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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Paulo: O Último Apóstolo

Luiz Gonzaga de Alvarenga

Paulo: O Último Apóstolo

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Paulo: O Último Apóstolo

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Paulo: O Último Apóstolo

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Sumário

Parte I – Vida e Pregação

I – A Vida Civil

II – A Vida Religiosa

III – Martírio e Morte

Parte II – Em Busca do Paulo Apóstolo

IV – As Epístolas Paulinas

V – A Doutrina de Paulo

Parte III – Em Busca do Paulo Desconhecido

VI – O Esoterismo Cristão

VII – A Doutrina Mística Cristã

Paulo: O Último Apóstolo

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Abreviações Utilizadas:

Am Amós

At Atos dos Apóstolos

AT Antigo Testamento

Col Colossenses

Cor Corinthios

D.E.B. Dicionário Enciclopédico da Bíblia

Ec Eclesiastes

E.D.B. Easton’s Bible Dictionary

Ef Efésios

Fil Filêmon

Filip Filipenses

Gen Gênesis

Gal Gálatas

Heb Hebreus

Is Isaías

Jer Jeremias

Lc Lucas

Mc Marcos

Mt Mateus

NT Novo Testamento

Pd Pedro

Sal Salmos

Sm Samuel

Tess Tessalonicenses

Tim Timóteo

Zac Zacarias

Paulo: O Último Apóstolo

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PARTE I

VIDA

E

PREGAÇÃO

Paulo: O Último Apóstolo

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Paulo: O Último Apóstolo

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PREFÁCIO DO AUTOR

Ao nos propormos a escrever uma obra biográfica e analítica sobre a

pessoa do apóstolo Paulo, nossa intenção foi a de apresentar sob luzes

diferentes um personagem simultaneamente grandioso e complexo, uma

das pedras fundamentais do cristianismo. Nessa escrita, optamos por

uma narrativa sóbria, não romanceada, baseada com exclusividade nos

únicos documentos conhecidos que abordam a vida de Paulo: Os Atos

dos Apóstolos e as Epístolas. A bibliografia sobre o assunto que lemos e

aproveitamos é aquela que está ao alcance de qualquer leitor médio; as

conclusões sobre estas leituras, entretanto, são de nossa exclusiva

responsabilidade.

Por não sermos um scholar com formação teológica, nem defendermos

qualquer tipo de exclusivismo sobre a mensagem paulina, mantivemos

sempre a mente aberta, procurando continuamente enxergar nas

entrelinhas tudo que não estivesse matizado por interpretações forçadas,

mas que pudesse impor sua evidência unicamente em virtude dos fatos.

Não queremos apresentar Paulo como um personagem misterioso; ao

contrário, queremos mostrar a face cristalina de um personagem

histórico que viveu com intensidade uma época marcada por mudanças

dramáticas na consciência dos povos. Infelizmente, a leitura dos

documentos que referimos não permite perceber a dinâmica da vida

nesta época; a história é condensada, e os personagens ficam reduzidos a

uma unidimensionalidade que empobrece o conteúdo real de suas

personalidades individuais.

A nós nos resta apenas tentar recompor um mosaico complexo, um

verdadeiro quebra-cabeças do qual não sabemos qual era a figura

completa, e ao qual faltam diversas partes importantes.

Se nossa tentativa valeu a pena, apenas o leitor dirá.

Paulo: O Último Apóstolo

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Paulo: O Último Apóstolo

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I – A VIDA CIVIL

De Saulo a Paulo

Saulo, porém, respirando ainda ameaças e mortes contra os

discípulos do Senhor, dirigiu-se ao Sumo Sacerdote, e pediulhe

cartas para Damasco, para as sinagogas, a fim de que,

caso encontrasse alguns do Caminho, quer homens quer

mulheres, os conduzisse presos a Jerusalém. Mas, seguindo

ele viagem e aproximando-se de Damasco, subitamente o

cercou um resplendor de luz do céu; e, caindo por terra, ouviu

uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?

Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? Respondeu o Senhor: Eu

sou Jesus, a quem tu persegues; mas levanta-te e entra na

cidade, e lá te será dito o que te cumpre fazer. Os homens que

viajavam com ele quedaram-se emudecidos, ouvindo, na

verdade, a voz, mas não vendo ninguém. Saulo levantou-se da

terra e, abrindo os olhos, não via coisa alguma; e, guiando-o

pela mão, conduziram-no a Damasco (At 9,1-8).

Paulo, nascido com o nome Saulo (Shaul, em hebreu), é uma das figuras

mais complexas do Novo Testamento. Ele nasceu em Tarso (Tersoos) na

Cilícia, por volta do ano 5 da era cristã. Esta cidade situava-se aos pés

das montanhas do Tauro, ao sul da Turquia, na margem do Cidno. Era

um importante centro comercial e mercantil, além de sede de uma das

grandes universidades da época. Além de próspera, os habitantes da

cidade tinha o privilégio da cidadania romana,1 sem os inconvenientes de

uma ocupação militar; esta cidadania, de certa forma, foi de valia para

Paulo, em vários momentos de sua vida.

Sua infância não é bem conhecida pelos biógrafos, mas sabe-se que ele

foi criado na tradição judaica e conhecia bem as lendas e tradições de seu

1 Tarso, antiga colônia fenícia, foi altamente helenizada sob os Selêucidas. Sob Antônio,

tornou-se cidade romana e capital da província romana da Cilícia. Em At 22,28 Paulo afirma

que tem sua cidadania romana em virtude de seu nascimento.

Paulo: O Último Apóstolo

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povo. Os fariseus2 eram extremamente meticulosos no cumprimento da

Lei, e Saulo foi criado neste judaísmo severo; portanto, legalmente era

um fariseu. Pertencia à linhagem israelita, da tribo de Benjamim. Sua

família era de artesãos, fabricantes de tendas.

Saulo falava o grego, o hebraico mishinico e o aramaico. É provável que

tenha freqüentado a universidade, porque conhecia bastante da filosofia

estóica e cínica,3 bem como a cultura helenística, de um modo geral.

2 Os fariseus eram uma das três grandes seitas judaicas da época; as outras eram os saduceus

e os essênios. A seita dos fariseus, cujo nome provém do nome perash, que quer dizer

“separados”, defendiam a tradição oral e o rigoroso cumprimento da pureza sacerdotal. Eles

acreditavam na providência divina e admitiam o livre arbítrio. Acreditavam também – em

oposição aos saduceus – na sobrevivência da alma e na recompensa após a morte. Os mais

sábios procuravam interpretar a Lei (Torá), e foi de sua classe que se originaram os rabinos.

Em virtude de sua arraigada adesão à tradição, opuseram-se com violência aos ensinamentos

de Jesus, o que explica o zelo fervoroso de Saulo contra os cristãos.

Os saduceus – classe que devia prover os sacerdotes legítimos do Templo, embora isto nem

sempre tenha ocorrido – e cujo nome provém de Sadoq, eram de tendência helenística e

pertenciam à alta aristocracia. Possuíam uma tradição (halaká) baseada unicamente no

Pentateuco. Não aceitavam facilmente os profetas e seguiam estritamente a Torá (a “estrita

observância”), no que se refere ao culto e ao sacerdócio; eram, então, bastante conservadores

em matéria legal e ritual, não admitindo interpretações da Lei. Contra os fariseus, negavam a

imortalidade da alma e a ressurreição. Representavam o poder, a riqueza e a nobreza. Para

eles, a santidade e a pureza só se exigiam no recinto do Templo.

Os essênios, (eseos ou essenoi), por sua vez, eram uma seita esotérica (ou seja, cujos

ensinamentos se destinam apenas aos “iniciados”), ligada ao gnosticismo e a vários

movimentos esotéricos batistas, na Síria e na Palestina. Sofreram forte influência dos

mistérios órfico-pitagóricos e do neopitagorismo (Josefo diz que sua forma de vida imitava o

que os gregos aprenderam de Pitágoras). Eram bem mais rigorosos que os fariseus e

saduceus, tanto em seus ensinamentos religiosos quanto em seu estilo de vida, dominado

pelo ascetismo (abstinência, autodisciplina, modéstia, discrição e pureza corporal e

espiritual).

Outras facções judaicas conhecidas eram os “zelotes”, ou “zeladores”, ou “sicários”, que não

formavam uma seita religiosa, e sim um movimento político clandestino que lutava contra a

dominação do Império de Roma; e os levitas, descendentes de Levi, terceiro filho de Jacó,

aos quais cumpria exercer tradicionalmente o sacerdócio e outras funções pertinentes ao

culto, bem como cuidar da vigilância do santuário.

3 O estoicismo foi fundado por Zenão, por volta de 300 a.C., e sua linha de pensamento

afirmava o primado da moral sobre os problemas teóricos. Tinha por meta uma vida

contemplativa, distante dos problemas e cuidados da vida comum. Punha a razão acima das

emoções e dizia que o mundo e todas as coisas deste são regidos por uma Razão divina,

segundo uma ordem necessária e perfeita. O estoicismo romano (com Epicteto) é uma das

primeiras manifestações filosóficas pela qual se colocava como meta fundamental a salvação

da alma. A escola cínica, por sua vez, afirmava que o único fim do homem era a felicidade, e

que esta estava unicamente na virtude. Desprezavam as comodidades e os prazeres da vida

comum, bem como as convenções humanas, em geral. A filosofia judaica, que Paulo com

certeza conheceu, sofreu forte influência do neoplatonismo, do aristotelismo e do

Paulo: O Último Apóstolo

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Aliás, a cidade de Tarso, nesta época, era famosa por seus mestres de

filosofia. Estrabão chegava a colocá-la acima até de Atenas e de

Alexandria, e o famoso filósofo Atenodoro, que foi instrutor do

imperador Augusto, nasceu lá.

Além das práticas religiosas judaicas, é provável que Saulo conhecesse

também algo dos chamados mistérios,4 que eram cultos fechados aos

profanos. Estes cultos antigos estavam espalhados por toda a região;

havia, dessa maneira, múltiplas influências religiosas na cidade, mas

Saulo era bastante apegado à sua tradição religiosa, e não se deixou

influenciar.

Como faziam todos os pais que se interessavam pelo futuro de seus

filhos, também os pais de Saulo resolveram que ele se tornaria um

rabino. Sendo assim, com 14 anos ele foi mandado para Jerusalém. Lá,

onde morou na casa de sua irmã, a sua educação foi completada pelo

médico grego Gamaliel, discípulo de Hillel.

Seus estudos com Gamaliel e sua familiaridade com a lei de Moisés o

levaram a inflamar o seu zelo contra os “Sectários do Caminho”, como

eram chamados os seguidores de Jesus. Não se sabe se Saulo estava em

Jerusalém, por ocasião do julgamento e crucificação de Jesus. Mas ele

sabia muito bem da existência dessa nova seita, e o seu furor voltou-se

contra ela. Em razão da rápida conversão de cerca de três mil pessoas,

devido a uma pregação de Pedro logo após a crucificação, a intolerância

contra os convertidos aumentou, e Saulo logo colocou-se à frente dos

arrebatados fariseus perseguidores.

Início das Perseguições

Foi por esta época que ocorreu o episódio da lapidação de Estevão (ou

Estevam). Este era um jovem seguidor dos ensinamentos de Jesus, capaz

de grandes prodígios em meio ao povo. Foi um dos sete diáconos

escolhidos pelos apóstolos, mas sua escolha irritou os judeus helenistas,

e Estevão foi colocado, contra a própria vontade, em uma árida discussão

na sinagoga. Mas seu “saber e espírito” mostraram-se superiores, e seus

adversários não puderam vencer sua eloqüência. Humilhados, estes

pitagorismo (com os essênios), quando entrou em contato com o helenismo, no século II

antes de Cristo.

4 Entre os ritos de mistérios mais conhecidos, temos: os de Deméter, em Elêusis; o de

Dionísio e a doutrina órfica; os de Cibele e Átis; de Ísis e Osíris; de Adônis e de Mitra.

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buscaram uma desforra. Perpetrou-se uma falsa acusação com o apoio de

falsas testemunhas, e Estevão foi preso e levado ao conselho. Talvez ele

pudesse se salvar, se não tivesse acusado seus perseguidores de terem

matado um justo, que era Jesus Cristo. Em uma longa peroração, Estevão

rememorou a história dos judeus a partir de Abraão até Salomão,5 para

no fim acusar os judeus de serem “duros de cerviz, incircuncisos de

coração e de ouvidos” e resistentes ao Espírito Santo. Tomados de ira,

seus acusadores o levaram para fora da cidade, onde ele foi executado

por lapidação.6 Saulo, tudo leva a crer, participou desta execução.7

Talvez em razão desse episódio, e convencido de que os cristãos

laboravam em erro, ele foi tomado por um frenesi de ira e exaltação

religiosa e passou a percorrer as ruas da cidade, levando para a prisão

todos aqueles que hesitassem em afirmar com convicção a sua crença

judaica. Em seguida, crendo que era sua missão pessoal realizar a

perseguição aos “hereges” cristãos, ele solicitou às autoridades religiosas

que o mandassem a Antióquia,8 onde pretendia prosseguir com sua

sistemática campanha contra eles. Isto ocorreu por volta de dois anos

após a crucificação de Jesus. Foi nesta época de sua vida (teria entre 29 e

30 anos) que Saulo tornou-se bastante conhecido, tanto entre os judeus

quanto entre os cristãos, por sua sanha perseguidora.

5 At 6,8 a 7,50.

6 Nesta época, as penas de morte, ou execuções legais realizadas pelos judeus eram:

abrasamento, estrangulamento, lapidação, decapitação. As questões civis e penais eram

julgadas pelo Sinédrio (Sanedrim ou Sinedrim), que podia ser o Grande Sinédrio (ou

Sinédrio Maior), com 71 membros, ou o Pequeno Sinédrio (ou Sinédrio Menor), com 23

membros, tudo conforme a gravidade da questão. Tanto Estevão, em 35 ou 36 da era cristã,

quanto Tiago, no ano 62, sofreram execução por lapidação. Os especialistas divergem na

questão da autonomia do Sinédrio, quanto à aplicação de penas capitais. Alguns afirmam que

o Sinédrio tinha capacidade para aplicá-las; outros, entretanto, afirmam que a pena deveria

ser confirmada pelo procurador romano, e só depois realizar-se-ia a execução. Embora o

texto bíblico seja vago neste ponto, o fato é que Estevão passou por um processo legal

(jurídico), e a sua pena só foi executada de imediato devido ao fato de Pilatos não estar em

Jerusalém, na época, porque tinha sido enviado a Roma por Vitélio (na época de Tiago,

também o procurador Félix havia sido substituído, e o novo procurador, Pórcio Festo, ainda

não chegara a Jerusalém). Para Estevão, acusado de blasfêmia, a pena era a morte por

lapidação (apedrejamento), que era a mais dura. No caso de Cristo, o foro passou à esfera

romana, cuja apenação era a crucificação.

7 At 7,58; At 8,1; At 22,20.

8 Havia uma Antióquia na Síria e outra na Pisídia (a província romana da Galácia abrangia a

Pisídia, a Frígia e a Licaônia. Na Pisídia ficavam as cidades de Antióquia, Icônia, Listra e

Derbe).

Paulo: O Último Apóstolo

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Na estrada para Damasco, viajando à tarde, em certo momento de sua

caminhada, estando imerso em seus próprios pensamentos, ele foi

repentinamente atingido por uma espécie de visão, uma luz formidável

que o derrubou ao chão e o cegou de imediato. Prostrado por terra, com

seus companheiros confusos e sem saberem o que fazer, ouviu as

seguintes palavras (em hebraico): “Saulo, Saulo, por que me

persegues?”. Paulo, desorientado, perguntou: Quem és, Senhor? E ouviu

em resposta: Eu sou Jesus, a quem persegues. Mas levanta-te, e entra na

cidade, e ser-lhe-á dito o que hás de fazer. Ainda confusos, seus

companheiros (que nada viram nem ouviram) o carregaram para a casa

de um tal Judas, em Damasco, onde permaneceu três dias sem nada

enxergar, tamanho fora o brilho que o ofuscara.9

A Conversão

Morava em Damasco um seguidor da fé cristã, por nome Ananias. Ele

teve uma visão na qual era-lhe solicitado que fosse à casa de Judas, para

encontrar e curar Saulo. Muito apropriadamente, Ananias, que conhecia

a fama daquele, ponderou que Saulo não seria merecedor, devido aos

males que causara. Mas em visão, o Senhor respondeu que Saulo era

“um vaso de eleição”, escolhido para levar Seu Nome às nações. Ananias

prontamente cumpriu as ordens, e dirigiu-se à casa de Judas. Lá,

impondo as mãos em Saulo, saíram umas como que escamas, e este

recobrou a visão. Em seguida, tomou alimento e foi batizado pelo

próprio Ananias.

As conseqüências deste acontecimento foram dramáticas. Atingido em

seu âmago por aquela visão, Saulo, extremamente religioso que era,

percebeu a extensão de seu erro, e arrependeu-se. Ele, que era

extremamente rígido, intolerante e aferrado às suas próprias convicções,

mudou a partir daí, de tenaz perseguidor dos seguidores do mestre Jesus

em seu mais dedicado prosélito. A experiência acontecida na estrada

para Damasco, um fenômeno misterioso que poderia ser categorizado

9 Este episódio é narrada em três ocasiões: em At 9,3-9; em At 22,6-16; e em At 26,12-18

(onde especificamente se diz que ele é enviado “aos gentios”).

Paulo: O Último Apóstolo

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como “milagre”,10 foi capaz de derrubar todas as suas antigas crenças e

reorientá-lo como um fiel seguidor da nova seita.

Após recuperar-se, Saulo começou a pregar em Damasco, e suas ações

provocavam um enorme espanto naqueles que o tinham conhecido

anteriormente. Os judeus da cidade procuravam continuamente

confrontá-lo, mas ele os vencia em sua dialética. Furiosos, estes

tramaram matá-lo. Avisado por amigos, que o ajudaram a escapar, Saulo

voltou para Jerusalém.11

De início, em razão de sua fama anterior, os discípulos o temeram,

crendo que ele não fosse sincero em sua conversão. Mas Barnabé

(também Barnabás), que era seu amigo, o levou até eles e defendeu sua

causa, afirmando que ele pregara o nome de Jesus em Damasco.

Pregando em Jerusalém, novamente sua vida esteve em perigo, e ele foi

levado a Cesaréia, e daí de volta para Tarso.

10 “Paulo, o apóstolo quase gnóstico, enche suas cartas de declarações que indicam que,

apesar de ter sofrido uma dramática metanóia, ele considerava essa experiência de conversão

o princípio e não o glorioso fim do seu crescimento espiritual. Ele declara que ‘morre

diariamente’, que ‘se esforça adiante’ em direção ao ‘que está à frente’ no sentido espiritual,

que ‘persiste rumo à meta’ ” (Stephan A. Hoeller, A Gnose de Jung, pág. 137).

11 Lucas menciona em At 9,25-26 que Saulo voltou para Jerusalém, o próprio Saulo, no

entanto, assevera em sua Epístola aos Gálatas (1,17) que foi primeiro à Arábia (onde teria

meditado algum tempo no deserto), depois para Damasco, e só então (após três anos) foi de

volta para Jerusalém, onde se encontrou com os discípulos.

Paulo: O Último Apóstolo

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II – A VIDA RELIGIOSA

Início da Pregação

Em razão do episódio de Estevão e das perseguições desencadeadas

principalmente por Saulo, vários convertidos tiveram que fugir para a

Fenícia, Chipre e Antióquia. Onde chegavam, iniciavam a pregação

cristã entre os judeus estrangeiros. Entretanto, houve outros que também

começaram a pregar aos gregos, conseguindo sua conversão. Barnabé foi

enviado a estas regiões para ver de perto o que estava acontecendo, e ele

maravilhou-se com tudo aquilo.

Por esta ocasião, Saulo estava em Tarso e foi procurado por Barnabé.

Este, que se lembrava do modo como Saulo pregara em Damasco,

decidiu que ele seria a pessoa certa para levar consigo, e pediu-lhe que o

acompanhasse. Este, que já era grande amigo de Barnabé, não se furtou a

ajudá-lo. Barnabé contou-lhe então do entusiasmo com que os gregos

aceitavam o evangelho, e como correra até lá para investigar o assunto.12

12 Os deslocamentos na Palestina, embora as distâncias não fossem grandes (de

Jerusalém a Damasco, por exemplo, a distância a ser percorrida era de cerca de 180

quilômetros), eram árduos, de um modo geral. Havia cinco rotas principais, usadas

por viajantes ou caravanas: a estrada da costa, que unia a Fenícia com o Egito, e

passava por Gaza, Asquelon, Ashdod, Jopa e Cesaréia, indo até o Líbano, no norte;

em Acra um ramal ia até os montes da Galiléia, e seguia até Citópolis (Scythópolis,

antiga Beth-Sean). Talvez a rota principal fosse a chamada Via Maris (“caminho do

mar”) que ia do Egito até a Mesopotâmia; ela começava em Jopa, e em Pirathon

dividia-se em três ramais: um para o norte, outro para o nordeste (passando por

Meggido, indo até Migdal e Tiberíades), e o outro ramal ia por Engannin até unir-se

ao segundo ramal, perto do monte Tabor. Havia também a estrada central, na

cordilheira de Samaria, que era bastante escarpada, e da qual um trecho unia o mar

Mediterrâneo a Jerusalém. Depois havia a estrada do Jordão, e por último, a chamada

“senda do deserto”. Havia duas rotas entre Betsaida e Jerusalém. A mais usada

seguia pelas povoações de Kursi e Hippos, pela orla oriental do lago de Genezaré,

por Gadara e Pela; prosseguindo pela margem do Jordão, ia-se a Betbara (na Peréia)

e por fim a Jericó, Betânia e Jerusalém. Uma outra rota, por cruzar a Samaria, era

menos usada. Nesta época havia também várias vias romanas (que se começaram a

construir no século 4 a.C.), e que se podiam usar por toda a região da bacia do

Mediterrâneo. Uma delas iniciava na cidade helenizada de Citópolis e corria para a

direção nordeste. Estas vias romanas eram pavimentadas, bem cuidadas e vigiadas, e

constituíam uma forma segura de viajar. Além disso, havia albergues e hospedarias –

Paulo: O Último Apóstolo

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Em Antióquia, após cerca de um ano de pregação, eles já podiam dizer

que a sua missão tivera grande êxito.13 Foi então que o termo “cristãos”

começou realmente a entrar em voga.

Sob o governo de Cláudio sobreveio uma grande fome na região da

Judéia, o que havia sido vaticinado por um profeta chamado Ágabo.14 Os

discípulos reunidos em Antióquia fizeram uma coleta e resolveram que o

dinheiro recolhido seria enviado em auxílio a Jerusalém, levado por

Barnabé e Saulo.

Em Jerusalém os apóstolos estavam em Concílio, e Saulo teve nele uma

grande participação. Durante este Concílio, e de acordo com a orientação

deixada por Jesus, os apóstolos decidiram levar ao resto do mundo a

chamada “Boa Nova”: a ressurreição de Cristo e a existência de um Deus

único. Saulo e Barnabé foram incumbidos de pregar este evangelho ao

mundo pagão do ocidente. Foi nesta época, por volta do ano 44 (ou 45)

que Saulo (Paulo15) deu início às suas famosas Viagens Apostólicas.

Primeiras Pregações

Paulo e Barnabé foram incumbidos de dirigir-se à ilha de Chipre, em

missão de pregação da fé cristã. Eles partiram por volta do ano 45 de

desde os melhores até os piores – bastante utilizados pelos estrangeiros que

visitavam a região. Havia também mudas de cavalos, mais utilizadas por romanos.

Quando Paulo iniciou suas viagens, algumas delas se faziam por terra, e outras eram

por via marítima; destas últimas, nem todas eram seguras ou estavam a salvo de

tempestades (em 2 Corinthios 11,25, Paulo diz que sofreu três naufrágios). Devido ao

mau tempo, algumas rotas marítimas só eram percorridas em períodos específicos do

ano (pelo Mediterrâneo, a época mais segura para viajar era entre 26 de maio e 14 de

setembro).

13 Na sinagoga havia vários gregos, que tinham adotado o judaísmo. E foi entre eles que

Paulo iniciou sua pregação. O fato de pregar a gentios convertidos trouxe um problema, que

de início aborreceu Paulo. Como ele deveria proceder com esses e com os gregos não

convertidos? Converter inicialmente ao judaísmo, e em seguida à crença cristã? Este dilema

criou uma longa e amarga controvérsia, que somente aos poucos seria solucionada.

14 Em At 11,28. Este é o mesmo profeta que vem alertar Paulo, em época posterior, a não

seguir para Jerusalém, pois que sofreria perseguições (At 21,10).

15 Em At 13, há uma confusão quanto ao seu nome. Lucas (redator reconhecido do texto)

não informa quando ele, Saulo, passou a ser chamado de Paulo. De início chama-o de Saulo,

e em At 13,9 começa a chamá-lo de Paulo.

Paulo: O Último Apóstolo

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nossa era.16 Pregaram por todas as sinagogas, indo de Salamina até

Pafos, em uma extensão de 150 quilômetros.

Pafos foi o local onde ocorreu o incidente com o procônsul Sérgio

Paulo.17 Havia um mago na cidade, por nome Bar-Jesus, ou Élimas, que

se opunha à pregação de Paulo e Barnabé. Quando o procônsul chamou

os apóstolos, fez tudo para desacreditá-los. Foi então que Paulo,

olhando-o nos olhos, falou: “Ó homem cheio de todo engano e de toda

maldade, inimigo de toda justiça! Não cessarás de torcer os retos

caminhos do Senhor? Agora mesmo a mão do Senhor cairá sobre ti, e

ficarás cego, sem veres a luz do sol por certo tempo”. Na mesma hora o

mago ficou cego, sem nada poder ver, e o procônsul ficou

verdadeiramente maravilhado com este prodígio.

De Pafos dirigiram-se ao continente, desembarcando na Atália, perto de

Perge (ou Perga), de onde foram para Antióquia de Pisídia, que distava

160 quilômetros. João Marcos, que os acompanhara, talvez desanimado

com as dificuldades que se avizinhavam, resolveu voltar dali. Somente

Paulo e Barnabé foram em frente. Chegando à cidade dirigiram-se à

sinagoga, onde Paulo discursou e pregou com tamanho sucesso que no

sábado seguinte toda a cidade queria ouvi-lo. Isto encheu de indignação

e de inveja os judeus locais, que passaram a insultá-los e acabaram

expulsando-os da sinagoga. Foi nessa ocasião que Paulo tomou uma

decisão que iria marcar o resto de seu apostolado, e deixá-lo conhecido

pelo nome de “Apóstolo dos Gentios”, ou “Apóstolo das Gentes”.

Dirigindo-se aos judeus, increpou-os: “A vós devíamos falar em primeiro

lugar a palavra de Deus, mas visto que a rejeitais e vos julgais indignos

da vida eterna, volver-nos-emos para os gentios”.18 Daí em diante, por

cerca de um ano, Paulo pregou ao ar livre ou em casa de convertidos, e

somente para os gentios.

Daí dirigiram-se eles para Icônio, a 150 quilômetros de Antióquia, onde

durante um certo tempo conseguiram um grande número de conversões

entre os judeus e gregos da sinagoga. Mas a sua pregação não deixava de

provocar tumulto, e os habitantes se dividiam entre os simpatizantes dos

judeus e os simpatizantes dos apóstolos. Ameaçados de apedrejamento,

16 Na época utilizava-se ou o calendário judaico, iniciado em 3761 a.C., ou o calendário

romano, iniciado com a fundação de Roma, em 753 a.C.

17 Em 1885, o professor inglês J. R. Sitlington Sterett descobriu nas escavações realizadas

na cidade de Pafos, em Chipre, uma inscrição romana onde se podia ler o nome deste

procônsul.

18 At 13,46. Posteriormente, também em Corinto (At 18,6) Paulo volta-se aos gentios,

devido à rejeição dos judeus da sinagoga.

Paulo: O Último Apóstolo

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19

fugiram para as regiões vizinhas e as cidades de Licaônia, Listra e

Derbe, onde continuaram a pregar.

Em todos os lugares, e apesar dos prodígios que realizavam, ou talvez

em razão deles, sofriam a rejeição pela sinagoga ou acabavam sendo mal

interpretados. Em Listra chegaram a ser comparados aos deuses

Mercúrio (Paulo) e Júpiter (Barnabé), o que motivou um burlesco

episódio por parte dos locais, que queriam fazer sacrifícios em honra dos

dois. Quando descobriram o que estava acontecendo, eles disseram:

Homens, o que fazeis? Nós somos homens iguais a vós, e vos pregamos

para que abandoneis estes falsos deuses, convertendo-vos para o Deus

vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há” (At 14,15). Os

judeus de Antióquia e Icônia, sabedores dos seus sucessos, foram até

Listra e acabaram convencendo aos seus habitantes que os apóstolos não

passavam de farsantes. A turba, enfurecida, arrastou Paulo para fora da

cidade e o apedrejou. Timóteo e Barnabé levaram o seu corpo inerte e o

trataram de suas feridas.

Apesar de tudo, sua obra prosperou. Fizeram muitos discípulos, e por

onde passaram, organizaram comunidades e congregações, deixando

presbíteros tomando conta de cada uma.19

Nesta região da Ásia Menor, onde por três anos Paulo e Barnabé tiveram

um intenso labor missionário, eles encontraram, de um lado, a alegria da

conversão sincera, e de outro, a contínua e desgastante oposição dos

judeus, que sempre acabavam conseguindo a sua expulsão, onde quer

que estivessem. Para Paulo, era cada vez mais intensa a sua convicção, a

de que deveria pregar unicamente para os gentios, deixando de lado os

judeus.

Dando por acabada a sua missão eles voltaram a Antióquia, tendo antes

passado por Panfília e a Atália.20

19 As comunidades e congregações formadas inicialmente por Paulo não tinham o sentido de

“igreja”, tal como a entendemos modernamente. Estas comunidades eram constituídas por

adeptos, “batizados no espírito”, que formavam uma espécie de confraria. Tais adeptos não

eram meros freqüentadores e ouvintes de sermões; eles se comprometiam integralmente por

uma mudança interior, de uma vida mundana de pecado para uma plena vivência mística e

espiritual. Vendiam seus bens, que eram tomados em comum por todos. De uma certa forma,

as primeiras comunidades cristãs adotavam o estilo de vida essênio, de vida comunal e

regrada por preceitos espirituais. Pelas epístolas de Paulo, ficamos sabendo que nem todos os

convertidos tinham um comportamento reto e espiritual, e Paulo incita os congregados à

expulsão dos corruptos (por exemplo, em 1 Cor 5,2 e 5,7).

Paulo: O Último Apóstolo

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20

O Problema das Conversões

Foi por esta época que o problema de como fazer as conversões tomou

um rumo não imaginado. Alguns prosélitos acreditavam que a pregação

devia ser feita apenas entre os judeus; outros, entre os gregos convertidos

ao judaísmo; e outros ainda, aos gentios. A questão da circuncisão se

tornou um grave problema, pois que alguns pregadores vindos da Judéia

ameaçavam os convertidos, dizendo-lhes que, “se não vos

cincuncidardes conforme a Lei de Moisés, não podeis ser salvos”. Paulo

e Barnabé se opunham a esta interpretação, e a querela acabou tomando

tal vulto que os dois foram enviados de volta a Jerusalém, para poderem

consultar os discípulos a este respeito.

Atravessaram a Fenícia e a Samaria e chegaram a Jerusalém, sendo

recebidos pelos presbíteros e apóstolos, a quem narraram seus sucessos

de pregação, bem como o problema da circuncisão. A este respeito,

foram advertidos pelos fariseus convertidos sobre a necessidade da

observância da Lei de Moisés. Entretanto, foi necessário reunir-se o

Concílio, tal a gravidade da questão. Houve uma longa deliberação, na

qual falaram Pedro, Paulo, Barnabé e Tiago.21 Por fim, após longas

controvérsias decidiram de acordo as palavras dos profetas Jeremias22 e

Amós,23 sendo de seu parecer que “não se molestassem aqueles dos

20 Nesta primeira viagem, Paulo foi até Antióquia por terra, de onde foi por via marítima

para Chipre. Daí foi novamente por mar para Perge, e por terra para Antióquia de Pisídia,

Icônio, Listra, Derbe, Atália, por mar de volta para Antióquia, e por terra para Jerusalém.

21 Neste Concílio houve concessões mútuas, quanto ao modo de proceder com os gentios.

Entretanto, foi daí que surgiram as sementes da dissociação que aconteceria entre os

partidários de Cefas (Pedro) e os partidários de Paulo. Em época posterior, a pregação deste

viria a ser contestada, o que motivou que escrevesse a Segunda Carta aos Corinthios, onde

ele, por sua vez, repudia os falsos apóstolos. Quanto a Cefas, sua conduta quanto aos gentios,

de acordo com Paulo, era contraditória e “condenável”, (conforme Gal 2,11-14), o que por

sua vez contradiz o que este próprio afirma em 1 Cor 9,20: “e me faço judeu com os judeus a

fim de ganhar os judeus”. A atitude de Paulo neste episódio talvez se explique pelo fato de

que ele considerava Pedro o apóstolo dos “circuncisos”, enquanto que ele próprio o era dos

gentios (conforme Gal 2,7-8).

22 Assim diz o Senhor acerca de todos os meus maus vizinhos, que tocam a minha herança

que fiz herdar ao meu povo Israel: Eis que os arrancarei da sua terra, e a casa de Judá

arrancarei do meio deles. E depois de os haver eu arrancado, tornarei, e me compadecerei

deles, e os farei voltar cada um à sua herança, e cada um à sua terra (Jer 12,15).

23 Naquele dia tornarei a levantar o tabernáculo de Davi, que está caído, e repararei as

suas brechas, e tornarei a levantar as suas ruínas, e as reedificarei como nos dias antigos;

Paulo: O Último Apóstolo

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21

gentios que se converteram a Deus, mas que se lhes escreva que se

abstenham das contaminações dos ídolos, das fornicações, das carnes

sufocadas e do sangue”.24 Foi então emitido um decreto apostólico com

estas recomendações, e novamente Paulo e Barnabé, agora

acompanhados de Judas, chamado Barsabás, e de Silas (ou Silvano),

foram enviados a Antióquia para comunicar a decisão do Concílio.

Novas Viagens

Em Antióquia Paulo convidou Barnabé para darem continuidade à sua

missão. Barnabé queria que João, chamado Marcos, os acompanhasse,

mas Paulo temia que este os abandonasse no caminho, como já fizera

antes. Desgastado, Barnabé preferiu seguir com João, enquanto Paulo

prosseguiu com Silas, em sua segunda viagem missionária. Foram então

para a Síria e a Cilícia.

Em Listra Paulo encontrou um discípulo chamado Timóteo, que era filho

de uma mulher judia crente, e de pai grego. Motivado pela reação dos

judeus da região, extremamente tradicionalistas, Paulo ignorou o decreto

que conduzia e procedeu à circuncisão de Timóteo, o que ia contra as

suas próprias convicções. Em outras cidades, contudo, não se furtou a

comunicar o decreto, nem fez novas circuncisões.

Foram em seguida para a Frígia e para a Galácia.25 Nesta ocasião foram

proibidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia. O mesmo para

a região da Bitínia.26 Por essa razão, passando ao largo de Mísia, eles

continuaram até Tróade. Ali, Paulo recebeu em visão uma convocação

para que eles possuam o resto de Edom, e todas as nações que são chamadas pelo meu

nome, diz o Senhor, que faz estas coisas (Am 9, 11-12).

24 At 15,19-20. Nota-se aqui que mesmo nesta decisão, persistiam vestígios dos costumes

judaicos, tais como, por exemplo, evitar a carne de animais de casco fendido.

25 Havia duas Galácias, a do norte, na Ásia Menor, formada pelas antigas tribos gálicas

(célticas) e a Galácia do sul, onde se encontravam as cidades de Listra, Icônio e Derbe. Há

divergências quanto à região efetivamente mencionada no texto, para a qual os apóstolos se

dirigiram.

26 Ásia Proconsular, formada em 133 a.C. a partir do reino do último rei de Pérgamo e que

compreendia as seguintes regiões: Mísia, Frígia, Lídia e Cária. As dificuldades que Paulo

encontraria neste mister provavelmente impediriam que ele dirigisse seus esforços aos povos

que efetivamente evangelizou. Embora fosse o “vaso de eleição” do Senhor, e destinado a

levar a Sua Palavra às nações, não competia a Paulo pregar entre estes povos.

Paulo: O Último Apóstolo

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22

para irem até a Macedônia. Embarcaram em Tróade e foram para a

Samotrácia. Dali para Neápolis,27 que foi onde ocorreu o episódio com a

mulher pitonisa.28

Nesta cidade, ficaram na casa de uma mulher que se convertera e fora

batizada, Lídia. Ocorre que lá ficando, quando saíam para a oração eram

seguidos por uma mulher que, em virtude de suas adivinhações,

proporcionava grandes ganhos aos seus amos. Esta mulher costumava

seguir os apóstolos, e então, em altos brados proclamava que eles eram

os servos do Senhor altíssimo que tinham vindo anunciar o caminho da

salvação. Como isto ocorria todos os dias, Paulo acabou por ficar

incomodado. Voltando-se para a mulher exortou em nome de Jesus

Cristo para que o espírito pitônico29 a deixasse, o que de fato ocorreu. Os

amos da mulher, sentindo que perdiam os seus ganhos, denunciaram os

apóstolos aos magistrados. Este ordenou que fossem açoitados e presos

em seguida.

27 Atual Cavala, cidadezinha pesqueira, primeiro ponto do continente europeu pisado por

Paulo. O caminho para a Macedônia passava pelo antigo caminho romano chamado Via

Egnatia.

28 Observe-se como o relato em At 16,9-10 torna-se, de impessoal, para a primeira pessoa

do plural. Estas variações ocorrem também em At 20,2 (e adiante) e de novo em At 27 e 28.

Acredita-se que isto ocorra quando Lucas participa efetivamente dos eventos.

29 Píton era o nome do dragão morto pelo deus Apolo. As pitonisas eram mulheres

adivinhas, capazes de prever o futuro através de sentenças sibilinas. Os judeus se opunham

aos adivinhos (a pena para estes era a lapidação), mas nãos aos videntes (profetas). Aliás, o

profetismo, que no fundo é também uma forma de adivinhação, permeia intensamente o

Antigo Testamento da Bíblia. Os profetas bíblicos, muito mais do que intérpretes do futuro

(algo impensável para quem não possuía o conceito de história e de evolução – sua única

interpretação do futuro era escatológica), eram na verdade intérpretes ou intermediários da

vontade divina, e como tal se comportavam, quando se dirigiam aos seus contemporâneos.

Também quando se procurava saber quais eram os desígnios de Deus, o profeta, ou vidente,

era procurado com este objetivo, conforme se pode ler em Samuel (1 Sm 9,9): Antigamente

em Israel, quem fosse consultar a Deus, dizia: Venha, vamos ao vidente. Porque o que hoje

[à época] se chama "profeta", era então chamado "vidente". Mas não é apenas no Antigo

Testamento que se fazem referências aos profetas. Paulo escreveu: Segui a caridade,

procurai com zelo os dons do espírito, e acima de todos, os da profecia (1 Cor 14,1). A

profecia, então, seria uma manifestação e um chamado de Deus, conforme diz Amós: E o

Senhor me pegou, quando eu conduzia meu rebanho, e falou-me: Vai, profetiza ao meu povo

de Israel (Am 7,15). E mesmo quando existe a condenação à profecia: Assim diz o Senhor

dos exércitos: Não deis ouvidos as palavras dos profetas, que vos profetizam a vós,

ensinando-vos vaidades; falam da visão do seu coração, não da boca do Senhor (Jer 23, 16),

isto decorre da corrupção destes: Mas nos profetas de Jerusalém vejo uma coisa horrenda:

cometem adultérios, e andam com falsidade, e fortalecem as mãos dos malfeitores, de sorte

que não se convertam da sua maldade; eles têm-se tornado para mim como Sodoma, e os

moradores dela como Gomorra (Jer 23,14).

Paulo: O Último Apóstolo

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23

À noite, na prisão, estando em oração Paulo e Silas, ocorreu

repentinamente um forte terremoto, o qual abalou toda a estrutura do

prédio e rachou suas paredes. Achando que seus prisioneiros tinham

aproveitado para fugir, o carcereiro pretendia matar-se, por temer a

reação das autoridades. Percebendo o seu intento, Paulo, em meios à

poeira e escombros, gritou para alertar que eles ainda estavam lá.

Trêmulo e comovido, o carcereiro aproximou-se e perguntou o que

deveria fazer para ser salvo; Paulo apaziguou-o e batizou-o, bem como a

todos de sua família, que este lhes trouxe.

No dia seguinte os lictores chegaram para libertá-los, sob ordens dos

pretores. Paulo, entretanto, alegando sua prerrogativa de cidadão

romano, pretendia que os próprios pretores os libertassem. Estes, ao

tomarem conhecimento que eles eram cidadãos romanos, temeram,

vieram e os libertaram, instando a que saíssem da cidade. Paulo e Silas,

após voltarem para a casa de Lídia, deixaram a cidade.

Ainda nesta viagem passaram por Anfípolis e Apolônia até chegarem a

Tessalonica. Nesta cidade hospedaram-se na casa de um judeu por nome

Jasão. Como faziam em todas as cidades, Paulo e Silas dirigiram-se à

sinagoga, onde por três sábados seguidos discutiram as Escrituras. Paulo

esforçava-se por provar que Jesus era o Messias, que tinha sido morto e

que havia ressuscitado. Como em todas as outras ocasiões, havia aqueles

que aceitavam sua pregação,30 mas a grande maioria dos convertidos

vinha das fileiras dos gregos. Os judeus da sinagoga eram refratários às

suas palavras e ficavam irados com sua conversão dos gregos. Em razão

dos motins insuflados pelos judeus, que perseguiam inclusive aqueles

que os tinham albergado na cidade, Paulo e Silas resolveram ir para a

Beréia.

Ali, os judeus eram mais receptivos do que aqueles da Tessalonica e

muitos creram em suas palavras. Quando, entretanto, os judeus da outra

cidade ficaram sabendo de seu sucesso, dirigiram-se para lá e tanto

agitaram que Paulo, a conselho dos irmãos (de crença) resolveu ir para

Atenas, deixando Silas e Timóteo.

30 A pregação em Tessalonica tomou um rumo imprevisto quando os conversos, acreditando

que a parusia ou retorno de Cristo aconteceria em breve, cruzaram os braços e quedaram-se

inertes, à espera deste fato. Paulo exortou-os ao trabalho (2 Tess), afirmando que o fim

apocalíptico ainda demoraria.

Paulo: O Último Apóstolo

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24

O Choque com a Filosofia Grega

Em Atenas, Paulo freqüentava a sinagoga e se confrangia com o excesso

de ídolos que ele via na cidade. Atenas era famosa pelo fato de seus

cidadãos poderem discutir em liberdade o que quisessem, em certo local

chamado Areópago.31 Paulo foi convidado por certos filósofos epicureus

e estóicos a defender a sua doutrina no Areópago, e para lá se dirigiu.

Com perspicácia, em seu discurso ele ressaltou o fato de que um dos

altares de adoração dos atenienses era dirigido “Ao deus desconhecido”.

Afirmou então que este “deus desconhecido”, na verdade, era o Deus

vivo, que havia feito o mundo e tudo que nele existia e que provia a vida

e o alento de tudo que vivia. Não era um deus distante, nem apenas um

ídolo de pedra, ouro ou prata; era, ao contrário, o Deus “no qual nós

vivemos, no movemos e temos o nosso ser”. Quando, contudo, tocou no

assunto da ressurreição dos mortos,32 os circunstantes passaram a mofar

dele e de sua doutrina, puseram-se a rir e diziam, enquanto se afastavam:

Sobre isto, te ouviremos de outra vez”.

De Atenas Paulo foi para Corinto,33 região da Acaia. Lá encontrou um

judeu de nome Áquilas, que viera do Ponto com Priscila, sua mulher,

31 Areópago (“colina dos ares” ou “colina das maldições”): ficava situado em uma colina de

pedra, a oeste da acrópole ateniense. Originalmente formado como conselho consultivo dos

reis, apresentava uma certa similaridade com o senado romano. Era também tribunal e órgão

administrativo.

32 Este sempre foi um tema extremamente delicado, e tanto na época de Paulo quanto na

atualidade ainda provoca dissensões doutrinárias. Os fariseus e os saduceus digladiavam

ferozmente sobre ele, colocando-se em campos opostos. Seitas, filosofias, intérpretes e

doutrinadores ortodoxos e heterodoxos, (presumidos) hereges, prosélitos, discutiam

interminavelmente se a ressurreição se daria em corpo carnal ou espiritual, quando se daria

(se é que se daria), se a imortalidade se daria neste corpo ressurrecto ou se já havia uma alma

imortal. Não é preciso dizer que além dos rios de tinta que se escreveram sobre o assunto,

correram também rios de sangue devido às sangrentas lutas religiosas provocadas pelo

excesso de dogmatismo. Opiniões inconciliáveis e fanatismo, obviamente, jamais foram o

objetivo da pregação iniciada por Jesus e continuada pelos apóstolos, Paulo inclusive, que

sempre desejaram que as contendas fossem resolvidas pacificamente e que as pessoas

sempre procurassem superar as suas discórdias.

33 Cidade grega na extremidade nordeste do Peloponeso. Era famosa pela dissolução dos

costumes e pela corrupção. Tal fama devia-se principalmente à existência da prostituição

oficial no santuário de Afrodite. Era a principal cidade marítima da Hélade, encruzilhada

entre o Oriente e o Ocidente. O caminho para ela era feito pela Via Lechaeum, a partir do

porto ocidental em Cêncris.

Paulo: O Último Apóstolo

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25

expulsos (como todos os judeus) de Roma por um decreto de Cláudio.34

Também Áquilas era fabricante de tendas, e Paulo ficou em sua casa,

onde trabalhavam juntos. Aos sábados, dirigia-se à sinagoga, onde

pregava a judeus e gregos.

Silas e Timóteo vieram da Macedônia e auxiliaram neste trabalho de

conversão, mas a reação dos judeus logo recrudesceu. Além de reagirem

violentamente, blasfemavam contra os apóstolos. Foi nesta ocasião que

Paulo novamente increpou os judeus, devido à sua dureza de coração:

Caia o vosso sangue sobre as vossas cabeças; limpo sou dele. Desde

agora dirigir-me-ei aos gentios”.35 E foi para a casa de Tício Justo, um

prosélito que morava ao lado da sinagoga.36

Contrariados, os judeus tentaram simular um ato de sedição por parte de

Paulo, para que Galião,37 o procônsul de Acaia,38 o mandasse prender.

Este, entretanto, não se deixou iludir e nada fez contra Paulo.

34 Ou de Tibério. Os judeus da cidade teriam sido expulsos em razão de um escândalo

financeiro.

35 At 18,6.

36 Desde o princípio, Paulo percebeu a universalidade da mensagem cristã e soube em seu

íntimo que ela não se destinava tão somente aos judeus, mas também, e principalmente, aos

gentios. Para ele, a mensagem cristã era por demais importante para se tornar restrita a um

único povo. Devido a esta compreensão, ele dedicou toda a sua energia e vigor à difusão

universal desta mensagem, porque compreendeu a extrema importância da Boa Nova como

instrumento de libertação individual para todos os povos. Ele, que era judeu e fariseu,

transcendeu sua formação pessoal e atingiu um cosmopolitismo inédito para a sua época.

Abriu-se a todos os povos, para mostrar a todas as pessoas que havia um Deus supremo,

invisível, acima de todos os múltiplos deuses cultuados em todos os templos da antigüidade.

Profundo conhecedor do judaísmo, que punha a Lei acima de tudo, ele percebeu que Cristo

trouxe uma nova Lei (o NT, que aboliu o AT – pelo menos em suas prescrições: veja-se em 2

Cor 3,14) e cujo único mandamento sobrepassa extraordinariamente os mandamentos de

Moisés: Amarás a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a ti mesmo. A busca pela

virtude, na concepção mosaica, é ultrapassada pela busca do ideal de Cristo (a “imitação de

Cristo”, estilo de vida que seria perseguido pelos místicos da Idade Média, pelos anacoretas,

pelos eremitas, pelo movimento religioso chamado Loucura pelo Cristo – com santo

Onésimo, santo Bessarião, entre outros – ou pelos “staretz” – os loucos pelo Cristo, na

Rússia) e que ele anunciou estar ao alcance de todos.

37 Lucius Junius Annaeus Novatus Gallio era o irmão mais novo do filósofo Sêneca (Lucio

Aneu Sêneca), que foi preceptor de Nero. Eles provinham de Córdoba, a Bética hispânica.

38 Nesta época, o império romano se dividia em três tipos de províncias: as imperiais, as

senatoriais e as procuratorianas. Esta divisão se fazia em razão do potencial de rebelião de

cada uma. As províncias pacificadas, ou senatoriais – caso da Acaia, da Anatólia, ou mesmo

Bética, na Espanha, dez no total – eram dirigidas por um procônsul, eleito pelo senado de

Roma, e nelas não havia muitas legiões romanas. As províncias imperiais (em número de

doze) estavam sob o controle direto do imperador (através de um legado, que o

representava), devido ao seu alto potencial de conflito, e por isso mesmo tinham em seu

território um grande número de legiões. As províncias procuratorianas, ou “Procuras” eram

dirigidas por governadores, ou procuradores, que respondiam diretamente ao imperador.

Paulo: O Último Apóstolo

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26

Terceira Viagem

De Corinto seguiu por mar para a Síria, juntamente com Áquilas e sua

mulher, Priscila. De lá foi para Éfeso, onde se separaram. Em Éfeso,

declinou do convite que lhe fizeram os judeus da sinagoga, para que

ficasse por lá algum tempo. Despediu-se e seguiu dali para Cesaréia,

Jerusalém (onde saudou a comunidade) e Antióquia.

Após algum tempo Paulo partiu novamente, indo para a Galácia e a

Frígia. Nesta época, um judeu convertido por nome Apolo39 chegara a

Éfeso, vindo de Alexandria. Apesar de não ter sido batizado (só recebera

o batismo de João, como a maioria dos crentes em Corinto), ele pregava

com entusiasmo a doutrina cristã na sinagoga, a seu modo. Entretanto,

Áquilas e Priscila ouvindo-o, resolveram completar sua instrução sobre o

que ele desconhecia. Em seguida o animaram a ir a Acaia, e escreveram

aos irmãos de lá para que o recebessem.

Enquanto isso, Paulo percorria Éfeso batizando no Espírito Santo os

prosélitos de João Batista. Na sinagoga, novamente sendo rechaçado,

Paulo foi pregar em uma academia de um tal Tirano, o que fez por cerca

de dois anos. Eram de tal monta os prodígios realizados por Paulo, que

até o que ele tocava podia curar as pessoas.

Nesta ocasião, notando alguns judeus que nos exorcismos que ele

realizava invocava o nome do Senhor Jesus, tentaram repetir a prática

em um enfermo possuído por um espírito maligno, conjurando a que este

saísse “em nome do Jesus pregado por Paulo”. Maliciosamente, o

espírito imundo lhes inquiriu: “Conheço Jesus e sei quem é Paulo; mas

vós, quem sois?”. Em seguida, o indivíduo possuído, tomado de

Com a morte do rei Herodes, o Grande, em 4 a.C., seu reino foi dividido nas tetrarquias de

Arquelau (a Judéia), Filipe (territórios do leste e nordeste do lago ou mar de Tiberíades) e

Antipas (Galiléia e Peréia). No ano 6 d.C., devido aos desmandos de Arquelau, a Judéia foi

colocada sob a autoridade direta do governador da Síria, Públio Quintino Varo, que foi

também seu primeiro procurador (Arquelau, posteriormente, recuperou a Judéia, a Samaria e

a Iduméia, não como rei, mas com o título de etnarca). Na época de Cristo, Pôncio Pilatos

era o procurador da Judéia. As Procuras tinham muito poucas legiões, em seus territórios.

39 Apolo é o prosélito inicialmente solicitado a ir a Corinto a fim de reconciliar os ânimos e

exortar à unidade da congregação, convite este declinado por ele. No caso, Timóteo foi em

seu lugar (1 Cor 16,12).

Paulo: O Último Apóstolo

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27

extraordinária força, saltou sobre eles e subjugou-os, fazendo com que

fugissem dali em desabalada carreira.

Este episódio rapidamente ficou conhecido em toda a cidade, entre

gregos e judeus que os comentavam. Muitos se atemorizaram, e como

eram praticantes de artes mágicas, levaram seus livros40 para a praça

pública e os queimaram.

Paulo tinha em mente partir para a Macedônia e a Acaia, seguir para

Jerusalém e de lá ir até Roma. Antes de partir, entretanto, aconteceu um

incidente, o qual envolvia um ourives, de nome Demétrio.

Ocorria que Demétrio ganhava muito dinheiro fazendo em prata imagens

da deusa Ártemis, para os templos, e temia que a pregação de Paulo

acabasse por afastar dessa prática os devotos desta deusa, o que

fatalmente faria minguar os seus ganhos. Em vista disso incitou a que

todos os que trabalhassem nessa atividade se colocassem contra Paulo.

Tanto alarde fez sobre isso que logo a cidade estava em tumulto. A

multidão, da qual possivelmente nem todos soubessem o que ocorria,

dirigiu-se ao teatro, todos gritando furiosos e em altos brados. Os

partidários de Paulo, que eram Gaio, Aristarco e Alexandre, eram

empurrados de um lado para outro, e a confusão e a algaravia era tanta

que ninguém se entendia. Por fim o secretário41 conseguiu se impor e

conclamou a que todos esfriassem os ânimos. Com moderação, ponderou

que o lugar mais apropriado para resolver esta querela era o fórum, e

conclamou a que Demétrio expusesse lá a sua queixa. Além disso,

mostrou que o comportamento do populacho era perigoso, pois que

podia ser interpretado como uma sedição pelas autoridades.

Aparentemente, Demétrio seguiu seu conselho, pois que a assembléia

logo se dissolveu. Paulo, ao que parece, perdeu a disputa, pois resolveu

partir para a Macedônia.

40 Os famosos “oráculos efesinos” (efésia grámmata).

41 Escrivão ou chanceler (grammateus), também secretário-geral. Este era um cargo muito

importante, em Éfeso.

Paulo: O Último Apóstolo

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28

Continuação da Terceira Viagem

Paulo continuou até a Grécia, onde permaneceu por três meses.

Tencionava embarcar para a Síria, mas tomando conhecimento da cilada

que os judeus lhe preparavam, resolveu voltar pela Macedônia.

Em Tróade, onde se deteve por sete dias, reuniram-se vários grupos,

tanto os que viajavam com Paulo quanto outros (inclusive Lucas), que

partindo de Filipo se reuniram a eles.

Estando eles um dia em reunião apostólica, e Paulo palestrando, seu

discurso demorou-se tanto que, entrando pela noite, um jovem chamado

Eutímio que estava sentado à janela foi vencido pelo cansaço e

adormeceu, tombando de grande altura para o pátio. Desceram todos,

aflitos, com exceção de Paulo, que abraçou o corpo inerte e disse aos

circundantes: “Não temam, porque ele está vivo”. Subiu novamente e

continuou a prática até o amanhecer, e quando partiram, o jovem os

acompanhou, para alegria de todos.

Indo por terra até Assos, Paulo embarcou e seguiu para Mitilene, Quios,

Samos e Mileto. Nesta cidade encontrou-se com os presbíteros de Éfeso.

Paulo, com o coração confrangido, anunciou-lhes que não mais o veriam,

pois que somente o esperavam cadeias e tribulações. Exortou-os a

permanecerem unidos frente à adversidade e a defenderem-se das más

doutrinas, pois que estas somente provocariam cismas. Oraram, a seguir,

em conjunto. O grupo ali reunido entristeceu-se tanto que todos

irromperam em prantos, aflitos com o destino de Paulo.

De Mileto Paulo foi por barco para Cós, Rodes e daí para Pátara, onde o

grupo tomou um barco que ia para a Fenícia. Desembarcaram em Tiro,

onde Paulo foi advertido por outros discípulos para que não fosse até

Jerusalém. De Tiro foram a Tolemaida,42 e de lá para Cesaréia. Ali

ficaram na casa de Filipe, o evangelista, onde permaneceram por alguns

dias. Foi ali também que o profeta Ágabo advertiu Paulo para não seguir

até Jerusalém, pois que lá seria preso.

42 Também Ptolemaida, em homenagem a Ptolomeu Filadelfo. Outros nomes pelos quais é

conhecida: Acco, ou Acre, ou Aque, cidade cananéia à beira do Mediterrâneo. Era o melhor

porto natural da Palestina e um dos mais antigos da costa síria. Como cidade helenizada,

tinha costumes contrários aos costumes judaicos.

Paulo: O Último Apóstolo

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29

Paulo, embora várias vezes advertido, ainda assim seguiu para

Jerusalém. Em sua viagem foi acompanhado por vários discípulos que

ficavam em Cesaréia. Chegando a Jerusalém, estes o conduziram à casa

de um antigo discípulo, Menasão de Chipre, onde se hospedaram. No dia

seguinte foi visitar Tiago, em cuja casa se reuniram todos os presbíteros

e a quem ele deu conta de seus périplos e de suas pregações.

Nesta ocasião, após ouvir a narrativa de Paulo, os presbíteros o

advertiram sobre o seu modo de evangelizar, o qual não enfatizava os

costumes mosaicos.43 Eles então o convidaram a provar sua observância

da lei mosaica. Para tal, deveria pagar os gastos de quatro varões que

tinham feito voto, e purificar-se junto com eles. Paulo seguiu suas

instruções e fez a purificação junto com os varões, e no dia seguinte

entrou no Templo, anunciando o cumprimento dos dias da consagração e

indagando quando deveria apresentar as ofertas.

Estes procedimentos duravam sete dias, e quando o período estava para

terminar, alguns judeus da Ásia, vendo-o lá, começaram a clamar todos,

acusando-o de ser contra a Lei e de ser profanador daquele lugar santo,

por ter introduzido um gentio (de nome Trófimo) no Templo.44

43 Os cristãos em Jerusalém ainda seguiam as práticas judaicas, tanto no concernente à

circuncisão quanto no referente aos alimentos proibidos, práticas das quais Paulo se afastara.

Em 2 Cor ele se refere aos ataques de pregadores, munidos de cartas da Palestina, contra sua

pessoa, afirmando que ele não era um verdadeiro apóstolo e que sua pregação não tinha

valor, por não impor os preceitos judaicos (estes ataques lançaram tal confusão entre a

comunidade que, para reconciliar os ânimos, Paulo teria escrito esta epístola).

44 O Templo tinha áreas destinadas com exclusividade aos judeus, onde nenhum gentio

podia entrar. Para estes estava destinada uma área (o “Átrio dos Gentios”), da qual não

podiam passar, sob pena de morte. O local mais sagrado do Templo (Sancta Sanctorum) só

podia ser acessado pelo Sumo Sacerdote, e apenas uma vez por ano.

Paulo: O Último Apóstolo

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30

III – MARTÍRIO E MORTE

Prisão

A turba de judeus se enfureceu e quis matar Paulo. Agarraram-no e o

levaram para fora do Templo, enquanto os levitas corriam a cerrar as

portas. Paulo foi empurrado e agredido com pancadas por todos, que só

pararam com a chegada dos soldados romanos, vindos da fortaleza

Antônia. O tribuno que era líder da tropa (Cláudio Lísias) tomou Paulo

sob custódia e o levou, mas este, dirigindo-se a ele em grego, solicitoulhe

permissão para falar ao povo. Lísias, surpreso por ter sido interpelado

em grego, no início confundiu Paulo com um sedicioso procurado, mas

este logo o esclareceu de sua condição.

Autorizado a falar, Paulo pediu silêncio e fez, em hebraico, uma longa

preleção acerca de sua vida, de como perseguira os conversos, de sua

própria conversão no caminho de Damasco, de suas viagens e de sua

longa pregação aos próprios judeus, aos gregos e aos gentios. Entretanto,

seu discurso não convenceu a turba, que recomeçou a insultá-lo e a

incitar a que os romanos o açoitassem. Esta era a intenção do tribuno,

mas Paulo interpelou um centurião presente, falando: “É-vos lícito

açoitar um cidadão romano, sem antes o haverdes julgado?”. Inquirido

pelo tribuno, Paulo comunica que tinha a cidadania romana por

nascimento. Em vista disso, os romanos o levaram de volta aos judeus.

Reunindo-se o Sinédrio45 para julgá-lo, Paulo alegou inocência, e que

sua consciência estava limpa. Enquanto a assembléia prosseguia,

aconteceu uma altercação entre Paulo e Ananias, o Sumo Sacerdote

(condição esta que era desconhecida por Paulo). Admoestado por este

ato, ele respondeu: “Não sabia, irmãos, que era o Sumo Sacerdote. Pois

45 Na época, a justiça judaica era distribuída em quatro cortes: Jericó, Séforis, Amat e

Gadara. O Grande Sinédrio de Jerusalém era a instância máxima, e era formado por 71

membros (contando-se o Sumo Sacerdote). Tinha liberdade para deliberações de âmbito

religioso, mas restringia-se às limitações romanas, em questões civis. Era composto de três

classes: os anciãos, os pontífices e os membros de quatro famílias leigas, mas poderosas (os

Anani; os Boetos; os Fiabi; os Kamit). Por convocação do tribuno que prendera Paulo, o

Sinédrio reuniu-se para julgar o seu caso.

Paulo: O Último Apóstolo

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31

está escrito: ‘Não injuriarás o chefe do povo’ ”. Sentindo que sua

situação era difícil, Paulo, em determinado momento, pensou que estaria

melhor se as forças contra ele se dividissem. Falou, então: “Irmãos, eu

sou fariseu e filho de fariseus. Pela esperança e pela ressurreição dos

mortos sou julgado”. Esta exclamação criou de imediato um alvoroço,

porque havia ali fariseus e saduceus que não se entendiam sobre o

assunto, e os fariseus acabaram tomando o partido de Paulo. Devido ao

agravamento do tumulto o tribuno ordenou que Paulo fosse resgatado de

entre os judeus e levado novamente à fortaleza.

No dia seguinte os judeus tramaram a morte de Paulo, jurando entre si

não tomarem bebida nem alimento enquanto não o matassem. Mas o

filho da irmã de Paulo soube da conjura e foi até o tribuno, revelando o

que sabia. Este despachou-o, pedindo que guardasse segredo de tudo. Em

seguida, chamando dois centuriões, ordenou que duzentos soldados

fossem até Cesaréia, onde deveriam entregar Paulo ao procurador

Félix.46 Ao ser entregue ao procurador, este indagou sua procedência, e

ao saber que ele era da Cilícia, ordenou que o prendessem até a chegada

dos acusadores.

Após cinco dias o Sumo Sacerdote Ananias, junto com alguns anciãos e

um orador de nome Tertulo foram até o procurador, para apresentarem

suas razões. A acusação contra Paulo foi feita pelo orador. Este arengou

que Paulo era um sedicioso e militante da seita dos nazoreus. Disse que

ele seria julgado pelos judeus segundo as suas leis, mas que tinha sido

arrebatado pelo tribuno Lísias, que mandou que eles apresentassem suas

queixas ao procurador.

A um sinal de Félix Paulo deu início à sua defesa, alegando inocência e

contando os fatos ocorridos desde sua volta a Jerusalém. Mencionou

inclusive o que ocorrera na sala de julgamento, sobre como levantara a

questão sobre a ressurreição dos mortos e o tumulto que se seguiu.

46 Marco Antônio Félix, irmão de Palas, que era o favorito de Agripina, quarta mulher de

Cláudio e mãe de Nero. Casou-se três vezes: a primeira vez com Drusila, neta do triúnviro

Antônio; em seguida com Drusila, filha de Herodes Agripa I, irmã de Agripa II e de

Berenice. Félix induziu-a a deixar o marido, Acício, rei de Emesa, após dois anos de casada.

Não se conhece o nome de sua terceira esposa. De acordo com Tácito, ele era extremamente

sádico e cruel.

Paulo: O Último Apóstolo

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32

Félix nada decidiu acerca de Paulo e deixou-o preso por cerca de dois

anos. Entretanto, sempre o chamava para ouvir sobre sua fé e sua

doutrina. Às vezes ele se aterrorizava, quando ouvia Paulo falar acerca

do juízo futuro e sobre a vida espiritual. Nem por isto, entretanto, o

libertou. Ao que parece, esperava que este tentasse comprar a própria

liberdade, o que jamais aconteceu.

Entrementes, Félix foi sucedido por Pórcio Festo,47 e neste ínterim os

adversários de Paulo aproveitaram para tentar uma nova cilada contra

ele, pedindo que o novo procurador lhos entregasse. Isto ocorreu em

Jerusalém, e Festo respondeu-lhes que quando partisse para Cesaréia48

eles poderiam fazer suas acusações.

Após cerca de dez dias, Festo foi a Cesaréia e convocou o tribunal.

Ouviu os judeus e ouviu a Paulo; entretanto, para agradar aos primeiros,

perguntou a este se queria ser julgado em Jerusalém. Paulo, conhecedor

da malícia de seus acusadores, declinou, respondendo: “Estou perante o

tribunal de César, nele devo ser julgado”. Festo, de conformidade com a

lei, consultou o seu Conselho, o qual aceitou a apelação. Respondeu

então a Paulo: “Apelaste para César, para César irás”.49

Por essa época transitaram por Cesaréia o rei Agripa e Berenice,50 que

tinham ido lá para saudar Festo. Agripa acabou por tomar conhecimento

da situação de Paulo e das acusações que pesavam contra ele, e quis

ouvi-lo.

No dia seguinte Agripa e Berenice entraram com grande pompa na sala

de audiência, que estava repleta com os tribunos e outras figuras de

47 Pórcio Festo foi procurador de 60 a 62, quando morreu. Festo era tão cruel quanto o seu

antecessor.

48 Era a Cesaréia entre Jafa e Dor, cidade portuária construída por Herodes Magno entre os

anos 9 e 12 a.C. Depois da morte de Agripa I, tornou-se a residência oficial dos procuradores

romanos, que só ficavam na fortaleza Antônia, em Jerusalém, durante as festividades

religiosas. Havia também a Cesaréia que era a capital de Filipe, no lugar da antiga Pânias (ou

Panéias), construída por Herodes Filipe entre 3 e 2 a.C., próximo à nascente do Jordão.

49 Provocatio ad Caesarem. Era uma prerrogativa de Paulo ser julgado pelo tribunal

imperial em Roma.

50 Referência a Marco Júlio Agripa Herodes II, filho de Marco Júlio Agripa Herodes. Vivia

incestuosamente com a irmã, Berenice, depois da morte do segundo marido desta. Em 48 foi

nomeado rei de Cálquis pelo imperador Cláudio, e em 49 foi nomeado supervisor do

Templo, com o direito de nomear o Sumo Sacerdote. Em 53 foi nomeado, pelo imperador

Nero, rei da tetrarquia de Filipe e Lisânias, reino este que foi aumentado (ainda por Nero)

com as cidades de Tiberíades, Tariquéia, Lívias e possivelmente, Abila.

Paulo: O Último Apóstolo

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relevo da cidade. Festo inteirou o rei Agripa do que pesava contra Paulo,

e afirmou que em seu entendimento, nada havia que tornasse Paulo réu

de morte. Agripa pediu em seguida que Paulo se manifestasse, e este o

fez rememorando, em longo discurso, toda sua epopéia, de perseguidor a

pregador da fé cristã.

Contou como em razão da convocação de Cristo se esforçara com

denodo, pregando primeiramente em Damasco, Jerusalém e a região da

Judéia, anunciando a penitência e a conversão a Deus por obras dignas

de penitência. Seu discurso foi tão veemente que Agripa chegou a

comentar com ironia: “Por pouco não me persuades a fazer-me

cristão!”, ao que lhe respondeu Paulo: “Por pouco ou muito mais,

quisera Deus que não só tu, mas todos os que me ouvem se fizessem

hoje, tais como eu sou, embora sem estas correntes”. Festo, neste

momento, interrompeu-o, clamando em voz alta: “Tu deliras, Paulo! As

muitas letras fazem-te perder o juízo”. A isto, Paulo retrucou, dizendo

que suas palavras eram de verdade e sensatez.

Finda a audiência, Agripa e Berenice, e todos mais, concordaram que

nada havia contra Paulo, e que ele só não ficaria em liberdade devido ao

seu apelo a César.

Viagem a Roma

No ano 60, no final do verão, Paulo e outros presos foram encaminhados

ao centurião Júlio para que este os levasse, por mar, para Roma. Lucas o

acompanhou nesta viagem, e sua descrição a respeito é muito realista e

cheia de minúcias.

Viajaram em um dos navios da frota de Adramício, o qual se dirigia às

costas da Ásia Menor. Em Sidônia, ao atracarem, Júlio permitiu que

Paulo visitasse os amigos na cidade, sempre acorrentado a um soldado.

Dali costearam Chipre, e, atravessando o mar da Cilícia e da Panfília,

chegaram a Mira da Lícia, onde embarcaram em um barco de carga51 que

se dirigia para a Itália. Devido aos ventos contrários, tiveram que costear

a ilha de Creta por Salmona até chegarem, com muita dificuldade, ao

porto cretense chamado “Bons Portos”.52

51 Uma navis oneraria, ou barco de carga que deslocava trezentas toneladas. Era muito

utilizado na navegação comercial.

52 Atualmente, “Kali Limenes”.

Paulo: O Último Apóstolo

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34

Paulo achou oportuno advertir sobre o perigo que lhes ameaçava a vida e

a carga do navio, se tentassem navegar com o mau tempo reinante. O

centurião, entretanto, achou por bem ouvir o parecer dos marinheiros, e a

opinião destes era a de que podiam chegar até o porto de Fenice, em

Creta.

Lançando-se novamente ao mar, de início parecia que o tempo os

ajudava, com um vento favorável. Entretanto, desencadeou-se um vento

nordeste tão forte que acabaram ficando à deriva. No dia seguinte a

tempestade recrudesceu e foram obrigados a lançar parte da carga ao

mar. Por treze dias ficaram perdidos, e quando Paulo sentiu que se

desesperavam, levantou-se e disse a todos que o anjo do Senhor lhe

aparecera e dissera: “Não temas, Paulo. Comparecerás perante César e

Deus te fará a graça de salvar todos os que navegam contigo”.

Na noite seguinte os marinheiros começaram a pressentir a proximidade

de terra firme e começaram a lançar a sonda. Tendo achado o fundo,

alguns acharam que poderiam alcançar a costa usando o bote. Paulo

advertiu o centurião que a salvação de todos estava em que

permanecessem juntos, e este ordenou que cortassem o cabo do bote,

fazendo com que este caísse e se perdesse no mar.

Ao alvorecer o navio encalhou na enseada, mas começou a desmantelarse,

açoitado pela fúria dos vagalhões. Os marinheiros, temendo uma fuga

de presos, tentaram matá-los, no que foram impedidos pelo centurião.

Finalmente, todos os que estavam a bordo (em número de duzentos e

setenta e seis pessoas) conseguiram atingir a terra firme, alguns nadando,

outros sobre pranchas de madeira. Era a ilha de Malta.53

Foram bem recebidos pelos habitantes da ilha, que acenderam uma

fogueira para que se aquecessem. Paulo, que recolhia ramos para manter

o fogo, foi em determinado momento picado por uma víbora, que

pendurou-se de sua mão. Ao verem aquilo, todos começaram a falar

entre si: “Sem dúvida este homem é homicida, pois, tendo escapado do

mar, o justiça o persegue”. Paulo, entretanto, apenas sacudiu a mão, e

continuou imperturbável. Ao verem que nada lhe acontecia de mal, todos

se maravilharam, crendo que ele era um deus.

53 Ilha no Mar Mediterrâneo. Seus habitantes provinham de Cartago e eram súditos e

cidadãos romanos desde César. Falavam a língua púnica (fenícia), próxima ao hebraico. Era

governada por um princeps municipii, que na época era um tal Públio.

Paulo: O Último Apóstolo

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35

Ficaram hospedados na casa de Públio, a autoridade da ilha. O pai deste

estava doente e prostrado no leito; Paulo, orando e impondo-lhe as mãos,

curou-o. Imediatamente, todos começaram a trazer-lhe pessoas enfermas,

para que ele as curasse. Ficaram por três meses na ilha, ocasião

aproveitada por Paulo para fazer suas pregações e possivelmente para

criar uma comunidade cristã.54

No ano 61 (fevereiro) tomaram um barco alexandrino e foram até

Putéoli, passando por Siracusa e Régio. Lá, onde Paulo encontrou um

grupo de cristãos, permaneceram por sete dias, e sua ida para Roma foi

anunciada por carta por estes amigos. Esta carta ocasionou uma recepção

favorável pelos cristãos de Roma, que saíram-lhe ao encontro.

Em Roma Paulo ficou sob custódia,55 sendo-lhe permitido alugar uma

casa particular para morar. Após três dias, convocou os judeus da cidade

para contar-lhes sua história e afirmar que tinha apelado a César “não a

fim de acusar meu povo do que quer que seja, mas porque quis ver-vos e

falar-vos”.

Os judeus de Roma responderam a Paulo que nenhuma comunicação

tinham recebido contra ele. Queriam, no entanto, ouvi-lo e a seus

ensinamentos, e se reuniram em sua casa para isso. Alguns aceitaram a

doutrina, outros se opuseram a ela. Na verdade, criou-se tal desacordo e

dissensão entre eles, que valeram as palavras de Paulo, citando Isaías:

que eles ouviriam e não entenderiam, e olhariam mas não veriam”,

devido a estar-lhes embotado o coração.

Por dois anos permaneceu Paulo nesta casa alugada, onde tinha por

companhia a Lucas, Aristarco, Marcos, Timóteo e Tíquico, e onde

pregou e ensinou tudo que podia sobre o reino de Deus e sobre Jesus

Cristo.

Morte

Em 63, tendo sido absolvido pelo tribunal romano,56 Paulo pensou em

realizar um antigo projeto, ou seja, viajar à Espanha, onde esperava

54 Na atualidade, o nome de São Paulo é lembrado na ilha de Malta como “São Bulos”.

55 Custodia militaris.

56 É o que se presume, visto que Lucas não elucida o assunto.

Paulo: O Último Apóstolo

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organizar a evangelização da península ibérica. Embora vários

documentos e autores eclesiásticos a confirmem,57 nada se sabe com

certeza sobre esta viagem.

Possivelmente no ano 64 Paulo afastou-se de Roma devido à crescente

hostilidade contra os cristãos advinda após o incêndio na cidade, sob o

governo de Nero. Em 65 ele surge em Éfeso, onde deixa Timóteo como

responsável pela comunidade. Vai, em seguida, para a Macedônia; daí a

Creta, Nicópolis e Dalmácia. Foi talvez em Trôade, quando pensava em

embarcar de volta, que foi preso novamente pelos soldados romanos de

modo tão abrupto que (conforme afirma em 2 Tim 4,13) não pôde nem

levar seu capote ou os seus livros.

Daí foi levado para Éfeso e em seguida para Roma, para onde o

acompanhou Lucas. Isto aconteceu por volta de 66 a 67. Não se sabe a

razão de sua prisão, mas logo seu processo foi levado a cabo.

Finalmente, na primavera de 67, em um lugar denominado “Ad Aquas

Salvias”,58 na Via Ostiense, Paulo foi vitimado pela espada de seu

verdugo, que o decapitou. Mas tudo isto ele próprio previu, conforme

escreveu em 2 Tim 4,6-8: “Quanto a mim, estou a ponto de derramar-me

em libação, sendo já iminente o tempo da minha partida. Combati o bom

combate, terminei minha carreira, guardei a fé. Já me está preparada a

coroa da Justiça, que naquele dia me outorgará o Senhor, justo juiz, e

não só a mim, porém a todos os que amam a sua vinda”.

Seu corpo foi sepultado em uma propriedade particular, à beira da via

para Óstia.

57 Atanásio, Epifânio, Jerônimo, Clemente Romano, João Crisóstomo, Teodoreto, bem

como, entre outros, o códice Marciano de Veneza (que contém “Os Atos dos Apóstolos

Pedro e Paulo”) ou o fragmento “Muratori”.

58 Hoje conhecida como Tre Fontane, as Três Fontes.

Paulo: O Último Apóstolo

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Paulo: O Último Apóstolo

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QUADRO CRONOLÓGICO

Em razão da dificuldade em situar com segurança as datas reais dos

acontecimentos, colocamos entre parênteses as possíveis variações.

Ano Acontecimento

33/34 (36) Estevão sofre pena de lapidação. Conversão de Saulo.

34/37 Saulo na Arábia. Volta a Damasco.

36/37 (39) Viagem a Jerusalém. Atividade na Síria e na Cilícia.

43/44 (43) Paulo vai a Antióquia com Barnabé.

44 Coleta e viagem a Jerusalém.

44 (45) Primeira viagem apostólica, junto com Barnabé e Marcos.

45/49 Viagens por Chipre, Ásia Menor, Antióquia da Pisídia

49/50 Concílio dos Apóstolos, em Jerusalém

50 (51) Início da segunda viagem apostólica, com Silas.

50/53 Viagens pela Síria, Cilícia, Frígia, Macedônia, Acaia.

52 Em Corinto.

52/53 Perante Galião. Escreve as epístolas 1 e 2 Tess.

53 (54) Ida a Cesaréia, Jerusalém e Antióquia.

54 Terceira viagem apostólica, para a Galácia.

55/57 Permanência em Éfeso por três anos. Escreve Gal e 1 Cor.

57 Viagem à Macedônia e Acaia.

57/58 Em Corinto. Escreve Rom.

58 (57) Em Filipos, escreve 2 Cor.

58 Viagem de volta pela Macedônia, Trôade, Mileto, Tiro, Cesaréia, até

Jerusalém.

58/60 Prisão em Jerusalém e cativeiro na Cesaréia.

60/61 Transferência para Roma.

61/63 Primeiro cativeiro em Roma. Escreve Col, Ef, Fil, Filip.

63 Escreve Heb. É absolvido em Roma.

63/66 (63/65) Viagens pelo Oriente, Creta e Espanha. Escreve 1 Tim e Tito.

67 (65) Segundo cativeiro em Roma. Escreve 2 Tim. Execução.

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Paulo: O Último Apóstolo

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40

Em Busca

Do

Paulo

Apóstolo

Paulo: O Último Apóstolo

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Paulo: O Último Apóstolo

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IV – AS EPÍSTOLAS PAULINAS

O Problema da Interpretação

Atualmente, podemos dizer que Paulo é um dos mais conhecidos e um

dos mais estudados personagens bíblicos do Novo Testamento. Isto

demonstra cabalmente que sua influência ainda é imensa, nas crenças

dos seguidores das várias igrejas, seitas e ramificações do cristianismo.

A exegese moderna, na falta de documentos, tem se debruçado

continuamente sobre os textos originais gregos existentes, em uma busca

interminável da melhor tradução e da melhor interpretação das palavras.

Não existe uma tradução assentada e definitiva, e os vários especialistas

constantemente apresentam novas formas de entendimento. Palavras

comuns, sobre as quais a maioria das pessoas não teriam dúvidas a

respeito, soam diferentemente aos ouvidos dos expertos.59

A dificuldade em encontrar sentidos equivalentes para as expressões

existentes nas várias línguas origina-se da diversidade histórica e cultural

que separa os vários povos. Este caráter ambíguo da linguagem não

possui uma solução fácil, e os vários tradutores procuram basear-se em

traduções comentadas, que eles denominam “edições críticas”.

Às vezes, muito da intenção original do autor pode se perder se o

tradutor e o intérprete não tiverem conhecimento de nuanças idiomáticas.

Além disso, as crenças básicas destes podem igualmente servir de crivo

inconsciente capaz de filtrar trechos “equívocos” ou “não canônicos”. Na

verdade, alguns autores até insinuam que alguns textos evangélicos e

apostólicos poderiam ter sofrido uma espécie de “copidesque” nos

primeiros séculos, eliminando, interpolando ou extrapolando trechos aos

mesmos.

No caso de Paulo, daquilo que se tornou finalmente o texto apostólico

aceito, ou seja, as palavras recolhidas nos Atos dos Apóstolos e nas

Epístolas, mesmo nos tempos modernos, passados cerca de dois mil

59 A palavra “evangelho”, por exemplo, cujo conotação não é desconhecida por nenhum

cristão, na verdade constitui um termo técnico (Chaîre...nikômen), que significa: “Salve!

Vencemos!”.

Paulo: O Último Apóstolo

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anos, não perderam a atualidade. Hoje, mais do nunca, estes

ensinamentos permanecem um corpo de doutrina capaz de levar o

ensinamento cristão a todas as pessoas.

Do que sabemos, o apostolado de Paulo está exposto principalmente nos

livros canônicos dos Atos dos Apóstolos e nas epístolas que escreveu.

Deve-se principalmente a Lucas a redação do primeiro texto. Ele

acompanhou Paulo por quase todas as suas viagens, e o que não

presenciou diretamente provavelmente lhe foi narrado posteriormente,

pelo próprio Paulo ou por outro de seus companheiros.60

É uma verdade histórica e algo muito lamentável para os estudiosos, que

o cenário conturbado onde se desenrolaram as primeiras cenas da

história cristã não tenha contribuído para a manutenção dos vários

documentos que foram escritos.61 Restaram muito poucas cartas escritas

pelos apóstolos; quanto às cartas de Paulo (ou aquelas que a tradição

atribui a ele), apenas 14 sobreviveram à destruição ou extravio. Estas

cartas seriam, na ordem tradicional (não cronológica):

60 Isto é que teria provocado as freqüentes mudanças na narração, com intercalações na

primeira pessoa.

61 Evidentemente, não nos referimos aqui aos documentos ditos apócrifos e os

pseudoepígrafos, que se contam às centenas e que surgiram principalmente nos três

primeiros séculos. Somente de evangelhos podemos citar: o dos ebionitas; dos hebreus; de

Tomás o israelita; de Jaime o Menor; de Filipe; de Maria; de Maria Madalena; de

Nicodemos; de Marcião; da Natividade de Maria e da Infância do Salvador; da Infância; do

Povo; dos Doze Apóstolos; de Bartolomeu; de Barnabé; de Cerinto; de Pedro; de Basílides;

da Verdade; de Eva; da Perfeição; dos Egípcios; de Judas; etc. Alguns não passavam de

falsificações grotescas, cheios de histórias piedosas e ingênuas. No Concílio de Cartago, no

ano de 397, um dos critérios que a Igreja adotou para a seleção dos evangelhos do NT era

que ele deveria ter sido escrito pelos próprios apóstolos de Jesus. Lucas e Marcos, entretanto,

não foram apóstolos diretos, até onde se sabe. Eles eram colegas de Paulo. E no entanto

Tomás, que era um dos doze apóstolos originais, teve o seu evangelho excluído. Este

evangelho somente ressurgiu em 1945, quando alguns manuscritos foram desenterrados em

Nag Hammadi, no Egito. Muitos daqueles livros foram usados abertamente pelos cristãos

primitivos. Alguns deles foram até mesmo mencionados em escritos dos primeiros homens

da Igreja, tais como Clemente de Alexandria, Irineu de Lyon, Orígenes de Alexandria, entre

outros.

Paulo: O Último Apóstolo

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44

Uma epístola aos Romanos

Duas epístolas aos Corinthios

Uma epístola aos Gálatas

Uma epístola aos Efésios

Uma epístola aos Filipenses

Uma epístola aos Colossenses

Duas epístolas aos Tessalonicenses

Duas epístolas a Timóteo

Uma epístola a Tito

Uma epístola a Filemon

Uma epístola aos Hebreus

Não sabemos quantas cartas Paulo realmente escreveu; mesmo entre

estas 14 epístolas os exegetas não estão concordes quanto à autoria

paulina. Quanto àquelas sobre as quais não pairam dúvidas a respeito de

sua autoria direta, elas apresentam um estilo apologético, com uma

forma epistolar rígida: sobrescrito (praescriptum),62 algumas com

acréscimos doutrinários; e saudação de próprio punho, que autenticava a

carta. Esta geralmente era ditada a um escritor profissional; por exemplo,

na Epístola aos Romanos, este escritor se identifica nas saudações finais:

Saúdo-vos eu Tércio, que escrevo esta epístola, no Senhor”.

Em sua maioria, as cartas eram dirigidas às comunidades cristãs recémformadas

(a dirigida a Filemon parece ter um aspecto privado). A língua

utilizada nas mesmas era a grega; não o grego clássico, mas aquele

falado pelas populações que habitavam a costa do Mediterrâneo. Em

algumas cartas há várias mudanças de gênero literário, inclusive

interrupções bruscas.

Sobre as Cartas aos Corinthios

As denominadas epístolas “aos corinthios” foram escritas entre o final do

ano 55 e o final do ano 56, sendo possível que Paulo tenha escrito

realmente três epístolas, no total. Em 1 Cor 5,9 encontramos a seguinte

passagem: “Já por carta vos escrevi que não vos comunicásseis com os

62 Cabeçalho; com remetente, destinatário e saudação inicial.

Paulo: O Último Apóstolo

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45

que se prostituem”. Esta carta, atualmente perdida, foi com certeza a

primeira que escreveu a esta congregação. Devido às péssimas notícias

que recebeu, enviou Timóteo para lá.

Quando escrevia a segunda carta, que é a “Primeira” oficial, recebe uma

comissão de Corinto, que também não trazia boas notícias. Depois que

Timóteo retorna de Corinto, Paulo escreve uma carta severa para eles,

que também não se conservou, e que seria a terceira em ordem

cronológica.63

A primeira epístola foi escrita quando Paulo completava três anos de

contínua pregação em Éfeso. Devido à continua perseguição exercida

contra ele por parte dos judeus e pagãos, pesavam sobre Paulo as

preocupações advindas de seu cuidado pelas outras comunidades e

igrejas. Em Corinto, lugar pagão por excelência, Paulo lutou com denodo

contra o estilo de vida devassa que lá se considerava “normal”.

As Cartas Duvidosas

É sabido que algumas cartas não têm aceitação unânime entre os

exegetas;64 as cartas “pastorais”, aquelas dirigidas a Timóteo e a Tito,

são um exemplo disso. González Ruiz, em sua obra “O Evangelho de

Paulo”, diz o seguinte sobre elas:

“Certamente, o estilo das Pastorais é o de uma exortação um

tanto monótona. Comparadas às demais carta de Paulo, contêm

mais fórmulas abstratas e menos imagens e metáforas; as

conjunções são raras.

(...)

“A situação histórica envolvida nestas ‘Cartas’ não coincide

em nada com a que se pode deduzir das outras ‘Cartas’ de

Paulo e dos ‘Atos dos Apóstolos’, mesmo quando é preciso

63 Porque em muita tribulação e angústia de coração vos escrevi, com muitas lágrimas, não

para que vos entristecêsseis, mas para que conhecêsseis o amor que abundantemente vos

tenho (2 Cor 2,4).

64 A última epístola (Hebreus), em especial, sofre forte rejeição em virtude de seu estilo

hermético, ainda que messiânico. Orígenes, por exemplo, reconhece que a carta não foi

escrita por Paulo, mas que as idéias seriam dele. Portanto, teriam sido escritas por alguém

próximo a ele, parafraseando a doutrina.

Paulo: O Último Apóstolo

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reconhecer que existem certos paralelos” (José María

González Ruiz. O Evangelho de Paulo, pág. 177).

Afim de dar uma solução à questão, este autor adota uma “hipótese de

trabalho”: para ele, tais cartas teriam sido escritas em época bastante

posterior, por Tito ou Timóteo, ou algum discípulo deles, a partir de suas

lembranças pessoais, tanto de palavras quanto de textos escritos por

Paulo.

Sobre Outras Cartas

Normalmente, costuma-se crer que as cartas de Paulo dirigidas a

Colossos, Éfeso e a Filêmon tenham sido escritas na época em que ele

esteve preso em Roma.

Entretanto, afirma a este respeito González Ruiz:

“Contudo, ao ler as duas cartas dirigidas a Colossos e a Éfeso,

chamam a atenção suas características literárias e teológicas.

Assim, o vocabulário de Cl apresenta 86 termos que não se

encontram nas Cartas certamente paulinas; e o sentido de

outras palavras evoluiu e mudou. Não obstante, o fundo

doutrinal é profundamente paulino e, por isto, é preciso

atribuir sua autoria a uma escola paulina firmemente

assentada.

“Assim, portanto, quanto a Cl e Ef, encontramo-nos diante de

um caso – então freqüente – de pseudo-epigrafia, isto é, de

produção de obras literárias sob o nome de uma personalidade

famosa, na maioria dos casos já morta. Este modo de agir não

se considerava como uma falsificação ou um engano; tratavase,

pelo contrário, de um procedimento completamente

normal, segundo o qual alunos e seguidores queriam resolver

os problemas de seu tempo no espírito e com autoridade do

grande ‘mestre dos povos’ (1Tm 2,7) (José María Gonzalez

Ruiz, O Evangelho de Paulo, pág. 143).

Paulo: O Último Apóstolo

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47

Diferenças de Interpretação

A diversidade de estilo nas cartas paulinas tem sempre confundido os

exegetas. A preocupação com a autoria de um texto, que é uma

referência cultural moderna, não existia naquela época; além disso, já

sabemos que as cartas nem eram escritas de próprio punho. Admite-se,

então, que alguns escritos sejam resumos conservados a partir de ensinos

orais ou mesmo de outros escritos anteriores, da autoria direta de Paulo,

mas que conservam a essência do seu pensamento. É possível concluir, a

partir dessa interpretação, que estas cartas tenham sido escritas por

discípulos de Paulo por volta do ano 80.

Mas há outra interpretação: a epístola aos colossenses teria sido escrita

depois que Epafras visitou Paulo no cativeiro em Roma e relatou-lhe as

dificuldades por que passava esta comunidade, onde vicejavam doutrinas

estranhas num confuso sincretismo que mesclava princípios filosóficos

helenistas, gnosticismo e idéias judaicas. Paulo então escreveu sua

epístola, na qual se propôs a expor com exatidão a doutrina de Cristo.

Querelas Doutrinárias

Já na época de Paulo, ele enfrentava continuamente a distorção e os

desvios doutrinários derivados de outras filosofias e crenças religiosas.

Aliás, ele não se cansava de alertar contra estes falsos doutrinadores:

Rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e

escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos

deles (Rom 16,17).

Em Colossos, por exemplo, houve uma tentativa de acomodar o

judaísmo, o helenismo e a fé cristã, em um confuso sincretismo que

Paulo logo condenou.

Paulo: O Último Apóstolo

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48

De acordo com González Ruiz,

“O fundo destes erros se juntava claramente a uma influência

das ‘religiões mistéricas’, tão em voga no mundo helenístico

da época. Tratava-se de obter a ‘salvação’ a todo custo,

chegando à plenitude da elevação humana.

“Para os contrários a Paulo, havia um argumento francamente

impressionante. Jesus não podia ter-se livrado a si mesmo do

poder de certas ‘forças cósmicas’, sucumbindo ao destino

fatalmente marcado por elas; e, igualmente, era incapaz de

livrar seus mensageiros. As perseguições de Paulo – e

especialmente sua longa prisão palestinense e romana –

constituíam uma boa prova de que não tinha poder para

superar a hostilidade dos ‘senhores’ das esferas celestes.

“Os ‘hereges’ de Colossos não pretendiam afastar ou substituir

Jesus e Paulo, mas superá-los: queriam ir além. O Cristianismo

seria bom para o grau elementar da iniciação religiosa, mas

nada além disso. A salvação total, para além da morte, só

podem oferecê-la certos seres celestiais, não implicados

pessoalmente na tragédia humana”. (José María González

Ruiz. O Evangelho de Paulo, pág. 144).

Contra este entendimento, Paulo assim se manifestou:

Vivei, pois, em Cristo Jesus, o Senhor, assim como o

recebestes, arraigados e fundados n’Ele, apoiados sobre a fé

segundo a doutrina que aprendestes, transbordando em ação

de graças. Cuidai de que ninguém vos leve novamente à

escravidão com filosofias falazes e vãs, fundadas em tradições

humanas, nos elementos do mundo e não em Cristo (Col 2,6-

8).

Em épocas posteriores, novos desentendimentos sobrevieram com

respeito a outras passagens do texto paulino. Algumas acabaram

Paulo: O Último Apóstolo

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49

provocando verdadeiras querelas e dissensões religiosas;65 quando não se

tornaram o pivô de lutas ideológicas, algumas das quais se arrastam até a

atualidade.

Por exemplo, em Romanos e Gálatas, pairam dúvidas sobre se o homem

se justifica pelas obras da lei, ou pela fé.66

Em Gálatas, encontramos:

Sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras

da lei, mas sim, pela fé em Cristo Jesus, temos também crido

em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e

não por obras da lei; pois por obras da lei nenhuma carne

será justificada. Mas se, procurando ser justificados em

Cristo, fomos nós mesmos também achados pecadores, é

porventura Cristo ministro do pecado? De modo nenhum. (Gal

2,16-17).

Ó insensatos gálatas! quem vos fascinou a vós, ante cujos

olhos foi representado Jesus Cristo como crucificado? Só isto

quero saber de vós: Foi por obras da lei que recebestes o

Espírito, ou pelo ouvir com fé? Sois vós tão insensatos? tendo

começado pelo Espírito, é pela carne que agora acabareis?

65 E no entanto, Cristo previu estas querelas doutrinárias quando assim se manifestou: Não penseis

que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas a espada. Porque eu vim pôr em dissensão o

homem contra seu pai, a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e assim os inimigos do

homem serão os da sua própria casa (Mt 10, 34-36).

66 O chamado problema da “justificação pela fé” teve início quando Martinho Lutero se insurgiu

contra a Igreja Católica porque esta vendia “indulgências” aos ricos e poderosos. O significado da

indulgência era o de que a pessoa, por maiores que fossem os seus pecados, ainda sim iria para o

Paraíso, por ter comprado antecipadamente o perdão. Para Lutero, o fiel se salvava apenas pela sua

fé, e as “boas obras”, neste caso, seriam apenas uma contrafação. As indulgências, entretanto, não

eram uma novidade, tendo surgido no século anterior (XV) ao de Lutero. Em sua época, qualquer

um que fizesse doações generosas à Igreja para a construção da Basílica de S. Pedro e S. Paulo

estavam automaticamente salvos; mas o pior é que o dinheiro arrecadado servia mais para

enriquecer os intermediários. Além disso, o papado nesta época era uma fonte constante de

mortificação para os cristãos: cismas, disputas e comportamentos imorais já incomodavam muitos

clérigos mais piedosos. Este misto de escândalo secular e mundano acabou por provocar a revolta

de Lutero, o qual acabou sendo a voz pela qual eles expressaram sua indignação. Em 1517

apresentou 95 teses contra esta prática, as quais abriram um debate teológico que se espalhou por

toda a Alemanha; cerca de três anos depois, ocorreu o rompimento.

Paulo: O Último Apóstolo

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50

Será que padecestes tantas coisas em vão? Se é que isso foi em

vão. Aquele pois que vos dá o Espírito, e que opera milagres

entre vós, acaso o faz pelas obras da lei, ou pelo ouvir com fé?

Assim como Abraão creu a Deus, e isso lhe foi imputado como

justiça. Sabei, pois, que os que são da fé, esses são filhos de

Abraão. Ora, a Escritura, prevendo que Deus havia de

justificar pela fé os gentios, anunciou previamente a boa nova

a Abraão, dizendo: Em ti serão abençoadas todas as nações.

Gal 3,1-8

E em Romanos:

Porquanto pelas obras da lei nenhum homem será justificado

diante dele; pois o que vem pela lei é o pleno conhecimento do

pecado (Rom 3,20).

Que diremos pois? Que os gentios, que não buscavam a

justiça, alcançaram a justiça, mas a justiça que vem da fé.

Mas Israel, buscando a lei da justiça, não atingiu esta lei. Por

que? Porque não a buscavam pela fé, mas como que pelas

obras; e tropeçaram na pedra de tropeço (Rom 9,30-32).

De acordo com o E.B.D., o termo “justificação” (justification) significa:

“A forensic term, opposed to condemnation. As regards its

nature, it is the judicial act of God, by which he pardons all the

sins of those who believe in Christ, and accounts, accepts, and

treats them as righteous in the eye of the law, i.e., as

conformed to all its demands. In addition to the pardon (q.v.)

of sin, justification declares that all the claims of the law are

satisfied in respect of the justified. It is the act of a judge and

not of a sovereign. The law is not relaxed or set aside, but is

declared to be fulfilled in the strictest sense; and so the person

justified is declared to be entitled to all the advantages and

rewards arising from perfect obedience to the law (Rom. 5:1-

10).

Paulo: O Último Apóstolo

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51

It proceeds on the imputing or crediting to the believer by God

himself of the perfect righteousness, active and passive, of his

Representative and Surety, Jesus Christ (Rom. 10:3-9).

Justification is not the forgiveness of a man without

righteousness, but a declaration that he possesses a

righteousness which perfectly and for ever satisfies the law,

namely, Christ's righteousness (2 Cor. 5:21; Rom. 4:6-8).

The sole condition on which this righteousness is imputed or

credited to the believer is faith in or on the Lord Jesus Christ.

Faith is called a "condition," not because it possesses any

merit, but only because it is the instrument, the only

instrument by which the soul appropriates or apprehends

Christ and his righteousness (Rom. 1:17; 3:25, 26; 4:20, 22;

Phil. 3:8-11; Gal. 2:16).

The act of faith which thus secures our justification secures

also at the same time our sanctification (q.v.); and thus the

doctrine of justification by faith does not lead to licentiousness

(Rom. 6:2-7). Good works, while not the ground, are the

certain consequence of justification (6:14; 7:6).”67

67 “Um termo forense, oposto a condenação. Em relação a sua natureza, é um ato judicial de

Deus, através do qual Ele perdoa todos os pecados daqueles que crêem em Cristo, e avalia,

reconhece e trata-os como virtuosos aos olhos da lei, ou seja, de conformidade com todas as

suas exigências. Em adição ao perdão (q.v.) do pecado, a justificação declara que todas as

exigências da lei estão satisfeitas com relação ao justificado. É o ato de um juiz, e não de um

soberano. A lei não é mitigada nem deixada de lado, mas é declarada estar cumprida no mais

estrito sentido; e então a pessoa justificada é declarada estar autorizada a ter todas as

vantagens e regalias que surgem da perfeita obediência à lei (Rom. 5:1-10).

Prossegue pela imputação ou crédito ao crente, por Deus mesmo, da perfeita virtuosidade,

ativa e passiva, de seu Representante e Fiador, Jesus Cristo (Rom. 10:3-9). A justificação

não é a absolvição de um homem não virtuoso, mas a declaração de que ele possui a

virtuosidade que, perfeitamente e para sempre satisfaz a lei, a saber, a virtuosidade de Cristo

((2 Cor. 5:21; Rom. 4:6-8). A única condição pela qual esta virtuosidade é imputada ou

creditada ao crente é a fé em ou no Senhor Jesus Cristo. Fé é denominada ‘condição’, não

porque possua qualquer mérito, mas somente porque é o instrumento, o único instrumento

pelo qual a alma se apropria ou apreende Cristo e sua virtuosidade (Rom. 1:17; 3:25; 26;

4:20, 22; Phil. 3:8-11; Gal. 2:16).

O ato de fé que assegura nossa justificação assegura também, ao mesmo tempo, nossa

santificação (q.v.); e então a doutrina da justificação pela fé não conduz à licenciosidade

(Rom. 6:2-7). Boas obras, embora não sejam a causa, são a conseqüência infalível da

justificação (6:14; 7:6).

Paulo: O Último Apóstolo

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52

Desta definição, podemos concluir que “justificação” é um termo

jurídico que tem o aspecto legal de uma declaração que “satisfaz a lei” (a

Lei Divina, no caso). É uma “recompensa por seguir a lei”, que tem uma

única condição: a fé.

Entretanto, podemos ver que existe uma conseqüência inelutável: as boas

obras são a conseqüência da fé (“embora não sejam a causa, são a

conseqüência infalível da fé”). Então, “fé” é o pressuposto básico sem o

qual não advirão “boas obras”. Ou, dizendo de outra maneira: a fé

conduz às boas obras:

E consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao

amor e às boas obras (Heb 10,24).

Pois também Pedro assim diz:

Tendo o vosso procedimento correto entre os gentios, para

que naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores,

observando as vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia

da visitação (1 Pedro 2,12)

Paulo: O Último Apóstolo

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V – A DOUTRINA DE PAULO

A Pregação de Paulo

Devido ao pequeno número de cartas que conhecemos, é duvidoso

concluir que elas fossem o meio utilizado para a catequização; o mais

provável é que esta seria feita através de pregação oral direta.68 Quando

Paulo formava uma comunidade, ao partir ele deixava presbíteros

incumbidos de cuidar de manter a fé entre os convertidos, bem como de

prosseguir a catequese. Estes prosseguiriam segundo o caminho

delineado por Paulo, e somente quando ocorriam desvios, erros ou

intromissões, se socorriam de Paulo, que lhes escrevia para corrigir

problemas e elucidar questões duvidosas.69 O mesmo acontecia nas

comunidades criadas por discípulos seus.

As epístolas serviriam, então, somente como forma de corrigir erros,

fazer orientação doutrinária e exortações, orientar sobre a formação da

comunidade e estabelecer normas e disposições gerais para a vida em

comum. O seu conteúdo, então, pode ser dividido basicamente em parte

doutrinária, e parte moral; mas definitivamente, não catequética, com

exclusividade.

A pregação, não devemos esquecer, era a primeira etapa do processo de

conversão. Se o indivíduo aceitasse a doutrina, para que fosse aceito na

comunidade cristã ele deveria ser batizado. A cerimônia do batismo

provavelmente seria cumprida em uma etapa posterior. Em sua maioria,

os primeiros conversos eram pessoas humildes, trabalhadores manuais (o

próprio Paulo, como vimos, tinha por mister a confecção de tendas).

Os primeiros cristãos70 espalharam-se pela Grécia, tendo alguns seguido

para Roma onde se juntaram aos judeus que lá viviam. De início,

68 Não se deve esquecer que as longas distâncias e a precariedade das viagens tornavam

inviáveis trocas extensas de correspondência, ainda que levadas por mensageiros. Sob

Augusto, organizou-se um complexo sistema de traslado de correspondência oficial, o qual

utilizava vias marítimas e/ou terrestres. De Roma a Alexandria os mensageiros levavam 63

dias; de Roma a Cesaréia, 54 dias; de Roma à Síria, até cem dias.

69 Por exemplo, quando escreve aos colossenses ou aos efésios, sua intenção é dirimir

dúvidas, esclarecer a doutrina e alertar contra o que ele chamava de “falsos profetas”.

70 O nome de “cristãos” só veio a ser adotado a partir de cerca do ano 60, em Antióquia;

antes, só se tratavam por irmãos, santos, fiéis, nazarenos ou galileus.

Paulo: O Último Apóstolo

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praticaram a circuncisão e compartilharam as práticas judaicas da

sinagoga. Paulo, que no começo ainda pretendia circuncisar seus

seguidores, logo abandonou tal prática e esta decisão contribuiu para

separar os seguidores do nascente cristianismo, da religião judaica.

Os discípulos originais de Jesus, por sua vez, hesitavam em separar a sua

prática religiosa da prática religiosa judaica. Nestes primeiros tempos

ainda não havia uma completa separação entre os ritos cristão e judaicos,

e isto deu margem a diversos acontecimentos dúbios, tais como o de

Paulo,71 bem como os dos discípulos Pedro, Jaime e João, por sua vez

censurados por Paulo, em Antióquia, por seus “atos condenáveis.72

A Fé Segundo Paulo

A Epístola aos Romanos, muito embora não tenha sido a primeira a ser

escrita por Paulo, foi colocada em primeiro lugar no texto bíblico devido

ao seu aspecto teológico clássico. O conteúdo doutrinário básico da

pregação de Paulo, os contornos e limites de sua “teologia” estão

praticamente definidos nesta epístola.

No início, Paulo faz sua profissão de fé e revela sua crença no evangelho

como verdade revelada:

Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de

Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do

judeu, e também do grego. Porque no evangelho é revelada,

de fé em fé, a justiça de Deus, como está escrito: Mas o justo

viverá da fé. Pois do céu é revelada a ira de Deus contra toda

a impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade em

injustiça (Rom 1,16-18).

71 Quando Paulo introduziu estrangeiros no Templo, ele foi acusado pelos judeus de tentar

destruir a lei mosaica. Para defender-se, ele foi obrigado a “judaizar”, ou seja, a seguir os

ritos judaicos. Tais atos não o livraram da acusação de impiedade, e seu processo criminal

foi levado adiante.

72 Pedro, que comia à mesa com gentios, não guardava os preceitos judaicos; quando

chegam alguns judeus cristãos, ele muda de comportamento e evita as carnes proibidas.

Paulo: O Último Apóstolo

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Em continuação, ele adverte contra a falsa sabedoria e contra os falsos

sábios,73 que sequer conseguem perceber que por trás dos fenômenos e

maravilhas do mundo se oculta a glória de Deus:74

Porquanto, o que de Deus se pode conhecer, neles se

manifesta, porque Deus lho manifestou. Pois os seus atributos

invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente

vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante

as coisas criadas, de modo que eles são inescusáveis;

porquanto, tendo conhecido a Deus, contudo não o

glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes nas

suas especulações se desvaneceram, e o seu coração insensato

se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se estultos, e

mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da

imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e

de répteis (Rom, 1,19-23).

Paulo se torna rigoroso quando admoesta aqueles que violam a virtude

cristã. Ele não permite tergiversação nem dá margem a interpretações

dúbias; sua mensagem é clara e direta:

Por isso Deus os entregou, nas concupiscências de seus

corações, à imundícia, para serem os seus corpos desonrados

entre si; pois trocaram a verdade de Deus pela mentira, e

adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador, que é

73 Já em sua época, Paulo se queixava do excesso de prepotência dos “sábios” e doutores da

lei, que também foram confrontados por Jesus. Em nossa época, quando todos acham que

podem dar opinião sobre tudo e todas as coisas, não são apenas os pretensos sábios que se

excedem. O excesso de liberalismo pretende autenticar e expor como se fossem “normais”,

tipos de comportamentos que vão contra tudo o que TODAS as religiões condenam. Hoje se

esquece facilmente que, quando Jesus aceitou entre seus seguidores, pecadores, prostitutas e

assassinos, só o fez com uma condição: “Não pequem de novo”. Isto os tornava, claramente,

conversos que eram: ex-pecadores; ex-prostitutas; ex-assassinos. Convertidos, arrependiamse

de seus pecados e procuravam viver uma nova vida, dedicados, como Paulo bem exprime,

“às primícias do espírito”.

74 Conforme também 1 Cor 1,20-21: Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o

questionador deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?

Visto como na sabedoria de Deus o mundo pela sua sabedoria não conheceu a Deus,

aprouve a Deus salvar pela loucura da pregação os que crêem.

Paulo: O Último Apóstolo

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56

bendito eternamente. Amém. Pelo que Deus os entregou a

paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso

natural no que é contrário à natureza; semelhantemente,

também os varões, deixando o uso natural da mulher, se

inflamaram em sua sensualidade uns para como os outros,

varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si

mesmos a devida recompensa do seu erro. E assim como eles

rejeitaram o conhecimento de Deus, Deus, por sua vez, os

entregou a um sentimento depravado, para fazerem coisas que

não convêm; estando cheios de toda a injustiça, malícia,

cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, dolo,

malignidade; sendo murmuradores, detratores, aborrecedores

de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de

males, desobedientes ao pais; néscios, infiéis nos contratos,

sem afeição natural, sem misericórdia; os quais, conhecendo

bem o decreto de Deus, que declara dignos de morte os que

tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também

aprovam os que as praticam (Rom 1, 24-32).

Paulo, como seguidor de Cristo, não poderia desconhecer as exigências

da conversão, e ele chama constantemente a atenção para elas. Para ele,

o converso, ou seja, aquela pessoa que aceita a doutrina de Cristo, não

deve transigir, nem “servir a dois senhores”.

Como primeiro passo, ele entende que devemos reconhecer que o pecado

habita em nós e força nosso comportamento. Somente a partir desse

entendimento podemos aceitar que a prática dos preceitos cristãos

(imitação de Cristo) pode dar-nos a força necessária para superarmos

nossas ignomínias. Entretanto, reconhece a dificuldade do

empreendimento e sabe que não é fácil mudar a si mesmo:

Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal,

vendido sob o pecado. Pois o que faço, não o entendo; porque

o que quero, isso não pratico; mas o que aborreço, isso faço.

E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa.

Agora, porém, não sou mais eu que faço isto, mas o pecado

que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na

minha carne, não habita bem algum; com efeito o querer o

bem está em mim, mas o efetuá-lo não está. Pois não faço o

Paulo: O Último Apóstolo

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bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. Ora,

se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado

que habita em mim (Rom 7, 14-20).

Conforme diz Stott,

“Este conflito constitui uma batalha real, cruel e sustentada na

experiência de todo cristão; sua mente se deleita na lei de

Deus, desejoso de cumpri-la, porém sua carne se opõe

obstinadamente a ela e se nega a toda possibilidade de

submissão” (John R. W. Stott, A Mensagem de Romanos 5-8,

pág. 70).

E ainda:

“Cada vez que tomamos consciência dos desejos e da

depravação de nossa natureza caída, e do conflito

irreconciliável entre nossa mente e nossa carne, desejamos

estar livres do pecado e da corrupção que habita em nós e

exclamamos: ‘Infeliz de mim’ ” (John R. W. Stott, A

Mensagem de Romanos 5-8, pág. 71).

Paulo claramente compreendeu que a luta pela redenção divina se

tornava inseparável da luta interior pela perfeição:

Não reine, pois, o pecado em vosso corpo mortal, obedecendo

vós às concupiscências; nem dei vossos membros ao pecado,

como armas de iniqüidade, mas antes oferecei-vos a Deus,

como mortos que tornaram à vida, e daí vossos membros a

Deus como armas de justiça (Rom 6 12-13).

Pois que o homem redimido alcança a vida eterna, mas o pecador só

consegue a morte:75

75 Não é a morte física, mas a morte espiritual. Como diz González Ruiz: “A ‘morte’

tampouco se refere unicamente ao puro desenlace biológico do homem, mas é considerada,

existencialmente, num contexto marcado pelo ‘mistério’ ou desígnio divino sobre a

existência humana” (José María González Ruiz, O Evangelho de Paulo, pág. 112).

Paulo: O Último Apóstolo

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Pois o estipêndio do pecado é a morte; mas o Dom de Deus é

a vida eterna em Cristo Jesus Nosso Senhor (Rom 6,23).

Nesta epístola, como podemos ver, Paulo não se cansa de exortar os fiéis

a quem vivam segundo o espírito, e não segundo a carne:

Porque se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas,

se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis

(Rom 8,13).

Aqui também encontramos a famosa exclamação de fé plena em Deus:

Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem

será contra nós?(Rom 8,31).

Com todas estas contínuas exortações, Paulo pretende mostrar que o

único caminho que deve ser trilhado pelo batizado no espírito passa ao

largo dos apelos e tentações do mundo; ele dá o exemplo de si próprio,

mostrando que este caminho é espinhoso e talvez difícil de ser realizado

(“Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e

estes se opõem um ao outro, para que não façais o que quereis”),76 mas

não impossível (“se pelo espírito mortificardes as obras do corpo,

vivereis”), até porque a carga é dada segundo cada um possa carregá-la.77

Mas esta obra de salvação, se tem uma índole pessoal através do esforço

do fiel,78 por outro lado está, já de início, plenamente garantida pela fé:

Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra,

viverá” (João 11,25).

76 Conforme Gal 5,17.

77 Conforme 1 Cor 10, 13: Não vos sobreveio nenhuma tentação, senão humana; mas fiel é

Deus, o qual não deixará que sejais tentados acima do que podeis resistir, antes com a

tentação dará também o meio de saída, para que a possais suportar.

78 Assim também em Tiago 2,26: Porque, assim como o corpo sem o espírito está

morto, assim também a fé sem obras é morta.

Paulo: O Último Apóstolo

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Condenação dos Erros

Paulo não teve que lutar apenas contra os erros dos não-conversos;

dentro das próprias comunidades cristãs interesses pessoais levaram a

deturpações da doutrina e a desvios da moral. Quando alguns membros

da comunidade insistiram em levar uma vida dupla, como se fosse

possível conciliar vício e virtude, Paulo não titubeou em ordenar que se

cortassem as relações com estes “provocadores de escândalo público”.79

Paulo repreende severamente aqueles que intentam criar uma pretensa

separação entre corpo e espírito, querendo fazendo crer que

conspurcações deste tipo eram aceitáveis porque o espírito “não se

deixava conspurcar pela matéria”.80

Pregação Conforme o Entendimento

Quando escreve aos corinthios, Paulo não pretende convencer pelo

método dialético ou lógico-racional; ao contrário, ele busca um

entendimento com raízes no coração, talvez porque tenha compreendido

que suas palavras seriam vãs, se usasse uma linguagem e argumentos

excessivamente espirituais:81

E eu, irmãos, não pude falar-vos como a espirituais, mas como

a carnais, como a crianças em Cristo. Dei-vos a beber leite,

não vos dei comida sólida, porque não podíeis. E nem mesmo

agora podeis. Porque ainda sois carnais. Se, pois, entre vós há

79 Já por carta vos escrevi que não vos comunicásseis com os que se prostituem; com isso

não me referia à comunicação em geral com os devassos deste mundo, ou com os avarentos,

ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do

mundo (1 Cor 5,9-10).

80 Paulo quer mostrar que os erros humanos cometidos são sempre os mesmos, pois

possuem a mesma origem. Ele prega o perdão e a conversão e sempre espera que as pessoas

sejam capazes de reconhecer os seus erros. Se não o fazem, ele exorta aos conversos que se

apartem desses pecadores. E se assim age, não o faz por orgulho ou jactância, mas para

aqueles não se contaminem com o erro desses desviados do Caminho.

81 Conforme também: Ora, qualquer que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da

justiça, pois é criança; mas o alimento sólido é para os adultos, os quais têm, pela prática,

as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal (Heb 5,14).

Paulo: O Último Apóstolo

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60

invejas e discórdias, não prova isso que sois carnais e viveis

uma vida puramente humana?(1 Cor 3,1-3).

Através de Paulo o próprio Espírito se manifesta, em sua linguagem, que

são palavras contundentes dirigidas não à mente, mas ao coração.

Quando Paulo se refere à sabedoria, ele esclarece que é um “mistério” de

Deus, que nada tem a ver com a “sabedoria” do mundo:

A minha linguagem e a minha pregação não consistiram em

palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do

Espírito de poder; para que a vossa fé não se apoiasse na

sabedoria dos homens, mas no poder de Deus. Na verdade,

entre os perfeitos falamos sabedoria, não porém a sabedoria

deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que estão sendo

reduzidos a nada; mas falamos a sabedoria de Deus em

mistério, que esteve oculta, a qual Deus preordenou antes dos

séculos para nossa glória (1 Cor 2,4-7).

E estas palavras possuem um sentido universal e ecumênico, pois que se

dirigem a todas as pessoas:

Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há

homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus

(Gal 3,28).

Ou:

Onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão,

bárbaro, cita, escravo ou livre, mas Cristo é tudo em todos

(Col 3,11).

Desde o início de sua pregação Paulo começou a dar mais importância

ao batismo e à doutrina segundo o espírito cristão, separando-se

progressivamente de costumes tradicionais arraigados e estranhos aos

gentios. Assim como Jesus fazia, ele afastou-se de uma prática religiosa

Paulo: O Último Apóstolo

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61

extremamente ritualizada, com estranhas proibições que no seu entender,

já não mais se adequava aos novos tempos.82

Sobre várias prescrições, inclusive alimentares, ele assim se manifesta:

Comei de tudo quanto se vende no mercado, nada

perguntando por causa da consciência (1 Cor 10,25).

Ninguém, pois, vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por

causa de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados (Col

2,16).

Como antigo fariseu, Paulo sabia que o excessivo apego à letra da lei

aprisionava o espírito, ao invés de libertá-lo. Sendo assim, ele tem o

cuidado de alertar para que os fiéis não se apegassem em demasia à letra,

assim impedindo a manifestação do Espírito:

O qual também nos capacitou para sermos ministros dum

novo pacto, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata,

mas o espírito vivifica (2 Cor, 3,6).

Paulo, Apóstolo da Modernidade?

Nossa época moderna, sob determinado ponto de vista, constitui um

verdadeiro paradoxo. Por um lado, pode-se dizer que a o objetivo maior

de Paulo foi atingido em uma proporção que talvez o deixasse

verdadeiramente espantado. A pregação cristã atingiu os mais

longínquos rincões do mundo, transformando o cristianismo em uma das

maiores religiões do mundo.83

82 Em seu dia-a-dia, o judeu que seguia os preceitos da Lei tinha praticamente cada um de

seus atos regrados por 613 prescrições, que ele tinha que cumprir à risca. Em matéria

religiosa, o tratado do Sabbat tinha 24 capítulos e 139 disposições ou normas cujo rigor era

igualmente asfixiante.

83 As maiores religiões do mundo são (não estão em ordem numérica e nem por ordem de

importância): Brahmanismo, Budismo, Confucionismo, Xintoísmo, Lamaísmo, Islamismo,

Judaísmo e Cristianismo. Nenhuma grande religião permaneceu íntegra, pois que ao longo

dos anos sempre surgiram interpretações sobre doutrina e dogmas que acabavam provocando

dissidências. No Islamismo, por exemplo, temos os xiitas; os ismaelitas; os drusos; os

Paulo: O Último Apóstolo

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Por outro lado, não é possível dizer que a pregação cristã tenha

alcançado todos os objetivos a que se propunham os discípulos e

apóstolos. Não escapa a ninguém que, curiosamente, enquanto sobram

religiões, o homem carece da presença do espírito.

Nossa época é muito religiosa, mas muito pouco espiritual. Conflitos em

nome da religião apagam todo verniz de civilização e trazem à tona o

instinto bélico de destruição e o furor assassino entre os litigantes.

Assim também as infindáveis polêmicas religiosas. Ainda que o

ecumenismo tenha crescido, ainda assim o zelo religioso o acompanhou,

e com ele o desprezo e o ódio pela crença alheia.

O fundamentalismo, que se encontra em todas as grandes religiões, pode

ser interpretado de duas formas: de um lado, como um excesso de zelo

religioso, que pode chegar às raias da violência em sua defesa da crença;

por outro, como uma resposta visceral ao ateísmo e a descrença,

“doenças” da civilização.

Em todo este contexto, a mensagem de Paulo também pode ser

considerada sob dois ângulos diversos. Como uma mensagem superada,

tanto porque o mundo já está quase cristianizado, quanto pelo fato de

que suas palavras já não são adequadas ao mundo moderno, com suas

sofisticadas conquistas tecnológicas e sua ciência capaz de tudo explicar.

Após dois mil anos, as mudanças materiais foram dramáticas. O mundo

atual é extremamente diferente daquele mundo restrito e limitado que se

localizava na Palestina. A “grandeza” de Roma empalidece em

comparação às modernas potências, e os feitos tecnológicos da

atualidade fariam parecer aos contemporâneos de Paulo que nós “somos”

deuses.

No entanto, quando analisadas objetivamente, sem apelos dogmáticos ou

sem a imposição de qualquer tipo de autoridade, a mensagem paulina se

torna verdadeiramente a-histórica.

sufistas; no grande tronco do cristianismo temos as várias Igrejas Católicas (Ortodoxa e

Romana) e o Protestantismo, como religiões derivadas, as quais por sua vez deram origem a

uma extensa série de dissidências próprias (o Protestantismo pode ser considerado tanto uma

seita dissidente do Catolicismo quanto uma religião própria, se considerarmos que dele, por

sua vez, surgiram dezenas de dissidências: anabatistas, quakers, mórmons, exército da

salvação, ciência cristã, adventistas, metodistas, testemunhas de Jeová, pentecostais, etc.).

Paulo: O Último Apóstolo

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Como já vimos, Paulo entende que o mundo e a história humana se

circunscrevem ao fenômeno Cristo.84 Não é possível depreender, de seus

escritos, uma dimensão histórica, uma condição anterior e outra posterior

a Cristo. Para ele, Cristo preenche toda a história, está omnipresente ao

longo de todo o curso da evolução humana; é como uma luz que ilumina

as trevas e nos aponta o caminho, desde o início até o final dos tempos.

Embora não o diga especificamente, a crença de Paulo é idêntica à de

João, que diz:

Então Jesus tornou a falar-lhes, dizendo: Eu sou a luz do

mundo; quem me segue de modo algum andará em trevas, mas

terá a luz da vida. (João 8,12).

Há, na pregação de Paulo, uma dimensão que poucas vezes é levada em

conta. De conformidade com o que ele acreditava ser a relação entre

Cristo, o mundo e a humanidade, ele dirigia sua pregação não ao ser

humano mortal, à personalidade, que ele chamava “a carne”. O que ele

realmente visava era o seu espírito (alma),85 e isto tornava sua pregação

verdadeiramente atemporal (e por isso mesmo, adequada a qualquer

época).86

Mas, por considerar o corpo humano como o “templo do espírito”,87 ele

sempre convocava à preservação de sua pureza:

84 Para Teilhard de Chardin, um místico cristão moderno, Cristo é o Alfa e o Ômega da

história.

85 De acordo com o E.D.B.: “Do hebreu ruah; e do grego pneuma, propriamente vento ou

sopro. Em 2 Tess 2-8 significa “sopro”, e em Ecl 8,8, o princípio vital no homem. Também

denota a alma racional e imortal pela qual o homem se distingue (At 7,59; 1 Cor 5,5; 6,20;

7,34), a alma em seu estado separado (Heb 12,23), e por isso também uma aparição (Jó 4,15;

Lc 24,37-39), um anjo (Heb 1,14), e um demônio (Lc 4,36; 10,20). Esta palavra também é

usada metaforicamente para denotar uma tendência (Zac 12,10; Lc 13:11). Em Rom 1,4, 1

Tim 3,16, 2 Cor 3,17, 1 Pd 3,18, ela designa a natureza divina”.

86 Aqui somos remetidos novamente ao problema da ressurreição e da sobrevivência, tema

tão vasto que não poderemos discuti-lo aqui.

87 Não sabeis que sois templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém

profanar o templo de Deus, Deus, o destruirá. Porque o templo de Deus é santo, e esse

templo sois vós (1 Cor 3,16-17).

Paulo: O Último Apóstolo

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Mas o corpo não é para a prostituição, mas para o Senhor, e o

Senhor para o corpo (1 Cor 6,13).

Ainda que faça exortações à pureza corporal, Paulo não coloca o corpo

em si mesmo (a “carne”) como a causa principal das fraquezas humanas:

Pois não é contra carne e sangue que temos que lutar, mas sim

contra os principados, contra as potestades, contra os

príncipes do mundo destas trevas, contra as hostes espirituais

da iniqüidade nas regiões celestes (Ef 6, 12).

Em seu universalismo e atemporalidade, Paulo sabe que o homem

sempre questionou e sempre questionará os limites da licitude,

colocando em dúvida a autoridade dos que querem restringir sua

liberdade. A isto, ele responde:

Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas

convêm. Todas as coisas me são lícitas; mas eu não me

deixarei dominar por nenhuma delas (1 Cor 6,12).

Porque, para ele,

Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque

não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem

foram ordenadas por Deus. (Rom 13,1)

Paulo não se eximia de acusar aqueles que se negavam a mudar de vida e

adotavam um comportamento aviltante e indecoroso; ainda que estas

palavras, atualmente, sejam vistas como “ultrapassadas”, elas estão

totalmente de acordo com os preceitos deixados por Jesus: aos que

quisessem seguí-lo, e mesmo aos que curava de suas enfermidades, Jesus

dizia – “Vai, e não voltes a pecar”.

Paulo: O Último Apóstolo

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Pois, como diz também Agostinho:

Em que tempo ou lugar será injusto que ‘amemos a Deus com

todo o nosso coração, com toda a nossa alma e com toda a

nossa mente, e que amemos o próximo como a nós mesmos?’

Por isso as devassidões contrárias à natureza sempre e em

toda parte se devem detestar e punir, como o foram os

pecados de Sodoma. Ainda que todos os povos as cometessem,

estariam na mesma culpabilidade de pecado, segundo a lei de

Deus, que não fez os homens para assim usarem de si”. (Santo

Agostinho, Confissões, III,8,15).

Se não é possível servir a dois senhores, também não é possível viver no

pecado88 e na virtude. Para Paulo a Boa Nova a ser propagada era uma

mensagem de libertação, que entretanto não eximia ninguém de sua

própria responsabilidade. Isto porque havia sempre uma outra mensagem

subjacente, que não poderia ser deixada de lado: “O preço do pecado é a

morte”. Não a morte física, propiciada pelo homem, mas a morte

espiritual e a condenação “ao inferno”.89

O Legado de Paulo

Uma questão interessante surge quando nos perguntamos sobre qual terá

sido o real legado de Paulo. Seria ele, por exemplo, o responsável pela

fundação da Igreja Católica? Juntamente com Pedro, teria Paulo dado

início à hierarquia eclesiástica tal como esta existe hoje em dia?

88 Jesus sempre se eximiu de emitir regras específicas sobre o modo de viver, com

proibições ou limitações de qualquer tipo. Escandalizava os fariseus promovendo curas nos

sábados, e não se deixava tolher por restrições alimentares (Não é o que entra pela boca que

contamina o homem; mas o que sai da boca, isso é o que o contamina: Mt 15,11). O que

exortava continuamente era que todos fossem virtuosos, procurando a perfeição “do Pai”, e

adotando a máxima: “Não façais aos outros o que não querem que vos façam”.

89 O homem, em sua soberba, vai-se afastando deliberadamente da religião, achando que

com isto pode fazer o que quiser. Proclama-se ateu, agnóstico, materialista, ergue às alturas a

ciência e o mundo da matéria, mas em seu coração ele sabe que está condenado. Ainda que

muitos considerem a religião uma quimera, toda a riqueza da vida moderna e a sua adiantada

tecnologia não conseguem preencher o vazio da existência. Os desvios da moralidade, que se

procuram interpretar como meras escolhas individuais de conduta, têm como única

conseqüência levar os seus participantes ao inferno da alma.

Paulo: O Último Apóstolo

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Vários intérpretes querem ver este aspecto “eclesial”90 em Paulo, como

se ele fosse responsável pela instituição ou pela consolidação de uma

“igreja” ou instituição religiosa oficial.91

Uma outra questão surge com respeito à pregação de Paulo: preocupouse

ele em erigir templos que se destinassem ao culto cristão? Pelo que

sabemos, quando Paulo iniciou a sua pregação ele voltou-se inicialmente

à congregação judaica. Em cada cidade por que passava, ele ia à

sinagoga92 aos sábados, com o fito de expor seus argumentos. Quando

esta vedou-lhe suas portas, e ao voltar-se Paulo para os gentios, sua

pregação teve que realizar-se em praças ou vias públicas, em academias

ou nas casas dos prosélitos.

No início, evidentemente, não existia ainda uma religião organizada e os

primeiros grupos cristãos eram muito pequenos. Aparentemente por este

motivo, Paulo jamais se preocupou com erigir templos. Para ele, Deus

não habitava em templos “feitos pelas mãos humanas”; assim o afirma

nesta passagem:

90 De ekklêsía, palavra grega que significa “assembléia”. Tem um sentido religioso na

concepção judaica, onde também é usada. González Ruiz afirma que “a aplicação dos

adjetivos elogiosos dedicados à ekklêsía, enquanto projeto de Deus, às comunidades

históricas que pululavam no âmbito da única convocação divina para a salvação, é uma

extrapolação inadmissível” (José María González Ruiz, O Evangelho de Paulo, pág. 221).

91 A Igreja Católica de Roma, como instituição, somente começou a se consolidar em razão

de uma série de fatos históricos concretos. Após a morte de Pedro e de Paulo, executados em

Roma, e também devido à diáspora dos judeus provocada pela destruição da cidade de

Jerusalém, três centros religiosos começaram a disputar a primazia da condução desta nova

“igreja”: Roma, Alexandria e Antióquia. A fragilidade teológica desta nova instituição é

demonstrada pela quantidade de heresias que pululavam por todo lado. Nesta época começou

a surgir uma espécie de sincretismo entre os temas cristãos, a tradição judaica, a gnose e as

filosofias helenísticas. Justino (falecido em 165) e Irineu (falecido em 200) começaram a

combater as heresias, muito embora não existisse ainda um corpo doutrinário consolidado

para ser defendido. Com o tempo, Roma conseguiu se impor (o que aconteceu entre 60 e

200), e sobre a infra-estrutura congregacional criada por Paulo estendeu-se, aos poucos, o

manto da liderança proveniente do bispo de Roma (que só depois passou a ser chamado de

Papa).

92 Sinagoga, do grego synagoge, assembléia. Privados do Templo durante o cativeiro na

Babilônia, os judeus realizavam seus ofícios religioso nas sinagogas. As sinagogas eram

administradas por um ancião, o arquisynagogos, ou por um conselho de três anciãos

(modernamente, a sinagoga é presidida por um rabino). Na época de Paulo, a hierarquia

sacerdotal ficava no Templo construído pelo rei Herodes, em Jerusalém.

Paulo: O Último Apóstolo

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O Deus que fez o mundo e todas as coisas que há nele, esse,

sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos

por mãos de homem, nem por mãos humanas é servido, como

se necessitasse de alguma coisa, sendo Ele mesmo quem dá a

todos a vida, o alento e todas as coisas (At 17,24-25).

A única afirmação que se pode fazer com segurança é que Paulo deu

origem a um sistema de crenças religiosas que foi a origem do

catolicismo. Afinal de contas, todos os institutos, dogmas e cultos

estavam já de certa forma presentes em suas epístolas, que são bem

anteriores aos Evangelhos. Quanto a Igreja Católica (do grego

katholikos, ou universal), suas sementes, como instituição, foram

lançadas pela linhagem apostólica (comumente conhecida como

“hierarquia nazarena”) em que pontificaram Tiago, primeiro, e Pedro

posteriormente.93

Um último argumento: Paulo, com toda a certeza, não desejava impor

sobre seus prosélitos nenhuma autoridade mundana (que acompanha

sempre as instituições oficiais), pois que alertava-os contra qualquer

submissão da vontade:94

Não sabeis que, oferecendo-vos a alguém para lhes

obedecerdes, vos tornais escravos daquele a quem vos

sujeitais, seja do pecado, para cair na morte, seja da

obediência, para alcançar a justiça? (Rom 6,16)

Quanto ao que Paulo pretendia dizer, qual era sua pregação ou

ministério, pode ser visto claramente nas passagens seguintes:

Pelo que, tendo este ministério, assim como já alcançamos

misericórdia, não desfalecemos; pelo contrário, rejeitamos as

93 A Pedro sucederam Lino e Cleto, que dirigiram a comunidade de Roma por mais de vinte

anos. Clemente, que os sucedeu, menciona a existência de duas hierarquias paralelas, a de

Pedro (nazarena) e a de Paulo (paulina).

94 É um fenômeno sempiterno, a existência de seitas “apocalípticas” que terminam pela

morte de seus seguidores. Entre os casos mais dramáticos da atualidade temos o da seita

liderada pelo “reverendo” Jim Jones, o “Templo do Povo”, que em 1978 desembocou no

dramático suicídio de cerca de novecentas pessoas.

Paulo: O Último Apóstolo

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coisas ocultas, que são vergonhosas, não andando com

astúcia, nem adulterando a palavra de Deus; mas, pela

manifestação da verdade, nós nos recomendamos à

consciência de todos os homens diante de Deus. Mas, se ainda

o nosso evangelho está encoberto, é naqueles que se perdem

que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os

entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça

a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de

Deus. Pois não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo

Jesus como Senhor; e a nós mesmos como vossos servos por

amor de Jesus. Porque Deus, que disse: Das trevas brilhará a

luz, é quem brilhou em nossos corações, para iluminação do

conhecimento da glória de Deus na face de Cristo (2

Corinthios 4,1-6).

Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos

da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos

pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como

também os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia,

pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda

mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo

(pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele,

e com ele nos fez sentar nas regiões celestes em Cristo Jesus,

para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua

graça, pela sua bondade para conosco em Cristo Jesus.

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem

de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém

se glorie. Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus

para boas obras, as quais Deus antes preparou para que

andássemos nelas (Ef 2,3-10).

Paulo: O Último Apóstolo

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Paulo: O Último Apóstolo

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70

PARTE III

Em Busca

Do

Paulo

Desconhecido

Paulo: O Último Apóstolo

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Paulo: O Último Apóstolo

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VI – O ESOTERISMO CRISTÃO

A Disciplina do Arcano

Conforme vimos, as epístolas realmente não apresentam, exceto de

forma indireta, o que realmente era ensinado sobre a doutrina para as

comunidades e para os convertidos. Além da apologética e da contínua

exortação de Paulo a uma vida cristã, os textos epistolares, talvez com a

exceção das Epístola aos Efésios e Epístola aos Hebreus (como veremos

adiante), não apresentam realmente o verdadeiro conteúdo doutrinário

daquilo que era ensinado oralmente aos batizados.

Podemos ler nos evangelhos que Jesus tinha duas formas diferentes de

ensinar. Aos apóstolos (“iniciados”) eram ensinados os “mistérios do

reino dos céus”;95 aos outros se ensinava apenas através de parábolas. Se

estas palavras levavam à reflexão e os ouvintes pediam explicações, Ele

as poderia dar de forma mais abrangente, com menor simbolismo e

maior concretude.

A própria Igreja Católica, embora nos primeiros tempos aceitasse

qualquer um como candidato ao batismo, após algum tempo, percebendo

a facilidade com que surgiam heresias a partir de interpretações pessoais

da doutrina,96 passou a exigir um tempo de “provação” para o candidato:

95 E chegando-se a ele os discípulos, perguntaram-lhe: Por que lhes falas por parábolas?

Respondeu-lhes Jesus: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a

eles não lhes é dado; pois ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não

tem, até aquilo que tem lhe será tirado. Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo,

não vêem; e ouvindo, não ouvem nem entendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías, que

diz: Ouvindo, ouvireis, e de maneira alguma entendereis; e, vendo, vereis, e de maneira

alguma percebereis (Mt 13, 10-14).

96 Principalmente se o neófito se deixava influenciar por outros ensinamentos. Nos

primeiros séculos proliferaram interpretações a respeito da natureza de Cristo (se o seu corpo

era consubstancial ou não com Deus; se o seu corpo era físico ou etéreo; se era filho de Deus

ou apenas um homem, etc), expressas nas filosofias de Ário, Mani, Nestório e outros

(Agostinho, antes de converter-se, aceitava a doutrina maniqueísta). A corrente doutrinária

majoritária classificava tais interpretações como “heresias”.

Paulo: O Último Apóstolo

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“Depois de um período de relativa facilidade em admitir

candidatos ao batismo, a Igreja, a partir do 2º século,

estabelece regras e período de duração para o catecumenato.97

Longas instruções e rituais complicados, durando três anos,

precedem a administração solene do sacramento do batismo.

Existe uma verdadeira ordem ou categoria de catecúmenos,

como um estádio entre o desejo de ser cristão e a admissão no

grupo dos fiéis. Os catecúmenos só assistem à primeira parte

da eucaristia. Fazem parte da categoria dos ouvintes, passando

depois à categoria dos eleitos ou dos iluminados

(photizomenoi). As catequeses de Tertuliano, de Orígenes, de

Hipólito, de Sto. Ambrósio e de Cirilo de Jerusalém atestam

esta prática e quase instituição” (Frei Raimundo Cintra.

Cristianismo e Esoterismo, pág. 52).

Os primeiros bispos da Igreja Católica, tais como Clemente de

Alexandria (falecido em 215), Orígenes (falecido em 254), São Basílio

(falecido em 379), São Cirilo de Jerusalém (falecido em 386), entre

outros, exalçavam o que chamavam a “disciplina do arcano”, uma

teologia mística com influência dos chamados “mistérios”.

Segundo Riffard, citando Clemente de Alexandria:

“A gnose [é] transmitida oralmente por via de sucessão,

conquistada desde os Apóstolos a um número reduzido de

detentores” (Pierre Riffard, O Esoterismo, pág. 219).

Sobre isso, Hoeller diz que:

“Os dois padres que estiveram mais próximos em tempo e

localização geográfica do florescente Gnosticismo, Clemente

de Alexandria e Orígenes, cuja ortodoxia não se questiona

hoje, descreveram a vida cristã segundo a imagem de uma

escada de ascensão. Clemente afirmou que a alma progride da

97 Segundo São Jerônimo e Eusébio, quando a Igreja foi se constituindo, aos poucos foram

se distinguindo cinco ordens diferentes: os vigilantes, episcopoi¸ donde provieram os bispos;

os decanos da sociedade, presbyteroi, os padres; os diaconi, os serventes ou diáconos; os

pistoi, fiéis iniciados, isto é, os batizados, que participavam nas ceias; e os catecúmenos e

energúmenos, que aguardavam o batismo.

Paulo: O Último Apóstolo

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fé, como um primeiro passo no caminho, para a gnose, a qual

ele julgava um passo subseqüente, superior” (Stephan A.

Hoeller, A Gnose de Jung, pág. 137).

Tudo isto, no entanto, acabou sendo rejeitado pela Igreja a partir do

século VI, quando esta colocou “o catecismo acima da gnose”. Quando

aboliu a “disciplina do arcano”, a Igreja Católica o fez porque este já não

tinha mais razão de ser. Ritos que eram realizados nas catacumbas já

eram feitos à vista de todos.98 Palavras secretas, senhas, imagens, os

quais tinham servido extensamente para identificar entre si os cristãos

ameaçados pela perseguição, tornaram-se inúteis quando a religião

alcançou, por assim dizer, a superfície. Com Constantino, em 313, o

cristianismo deixa de ser perseguido;99 a partir daí, já não havia mais

necessidade de segredo. Mas conforme vimos, a Igreja se resguardou por

outros meios. Expondo os mistérios cristãos, por assim dizer, às claras,

ela forçou a que os candidatos ao batismo tomassem mais tempo a

estudá-los, e hierarquizou de forma mais rígida as etapas do

catecumenato. Além disso, a doutrina exotérica100 cristã foi diluída e

simplificada.101 Em época posterior, como medida final, a Igreja proibiu

a leitura da Bíblia (os textos canônicos) aos que não tinham completado

trinta anos.102

98 A missa, que nas primeiras comunidades cristãs era um simulacro da Última Ceia,

tornou-se extremamente ritualizada, pela assimilação de conteúdos encontrados nos

mistérios, principalmente no Mistério de Mitra.

99 Mas foi só em 392, com o édito de Teodósio, que o cristianismo foi declarado religião

oficial.

100 Exotérico é o ensinamento que se destina ao vulgo; geralmente, limita-se às questões

superficiais da doutrina. Esotérico é o ensino em profundidade destinado àqueles que

realmente podem compreendê-lo: os iniciados (no caso dos cristãos primitivos, aqueles que

receberam o batismo).

101 Muito cedo a Igreja começou a condensar os dogmas e proposições doutrinárias em

fórmulas abreviadas, adequadas ao entendimento popular. Foi assim que surgiu, por

exemplo, o chamado “Símbolo Apostólico” (symbolum apostolicum), ou “Credo

Apostólico”, um “resumo da fé” usado inicialmente na Igreja de Milão e que, alega-se,

provinha diretamente dos doze apóstolos. Este credo, oficializado no Concílio de Nicéia

(324), teve seu texto ligeiramente redefinido no Concílio de Constantinopla (381), tornandose

aquele que até hoje é recitado na missa.

102 Gregório VII, Papa de 1073 a 1085, proibiu a vulgarização da Bíblia. Este ato foi

confirmado pelo Concílio de Tolouse em 1229. A leitura “popular” da Bíblia somente se

tornou possível após o advento da prensa tipográfica em 1450, com Gutemberg, e devido

também à vulgarização levada a efeito por Lutero, que a traduziu para o alemão (antes só

havia edições em latim e grego). Esta leitura, se por um lado contribuiu para a difusão da

palavra divina, por outro deu margem aos vários cismas religiosos e ensejou novas

Paulo: O Último Apóstolo

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75

O Ensinamento Secreto de Paulo

Na época de Paulo, quando o impulso dado à propagação da Boa Nova

ainda era bastante recente, a preocupação maior era a de conseguir o

máximo de prosélitos. Através dos discípulos e através de Paulo, a

difusão do cristianismo se fez tal como um rastilho de pólvora, com uma

rápida expansão. A pregação cristã, curiosamente, era assimilada com

muito mais facilidade pela população mais simples, que se convertia não

tanto em virtude dos sinais e dos prodígios, nem em razão unicamente

dos exorcismos e das curas realizadas pelos apóstolos,103 mas

principalmente pela palavra e pela fé.104 Conforme relata a tradição

sinóptica, a fé não provinha dos sinais e prodígios, mas os propiciava.105

A pregação cristã não ocorreu num vácuo de religiosidade; de início, o

judaísmo, que ainda era proselitista,106 fez várias conversões em meio às

perseguições. Lutero e Calvino, insurgindo-se contra o Papa, deram origem à reforma

religiosa mais profunda no seio da Igreja Católica. Tiveram seguidores na Alemanha, Suíça,

estados escandinavos e sul da França. Neste país, seus seguidores eram chamados de

huguenotes e de livres-pensadores. Mas à Reforma seguiu-se a Contra-Reforma, e do

antagonismo mútuo surgiu um clima de intolerância e perseguição religiosa que viria a

perdurar por muito tempo e iria modificar a vida de milhares de pessoas.

103 “Quando Jesus ordena a seus seguidores que preguem a vinda do reino, também os

encarrega, ao mesmo tempo e como parte da mesma missão, de expulsar demônios, curar os

enfermos e oferecer o perdão para seus pecados – três formas de dizer a mesma coisa, pois as

palavras que significam ‘curar’, ‘expulsar demônios’ e ‘perdoar os pecados’ eram sinônimos

intercambiáveis. O exorcismo, a cura e o anúncio da chegada do reino eram maneiras de

libertar as pessoas do domínio de Satã” (Norman Cohn. Cosmos, Caos e o Mundo Que Virá,

pág. 257).

104 “A religião é uma terapêutica ‘revelada por Deus’. Suas idéias provêm de um

conhecimento pré-consciente, que se expressa, sempre e por toda parte, através dos

símbolos. Embora nossa inteligência não as apreenda, elas estão em ação porque nosso

inconsciente as reconhece como expressão de fatos psíquicos de caráter universal. Por isso

basta a fé, quando existe” (C.G Jung, Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade, pág.

89).

105 Conforme Mt 8,13; 9,2; 9,22-29; 15,28; 21,22; Mc 2,5; 5,34; 10,52; 11,22-24; Lc 1,45;

5,20; 7,50; 8,48; 17,6; 17,19; 18,42.

106 O judaísmo, muito embora não fosse ortodoxo em razão de suas várias seitas, sempre

tinha sido catequético e proselitista, tendo buscado ativamente a conversão dos demais povos

à sua crença (já sabemos como as sinagogas eram freqüentadas tanto por judeus de

nascimento quanto por “judeus” conversos, entre os quais havia grande quantidade de

gregos). Esta atividade não foi interrompida nem pela derrota no ano 70 nem pela diáspora.

Foi somente por volta do ano 138 que o sucessor de Adriano, Antonino Pio, cessou a

perseguição aos judeus com a condição de que eles encerrassem sua atividade catequética.

Paulo: O Último Apóstolo

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76

populações gregas.107 Esta pregação feita pelos judeus se fazia entre os

denominados pagãos, que eram os adoradores dos vários deuses e deusas

que existiam no Panteão dos vários povos.108 Isto significa que a

conversão ao judaísmo conseguia um grande trunfo: tornar monoteístas

os adoradores de múltiplos deuses.109 Além de trazer uma idéia nova à

vida religiosa da época (a crença em um único Deus), pode-se dizer que

foi o judaísmo a primeira religião a lutar para pôr fim aos sacrifícios

humanos. Conforme diz Charles Potter:

“No ano 621 a.C., o Deuteronômio foi ‘encontrado’ no templo

quando este sofria reparos. Deuteronômio significa ‘segunda

lei’, constituído o livro de uma nova revisão das leis de

Moisés, evidentemente levada a efeito por sacerdotes virtuosos

do templo como parte de um projeto de reformas que há muito

se impunham. O rei Josias deu a sua aprovação a este novo

movimento, ordenando a leitura pública do livro no templo.

Rei e súditos prometeram cumprir as leis do novo código.

Tudo que se prendia aos rituais do culto de Baal foi removido

do templo e queimado. O vale de Hinnon, onde se praticava o

sacrifício de crianças, foi considerado impuro e o costume

proibido. Os vários centros em todo o país onde se praticava a

idolatria de Baal foram destituídos de qualquer caráter

sagrado, e mesmo o culto de Yahweh só fora permitido em

Jerusalém” (Charles Francis Potter, História das Religiões,

pág. 114).

Na verdade, qualquer tentativa de conversão, a partir daí, tornou-se ofensa capital. Até a

atualidade, o judaísmo (religião) permanece nesta condição.

107 Quando Paulo pregava nas sinagogas, ele o fazia a judeus e a gregos convertidos ao

judaísmo.

108 Apesar da multiplicidade de deuses, havia um certo sincretismo, ou seja, um amálgama

de imagens e naturezas diversas. Por exemplo, Osíris, deus egípcio da natureza e dos mortos,

era análogo ao Dionísio dos gregos; Adônis se equiparava ao Osíris fenício e ao Adonai dos

hebreus; Átis era outro deus grego análogo a Adônis; Mitra, deus dos persas, era associado a

Ahura-Mazda; o Hermes grego se identificava ao Thot egípcio e ao Mercúrio romano; a

Afrodite grega confundia-se com a Vênus romana; Diana em Roma era a mesma Artêmis

dos gregos.

109 Para Elaine Pagels, “o que separava os pagãos de cristão, (...), não era tanto o

monoteísmo, já que um grande contingente dos primeiros tendia para isso, mas o

conservantismo básico dos mesmos. A adoração pagã prendia o indivíduo a um só lugar no

mundo e solicitava do adorador que cumprisse quaisquer obrigações que o destino, os fados

ou ‘os deuses’ determinassem. Conforme vimos, Marco Aurélio a todo instante nos lembra

que a religiosidade significa assumir uma atitude reverente em relação a responsabilidades

familiares, sociais e nacionais” (Elaine Pagels, As Origens de Satanás, pág. 185).

Paulo: O Último Apóstolo

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77

As práticas abomináveis do sacrifício humano, comuns nas épocas mais

recuadas, foram substituídas por Salomão e Davi por ritos sacrificiais

nos quais se ofereciam touros, carneiros, bodes e pombos, os quais eram

abatidos e queimados no altar do Templo pelo sacerdote. Como prova de

que o sacrifício humano não era considerado uma aberração nesta época,

temos aquela famosa passagem bíblica em Gen 22,1-16, em que Abraão

deveria imolar em sacrifício o próprio filho, Isaac, ao qual não se furta,

embora não tenha executado o ato.110

Em épocas mais recuadas (até cerca de 700 a.C.) a religião não era um

princípio unificador. Mesmo nas cidades constituídas, em que havia

unidade política, a religião era principalmente familial, ou seja, baseavase

no culto aos ancestrais (“manes”), culto este individualíssimo e

restrito à família. Conforme diz Coulanges,

“De acordo com as mais antigas crenças dos itálicos e dos

gregos, a alma não passava sua segunda existência em um

mundo diferente do em que vivemos; continuava junto dos

homens, vivendo sobre a terra” (Fustel de Coulanges, A

Cidade Antiga, pág. 36).

Ainda:

“Essas crenças logo deram lugar a regras de conduta. Desde

que o morto tinha necessidade de alimento e de bebida,

pensou-se que era dever dos vivos satisfazer às suas

necessidades. O cuidado de levar alimentos aos mortos não foi

abandonado ao capricho, ou aos sentimentos mutáveis dos

homens; era obrigatório. Estabeleceu-se desse modo uma

verdadeira religião da morte, cujos dogmas logo se reduziram

a nada, mas cujos ritos duraram até o triunfo do Cristianismo”

(Fustel de Coulanges, idem, pág. 43).

110 Cristo, pelo sacrifício da própria vida, aboliu todos estes sacrifícios cruentos, trocandoos

por um sacrifício simbólico: a liturgia eucarística, traduzida em uma refeição comunal.

Mesmo no AT, entretanto, podem ser encontradas censuras aos sacrifícios cruentos. Por

exemplo em Is 1, 11: De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? diz o Senhor.

Estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; e não me

agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes.

Paulo: O Último Apóstolo

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78

Este culto dos mortos teve uma influência tão grande na vida dos povos

antigos que chegou a influenciar a sua organização social e jurídica.

Os próprios judeus, ainda que tivessem o monoteísmo por princípio,

eram dominados por crenças populares em bons e maus espíritos, crença

esta que podia chegar às raias da mais inacreditável superstição.

Acreditavam que as doenças e enfermidades em geral eram devidas a

espíritos malignos e perniciosos, os quais se dividiam em múltiplas

categorias111 e que passavam o tempo perambulando e atacando as

pessoas. Também a origem das calamidades naturais, tal como raios,

granizos, incêndios, más colheitas e outras mazelas eram devidas a estes

maus espíritos, que se compraziam em fazer o mal. Para conjurá-los,

faziam exorcismos e usavam fórmulas mágicas ou talismãs. Ainda que

combatidas pelos profetas, estas crenças e práticas perduraram até a

época de Cristo.

[Citamos aqui estas passagens para mostrar que o cenário religioso na

época de Paulo não era fácil; além do culto aos antepassados e das várias

religiões organizadas (inclusive a própria religião judaica, da qual ele foi

obrigado a se afastar), havia, como mostramos, todo um complexo de

superstições e crenças que saturavam o imaginário popular. Este cenário

mostra, também, as dificuldades que qualquer pregador enfrentava

quando se dedicava à conversão destas gentes].

A Teologia Paulina

Como já mencionamos, Paulo ficou dividido no início de sua pregação.

Deveria pregar aos judeus, aos gregos convertidos ou aos gentios? Como

vimos também, sua decisão sobre esta questão surgiu a partir da própria

rejeição que ele sofreu da sinagoga, conduzindo-o definitivamente à

preferência pelos gentios.

111 Segundo uma crença popular, o homem tinha mil demônios à sua esquerda e dez mil à

sua direita. Os bons espíritos eram subordinados a Yahweh; os chefes dos espíritos do mal

eram chamados Azazel, Azmodeu e Belzebu.

Paulo: O Último Apóstolo

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Mas o que Paulo realmente pregava? Qual era realmente o conteúdo de

sua pregação doutrinária? O que ele ensinava oralmente aos batizados?

Embora a resposta pareça fácil, ela pode na verdade se mostrar bastante

evasiva. Na verdade, o “Paulo” que conhecemos, mesmo realçado pelo

brilho das epístolas, permanece unidimensional devido à penúria de

fontes literárias. Sua biografia é paupérrima, e entre outras coisas, sequer

jamais poderemos conhecer a dimensão real de sua gigantesca obra

missionária.

É claro, a teologia “paulina” oficial é bem conhecida. De acordo com o

D.E.B.,

“As fontes da teologia paulina são: (1) Sua fé judaicofarisaica,

que ele guardou intacta em muitos pontos: a fé em

um só Deus, criador e governador do céu e da terra, que na

SEescr [Sagrada Escritura] fala a seu povo e no fim do mundo

aparecerá como juiz e rei de todos os homens para punir ou

premiar cada um, segundo os seus méritos; a ressurreição dos

mortos; a fé em anjos e demônios; sua antropologia (Espírito;

Homem; Carne; Alma); as idéias principais de sua moral

(Decálogo)” (D.E.B., verbete: Paulo, III, A, (2). Pág. 1146).

Alguns exegetas acreditam, no entanto, que o conteúdo dos

ensinamentos ocultos de Paulo não ficou totalmente perdido, podendo

ser recuperado parcialmente. Na verdade, é possível que das epístolas

conhecidas, duas delas possam ter este conteúdo doutrinário procurado.

Para Andrew Welburn,

“A assim chamada ‘Epístola aos Efésios’ não possui nenhuma

das características de uma carta e pode não ter nada a ver com

Éfeso.

“Da forma como aparece em muitas das traduções modernas,

claro, é endereçada por Paulo, o apóstolo, àqueles que

aderiram ao cristianismo (ou ‘santos’) em Éfeso; mas muitos

dos manuscritos confiáveis não possuem as palavras ‘em

Paulo: O Último Apóstolo

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Éfeso’ e podemos ter certeza de que elas não figuravam lá nos

primeiros tempos do cristianismo”.

(...)

“Excetuando a nota ao final do capítulo 6 dos Efésios

recomendando seu amigo Tichico, não há nada que sequer

sugira o estilo ou tom de uma carta. Pelo contrário, a

linguagem de Paulo é elaborada de forma não usual, é genérica

e exaltada, empregando palavras raramente encontradas em

suas cartas, e desenvolve conceitos apenas tocados nos

contextos urgentes de seus outros escritos. E, ainda assim, a

voz que fala através da linguagem parece ser a do autêntico

Paulo. Uma vez abandonada a suposição de seja uma carta,

fica fácil observar que o trabalho é de certa forma endereçado

aos seguidores de Cristo, lembrando-os em termos grandiosos

do assunto de sua fé e levando-os a comprometer-se, não

apenas contra a resistência da história, mas também contra a

resistência da realidade cósmica” (Andrew Welburn, As

Origens do Cristianismo, págs. 233/234).

Esta epístola parece ser uma daquelas que se destinavam ao ensino

“interno”, e, como afirma Welburn, devia ser uma das destinadas aos

batizados na fé. Continuamos citando-o:

“Paulo continua o discurso realçando ainda mais a qualidade

‘interna’ do que tem a dizer. Ele fala àqueles, segundo afirma,

que foram ‘selados’ na promessa do Espírito Santo. Selar era

um procedimento técnico nos Mistérios, talvez envolvendo

gestos de mão e sinais sagrados, mas servindo acima de tudo

para separar dos profanos aqueles que tinham passado pela

iniciação. À medida que prossegue, descobrimos que Paulo

está lembrando aos cristãos iniciados de tudo que

experimentaram. Pede que mantenham suas experiências na

consciência, realçando sua suprema importância e seu lugar no

mistério cósmico” (Andrew Welburn, idem, pág. 236).

Para Paulo, o batismo tinha muito mais do que o simples significado da

admissão a uma comunidade; significava também que o candidato estava

dando um passo imenso em sua vida, perfilando nas fileiras do Cristo. O

Paulo: O Último Apóstolo

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81

batismo, como um renascimento, seria como uma âncora lançada

profundamente na dimensão espiritual, tornando o neófito capaz de lutar

para colocar-se acima das vicissitudes humanas.

Ainda Welburn:

“O discurso de Paulo aos iniciados nos proporciona uma visão

profunda do caráter e humor das comunidades que o ‘apóstolo

dos gentios’ fundou e de que cuidou. Longe de ser apenas um

gesto simbólico de inclusão, ou mesmo sendo comparável às

cerimônias judaicas de boas-vindas aos prosélitos

(convertidos), o batismo das igrejas paulinas era no sentido

mais completo uma iniciação, exigindo uma transformação

extensiva da personalidade e da vida espiritual” (Andrew

Welburn, ibidem, pág. 237).

Quando Paulo começou a se afastar da sinagoga, optando por pregar aos

gentios, e quando renunciou ao costume da circuncisão,112 deu ênfase ao

112 A circuncisão prescrita pela Lei Mosaica é um dos ritos mais antigos do povo hebreu, e

que ainda perdura. É tida como um sinal de aliança entre eles, como povo eleito, e Yahweh,

que os escolheu. É realizada no oitavo dia após o nascimento. Mas sua prática era também

comum entre os fenícios e os antigos egípcios, que possivelmente o aprenderam dos etíopes.

A circuncisão é também um rito comum entre os islâmicos. Também foi no passado, e

continua sendo até hoje, praticada por várias tribos da África, onde é considerada um ritual

secreto, de iniciação aos mistérios e tradições, e também um rito de passagem (por ser

praticada na adolescência), pelo qual rapazes e moças são admitidos em suas comunidades,

como adultos responsáveis. A circuncisão é como um segundo nascimento, e o candidato,

após a mukanda (circuncisão), sai do ritual como uma pessoa diferente. A transformação

simbólica conferida por esta iniciação é tão poderosa, que ele (o neófito) sente-se uma nova

pessoa. Para autenticar esta transformação, ele sai inclusive com roupas novas. Durante a

cerimônia, que é uma operação realizada em sigilo, todo um ensinamento oral é repassado ao

candidato, que toma conhecimento das tradições de sua tribo, de seus antepassados, de suas

migrações, de seus inimigos. Em seguida, ele é inteirado de seu papel como propagador da

espécie, como deve escolher a sua noiva, seu papel junto à esposa e à família, a educação dos

filhos. É todo um complexo de ensinamentos pragmáticos que o inteira de suas

responsabilidades, de seus deveres e obrigações. Quando o negro africano jura pela sua

circuncisão (n’etanda iange!), este juramento tem o mesmo sentido do juramento do cristão

sobre a Bíblia. No caso das mulheres, a excisão é o corte do clitóris, operação ritual de

mesmo sentido iniciático que o dos homens. Após a operação, elas são consideradas aptas à

procriação e à vida comunal. Para ambos os sexos, os candidatos devem permanecer virgens,

e assim devem se apresentar ao ritual de iniciação.

Paulo: O Último Apóstolo

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batismo como forma cerimonial de iniciação do candidato. Este batismo

tinha a forma de uma imersão ou de banho purificador, e era

acompanhado de palavras rituais. Ao final, considerava-se que o

batizado tinha “renascido em Cristo”.113

Como menciona Lewis Mumford,

“O cristianismo tornou-se uma religião de mistério; nela se

ingressava, não pelo nascimento ou residência, mas pela

iniciação: o batismo e a comunhão da Ceia do Senhor eram os

ritos principais” (Lewis Mumford, A Condição de Homem,

pág. 76).

113 Em Rom 6,3, e em Col 2,12, Paulo diz que o batismo nos coloca mortos e sepultados

como Jesus, para que, assim como ele ressuscitou, também nós tenhamos uma vida nova.

Paulo: O Último Apóstolo

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VII – A DOUTRINA MÍSTICA CRISTÃ

A Dimensão Crística

Paulo, mais do que os discípulos diretos, percebeu claramente uma

dimensão superior mística e misteriosa em Cristo, e não se cansava de

proclamar sua concepção. Para ele, o mundo, em sua inteireza,

destinava-se a Ele: Tudo que existe no céu e na terra deve ser renovado

e unido, em um ser em Cristo.114 Como doador da verdadeira Vida,

Cristo só poderia ser compreendido quando o homem pudesse expandir a

própria consciência, até uma dimensão cósmica. E mais do que um

Salvador individual, Paulo entendia que Cristo conclamava cada

indivíduo a que participasse de sua própria salvação. Para Paulo, a

iniciação pelo batismo era o primeiro passo daquela longa jornada rumo

à plenitude,115 plenitude esta que somente se alcançaria submetendo a

vontade individual à condução do Cristo.

Andrew Welburn ressalta em sua obra que, para Paulo, havia um sublime

mistério no aparecimento de Cristo na Terra. Em carta enviada a um tal

Regino, este traça paralelos entre a iniciação pelo batismo, o

sepultamento e a ressurreição de Cristo e os acontecimentos futuros a se

darem na consciência do homem (humanidade), em sua própria natureza

corpórea e no mundo material.

Paulo chegou a ser acusado, por pesquisadores modernos, de ter

mesclado idéias gnósticas com o cristianismo primitivo, e sabe-se que

alguns de seu escritos foram severamente censurados pelos primeiros

Padres da Igreja. Entretanto, Welburn afirma que muitas dessas idéias já

circulavam entre os essênios, e todos sabem como Jesus foi influenciado

por esta seita (que contava João Batista entre os seus prosélitos). Por

exemplo, quando Paulo proclama que o sofrimento e a glorificação do

Filho do Homem podem e devem ser compartilhados por todas as

114 Esta é também a concepção de Teilhard de Chardin.

115 Conforme Col 1,19: porque aprouve a Deus que nele habitasse toda a plenitude;

também em Col 2,10: e tendes a vossa plenitude nele, que é a cabeça de todo principado e

potestade.

Paulo: O Último Apóstolo

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84

pessoas, ele segue tanto o puro ensinamento de Jesus quanto idéias

gnósticas e essênias.

Causa espécie aos exegetas o conhecimento implícito da doutrina cristã

possuído por Paulo.116 Ele jamais teve contato direto com Jesus; e com

os discípulos, após a sua conversão, o contato foi muito breve. Isto não o

impedia, contudo, de divulgar a doutrina em sua pureza, de um modo tal

que chegou até a empolgar Barnabé.

Nos ensinamentos de Paulo, Cristo se tornava o eixo e a meta da vida

cristã, sendo que n’Ele deveriam convergir todas as coisas do céu e da

terra:

Para a dispensação da plenitude dos tempos, de fazer

convergir em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos

céus como as que estão na terra (Ef 1,10).

Aquele que desceu é também o mesmo que subiu muito acima

de todos os céus, para cumprir todas as coisas (Ef 4,10).

Porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra,

as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações,

sejam principados, sejam potestades;117 tudo foi criado por ele

e para ele (Col 1,16).

116 A pregação de Paulo, como vimos, foi censurada não pelos seus desvios da doutrina de

Cristo, mas principalmente devido à sua resistência em impor aos gentios os costumes

judaicos. Conforme diz González Ruiz: “Já que Paulo foi o campeão do universalismo da fé,

é lógico que o problema da invalidade ou relativização religiosa da circuncisão produzisse

enormes atritos nas primitivas comunidades cristãs, onde os judeus de origem tinham

primazia sobre os de procedência pagã. Por conseguinte, não era apenas uma questão de

simples ritos, mas de princípios universais” (José María González Ruiz, O Evangelho de

Paulo, pág. 217). Lembramos também que a acusação oficial contra Paulo, que motivou seu

apelo a César, foi a de ter profanado o Templo pela introdução de um gentio em ala proibida.

117 Hierarquia celeste formada pelos Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Virtudes,

Potestades, Principados, Arcanjos e Anjos. Esta crença faz parte da teologia católica, tendo

sido assimilada das crenças judaicas e zoroastrianas (que evidentemente, Paulo conhecia).

Paulo: O Último Apóstolo

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Em várias passagens dos Atos dos Apóstolos118 e das epístolas119 Paulo

informa, embora de maneira não elucidativa, sobre como foi inteirado

dos mistérios e da doutrina cristã. Conta também em 2 Cor 12 de como

teria sido “arrebatado” ao Paraíso,120 onde teria recebido os

esclarecimentos sobre a doutrina (e outros mistérios, aos quais ele apenas

alude).

É possível, e até bastante provável, que parte da doutrina mística paulina

(e parte dos verdadeiros mistérios cristãos) tenha sido legada para a

posteridade em um texto enigmático e misterioso que sempre causou

celeuma: a Epístola aos Hebreus.

Na tradução que fez do Novo Testamento, Frei Mateus Hoepers, OFM,

na introdução que escreveu à Epístola, fala extensamente sobre os

aspectos simbólicos presentes no conteúdo desta epístola. Para ressaltar

este aspecto, tomamos a liberdade de transcrever uma parte substancial

da introdução por ele escrita.

“A estrutura da epístola revela um plano premeditado em que

tudo converge para o fim colimado. É sem dúvida um dos mais

belos documentos da arte literária do helenismo judaico. O

exórdio (1,1-4) se conta entre os textos mais sublimes da

Sagrada Escritura. – Com grande solenidade anuncia o tema, o

plano e o cenário de tempo e espaço em que se desenrola o

drama do Antigo e Novo Testamento, tendo a sua consumação

em Jesus Cristo, ontem, hoje e o mesmo pelos séculos. Em

118 Por exemplo, em At 22, 14-15: Ele prosseguiu: O Deus de nossos pais escolheu-te para

que conhecesses a sua vontade, e visses o Justo, e ouvisses a voz de sua boca; porque tu lhe

serás testemunha, perante todos os homens, do que viste e ouviste.

119 Conforme Gal 1,12: porque não o recebi de homem algum, nem me foi ensinado; mas o

recebi por revelação de Jesus Cristo; também em Ef 3,3: como pela revelação me foi

manifestado o mistério, conforme acima em poucas palavras vos escrevi.

120 Paulo narra um obscuro e misterioso acontecimento, mais ainda do que aquele referente

à sua conversão. Ele teria sido arrebatado em espírito, e teria visto diretamente ao Cristo.

Teria também ouvido algumas estranhas revelações, algumas das quais afirmou que lhe não

era lícito repeti-las. Aqui ele menciona “o terceiro céu”, ou “paraíso”, conceitos que não

eram estranhos à cabala judaica e a religiões professadas em regiões próximas, tais como o

zorostrianismo: Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo não sei, se

fora do corpo não sei; Deus o sabe) foi arrebatado até o terceiro céu. Sim, conheço o tal

homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei: Deus o sabe), que foi arrebatado ao paraíso,

e ouviu palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem referir (2 Cor 12,2-4). Pela sua

alusão, é possível que este episódio tenha ocorrido em 42 d.C.

Paulo: O Último Apóstolo

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miniatura, o prólogo já encerra toda a epístola, apenas em

ordem inversa. Pois, segundo a lei da concatenação, é tratado

primeiro o que se anunciou por último e o desenvolvimento

segue uma certa associação de palavras.

“Na primeira parte as três subdivisões contêm cada uma 7

textos bíblicos, sendo a primeira um simples encadeamento de

citações. Com perfeita simetria e crescente força e amplidão

seguem a cada subdivisão um, dois, três apelos práticos,

havendo no último mais três textos bíblicos. Desse modo a

argumentação da primeira parte apresenta 24 citações da

Escritura.

“Certamente não será casual que a segunda parte repete 24

vezes a palavra ‘fé’ = 7 vezes no tempo da criação do mundo

até Noé, 7 vezes no tempo dos patriarcas, 7 vezes no tempo de

José do Egito até a conquista da terra prometida e 3 vezes

desde Raab, a meretriz, que foi a primeira não-israelita a

participar das promessas de Abraão até a consumação das

promessas no tempo messiânico. Termina esta parte com 4

exortações como conclusões práticas. O último capítulo é uma

peroração de toda a epístola que se ocupa com as diversas

necessidades da comunidade. Em simetria com a estrutura

anterior volta aqui no fim o ‘3 vezes 7’: 7 exortações à vida

cristã, 7 exortações a fidelidade na vida de comunidade e 7

recomendações finais. São frases breves e incisivas que ainda

incutem idéias dominantes da Epístola” (Mateus Hoepers,

OFM. Novo Testamento, págs. 536/537).

Não terá escapado a muitos leitores o aspecto “numerológico” (diríamos

até pitagórico, embora não tenha sido intenção de Hoepers ressaltar este

aspecto) presente na epístola. Entretanto, não seria estranho se houvesse

esta correlação. Como já mencionamos anteriormente, existia uma interrelação

entre as doutrinas essênias e o pitagorismo, e é quase certo que

Paulo as conhecia.121

121 Tanto é assim que as comunidades cristãs formadas por Paulo tinham uma forte

aparência com as comunidades essênias, quanto ao modo de convivência religiosa.

Paulo: O Último Apóstolo

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Conforme diz Elaine Pagels,

“Numerosos estudiosos acreditam que os essênios chegaram

ao nosso conhecimento através de contemporâneos do século I,

como Josefo, Fílon e o geógrafo e naturalista romano Plínio o

Velho, bem como da descoberta, em 1947, das ruínas da

comunidade que formavam, incluindo a biblioteca sagrada ou

os Manuscritos do Mar Morto. Josefo, aos 16 anos, ficou

fascinado por esta comunidade austera e secreta: diz que eles

praticavam grande santidade em um grupo

extraordinariamente fechado (eles se amam muito entre si).

Josefo e Fílon notaram com certo espanto que estes sectários

praticavam rigoroso celibato, ao que parece porque tinham

resolvido viver de acordo com as regras bíblicas para a guerra

santa, que proibiam relações sexuais em tempo de guerra. Mas

a guerra da qual vinham participando era a de Deus contra o

poder do mal – a guerra cósmica que achavam que resultaria

na confirmação por Deus de sua fidelidade. Os essênios

entregavam também todas as suas economias e posses aos

líderes da seita, a fim de viver sem dinheiro, como diz Plínio,

em uma comunidade monástica” (Elaine Pagels, As Origens de

Satanás, pág. 86).

E de acordo com o D.E.B.:

“A doutrina dos essênios concorda em geral com a dos

fariseus; conforme Flávio Josefo, porém, tinham noção

fatalista da providência, e pregavam sobre a alma uma

doutrina alheia ao judaísmo. Além disso, possuíam uma

doutrina secreta, reservada aos iniciados. Embora os

elementos principais do instituto possam, portanto, ser

chamados judaicos, houve também indubitavelmente

influências estranhas bastante fortes (Parsisismo,

Neopitagorismo?). De fato, as tendências espirituais dos

essênios sempre foram alheias à corrente principal do

judaísmo oficial” (D.E.B., verbete: Essênios, págs. 490/491).

Paulo: O Último Apóstolo

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Vários exegetas reservam-se o direito de não ver em Paulo um lado tão

místico e até mesmo esotérico; na verdade, até repugna a muitos sequer

considerar que possa existir um lado esotérico neste apóstolo.

Mas antes de atribuirmos um excesso de esoterismo a Paulo, ou mesmo

de qualificá-lo de forma equivocada, talvez seja necessário esclarecer o

que pretendemos dizer, quando insinuamos que há em Paulo um lado

“gnóstico” e “esotérico”.

Nas palavras insuspeitas do exegeta González Ruiz:

“Paulo admite que o cristão seja um ‘gnóstico’, no mais alto

sentido da palavra: possui um conhecimento perfeito, não

apenas especulativo, mas prático-moral. Esta gnose lhe

permite ter um juízo seguro e exato sobre as coisas, com muito

maior solidez que o gnóstico da filosofia helenística. Em

virtude dessa gnose superior, o cristão formado, o ‘forte’, o

‘espiritual’, sabia que certas prescrições alimentares, tanto do

judaísmo como do paganismo, não obrigavam a consciência.

E, assim, por exemplo, era lícito comer das carnes sacrificadas

a ídolos,122 deixar a observância de certas festas judaicas, etc.

Segundo a moral estóica, ao gnóstico nada lhe restava a fazer,

para se lançar decididamente à ação” (José María González

Ruiz, O Evangelho de Paulo, pág. 61).

Quanto ao esoterismo, Frei Raimundo Cintra assim o define:

“A palavra esoterismo pode ser tomada em duas acepções: 1)

pode designar uma doutrina secreta administrada por um

mestre a um certo número de discípulos privilegiados,

excluindo-se o grande público, considerado profano e

radicalmente incapaz de penetrar os arcanos de uma doutrina

sublime, mais fechada; 2) pode designar o aspecto interno de

uma doutrina, cujos contornos externos são atingidos por

muitos, mas cujo aprofundamento e verdadeiro sentido só são

percebidos por um número reduzido de pessoas” (Frei

Raimundo Cintra. Cristianismo e Esoterismo. Pág. 51).

122 Idolotitos, ou carnes sacrificadas.

Paulo: O Último Apóstolo

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89

Sublinhamos aqui as palavras que, acreditamos, servem com perfeição

para a definição. Neste contexto, seu significado aponta para o fato de

que o ensinamento esotérico não se destina com exclusividade a um

pequeno número de privilegiados; significa, isto sim, que apesar de estar

ao alcance de todos, muito poucos podem realmente compreendê-los.

Assim, para evitar más interpretações ou distorções mal intencionadas,

procura-se dirigi-lo preferencialmente a quem possa entendê-lo.123

A Epístola aos Hebreus

Todas estas longas explanações que fizemos são como que um exórdio

para que possamos falar desta epístola que mencionamos, e que é, em

seguida ao Apocalipse (também chamado Livro das Revelações), um dos

mais misteriosos livros do Novo Testamento: é a famosa Epístola aos

Hebreus.

Paira nesta epístola um ar de mistério que só pode ser explicado se

considerarmos que ela realmente constituía parte da literatura doutrinária

destinada aos “iniciados” cristãos. Nela é delineada a verdadeira

dimensão do Cristo Cósmico, o “sacerdote eterno segundo a ordem de

Melquisedek”. Em nenhum outro lugar dos textos bíblicos se encontra

uma descrição tão grandiosa do pontificado de Cristo, cujo reinado é

dividido em três fases: a preexistência divina e superior aos anjos; a

humilhação e a consumação entre os homens; a glória final no templo

celeste, “segundo a Ordem de Melquisedek”.

Em Hebreus temos a volta desse personagem misterioso, Melquisedek.124

Este é um personagem cuja realidade paira continuamente nas tênues

123 Outro não é o sentido da exortação: Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos

porcos as vossas pérolas, para não acontecer que as calquem aos pés e, voltando-se, vos

despedacem (Mt 7,6). Já explicamos também em outra parte porque Jesus pregava em

público por meio de parábolas.

124 Sua importância pode ser apreciada pelo fato de ter recebido dízimos de Abrão

(Abraão), mas mais ainda por ter sido citado como sacerdote do Deus Altíssimo. Se Abrão

tinha a complacência do Senhor, Melquisedek tinha tal linhagem que mesmo Jesus Cristo, no

templo celeste, tornou-se sacerdote para sempre, segundo a sua Ordem: a Ordem de

Melquisedek. Seu mistério e majestade, além disso, podem ser deduzidos das seguintes

palavras: sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida,

mas feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre (Heb 7,3). A

moderna exegese tende a crer que Melquisedek não foi um personagem real, e que este

Paulo: O Último Apóstolo

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90

fronteiras que separam a realidade do mito. É citado duas vezes no AT,

sempre no mesmo contexto, quando recebe os dízimos de Abraão e o

abençoa. Sua primeira referência é em Gênesis:

Depois que Abrão voltou de ferir a Quedorlaomer e aos reis

que estavam com ele, saiu-lhe ao encontro o rei de Sodoma,

no vale de Savé (que é o vale do rei). Ora, Melquisedek, rei de

Salém, trouxe pão e vinho; pois era sacerdote do Deus

Altíssimo; e abençoou a Abrão, dizendo: bendito seja Abrão

pelo Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra! E bendito

seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas

mãos! E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo. Então o rei de

Sodoma disse a Abrão: Dá-me a mim as pessoas; e os bens

toma-os para ti. Abrão, porém, respondeu ao rei de Sodoma:

Levanto minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Criador

dos céus e da terra, jurando que não tomarei coisa alguma de

tudo o que é teu, nem um fio, nem uma correia de sapato, para

que não digas: Eu enriqueci a Abrão; salvo tão somente o que

os mancebos comeram, e a parte que toca aos homens Aner,

Escol e Manre, que foram comigo; que estes tomem a sua

parte (Gen 14,17-24).

Em seguida, novamente nos Salmos:

Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até

que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés. O

Senhor enviará de Sião o cetro do teu poder. Domina no meio

dos teus inimigos. O teu povo apresentar-se-á voluntariamente

no dia do teu poder, em trajes santos; como vindo do próprio

seio da alva, será o orvalho da tua mocidade. Jurou o Senhor,

e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a

ordem de Melquisedek. O Senhor, à tua direita, quebrantará

reis no dia da sua ira. Julgará entre as nações; enchê-las-á de

cadáveres; quebrantará os cabeças por toda a terra. Pelo

episódio é apenas uma “lenda “cultual”. É difícil crer, contudo, que um personagem sobre o

qual se alegasse um tal paralelismo com Cristo não teria insuflado acérrimas discussões

teológicas já no início da cristandade. Se esta epístola, com o seu conteúdo quase herético

permaneceu como parte oficial do texto evangélico canônico, deve ter havido um motivo

bastante forte para isto.

Paulo: O Último Apóstolo

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91

caminho beberá da corrente, e prosseguirá de cabeça erguida

(Sal 110,1-7).

Ainda que citado duas vezes, é uma menção rápida, de passagem, que ao

mesmo tempo que abre a cortina sobre um personagem enigmático125

cerra-a de imediato, pois a narrativa que se segue já muda para outro

contexto.

Mas em Hebreus, também Cristo nos é apresentado sob uma nova

concepção, mais vasta e abrangente: o mundo foi “feito para ele”, e os

anjos (assim como os homens), O adoram, pois que Lhe são

subordinados. Ele é um sacerdote de altíssima hierarquia, segundo uma

Ordem divina, e a sua escolha não foi feita pelos homens, senão por

Deus mesmo.

Os motivos para a instituição deste novo sacerdócio, “segundo

Melquisedek”, podemos encontrá-los em Hebreus 7. Aqui, além do tema

recorrente do sacerdócio no tabernáculo divino, encontramos também

que isto se deveu à “fraqueza e inutilidade” do sacerdócio levítico, que

não foi capaz de levar à consumação:126

De sorte que, se a perfeição fosse pelo sacerdócio levítico

(pois sob este o povo recebeu a lei), que necessidade havia

ainda de que outro sacerdote se levantasse, segundo a ordem

de Melquisedek, e que não fosse contado segundo a ordem de

Arão? Pois, mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz

também mudança da lei. Porque aquele, de quem estas coisas

se dizem, pertence a outra tribo, da qual ninguém ainda serviu

ao altar, visto ser manifesto que nosso Senhor procedeu de

Judá, tribo da qual Moisés nada falou acerca de sacerdotes. E

ainda muito mais manifesto é isto, se à semelhança de

125 De acordo com o E.B.D., “há uma velha tradição entre os judeus de que ele era Shem,

filho de Noé, que estaria vivo nesta época. Melquisedek era um príncipe canaanita, um

adorador do verdadeiro Deus, e em sua peculiar história e caráter um instrutivo tipo de

Nosso Senhor, o grande Sumo Sacerdote (Heb 5,6; 7; 6,20). Uma das tabuletas de Amarna é

de Ebed-Tob, rei de Jerusalém, no qual ele afirma os verdadeiros atributos e dignidades

dados a Melquisedek na Epístola aos Hebreus”.

126 O trecho em Heb 7,11 também pode ser assim traduzido: Porque, se tivesse havido a

consumação pelo sacerdócio levítico.

Paulo: O Último Apóstolo

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Melquisedek se levanta outro sacerdote, que não foi feito

conforme a lei de um mandamento carnal, mas segundo o

poder duma vida indissolúvel. Porque dele assim se testifica:

Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de

Melquisedek. Pois, com efeito, o mandamento anterior é abrogado

por causa da sua fraqueza e inutilidade (pois a lei

nenhuma coisa aperfeiçoou), e desta sorte é introduzida uma

melhor esperança, pela qual nos aproximamos de Deus (Heb

7,11-19).

Ainda no tempo de Moisés, quando foi instituído o sacerdócio perpétuo,

Aarão127 foi escolhido segundo a Casa de Levi. Este sacerdócio, no

entanto, foi ab-rogado, em virtude de sua “fraqueza e inutilidade”, e por

estar instituído por uma lei que se baseia na carne (Heb 7,16).

De acordo com o que já vimos, o sacerdócio tinha o seu fulcro no ato do

“sacrifício”, que nas épocas mais recuadas ainda recorria ao próprio

sacrifício humano.

A mudança de mentalidade tinha que passar por uma mudança nas

crenças religiosas, firmando a fé em um Deus único e abandonando o

pluralismo ou politeísmo. E a única pessoa que poderia realmente efetuar

esta transição era Abraão.

Abraão,128 profeta tão distante no passado que é difícil separar a figura

humana da figura lendária, nascido Abrão, teve seu nome mudado por

Deus. Alguns exegetas relatam o fato ligando-o a uma possível iniciação

religiosa nos mistérios de Deus, que Abraão teria recebido. É

sintomático que Abraão esteja ligado ao episódio das cidades de Sodoma

e Gomorra, cidades destruídas em razão de sua impiedade e

127 Conta a tradição que, na escolha do primeiro Sumo Sacerdote, Moisés escreveu em doze

varas os nomes dos candidatos, um por cada uma das doze Casas. Na Casa de Levi foi

escrito o nome de Aarão, irmão de Moisés e Míriam. As varas foram colocadas diante da

Arca da Aliança, e a que florescesse daria o nome do escolhido. No dia seguinte, a vara com

o nome de Aarão tinha florescido. Além de Sumo Sacerdote, Aarão foi também o porta-voz e

profeta de Moisés.

128 Abraão, Abraham, Ab-Raham. Este nome hebraico simboliza a fecundidade, a geração,

o amor e o sexo, conforme se pode ver da sua origem etimológica, Raham: seio, entranhas,

ventre, matriz, sexo. Também Rahamím: interior visceral, coração, amor, misericórdia.

Paulo: O Último Apóstolo

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degeneração. É também sintomático o episódio no qual se menciona o

sacrifício do filho de Abraão, Isaac, que foi substituído por um cordeiro.

Este episódio pode, de certa maneira, ser entendido como uma transição

simbólica universal, ou uma iniciação universal, na qual o sacrifício

humano devido aos deuses antigos foi substituído pelo sacrifício de

animais. Tal sacrifício, denominado sacrifício propiciatório, ou

sacrifício regenerador, estava disseminado por todas as civilizações

mais arcaicas, que viam nela uma forma de manter a continuidade do

mundo, mais do que uma forma de obter poder mundano pelo sacrifício

de inimigos derrotados. Mesmo em civilizações tão recentes quanto as

civilizações centro-americanas, este sacrifício era assim entendido.

A Abraão, o primeiro patriarca do povo hebreu, foi prometido por Deus

que ele teria uma descendência tão numerosa quanto a quantidade de

estrelas no céu e os grãos de areia do mar. Abraão, como vimos, está

ligado ao misterioso e enigmático personagem bíblico, Melquisedek, do

qual se dizia ser rei de Salém e sacerdote do Deus altíssimo. Abraão foi

abençoado por Melquisedek e deu-lhe os dízimos devidos, conforme se

vê em Heb 7,1. A Abraão foi anunciada a nova ordem de sacerdócio,

segundo Melquisedek, porque o antigo sacerdócio levítico segundo

Aarão, que era baseado na carne ao invés do espírito, não conduziu à

consumação (Heb 7,11-19).129

Quando intimado a sacrificar o seu filho, Abraão não hesita nem um

momento; mas antes de levar o cabo este ato, ele ouve do Anjo do

Senhor: Abraão, Abraão! Não deixes cair tua mão sobre a criança, nem

lhe faça mal. Agora, eu sei que temes a Deus, a quem não recusastes o

teu filho único.130 É possível que a antiga ordem de sacerdócio, baseada

na carne, conduzisse aos sacrifícios humanos, os quais, acreditava-se,

deleitavam aos deuses. É possível, também, que as iniqüidades humanas

que teriam conduzido à destruição do mundo pelo dilúvio poderiam tanto

estar baseadas nestas práticas sacrificiais quanto na degeneração dos

costumes. Nos cultos caldeus e cananeus, entre outros, era comum o

sacrifício dos recém-nascidos; Jeremias combateu um costume comum

129 É possível que a antiga ordem sacerdotal tivesse procedido, em alguma época, ao

sacrifício humano, que era um ato bastante comum nas antigas cidades-estado da região

mesopotâmica. A transição para o monoteísmo, que se deveria cumprir na linhagem de

Abraão, exigia uma profunda reforma religiosa que entre outras coisas aboliria este tipo de

sacrifício.

130 Conforme Gen 22,11-12.

Paulo: O Último Apóstolo

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94

entre os seus contemporâneos hebreus, o de sacrificar crianças a Moloc.

Para Abraão, portanto, o sacrifício de seu varão não seria algo inaudito

ou inconcebível. Por isto, devido à sua total confiança e submissão ao

Senhor, o Anjo segura o seu braço e impede-o de consumar o sacrifício.

Tal como num rito de passagem, Abraão, pelos seus atos e em sua

própria pessoa, torna-se o arauto de uma nova era. Na colina de Moriah,

ele ergueu um templo em honra ao Eterno. Foi nesta colina que Davi

viria para implorar por um "coração puro", e onde Jesus Cristo viria

também para, com seu sacrifício, renovar a aliança, selando-a com o seu

sangue. E, de fato, é Abraão (Ibrahim, para os árabes) quem inicia a

linhagem real (de reis "ungidos")131 que, passando por Davi, leva até

Jesus Cristo (Mt, 1,1-16; Lc, 3,23-38; Mc 12,35).

Na Epístola aos Hebreus, como podemos ver, há uma como que

cosmogonia religiosa, uma vasta epopéia espiritual que nos faz perceber

como somos pequenos e míopes, no que se refere à dimensão divina.

Paulo, em suas visões grandiosas e quando arrebatado ao “paraíso”, foi

agraciado com um lampejo desta visão que abarca toda a história

humana, e cujo pálido reflexo apenas podemos imaginar pela leitura

desta epístola. Há, em sua visão, toda uma dinâmica espiritual, uma luta

constante, incessante, cujo final conduz à vitória do espírito ou à amarga

derrota na carne. Acerca deste tema temos em Hebreus uma espécie de

alerta àqueles que, tendo de início acatado e seguido as palavras de

Cristo, não mostrem zelo até o final e venham, finalmente, a se voltar

contra elas. Para estes que assim se comportarem esta será uma

verdadeira “queda espiritual”, pois que estariam como que realizando

uma segunda crucificação; daí porque serão “rejeitados e queimados”.

131 A presença de Deus na língua hebraica expressa-se por diversas palavras: Shekináh,

Fanuel, Kabôd Iahvéh, Imráh Iahvéh. Reis, profetas e sacerdotes deviam ser ungidos com

óleo para marcar esta presença divina, ou a manifestação da Teofania. A unção com óleo, um

gesto ritual, era designada pela palavra Mashash, que significa untar, massagear; designavase

por Meshiah aquele que fora ungido. A palavra grega correspondente é Christôs. De

Meshiah deriva-se a palavra Messias, daí o evangelista colocar na boca de Jesus: "Eu sou o

Messias, eu sou Betel, eu sou o Ungido, eu sou a Shekináh".

Paulo: O Último Apóstolo

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Post-Scriptum

Finalmente, como conclusão final à nossa tese segundo a qual há uma

dimensão oculta e mística na pregação de Paulo, a qual podemos

somente entrever através das entrelinhas do que escreveu, podemos

lançar mão também de uma passagem em Tess (sobre a parusia). Aqui,

Paulo alerta para que os irmãos não se perturbem “nem por epístola” aos

que alegam a proximidade do Dia do Senhor (ou Dia da Ira do Senhor, o

Dies Irae), e diz em continuação: Não vos lembrais de que eu vos dizia

estas coisas quando ainda estava convosco?, como se a lembrar de que

as verdadeiras lições eram orais, e não contidas em epístolas “como [se

fossem] enviadas por nós”:

Ora, quanto à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa

reunião com ele, rogamos-vos, irmãos, que não vos movais

facilmente do vosso modo de pensar, nem vos perturbeis, quer

por espírito, quer por palavra, quer por epístola como enviada

de nós, como se o dia do Senhor estivesse já perto. Ninguém

de modo algum vos engane; porque isto não sucederá sem que

venha primeiro a apostasia e seja revelado o homem do

pecado, o filho da perdição, aquele que se opõe e se levanta

contra tudo o que se chama Deus ou é objeto de adoração, de

sorte que se assenta no santuário de Deus, apresentando-se

como Deus. Não vos lembrais de que eu vos dizia estas coisas

quando ainda estava convosco? E agora vós sabeis o que o

detém para que a seu próprio tempo seja revelado. Pois o

mistério da iniqüidade já opera; somente há um que agora o

detém até que seja posto fora; e então será revelado esse

iníquo, a quem o Senhor Jesus matará como o sopro de sua

boca e destruirá com a manifestação da sua vinda; a esse

iníquo cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás com todo o

poder e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da

injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor

da verdade para serem salvos. E por isso Deus lhes envia a

operação do erro, para que creiam na mentira; para que

sejam julgados todos os que não creram na verdade, antes

tiveram prazer na injustiça. Mas nós devemos sempre dar

graças a Deus por vós, irmãos, amados do Senhor, porque

Paulo: O Último Apóstolo

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Deus vos escolheu desde o princípio para a santificação do

espírito e a fé na verdade, e para isso vos chamou pelo nosso

evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus

Cristo. Assim, pois, irmãos, estai firmes e conservai as

tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por

epístola nossa. E o próprio Senhor nosso, Jesus Cristo, e Deus

nosso Pai que nos amou e pela graça nos deu uma eterna

consolação e boa esperança, console os vossos corações e os

confirme em toda boa obra e palavra (2 Tess 2,1-17).

Paulo: O Último Apóstolo

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Paulo: O Último Apóstolo

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98

Bibliografia:

I) Literatura Religiosa:

1. Abbagnano, Nicola - Dicionário de Filosofia. Ed. Mestre Jou. São

Paulo. 1982.

2. Arrais, Amador (Frei) - Diálogos. Livraria Figueirinhas. Porto. 1944.

3. Ballarini, T. (ed) - Introdução à Bíblia. 2 vols. Editora Vozes.

Petrópolis. 1974/1969.

4. Barbaglio, G. - São Paulo – O Homem do Evangelho. Editora Vozes.

Petrópolis. 1993.

5. Cintra, Raimundo (Frei) - Cristianismo e Esoterismo. In: Revista

Planeta, Maio/1977. Editora Três. São Paulo.

6. Cohn, Norman - Cosmos, Caos e o Mundo Que Virá (As Origens das

Crenças no Apocalipse). Companhia das Letras. São Paulo. 1996.

7. Comblin, J. - Paulo, Apóstolo de Cristo. Editora Vozes. Petrópolis.

1993.

8. Coulanges, Fustel de - A Cidade Antiga (2 vol.). Edameris. São Paulo.

1966.

9. Eusebius - The History of the Church. Penguim Books.

Harmondsworth, Middlesex. 1965.

10. F. Brasileiro, Emídio Silva - O Livro dos Evangelhos. Lúmen Editora.

São Paulo. 2000.

11. González Ruiz, José María - O Evangelho de Paulo. Editora Vozes.

Petrópolis. 1999.

12. Hinnells, John R. (org.) - Dicionário da Religiões. Editora Cultrix. 1978.

13. Hoeller, Stephan A. - A Gnose de Jung. Editora Cultrix. São Paulo.

1995.

14. Jung, C. G. - Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade. Editora

Vozes. Petrópolis. 1979.

15. Keller, Werner - E a Bíblia Tinha Razão. Edições Melhoramentos. S/d.

S/l.

16. Mumford, Lewis – A Condição de Homem. Editora Globo. Porto

Alegre. 1958.

17. Pagels, Elaine - As Origens de Satanás. Ediouro S.A. São Paulo. 1996.

18. Pagels, Elaine - Os Evangelhos Gnósticos. Editora Cultrix. São Paulo.

1979.

19. Riffard, Pierre A. - Esoterismo. Editora Mandarim. São Paulo. 1996.

Paulo: O Último Apóstolo

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99

20. Rops, Daniel - A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. Tavares Martins.

Porto. 1960.

21. Roth, Cecil - Pequena História do Povo Judeu. Fund. Fritz Pinkuss. São

Paulo. 1962.

22. Schiavo, José - Dicionário de Personagens Bíblicos. Ediouro. São Paulo.

1965.

23. Souza, Rômulo Cândido de - Palavra, Parábola. Uma Aventura no

Mundo da Linguagem. Editora Santuário. Aparecida. 1990.

24. Stott, John R. W. - A Mensagem de Gálatas. ABU Editora. São Paulo.

1989.

25. Stott, John R. W. - A Mensagem de Romanos 5-8. ABU Editora. São

Paulo. 1988.

26. Suffert, Georges - Tu és Pedro. Editora Objetiva. Rio de Janeiro. 2001.

27. Swanson, Guy E. - A Origem das Religiões Primitivas. Ed. Forense. São

Paulo. 1960.

28. Van Den Born, A. (org.) - Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Editora

Vozes. Petrópolis. 1992.

29. Welburn, Andrew - As Origens do Cristianismo. Editora Best Seller.

São Paulo. 1991.

II) Textos Bíblicos:

1. A Bíblia de Jerusalém. Edições Paulinas.

2. A Bíblia na Linguagem de Hoje. Sociedade Bíblica do Brasil.

3. A Bíblia Sagrada. Trad. de João Ferreira de Almeida. Sociedade Bíblica

do Brasil.

4. Bíblia Sagrada. Trad. da Vulgata por Pe. Matos Soares. Edições

Paulinas.

5. Bíblia. Texto Eletrônico (Thélos Associação Cultural).

6. Easton’s Bible Dictionary. Texto Eletrônico.

7. King James Bible. Texto Eletrônico.

8. Novo Testamento. Trad. do grego por P. Dr. Frei Mateus Hoepers,

OFM. Ed. Vozes.

Paulo: O Último Apóstolo

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100

Índice

Sumário 3

Abreviações Utilizadas 4

Prefácio do Autor 5

Parte I – Vida e Pregação 7

I – A Vida Civil

De Saulo a Paulo 9

Início das Perseguições 11

Conversão 13

II – A Vida Religiosa

Início da Pregação 15

Primeira Pregações 16

O Problema das Conversões 19

Novas Viagens 20

O Choque com a Filosofia Grega 23

Terceira Viagem 25

Continuação da Terceira Viagem 27

III – Martírio e Morte

Prisão 29

Viagem a Roma 32

Morte 34

Quadro Cronológico 37

Parte II – Em Busca do Paulo Apóstolo

IV – As Epístolas Paulinas

O Problema da Interpretação 41

Sobre as Cartas aos Corinthios 43

As Cartas Duvidosas 44

Sobre Outras Cartas 45

Diferenças de Interpretação 46

Querelas Doutrinárias 46

V – A Doutrina de Paulo

A Pregação de Paulo 52

A Fé Segundo Paulo 53

Condenação dos Erros 58

Paulo: O Último Apóstolo

_________________________________________________________________________

101

Pregação Conforme o Entendimento 58

Paulo, Apóstolo da Modernidade? 60

O Legado de Paulo 64

Parte III – Em Busca do Paulo Desconhecido

VI – O Esoterismo Cristão

As Disciplinas do Arcano 71

O Ensinamento Secreto de Paulo 74

A Teologia Paulina 77

VII – A Doutrina Mística Cristã

A Dimensão Crística 82

A Epístola aos Hebreus 88

Post-Scriptum 94

Bibliografia 97

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