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domingo, 14 de agosto de 2011

A PROBABILIDADE DA RESSURREIÇÃO DE JESUS

A PROBABILIDADE DA RESSURREIÇÃO DE JESUS

Richard Swinburne**

RESUMO

O artigo discute a forma de um argumento em favor da ressurreição de

Jesus do modo como o Cristianismo acredita que esta ocorreu, o qual, se

bem-sucedido, seria um forte indício histórico da existência de Deus. O

artigo sustenta que Deus teve boas razões para se encarnar por certos

propósitos e que, se assim ele o fez, ele viveria um certo tipo de vida como

um ser humano, que seria culminada por um supermilagre como sua

ressurreição. Se encontrarmos um e apenas um ser humano em toda a

história sobre o qual haja uma quantidade modesta de indícios do tipo que

se esperaria se ele viveu aquele tipo de vida e uma modesta quantidade de

indícios do tipo a ser esperado se aquela vida fosse culminada por um

supermilagre como a ressurreição, isso é um indício bem forte de que aquele

ser humano era Deus encarnado. Assim, aqueles indícios aumentariam

significativamente a probabilidade de que Deus existe.

Palavras-chave: ressurreição, Jesus, probabilidade, encarnação.

THE PROBABILITY OF THE RESSURRECTION OF JESUS

This article discusses the form of an argument for the Resurrection of Jesus

as Christianity believes it occurred, which, if successful, would be strong

historical evidence for the existence of God. The article argues that God

had good reason to become incarnate for certain purposes, and that if he

did he would live a certain kind of life as a human, which would be

culminated by a super-miracle such as his resurrection. If we find one and

only one human in all history about whom there is a modest amount of

evidence of a kind to be expected if he lived that kind of life and a modest

amount of evidence of a kind to be expected if that life was culminated by

a super-miracle such as the resurrection, that is very strong evidence that

* Professor da Oxford University, Inglaterra.

Episteme, Porto Alegre, n. 18, p. 87-102, jan./jun. 2004.

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that human was God incarnate. Hence that evidence would greatly increase

the probability that there is a God.

Key words: resurrection, Jesus, probability, incarnation.

A discussão nesta conferência de um argumento para a existência de

Deus difere das discussões dos argumentos apresentados nas duas palestras

anteriores em dois aspectos. Em primeiro lugar, ela discute apenas a forma de

um argumento a partir de um certo indício histórico. O indício histórico é

complicado e tem sido discutido extensamente por inúmeros especialistas em

Novo Testamento. Eu mesmo fiz algumas contribuições pormenorizadas para

essa literatura num livro recente.1 O que estou preocupado em mostrar aqui é o

tipo de indício histórico que precisamos e o quão forte ele tem de ser para que

alcancemos nossa conclusão. Em segundo lugar, a conclusão que estou

buscando estabelecer não é apenas de que Deus existe, mas que ele se tornou

encarnado em Jesus Cristo, que ressurgiu dos mortos fisicamente na manhã do

primeiro dia de Páscoa. Isso obviamente acarreta que Deus existe! Mas se a

prática de qualquer religião deve ser racional, as crenças que devem ser racionais

não são apenas as crenças de que existe um Deus, mas crenças mais

pormenorizadas – incluindo, no caso da religião cristã, aquela que eu acabei

de mencionar. Precisamos de crenças acerca de como Deus interage conosco

para nossa religião se tornar relevante. E para essas crenças serem racionais,

deve haver bons argumentos probabilísticos que as mostrem como tais. Assim,

vamos considerar como poderíamos mostrar que Jesus (provavelmente)

ressurgiu dos mortos depois de sua morte por crucifixão 36 horas antes. Uma

conclusão acerca de quem Jesus era será vista na seqüência.

Na avaliação de qualquer hipótese histórica, devemos levar em conta

três tipos de indícios. O primeiro tipo é o mais óbvio – o relato de testemunhas

acerca dos dados físicos causados pelo que aconteceu no tempo e lugar em

questão. Se é sugerido que John roubou um certo cofre, então nossa evidência

histórica óbvia é o que as testemunhas disseram (sobre quem estava perto do

cofre no momento em questão e onde John estava naquela hora) e dados físicos

tais como impressões digitais no cofre, dinheiro achado na garagem de John,

etc. Chamarei tais indícios de indícios históricos posteriores. Na medida em

que a hipótese é simples e os indícios históricos posteriores são tais que você

esperaria encontrá-los se a hipótese em questão for verdadeira, mas não de

outro modo, isso é prova de que a hipótese é verdadeira. Por exemplo, se John

1 The Ressurection of God Incarnate, Oxford: Clarendon Press, 2003.

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roubou o cofre, você esperaria encontrar suas impressões digitais nele, mas

não esperaria encontrá-las se ele não o tivesse roubado. Na falta de indícios

para uma hipótese da inconfiabilidade das testemunhas, se John roubou o cofre,

você esperaria que qualquer pessoa que viu John naquela hora, ou que estivesse

perto do cofre naquela hora, dissesse que viu John ali. Mas não esperaria que

ela o dissesse se John não estivesse ali.

Enfatizo aqui, como nas conferências anteriores e em outro ponto nesta

conferência, a importância crucial da simplicidade ao avaliar a verdade de

uma teoria. Há sempre um número infinito de teorias possíveis na ciência,

história ou qualquer outra esfera de investigação que são tais que, se elas fossem

verdadeiras, você esperaria encontrar o indício encontrado. As impressões

digitais de John no cofre, o testemunho de George acerca da presença de John

na cena do roubo na hora de sua ocorrência e o fato de John ter um monte de

dinheiro escondido em sua garagem poderiam ser facilmente explicados por

Harry ter impresso as impressões digitais ali por brincadeira, George dizer

uma mentira porque ele não gosta de John e Jim ter colocado o resultado de

outro roubo na garagem de John. Mas, na falta de indícios a mais, a teoria de

que John cometeu o crime é a mais provavelmente verdadeira, pois é a mais

simples ao postular que uma pessoa (John), ao fazer algo (roubar o cofre),

causou, de diferentes maneiras, os três indícios elencados. A menos que a teoria

mais simples sobre os dados seja a mais provavelmente verdadeira, nenhuma

teoria científica teria qualquer justificação, pois é muito fácil inventar um

número infinito de teorias que são tais que tornam provável a ocorrência dos

dados, mas que discordam totalmente entre si em suas predições para o futuro.

A menos que haja algo interno à teoria, que não sua relação com os dados, que

a faça provavelmente verdadeira, devemos abandonar qualquer investigação;

e nossas claras convicções sobre o que é evidência do que indicam que a

simplicidade é aquela característica interna que tomamos como evidência da

verdade.

Assim como os indícios históricos posteriores, precisamos levar em conta

indícios gerais de fundo acerca do quão provável a hipótese é verdadeira,

independentemente dos indícios históricos pormenorizados. Em meu humilde

exemplo, este indício será evidência do comportamento passado de John e o

comportamento passado de outros sujeitos que poderiam, por exemplo, sustentar

fortemente (como sua explicação mais simples) uma teoria de que John não é

o tipo de pessoa que roubaria um cofre, enquanto George é exatamente este

tipo de pessoa. Nesse caso, ainda que os indícios históricos posteriores fossem

exatamente os que nós esperaríamos se John tivesse roubado o cofre, mas não

os que nós poderíamos esperar se George tivesse roubado o cofre, nós

poderíamos corretamente concluir que George é provavelmente o culpado.

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Neste exemplo, os indícios de fundo eram bastante limitados – o

comportamento passado de John ou George. Mas a influência conjunta dos

indícios de fundo e dos indícios históricos posteriores opera onde os indícios

de fundo são muito mais gerais. Suponha que o astrônomo observe em seu

telescópio um certo padrão de pontos de brilho que é exatamente o que você

encontraria se esses pontos fossem os estilhaços de uma explosão de supernova.

É correto interpretá-los assim, se a teoria física mais sustentada por todos os

indícios disponíveis ao físico – ou seja, os indícios gerais de fundo – permitem

dizer que supernovas podem explodir. Mas se sua teoria física diz que

supernovas não podem explodir, então, a hipótese de que uma explodiu nesta

ocasião vai precisar de uma enorme quantidade de indícios históricos pormenorizados

(eles próprios altamente improváveis em vista de quaisquer hipóteses

de simplicidade igual), diferentes da hipótese de que foram causados por uma

explosão de supernova, antes que possamos encará-los como prováveis – e se

de fato os encaramos como tais, teremos que encarar como improvável toda a

teoria física que a exclui, dado nosso novo indício histórico pormenorizado.

O indício geral de fundo pode indicar não apenas que a hipótese postulada

é ou não é provavelmente verdadeira, mas que é provavelmente verdadeira

apenas sob certas condições – por exemplo, que John provavelmente rouba

cofres quando, e apenas quando, está financeiramente quebrado, ou que

supernovas provavelmente explodem quando, e apenas quando, elas atingem

uma certa idade. Nesse caso, um outro tipo de indício histórico vai entrar na

equação, indícios mostrando que aquelas condições condutoras estavam ou

não estavam presentes. Isso, de novo, será forte na medida em que isso é o que

você esperaria encontrar se aquelas condições estivessem presentes e não de

outro modo (e na medida em que a suposição destas condições for simples).

Chamarei um tal indício de indício histórico prévio.

Quando estamos lidando com uma hipótese h que não seria improvável

demais segundo uma visão de mundo t, mas que seria imensamente provável

segundo uma visão de mundo rival, o indício geral de fundo será formado de

todo o indício que for relevante para a probabilidade das diferentes visões de

mundo; e à medida que ele sustenta mais fortemente a visão de mundo t que

faz h não tão improvável, precisamos de menos indícios históricos pormenorizados

para a afirmação de que h é verdadeira, ou seja, provável em geral. A

hipótese de que Jesus ressurgiu dos mortos é exatamente desse tipo. Pois, se

Deus não existe, o determinante último do que acontece no mundo são as leis

da natureza, e se alguém morto há 36 horas voltasse a viver, seria (com imensa

probabilidade) uma clara violação daquelas leis, e, portanto, seria impossível.

Isso diz respeito à razão que Hume deu – de que todos os indícios de que

alguma regularidade operou em muitas outras ocasiões passadas conhecidas é

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prova de que isso é uma lei da natureza e, assim, que operou naquela ocasião

também e que Jesus não ressurgiu. Mas, se um Deus do tipo tradicional existe,

as leis da natureza operam apenas porque Ele as faz operar e ele tem o poder de

as suspender por um momento ou para sempre. Assim, se Jesus ressurgiu dos

mortos, Deus o ressuscitou. Desse modo, tratarei a hipótese de que Jesus

ressurgiu como equivalente à hipótese de que Deus ressuscitou Jesus. Mas se

existe um Deus com o poder de ressuscitar Jesus, ele apenas o fará na medida

em que ele tiver razão para fazê-lo; e se Ele não a tiver, essa ressurreição não

deve ser esperada.

Portanto, para determinar se Jesus ressurgiu dos mortos, não é o bastante

investigar se o que eu chamei de indício histórico posterior (o que São Paulo

escreveu, que o texto original do Evangelho de Marcos terminou em 16.8, ou

o que foi escrito no texto original das Antigüidades de Josefo) é o tipo de

indício a ser esperado se Jesus ressurgiu, mas não o contrário. Pode-se também

investigar se os indícios gerais de fundo sustentam a visão de mundo de que

existe um Deus de um tipo capaz e propenso a intervir na história humana

dessa maneira, nesse tipo de situação, ou se não existe um tal Deus. Devemos

também investigar os indícios históricos prévios, ou seja, se a natureza e

circunstâncias da vida de Jesus eram tais que, se Deus existe, Ele seria propenso

a ressuscitar esta pessoa dos mortos. Na medida em que nossos indícios gerais

de fundo e históricos prévios sustentam a visão de que existe um Deus que

seria propenso a ressuscitar Jesus dos mortos, precisaremos de muito menos

indícios históricos minuciosos para tornar provável em geral que Jesus ressurgiu

dos mortos, dada a totalidade dos nossos indícios. Por outro lado, na medida

em que nossos indícios prévios (de fundo ou históricos) sustentam uma visão

de mundo rival de que Deus (do tipo tradicional) não existe, ou que, se existe

um tal Deus, Ele não tem razão para intervir na história humana desse modo,

ou que mesmo se Deus de fato tem tais razões, Jesus não era o tipo de pessoa

que ele teria trazido à vida novamente, precisaríamos de uma imensa quantidade

de indícios históricos posteriores para que a totalidade de nossos indícios

tornasse provável que Jesus ressurgiu.

Estudiosos do Novo Testamento, tanto aqueles que acreditam como

aqueles que não acreditam que a ressurreição aconteceu, fazem afirmações

como: “Eu [diferentemente de meus oponentes] vou chegar à minha conclusão

apenas com base nos indícios históricos”, (e com isso eles querem dizer o que

eu chamei indícios históricos posteriores) e nada mais. Se fosse possível fazer

uma tal coisa, seria altamente irracional, pois significaria levar em conta apenas

parte dos indícios. Mas não é nem mesmo possível fazê-lo, pois, a fim de se

chegar a uma conclusão acerca de se seus indícios tornam provável que a

ressurreição ocorreu ou não, você precisa de uma visão acerca de quantos

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indícios históricos posteriores são requeridos para mostrá-lo; e você não pode

ter isso sem ter uma visão acerca de quão provável seja que um evento ocorra

em todo caso – e isso envolve tomar uma perspectiva acerca de se Deus existe

e o que é provável que Ele faça. O que os estudiosos do Novo Testamento

estão prontos a negar que fazem, eles na verdade fazem implicitamente, pois

ao chegar a uma conclusão acerca da ressurreição, eles devem assumir uma

perspectiva acerca de quão fortes os indícios históricos posteriores precisam

ser.

Argumentei nas duas conferências anteriores em favor da visão de que a

existência de um universo, sua quase total conformidade às leis naturais, o fato

daquelas leis serem tais que levam à evolução de seres humanos e de que estes

têm almas (uma vida mental contínua, cuja continuidade é separada da

continuidade de sua vida física) são indícios que dão probabilidade significativa

à existência de Deus. Não tive tempo de discutir outros indícios publicamente

disponíveis e muito gerais em favor da existência de Deus, incluindo –

crucialmente – o indício muito difundido da experiência religiosa. Nem tive

tempo de discutir os indícios contra a existência de Deus, especialmente a

evidência da dor e do sofrimento. Não podemos repassar a base anterior de

novo, nem discutir esses tipos cruciais adicionais de indícios. Assim, vou

simplesmente pedir-lhes que no momento suponham que todos esses indícios

da teologia natural (e da ateologia natural) tornam tão provável quanto não

que Deus existe; que a probabilidade de que Deus existe, dados todos esses

indícios, é de 0,5. Veremos em dado momento as conseqüências de enfraquecer

ou fortalecer esta suposição. Se Deus existisse, então Ele claramente poderia,

se assim escolhesse, ressuscitar Jesus dos mortos. Assim, na medida em que,

em virtude de sua bondade, Ele tem razão para fazê-lo, é provável que Ele o

faça. Deus muito raramente ressuscita os mortos (nos seus corpos originais,

enquanto outros na Terra continuam suas vidas normais). Jesus precisaria,

portanto, ser um tipo bem especial de pessoa para que Deus tivesse razão para

ressuscitá-lo. Podem haver várias razões pelas quais Deus escolheria ressuscitar

Jesus, mas considerarei aqui apenas as razões que Deus teria se Jesus fosse

Deus Encarnado – pois, como veremos posteriormente, dado o tipo de vida

que Jesus viveu, Ele apenas poderia tê-lo ressuscitado se ele fosse Deus

Encarnado. Ou seja, argumentarei que em virtude da bondade de Deus, Ele

tinha razão de se encarnar como um ser humano e viver um certo tipo de vida

e que, se ele o fez, Deus teve razão de ressuscitar aquele ser humano dos

mortos.

Os teólogos sempre afirmaram que a principal razão pela qual Deus

escolheria encarnar-se seria fazer uma expiação pelos pecados humanos. Eles

apresentaram suas várias teorias quanto ao motivo pelo qual os humanos

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precisam da expiação, como eles são incapazes de fazê-la por si mesmos e

como apenas Deus poderia provê-la, tornando-se Encarnado, sofrendo e

morrendo, e como, por esse modo, Deus poderia tornar a expiação disponível

a todos os que aceitaram a ação de Deus em seu nome: a teoria de que a morte

de Deus Encarnado pagaria um resgate para o demônio, ou a teoria de que

seria uma punição penosamente sofrida em nosso nome, ou a teoria de que

seria Deus Encarnado pagando uma compensação para Deus Pai pelo que nós

fizemos de errado, e a teoria de que a vida e morte de Deus Encarnado

constituiriam um sacrifício oferecido a Deus Pai em nome dos homens. Deus

não tem direito de mandar ninguém mais para fazer uma tarefa tão formidável

(qualquer que seja sua natureza exata) em seu nome. Ele deve agir por si mesmo.

Essas teorias, então, buscam explicar porque um Deus bom poderia escolher

encarnar-se em um modo em que Ele seria morto por levar uma vida santa.

Enquanto levando essa vida, Ele precisaria explicar-nos que aquela vida estava

sendo levada para nos redimir de nossos pecados. Assim, a ressurreição

consistiria na demonstração de Deus para nós de que o resgate e a compensação

foram pagos e a punição ou o sacrifício, aceitos. Pois, em todas essas

perspectivas, os humanos precisam aceitar e usar esta vida e morte redentoras.

A ressurreição de alguém morto por 36 horas seria, como notei, uma violação

das leis da natureza, e isso só poderia ser feito por aquele que mantém as leis

da natureza operativas – Deus. Trazer à vida alguém morto por viver um tipo

de vida (e sofrer um certo tipo de morte) constituiria, então, a demonstração de

Deus para nós de sua aceitação daquela vida com uma adequada compensação,

sacrifício ou o que quer que seja; seu aval sobre aquela vida.

A segunda razão pela qual Deus escolheria encarnar-se é uma razão que

valeria mesmo se os humanos não tivessem pecado. Deus fez humanos sujeitos

a dor e sofrimentos de vários tipos causados por processos naturais. Deus,

sendo perfeitamente bom, apenas teria permitido essa sujeição se isso servisse

para um bem maior. A teodicéia busca explicar quais são os bens maiores

relevantes2 – por exemplo, o grande bem de humanos terem uma escolha livre

significativa de suportar ou não, com bravura, seu próprio sofrimento e mostrar

compaixão a outros que sofrem. Nós humanos, às vezes, sujeitamos corretamente

nossos próprios filhos ao sofrimento em virtude de um bem maior (para

eles mesmos ou outros) – por exemplo, fazendo-os comer uma dieta sem graça

ou obrigando-os a fazer algum tipo de exercício para a saúde deles, ou fazendoos

freqüentar uma escola local “difícil” para que tenham boas relações

2 Para a minha teodicéia, veja meu Providence and the Problem of Evil (Oxford: Clarendon

Press, 1998).

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comunitárias. Sob essas circunstâncias, julgamos uma boa coisa manifestar

solidariedade a nossos filhos pondo-nos de algum modo na mesma situação –

partilhando de sua dieta ou exercício, ou envolvendo-nos na associação de

pais e mestres da escola local. De fato, se sujeitamos nossos filhos a grandes

sofrimentos em vista de bens maiores que outros, surge um ponto no qual não

é apenas bom, mas obrigatório identificarmo-nos com o sofredor e mostrar-lhe

que o estamos fazendo. Um Deus perfeitamente bom julgaria ser uma boa

coisa partilhar a dor e o sofrimento a que Ele nos sujeita, em vista de bens

maiores – encarnando-se. Viver uma vida santa, protestando contra a injustiça

sob condições difíceis, pode levar à execução. Deus precisaria nos ter dito ou

mostrado que ele é o Deus Encarnado. Nesse caso, sua ressurreição constituiria

o aval de Deus àquele ensinamento e, assim, mostrar-nos que Deus se identificou

com o nosso sofrimento.

E, finalmente, precisamos de melhor informação acerca de como levar

boas vidas no futuro e de encorajamento e ajuda para fazê-lo. Os humanos

podem, e até certo ponto nos séculos antes de Cristo o fizeram, descobrir por si

mesmos o que é certo ou errado. Mas embora as linhas gerais possam ser

descobertas, os pormenores não são fáceis de se encontrar. Será que aborto e

eutanásia são sempre errados, ou apenas sob certas condições? Será que relações

homossexuais são algumas vezes permissíveis ou nunca?, e etc. Em tudo, nesses

assuntos, os humanos não estão prontos a enfrentar o que indicam suas

consciências. Eles precisam de informação. Certo, isso poderia ser provido

por uma revelação a algum profeta sem necessidade de encarnação. Mas a

informação moral precisa ser preenchida pelo exemplo moral – precisamos ser

apresentados a em que consiste a vida perfeita e que Deus não tem direito de

dizer a ninguém mais para fazê-lo por Ele. Seria bom para essa informação

incluir uma mensagem encorajadora, por exemplo, de que Deus vai nos levar

para o céu se confiarmos nele e atendermos seus mandamentos. Seria bom se

Deus nos desse alguma ajuda extra para levarmos a vida moral – uma

comunidade de encorajamento, por exemplo. Novamente, Deus, ressuscitando

alguém morto por pregar um certo ensinamento e por viver um certo tipo de

vida constitui esse aval daquele ensinamento.

Temos agora três razões pelas quais um Deus bom poderia escolher se

encarnar de modo a sofrer e provavelmente morrer e como ele precisaria nos

mostrar que era ele que tinha feito isso – o que seria alcançado por um

supermilagre como a ressurreição. No meu ponto de vista, enquanto é muito

provável que, em virtude de sua bondade, Deus pudesse escolher encarnar-se

pela primeira e terceira razões, Ele não tem nenhuma obrigação de fazê-lo e há

outras maneiras (talvez menos satisfatórias) de lidar com problemas para os

quais sua encarnação por esses motivos proveria uma solução. Mas, na minha

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opinião, dada a extensão do sofrimento humano, nosso criador tem uma

obrigação de partilhá-lo conosco e, assim, é necessário que ele se encarne pela

segunda razão.

Assim, se Deus de fato se encarnou em um ser humano (chamê-mo-lo

um “profeta”) pela segunda razão e uma ou ambas as outras razões, então ele

precisaria viver um certo tipo de vida. Para se identificar com nosso sofrimento

e nos dar um exemplo, Deus Encarnado precisa viver uma vida boa em

circunstâncias difíceis, e uma vida boa, mas difícil, terminando em uma

execução judicial, seria certamente isso. Para nos mostrar que Ele é Deus, que

foi Deus que fez isso, Ele precisa nos mostrar que Ele acredita ser Ele mesmo

Deus. Para nos possibilitar usar sua vida e morte para o pagamento dos nossos

pecados, Ele precisa nos dizer que ele está vivendo sua vida por esse propósito.

A fim de tornar plausível que Ele esteja pregando uma revelação, Ele precisa

nos dar um ensinamento moral bom e profundo acerca de como viver. E para

tornar tudo isso disponível a gerações e culturas diferentes daquela na qual Ele

viveu, Ele precisa fundar uma Igreja para ensinar os homens o que Ele fez e

estender a eles sua vida redentora. Assim, temos razão prévia para esperar uma

ressurreição, não de qualquer ser humano, mas de um homem de quem há

indícios de que tenha levado uma vida do tipo acima. Quanto mais fortes os

indícios de fundo de que existe um Deus cuja bondade o levaria a se encarnar

pelas razões citadas, e quanto mais fortes os indícios históricos prévios de que

Jesus levou o tipo de vida descrito acima, mais forte a razão que temos para

supor que Deus daria seu aval a esta por um supermilagre como a ressurreição.

Nossos indícios históricos acerca da vida e ensinamentos de Jesus não

são, é claro, em enorme quantidade e requerem uma cuidadosa triagem. Minha

avaliação do balanço da erudição acerca do Novo Testamento é que os indícios

são tais que esperaríamos que, se Jesus levou uma vida boa e santa, deu-nos

um bom e profundo ensinamento moral, fundou uma Igreja que realmente

ensinou que Ele era Deus Encarnado, que pagou por nossos pecados. É, penso

eu, impossível de entender seu ato de formar uma comunidade de 12 líderes a

não ser de modo a criar um novo Israel, seja para no final torná-la independente

ou mesmo para se fundir novamente com o antigo Israel. A erudição do Novo

Testamento é, contudo, dividida acerca de se os indícios são tais que se poderia

esperar que se, e apenas se, Jesus proclamou que sua vida e morte seriam um

pagamento pelos pecados; e se, no geral, afirma-se que os indícios não são tais

como se esperaria se Jesus ensinasse sua divindade. Minha posição é de que os

indícios históricos prévios são tais que se pode esperar com modesta

probabilidade (digamos, 1/4) que Jesus ensinou tanto sua expiação quanto sua

divindade. Mas não estou defendendo isso aqui. Minha tese aqui é de que

quanto mais fortes são os indícios históricos prévios de que a vida e ensinamento

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de Jesus eram de um certo tipo, mais razão nós temos para esperar que Deus o

ressuscitou dos mortos.

Apenas à luz dos indícios gerais de fundo e dos indícios históricos prévios

podemos abordar o tipo de indícios que normalmente apenas estudiosos do

Novo Testamento consideram relevantes – o relato de testemunhas (ou a falta

disso) acerca das aparições de Jesus ressuscitado e o túmulo vazio, o que tenho

chamado de indícios históricos posteriores. A isso acrescento o indício muito

negligenciado da celebração universal pela Igreja primitiva da eucaristia aos

domingos. A última ceia original foi celebrada em uma quinta-feira. Seria natural

repeti-la em uma quinta, ou no sábado judaico, ou anualmente, no tempo da

Páscoa, mas foi celebrada subseqüentemente em um domingo, o que só pode

ser plausivelmente explicado por uma Igreja que acreditava que o seu principal

evento de fundação ocorreu em um domingo. Os discípulos fundaram novas

igrejas fora de Jerusalém dentro do primeiro ou segundo ano da Paixão e da

suposta ressurreição. Esse costume universal da celebração do domingo mostrou

que, já em seu primeiro ano, a Igreja acreditava que seu evento de fundação

mais importante tinha acontecido em um domingo, e há apenas um evento

possível assim – a ressurreição. Aqui a questão é: se Jesus ressurgiu, seria

esperado esse tipo e quantidade de testemunhas? Caso a resposta seja sim,

então, é claro, os indícios sustentam a ressurreição.

Preciso agora acrescentar mais um indício para os indícios históricos

prévios. É o de que Jesus levou a vida que levou quando não havia outro sério

pretendente conhecido (antes ou depois de Jesus) para satisfazer, como Jesus,

os requisitos prévios ou posteriores para ser um Deus Encarnado. Por requisitos

prévios quero dizer viver uma vida boa e santa, dando-nos um ensinamento

moral bom e profundo, mostrando-nos que ele acreditava ser Deus Encarnado,

que estava fazendo um sacrifício para os nossos pecados e fundou uma Igreja

que ensinou essas coisas. Por requisitos posteriores quero dizer sua vida ter

culminado em um supermilagre tal como a ressurreição dos mortos. Outros

fundadores de grandes religiões viveram, é claro, vidas boas, deram ensinamento

moral profundo e fundaram Igrejas – o Buda, por exemplo. Mas, manifestamente,

Buda não ensinou sua própria divindade e nem o fez Maomé.

Manifestamente, nenhum deles ensinou que suas vidas eram o pagamento por

nossos pecados. Houve muitos messias modernos que disseram ser Deus, mas

eles não satisfizeram os outros requisitos – em particular, suas vidas não foram

santas. Nenhuma outra grande religião afora o Cristianismo afirmou ter sido

fundada por um supermilagre para o qual haja o tipo de testemunho pormenorizado

que há para o milagre de fundação do Cristianismo (mesmo que isso

possa parecer inadequado para alguns). Ao fazer essas observações acerca de

outras religiões, não pretendo rebaixá-las – estou apenas apontando para o

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elemento historicamente incontestável de que elas não fazem o tipo de

afirmações (verdadeiras ou falsas) acerca de seus fundadores tal como o

Cristianismo faz acerca do seu. Não é com base nisso que elas buscam sua

legitimidade.

A relevância desse fato é que mostra que ou Deus se tornou encarnado

em Jesus pelas razões apresentadas ou que Ele até agora não se encarnou por

essas razões. Nossas razões para esperar uma encarnação não foram atendidas,

no entanto; é claro, pois, em teoria, elas poderiam sempre ser atendidas em um

momento posterior. Mas a não-existência, até agora, de qualquer outro candidato

plausível para satisfazer ou os requisitos prévios ou os posteriores mostra que

a coincidência dos indícios prévios e posteriores (mesmo que fracos) em um

candidato é um evento extremamente improvável no curso normal das coisas –

ou seja, a menos que Deus tenha causado isso, seja por intervir na história ou

por fazer as leis naturais em condições iniciais como eram para o único propósito

de produzir esse efeito. No entanto, se Deus iria encarnar pelas razões que eu

considerei e, contudo, ele não se encarnou em Jesus, causar a existência da

quantidade e tipo de indícios de sua encarnação (inclusive o indício de que ele

proclamou que estava se sacrificando por nossos pecados – o que Deus não

deveria permitir que outros fizessem) em Jesus, e também a quantidade e tipo

de indícios que há de sua ressurreição, sem que ele fosse Deus Encarnado,

seria enganador por parte de Deus. Seria como colocar as impressões digitais

de uma pessoa inocente na cena do crime. Isso um Deus perfeitamente bom

não faria.

Tendo delineado em termos qualitativos o tipo de indícios que precisam

ser pesados a fim de se ver se tornam provável que Jesus ressuscitou dos mortos,

demos a isso o rigor quantitativo em termos do cálculo de probabilidades,

particularmente, em termos do Teorema de Bayes, que a essas alturas já é

bastante familiar a vocês. De qualquer modo, vamos recordá-lo brevemente.

Eu expresso nesse teorema usando as letras e, h e k quaisquer proposições;

mas, em nosso caso particular, e representa os indícios observados (dados), k

representa “indícios de fundo” e h é a hipótese sob investigação.

( / )

( / )

( / . ) ( / . ) P h k

P e k

P h e k = P e h k ×

Esse teorema estabelece de um modo formal os fatores que determinam

o quanto indícios observacionais sustentam uma hipótese. P(h/e.k) pode ser

chamada a probabilidade posterior de h, ou seja, sua probabilidade dadas e e k.

O teorema propõe que a hipótese h se torna provável pelos indícios

observacionais e e indícios de fundo k, na medida em que (1) P(e/h.k) (a

probabilidade posterior de e) é alta; (2) P(h/k) (a probabilidade prévia de h) é

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alta; e (3) P(e/k) (a probabilidade prévia de e) é baixa. A primeira condição é

satisfeita na medida em que você esperar encontrar e se h for verdadeira (dado

k). A segunda condição é satisfeita na medida em que h for simples e que você

espere que h seja verdadeiro dados apenas os indícios de fundo. A terceira

condição é satisfeita na medida em que P(e/k) não é muito maior que [P(e/h.k)

x P(h/k)]; ou seja, você não esperaria encontrar e a não ser que h fosse

verdadeiro. É claro que, quando se está avaliando a probabilidade de um teoria

científica ou histórica, não se podem dar valores numéricos exatos a todos

esses termos – a não ser em caso de valores extremos. Mas nós podemos dar

valores aproximados a eles – digamos que alguns termos tenham um valor alto

ou baixo, ou que seja maior que esse termo ou menor que aquele outro – e isso

é freqüentemente o bastante para nos dar algum resultado interessante.

Agora, admita-se que k seja o conjunto de indícios da teologia natural,

muitos dos quais considerei nas minhas duas primeiras conferências. Admitase

que e seja o conjunto dos indícios históricos, consistindo de uma conjunção

de três indícios (e1 & e2 & e3). Admita-se que e1 e e2 sejam duas partes dos

indícios históricos prévios que é útil manter separados – e1 seriam os indícios

históricos prévios da vida de Jesus e e2 seria o indício de que nenhum outro

profeta conhecido satisfez os requisitos prévios ou os posteriores para ser um

Deus Encarnado, se os compararmos com o que nossos indícios (por exemplo,

e1 e e2) sugerem acerca de Jesus. Admita-se que e3 seja um indício histórico

posterior tal como o relato de testemunhas da pós-crucifixão acerca da

ressurreição. Admita-se que h seja a hipótese de que Jesus ressurgiu dos mortos.

Nosso interesse está em P(h/e.k), a probabilidade de que Jesus ressurgiu dos

mortos (h), dados os indícios tanto da teologia natural (k), da história

pormenorizada de Jesus e de outros profetas humanos (e).

O Teorema de Bayes nos diz que isso é uma função de três elementos.

Mas estes, por sua vez, de acordo com o cálculo, são funções de outras

probabilidades; e devemos abordar nosso resultado gradualmente. À medida

que seguimos, atribuiremos certos valores a essas outras probabilidades –

algumas das quais eu defendi hoje; outras para as quais eu dei argumentos em

conferências anteriores. Indicarei, então, que aqueles valores tornam h muito

provável em vista de (e.k) e que teríamos que atribuir alguns valores bem

diferentes a algumas das probabilidades para evitar aquela conclusão; deixo

para vocês refletirem acerca da plausibilidade disso.

Representemos por t o teísmo, a afirmação de que um Deus do tipo

tradicional existe. P(t/k) é a probabilidade de que existe um tal Deus com base

nos argumentos da teologia natural. Em vista do tipo de argumentos que delineei

nas minhas duas outras conferências, atribuamos a isso o modesto valor de

0,5. Representemos então por c a afirmação de que Deus se tornaria (em algum

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tempo) encarnado, por duas ou três das razões apresentadas antes, que

requereriam um supermilagre ao final daquela vida para autenticá-la como

vida de Deus (c representa “encarnação calcedônia”). Atribuamos também o

modesto valor de 0,5 à P(c/t.k), a probabilidade de que, se Deus existe, ele se

encarnaria da maneira exposta. O valor que você dá medirá o grau pelo qual

você está impressionado por argumentos acerca da probabilidade, ou mesmo

necessidade, de uma encarnação. Lembre-se que meus argumentos sugerem

um valor muito mais alto. P(c/k) é a probabilidade dos argumentos da teologia

natural de que existe um Deus que encarna por aquelas razões. P(c/k) = P(c/

t.k) x P(t/k), considerando os valores sugeridos, ou seja, 0,5 x 0,5 = 0,25.

Agora, inicialmente, ao invés de e1, e2 e e3, tomemos f1, f2 e f3. f1 é o

indício de que os requisitos prévios para ser Deus encarnado são satisfeitos em

um profeta qualquer (em um certo grau, mas não necessariamente no mesmo

em que eles são satisfeitos em Jesus). f3 é o indício de que requisitos posteriores

para ser Deus encarnado (ou seja, sua vida culminar com um supermilagre)

são satisfeitas naquele mesmo profeta (no grau em que são satisfeitos em Jesus).

f2 é o indício de que nem os requisitos prévios nem os posteriores são satisfeitos

naquele grau em qualquer outro profeta.3 Ora, se c é verdadeiro, se uma

encarnação ocorre, quão provável é que haverá indícios f, a conjunção (f1 & f2

& f3)? Argumentei que se esperaria que um Deus Encarnado que vivesse uma

vida santa ensinasse-nos verdades morais profundas, fundasse uma Igreja que

ensinasse a sua encarnação e expiação, bem como que ele mesmo ensinasse

que sua vida era uma expiação e que ele era divino. Sugeri que o tipo de

indícios que temos acerca da vida de Jesus é tal que a esperaríamos com base

nos três primeiros elementos, mas possivelmente não, com base nos dois

últimos. E, talvez, se a vida de Jesus fosse culminada com um supermilagre

3 Os indícios históricos podem ser descritos em termos gerais amplos ou termos bastante

precisos. Por frases usadas depois, como “o tipo e quantidade de indícios” e “o grau e modo”

pelos quais os requisitos são satisfeitos, tinha em mente uma descrição de indícios elaborada

de modo muito amplo – por exemplo, “Jesus disse algumas palavras em ocasiões cruciais no

sentido de que sua vida e morte constituíam uma expiação e fez seus discípulos acreditarem

nisso”, ao invés de que ele disse e eles disseram exatamente as palavras que disseram.

Certamente, em minha hipótese, aquela deverá ser muito mais provável que esta última. De

fato, é um teorema do cálculo de probabilidades no qual se uma proposição (precisa) acarreta

uma outra proposição (imprecisa), esta última é sempre ao menos tão provável, e, normalmente,

mais provável, do que a primeira, com base nos mesmos indícios. Mas não interessa o quão

exatamente nós construamos os indícios. Isso porque, enquanto a probabilidade daquele indício

preciso em vista da hipótese de que Jesus era Deus que ressurgiu dos mortos será menor

quanto mais preciso o indício for construído, aquela probabilidade também será menor na

mesma proporção da negação daquela hipótese. As duas diminuições de probabilidade vão

anular uma à outra.

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como o da ressurreição, poder-se-ia esperar ainda mais indícios de aparições e

de uma tumba vazia do que se tem de fato. Assim, que valor daríamos para P(f/

c.k)? Sejamos modestos e atribuamos 0,1. Assim, dados os argumentos da

teologia natural, a probabilidade de que existe um Deus que encarnou pelas

razões expostas e nos deixa com os indícios do tipo f, temos:

P(f.c/k) = P(f/c.k) x P(c/k) = 0,25 x 0,1 = 0,025

Agora, voltemos para P(f/k). Esta é igual {a probabilidade, dado k, de

que existe um Deus que encarnou e deixou indícios do tipo f} mais {a

probabilidade, dado k, de que ou não existe Deus ou que Ele não encarnou,

mas que deixou indícios do tipo f}:

O primeiro termo composto do lado direito da equação é aquele que nós

acabamos de calcular e para o qual demos a estimativa provisória de 0,025. E

quanto ao segundo termo? P(~c/k) = 0,75, dado que (como assumimos

provisoriamente) P(c/k) = 0,25 – uma vez que, por um axioma óbvio do cálculo,

P(c/k) + P(~c/k) = 1. E quanto à P(f/~c.k)? Esta é a probabilidade de que não há

encarnação (ou porque Deus não existe ou porque Ele não encarnou), no entanto,

há indícios da teologia natural e f ainda assim ocorre. f, lembre-se, é o indício

total de que um profeta satisfez tanto os requisitos prévios quanto posteriores

para a encarnação, embora apenas um profeta na história humana tenha satisfeito

os requisitos prévios e um profeta tenha satisfeito os requisitos posteriores

naquele grau. A probabilidade de uma tal coincidência casual é enormemente

baixa, a menos que Deus tenha planejado isso. Se Deus de fato planejou esta

conexão, então teria sido enganador da parte dele que aquele profeta não fosse

Deus Encarnado, pois – se assumimos um Deus com razão para se encarnar –

a ocorrência simultânea dos indícios prévios e posteriores seria tomada como

mostrando isso. Assim, digamos que a P(f/~c.k) = 0,001.

Assim, P(f/k) = 0,025 + 0,75 x 0,001 = 0,02575

, que é um número

bem próximo de 1. Isso representa a probabilidade do tipo de indícios que

temos acerca de Jesus de que Deus se encarnou ou se encarnará. No entanto,

nossos indícios agora são um pouquinho maiores do que f. É o indício e de que

o profeta ao qual f se refere é Jesus. Isso dificilmente faz alguma diferença

para a probabilidade de que f (dado k) nos dá c, se acrescentamos a f quem é o

profeta, uma vez que todos os fatos relevantes acerca de Jesus estão incorporados

em f, em todo caso. Assim,

P(c/e.k) = P(c/f.k) = 0,97085

0,025 38,834 0,97085

( / )

( / . ) = ( / . ) ( / ) = × =

P f k

P c f k P f c k P c k

P( f / k) = P( f / c.k)P(c / k) + P( f / ~ c.k)P(~ c / k)

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Ora, a probabilidade de c dado (e.k) será virtualmente a mesma que a

probabilidade de h dado (e.k). Pois se Deus se torna encarnado em um modo

tal que sua vida precisa ser culminada por um supermilagre, e há apenas um

(dado e) sério candidato para tanto, há Ressurreição, ou seja, deve ter havido

uma ressurreição. Além disso, dado o indício do tipo de vida que Jesus levou e

que ninguém jamais tinha levado, seria enganador por parte de Deus causar a

ressurreição de Jesus, a não ser que Jesus fosse Deus Encarnado. Assim, h é

verdadeiro se, e somente se, c é verdadeiro. Logo, por um outro óbvio axioma

do cálculo, P(h/c.k) = P(c/e.k) = 0,97085. Ou seja, a probabilidade, dada a

totalidade de nossos indícios, de que a ressurreição ocorreu, é da ordem de

97%.

Cheguei a esse valor alto, apesar de atribuir o valor baixo de 0,1 à

probabilidade de que, se Jesus era Deus Encarnado, teríamos o tipo de indícios

históricos pormenorizados acerca de sua vida e da suposta ressurreição que de

fato nós temos. Para evitar minha conclusão, um opositor, se deixar os outros

valores probabilísticos intactos, terá que diminuir este valor [o de que Jesus

era Deus Encarnado]4 para 0,003. Antes do valor posterior de h e, portanto, de

c, ficar abaixo de 0,5. De outro modo, o opositor deverá descartar a teologia

natural muito mais do que eu. Se, por exemplo, ele pensar que a teologia natural

dá uma probabilidade de 0,0196 (1/51), ao invés de 0,5 (1/2) para a existência

de Deus, ou de que há apenas uma probabilidade de 0,0196 (1/51) de que se

Deus existe, Ele se encarnará, tem-se uma probabilidade em torno de 0,5 (1/2)

de que Deus se encarnou em Cristo. Ou, de modo implausível para mim, um

opositor poderia afirmar que não é de todo improvável (mesmo se Deus não

fosse responsável por isso) que poderíamos ter essa coincidência de indícios

em um mesmo profeta que satisfizesse os requisitos prévios e os requisitos

posteriores, embora para nenhum outro profeta houvesse aquela qualidade de

indícios que ele satisfez, segundo qualquer dos dois requisitos. Mas, assim, o

opositor precisaria aumentar o valor de P(f/~c.k) de 0,001 para acima de 0,033

(1/30) para ter a probabilidade posterior de h caindo para abaixo de 0,5 (1/2).

Sherlock Holmes fez a famosa observação de que: “Quando você

eliminou o impossível, o que quer que permaneça, não importa o quão

improvável, deve ser a verdade”.5 Parafraseando (e ignorando o problema da

probabilidade prévia para termos uma bela máxima), temos: “Quando você

eliminou o que torna muito, muito improvável que teríamos os indícios que

4 Interpolação do tradutor.

5 A. Conan Doyle, The Sign of Four, in The Complete Sherlock Homes, Vol. 1 (Doubleday,

1930, p. 111).

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temos, o que quer que permaneça, mesmo que isso torne muito improvável

que encontrássemos os indícios que encontramos, é provavelmente a verdade”.

Se você concorda comigo que a coincidência dos indícios que temos da

satisfação dos requisitos prévios e posteriores é (salvo intervenção divina)

muito, muito improvável, e que o indício de sua coincidência (se Deus interveio

para se encarnar e ressurgir dos mortos) é apenas muito improvável, segue-se

que é muito provável que Jesus ressurgiu dos mortos, e, também, que ele era

Deus Encarnado, então, obviamente, segue-se que Deus existe.

Ora, repito, não apresentei para vocês os indícios históricos

pormenorizados de que, na minha visão, há uma probabilidade de 0,1 de que

Jesus fosse Deus Encarnado. E há muitos livros céticos bem-instruídos acerca

do que esses indícios mostram. Meu tópico nesta conferência é que se você faz

certas suposições modestas acerca da força da teologia natural (pressupostos

para os quais apresentei argumentos nas minhas conferências anteriores), você

terá de ser muito cético mesmo acerca do valor dos indícios históricos

pormenorizados para evitar a conclusão cristã e, portanto, teísta.

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