto é certo; e ainda que a mercê e regalo passe depressa, com vagar se entende pelos ganhos com que a alma fica. E, como o bom Jesus sabe bem tudo isto, determinadamente diz ao Seu Santo Pai que «perdoamos a quem nos tem ofendido».

CAPÍTULO 37. Fala da excelência desta oração do «Pater noster» e corno acharemos nela consolação de muitas maneiras.

1. É coisa para louvar muito ao Senhor ver como é subida em perfeição esta oração evangélica, no que bem mostra ser ordenada por tão bom Mestre, e assim podemos, filhas, cada uma de nós, tomá-la a seu propósito. Pasmo de ver como, em tão poucas palavras, está encerrada toda a contemplação e perfeição, que parece não termos necessidade de outro livro, senão de estudar neste, Porque até aqui nos tem ensinado o Senhor todo o modo de oração e de alta contemplação, desde os principiantes na oração mental, até à de quietude e união, que a ser eu pessoa para o saber dizer, poderia escrever um grande livro de oração sobre tão verdadeiro fundamento. Agora já começa o Senhor a dar-nos a entender os efeitos que deixa, quando são Suas as mercês, como tendes visto.

2. Tenho eu pensado como é que Sua Majestade não se declarou mais em coisas tão subidas e obscuras, para que todos o entendêssemos. E parece-me que, devendo esta oração ser geral para todos, a deixou assim em confuso para que pudesse cada um pedir a seu propósito e se consolasse, parecendo-nos que a entendemos bem. E assim os contemplativos, que já não querem coisas da terra, e as pessoas já muito dadas a Deus, peçam as mercês do Céu que, pela grande bondade de Deus, se podem receber aqui na terra. Os que ainda vivem nela e é bem que vivam conforme o seu estado, peçam também o pão com que se hão-de sustentar e sustentam suas casas, e é muito justo e santo, e assim as demais coisas, conforme as suas necessidades.

3. Mas olhem que estas duas coisas, ou seja dar-Lhe a nossa vontade e perdoar, são para todos. Verdade é que há nisto mais e menos, como ficou dito; os perfeitos darão a vontade como perfeitos e perdoarão com a perfeição que já disse; e nós, irmãs, faremos o que pudermos, pois o Senhor tudo recebe. Dir-se-ia uma espécie de contrato, que Ele faz da nossa parte com Seu Eterno Pai, como quem diz: Fazei Vós isto, Senhor, e meus irmãos farão estoutro. Pois é certo que, da Sua parte, não falhará. Oh! oh! é muito bom pagador e paga mui sem medida!

4. De tal maneira podemos dizer uma vez esta oração que, vendo que em nós não há doblez, mas cumpriremos o que dizemos, nos deixe ricas. É muito amigo de que sejamos verdadeiros com Ele; tratando-O com sinceridade e clareza, não dizendo uma coisa e fazendo outra, sempre dá mais do que Lhe pedimos.

Sabia isto o nosso bom Mestre, e os que deveras chegassem à perfeição no pedir, ficariam em tão alto grau com as mercês que o Pai lhes havia de fazer; entendia que os já perfeitos, ou os que vão a caminho disso, - não temem nem devem, como se costuma dizer - trazem o mundo debaixo dos pés, pois contentam o Senhor do mesmo mundo (como pelos efeitos que opera em suas almas, podem ter grandíssima esperança de que Sua Majestade está contente), embebidos nesses regalos, nem se quereriam lembrar de que há mundo, nem de que têm contrários.

5. Ó Sabedoria Eterna! Ó bom Ensinador! E que grande coisa é, filhas, um mestre sábio, prudente, que previne os perigos! É todo o bern que uma alma espiritual pode desejar cá na terra, porque é grande segurança. Não poderia eu encarecer com palavras quanto isto importa. Assim, vendo o Senhor que era mister despertá-los e lembrar-lhes que têm inimigos, que muito mais perigoso é para eles o andarem descuidados e muita mais ajuda precisam do Pai Eterno, porque cairão de mais alto, para não andarem enganados sem o entenderem, faz estas petições tão necessárias para todos enquanto vivemos neste desterro: «E não nos deixeis cair, Senhor, em tentação, mas livrai-nos do mal».

CAPÍTULO 38. Trata da grande necessidade que temos de ,suplicar ao Pai Eterno que nos conceda o que Lhe pedimos nestas palavras: «Et ne nos inducas in tentationem, sed libera nos a malo» e declara algumas tentações.

1. Grandes coisas temos aqui, irmãs, para pensar e entender, pois as pedimos. Agora notai: tenho por muito certo que, os que chegam à perfeição, não pedem ao Senhor os livre de trabalhos, nem das tentações, nem de perseguições e pelejas; mas antes os desejam, pedem e amam, como disse há pouco. Este é outro efeito muito grande e certo de ser espírito do Senhor, e não ilusão: a contemplação e mercês que Sua Majestade lhes der; porque, como há pouco disse, antes os desejam, pedem e amam. São como os soldados que estão mais contentes quando há mais guerra, porque esperam sair com mais ganho; se a não há, servem e recebem seu soldo, mas vêem que não podem prosperar muito.

2. Crede, irmãs: os soldados de Cristo, ou seja, os que têm contemplação e tratam de oração, estão desejosos por ver chegada a hora do combate. Nunca temem muito a inimigos declarados; já os conhecem e sabem que não têm força. Pela força que a eles próprios dá o Senhor, sempre ficam vencedores e com grandes ganhos; nunca lhes voltam o rosto. Os que temem, e é razão temerem e pedirem sempre ao Senhor os livre deles, são uns inimigos traidores, uns demónios que se transfiguram em anjos de luz;; vêm disfarçados. Enquanto não fazem muito dano à alma, não se dão a conhecer; bebem-nos o sangue e acabam com as virtudes, e andamos metidos na tentação e não o entendemos. Destes, peçamos, filhas, e supliquemos muitas vezes no Pai Nosso, nos livre o Senhor e não consinta que andemos em tentação; que não nos enganem, que se descubra a peçonha e não nos escondam a luz e a verdade. Oh! com quanta razão nos ensina o nosso bom Mestre a pedir isto, e Ele o pede por nós!

3. Olhai, filhas, que de muitas maneiras nos podem causar dano e não penseis que é só em fazer-nos entender que os gostos e regalos que em nós podem fingir são de Deus, pois isto me parece, em parte, o menor dano que nos podem fazer; antes, poderá ser que, com isto, nos façam caminhar mais depressa, porque atraídas por aquele gosto, estaremos mais horas na oração. E, como ignoram que é obra do demónio e como se vêm indignos daqueles regalos, não acabarão de dar graças a Deus, ficarão mais obrigados a servi-lO e esforçar-se-ão para nos disporem, a fim de receber mais mercês do Senhor, pensando serem de Sua mão.

4. Procurai sempre, irmãs, ter humildade e ver que não sois dignas destas mercês, e não as procureis! Fazendo isto, tenho para mim que muitas almas escapam assim ao demónio, pensando ele que por aqui consegue que elas se percam; do mal que ele pretende fazer, tira o Senhor o nosso bem.

Porque Sua Majestade olha à nossa intenção, que é de O contentar e servir, estando com Ele na e oração e fiel é o Senhor. Bom é andar de sobreaviso, não haja quebra da humildade ou gerar-se alguma vanglória. Suplicando ao Senhor que nos defenda disto, não tenham medo, filhas, que Sua Majestade vos deixe receber mercês de alguém, senão d'Ele.

5.Onde o demónio pode fazer grande dano sem o entender, é fazendo-nos crer que temos virtudes não as tendo, e isto é pestilencial. Porque nos gostos e regalos parece que só recebemos e ficamos mais obrigados a servir. Aqui, parece que damos e servimos e que o Senhor está obrigado a pagar, e assim, pouco a pouco, faz muito dano, pois, por uma parte enfraquece a humildade e, por outra, descuidamo-nos de adquirir aquela virtude que julgamos já ter ganho.

E que remédio dar a isto, irmãs? O que a mim me parece melhor é o que nos ensina o nosso Mestre: oração e suplicar ao Pai Eterno que não permita que andemos em tentação. Também vos quero dizer um outro remédio: se nos parece que o Senhor já nos deu alguma virtude, entendamos que é um bem recebido e que no-lo pode tornar a tirar, como, na verdade, acontece muitas vezes e não sem grande providência de Deus. Nunca o experimentastes por vós mesmas, irmãs? Pois eu sim; umas vezes parece-me que estou muito desprendida e, na verdade, chegando-me à prova, vejo que o estou de facto; outras vezes encontro-me tão apegada e, porventura, a coisas de que no dia anterior eu troçara, que quase não me reconheço. Outras vezes me parece ter muito ânimo, e que a coisas que fossem servir a Deus não voltaria o rosto; e está provado que assim o tenho em algumas. Vem outro dia em que não me acho com ele para matar uma formiga por Deus, se achasse nisso contradição. Assim, umas vezes me parece que não se me dá nada de coisa alguma que murmurassem ou dissessem de mim; e, vindo à prova, algumas vezes é assim, pois até me causa contentamento. Vem outros dias em que uma só palavra me aflige e quereria ir-me deste mundo, porque tudo nele me cansa. E isto não acontece só a mim, pois o tenho visto em muitas pessoas melhores do que eu, e sei que é assim que se passam as coisas.

7. Se isto é assim, quem poderá dizer de si mesma que tem virtude, nem que está rica, se, na melhor altura em que precisar de virtude, se acha dela pobre? Não e não, irmãs; pensemos antes que sempre o estamos pobres e não nos endividemos sem ter com que pagar; porque de outra parte nos há-de vir o tesouro e não sabemos quando Deus nos quererá deixar no cárcere da nossa miséria sem nos dar nada. E se, tendo-nos por boas, nos fazem mercê e honra, - que é o emprestar que digo -, ficarão enganados tanto eles como nós. Verdade é que, servindo-O com humildade, por fim nos socorre o Senhor nas necessidades; mas, se não há muito deveras esta virtude, a cada passo - como dizem - vos deixará o Senhor. E isto é gran- díssima mercê da Sua parte: é para que a tenhais e entendais com verdade que nada possuímos que não tenhamos recebido.

8. Agora, notai outro aviso: dá-nos o demónio a entender que temos certa virtude, digamos a paciência, porque nos determinamos e fazemos propósitos muito contínuos de sofrer muito por Deus; e parece-nos de verdade que o sofreríamos de facto, e assim andamos muito contentes, porque o demónio ajuda a que acreditemos. Mas eu vos aviso: não façais caso destas virtudes, nem pensemos que as conhecemos mais que de nome, nem que o Senhor no-las deu, até que vejamos a prova; pois acontecerá que, a uma palavra que vos digam do vosso desagrado, caia por terra a vossa paciência. Quando sofrerdes muitas vezes, louvai a Deus que vos começa a ensinar esta virtude, e esforçai-vos a padecer, porque é sinal que com isso quer que Lha pagueis, pois vo-la dá, e não a tenhais senão como em depósito, como já ficou dito.

9. Há outra tentação: parece-nos que somos muito pobres de espírito, e temos costume de o dizer e que não queremos nada, nem se nos dá nada de nada; mas mal se nos oferece a ocasião de nos darem alguma coisa, - mesmo além do necessário -, logo fica perdida de todo a pobreza do espírito. Ajuda muito ter costume de o dizer mais do que parecer que se tem.

Muito faz ao caso andar sempre de sobreaviso para entender que isso é tentação, tanto nas coisas de que falei, como em outras muitas; porque, quando o Senhor dá deveras uma sólida virtude destas, parece que a todas arrasta após si; isto é coisa muito conhecida. Mas torno a avisar-vos: embora vos pareça que a tendes, temei de vos enganardes, porque o verdadeiro humilde sempre anda duvidoso das virtudes próprias, e muito habitualmente julga mais seguras e de mais valia as que vê no próximo.

CAPÍTULO 39. Prossegue a mesma matéria e dá avisos sobre tentações, sendo algumas de diversos modos, e propõe remédios para que se possam livrar delas.

1. Pois, guardai-vos também, filhas, de umas humildades que infunde o demónio com grande inquietação sobre a gravidade de nossos pecados. Costuma apertar aqui de muitas maneiras, até apartar a alma das comunhões e de ter oração particular (por o não merecerem, sugere-lhes aqui o demónio); e, quando se aproximam do Santíssimo Sacramento, em pensar se se prepararam bem ou não, se lhes vai o tempo em que haviam de receber mercês. Chega a coisa a ponto de fazer parecer à alma que, por ser assim, está abandonada de Deus e quase põe em dúvida a Sua misericórdia. Tudo quanto trata lhe parece perigo, e sem fruto tudo quanto faz, por bom que seja. Põe-lhe uma tal desconfiança que lhe caem os braços para fazer qualquer bem, porque se lhe afigura que o que é bem nos outros, nela é mal.

2. Olhai tnuito, filhas, a isto que vos direi, porque algumas vezes poderá ser humildade e virtude o terdes-vos assim por tão ruins e outra grandíssima tentação! Porque eu passei por isso, o conheço. A humildade não inquieta, nem desassossega, nem alvorota a alma, por grande que seja; mas vem com paz e gozo e sossego. Ainda que alguém, por se ver ruim, entenda claramente que merece estar no inferno, e se aflija, e lhe pareça de justiça que todos o hajam de aborrecer, e não ouse quase pedir misericórdia, se for boa a humildade, esta pena traz em si uma suavidade e contentamento que não nos quereríamos ver sem ela. Não alvorota nem aperta a alma; antes a dilata e torna apta para melhor servir a Deus. Essa outra pena tudo perturba, tudo alvorota, revolve toda a alma; é penosíssima. Creio que pretende o demónio que pensemos ter humildade e, se pudesse, a voltas com isto, desconfiássemos de Deus.

3. Quando assim vos achardes, atalhai o pensamento da vossa miséria o mais que puderdes, e ponde-o na misericórdia de Deus, no que Ele nos ama e padeceu por nós. E, se é tentação, até nem isto podereis fazer, pois o demónio não vos deixará sossegar o espírito nem pensar em nada, senão naquilo que mais vos afligir: Muito será se conhecerdes que é tentação.

O mesmo fará sugerindo penitências desmedidas, para dar a entender que somos mais penitentes do que as outras e fazemos alguma coisa. Se vos andais escondendo do confessor ou da prelada, ou se, dizendo-vos eles que deixeis essas penitências não fazeis caso, é clara tentação. Procurai, por mais pena que vos dê - obedecer, pois nisto está a maior perfeição.

4. O demónio ainda vem com outra bem perigosa: uma segurança em nos parecer que, de maneira nenhuma, voltaríamos às culpas passadas e prazeres do mundo; «já compreendi e sei que tudo acaba e que mais gosto me dão as coisas de Deus». Esta, se é no princípio, é muito má, porque, com esta segurança, não se lhes dá nada de se porem de novo nas ocasiões, e faz-lhes fechar os olhos, e praza a Deus que não seja muito pior a recaída. Porque o demónio, quando vê que lhe pode causar dano uma alma, fugindo-lhe e dar proveito a outras, faz tudo quanto pode para que ela não se levante.

Assim, por mais gostos e provas de amor que o Senhor vos dê, nunca andeis tão seguras que deixeis de temer o poderdes tornar a cair, e guardai-vos das ocasiões.

5. Procurai muito consultar sobre essas mercês e regalos com quem vos esclareça, sem ocultar coisa nenhuma. E tende esse cuidado: no princípio e fim da oração, por subida contemplação que seja, acabai sempre no conhecimento próprio. E se é de Deus, ainda que não queiras nem tenhais este aviso, o fareis ainda muitas vezes, porque traz consigo humildade e deixa sempre mais luz para conhecermos o pouco que somos.

Não me quero deter mais nisto, porque achareis muitos livros com estes avisos. Tudo o que disse é por ter passado por isso e me ter visto em trabalhos algumas vezes. Tudo quanto se possa dizer, não pode dar absoluta garantia.

6. Pois, Pai Eterno, que havemos de fazer senão recorrer a Vós e suplicar-Vos que estes nossos inimigos não nos tragam em tentação? Venham antes coisas públicas, pois, com o Vosso favor, melhor nos livraremos. Mas estas tentações, quem as entenderá, Deus meu? Sempre temos necessidade de Vos pedir remédio. Dizei-nos, Senhor, alguma coisa para que nos entendamos e descansemos. Já sabeis que, por este caminho, não vai a maior parte, e se têm de ir com tantos medos, irão ainda muitos menos.

7. Coisa estranha é esta; como se aos que não vão por caminho de oração não tentasse o demónio! e que todos se espantem mais que ele engane a um só dos mais chegados à perfeição, do que de cem mil que vêem cair em enganos e pecados manifestos, que nem é preciso andar a ver se é bem ou mal, porque a mil léguas se vê ser de Satanás.

Na verdade, têm razão, porque são tão poucochinhos os que engana o demónio dos que rezarem o Pai Nosso do modo que fica dito, que, como coisa nova e não usada, causa admiração. É coisa muito própria dos mortais passar facilmente pelo que vêem continuadamente, e espantar-se muito do que acontece muito poucas vezes ou quase nenhuma. E os próprios demónios os fazem espantar, porque lhes convém a eles, pois perdem muitos com um que chega à perfeição.

CAPÍTULO 40. Diz como, procurando andar sempre em amor e temor de Deus, iremos seguras entre tantas tentações.

1. Pois, nosso bom Mestre, dai-nos algum remédio para vivermos sem muito sobressalto em guerra tão perigosa.

Aquele que podemos ter, filhas, e por Sua Majestade nos foi dado, é «amor e temor». O amor nos fará apressar o passo; o temor nos fará ir vendo onde pomos os pés para não cair em caminho onde há tanto em que tropeçar, como é este em que caminhamos todos os que vivemos. E con isto é bem certo não sermos enganados.

2. Dir-me-eis: como saberemos se temos estas duas virtudes tão gran des, tão grandes? E tendes razão, porque sinal muito certo e determinada não o pode haver; porque se o tivéssemos de ter amor, ficaríamos certos à que estamos em graça. Mas olhai, irmãs, há sinais que parece até os cego vêem; não ficam secretos; e, mesmo que não os queirais entender, ele darão vozes que fazem muito ruído, porque não são muitos os que os tên com perfeição, e assim se notam mais. É como quem não diz nada: amor temor de Deus! São dois castelos fortes donde se faz guerra ao mundo e ao demónios.

3. Quem deveras ama a Deus, todo o bem ama, todo o bem quer, todo i bem favorece, todo o bem louva, com os bons se junta sempre e os favorece e defende; não ama senão verdades e coisa que seja digna de se amai Pensais que é possível, a quem mui deveras ama a Deus, amar vaidades, oi riquezas, ou coisas de deleites do mundo, ou honras, ou tenha contendas ou invejas? Não, que nem pode; e tudo, porque não pretende outra coisa senã, contentar ao Amado. Andam estes morrendo para que Ele os ame, e assar dariam a vida para entender como mais Lhe hão-de agradar.

Que o amor de Deus, se deveras é amor, é impossível que estej muito encoberto. Senão, olhai um São Paulo, uma Madalena: em três dias um começou a dar mostras de estar enfermo de amor: foi São Paulo. A Madalena, desde o primeiro dia; e como o deu bem a entender! Que isttem o amor: há mais e menos; e assim se dá a conhecer conforme a forç que ele tem. Se é pouco, dá-se pouco a conhecer; se é muito, muito; mas pouco ou muito, como haja amor de Deus, sempre se conhece.

4. Mas, do que agora mais tratamos, que é dos enganos e ilusões que demónio arma aos contemplativos, não há pouco: aqui sempre o amor muito - ou eles não serão contemplativos -, e se dá a conhecer muito e de muitas maneiras. É grande fogo, não pode deixar de dar grande resplendor. E, se não há isto, andem com grande receio; creiam que têm bem que temer, procurem entender o que é, orem por essa intenção, andem com humildade e supliquem ao Senhor que não os traga em tentação; que, certo é, não havendo este sinal, eu temo que andemos nela. Mas, andando com humildade, procurando saber a verdade, sujeitas ao confessor e tratando com ele com sinceridade e franqueza, - conforme está dito -, aquilo mesmo com que o demónio pensa dar-vos a morte, vos dará a vida, por mais ciladas e ilusões que vos queira fazer.

5. Mas se sentis este amor de Deus que digo, e o temor que agora direi, andai alegres e sossegadas; pois, para vos perturbar a alma a fim de não gozar tão grandes bens, o demónio meter-vos-á mil temores falsos e fará com que outros também vo-los metam. Já que não pode apanhar-vos, ao menos procura fazer-vos perder alguma coisa, assim como aos que poderiam lucrar muito se acreditassem serem de Deus as tão grandes mercês feitas a uma criatura tão ruim, e julgassem ser isso possível. Parece algumas vezes que esquecemos as Suas antigas misericórdias.

6. Pensais que importa pouco ao demónio meter estes temores? - Não! mas muito, porque causa dois danos, Um, é atemorizar os que o escutam e temem assim de se chegarem à oração, pensando poderem também ser enganados. O outro, é que muitos se chegariam mais a Deus, vendo que é tão bom, - como digo - e que é possível comunicar-se agora tanto aos pecadores, desperta-lhes o desejo da mercê e têm razão que eu conheço algumas pessoas a quem isto animou e começaram a ter oração e em pouco tempo saíram verdadeiros contemplatívos, fazendo-lhes o Senhor grandes mercês.

7. Assim, irmãs, quando virdes entre vós alguma a quem o Senhor as faça, louvai muito ao Senhor, mas não penseis por isso que está segura, antes ajudai-a com mais oração, porque ninguém o pode estar enquanto vive e anda engolfado nos perigos deste mar tempestuoso.

Assim, não deixareis de entender este amor onde o houver, nem sei como se possa encobrir.Aqui na terra, quando amamos as criaturas, dizem ser impossível e que quanto mais fazem por encobri-lo mais se descobre, sendo coisa tão baixa que nem merece o nome de amor, porque se baseia num mero nada. E havia de se poder encobrir um amor tão forte, tão justo, que vai sempre crescendo, que não vê coisa para deixar de amar, assente sobre tal alicerce como é o ser pago com outro amor, do qual já não se pode duvidar, pois está posto à vista tão a descoberto, por tão grandes dores e trabalhos e derramamento de sangue até perder a vida, para que não nos ficasse nenhuma dúvida desse amor? Oh! valha-me Deus! Que coisa tão diferente deve ser o outro amor a quem este tenha experimentado!

8. Praza a Sua Majestade nos dê o Seu antes de nos tirar desta vida, porque será grande coisa, à hora da morte, ver que vamos ser julgados por Aquele a quem temos amado sobre todas as coisas. Poderemos ir seguras do pleito de nossas dívidas; não vamos para terra estranha, mas para a nossa própria, pois é a d'Aquele a quem tanto amamos e nos ama Lembrai-vos, aqui, filhas minhas, do lucro que traz consigo este amor, e da perda de o não ter, que nos põe nas mãos do tentador, em mãos tão cruéis, mãos tão inimigas de todo o bem, e tão amigas de todo o mal.

9. Que será da pobre alma que, acabada de sair de tais dores e trabalhos, como são os da morte, cai logo nelas? Que mau descanso lhe vem! Que despedaçada irá para o inferno! Que multidão de serpentes de toda a espécie! Que temeroso lugar! Que desventurada hospedagem! Pois, se para uma noite mal se sofre uma má pousada, se são pessoas dadas a regalos (como o são os que para lá mais devem ir), que pensais, pois, que sentirá aquela triste alma em pousada que é para sempre, que não terá fim?

Oh! Não queiramos regalos, filhas; estamos bem aqui; tudo é uma noite numa má pousada. Louvemos a Deus, esforcemo-nos por fazer penitência nesta vida. Mas, que doce será a morte para quem já a fez de todos os seus pecados e não tem de ir ao Purgatório! E como até poderá ser que, ainda neste mundo, comece a gozar da glória, não verá em si temor, senão inteira paz

10. Mas já que não chegaremos a isto, irmãs, supliquemos a Deus que, se formos logo receber penas, seja onde, com a esperança de sair delas, as soframos de boa vontade e onde não percamos a Sua amizade e graça, e que no-la dê nesta vida para não andarmos em tentação sem o entendermos.

CAPÍTULO 41. Fala do temor de Deus e como nos havemos de guardar dos pecados veniais.

1. Quanto me alonguei! Mas não tanto como quisera, porque é coisa saborosa falar de tal amor. E que será tê-lo?' O Senhor mo dê, por quem Sua Majestade é.

Venhamos agora ao temor de Deus. É coisa também muito conhecida daquele que o tem, e dos que tratam com Ele. Quero, no entanto, que entendais que ao princípio não está tão crescido, a não ser em algumas pessoas, a quem - como já disse - o Senhor faz grandes mercês e, em breve tempo, as faz ricas de virtudes. Assim não se conhece em todos, digo no princípio. Vai-se-lhes aumentando o valor, crescendo mais cada dia; ainda que desde logo se conhece, pois logo se apartam de pecados e das ocasiões e de más companhias, e vêem-se outros sinais. Mas, quando a alma já chegou à contemplação - e é do que agora aqui mais tratamos -, o temor de Deus também anda muito a descoberto, tal como o amor; não vai dissimulado, nem mesmo no exterior. Por mais atenção que se tenha, estando a olhar para estas pessoas, ninguém as verá andar descuidadas; e, por grande cuidado que tenhamos em as observar, o Senhor as tem de tal maneira que, embora se lhes oferecesse grande interesse, não farão com advertência um pecado venial; e os mortais temem como ao fogo.

E estas são as ilusões que eu quereria, irmãs, temêssemos muito, e supliquemos sempre a Deus não seja tão forte a tentação que O ofendamos, mas no-la dê conforme à fortaleza que nos há-de dar para vencê-la. Isto é o que faz ao caso; este temor é o que eu desejo que nunca se aparte de nós, pois é o que nos há-de valer.

2. Oh! que grande coisa é não ter ofendido ao Senhor, para que os Seus servos e escravos infernais estejam atados! Enfim, todos O hão-de servir por muito que lhes pese; eles à força e nós com toda a nossa vontade. E, assim, trazendo a Deus contente, eles estarão à raia, não farão coisa que possa causar dano, por mais que nos tragam em tentação e nos armem laços secretos.

3. Tende conta e aviso nisto, - pois importa muito -, que não vos descuideis até que vos vejais com tão grande determinação de não ofender o Senhor, que antes perderíeis mil vidas do que fazer um pecado mortal. E dos veniais, estai com muito cuidado de não os fazer; isto com advertência, que de outra sorte, quem estará sem fazer muitos? Mas há uma advertência muito pensada; outra tão rápida que, fazer o pecado venial e advertir, é quase tudo uma e mesma coisa; nem nos podemos entender. Mas, pecado muito de advertência, por pequeno que seja, Deus nos livre dele; tanto mais que não pode haver pouco, sendo contra uma tão grande Majestade, e vendo que nos está a ver. Isto a mim parece-me pecado premeditado e como quem diz: Senhor, embora Vos pese, eu farei isto. Bem vejo que o vedes, e sei e entendo que não o quereis; mas antes quero seguir o meu capricho e apetite do que a Vossa vontade». Que em coisas deste teor possa haver pouco, a mim não me parece, por leve que seja a culpa, senão muito e muitíssimo.

4. Olhai, irmãs: por amor de Deus, se quereis alcançar este temor de Deus, que vai muito em entender quão grave coisa é uma ofensa a Deus e tratar disso em vossos pensamentos muito habitualmente. Isto é para nós questão de vida e muito mais em ter arreigada em nossas almas esta virtude. E, até que a tenhais, é preciso andar sempre com muito, muito cuidado, e apartarmo-nos de todas as ocasiões e companhias, que não nos ajudem a chegarmo-nos mais a Deus. Ter grande conta com tudo o que fazemos para dobrartnos nisso a nossa vontade, e também com o que dizemos, a fim de que seja para edificação; fugir de onde houver práticas que não sejam de Deus.

É muito necessário que fique em nós bem impresso este temor; ainda que, se deveras há amor, se ganha depressa. Mas, tendo a alma visto em si uma grande determinação - como já disse de não fazer nenhuma ofensa a Deus por coisa alguma criada ainda que depois caia alguma vez, porque somos fracos e não há que fiar de nós; (quando mais determinados, menos confiemos de nossa parte, pois é de Deus que nos há-de vir a confiança); quando entendermos de nós mesmos isto que disse, já não é preciso andar tão encolhidos nem cuidadosos. O Senhor nos favorecerá, e o costume virá em nossa ajuda para não O ofendermos; mas andar corri uma santa liberdade, tratando com quem for justo, ainda mesmo que sejam pessoas distraídas. Porque essas mesmas que, antes de terdes este verdadeiro temor de Deus, vos foram veneno e ajuda para matar a alma, muitas vezes vos servirão para mais amar a Deus e O louvar porque vos livrou daquilo que vedes ser perigo notório. Se antes fostes parte para os ajudar em suas fraquezas, agora o sereis para que nelas estejam com mais cuidado por estarem diante de vós, e mesmo sem vos quererem fazer honra, assim acontece.

5. Eu louvo muitas vezes ao Senhor, pensando donde virá que, sem dizer palavra, muitas vezes um servo de Deus atalha palavras que contra Ele se dizem. Deve ser porque, assim como cá no mundo, se temos um amigo, sempre há o respeito de (na sua ausência) não lhe fazer agravo diante de quem se sabe que o é, assim àquele que está em graça, por humílimo que seja, a mesma graça deve fazer com que lhe tenham respeito, e não lhe dêem pena em coisa que tanto entendem há-de sentir, como é ofender a Deus. O caso é que eu não sei a causa, mas sei que isto se dá muito habitualmente.

Assim não vos acanheis porque, se a alma se começa a encolher, é coisa muito má para tudo quanto é bem e às vezes dão em ser escrupulosas, e aqui a tendes inabilitada para si e para os outros e, mesmo que não dê nisto, será boa para si, mas não levará muitas almas para Deus, pois vêem tanto constrangimento e aperto. É que a nossa natureza é de tal sorte, que as atemoriza e sufoca, e fogem de seguir o caminho que levais, embora reconheçam claramente ser de mais virtude.

6. E daqui vem outro dano, que é julgar a outros: corno não vão pelo vosso caminho, mas com mais santidade para dar proveito ao próximo, tratam com liberdade e sem esses encolhimentos e assim logo vos parecerão imperfeitas. Se têm alegria santa, parecerá dissipação, principalmente às que não temos letras, nem sabemos no que se pode tratar sem pecado. É coisa muito perigosa e andarem tentação contínua e de muito má digestão porque é em prejuízo do próximo. E pensar que, se não vão todos pelo mesmo modo, encolhidos, não vão tão bem, é muitíssimo mal.

E há outro dano: em algumas coisas em que deveríeis falar e é de razão que faleis, não ousareis fazê-lo por medo de vos exceder algum tanto, e direis até, porventura, bem do que seria muito bom que abominásseis.

7. Assim, irmãs; tanto quanto puderdes, sem ofensa de Deus, procurai ser afáveis e entender de modo com todas as pessoas que convosco tratarem, a que amem a vossa conversação e desejem a vossa maneira de viver e de tratar, e não se atemorizem e amedrontem da virtude. A religiosas importa muito isto: quanto mais santas, mais conversáveis com vossas irmãs. E, ainda que sintais muito pesar se todas as suas conversas não vão como vós as quereríeis, nunca vos esquiveis, se quereis que aproveitem e quereis ser amadas por elas. É isto o que muito devemos procurar: ser afáveis e agradar e contentar às pessoas com quem tratamos, especialmente às nossas irmãs.

8. Assim pois, filhas minhas, procurai entender de Deus, em verdade, que Ele não olha a tantas minúcias como pensais e não deixeis que se vos tolha a alma e o ânimo, pois com isso se poderão perder muitos bens. Mas, intenção recta, vontade determinada, como tenho dito, de não ofender a Deus! Não deixeis encurralar a vossa alma: em lugar de achar santidade, ganhará muitas imperfeições que o demónio lhe porá por outras vias e, como já disse, não aproveitará nem para si nem às outras tanto quanto poderia.

9. Aqui vedes como, com estas duas coisas, - amor e temor de Deus -, podemos ir por este caminho sossegados e tranquilos, ainda que, como o temor há-de ir sempre na frente, não descuidados; mas esta segurança não a havemos de ter enquanto vivemos, porque seria um grande perigo. E assim o entendeu o nosso Ensinador, quando no fim desta oração disse a Seu Pai estas palavras, como quem bem entendeu ser necessário.

CAPÍTULO 42. Trata destas últimas palavras do Pater noster: «Sed libera nos a malo. Amen». Mas livrai-nos do mal. Amen.

1. Parece-me que tem razão o bom Jesus ao pedir isto para Si, porque bem vemos como estava cansado desta vida, quando na Ceia disse a Seus Apóstolos: «Desejei com grande desejo comer convosco esta ceia», que era a última da Sua vida. Por aí se vê que cansado já devia estar de viver. agora não se cansarão, mesmo que tenham cem anos, mas sempre com de. sejos de viver mais. Verdade é que não a passamos tão mal nem com tanto trabalhos como Sua Majestade a passou, nem tão pobremente. Que foi toda a Sua vida, senão uma contínua morte, trazendo a que Lhe haviam de dai tão cruel sempre diante dos olhos? E isto era o menos; mas tantas ofensa como as que se faziam a Seu Pai, e uma multidão tão grande de almas com as que se perdiam! Pois se aqui, a uma alma que tenha caridade, isto lhe f grande tormento, que seria com a caridade infinita deste Senhor? E quanta razão tinha de suplicar ao Pai que O livrasse já de tantos males e trabalho e O pusesse para sempre no descanso de Seu reino, pois era dele o verdadeiro herdeiro!

2. "Amen". Com este amen entendo eu, pois com ele se acabam toda as coisas, pede o Senhor que sejamos livres de todo o mal para sempre. E assim o suplico eu ao Senhor que me livre de todo o mal para sempre, pois não acabo de pagar o que devo, e pode ser, porventura, que eu me esteja a endividar cada dia mais. E o que não se pode sofrer, Senhor, é não poder saber ao certo se Vos amo, nem se os meus desejos são aceites diante de Vós, ó Senhor e Deus meu! livrai-me já de todo o mal, e sede servido de me levar aonde estão todos os bens! Que esperam já, aqui na terra, aqueles a quem tendes dado algum conhecimento do que é o mundo, e os que têm viva fé no que o Pai Eterno lhes tem guardado?

3. O pedir isto, com grande desejo e com toda a determinação, é para os contemplativos grande sinal de que são de Deus as mercês que recebem na oração. Assim, os que o forem, tenham-no em muito. O pedi-lo eu, não é por este motivo, digo que não se tome como tal, senão que, como tenho vivido tão mal, já temo viver mais, e cansam-me tantos trabalhos. Os que participam dos regalos de Deus, não é muito que desejem estar onde não os gozem só a sorvos, e não queiram estar em vida onde tantos embaraços há para gozar de tanto bem, e desejem estar onde não se ponha para eles o Sol da justiça. Tudo quanto depois aqui vêem, parecer-lhes-á escuro e, de como vivem, me espanto. Mas não deve ser a contento de quem começou a gozar e já aqui lhe deram algo do seu reino; e não há-de viver por sua própria vontade, senão por vontade do seu Rei.

4. Oh! como deveria ser outra esta vida para não se desejar a morte! Como a nossa vontade se inclina diversamente daquilo que é vontade de Deus! Ele quer que queiramos a verdade, nós queremos a mentira; quer que queiramos o eterno, nós inclinamo-nos ao que acaba; quer que queiramos coisas grandes e subidas, queremo-las baixas e da terra; queria quiséssemos só o certo, amamos o duvidoso. Até parece uma farsa, filhas minhas! E assim, suplicai a Deus que nos livre para sempre destes perigos e nos liberte já de todo o mal. E ainda que o nosso desejo não seja com perfeição, esforcemo-nos a fazer esta petição. Que nos custa pedir muito, se pedimos a Quem é poderoso? Mas, para melhor acertarmos, deixemos que dê conforme a Sua vontade, pois já Lhe demos a nossa. E seja para sempre santificado o Seu nome, nos céus e na terra, e em mim seja sempre feita a Sua vontade. Amen.

5. Agora vede, irmãs, como o Senhor me tirou de trabalhos, ensinando a vós e a mim o caminho de que comecei a falar-vos, dando-me a entender o muito que pedimos quando dizemos esta oração evangélica. Seja bendito para sempre, que é certo jamais meter vindo ao pensamento houvesse nela tão grandes segredos, pois já tendes visto que encerra em si todo o caminho espiritual, desde o princípio até Deus engolfar a alma e lhe dar abundantemente a beber da fonte da água viva, que eu vos disse estar no fim do caminho. Parece que o Senhor nos quis dar a entender, irmãs, a grande consolação que está aqui encerrada, e é grande proveito para as pessoas que não sabem ler. Se o entendessem, por esta oração poderiam tirar muita doutrina e consolar-se nela.

6. Aprendamos, pois, irmãs, da humildade com que nos ensina este bom Mestre; e suplicai-Lhe me perdoe, pois me atrevi a falarem coisas tão altas. Bem sabe Sua Majestade que meu entendimento não é capaz para isto, se Ele não me ensinara o que tenho dito. Agradecei-Lhe vós, irmãs, porque deve-o ter feito pela humildade com que mo pedistes e quisestes ser ensinadas por coisa tão miserável.

7. Se o Padre Presentado Frei Domingo Báñez, que é meu confessor, a quem o darei antes que o vejais, vir que é para vosso aproveitamento e vo-lo der a ler, consolar-me-ei que vos consoleis. Se não estiver de modo a que alguém o veja, aceitareis a minha boa vontade, porque, com a obra, obedeci ao que me mandastes; e me dou por bem paga do trabalho que tenho tido em escrever, mas não por certo em pensar o que deixo dito.

Bendito e louvado seja o Senhor, de Quem nos vem todo o bem que falamos, pensamos e fazemos. Amen.

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