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domingo, 14 de agosto de 2011

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo (Sto. Afonso Maria de Ligõrio)

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo

Piedosas e edificantes meditações

sobre os sofrimentos de Jesus

Por Sto. Afonso Maria de Ligõrio

Traduzidas pelo Pe. José Lopes Ferreira, C.Ss.R.

Edição PDF de Fl.Castro, abril 2002

VOLUME I

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VOLUME I

Hora 1: Despede-se de Maria e celebra a ceia

Hora 2: Lava os pés aos apóstolos e institui o SS. Sacramento.

Hora 3:. Faz suas últimas recomendações e vai ao horto.

Hora 4: Faz oração no horto.

Hora 5: Põe-se em agonia.

Hora 6: Sua sangue.

Hora 7: É traído por Judas e é preso.

Hora 8: É conduzido a Anás.

Hora 9: É levado a Caifás e recebe a bofetada.

Hora 10: Vendam-lhe os olhos, é espancado e escarnecido.

Hora 11: É levado ao conselho e declarado réu de morte.

Hora 12: É conduzido a Pilatos e acusado.

Hora 13: É escarnecido por Herodes.

Hora 14: É reconduzido a Pilatos e posposto a Barrabás.

Hora 15: É flagelado na coluna.

Hora 16: É coroado de espinhos e mostrado ao povo.

Hora 17: É condenado à morte e sobe ao Calvário.

Hora 18: É despojado de suas vestes e crucificado.

Hora 19: Ora pelos que o crucificaram.

Hora 20: Entrega seu espírito ao Pai.

Hora 21: Morre.

Hora 22: É traspassado com a lança.

Hora 23. É despregado e entregue a sua Mãe.

Hora 24. É sepultado e deixado no sepulcro.

INVOCAÇÃO A JESUS E MARIA

Ó Salvador do mundo, ó amante das almas, ó Senhor, o mais digno objeto

de nosso amor, vós, por meio de vossa Paixão, viestes a conquistar os nossos

corações, testemunhando-lhes o imenso afeto que lhes tendes, consumando

uma redenção que a nós trouxe um mar de bênçãos e a vós um mar de penas

e ignomínias. Foi por este motivo principalmente que instituístes o SS. Sacramento

do altar, para que nos lembrássemos continuamente de vossa Paixão,

como diz S. Tomás: ut autem tanti beneficii jugis in nobis maneret memoria,

corpus suum in cibum fidelibus dereliquit (Opusc. 57). E já antes dele disse S.

Paulo: Quotiescumque enim manducabitis panem hunc... mortem Domini

annunciabitis (1Cor 11,26). Como tais prodígios de amor já tendes conseguido

que inúmeras almas santas, abrasadas nas chamas de vosso amor, renunciassem

a todos os bens da terra, para se dedicarem exclusivamente a amar tão

somente a vós, amabilíssimo Senhor. Fazei, pois, ó meu Jesus, que eu me

recorde sempre de vossa Paixão e que, apesar de miserável pecador, vencido

finalmente por tantas finezas de vosso amor, me resolva a amar-vos e a dar-vos

com o meu pobre amor algumas provas de gratidão pelo excessivo amor que

vós, meu Deus e meu Salvador, me tendes demonstrado. Recordai-vos, ó Jesus

meu, que eu sou uma daquelas vossas ovelhinhas, por cuja salvação viestes

à terra sacrificar vossa vida divina. Eu sei que vós, depois de me terdes remido

com vossa morte, não deixastes de me amar e ainda me consagrais o mesmo

amor que tínheis ao morrer por mim na cruz. Não permitais que eu continue a

viver ingrato para convosco, ó meu Deus, que tanto mereceis ser amado e tanto

fizestes para ser de mim amado.

E vós, ó SS. Virgem Maria, que tivestes tão grande parte na Paixão de

vosso Filho, impetrai-me pelos merecimentos de vossas dores a graça de experimentar

um pouco daquela compaixão que sentistes na morte de Jesus e

obtende-me uma centelha daquele amor, que constituiu o martírio de vosso

coração tão compassivo.

Suplico-vos, Senhor Jesus Cristo, que a força de vosso amor, mais ardente

que o fogo, e mais doce que o mel, absorva a minha alma, a fim de que eu

morra por amor de vosso amor, ó vós que vos dignastes morrer por amor de

meu amor. Amém.

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OPÚSCULO I

FRUTOS QUE SE COLHEM

NA MEDITAÇÃO

DA PAIXÃO DE JESUS CRISTO

INTRODUÇÃO

1. O amante das almas, nosso amantíssimo Redentor, declarou

que não teve outro fim, vindo à terra e fazendo-se homem, que acender

o fogo do santo amor nos corações dos homens. “Eu vim trazer

fogo à terra e que mais desejo senão que ele se acenda?” (Lc 12,49).

E, de fato, que belas chamas de caridade não acendeu ele em tantas

almas, particularmente com os sofrimentos que teve de padecer na

sua morte, a fim de patentear-nos o amor imenso que nos dedica!

Oh! quantos corações, sentindo-se felizes nas chagas de Jesus, como

em fornalhas ardentes de amor, se deixaram inflamar de tal modo por

seu amor, que não recusaram consagrar-lhe os bens, a vida e a si

mesmos inteiramente, vencendo corajosamente todas as dificuldades

que se lhes deparavam na observância da Divina lei, por amor

daquele Senhor que, sendo Deus, quis sofrer tanto por amor deles!

Foi justamente este o conselho que nos deu o Apóstolo, para não

desfalecermos mas até corrermos expeditamente no caminho do céu:

“Considerai, pois, atentamente aquele que suportou tal contradição

dos pecadores contra a sua pessoa, para que vos não fatigueis, desfalecendo

em vossos ânimos” (Hb 12,3).

2. Por isso, S. Agostinho, ao contemplar Jesus todo chagado na

cruz, orava afetuosamente: “Escrevei, Senhor, vossas chagas em meu

coração, para que nelas eu leia a dor e o amor: a dor, para suportar

por vós todas as dores; o amor, para desprezar por vós todos os

amores”. Porque, tendo diante dos meus olhos a grande dor que vós,

meu Deus, sofrestes por mim, sofrerei pacientemente todas as penas

que tiver de suportar, e à vista do vosso amor, de que me destes

prova na cruz, eu não amarei nem poderei amar senão a vós.

3. E de que fonte hauriram os santos o ânimo e a força para sofrer

os tormentos, o martírio e a morte, senão dos tormentos de Jesus

crucificado? S. José de Leonissa, capuchinho, vendo que queriam

atá-lo com cordas para uma operação dolorosa que o cirurgião devia

fazer-lhe, tomou nas mãos o seu crucifixo e disse: Cordas? que cor4

das! eis aqui os meus laços. Este Senhor pregado por meu amor com

suas dores obriga-me a suportar qualquer tormento por seu amor. E

dessa maneira suportou a operação sem se queixar, olhando para

Jesus, que “como um cordeiro se calou diante do tosquiador e não

abriu a sua boca” (Is 53,7). Quem mais poderá dizer que padece injustamente

vendo Jesus que “foi dilacerado por causa de nossos crimes?”

Quem mais poderá recusar-se a obedecer, sob pretexto de

qualquer incômodo, contemplando Jesus “feito obediente até à morte?”

Quem poderá rejeitar as ignomínias, vendo Jesus tratado como

louco, como reide burla, como malfeitor, esbofeteado, cuspido no rosto

e suspenso num patíbulo infame?

4. Quem, pois, poderá amar um outro objeto além de Jesus, vendo-

o morrer entre tantas dores e desprezos, a fim de conquistar o

nosso amor? Um pio solitário rogava ao Senhor que lhe ensinasse o

que deveria fazer para amá-lo perfeitamente. O Senhor revelou-lhe

que, para chegar a seu perfeito amor, não havia exercício mais próprio

que meditar freqüentemente na sua Paixão. Queixava-se S. Teresa

amargamente de alguns livros, que lhe haviam ensinado a deixar

de meditar na Paixão de Jesus Cristo, porque isto poderia servir de

impedimento à contemplação da divindade. Pelo que a santa exclamava:

“Ó Senhor de minha alma, ó meu bem, Jesus Crucificado, não

posso recordar-me dessa opinião sem me julgar culpada de uma grande

infidelidade. Pois seria então possível que vós, Senhor, fôsseis um

impedimento para um bem maior? E donde me vieram todos os bens

senão de vós?” E em seguida ajuntava: “Eu vi que, para contentar a

Deus e para que nos conceda grandes graças, ele quer que tudo

passe pelas mãos dessa humanidade sacratíssima, na qual se

compraz sua divina majestade”.

5. Por isso dizia o Padre Baltasar Álvarez que o desconhecimento

dos tesouros que possuímos em Jesus é a ruína dos cristãos, sendo

por essa razão a Paixão de Jesus Cristo sua meditação preferida

e mais usada, considerando em Jesus especialmente três de seus

tormentos: a pobreza, o desprezo e as dores, e exortava os seus

penitentes a meditar freqüentemente na Paixão do Redentor, afirmando

que não julgassem ter feito progresso algum se não chegassem a

ter sempre impresso no coração a Jesus crucificado.

6. Ensina S. Boaventura que quem quiser crescer sempre de virtude

em virtude, de graça em graça, medita sempre Jesus na sua

Paixão. E ajunta que não há exercício mais útil para fazer santa uma

alma do que considerar assiduamente os sofrimentos de Jesus Cristo.

7. Além disso afirmava S. Agostinho (ap. Bern. de Bustis) que

vale mais uma só lágrima derramada em recordação da Paixão de

Jesus, que uma peregrinação a Jerusalém e um ano de jejum a pão e

água. E na verdade, porque vosso amante Salvador padeceu tanto

senão para que nisso pensássemos e pensando nos inflamássemos

no amor para com ele? “A caridade de Cristo nos constrange”, diz S.

Paulo (2Cor 5,14). Jesus é amado por poucos, porque poucos são os

que meditam nas penas que por nós sofreu; que, porém, as medita a

miúdo, não poderá viver sem amar a Jesus: sentir-se-á de tal maneira

constrangido por seu amor que não lhe será possível resistir e deixar

de amar a um Deus tão amante e que tanto sofreu para se fazer

amar.

8. Essa é a razão por que dizia o Apóstolo que não queria saber

outra coisa senão Jesus e Jesus Crucificado, isto é, o amor que ele

nos testemunhou na cruz. “Não julgueis que eu sabia alguma coisa

entre vós senão a Jesus Cristo e este crucificado (1Cor 2,2). E na

verdade, em que livros poderíamos aprender melhor a ciência dos

santos (que é a ciência de amar a Deus) do que em Jesus Crucificado?

O grande servo de Deus, Frei Bernardo de Corleone, capuchinho,

não sabendo ler, queriam seus confrades ensinar-lhe. Ele, porém, foi

primeiro aconselhar-se com seu crucifixo e Jesus respondeu-lhe da

cruz: “Que livro! Que ler! eu sou o teu livro, no qual poderás sempre

ler o amor que eu te consagro!” Oh! que grande assunto de meditação

para toda a vida e para toda a eternidade: um Deus morto por

meu amor!

9. Visitando uma vez S. Tomás d’Aquino a S. Boaventura, perguntou-

lhe de que livro se havia servido para escrever tão belas coisas

que havia publicado. S. Boaventura mostrou-lhe a imagem de Jesus

crucificado, toda enegrecida pelos muitos beijos que lhe imprimira,

dizendo-lhe: “Eis o meu livro, donde tiro tudo o que escreve; ele ensinou-

me o pouco que eu sei”. Todos os santos aprenderam a arte de

amar a Deus no estudo do crucifixo. Fr. João de Alvérnia, todas as

vezes que contemplava Jesus coberto de chagas, não podia conter a

lágrimas. Fr. Tiago de Todi, ouvindo ler a Paixão do Redentor, não só

derramava abundantes lágrimas, mas prorrompia em soluços, oprimido

pelo amor de que se sentia abrasado por seu amado Senhor.

10. S. Francisco fez-se aquele grande serafim pelo doce estudo

do crucifixo. Chorava tanto ao meditar os sofrimentos de Jesus Cristo,

que perdeu quase totalmente a vista. Uma vez encontraram-no

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chorando em altas vozes e perguntaram-lhe a razão. “O que eu tenho?

respondeu o santo, eu choro por causa dos sofrimentos e das

afrontas ocasionadas ao meu Senhor e minha pena cresce e aumenta

vendo a ingratidão dos homens que não o amam e dele se esquecem”.

Todas as vezes que ouvia balar um cordeiro, sentia grande compaixão,

pensando na morte de Jesus, Cordeiro imaculado, sacrificado

na cruz pelos pecados do mundo. Por isso, esse grande amante

de Jesus nada recomendava com tanta solicitude a seus irmãos como

a meditação constante da Paixão de Jesus.

11. Eis, portanto, o livro, Jesus Crucificado, que, se for constantemente

lido por nós, também nós aprenderemos de um lado temer o

pecado e doutro nos abrasaremos em amor por um Deus tão amante,

lendo em suas chagas a malícia do pecado que reduziu um Deus

a sofrer uma morte tão amarga para por nós satisfazer a justiça divina

e o amor que nos manifestou o Salvador, querendo sofrer tanto

para nos fazer compreender o quanto nos amava.

12. Supliquemos à divina Mãe Maria, que nos obtenha de seu

Filho a graça de entrarmos nessa fornalha de amor onde ardem tantos

corações para que aí sejam destruídos nossos afetos terrenos e

possamos nos abrasar naquelas chamas bem-aventuradas que fazem

as almas santas na terra e bem-aventuradas no céu.

CAPÍTULO I

Do amor de Jesus Cristo querendo satisfazer

a justiça divina por nossos pecados

1. A história narra-nos um caso de um amor tão prodigioso que

será a admiração de todos os séculos. Havia um rei, senhor de muitos

reinos, que tinha um único filho, tão belo, tão santo, tão amável,

que, sendo o encanto do seu pai, este o amava como a si mesmo.

Ora, este príncipe se afeiçoou grandemente a um escravo e tendo

este cometido um delito, pelo qual fora condenado à morte, o príncipe

se ofereceu a morrer por ele. O pai, amante apaixonado da justiça,

resolveu condenar seu amado filho à morte, para livrar o escravo do

castigo merecido. E assim aconteceu: o filho morreu justiçado e o

escravo ficou livre.

2. Este caso, que uma só vez se deu e nunca mais se repetirá no

mundo, está consignado nos santos evangelhos, onde se lê que o

Filho de Deus, o Senhor do universo, vendo o homem condenado à

morte eterna por causa do pecado, quis tomar a natureza humana e

pagar com sua morte a pena devida pelo homem. “Foi oferecido porque

ele mesmo o quis” (Is 53,7). E o Eterno Pai o fez morrer na cruz

para nos salvar a nós, míseros pecadores. “Não poupou a seu próprio

Filho, mas o entregou por nós todos” (Rm 8,32). Que vos parece,

alma cristã, este amor do Filho e do Pai?

3. Amado Redentor meu, quisestes então com vossa morte sacrificar-

vos para obter-me o perdão. E que vos darei em reconhecimento?

Muito me obrigastes a amar-vos, muito ingrato serei se não vos

amar com todo o meu coração. Vós me destes vossa vida divina; eu,

mísero pecador, vos consagro a minha vida. Ao menos a vida que me

resta quero empregá-la exclusivamente em amar-vos, obedecer-vos

e dar-vos gosto.

4. Ó homens, ó homens, amemos a este Redentor que, sendo

Deus, não se dedignou sobrecarregar-se com os nossos pecados

para satisfazer com seus sofrimentos pelos castigos que tínhamos

merecido. “Em verdade tomou sobre si as nossas fraquezas e carre6

gou com as nossas dores” (Is 53,4). Diz S. Agostinho que o Senhor,

criando-nos, o fez em virtude de seu poder, mas, remindo-nos, fê-lo

por meio de suas dores (In Joan). Quanto vos devo, ó Jesus, meu

Salvador! Se eu desse mil vezes meu sangue por vós, e sacrificasse

mil vidas, ainda seria pouco. Oh! se eu pensasse continuamente no

amor que nos testemunhastes na vossa Paixão, não poderia certamente

amar outro objeto além de vós. Por aquele amor com que nos

amastes na cruz, dai-me a graça de vos amar com todo o meu coração.

Eu vos amo, bondade infinita, eu vos amo acima de todos os

bens e não vos peço outra coisa que o vosso santo amor.

5. Mas como explicar isto, continua a dizer S. Agostinho, que vosso

amor tenha chegado a tal ponto, ó Salvador do mundo, que, tendo

eu cometido o delito, tenhais vós de pagar a pena? (Medit. c. 7). E

que vos importava, pergunta S. Bernardo, que nos perdêssemos e

fôssemos castigados como havíamos merecido? Por que quisestes

satisfazer por nossos pecados, castigando vossa carne inocente? Por

que quisestes, Senhor, sofrer a morte para dela nos livrar? Ó misericórdia

que não teve e nem terá jamais semelhante! Ó graça que nunca

poderíamos merecer! Ó amor que nunca se poderá compreender!

6. Já Isaías predissera que nosso Redentor deveria ser condenado

à morte e levado ao sacrifício como um inocente cordeiro (Is 53,7).

Que admiração para os Anjos, ó Deus ver seu inocente senhor ser

conduzido como vítima para ser sacrificado sobre o altar por amor do

homem! E que espanto para o céu e o inferno ver um Deus condenado

à morte como um malfeitor, num patíbulo ignominioso, pelos pecados

de suas criaturas!

7. Cristo remiu-nos da maldição da lei, feito por nós maldição,

porque está escrito: “Maldito todo aquele que é pendurado no lenho,

para que a bênção dada a Abraão fosse comunicada aos gentios por

Jesus Cristo” (Gl 3,13). Pelo que se diz S. Ambrósio: “Ele se fez na

cruz maldito para que tu fosses bem-aventurado no reino de Deus”,

(Ep. 47). Portanto, meu caro Salvador, vós, para que obterdes a bênção

divina, vos sujeitastes a abraçar a vergonha de aparecer na cruz

como maldito aos olhos do mundo e abandonado até de vosso eterno

Pai, tormento que vos obrigou a exclamar em alta voz: “Meu Deus,

meu Deus, por que me abandonastes?” Sim, foi por este motivo que

Jesus foi abandonado na sua Paixão, comenta Simão de Cássia, para

que nós não ficássemos abandonados nos pecados por nós cometidos

(Lib. 13 de pass. Dom.). Ó prodígio de misericórdia! Ó excesso de

amor de um Deus para com os homens! E como é possível, meu

Jesus, haver almas que nisso crêem e não vos amam?

8. Ele nos amou e nos lavou dos nossos pecados em seu sangue

(Ap 1,5). Eis, ó homens, até aonde chegou o amor de Jesus por nós:

para lavar-nos das manchas de nossos pecados, ele quis prepararnos

um banho de salvação no seu próprio sangue. Oferece seu sangue,

diz um douto autor, que brada mais alto que o de Abel: este

pedia justiça; o sangue de Cristo, porém, pede misericórdia. Aqui exclama

S. Boaventura: “Ó bom Jesus, que fizestes? Até onde vos levou

o amor? Que coisa vistes em mim que tanto vos enlevou? Por

que quisestes padecer tanto por mim? Quem sou eu, que por tão

grande preço quisestes granjear o meu amor? Ah! compreendo que

tudo é o resultado de vosso amor infinito? Sede para sempre bendito

e louvado.

9. Ó vós todos que passais por este caminho, atendei e vede se

há dor como a minha dor (Jr 1,12). O mesmo seráfico doutor, considerando

estas palavras de Jeremias como pronunciadas por nosso

Salvador, quando se achava na cruz morrendo por nosso amor, diz:

Eu já percebo, ó meu amante Senhor, quanto padecestes neste madeiro

infame, mas o que mais me obriga a amar-vos é compreender o

afeto que me testemunhastes padecendo tanto a fim de ser amado

por mim.

10. O que mais inflamava S. Paulo a amar a Jesus era o pensar

que ele quis morrer não somente por todos em geral, mas também

por ele em particular. “Ele me amou e se entregou a si mesmo por

mim” (Gl 2,20). E assim deve exclamar cada um de nós, porque, como

afirma S. João Crisóstomo, Deus ama cada homem em particular

com o mesmo amor com que ama o mundo universo (In Gl 2). Pelo

que cada um de nós não é menos devedor a Jesus Cristo por ter

padecido por todos do que se tivesse sofrido por cada um em particular.

Ora, se Jesus tivesse morrido para salvar somente a vós, meu

irmão, deixando os outros na sua desgraça original, que obrigação

não teríeis para com ele? Deveis, porém, compreender que maior

obrigação tendes para com ele, dignando-se ele morrer por todos. Se

tivesse morrido exclusivamente por vós, que pena sentiríeis ao pensar

que vossos próximos, pais, irmãos, amigos, teriam de ser condenados

e que depois desta vida viveríeis para todo o sempre separados

deles! Se tivésseis sido reduzido à escravidão com toda a vossa

família e aparecesse alguém a resgatar-vos a vós somente, com que

instâncias não suplicaríeis que, juntamente convosco, resgatasse também

vossos pais e irmãos! E que agradecimentos não havíeis de lhe

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testemunhar, se ele o fizesse para vos contentar? Dizei, pois, a Jesus:

Ah! meu doce Redentor, sem que eu vos suplicasse, vós não só

me haveis resgatado da morte, com o preço do vosso sangue, mas

também os meus parentes e amigos, podendo eu ter toda a esperança

de com eles entrar no vosso gozo no paraíso. Senhor, eu vos agradeço

e vos amo e espero agradecer-vos e amar-vos eternamente

naquela pátria bem-aventurada.

11. Quem poderá explicar o amor que o Verbo divino consagra a

cada um de nós, pergunta S. Lourenço Justiniano, se ele supera o

amor de todos os filhos para com suas mães e de todas as mães

para com seus filhos? (Tr. de Chr. Ag. c. 5) Como revelou o Senhor a

S. Gertrudes, ele estaria pronto a morrer tantas vezes quantas são as

almas condenadas se fossem ainda capazes de redenção. Ó Jesus,

ó bem mais amável que todos os outros bens, por que vos amam os

homens tão pouco? Por favor, fazei que eles conheçam o quanto

padecestes por um só deles, o amor que lhes tendes, o desejo que

vos devora de ser por eles amado, as belas qualidades que possuís

para lhes cativar o amor. Fazei-vos conhecer, ó meu Jesus, fazei-vos

amar.

12. “Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá sua alma por suas

ovelhas” (Jo 10,11). Onde, porém, ó Senhor, se encontram no mundo

pastores semelhantes a vós? Os outros pastores dão a morte às suas

ovelhas para a conservação da própria vida divina para obter a vida

para as vossas amadas ovelhas. E eu sou uma dessas felizes ovelhas,

ó meu amabilíssimo pastor. Que obrigação, pois, a minha, de

amar-vos e de dar a minha vida por vós, já que vós por amor de mim

em particular vos entregastes à morte. E que confiança não devo pôr

no vosso sangue, sabendo que foi derramado para pagar os meus

pecados. E dirás naquele dia: Eu te confessarei, ó Senhor... Eis aqui

o Deus meu Salvador; agirei com toda a confiança e não temerei (Is

12,1-2). E como poderia desconfiar de vossa misericórdia, ó meu

Senhor, contemplando as vossas chagas? Eia, pois, ó pecadores,

recorramos a Jesus, que está em sua cruz como num trono de misericórdia.

Ele aplacou a justiça divina contra nós irritada. Se ofendemos

a Deus, ele fez penitência por nós: basta que tenhamos arrependimento.

13. Ah! meu caríssimo Salvador, a que vos reduziu a compaixão

e o amor que me consagrastes: peca o escravo e vós, Senhor, pagais

a pena. Se penso nos pecados devo, pois, tremer por causa do castigo

que mereço; mas, pensando na vossa morte, tenho mais razão de

esperar que de temer. Ó sangue de Jesus, tu és toda a minha esperança!

14. Mas este sangue, à medida que desperta confiança, obriganos

a ser totalmente de nosso Redentor. O Apóstolo exclama: “Não

sabeis que não sois vossos? Fostes comprados por um grande preço”

(1Cor 6,19). Reconheço, ó meu Jesus, que eu não posso sem

injustiça dispor de mim e de minhas coisas, já que sou propriedade

vossa, visto me haverdes comprado com vossa morte. O meu corpo,

a minha alma, a minha vida não é mais minha, é vossa e inteiramente

vossa. Só em vós, portanto, quero por minha esperança, só a vós

quero amar, ó meu Deus, por mim morto e crucificado. Não tenho

outra coisa para oferecer-vos que esta alma resgatada em vosso sangue,

e ela eu vos ofereço. Permiti que vos ame, pois nada mais quero

fora de vós, meu Salvador, meu Deus, meu amor, meu tudo. Ao tempo

passado fui mui grato para com os homens, mas fui mui ingrato

para convosco. Presentemente eu vos amo e não há coisa que mais

me aflija que o ter-vos desgostado. Ó meu Jesus, dai-me que eu confie

em vossa Paixão e tirai de meu coração todo o afeto que não for

para vós. Quero amar-vos exclusivamente, já que mereceis todo o

meu amor e de tantas maneiras me obrigastes a vos amar.

15. E quem poderá deixar de vos amar, vendo-vos, como o filho

dileto do Eterno Pai, terminar vossa vida com uma morte tão amarga

e desumana por nosso amor? Ó Mãe do belo amor, pelos merecimentos

de vosso coração abrasado em amor, obtende-nos a graça

de viver somente para amar o vosso Filho, que, merecendo um amor

infinito, quis a tanto custo conquistar o amor de um mísero pecador.

Ó amor das almas, meu Jesus, eu vos amo; dai-me mais amor, mais

chamas que me façam viver abrasado em vosso amor. Eu não mereço,

mas vós o mereceis, bondade infinita. Amém, assim o espero, e

assim seja.

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CAPÍTULO II

Jesus quis padecer tanto por nós,

para nos fazer compreender

o grande amor que nos consagra

1. Duas coisas fazem conhecer um amigo, escreve Cícero: fazerlhe

bem e padecer por ele, e esta é a maior prova de um verdadeiro

amor. Deus já tinha demonstrado seu amor ao homem, dispensandolhe

inúmeros benefícios, mas, segundo S. Pedro Crisólogo, beneficiar

unicamente ao homem parecer-lhe-ia muito pouco a seu amor, se

não tivesse encontrado o modo de demonstrar-lhe quanto o amava,

padecendo e morrendo por ele, como o fez de fato, tomando a natureza

humana (Serm. 69). E que maneira mais apta poderia Deus encontrar

para manifestar-nos o amor imenso que nos consagra, do

que fazer-se homem e padecer por nós? Não poderia se manifestar

de outra maneira o amor de Deus para conosco, escreve a esse respeito

S. Gregório Nazianzeno. Meu amado Jesus, muito vos tendes

esforçado por demonstrar-me vosso afeto e patentear-me vossa bondade.

Grande, pois, seria a ofensa a vós feita, se vos amasse pouco

ou amasse outra coisa além de vós.

2. Cornélio a Lápide diz que Deus nos deu o maior sinal de amor,

deixando-se ver coberto de chagas, pregado à cruz e morto por nós.

E antes dele, disse S. Bernardo que Jesus em sua Paixão nos fez

conhecer que seu amor para conosco não podia ser maior do que foi

(De pass. c. 14). Escreve o Apóstolo que, quando Jesus Cristo quis

morrer por nossa salvação, demonstrou até onde chegava o amor de

um Deus para conosco, miseráveis pecadores (Tito 3,4). Ah! meu

amante Salvador, compreendo: todas as vossas chagas me falam do

amor que me tendes. E quem poderá deixar de vos amar, depois de

tantos sinais de vossa caridade? S. Teresa tinha razão de dizer, ó

amabilíssimo Jesus, que quem não vos ama demonstra que vos desconhece.

3. Jesus Cristo, mesmo sem padecer e levando na terra uma vida

agradável e deliciosa, poderia nos obter a salvação. Mas, como diz S.

Paulo, havendo-lhe sido proposto o gozo, sofreu na cruz (Hb 12,2).

Ele recusou as riquezas, as delícias, as honras terrestres, e escolheu

uma vida pobre e uma morte cheia de dores e de opróbrios. E por

quê? Não seria suficiente se ele tivesse suplicado ao Padre Eterno,

com uma petição simples, que perdoasse ao homem a qual, sendo

de valor infinito, bastaria para salvar o mundo e infinitos mundos? por

que foi que ele quis suportar tantos tormentos e uma morte tão cruel,

havendo se separado a alma de Jesus de seu corpo exclusivamente

por pura dor, como nota um autor? (Contens. 1. 10, d. 4 c. 1). Por que

tanto esforço para remir o homem? “Se uma prece de Jesus bastava

para remir-nos, responde S. João Crisóstomo (Serm. 128), contudo

não bastou para nos demonstrar o amor que este Deus nos tinha. O

que bastava à redenção não bastava ao amor”. E S. Tomás confirmao,

dizendo: “Cristo, sofrendo por amor, pagou a Deus mais do que

exigia a reparação da ofensa do gênero humano” (III q. 48, a. 2). Porque

Jesus muito nos amava, desejava também ser muito amado por

nós e por essa razão fez o quanto pôde, mesmo a preço de sofrimentos,

para conquistar o nosso amor e nos fazer compreender que nada

mais lhe restava fazer para ser amado por nós. Ele quis padecer muito,

para obrigar-nos a amá-lo muito, diz S. Bernardo.

4. E que maior prova de amor, diz o próprio Salvador, poderá dar

um amigo a seu amigo, do que dar a vida por seu amor? (Jo 15,13).

Mas vós, ó amantíssimo Jesus, diz S. Bernardo, fizestes mais do que

isso, já que quisestes dar a vida por nós, não vossos amigos, mas

inimigos e rebeldes. É o que faz notar o Apóstolo, quando escreve:

“Deus faz brilhar a sua caridade em nós, porque, quando ainda éramos

pecadores, em seu tempo Cristo morreu por nós” (Rm 5,8). Vós,

pois, ó meu Jesus, quisestes morrer por mim, vosso inimigo, e eu

poderei resistir a tão grande amor? Eia, pois, já que com tanto ardor

desejais que vos ame sobre todas as coisas, repelirei todo outro amor

e quero amar-vos a vós somente.

5. São João Crisóstomo diz que o fim principal que teve Jesus em

sua paixão foi o de manifestar o seu amor e assim atrair os nossos

corações com a recordação dos sofrimentos por nós suportados (De

Pass. s. 6). E S. Tomás ajunta que, por meio da Paixão de Jesus,

chegamos ao conhecimento da grandeza do amor que Deus dedica

ao homem. E já antes dele disse S. João: Nisto conhecemos a caridade

de Deus, que ele entregou sua alma por nós (1Jo 3,16). Ó meu

Jesus, ó cordeiro imaculado, por mim sacrificado na cruz, que não

9

seja baldado o que padecestes por mim, antes fazei que me aproveite

de tantos sofrimentos vossos. Prendei-me inteiramente com os

doces laços de vosso amor, para que não vos abandone nem me

separe mais de vós.

6. Refere S. Lucas que, conversando Moisés e Elias no monte

Tabor sobre a Paixão de Jesus Cristo, denominaram-se um excesso:

“E falaram de seu excesso, que realizaria em Jerusalém” (Lc 9,31).

Com razão, diz S. Boaventura, a Paixão de Jesus foi chamada em

excesso, visto ter sido um excesso de dor e um excesso de amor. Um

autor piedoso acrescenta: Que mais podia padecer que não sofresse?

O sumo excesso de amor atingiu seu zênite (Constens. 1. 10, d.

4). E não é verdade? A lei divina não impõe outra obrigação aos homens

a não ser amar a seu próximo como a si mesmo. Jesus, porém,

amou os homens mais do que a si mesmo, é expressão de S. Cirilo.

Por isso, vos direi com S. Agostinho: Vós, meu amado Redentor,

chegastes a amar-me mais do que a vós mesmo, já que para me

salvar quisestes sacrificar vossa vida divina, vida infinitamente mais

preciosa que as vidas de todos os homens e de todos os anjos juntos.

7. Ó Deus infinito exclama o Abade Guerrico, vós, por amor do

homem (se for lícito dizê-lo), vos tornastes pródigo de vós mesmo. E

como não? pergunta, se não só quisestes dar os vossos bens, mas

até vós mesmo para reaver o homem? Ó prodígio, ó excesso de amor,

digno só de um infinito amor! Quem poderá, mesmo de longe, diz S.

Tomás de Vilanova, compreender a imensidade de vosso amor em

vos amar tanto a nós, míseros vermes, chegando a morrer e a morrer

na cruz por nós? Sim, semelhante amor excede toda medida, toda

inteligência (In Nat. Dom. c. 3).

8. É coisa agradável ver-se alguém estimado por uma alta personagem,

tanto mais se esta estiver disposta a felicitá-lo com uma grande

fortuna. Oh! quanto mais agradável e estimável nos deverá ser o

ver-nos amados por Deus, que nos pode transmitir uma fortuna eterna?

Na antiga lei o homem podia duvidar se Deus o amava com ternura.

Depois, porém, de vê-lo sobre um patíbulo derramar seu sangue

e morrer, como poderíamos ainda duvidar que ele nos ama com

toda a ternura possível? Minha alma, contempla o teu Jesus, como

ele está pendente na cruz, todo chagado: eis como ele te demonstra

bem claramente por suas chagas o amor de que está repleto seu

coração. “O segredo do coração se revela pelas chagas do corpo”,

diz S. Bernardo. Meu caro Jesus, aflige-me ver-vos morrer sob a pressão

de tantas dores nesse madeiro de opróbrio, mas tudo me consola

e me inflama em amor por vós, conhecendo por meio dessas chagas

o amor que me tendes. Serafins do céu, que pensais da caridade

de meu Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim?

9. Afirma S. Paulo que os pagãos, ouvindo pregar que Jesus foi

crucificado por amor dos homens, tinham isso em conta de uma loucura

inacreditável: Nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, que é

para os judeus um escândalo e para os pagãos uma loucura (1Cor

1,23). Como é possível, diziam, crer que um Deus onipotente, que

não precisa de ninguém para ser sumamente feliz, tenha querido fazer-

se homem para salvar os homens e morrer numa cruz? Seria o

mesmo que crer que um Deus se tornou louco de amor pelos homens.

E, assim pensando, recusavam aceitar a fé! Esta grande obra

da redenção, que os pagãos julgavam e chamavam uma loucura,

sabemos nós que Jesus a empreendeu e realizou. Vimos a sabedoria

eterna, diz S. Lourenço Justiniano, o Unigênito de Deus tornado como

louco, por assim dizer, pelo amor excessivo que tinha aos homens.

Sim, porque não deixa de ser uma loucura de amor, ajunta o cardeal

Hugo, querer um Deus morrer pelo homem (In 1Cor 1).

10. O beato Jacopone, que no século fora um literato, feito

franciscano, parecia haver-se tornado louco de amor por Jesus Cristo.

Apareceu-lhe uma vez Jesus e disse-lhe: “Jacopone, por que fazes

essas loucuras?” “Por que as faço? Porque vós mas haveis ensinado.

Se eu sou louco, vós ainda sois mais, havendo querido morrer

por mim”. Também S. Maria Madalena de Pazzi, arrebatada em êxtases,

exclamava: “Ó Deus de amor! Ó Deus de amor! É demais o amor

que tendes às criaturas, ó meu Jesus” (Vita c. 11). Uma vez, toda fora

de si, em êxtases, tomou um crucifixo e se pôs a correr pelo convento,

gritando: “ó amor, ó amor; não cessarei jamais de chamar-vos amor,

ó meu Deus”. E, voltando-se para as Religiosas, disse: “Não sabeis,

caras Irmãs, que o meu Jesus é só amor e até ouso dizer e sempre o

direito, louco de amor?” Dizia que, quando chamava Jesus amor, desejaria

ser ouvida do mundo inteiro, a fim de que fosse conhecido e

amado por todos o amor de Jesus. De quanto em vez se punha a

tocar o sino para que todos os povos da terra, como desejava, se

possível fosse, viessem amar a seu Jesus.

11. Permiti-me dizê-lo, ó meu doce Redentor, muita razão não

tinha em vossa esposa de chamar-vos louco de amor. E não parece

uma loucura o terdes querido morrer por mim, um verme ingrato, como

sou, de quem já prevíeis as ofensas e as traições que vos deveria

10

fazer? Mas se vós, ó meu Deus, quase enlouquecestes por amor de

mim, como é que eu não chego a enlouquecer por amor de um Deus?

Depois de vos haver visto morto por mim, como poderei pensar em

outro, além de vós? como poderei amar outra coisa além de vós? Oh!

sim, meu Senhor, meu sumo bem, mais amável que todos os outros

bens, eu vos amo mais do que a mim mesmo. Prometo-vos não amar

de hoje em diante outro bem fora de vós e pensar sempre no amor

que me haveis demonstrado, morrendo nomeio de tantos tormentos

por mim.

12. Ó flagelos, ó espinhos, ó cravos, ó cruz, ó chagas, ó tormentos,

ó morte de meu Jesus, vós muito me forçais e obrigais a amar a

quem tanto me amou. Ó Verbo encarnado, ó Deus amoroso, minha

alma se abrasa em amor por vós. Desejaria amar-vos tanto que não

tivesse outro prazer que dar-vos prazer, ó dulcíssimo Senhor meu, e

visto que tanto desejais o meu amor, eu protesto que não quero mais

viver senão para vós, e fazer tudo o que quereis de mim. Ó meu Jesus,

ajudai-me, fazei que eu vos agrade inteiramente e sempre, no

tempo e na eternidade. Maria, minha Mãe, rogai a Jesus por mim,

para que me conceda o seu amor, já que outra coisa não desejo nesta

e na outra vida que amar a Jesus. Amém.

CAPÍTULO III

Jesus por nosso amor quis desde o princípio

de sua vida sofrer as penas de sua Paixão.

1. Para fazer-se amar do homem foi que o Verbo divino veio ao

mundo tomar a natureza humana. Veio com tão grande desejo de

sofrer por nosso amor, que não quis perder um só momento em dar

começo a seus tormentos, ao menos pela apreensão. Apenas concebido

no ventre de Maria, já se representou em espírito todos os tormentos

de sua Paixão e para nos obter o perdão e a graça divina se

ofereceu ao Padre Eterno para satisfazer por nós, sujeitando-se a

todas as penas e castigos devidos a nossos pecados. Deste esse

instante começou a padecer tudo o que depois veio a sofrer na sua

dolorosa morte. Ah! meu amorosíssimo Redentor, e eu até agora que

fiz ou que padeci por vós? Se durante mil anos suportasse por vós os

tormentos sofridos pelos mártires, seria ainda pouco em comparação

daquele só primeiro momento em que vos oferecestes e começastes

a padecer por mim.

2. Os mártires sofreram de fato grandes dores e ignomínias, mas

unicamente na ocasião de seu martírio. Jesus padeceu sempre, desde

os tormentos de sua Paixão, já que, desde o primeiro momento,

se pôs diante dos olhos toda a cena horripilante dos tormentos e das

injúrias que devia receber dos homens. Por isso ele, por boca do

profeta, disse: Minha dor está sempre à minha vista (Sl 37,18).Ah!

meu Jesus, vós por meu amor vos mostrastes tão desejoso de padecer,

que quisestes sofrer antes do tempo e eu sou tão ávido de prazeres

da terra. Quantos desgostos vos dei para satisfazer o meu corpo!

Senhor, pelos méritos de vossos padecimentos, tirai-me o afeto aos

prazeres terrenos. Eu proponho por vosso amor abster-me de tal satisfação

(nomeai-a).

3. Deus, por compaixão conosco, não nos revela antes do tempo

os sofrimentos que nos estão preparados. Se a um réu condenado à

forca fosse revelado desde o uso da razão o suplício que o esperava,

poderia ele ter um só dia de alegria? Se, desde o começo de seu

11

reinado, fosse mostrada a Saul a espada que o deveria traspassar;

se Judas previsse o laço que deveria sufocá-lo, quão amarga não

lhes seria a vida! Nosso amável Redentor, desde o primeiro instante

de sua vida, tinha diante dos olhos os açoites, os espinhos, a cruz, os

ultrajes da sua paixão, a morte dolorosa que o esperava. Quando via

as vítimas que eram sacrificadas no templo, sabia muito bem que

todas elas eram figura do sacrifício que esse Cordeiro imaculado deveria

consumar no altar da cruz. Quando via a cidade de Jerusalém,

sabia que aí deveria sacrificar sua vida num mar de dores e de vitupérios.

Quando olhava para sua querida Mãe, já a imaginava agonizante

ao pé da cruz, junto a si moribundo. E assim, meu Jesus, a

vista horrível de tantos males em toda a vossa vida vos afligiu sempre

e vos atormentou antes do tempo de vossa morte. E vós aceitastes

tudo e sofrestes por meu amor.

4. Somente a vista de todos os pecados do mundo, especialmente

dos meus, ó meu aflito Senhor, com os quais já prevíeis que eu vos

havia de ofender, fez que a vossa vida fosse a mais aflita e penosa de

todas as existências passadas e futuras. Mas, ó meu Deus, em que

lei bábara está escrito que um Deus ame tanto uma criatura e que

depois disso a criatura viva sem amar o seu Deus, antes o ofenda e

desgoste? Fazei, Senhor, que eu conheça a grandeza de vosso amor,

para que não vos seja mais ingrato. Ó meu Jesus, se eu vos amasse,

se eu vos amasse deveras, quão doce me seria o padecer por vós.

5. À Sóror Madalena Orsini, que já há longo tempo vivia atribulada,

apareceu uma vez Jesus na cruz, e a animou a sofrer com paciência.

A serva de Deus respondeu: Mas, Senhor, vós só por três horas

estivestes pregado na cruz e eu já há mais anos sofro este tormento.

Repreendendo-a, disse-lhe Jesus Cristo: “Ah! ignorante, que

dizes? Eu, desde o primeiro instante em que me achei no seio de

minha Mãe, sofri no coração tudo aquilo que mais tarde tolerei na

cruz”. E eu, meu caro Redentor, à vista de tantos tormentos que durante

toda a vossa vida sofrestes por meu amor, como posso lamentar-

me das cruzes que vós me enviais para meu bem? Agradeço-vos

haver-me remido com tanto amor e com tanta dor. Vós, para animarme

a sofrer com paciência as penas desta vida, quisestes vos encarregar

de todos os nossos males. Ah! Senhor, fazei que tenha sempre

presentes as vossas dores, para que eu aceite e deseje sempre padecer

por vosso amor.

6. “Grande como o mar é vossa dor” (Lm, 2,13). Como as águas

do mar são salgadas e amargosas, assim a vida de Jesus foi toda

cheia de amarguras e falta de todo o alívio, como ele mesmo disse a

S. Margarida de Cortona. Além disso, como no mar se reúnem todas

as águas da terra, assim em Jesus Cristo se reuniram todas as dores

dos homens. Pela boca do Salmista ele mesmo o afirma: “Salvai-me,

ó meu Deus, porque as águas entraram até a minha alma; cheguei ao

alto mar e a tempestade me submergiu” (Sl 68,1). Ah! meu caro Jesus,

meu amor, minha vida, meu tudo, se eu contemplo exteriormente

o vosso corpo, nada mais vejo senão chagas. Se penetro em vosso

coração desolado, não encontro senão amarguras e opróbrios, que

vos causam mortais agonias. Ah! meu Senhor, quem, além de vós,

que sois uma bondade infinita, se sujeitaria a padecer tanto e morrer

por uma criatura vossa? Mas, porque vós sois Deus, amais como

Deus, com um amor que não pode ser comparado com nenhum outro

amor.

7. S. Bernardo diz: Para remir o escravo, o Pai não poupou a seu

Filho e o Filho não se poupou a si mesmo (Serm. de pass. Dom.). Ó

caridade infinita de Deus: de um lado o Padre Eterno impôs a Jesus

Cristo satisfazer por todos os pecados dos homens (Is 53,6) e doutro

lado, Jesus, para salvar os homens da maneira mais amorosa possível,

quer tomar sobre si a pena que era devida à divina justiça em

todo o seu rigor, do que conclui S. Tomás que ele se submeteu a

todas as dores e a todos os ultrajes em sumo grau. Por essa razão,

Isaías o chama o homem das dores e o mais desprezado de todos os

homens (Is 53,3). E com razão, porque enquanto Jesus era atormentado

em todos os membros e sentidos do corpo, sofria ainda maiores

tormentos em todas as potências de sua alma, visto que as penas

interiores superam imensamente todas as dores externas. Ei-lo, pois,

dilacerado, exangue, tratado como enganador, mágico, doido abandonado

por seus próprios amigos e finalmente perseguido por todos

até findar sua vida sobre um infame patíbulo.

8. Sabeis o que eu fiz para vós (Jo 13,12). Senhor, eu sei quanto

fizestes e padecestes por meu amor, e vós sabeis que até agora nada

fiz por vós. Meu Jesus, ajudai-me a sofrer qualquer coisa por amor de

vós, antes de me atingir a morte. Eu me envergonho de aparecer

diante de vós, mas não quero ser mais aquele ingrato que tenho sido

para convosco há tantos anos. Vós vos privastes de todo o prazer por

mim; eu renuncio por vosso amor a todos os prazeres dos sentidos.

Vós sofrestes tantas dores por mim; eu quero sofrer por vós todas as

penas de minha vida e minha morte. Vós fostes abandonado e eu

consinto em ser abandonado por todos, para que vós não me

12

abandoneis, meu único e sumo bem. Vós fostes perseguido e eu aceito

toda sorte de perseguições. Vós finalmente morrestes por mim e eu

quero morrer por vós. Ah! meu Deus, meu tesouro, meu amor, meu

tudo, eu vos amo, dai-me mais amor.

CAPÍTULO IV

Do grande desejo que teve Jesus de padecer

e morrer por nosso amor

1. Muito terna, amorosa e afetuosa foi aquele declaração que fez

nosso Redentor quando veio à terra, afirmando que ele tinha vindo

para acender nas almas o fogo do amor divino e que não tinha outro

desejo senão ver acesa nos corações de todos os homens essa santa

chama. “Eu vim trazer fogo à terra e que desejo senão que ele se

acenda?” (Lc 12,49). E ajunta imediatamente que desejava ser batizado

no batismo de seu próprio sangue, não para lavar seus próprios

pecados (pois era impecável), mas os nossos, pelos quais ele vinha

satisfazer por seus tormentos. A paixão de Cristo chama-se batismo,

porque fomos purificados por seu sangue, diz S. Boaventura. Em seguida

nosso amantíssimo Jesus, para nos fazer compreender o ardor

desse seu desejo de morrer por nós, acrescenta, com grande expressão

de amor, que ele sentia uma imensa aflição por ter de diferir a

execução de sua paixão, tão grande era o seu desejo de padecer por

nosso amor. Eis suas amorosas palavras: “Tenho de ser batizado em

um batismo e quão grande é minha angústia enquanto não o vejo

cumprido” (Lc 12,50).

2. Ó Deus, abrasado em amor pelos homens, que podíeis mais

dizer e fazer para obrigar-me a vos amar? E que bem vos podia trazer

meu amor, que, para obtê-lo, quisestes morrer e desejastes tão ardentemente

a morte? Se um meu escravo tivesse apenas desejado

morrer por mim, seguramente teria conquistado o meu amor, e poderei

viver sem amar com todo o meu coração a vós, meu Rei e meu

Deus, que por mim morrestes e com tão grande desejo de obter o

meu amor!

3. Sabendo Jesus que chegara a sua hora de se ir deste mundo

para seu Pai, tendo amado os seus, amou-os até ao fim (Jo 13,1). Diz

S. João que Jesus chamou sua hora a hora de sua Paixão, porque,

como escreve um piedoso comentador, foi esse o momento da vida

mais ardentemente desejado por nosso Redentor; com padecer e

13

morrer pelo homem, ele queria fazê-lo compreender o amor imenso

que lhe dedicava: É aquela hora do amante em que padece pelo amigo

(Barrad t. 4. 1. 2., c. 5). É cara ao que ama a hora em que sofre pela

pessoa amada, já que o padecer por outrem é a coisa mais própria

para manifestar-lhe o nosso amor e ganhar-lhe o seu. Ah! meu caro

Jesus, para me patenteardes o vosso grande amor, não quisestes

confiar a outrem a obra de minha redenção. Tão caro vos era o meu

amor, que quisestes padecer tão grandes penas para conquistá-lo. E

que mais poderíeis fazer, se tivésseis de granjear o amor de vosso

Eterno Pai? Que mais poderia padecer um escravo para obter o amor

de seu senhor, do que aquilo que suportastes para serdes amado por

mim, escravo vil e ingrato?

4. Vejamos nosso amado Jesus, já próximo a ser sacrificado sobre

o altar da cruz por nossa salvação, naquela noite bem-aventurada

que precedeu a sua paixão. Ouçamos o que diz a seus discípulos

na última ceia que toma com eles. “Ardentemente desejei comer esta

páscoa convosco” (Lc 22,15). S. Lourenço Justiniano, considerando

estas palavras, assevera que foram todas expressões de amor. Como

se nosso amante Redentor tivesse dito: ó homens, sabei que esta

noite, na qual se dará início à minha paixão, é o tempo pelo qual mais

suspirei durante toda a minha vida, porque agora com meus sofrimentos

e com minha acerba morte vos farei compreender quanto eu

vos amo e assim vos obrigarei a amar-me da maneira mais eficaz

que me é possível. Diz um autor que na paixão de Jesus a onipotência

divina se uniu com o amor; o amor pretendeu amar o homem com

toda a extensão da onipotência e a onipotência procurou satisfazer o

amor em toda a extensão de seu desejo. Ó sumo Deus, vós me haveis

dado tudo, dando-vos a mim, e como posso deixar de amar-vos com

todo o meu ser? Eu creio, sim, eu o creio, que vós morrestes por mim

e como posso amar-vos tão pouco, esquecendo-me tão a miúdo de

vós e do quanto padecestes por mim! E por que, Senhor, não me

sinto todo abrasado no vosso amor, ao pensar na vossa paixão e não

me rendo todo a vós, como tantas almas santas, que, considerando

vossos sofrimentos, tornaram-se presas felizes de vosso amor e deram-

se por inteiro a vós?

5. Dizia a esposa dos Cânticos que, cada vez que seu esposo a

introduzia na sagrada cela de sua paixão, se via de tal modo assaltada

pelo amor divino, que, desfalecida de amor, era obrigada a buscar

alívio ao seu coração ferido: “Introduziu-me em sua adega e ordenou

em mim a caridade. Confortai-me com flores, alentai-me com pomos,

porque desfaleço de amor” (Ct 2,4). E como é possível que uma alma,

pondo-se a considerar a paixão de Jesus Cristo, as dores e a agonia

que tanto afligiram o corpo e a alma de seu amado Senhor, não se

sinta ferida como por outras tantas setas de amor e docemente forçada

a amar a quem tanto o amou? Ó Cordeiro sem mancha, como me

pareceis belo e amável quando vos contemplo nessa cruz assim dilacerado,

ensangüentado e desfigurado! Sim, porque todas essas chamas

que em vós eu vejo, são provas e sinais do grande amor que me

tendes. Ah, se todos os homens vos contemplassem nesse estado,

em que fostes dado um dia em espetáculo a Jerusalém, quem poderia

deixar de sentir-se cativo de vosso amor? Meu amado Senhor,

aceitai o meu amor, pois eu vos consagro todos os meus sentido e

toda a minha vontade. E como vos poderei negar alguma coisa quando

vós não me negastes o vosso sangue, a vossa vida e todo o vosso

ser?

6. Tão grande foi o desejo de padecer por nós, que na noite anterior

à sua morte não somente seguiu espontaneamente para o horto,

onde sabia que os judeus o haviam de prender, mas também disse a

seus discípulos, sabendo que Judas, o traidor, já estava próximo com

a escolta dos soldados: Levantai-vos, vamos; já está próximo quem

me vai trair (Mc 14,42). Quis ele mesmo ir ao seu encontro, como se

viessem para conduzi-lo não já ao suplício da morte, mas à coroa de

um grande reino. Ó meu doce Salvador, fostes ao encontro da morte

com tão ardente desejo de morrer, pelo excessivo anseio que tínheis

de ser amado por mim. E eu não desejarei morrer por vós, meu Deus,

para testemunhar-vos o amor que vos tenho? Sim, meu Jesus, porto

por mim, eu também desejo morrer por vós. Eu vos consagro o sangue,

a vida, tudo o que tenho! Eis-me pronto a morrer por vós como e

quando vos aprouver. Aceitai este mesquinho sacrifício que vos faz

um miserável pecador, que antigamente vos ofendeu, mas agora mais

vos ama do que a si mesmo.

7. S. Lourenço Justiniano considera aquele Sítio que Jesus proferiu

na cruz ao morrer e diz que essa sede não foi uma sede que

provinha da necessidade de água, mas que nascia do fogo do amor

que Jesus sentia por nós: Essa sede provinha do ardor da caridade.

Com essa palavra nosso Redentor quer manifestar-nos, mais que a

sede do corpo, o desejo que tinha de sofrer por nós, demonstrandonos

o seu amor e juntamente o desejo que sentia de ser amado por

nós depois de tantos sofrimentos suportados por nós. E S. Tomás

afirma igualmente: Por este Sítio mostra seu ardente desejo de salva14

ção do gênero humano (In Jo 19,1.5). Ah! Deus de amor, é possível

que fique sem correspondência um tal excesso de caridade? Costuma-

se afirmar que amor com amor se paga, mas com que amor se

poderá pagar o vosso amor? Seria necessário que um outro Deus

morresse por nós, para compensar o amor que nos testemunhastes,

morrendo por nós. Como, pois, Senhor meu, como pudestes afirmar

que vossas delícias consistiram em estar com os homens, se deles

não tendes recebido senão injúrias e maus tratos? O amor, pois, vos

transforma em delícias as dores e os vitupérios que sofrestes por

nós.

8. Ó Redentor amabilíssimo, não quero resistir por mais tendo às

vossas finezas: eu vos consagro todo o meu amor. Vós sereis entre

todas as coisas e haveis de ser sempre o único amor de minha alma.

Fizestes-vos homem para ter uma vida que dar por mim e eu desejaria

ter mil vidas para sacrificá-las todas por vós. Eu vos amo, bondade

infinita, e quero amar-vos com todas as minhas forças; quero fazer

quanto em mim estiver para vos agradar. Vós, inocente, tanto

padecestes por mim e eu, pecador, que mereci o inferno, quero sofrer

por vós o que vos aprouver. Meu Jesus, auxiliai este meu desejo que

vós mesmo me inspirais, pelos vossos merecimentos. Ó Deus infinito,

eu creio em vós, em vós eu espero, a vós eu amo. Maria, minha

Mãe, intercedei por mim. Amém.

CAPÍTULO V

Do amor que Jesus nos mostrou,

deixando-se a si mesmo em comida

antes de entregar-se à morte.

1. Sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste

mundo ao Pai, tendo amado os seus, amou-os até ao fim (Jo 13,1).

Nosso amantíssimo Redentor, na última noite de sua vida, sabendo

que já era chegado o tempo suspirado de morrer por amor dos homens,

não teve ânimo de nos deixar sós neste vale de lágrimas. e

para não se separar de nós nem mesmo depois de sua

morte, quis deixar-se-nos todo em alimento no Sacramento do

altar. Com isto deu-nos a entender que, depois desse dom infinito,

não tinha mais o que dar-nos para nos testemunhar o seu amor.

Cornélio e Lápide, com S. Crisóstomo e Teofilacto, explica segundo o

texto grego a palavra até ao fim e escreve: É como se dissesse: amouos

com um amor supremo e sem limites. Jesus neste sacramento fez

o último esforço de amor para o homem, como diz o Abade Guerrico

(Serm. de Ascens.). Essa idéia foi ainda mais bem expressa pelo sagrado

Concílio de Trento, que, falando do sacramento do altar, disse

que nele nosso Salvador derramou, por assim dizer, todas as riquezas

de seu amor para conosco. (Sess. 13, c.2). Tinha, pois, razão S.

Tomás d’Aquino de chamar este sacramento de sacramento de amor

e o maior penhor de amor que um Deus nos podia dar (Op. 18, c. 25).

E s. Bernardo o chamava amor dos amores. S. Maria Madalena de

Pazzi dizia que uma alma depois de comungar pode exclamar: “Tudo

está consumado”, já que o meu Deus, tendo-se dado todo a mim

nesta comunhão, nada mais tem para comunicar-me. Uma vez perguntou

esta santa a uma de suas noviças em que havia pensado

depois da comunhão? Respondeu-lhe a noviça: no amor de Jesus.

Sim, replicou então a santa, quando se pensa no amor, não se pode

ir mais avante, antes é preciso deter-se nele. O Salvador do mundo,

que pretendeis dos homens, deixando-vos levar a dar-lhes como ali15

mento o vosso próprio ser? E que mais vos resta dar-nos, depois

deste sacramento para nos obrigar a vos amar? Ah! meu Deus

amantíssimo, iluminai-me para que conheça qual foi o excesso de

bondade que vos reduziu a vos fazerdes minha comida na santa comunhão.

Se, pois, vos destes inteiramente a mim, é justo que eu também

me dê todo a vós. Sim, Jesus, eu me dou todo a vós, vos amo

acima de todos os bens e desejo receber-vos para vos amar ainda

mais. Vinde, sim, vinde muitas vezes à minha alma e fazei-a toda

vossa. Ah! se eu pudesse dizer que em verdade como S. Filipe Néri

ao receber a comunhão em viático: “Eis aí o meu amor, eis aí o meu

amor; dai-me o meu amor.”

2. “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece

em mim e eu nele” (Jo 6,57). S. Dionísio Areopagita diz que o amor

tende sempre à união com o objeto amado. E porque a comida se faz

uma só coisa com quem a toma, por isso Nosso Senhor quis fazer-se

comida, para que nós, recebendo-o na santa comunhão, nos tornássemos

uma só coisa com ele: “Tomai e comei: isto é o meu corpo” (Mt

25,26). Como se quisesse dizer, assevera S. João Crisóstomo: Comeime,

para que nos tornemos um só ser (Hom. 15 in Joan), alimenta-te

de mim, ó homem, para que de mim e de ti se faça uma só coisa.

Assim como dois pedaços de cera derretidos, diz S. Cirilo Alexandrino,

se misturam e confundem, da mesma forma uma alma que comunga

se une de tal maneira a Jesus que Jesus está nela e ela em Jesus. Ó

meu amado Redentor, exclama S. Lourenço Justiniano, como pudestes

chegar e amar-vos tanto e de tal modo unir-vos a vós, que o vosso

coração e do nosso não se fizesse senão um só coração? (De div.

amor, c. 5). Tinha, pois, razão S. Francisco de Sales de dizer, falando

da santa comunhão: O Salvador não pode ser considerado em nenhum

outro mistério nem mais amável nem mais terno que neste, no

qual se aniquila, por assim dizer, e se reduz a comida para penetrar

em nossas almas e unir-se ao coração de seus fiéis: E assim, diz S.

João Crisóstomo, nós nos unimos e nos tornamos um corpo e uma

carne com aquele em quem os anjos não ousam fixar seus olhares.

Que pastor, ajunta o santo, alimenta suas ovelhas com seu próprio

sangue? Mesmo as mães dão seus filhos a amas estranhas. Jesus,

porém, nesse sacramento nos alimento com o seu próprio sangue e

une-se a nós (Hom. 60). Em suma, ele quer fazer-se nosso alimento e

uma mesma coisa conosco, porque nos amava ardentemente (Hom.

51).

Ó amor infinito, digno de um infinito amor, quando vos amarei, ó

meu Jesus, como vós me amastes? Ó alimento divino, ó sacramento

de amor, quando me atraireis todo a vós? não podeis fazer mais para

vos fazerdes amar por mim. Eu quero sempre começar a amar-vos,

prometo-vos sempre, mas nunca o começo. Quero começar hoje a

amar-vos deveras. Ajudai-me, inflamai-me, desprendei-me da terra e

não permitais que eu continue a resistir a tantas finezas de vosso

amor. Eu vos amo de todo o coração e por isso quero tudo abandonar

para vos comprazer, minha vida, meu amor, meu tudo. Quero unir-me

muitas vezes convosco neste sacramento, para desprender-me de

tudo e amar somente a vós, meu Deus. Espero de vossa bondade

poder executá-lo com o vosso auxílio.

3. Temos visto a Sabedoria como que enlouquecida pelo excesso

de amor, diz S. Lourenço. E de fato não parece uma loucura de amor,

pergunta S. Agostinho, um Deus dar-se em alimento às suas criaturas?

(In ps. 33 en. 1). E que mais poderia dizer uma criatura a seu

Criador? S. Dionísio Areopagita diz que Deus, por causa da grandeza

de seu amor, como que caiu fora de sim, pois, mesmo sendo Deus,

se fez não só homem, mas até alimento dos homens (Liv. V de div.

Nom. p. 4). Mas tal excesso, Senhor, não convinha à vossa Majestade!

Responde por Jesus S. João Crisóstomo: o amor não procura

razões quando quer fazer bem e manifestar-se ao objeto amado; vai,

não para onde lhe convém, mas para onde o arrasta seu desejo (Sem.

147). Ah! meu Jesus, quanto me envergonho ao pensar que, podendo

vos possuir, bem infinito, mais digno de amor que todos os outros

bens e tão abrasado em amor por minha alma, eu me deixei levar a

amar bens vis e mesquinhos, pelos quais vos abandonei. Por favor, ó

meu Deus, manifestai-me cada vez mais as grandezas de vossa bondade,

para que eu me abrase sempre mais em amor por vós e mais

me esforce para vos agradar. Ah! meu Senhor, que objeto mais belo,

mais perfeito, mais santo, mais amável que vós posso encontrar para

amar? Amo-vos, bondade infinita, amo-vos mais do que a mim mesmo

e quero viver para vos amar e vós que mereceis todo o meu amor.

4. S. Paulo considera o tempo, em que Jesus nos presenteou

com este sacramento, dádiva que ultrapassa todos os outros dons

que um Deus nos podia fazer: (como afirma S. Clemente),o qual sendo

onipotente, nada mais tinha depois disso para nos dar, como atesta

S. Agostinho. O Apóstolo nota e diz: “O Senhor Jesus, na noite em

que foi traído, tomou o pão e dando graças o partiu e disse: Tomai e

comei, isto é o meu corpo, que será entregue por vós (1Cor 11,23).

Naquela mesma noite, pois, na qual os homens pensavam em prepa16

rar a Jesus tormentos e morte, o amante Redentor pensou em deixar-

lhes a si mesmo no SS. Sacramento, dando a entender que seu

amor era tão grande que, em vez de arrefecer com tantas injúrias,

antes mais se acendeu e inflamou com isso. Ah! Senhor amorosíssimo,

como pudestes amar tanto os homens, querendo ficar com eles na

terra como seu alimento, quando eles vos expulsavam com tanta ingratidão?

Note-se, além disso, o imenso desejo que Jesus teve na

sua vida de ver chegar aquela noite em que resolvera deixar-nos esse

grande penhor de seu amor, declarando no momento de instituir este

dulcíssimo sacramento: Desejei ardentemente comer esta páscoa

convosco (Lc 22,15). Estas palavras denunciam o ardente desejo que

tinha de unir-se conosco na comunhão, pelo grande amor que por

nós sentia, diz S. Lourenço Justiniano. E o mesmo desejo conserva

Jesus ainda hoje por todas as almas que o amam. Não se encontra

uma abelha, disse ele um dia a S. Mectildes, que se precipite com

tanto ímpeto sobre as flores para lhes sugar o mel, como eu me dirijo

à alma que me deseja, impelido pela violência de meu amor.

Ó Deus amabilíssimo, não podeis dar-me maiores provas de vosso

amor. Agradeço-vos a vossa bondade. Atraí-me, ó meu Jesus, inteiramente

a vós: fazei que vos ame de hoje em diante com todo o

meu coração e com toda a ternura. Que os outros se contentem de

amar-vos só com um amor apreciativo e predominante: sei que com

isso vos contentais; eu só me contentarei quando vir que amo com

maior ternura que a um amigo, um irmão, um pai e um esposo. E

onde poderei encontrar um amigo, um irmão, um pai, um esposo que

tanto me ame, como vós me amastes, meu Criador, meu Redentor e

meu Deus, que por mim destes o sangue e a vida e ainda a vós

mesmo todo inteiro neste sacramento de amor? Amo-vos, pois, ó meu

Jesus, com todos os meus afetos, amo-vos mais do que a mim mesmo.

Ajudai-me a amar-vos e nada mais vos peço.

5. Diz S. Bernardo que Deus nos amou somente para ser amado

por nós (In Cant. serm. 83). E por isso protestou nosso Salvador que

ele veio à terra para fazer-se amar: Vim trazer fogo à terra! Oh! que

belas chamas de santo amor não acendeu Jesus nas almas por meio

deste diviníssimo sacramento. Dizia o venerável S. Francisco Olímpio,

teatino, que nenhuma coisa é tão apta para inflamar os nossos corações

a amar o sumo bem como a santa comunhão. Hesíquio chamava

a Jesus no SS. Sacramento o fogo divino e S. Catarina viu um dia

nas mãos de um sacerdote a Jesus-Sacramento semelhante a uma

fornalha de amor, admirando-se de não estar o mundo inteiro abrasado

por ela. Segundo o abade Ruperto E S. Gregório Nisseno, o altar

é aquela adega onde a alma, esposa de Jesus, se inebria de amor

por seu Senhor, de tal modo esquecida da terra que se abrasa docemente

e enlanguesce de santa caridade. “Introduziu-me na cela vinária,

diz a esposa dos Cânticos, e ordenou em mim a caridade. Conformaime

com flores e alentai-me com maçãs, porque desfaleço de amor”

(Ct 2,4). Ó amor de meu coração, Santíssimo Sacramento! Oh! se eu

me recordasse sempre de vós e me esquecesse de tudo para amar a

vós somente, sem interrupção e sem reserva. Ah! meu Jesus, tanto

batestes à porta de meu coração que afinal nele entrastes, como eu

o espero. Já, porém, que nele entrastes, peço-vos expulseis dele todos

os afetos que não tendem para vós. Tomai posse de tal modo de

mim que eu possa doravante dizer em toda a verdade com o profeta:

“Que tenho eu no céu e, fora de ti, que desejei sobre a terra?... Deus

de meu coração e minha partilha, Deus para sempre” (Sl 72,25). Meu

Deus, que desejo eu fora de vós nesta terra e no céu? Vós só sois e

sempre sereis o único senhor de meu coração e de minha vontade e

vós só haveis de ser toda a minha partilha, toda a minha riqueza

nesta e na outra vida.

6. Ide, dizia o profeta Isaías, ide e publicai por toda parte as invenções

amorosas de nosso Deus, para obrigar os homens a seu

amor. “Tirareis água com alegria das fontes do Salvador e direis nesse

dia: Louvai o Senhor e invocai o seu nome, fazei conhecidas aos

povos as suas invenções” (Is 12,3). E que invenções não achou o

amor de Jesus para se fazer amar por nós! Na cruz quis ele abrir-nos

nas suas chagas tantas fontes de graças que, para recebê-las, basta

o pedi-las com confiança. E não contente com isso quis dar-se todo a

nós no SS. Sacramento. Ó homem, exclama S. João Crisóstomo, por

que és tão mesquinho e te mostras tão reservado no amor para com

teu Deus, que sem reserva se deu inteiramente a ti? É precisamente

no SS. Sacramento, diz o Doutor Angélico, que Jesus nos dá tudo

quanto é e quanto tem (Opusc. 63, c. 3). Eis o Deus imenso que o

mundo não pode conter, ajunta S. Boaventura, tornado nosso prisioneiro

e cativo, quando vem ao nosso peito na sagrada comunhão (In

praep. Miss. c. 4). Por isso S. Bernardo, considerando, esta verdade,

fora de si de amor, exclamava: O meu Jesus quis fazer-se hóspede

inseparável de meu coração. E já que o meu Deus quis entregar-se

inteiramente a mim para cativar-me o amor, é justo, concluía, que eu

me empregue todo e inteiro em servi-lo e amá-lo.

Ah! meu caro Jesus, dizei-me, que mais vos resta inventar para

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vos fazerdes amar? E eu continuarei a viver tão ingrato para convosco

como o tenho sido até agora? Senhor, não o permitais. Vós dissestes

que quem se alimenta de vossa carne na comunhão viverá por virtude

de vossa graça: “Quem me comer viverá por mim” (Jo 6,58). Visto,

pois, que vos não dedignais vir a mim na sagrada comunhão, fazei

que minha alma viva sempre da verdadeira vida da vossa graça. Arrependo-

me, ó sumo bem, de havê-la desprezado na minha vida passada,

mas vos agradeço o tempo que me dais para chorar as ofensas

que vos fiz. Quero pôr em vós, no restante de minha vida, todo o meu

amor e pretendo agradar-vos quanto em mim estiver. Socorrei-me, ó

meu Jesus, não me abandoneis. Salvai-me por vossos merecimentos,

e minha salvação consista em amar-vos sempre nesta vida e na

eternidade. Maria, minha Mãe, ajudai-me também vós.

CAPÍTULO VI

Do suor de sangue e agonia de Jesus

no horto

1. Contemplai como o nosso amorosíssimo Salvador, chegando

ao jardim de Getsêmani, quis dar começo à sua dolorosa paixão,

permitindo que os sentimentos de temor, de tédio e de tristeza viessem

afligi-lo com todas as suas conseqüência. Começou a ter pavor

e angustiar-se e entristecer-se (Mt 26,37; Mc 14,33). Começou primeiramente

a sentir um grande temor da morte e das penas que teria

em breve de sofrer: Começou a atemorizar-se. Mas como é isso possível?

Não foi então ele que se ofereceu espontaneamente a sofrer

tais tormentos? Foi sacrificado porque ele mesmo o quis. Não foi ele

que tanto desejara o momento de sua paixão, tendo dito pouco antes:

Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco? E agora como

é que está tão cheio de temor de sua morte, que chega a rogar a seu

Pai que dela o livre: Meu Pai, se for possível, afastai de mim este

cálice? (Mt 26,39). S. Beda, o Venerável, responde: Pede se afaste o

cálice para mostrar que é verdadeiramente homem (In Mc 14). Nosso

amantíssimo Senhor muito desejava morrer por nós, para com sua

morte patentear-nos o amor que nos tinha; mas, para que os homens

não pensassem que ele tinha tomado um corpo fantástico (como o

afirmaram alguns hereges) ou então por virtude de sua divindade ele

tivesse morrido sem experimentar nenhuma dor, fez essa súplica a

seu Pai, não para ser atendido, mas para nos dar a entender que

morria como homem e morria atormentado com um grande temor da

morte e das dores que a deviam acompanhar.

Ó Jesus amabilíssimo, quisestes tomar sobre vós a nossa timidez

para nos conceder a vossa coragem no sofrer os trabalhos desta

vida. Sede bendito para sempre por tanta piedade e amor. Que todos

os corações vos amem quanto vós o desejais e mereceis.

2. Começou a angustiar-se. Começou também a sentir um grande

tédio das penas que lhe estavam aparelhadas. Quando se está

desgostoso, até as delícias enfastiam. Oh! quantas angústias

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inseparáveis de tal tédio não deveria causar a Jesus o horrendo aparato

que então lhe passou pela mente, de todos os tormentos exteriores,

que deveria martirizar horrendamente seu corpo e sua alma

bendita! Apresentaram-se distintamente diante de seus olhos todas

as dores que deveria sofrer, todos os escárnios que deveria receber

dos judeus e dos romanos, todas as injustiças que lhe fariam os juízes

de sua causa, e de modo particular se lhe apresentou à mente a

morte dolorosíssima que teria de suportar, abandonado de todos, dos

homens e de Deus, num mar de dores e de desprezos. E foi justamente

isso que lhe ocasionou um desgosto tão amargo que o obrigou

a pedir conforto a seu Pai eterno. Ah! meu Jesus, eu me compadeço

de vós, vos agradeço e vos amo.

3. Apareceu-lhe então um anjo do céu que o confortou (Lc 22,43).

Veio o conforto, mas este mais aumenta do que lhe alivia a dor, diz S.

Beda. Sim, porque o anjo o confortou para padecer mais por amor

dos homens e para glória de seu Pai. Oh! quantas angústias vos causou

este vosso primeiro combate, ó meu amado Senhor! No decorrer

de vossa paixão, os flagelos, os espinhos, os cravos vieram uns após

outros atormentar-vos; no horto, porém, os sofrimentos de toda a vossa

paixão vos assaltam todos juntos e vos afligem ao mesmo tempo. E

vós aceitastes tudo por meu amor e por meu bem. Ah! meu Deus,

quanto me penaliza não vos haver amado pelo passado e ter anteposto

os meus gostos criminosos à vossa santa vontade. Detesto-os

agora mais que todos os males e me arrependo de todo o coração.

Jesus, perdoai-me!

4. Começou a entristecer-se e a magoar-se. Com o temor e com

o tédio, começou Jesus a sentir ao mesmo tempo uma grande melancolia

e aflição de espírito. Mas, Senhor, não fostes vós que infundistes

tão grande alegria aos vossos mártires no meio dos tormentos, que

chegavam até a desprezar os sofrimentos e a morte? De S. Vicente

diz S. Agostinho que falava com tanta alegria ao ser martirizado, que

parecia ser um o que padecia e outro o que falava. Narra-se de S.

Lourenço que, ardendo nas grelhas, era tão grande a consolação

que sentia em sua alma, que insultava o tirano, dizendo: “Vira-me e

come”. Como é que vós, ó meu Jesus, que destes tanta alegria aos

vossos servos na morte, escolhestes para vós uma tristeza tão grande

ao morrer?

5. Ó alegria do paraíso, que alegrais o céu e a terra com o vosso

júbilo, por que vos vejo agora tão aflito e tão triste, e vos ouço dizer

que a tristeza que vos aflige é suficiente para dar-vos a morte? “Minha

alma está triste até à morte” (Mc 14,34). Por que, meu Redentor?

Ah! já vos compreendo: não foram tanto os sofrimentos de vossa paixão,

quanto os pecados dos homens, entre estes os meus, que vos

causaram então aquele grande temor da morte.

6. Tanto o Verbo eterno amava seu Pai quanto odiava o pecado,

do qual bem conhecia a malícia. Por isso, para tirar o pecado do mundo

e para não ver mais seu amado Pai ofendido, ele veio à terra e fezse

homem e resolveu sofrer uma paixão e uma morte tão dolorosa.

Vendo, porém, que, apesar de todas as suas penas, ainda se cometeriam

tantos pecados no mundo, esta dor, diz S. Tomás , superou

toda a dor que qualquer penitente jamais sentiu por suas próprias

culpas e excedeu igualmente qualquer pena que possa afligir um coração

humano. E a razão é que todos os sofrimentos dos homens

são sempre misturados de alguma consolação; mas a dor de Jesus

foi pura, sem lenitivo. Suportou a dor pura sem mistura de nenhuma

consolação (Contens. 1.10, d. 4,c. 1). Ah, se eu vos amasse, se eu

vos amasse, ó meu Jesus, vendo o quanto padecestes por mim, doces

se me tornariam todas as dores, todos os opróbrios e os maus

tratos deste mundo. Concedei-me, peço-vos, o vosso amor, para que

sofra com gosto ou ao menos com paciência o pouco que me é dado

sofrer. Não permitais que eu morra tão ingrato a tantas finezas de

vosso amor. Nas tribulações que me sobrevierem, proponho dizer

sempre: Meu Jesus, abraço estes sofrimentos por vosso amor e os

quero suportar para vos comprazer.

7. Na história lê-se que muitos penitentes, iluminados pela luz

divina sobre a malícia de seus pecados, chegaram a morrer de puro

dor. Que tormento, portanto, deveria suportar o coração de Jesus à

vista de todos os pecados do mundo, todas as blasfêmias, sacrilégios,

desonestidades e de todos os outros crimes cometidos pelos homens

depois de sua morte, dos quais cada um vinha com sua própria

malícia, à semelhança de uma fera cruel, lacerar-lhe o coração. Vendo

isto, dizia então nosso aflito Senhor, agonizando no horto: É esta,

então, ó homens, a recompensa que vós me dais pelo intenso amor

meu? Oh! se eu visse que vós, gratos ao meu afeto, deixaríeis de

pecar e começaríeis a amar-me, com que alegria iria agora morrer

por vós. Mas ver, depois de tantos sofrimentos meus, ainda tantos

pecados; depois de tão grande amor meu, ainda tantas ingratidões, é

isto justamente o que mais me aflige, me entristece até à morte e me

faz suar sangue vivo: “E seu suor tornou-se em gotas de sangue que

corria até a terra” (Lc 22,44). No dizer do Evangelista, este suor

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sangüíneo foi tão copioso que primeiro molhou todas as vestes do

Redentor e depois correu em abundância sobre a terra.

8. Ah! meu terno Jesus, eu não vejo neste horto nem flagelos

nem espinhos, nem cravos que vos firam, e como é que vos vejo todo

banhado em suor de sangue da cabeça aos pés? Foram os meus

pecados a prensa cruel que, à força de aflições e tristeza, fez jorrar

tanto sangue de vosso coração. Também eu fui então um dos vossos

mais cruéis carnífices, ajudando com os meus pecados a atormentar-

vos mais cruelmente. Certo é que se eu houvesse pecado menos,

menos teríeis padecido, ó meu Jesus. Quanto maior foi o meu prazer

em ofender-vos, tanto maior foi a aflição que vos causei ao vosso

coração magoado. E como este pensamento não me faz agora morrer

de dor, ao compreender que paguei o amor, que testemunhastes

na vossa paixão, aumentando vossa tristeza e vossas penas? Fui eu

quem atormentou esse tão amável e amoroso coração que tanto me

amou! Senhor, como agora não possuo outro meio para vos consolar

que arrependendo-me de vos haver ofendido, aflijo-me e arrependome

de todo o meu coração, ó meu Jesus. Dai-me uma dor tão grande

que me faça chorar continuamente até último suspiro de minha vida

os desgostos que vos dei, meu Deus, meu amor, meu tudo.

9. Prostrou-se com o rosto por terra (Mt 26,39). Vendo-se Jesus

sobrecarregado com a incumbência de satisfazer pelos pecados do

mundo inteiro, prostrou-se com a face em terra para suplicar pelo

homem, como se se envergonhasse de levantar os olhos para o céu

ao ver-se sob o peso de tantas iniqüidades. Ah! meu Redentor, eu

vos vejo todo aflito e pálido por vossos sofrimentos e, numa agonia

mortal, rezais: Posto em agonia rezava com mais instância (Lc 22,43).

Dizei-me por quem orais? não foi tanto por vós que então suplicastes,

mas sim por mim, oferecendo ao Eterno Pai vossas poderosas súplicas

unidas às vossas penas, para obter-me o perdão de minhas culpas.

“O qual, nos dias de sua mortalidade, oferecendo com grande

clamor e com lágrimas e súplicas àquele que o podia salvar da morte,

foi atendido pelo seu submisso respeito” (Hb 5,7). Ah! meu Redentor,

como pudestes amar tanto a quem tanto vos ofendeu? Como

pudestes aceitar tantos sofrimentos por mim, conhecendo já então a

ingratidão com que vos haveria de tratar?

10. Ó meu Senhor afligido, fazei que eu participe da dor que então

sentistes pelos meus pecados. Eu os detesto no presente e uno

este meu arrependimento ao pesar que sentistes no horto. Ah! meu

Salvador, não olheis para meus pecados, pois não me bastaria o inferno;

olhai para os sofrimentos que suportastes por mim. Ó amor de

meu Jesus, sois o meu amor e minha esperança. Senhor, eu vos amo

com toda a minha alma e quero amar-vos sempre. Pelos merecimentos

daquela angústia e tristeza que sofrestes no horto, dai-me fervor

e coragem nas empresas para vossa glória. Pelos merecimentos de

vossa agonia, dai-me força para resistir a todas as tentações da carne

e do inferno. Dai-me a graça de me recomendar sempre a vós e de

repetir sempre com Jesus Cristo: Não o que eu quero, mas sim o que

vós quereis. Não se faça a minha, mas sempre a vossa divina vontade.

Amém.

20

CAPÍTULO VII

Do amor de Jesus em sofrer

tantos desprezos em sua paixão

1. Diz Belarmino que os espíritos nobres sentem mais com os

desprezos que com as dores do corpo, pois se estas afligem a carne,

aqueles atormentam a alma, a qual, sendo mais nobre que o corpo,

tanto mais sente as ofensas que lhe são feitas. Mas quem poderia

imaginar que a personagem mais nobre do céu e da terra, o Filho de

Deus, vindo a este mundo por amor dos homens, tivesse de suportar

deles tantos vitupérios e injúrias, como se fosse o último e o mais vil

dos homens. “Nós o vimos desprezado e como o último dos homens”

(Is 53,2). Assevera S. Anselmo que Jesus Cristo quis sofrer tantos e

tão grandes desprezos que não podia ser mais humilhado do que o

foi na sua paixão (In Fl 2). Ó Senhor do mundo, sois o maior de todos

os reis e quisestes ser desprezado mais que todos os homens para

ensinar-me a amar os desprezos. Já, pois, que sacrificastes a vossa

honra por meu amor, quero sofrer por vosso amor todas as afrontas

que me forem feitas.

2. E houve também uma espécie de afrontas que não sofresse na

sua paixão o Redentor? Foi afligido por seus próprios discípulos. Um

deles o atraiçoa e o vende por trinta dinheiros; um outro o renega

mais vezes, protestando publicamente não o conhecer, atestando com

isso envergonhar-se de o haver anteriormente conhecido. Os outros

discípulos, vendo-o preso e ligado, fogem e o abandonam (Mc 14,50).

Ó meu Jesus abandonado, quem tomará a vossa defesa se, no começo

de vossa prisão, que vos são mais caros vos abandonam e

fogem? E afinal, ó meu Deus, essa afronta não terminou com a vossa

Paixão. Quantas almas, depois de se haverem dedicado ao vosso

seguimento e serem favorecidas por vós com muitas graças e sinais

especiais de amor, arrastadas por alguma paixão de vil interesse ou

de loucos prazeres, vos abandonaram com ingratidão? Quem se encontrar

ao número desses ingratos, diga gemendo: Ah! meu caro Jesus,

perdoai-me que não quero mais abandonar-vos; prefiro perder

mil vezes a vida a perder a vossa graça, ó meu Deus, meu amor, meu

tudo.

3. Chegando Judas ao horto juntamente com os soldados, dirigese

para o mestre, abraça-o, beija-o. Jesus deixa-se beijar, mas, conhecendo

seu pérfido desígnio, não pode deixar de se lhe queixar de

sua pérfida traição, dizendo-lhe: Judas, é com um ósculo que entregas

o Filho do homem? (Lc 22,48). E logo os insolentes ministros,

seus comparsas, atropelam Jesus, põem-lhe a mão e o prende como

a um malfeitor: Os ministros dos judeus prenderam a Jesus e o ligaram

(Jo 18,12). Céus, que vejo? Um Deus preso: por quem? Pelos

homens, por vermes criados por ele mesmo. Que dizeis isso , ó anjos

do paraíso? Que têm convosco, pergunta S. Bernardo, as cadeias

dos escravos e dos réus, convosco, que sois o Santo dos santos, o

Rei dos reis e o Senhor dos senhores? (De Pass. c. 4).

Mas se os homens vos prendem, por que vos não desligais e vos

livrais dos tormentos e da morte que estes vos preparam? Eu o compreendo,

não são tanto essas cordas que vos ligam, é o amor que

vos prende e vos obriga a padecer e morrer por nós. “Ó caridade,

quão fortes são os teus vínculos que prendem o próprio Deus, diz S.

Lourenço Justiniano (Lg. vit. c. 6). Ó amor divino, só vós pudestes

prender um Deus e conduzi-lo à morte por amor dos homens.

4. Contempla, ó homem, como esses cães arrastam sua vítima,

diz S. Boaventura, e como ele os segue sem resistência como um

mansíssimo cordeiro. Um o agarra, outro o liga; um o empurra e o

outro o fere (Med. vit. Chr. c. 75). Preso, é nosso doce Salvador conduzido

primeiramente à casa de Anás, depois à de Caifás, onde Jesus,

sendo interrogado por esse malvado a respeito de seus discípulos

e de sua doutrina, responde que não havia falado em segredo

mas publicamente e que os mesmos que ali estavam presentes sabiam

perfeitamente o que havia ensinado (Jo 18,20). A tal resposta um

daqueles ministros, tratando-o de temerário, deu-lhe uma forte bofetada.

Aqui exclama S. Jerônimo: Ó anjos do céu, como podeis guardar

silêncio? será que tão grande paciência vos tornou mudos?

Ah, meu Jesus, como é que uma resposta tão justa e tão modesta

podia merecer uma afronta tão grande na presença de tanta gente?

O indigno pontífice, em vez de repreender a insolência daquele

atrevido, o louva ou ao menos dá-lhe sinais de aprovação. E vós, meu

Senhor, sofreis tudo para pagar as afrontas que eu, miserável, tenho

feito à divina Majestade com os meus pecados. Eu vos agradeço, ó

meu Jesus! Eterno Padre, perdoai-me pelos merecimentos de Jesus.

21

5. Em seguida, o iníquo pontífice perguntou-lhe se ele era realmente

o Filho de Deus: “Conjuro-vos pelo Deus vivo para que vos

digais se sois vós o Cristo, Filho de Deus” (Mt 26,63). Jesus, por respeito

ao nome de Deus, afirmou ser isso a verdade e então Caifás

rasgou as vestes, dizendo que ele havia blasfemado. Todos gritaram

então que ele merecia a morte. Sim, com razão, ó meu Jesus, eles

vos declararam réu de morte, pois quisestes vos encarregar de satisfazer

por mim, que merecia a morte eterna. Mas se com vossa morte

me adquiristes a vida, é justo que eu empregue minha vida inteira e

se necessário for a sacrifique por vós e vosso amor: socorrei-me coma

vossa graça.

6. “Cuspiram-lhe então no rosto e deram-lhe bofetadas” (Mt 26,67).

Depois de o julgarem digno de morte, como um homem já condenado

ao suplício e declarado infame, aquela canalha pôs-se a maltratálo

durante toda a noite com bofetadas, com golpes, com pontapés,

arrancando-lhe a barba, cuspindo-lhe no rosto, motejando dele como

dum falso profeta, dizendo-lhe: “Adivinha, ó Cristo, quem te bateu?”

Tudo já predissera nosso Redentor por Isaías: “Entreguei meu corpo

aos que me feriam e minha face aos que a laceravam; não desviei o

rosto dos que me injuriavam e me cobriam de escarros” (Is 50,6). Diz

o devoto Tauler ser opinião de S. Jerônimo que só no dia do juízo final

serão conhecidas todas as penas e injúrias que Jesus sofreu naquela

noite. S. Agostinho, falando das ignomínias sofridas por Jesus Cristo,

diz: Se este remédio não curar a nossa soberba, não sei o que há de

curá-la (Serm. 1 in dom. 2 quadr.) Ah, meu Jesus, vós tão humilde e

eu tão soberbo! Senhor, dai-me luz, fazei-me conhecer quem sois

vós e quem sou eu.

Então suspiram-lhe no rosto! Ó Deus, que maior afronta, que ser

injuriado com escarros! O último dos ultrajes é receber escarros, diz

Orígenes. Onde se costuma escarrar, senão em lugares sórdidos? E

vós, meu Jesus, sofreis escarros no rosto. Esses iníquos vos o maltratam

com bofetadas e pontapés, vos injuriam e cospem no vosso

rosto, fazem convosco o que querem e não os ameaçais, nem os

reprovais: “O qual, sendo amaldiçoado, não amaldiçoava, sendo maltratado,

não ameaçava, mas entregava-se àquele que o julgava injustamente”

(1Pd 2,23). Como um cordeiro inocente, humilde e manso,

tudo suportastes sem nenhum lamento, oferecendo tudo ao vosso

Pai para nos obter o perdão de nossos pecados: “Como um cordeiro

diante do que o tosquia, emudecerá e não abrirá sua boa” (Is 53,7). S.

Gertrudes, meditando uma vez sobre as injúrias feitas a Jesus na

sua paixão, pôs-se a louvá-lo e abençoá-lo; o Senhor com isso ficou

tão satisfeito, que lho agradeceu amorosamente.

Ah, meu Senhor ultrajado, sois o rei dos céus, o Filho do Altíssimo,

não deveríeis ser maltratado, mas adorado e amado por todas as

criaturas. Eu vos bendigo e dou-vos graças, amo-vos de todo o meu

coração, arrependo-me de vos ter ofendido; ajudai-me e tende compaixão

de mim.

7. Tendo amanhecido, os judeus conduziram Jesus a Pilatos, para

que fosse condenado à morte. Pilatos declara-o inocente: “Não encontro

nenhuma culpa neste homem” (Lc 23,4). E para ver-se livro

dos insultos dos judeus, que continuavam a exigir a morte do Salvador,

o envia a Herodes. Muito se alegrou Herodes por ter Jesus em

sua presença, esperando que, para livrar-se da morte, haveria de

fazer diante dele algum dos muitos prodígios de que ouvira falar. Fezlhe

por isso muitas perguntas. Mas Jesus, porque não queria livrar-se

da morte, haveria de fazer diante dele algum dos muitos prodígios de

que ouvira falar. Fez-lhe por isso muitas perguntas. Mas Jesus, porque

não queria livra-se porque aquele malvado não merecia resposta,

cala-se e não responde. Então esse rei soberbo o desprezou com

toda a sua corte e, cobrindo-o com uma veste branca, para mostrar

que o considerava um ignorante e insensato, o reenviou a Pilatos (Lc

23,11). O cardeal Hugo diz: Zombando dele como de um louco, vestiu-

lhe uma túnica. E S. Boaventura: Desprezou-o como inepto, porque

não fez milagres; como ignorante, porque não respondeu uma

única palavra; como louco, porque se não defendeu.

Ó Sabedoria eterna, ó Verbo divino, só vos faltava essa ignomínia

de ser tratado de louco, privado de senso. Tanto vos interessa a

nossa salvação, que por nosso amor quereis não só ser vituperado,

mas saciado de vitupérios, como já profetizara a vosso respeito

Jeremias: “Apresentará a face a quem o esbofetear e ficará saciado

de opróbrios” (Lm 3,30). E como podeis amar tanto os homens, dos

quais só ingratidões e desprezos recebeis? Ai de mim, que sou um

desses que vos ultrajou mais do que Herodes. Ah, meu Jesus, não

me castigueis como a Herodes, privando-me da vossa voz. Herodes

não vos reconhecia por quem sois, eu vos proclamo meu Deus;

Herodes não vos amava, eu vos amo mais do que a mim mesmo. Por

isso não me recuseis as vozes das inspirações como eu merecia pelas

ofensas que vos fiz. Dizei o que quereis de mim, que eu, com a

vossa graça, estou pronto a executá-lo.

8. Reconduzido Jesus a Pilatos, o governador o apresentou ao

22

povo, para saber a quem queriam libertar nessa páscoa, se a Jesus

ou a Barrabás, o homicida. Mas o povo gritou: Não este, mas Barrabás.

Ao que perguntou Pilatos: Que farei então de Jesus? Responderam:

Crucifica-o. Que mal, porém, praticou este inocente? interroga Pilatos.

Ao que replicam: Seja crucificado. Ó Deus! até agora a maior parte

dos homens continua a dizer: Não este, mas Barrabás, preferindo a

Jesus Cristo um prazer sensual, um ponto de honra, um desabafo de

cólera.

Ah, meu Senhor, vós bem sabeis que houve um tempo em que

vos fiz as mesmas injúrias, quando vos pospus aos meus malditos

prazeres. Meu Jesus, perdoai-me, que eu me arrependo de meu passado

e de hoje em diante quero preferir-vos a todas as coisas. Eu vos

estimo e vos amo acima de todos os bens; prefiro mil vezes morrer a

abandonar-vos. Dai-me a santa perseverança, dai-me o vosso amor.

9. Falaremos depois dos outros opróbrios que Jesus Cristo teve

de sofrer até morrer numa cruz: suportou a cruz, desprezando a ignomínia

(Hb 12,2). Consideremos, entretanto, como em nosso Redentor

se realizou perfeitamente o que dissera o Salmista, isto é, que ele

se tornaria na sua paixão o opróbrio dos homens e o ludíbrio da plebe:

“Eu sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e a

abjeção da plebe” (Sl 21,7), chegando a morrer coberto de vergonha,

justiçado pela mão do carrasco num patíbulo, como um malfeitor, no

meio de dois celerados: “E foi posto no número dos malfeitores” (Is

53,12).

Ó Senhor altíssimo, tornado o mais baixo de todos os homens,

exclama S. Bernardo; ó excelso tornado vil, ó glória dos anjos tornada

o opróbrio dos homens!

10. Ó graça, ó força do amor de um Deus, continua S. Bernardo

(Serm. de pass. Dm.). É assim que o senhor supremo de todos se fez

o ínfimo de todos! E quem fez isto? O amor. Tudo fez o amor que

Deus consagra aos homens, para nos patentear quanto ele nos ama

e ensinar-nos com seu exemplo a sofrer pacientemente os desprezos

e as injúrias. “Cristo padeceu por nós, diz S. Pedro, deixando-vos

o exemplo para que sigais os meus vestígios (1Pd 2,21). Eleazar,

perguntado por sua esposa como podia suportar com tanta paciência

as injúrias que lhe eram feitas, respondeu: Eu me ponho a considerar

Jesus desprezado e confesso que minhas afrontas nada são em comparação

com as que ele, sendo meu Deus, quis suportar por amor de

mim.

Ah, meu Jesus, e como é que eu, à vista de um Deus tão ultrajado

por meu amor, não sei suportar o mínimo desprezo por vosso

amor? Pecador e soberbo! Donde, Senhor, me pode vir este orgulho?

Ah! pelos merecimentos dos desprezos que sofrestes, dai-me a graça

de suportar com paciência e alegria as afrontas e injúrias. Proponho

de agora em diante com o vosso auxílio não mostrar mais ressentimento

e receber com alegria todas as injúrias que me forem feitas.

Outros desprezos mereci eu, que desprezei a vossa divina majestade

e por isso mereci os desprezos do inferno. Vós, meu amado

Redentor, me fizestes mui doces e amáveis as afrontas, abraçando

tantos desprezos por meu amor. Proponho, além disso, para vos

comprazer, beneficiar quanto puder quem me desprezar ou pelo menos

dizer bem dele e rezar por ele. E agora vos suplico encher de

graças aqueles de quem recebi alguma injúria. Eu vos amo, bondade

infinita, e quero amar-vos sempre quanto eu puder. Amém.

23

CAPÍTULO VIII

Da flagelação de Jesus Cristo

1. Entremos no pretório de Pilatos, convertido em horrendo teatro

de ignomínias e dores de Jesus, e consideremos quanto foi injusto,

ignominioso e cruel o suplício que aí sofreu o Salvador do mundo.

Vendo Pilatos que os judeus continuavam a bradar contra Jesus,

injustissimamente o condenou a ser flagelado: “Então Pilatos tomou

a Jesus e mandou açoitá-lo” (Jo 19,1). Pensou esse iníquo juiz que

com esse bárbaro tratamento despertaria a compaixão dos inimigos

e o livraria da morte: “Eu o mandarei punir e depois o soltarei” (Lc

23,22). Era a flagelação castigo reservado só aos escravos. Nosso

amoroso Redentor, diz S. Bernardo, não só quis tomar a forma de

escravo, sujeitando-se à vontade de outrem, mas a de um mau escravo,

para ser castigado com açoites e assim pagar a pena merecida

pelo homem feito escravo do pecado (Sem. de pass. Dm.).

Ó Filho de Deus, ó grande amante de minha alma, como pudestes

vós, Senhor de infinita majestade, amar tanto um objeto tão vil e ingrato

como eu sou, submetendo-vos a tantas para livrar-me do castigo

merecido? Um Deus flagelado! Causa mais espanto um Deus sofrer

o mais insignificante golpe do que os homens todos e todos os

anjos serem destruídos e aniquilados. Ah, meu Jesus, perdoai-me as

ofensas que vos fiz e castigai-me então como vos aprouver. Uma só

coisa desejo: é amar-vos e ser amado por vós e declaro-me então

pronto a sofrer todas as penas que quiserdes.

2. Chegado que foi ao pretório nosso amável Salvador, segundo

a revelação de S. Brígida (1. c., c. 70) ele mesmo se despojou de

suas vestes ao mando dos algozes, abraçou a coluna e entregou as

mãos para serem ligadas. Ó céus, já se dá início ao cruel tormento! Ó

anjos do céu, vinde assistir a este doloroso espetáculo e se não podeis

livrar vosso Rei desse bárbaro ultraje, que os homens lhe fazem, vinde

ao menos chorar de compaixão. E tu, minha alma, imagina-te presente

a esta horrenda carnificina de teu amado Redentor. Contempla

como teu aflito Jesus está com a cabeça baixa, olhando para a terra,

e, todo confuso pela vergonha, espera por esse horrendo tormento. E

eis que os bárbaros, como outros tantos cães raivosos, arremetem

com seus açoites contra o inocente cordeiro. Ah! este bate-lhe no

peito, aquele fere-lhe os ombros; um fustiga-lhe as ilhargas, outro

golpeia-lhe as pernas: mesmo sua sagrada cabeça e sua bela face

não ficam livres de pancadas. Já corre o divino sangue de todas as

partes: já estão embebidos de sangue os azorragues, as mãos dos

algozes, a coluna e a terra. “Todo o seu corpo é rasgado pelos açoites:

ora os ombros, ora as pernas, são atingidas; chagas acrescentam-

se a chagas e golpes a novos golpes” (De ch. ag. c. 14).

Ah, cruéis, por quem o tomais? Cessai, cessai, sabei que vos

enganastes. Esse homem a quem supliciais é inocente e santo: eu

sou réu; a mim, que pequei, pertencem os açoites e os tormentos.

Mas vós, Eterno Pai, como podeis sofrer essa grande injustiça? como

podeis suportar que vosso Filho querido assim padeça? e não o

socorreis? que delito cometeu ele para merecer um castigo tão vergonhoso

e tão cruel?

3. “Eu o castiguei por causa dos crimes de meu povo” (Is 53,8).

Muito bem eu sei, afirma o Padre Eterno, que meu Filho é inocente;

visto, porém, que ele se ofereceu para satisfazer a minha justiça por

todos os pecados dos homens, convém que eu o abandone ao furor

de seus inimigos. Ó meu adorável Salvador, vós, para pagar os nossos

delitos e em especial os pecados de impureza (que é o pecado

mais comum entre os homens), quisestes que fosse dilacerada vossa

carne puríssima. Quem não exclamará com S. Bernardo: “Ó caridade

incompreensível do Filho de Deus para com os homens!” Ah,

meu Senhor flagelado, agradeço-vos tão grande amor e arrependome

de ter-me unido eu também, com os meus pecados, aos vossos

algozes. Eu detesto, ó meu Jesus, a todos esses prazeres depravados

que vos ocasionaram tantas dores. Oh! há quantos anos deveria

estar queimando no inferno. Por que me esperaste até agora com

tanta paciência? Vós me suportastes para que afinal, vencido por

tantas finezas de amor, me rendesse ao vosso amor e deixasse o

pecado. Meu amado Redentor, não quero resistir por mais tempo ao

vosso afeto: quero amar-vos para o futuro quanto em mim estiver.

Vós, porém, já conheceis a minha fraqueza, e as traições com que

vos tratei: desprendei-me de todas as afeições terrenas que me impedem

ser todo vosso; trazei-me continuamente à memória o amor

que me consagrastes e a obrigação que tenho de amar-vos. Em vós

ponho todas as minhas esperanças, meu Deus, meu amor, meu tudo.

24

4. Gemendo, exclama S. Boaventura: “Corre o sangue divino e as

chagas sucedem-se às chagas e as fraturas às fraturas” (Med. vit.

Chr. c. 76). Por toda parte escorria o sangue divino e seu corpo sagrado

tornara-se uma única chaga, mas aqueles cães furiosos não cessavam

de ajuntar feridas sobre feridas, como predissera o Profeta: “E

sobre a dor de minhas chagas acrescentaram novas chagas” (Sl

68,27). Os azorragues não só cobriam de feridas seu corpo inteiro,

como também arrancavam pedaços de carne, ficando essas carnes

sagradas (totalmente rasgadas, podendo-se contar todos os ossos

(Contens. 1. 10, d. 4, c. 1). Diz Cornélio a Lápide que nesse tormento

Jesus Cristo deveria naturalmente morrer: quis, porém, com sua virtude

divina conservar a vida, a fim de sofrer penas ainda maiores por

nosso amor. Já S. Lourenço Justiniano havia afirmado a mesma coisa.

Ah, meu amantíssimo Senhor, digno de um amor infinito, tanto

sofrestes para que eu vos amasse! Não permitais que, em vez de vos

amar, venha ainda a vos ofender e desgostar-vos. Mereceria um inferno

à parte, se, depois de ter conhecido o amor que dedicastes, me

condenasse miseravelmente, desprezando um Deus vilipendiado, insultado

e flagelado por mim e que, além disso, me perdoou tão compassivamente

depois de havê-lo ofendido tantas vezes. Ah, meu Jesus,

não permitais. Ó Deus, o amor e a paciência que me mostrastes

constituiriam no inferno um outro inferno para mim.

5. Este tormento da flagelação foi um dos mais cruéis para o nosso

Redentor, porque foram muitos os algozes que o flagelaram, pois,

segundo a revelação feita a S. Maria Madalena de Pazzi, foram uns

sessenta (Vita c. 6). Ora, estes, instigados pelo demônio e ainda mais

pelos sacerdotes, que temiam que Pilatos depois desse castigo pusesse

o Senhor em liberdade, como já afirmara dizendo: “Castigá-loei

e pô-lo-ei em liberdade”, assentaram tirar-lhe a vida com os açoites.

Acordam todos os doutores com S. Boaventura que escolheram

para esse serviço os instrumentos mais bárbaros, de maneira que

cada golpe abria uma chaga, como diz S. Anselmo, chegando os golpes

a milhares, porque, segundo o Padre Crasset, a flagelação foi

feita conforme o uso dos romanos e não dos judeus, aos quais era

proibido ultrapassar o número de quarenta vergastadas (Dt 25,3).

O historiador Flávio José, que viveu pouco depois de Nosso Senhor,

diz que Jesus foi de tal maneira dilacerado na flagelação, que

foram postas a descoberto as suas costelas. O mesmo foi revelado à

S. Brígida pela Santíssima Virgem: “Eu, que estava presente, vi seu

corpo flagelado até às costas, de modo que eram visíveis suas costelas.

E o mais doloroso era que, ao retraírem-se, os azorragues vinham

com pedaços de carne”. (Lib. I revel., c. 10). Apareceu Jesus

flagelado a S. Teresa. Quis a santa vê-lo retratado tal que lhe aparecera

e disse ao pintor que representasse no braço esquerdo um grande

retalho de carne pendente. Mas de que maneira devo pintá-lo? perguntou

o pintor. Voltando-se então para o quadro, viu-o com o retalho

já pronto. Ah, meu Jesus amado e adorado, quanto padecestes por

meu amor! Ah, que não sejam perdidas para mim tantas dores e tanto

sangue!

6. Mas das mesmas Escrituras se deduz quanto foi desumana a

flagelação de Jesus Cristo. Por que foi que Pilatos, depois da

flagelação, o mostrou ao povo, dizendo: “Eis aqui o homem”, senão

porque nosso Salvador estava reduzido a uma figura tão digna de

compaixão, que ele só com o apresentar ao povo julgava mover à

compaixão até seus mesmos inimigos, levando-os a não exigirem

mais a sua morte? Por que foi que, ao subir Jesus ao Calvário, as

mulheres judias o acompanharam com lágrimas e lamentos? (Lc

23,27). Talvez porque essas mulheres o amavam e o julgavam inocente?

Não, as mulheres comumente seguem os sentimentos de seus

maridos e por isso também elas o tinham como réu. O motivo era que

Jesus, depois da flagelação, oferecia um aspecto tão lastimoso e

deplorável, que movia às lágrimas até os que o odiavam. Por que foi

que nesse mesmo caminho os judeus lhe tiraram a cruz dos ombros

e a deram a Simão para carregar? Segundo se deduz claramente de

S. Mateus: “A este constrangeram para que levasse a cruz de Jesus”

(Mt 27,32) e de S. Lucas: “E puseram-lhe a cruz para que a levasse

após Jesus” (Lc 23,26), fizeram eles isso, talvez, por piedade para

com Jesus e porque queriam aliviar-lhe a pena? Não, pois esses iníquos

odiavam-no e procuravam afligi-lo o mais possível. Mas, como

afirma o B. Dionísio Cartusiano, temiam que lhes morresse no caminho.

Vendo que Nosso Senhor perdera na flagelação quase todo o

sangue e que estava tão privado de forças que quase não podia mais

ter-se em pé, caindo por isso debaixo da cruz ao longo do caminho e

a cada passo, por assim dizer, exalando um último suspiro, foram

constrangidos a obrigar a Cireneu a levar a cruz, visto que o queriam

vivo no Calvário e pregado na cruz, como haviam resolvido, para que

seu nome ficasse para sempre inflamado. “Arranquemo-lo da terra

dos vivos e seu nome não seja mais recordado”, segundo a predição

do Profeta (Jr 11,19).

25

Ah, Senhor, grande é a minha alegria sabendo quanto me tendes

amado e que conservais por mim o mesmo amor que me tínheis no

tempo de vossa paixão. Mas quão grande é a minha dor ao pensar

que ofendi a um Deus tão bom. Pelos merecimentos de vossa

flagelação, ó meu Jesus, vos suplico o meu perdão. Arrependo-me

de vos haver ofendido e proponho antes de morrer que novamente

vos ofender. Perdoai-me todas as ofensas que vos fiz e dai-me a graça

de o futuro amar-vos sempre.

7. O profeta Isaías pinta-nos, mais claramente que todos os outros,

o estado lastimoso a que foi reduzido nosso Redentor. Afirmou

que sua santíssima carne na paixão não só seria toda dilacerada,

mas também toda triturada e despedaçada (Is 53,5). Porque seu Eterno

Pai, continua o Profeta, para dar à sua justiça uma maior satisfação e

para fazer os homens compreenderem a malícia do pecado, não se

contentou enquanto não viu seu Filho retalhado e pisado pelos açoites:

“O Senhor quis quebrantá-lo na sua enfermidade” (Is 53,10), de

maneira que o corpo bendito de Jesus tornou-se semelhante ao de

um leproso, coberto de chagas dos pés à cabeça: “E nós o reputamos

como um leproso ferido por Deus e humilhado” (Is 53,4).

Ó meu Senhor dilacerado, a que estado vos reduziram nossas

iniqüidades! “Ó bom Jesus, nós pecados e vós fostes castigado”, exclama

S. Bernardo. Que a vossa imensa caridade seja para sempre

bendita e vós amado como o mereceis por todos os pecadores e

especialmente por mim, que vos desprezei mais do que os outros.

8. Apareceu uma vez Jesus flagelado a Sóror Vitória Angelini, e

mostrando-lhe seu corpo todo ferido, disse-lhe: Estas chagas todas,

Vitória, te pedem amor. E S. Agostinho, todo abrasado em amor, exclama:

“Amemos o Esposo que tanto mais se nos recomenda, quanto

mais disforme se nos apresenta e tanto mais caro e mais amável se

mostra à sua esposa”. Sim, meu doce Salvador, eu vos vejo todo

coberto de chagas: olho para vosso belo rosto, e, ó Deus, não me

parece nada belo, mas horrível, denegrido pelo sangue, cheio de

equimoses e escarros. “Não tem mais beleza, nem brilho e nós o

vimos e não tinha mais aparência” (Is 53,2). Mas quanto mais desfigurado

vos vejo, ó meu Senhor, tanto mais belo e amável me pareceis,

pois sinais de que são essas deformidades, senão de ternura do amor

que me tendes?

Eu vos amo, ó Jesus, dilacerado e chagado por meu amor. Quisera

ver-me também despedaçado por vós, como tantos mártires que

tiveram tão feliz sorte. Se não posso agora oferecer-vos feridas e sangue,

ofereço-vos ao menos todas as penas que me couberem em

parte; ofereço-vos o meu coração, com o qual quero amar-vos o mais

ternamente possível. E o que deverá amar com mais ternura a minha

alma senão a um Deus flagelado e exangue por mim? Eu vos amo, ó

Deus de amor, eu vos amo, bondade infinita, amo-vos, ó meu amor,

meu tudo: amo-vos, e não quero cessar mais de dizer, nesta e na

outra vida: eu vos amo, eu vos amo. Amém.

26

CAPÍTULO IX

Da coroação de espinhos

1. Continuando os soldados a flagelar cruelmente o inocente Cordeiro,

conta-se que se adiantou um dos presentes e corajosamente

disse-lhes: vós não tendes ordem de matar este homem, como o

pretendeis. E assim dizendo cortou as cordas com que estava ligado

o Senhor. Isto foi revelado a S. Brígida (Lib. 1 Rev., c. 10). Mas, apenas

terminada a flagelação, aqueles bárbaros, instigados e corrompidos

com o dinheiro dos judeus, como assegura S. João Crisóstomo,

fazem o Redentor sofrer um novo gênero de tormentos: “Então os

soldados do governador conduziram Jesus ao pretório e reuniram ao

redor dele toda a corte; despiram-no e revestiram com uma clâmide

vermelha e, tecendo uma coroa de espinhos, a puseram sobre sua

cabeça e na sua mão direita uma cana (Mt 27,27-29). Os soldados,

pois, o despiram novamente e, tratando-o como rei de comédia, lhe

impuseram um manto carmesim, que outra coisa não era senão um

pedaço de um velho manto de soldado romano, chamado clâmide;

deram-lhe na mão uma cana em sinal de cetro e um feixe de espinhos

na cabeça em sinal de coroa.

Mas, ó meu Jesus, não sois vós o verdadeiro rei do universo? e

como vos tornastes rei de dores e de opróbrios? Eis até onde vos

levou o amor. Ó meu amabilíssimo Senhor, quando virá o dia em que

eu me una tão intimamente a vós que nenhuma coisa possa separarme

de vós e não possa mais deixar de vos amar? Ó Senhor, enquanto

vivo nesta terra, estou sempre em perigo de voltar-vos as costas e

negar-vos o meu amor, como infelizmente o fiz no passado. Ah, meu

Jesus, se virdes que eu, continuando a viver, hei de chegar a essa

suma desgraça, fazei-me morrer agora que espero estar em vossa

graça. Rogo-vos por vossa paixão não permitais que me suceda tão

grande desgraça. Eu a mereci pelos meus pecados, mas vós não o

merecestes. Escolhei para mim qualquer outro castigo, mas não esse.

Ó Jesus, não quero ver-me outra vez separado de vós.

2. “E, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lhe sobre a cabeça”.

Bem reflete o devoto Landspérgio que este tomento de espinhos

foi excessivamente doloroso, porque traspassaram toda a sagrada

cabeça do Senhor, , parte sensibilíssima, já que da cabeça

partem todos os nervos e sensações do corpo. Além disso, foi o tormento

mais prolongado da paixão, pois Jesus suportou até à morte

esses espinhos, tendo-os enterrados em sua cabeça. Todas as vezes

que lhe tocavam nos espinhos ou na cabeça, se renovavam todas as

dores. Segundo o sentir comum dos escritos, com S. Vicente Ferrer, a

coroa foi entrelaçada de vários ramos de espinhos em forma de capacete

ou chapéu, de modo que envolvia toda a cabeça e descia até

ao meio da testa conforme foi revelado a S. Brígida (Lib. 4 Rev. c. 70).

E, como afirma S. Lourenço Justiniano com S. Pedro Damião, os espinhos

eram tão longos que chegaram até a penetrar no cérebro (De

triumph. Cti. Ag. c. 14). E o manso Cordeiro deixava atormentar-se ao

gosto deles, sem dizer palavras, sem se lamentar, mas, fechando os

olhos pelo excesso de dor, exalava continuamente amargos suspiros,

como um supliciado que está próximo da morte, conforme foi revelado

à beata Ágata da Cruz. Tão grande era a abundância de sangue

que corria nas feridas da sagrada cabeça que não se via em seu

rosto senão sangue, segundo a revelação de S. Brígida: Várias torrentes

de sangue corriam por sua face, enchendo seus cabelos, seus

olhos, e sua barba, não se vendo outra coisa senão sangue (Lib. 4

Rev. c. 70). E S. Boaventura ajunta que não parecia ser mais a bela

face do Senhor, mas a face de um homem esfolado.

Ó amor divino, exclama Salviano, não sei como apelar-te, se doce,

se cruel, pois pareceis ser ao mesmo tempo doce e cruel (Ep. 1). Ah,

meu Jesus, o amor vos fez a mesma doçura para conosco, levandovos

avos mostrar tão apaixonado para com nossas almas, e ele vos

tornou cruel para convosco, obrigando-vos a sofrer tormentos tão atrozes.

Quisestes ser coroado de espinhos, para obter-nos uma coroa

de glória no céu (Dion. Cart. In Jo 17). Meu dulcíssimo Salvador, espero

ser vossa coroa no paraíso, salvando-me pelos merecimentos

de vossas dores; “aí louvarei sempre o vosso amor e as vossas misericórdias:

cantarei as misericórdias do Senhor eternamente, sim, eternamente”.

3. Ah, espinhos cruéis, ingratas criaturas, por que atormentais de

tal maneira o vosso Criador? Mas que adiante acusar os espinhos?

diz S. Agostinho. Eles foram instrumentos inocentes: nossos pecados,

nossos maus pensamentos foram os espinhos cruéis que atravessaram

a cabeça de Jesus Cristo. Aparecendo um dia Jesus a S.

27

Teresa, coroado de espinhos, a santa pôs-se a pranteá-lo. Disse-lhe,

porém, o Senhor: Teresa, não te deves compadecer das feridas que

me fizeram os espinhos dos judeus, apiada-te antes das chagas que

me fazem os pecados dos cristãos.

Ó minha alma, tu também atormentaste a venerável cabeça de

teu Redentor com teus maus pensamentos. Sabe e vê que má e

amarga coisa é o haveres deixado o Senhor teu Deus (Jr 2,19). Abre

agora os olhos e vê e chora amargamente tua vida inteira os males

que fizeste, voltando as costas com tanta ingratidão ao teu Senhor e

Deus. Ah, meu Jesus, não mereceis ser tratado por mim como eu vos

tratei: Eu fiz mal, eu me enganei; desagrada-me de todo o coração,

perdoai-me e dai-me uma dor que me faça chorar toda a minha vida

os erros que eu cometi. Meu Jesus, meu Jesus, perdoai-me, que eu

quero amar-vos sempre.

4. “E dobrando o joelho diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve,

rei dos judeus. Cuspindo-lhe no rosto tomavam-lhe a cana e batiam-

lhe com ela na cabeça” (Mt 27,29). E S. João acrescenta: “E davam-

lhe bofetadas” (Jo 19,3). Depois de aqueles bárbaros haverem

colocado na cabeça de Jesus aquela crudelíssima coroa, não se contentaram

com enterrá-la com toda a força com as mãos, mas se utilizaram

da cana como de um martelo para fazer entrar mais profundamente

os espinhos. Começaram, entretanto, a zombar dele, como rei

de burla, saudando-o primeiramente de joelhos, como rei dos judeus,

e em seguida, levantando-se, lhe escarravam na face, esbofeteavamno

com gritos e risos de desprezos. Ah, meu Jesus, a que miséria

estais reduzido. Quem por acaso passasse então por aquele lugar e

visse Jesus Cristo esvaído em sangue, coberto com aquele trapo

vermelho, com o tal cetro na mão, com aquela coroa na cabeça e tão

escarnecido e maltratado por aquela gentalha, não haveria de tê-lo

pelo homem mais vil e celerado do mundo? Eis o Filho de Deus tornando

então o vitupério de Jerusalém. Ó homens, se não quereis

amar Jesus Cristo porque ele é bom e é Deus, exclama o beato

Dionísio Cartusiano, amai-o ao menos pelas imensas penas que sofreu

por vós (In cap. 27 Mt).

Ah, meu caro Redentor, recebei um servo que vos abandonou,

mas que, arrependido, agora para vós se volta. Quando eu vos fugia

e desprezava o vosso amor, não deixastes de correr atrás de mim

para atrair-me a vós; por isso não posso temer que me expulseis

agora que vos busco, vos estimo e vos amo sobre todas as coisas.

Fazei-me conhecer o que devo fazer para agradar-vos, pois estou

pronto para tudo. Ó Deus amabilíssimo, quero amar-vos deveras e

não quero desgostar-vos mais. Ajudai-me com vossa graça, não

permitais que vos torne a abandonar. Maria, minha esperança, rogai

a Jesus por mim. Amém.

28

CAPÍTULO X

Do Ecce Homo

1. Pilatos, vendo o Redentor reduzido a um estado tão digno de

toda a compaixão, pensou que a sua só vista comoveria os judeus e

por isso, conduziu-o a uma varanda, levantou o farrapo de púrpura e,

mostrando ao povo o corpo de Jesus coberto de chagas e dilacerado,

disse-lhe: “Eis aqui o homem” (Jo 19,4). Ecce homo, como se quisesse

dizer: Eis o homem que acusastes perante mim como se pretendesse

fazer-se rei; eu, para vos agradar, condenei-o aos flagelos, ainda

que inocente. “Eis o homem, não ilustre pelo império, mas repleto

de opróbrio” (St. Ag. Trac. 11 in Jo 6). Ei-lo reduzido a tal estado que

parece um homem esfolado ao qual restam poucos instantes de vida.

Se, apesar de tudo, pretendeis que eu o condene à morte, afirmo-vos

que não posso fazê-lo, porque não encontro motivo para o condenar.

Mas os judeus, à vista de Jesus assim maltratado, mais se enfurecem:

“Ao verem-no, os pontífices e ministros clamavam, dizendo: ‘Crucifica-

o, crucifica-o’. Vendo Pilatos que não se acalmavam, lavou as

mãos à vista do povo, dizendo: ‘Sou inocente do sangue deste justo:

vós lá vos avinde’. E eles responderam: ‘Seu sangue caia sobre nós e

sobre nossos filhos” (Mt 27,23-26).

Ó meu amado Salvador, vós sois o maior de todos os reis, mas

agora eu vos vejo como o homem mais desprezado, dentre todos: se

esse povo ingrato não vos conhece, eu vos conheço e vos adoro por

meu verdadeiro rei e Senhor. Agradeço-vos, ó meu Redentor, por tantos

ultrajes por mim recebidos e suplico-vos me deis amor aos desprezos

e aos sofrimentos, já que vós os abraçastes com tanto afeto.

Envergonho-me de haver no passado amado tanto as honras e os

prazeres, chegando por sua causa a renunciar tantas vezes à vossa

graça e ao vosso amor; arrependo-me disso mais que de todas as

coisas. Abraço, Senhor, todas as dores e ignomínias que vossas mãos

me enviarem; dai-me aquela resignação de que necessito. Amo-vos,

meu Jesus, meu amor, meu tudo.

2. Assim como Pilatos daquela varanda mostrou Jesus ao povo,

do mesmo modo e ao mesmo tempo o Eterno Pai nos apresentava

do alto do céu o seu Filho dileto, dizendo-nos igualmente: Ecce homo.

Eis aqui esse homem que é meu Filho muito amado, em quem me

comprazi (Mt 3,17). Eis aqui o homem, vosso Salvador, por mim prometido

e por vós há tanto desejado. Eis aqui o homem, o mais nobre

dentre todos os homens, tornado o homem das dores. Ei-lo, vede a

que estado de compaixão o reduziu o amor que vos consagra, e amaio

ao menos por compaixão. Contemplai-o e amai-o, ao menos vos

movam essas dores e ignomínias que sofre por vós.

Ah, meu Deus e Pai de meu Redentor, eu amo vosso Filho, que

padece por meu amor, e eu vos amo a vós que com tão grande amor

o entregastes a tantos tormentos por mim. Não vos recordeis de meus

pecados com os quais tantas vezes vos ofendi e a vosso Filho: “Olhai

para a face de vosso Cristo”, contemplai o vosso Unigênito coberto

de chagas e de opróbrios para pagar os meus delitos e por seus

merecimentos perdoai-me e não permitais que vos ofenda jamais.

“Seu sangue caia sobre nós”. O sangue desse homem, que vos é tão

caro, que por nós vos roga e suplica compaixão, que desça sobre as

nossas almas e lhes obtenha a vossa graça. Odeio e amaldiçôo, ó

Senhor, todos os desgostos que vos dei e amo-vos, bondade infinita,

mais do que a mim mesmo. Por amor desse Filho, dai-me o vosso

amor, que me faça vencer todas as paixões e sofrer todas as penas

que vos agradar.

3. “Saí e vede, filhas de Sião, o rei Salomão com o diadema com

que o coroou sua mãe no dia de suas bodas e no dia da alegria de

seu coração” (Ct 3,11). Saí e vede o vosso rei com a coroa da pobreza,

com a coroa da miséria”, diz S. Bernardo (Serm. 2 de Epip.). Oh, o

mais belo de todos os homens, o maior de todos os monarcas, o mais

amável de todos os esposos, a que estado está reduzido, todo coberto

de chagas e de desprezos! Vós sois esposo, mas esposo de sangue

(Êx 4,25), pois, por meio de vosso sangue e de vossa morte,

quisestes esposar as nossas almas. Vós sois rei, mas rei de dores e

rei de amor, pois a força de tormentos quisestes atrair os nossos

afetos.

Ó amantíssimo esposo de minha alma, oh! se eu me recordasse

sempre do quanto padecestes por mim, não cessaria mais de vos

amar e agradar. Tende piedade de mim que tanto vos custei! Em paga

de tantas penas sofridas por mim, vos contentais com meu amor; por

isso eu vos amo, ó Senhor infinitamente amável, eu vos amo sobre

todas as coisas, mas eu vos amo pouco. Meu amado Jesus, dai-me

29

mais amor, se quereis ser mais amado de mim. Desejo amar-vos muito;

eu, mísero pecador, deveria arder no inferno desde o primeiro instante

em que vos ofendi gravemente; vós, porém, me aturastes desde

então, porque não quereis que eu arda nesse fogo desgraçado, mas

no fogo bem-aventurado do vosso amor. Este pensamento, ó Deus

de minha alma, me abrasa todo no desejo de fazer quanto em mim

estiver para vos agradar. Ajudai-me, ó meu Jesus, e já que fizestes

tanto, completai a vossa obra, fazei-me todo vosso.

4. Continuando os judeus a insultar o governador, gritando: “Tiraio,

tirai-o, crucificai-o”, disse-lhes Pilatos: “Então hei de crucificar o

vosso rei?” E eles responderam: “Nos não temos outro rei senão César”

(Jo 19,15). Os mundanos, que amam as riquezas, as honras e os

prazeres da terra, renegam a Jesus Cristo por seu rei porque Jesus

neste terra não foi rei senão de pobreza, de ignomínia e de dores. Se

eles vos rejeitam, ó meu Jesus, nós vos elegemos por nosso único

rei e vos protestamos: Não temos outro rei senão Jesus. Sim, amável

Salvador, “vós sois meu rei”, sois e sereis sempre o meu único Senhor.

De fato sois vós o verdadeiro rei de nossas almas, pois as criastes

e as remistes da escravidão de Lúcifer. “Venha a nós o vosso reino”.

Dominai, reinai, pois, sempre nos nossos pobres corações; que eles

vos sirvam sempre e vos obedeçam. Que outros sirvam aos monarcas

deste mundo com a esperança dos bens desta terra; nós queremos

servir somente a vós, nosso rei aflito e desprezado, com a única

esperança de vos agradar sem consolações terrenas. De hoje em

diante nos serão caras as dores e as injúrias, que quisestes sofrer

tantas por nosso amor. Dai-nos a graça de vos permanecer fiéis e

para isso dai-nos o grande dom de vosso amor. Se vos amarmos,

amaremos também os desprezos e as penas que tanto amastes e

nada mais vos pediremos além do que vos suplica vosso fiel e devoto

servo S. João da Cruz: “Senhor, sofrer e ser desprezado por vós.

Senhor, padecer e ser desprezado por vós”. Minha mãe Maria,

intercedei por nós. Amém.

CAPÍTULO XI

Da condenação de Jesus Cristo

e sua ida ao Calvário

1. Continuava Pilatos a escusar-se perante os judeus que não

podia condenar à morte aquele inocente. Estes, porém, o atemorizaram,

dizendo: “Se soltares a este, não és amigo de César” (Jo 19,12).

Cego pelo temor de perder as graças de César, esse juiz desgraçado,

depois de ter reconhecido e declarado Jesus Cristo tantas vezes

inocente, o condenou finalmente à morte da cruz: “Então ele lhes

entregou Jesus para que fosse crucificado”. Ó meu amado Redentor,

suspira S. Bernardo, que delito cometestes para ser condenado à

morte e morte de cruz? Mas eu bem compreendo, replica o santo, o

motivo de vossa morte; sei que pecado cometestes: “O vosso pecado

é o vosso amor”. O vosso delito é muito amor que consagrastes aos

homens; é ele e não Pilatos que vos condenou à morte. Não, eu não

vejo justo motivo de vossa morte, acrescenta S. Boaventura, senão o

afeto excessivo que nos tendes (Stim. div. am. p. 1 c. 2). Ah, um tal

excesso de amor muito nos constrange, ó Senhor amabilíssimo, a

consagrar-vos todos os afetos de nossos corações, diz S. Bernardo

(In CT serm. 20). Ó meu caro Salvador, só o conhecimento de que

vós me amais deveria fazer-me esquecido de todas as coisas para

procurar exclusivamente amar-vos e contentar-vos em tudo. “Forte

como a morte é o amor”. Se o amor é forte como a morte, pelos

vossos merecimentos, ó meu Senhor, dai-me um tão grande amor

para convosco que me faça detestar todas as afeições terrenas. Fazeime

compreender bem que toda a minha felicidade consiste em agradar

a vós, Deus todo bondade e todo amor. Maldigo aquele tempo em

que não vos amei; agradeço-vos porque me dais ainda tempo para

vos amar. Amo-vos, Jesus meu, infinitamente amável e infinitamente

amante; amo-vos com todo o meu ser e prometo-vos querer antes mil

vezes morrer, que deixar de vos amar.

2. Lê-se a iníqua sentença de morte ao condenado Jesus: ele a

ouve e humildemente a aceita. Não se queixa da injustiça do juiz, não

30

apela para César, como fez S. Paulo; mas, inteiramente manso e resignado,

se submete ao decreto do Pai Eterno, que por nossos pecados

o condena à cruz. “Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até à

morte e morte de cruz” (Fl 2,8). E pelo amor que dedica aos homens

contenta-se com morrer por nós. “Amou-nos e entregou-se a si mesmo

por nós” (Ef 5,2). Ó meu compassivo Salvador, quanto vos agradeço!

quanto vos sou obrigado! Desejo, ó meu Jesus, morrer por vós,

pois que vós com tão grande amor aceitastes a morte por mim. Mas

se não me é dado derramar o meu sangue por vós e sacrificar-vos a

minha vida pelas mãos do carrasco, como o fizeram os mártires, aceito

ao menos com resignação a morte que me está reservada, e aceitoa

no modo e tempo que vos aprouver. Desde já eu vo-la ofereço em

honra de vossa majestade e em desconto de meus pecados, e peçovos

pelos merecimentos de vossa morte que me concedais a dita de

morrer amando-vos e na vossa graça.

3. Pilatos entrega o inocente cordeiro às mãos daqueles lobos

para que com ele façam o que quiserem: “Entregou Jesus à sua vontade”

(Lc 23,25).Os algozes agarraram-no com fúria, arrancam-lhe

dos ombros o farrapo de púrpura, como lhes insinuaram os judeus, e

restituem-lhe suas vestes (Mt 27,31). Isso fizeram, diz S. Ambrósio,

para que Jesus fosse reconhecido ao menos pelas vestes, visto estar

seu belo rosto tão deformado pelo sangue e pelas feridas, que sem

as suas vestes dificilmente poderia ser reconhecido. Tomam, entretanto,

dois toscos pedaços de madeira, formam com eles às pressas

uma cruz de quinze pés (como afirmam S. Boaventura e S. Anselmo)

e colocam-na sobre os ombros do Redentor. Mas, segundo S. Tomás

de Vilanova, Jesus não esperou que a cruz lhe fosse imposta pelos

algozes: ele mesmo a tomou avidamente com suas mãos e a pôs

sobre os ombros chagados (Conc. 3 de uno M.). Vem, disse então,

vem, cruz querida! Há trinta e três anos por ti suspiro e te busco; eu te

abraço, te aperto ao meu coração, já que és o altar em que desejo

sacrificar a minha vida por amor de minhas ovelhas.

Ah! meu Senhor, como pudestes fazer tanto bem a quem vos fez

tantos males? Ó Deus, quando eu penso que fostes obrigado a morrer

pela veemência dos tormentos para me obter a amizade divina e

que eu a perdi tantas vezes voluntariamente por minha culpa, quereria

morrer de dor. Quantas vezes me haveis perdoado e eu tornei a

vos ofender. Como poderei esperar perdão se não soubesse que

morrestes para perdoar-me? Por essa vossa morte, pois, eu espero o

perdão e a perseverança no vosso amor. Arrependo-me, meu Redentor,

de vos haver ofendido; perdoai-me por vossos merecimentos, que

eu vos prometo não vos dar mais desgosto. Eu estimo e amo a vossa

amizade mais do que todos os bens do mundo. Por isso não permitais

que eu venha a perdê-la de novo; dai-me, Senhor, qualquer castigo

afora esse. Jesus meu, não quero mais perder-vos, prefiro perder a

vida, quero amar-vos sempre.

4. A justiça sai com os condenados e entre eles caminha para a

morte o rei do céu, o Unigênito de Deus, carregado com a cruz: “Levando

sua cruz às costas, saiu para aquele lugar que se chama

Calvário” (Jo 19,17). Saí também do céu, ó bem-aventurados Serafins,

e vinde acompanhar o vosso Senhor que sobe ao Calvário, para aí

ser justiçado em um patíbulo infame juntamente com os malfeitores.

Ó espetáculo horrendo! um Deus supliciado! Este é o Messias que

poucos dias antes foi aclamado Salvador do mundo e recebido pelo

povo com aplausos e bênçãos, exclamando todos: “Hosana ao Filho

de Davi, bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 21,9). Ei-lo

agora preso, escarnecido e amaldiçoado por todos, com uma cruz às

costas para morrer como um malfeitor. Ó excesso de amor divino! Um

Deus supliciado pelos homens. Encontrar-se-á ainda um homem que

não ame este Deus! Ó meu amoroso Jesus, tarde comecei a amarvos,

fazei que no restante de minha vida compense o tempo perdido.

Já sei que tudo o que eu fizer é pouco em comparação do amor que

vós me tendes tido, mas ao menos quero amar-vos com todo o meu

coração. Grande injúria eu vos faria se, depois de tantas finezas, eu

dividisse o meu coração e o repartisse com qualquer objeto além de

vós. Eu vos consagro de hoje em diante toda a minha vida, a minha

vontade, a minha liberdade. Disponde de mim como vos agradar. Peçovos

o paraíso, para lá amar-vos com todas as minhas forças. Muito

quero amar-vos nesta vida, para muito vos amar na eternidade.

Socorrei-me com a vossa graça; peço-vos e o espero pelos vossos

merecimentos.

5. Imagina, minha alma, que vês passar Jesus nesse doloroso

caminho. Assim como um cordeiro é levado ao matadouro, o

amantíssimo Redentor é conduzido à morte (Is 53,7). Ele está tão

esgotado e enfraquecido pelos tormentos, que apenas pode ter-se

em pé. Ei-lo todo dilacerado pelas feridas, com a coroa de espinhos

sobre a cabeça, com o pesado madeiro sobre os ombros e com um

algoz que o puxa por uma corda. Caminha com o corpo curvado, com

os joelhos trêmulos, gotejando sangue; anda com tanta dificuldade,

que parece que a cada passo vai exalar a vida. Pergunta-lhe: Ó cor31

deiro divino, não estais ainda farto de dores? se com isso pretendeis

conquistar o meu amor, deixai de sofrer que eu quero amar-vos como

desejais. Não, responde-te, ainda não estou satisfeito: só então estarei

contente quanto estiver morto por teu amor. E agora aonde ides,

meu Jesus? Vou morrer por ti, não mo impeças; uma só coisa eu

peço e recomendo: quando me vires morto sobre a cruz por ti recorda-

te do amor que te dediquei; lembra-te disso e ama-me.

Ó meu aflito Senhor, quanto vos custou o fazer-me compreender

o amor que me consagrastes. Que vantagem vos poderia trazer meu

amor, que para conquistá-lo quisestes sacrificar vosso sangue e a

vida? E como pude eu, objeto de tão grande amor, viver tanto tempo

sem vos amar, esquecido de vosso afeto? Agradeço-vos a luz que

me dais agora e que faz conhecer o quanto me tendes amado. Eu vos

amo, bondade infinita sobre todas as coisas; desejaria, se pudesse,

sacrificar-vos mil vidas, que quisestes sacrificar a vossa vida divina

por mim. Concedei-me aqueles auxílios que me haveis merecido com

tantas penas para vos amar de todo o coração. Dai-me aquele santo

fogo que viestes acender na terra, morrendo por nós. Recordai-me

sempre da vossa morte, para que nunca mais me esqueça de vos

amar.

6. “Foi posto o principado sobre o seu ombro” (Is 9,6). Diz Tertuliano

que a cruz foi o nobre instrumento com que Jesus Cristo se adquiriu

tantas almas, porque, morrendo nela, pagou a pena de nossos pecados

e assim as resgatou ao inferno, fazendo-as suas. “O qual levou

os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro” (1Pd 2,24). Portanto,

ó meu Jesus, se Deus vos carregou com os pecados de todos

os homens: “Deus colocou nele a iniqüidade de todos nós” (Is 53,6),

eu com os meus pecados vos tornei mais pesada a cruz que levastes

ao Calvário.

Ah, meu dulcíssimo Salvador, já então vistes todas as injúrias

que eu vos faria e apesar disso não deixastes de me amar e de preparar-

me tantas misericórdias que usastes para comigo. Se, pois, vos

fui tão caro, apesar de vilíssimo e ingrato pecador que tanto vos ofendi,

é justíssimo que vós também me sejais caro, vós, meu Deus, beleza

e bondade infinitas, que tanto me tendes amado. Ah, se nunca vos

tivesse desgostado! Conheço agora, ó meu Jesus, o mal que vos fiz.

Malditos pecados, que fizestes? Fizeste-me contristar o coração amoroso

de meu Redentor, coração que tanto me amou. Ó meu Jesus,

perdoai-me que eu me arrependo de vos haver desprezado. Para o

futuro sereis o único objeto de meu amor. Amo-vos, ó amabilidade

infinita, como todo o meu coração, e estou resolvido a não amar a

ninguém mais fora de vós. Senhor, perdoai-me e dai-me o vosso amor

e nada mais vos peço. Digo-vos com S. Inácio: “Dai-me unicamente o

vosso amor coma vossa graça e estou bastante rico”.

7. “Se alguém quiser vir após mim, abnegue-se a si mesmo e

tome sua cruz e siga-me”(Mt 16,24). Visto que vós, inocente, meu

amado Redentor, me precedeis com a vossa cruz e me convidais a

seguir-vos com a minha, ide adiante que eu não quero deixar-vos só.

Se no passado vos abandonei, confesso que procedi mal. Dai-me

agora a cruz que vos aprouver, que eu a abraço, seja qual for, e com

ela quero acompanhar-vos até à morte: “Saiamos fora dos arraiais,

levando o seu impropério” (Hb 13,13). E como é possível, Senhor,

que não amemos por vosso amor as dores e os opróbrios, se vós

tanto os amastes por nossa salvação? Já que nos convidais a seguirvos,

queremos, sim, seguir-vos e morrer convosco, mas dai-nos, força

para executá-lo: essa força vos pedimos por vossos merecimentos

e a esperamos. Amo-vos, meu Jesus amabilíssimo, amo-vos com toda

a minha alma e não quero mais deixar-vos. Basta-me o tempo em

que andei longe de vós; ligai-me agora à vossa cruz. Se eu desprezei

o vosso amor, disso me arrependo de todo o coração e agora vos

estimo mais que todos os bens.

8. Ah, meu Jesus, quem sou eu que me quereis para vosso discípulo

e me ordenais que vos ame e me ameaçais com o inferno se não

quiser vos amar? E de que serve, dir-vos-eis com S. Agostinho, ameaçar-

me com as penas eternas? Pois que maior desgraça me poderá

assaltar do que não vos amar, Deus amabilíssimo, meu Criador, meu

Redentor, meu paraíso, meu tudo? Vejo que por um justo castigo das

ofensas que vos fiz mereceria estar condenado a não poder mais vos

amar; mas vós, porque ainda me amais, continuai a mandar que eu

vos ame, repetindo-me sempre ao coração: “Amarás o Senhor teu

Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua

mente”. Agradeço-vos, ó meu amor, este doce preceito e para obedecer-

vos eu vos amo com todo o meu coração, com toda a minha alma,

com toda a minha mente. Arrependo-me de não vos haver amado

pelo passado e no presente prefiro toda pena à de viver sem vos

amar, e proponho sempre procurar o vosso amor. Ajudai-me, ó meu

Jesus, a fazer sempre atos de amor e a sair desta vida com um ato de

amor, para que eu chegue a amar-vos face a face no paraíso, onde

vos amarei sem imperfeição e sem intervalo, com todas as minhas

forças por toda a eternidade. Ó Mãe de Deus, rogai por mim. Amém.

32

CAPÍTULO XII

Da crucifixão de Jesus

1. Eis-nos chegados à crucificação, ao último tormento que deu a

morte a Jesus Cristo, eis-nos no Calvário, feito teatro do amor divino,

onde um Deus deixa a vida num mar de dores. “E depois de chegados

ao lugar chamado Calvário, aí o crucificaram” (Lc 23,33). Tendo o

Senhor chegado com grande dificuldade, mas ainda vivo ao monte,

arrancaram-lhe pela terceira vez com violência suas vestes pegadas

às chagas de sua carne dilacerada e o estenderam sobre a cruz. O

cordeiro divino deita-se sobre esse leito de tormentos, apresenta aos

carnífices suas mãos e seus pés para serem pregados e, levantando

os olhos ao céu, oferece ao seu eterno Pai o grande sacrifício de sua

vida pela salvação dos homens. Cravada uma mão, contraem-se os

nervos, sendo por isso necessário que à força e com cordas se puxassem

a outra mão e os pés ao lugar dos cravos, como foi revelado

a S. Brígida, o que ocasionou a contorção e rompimento com dores

horríveis dos nervos e das veias (Liv. 1, c. 10), de tal maneira que se

podiam contar todos os ossos, como já predissera Davi: Atravessaram

minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos (Sl

21,17).

Ah, meu Jesus, por quem foram cravados vossas mãos e vossos

pés sobre esse madeiro senão pelo amor que tínheis aos homens?

Vós quisestes com a dor de vossas mãos traspassadas pagar todos

os pecados que os homens cometeram pelo tato e com a dor dos pés

quisestes pagar todos os passos que demos para vos ofender. Ó meu

amor crucificado, abençoai-me com essas mãos traspassadas. Cravai

aos vossos pés este meu coração ingrato, para que eu não me separe

mais de vós e fique sempre minha vontade obrigada a amar-vos, já

que tantas vezes se revelou contra vós. Fazei que nada me mova

além de vosso amor e do desejo de dar-vos gosto. Ainda que vos veja

suspenso nesse patíbulo, eu vos reconheço por senhor do mundo,

pelo Filho verdadeiro de Deus e Salvador dos homens. Por piedade,

ó meu Jesus, não me abandoneis mais no resto de minha vida e

especialmente na hora de minha morte: nessa última agonia e combate

com o inferno assisti-me e confortai-me para morrer no vosso

amor. Eu vos amo, amor crucificado, eu vos amo de todo o meu coração.

2. Diz S. Agostinho não haver morte mais acerba que a morte da

cruz (Tract. 36 in Jo), pois, como nota S. Tomás (P. III q. 46, a. 6), os

crucificados têm os pés e as mãos transpassados, partes essas que

sendo compostas de nervos, músculos e veias, são extremamente

sensíveis à dor: e o só peso do corpo pendido faz que a dor seja

contínua e se aumente sempre mais até à morte. Mas as dores de

Jesus ultrapassavam todas as outras dores, pois, como diz o Angélico,

o corpo de Jesus Cristo, sendo de delicadíssima compleição, era mais

sensível e sujeito às dores: corpo que foi expressamente preparado

pelo Espírito Santo para sofrer como ele predissera e conforme o

atesta o Apóstolo: “Vós me preparastes um corpo” (Hb 10,5). Além

disso, S. Tomás diz que Jesus Cristo suportou uma dor tamanha que

só ela seria suficiente para satisfazer a pena que mereciam temporalmente

os pecados de todos os homens. Afirma Tiepoli que na crucifixão

deram vinte e oito marteladas sobre suas mãos e trinta e seis sobre

seus pés.

Minha alma, contempla o teu Senhor, contempla tua vida que

pende desse madeiro: “E será tua vida quase pendente diante de ti”

(Dt 28,66). Vê como naquele patíbulo doloroso, suspenso desses cravos

cruéis, não encontra posição nem repouso. Ora se apóia sobre

as mãos, ora sobre os pés, mas onde se firma aumenta a dor. Ora

volve a dolorosa cabeça para uma parte, ora para outra, se a deixa

cair sobre o peito, as mãos e os pés rasgam-se mais com o peso, se

a deita sobre os ombros, estes ficam feridos pelos espinhos; se a

apóia sobre a cruz, enterram-se os espinhos ainda mais na sua cabeça.

Ah, meu Jesus, que morte horrível é a que sofreis. Meu Redentor

crucificado, eu vos adoro nesse trono de ignomínia e de dores.

Leio que está escrito nessa cruz que sois rei: “Jesus Nazareno, Rei

dos judeus”. Mas afora este título de escárnio, qual outro sinal de

vossa realeza? Ah, essas mãos cravadas, essa cabeça coroada de

espinhos, esse trono de dores, essas carnes dilaceradas vos fazem

conhecer por rei, mas rei de amor. Aproximo-me, pois, humilhado e

contrito, para beijar vossos pés sagrados trespassados por meu amor;

abraço essa cruz, na qual, vítima de amor, quisestes sacrificar-vos à

justiça divina por mim, “feito obediente até à morte de cruz”. Ó feliz

obediência, que nos obtém o perdão dos pecados. E que seria de

33

mim, ó meu Salvador, se vós não tivésseis pago por mim? Agradeçovos,

meu amor, e pelos merecimentos dessa sublime obediência vos

peço que me concedais a graça de obedecer em tudo à vossa divina

vontade. Desejo o paraíso unicamente para sempre vos amar e com

todas as minhas forças.

3. Eis que o rei do céu, suspenso naquele patíbulo, começa a

expirar. Perguntemos-lhe com o profeta: “Que são essas chagas no

meio de tuas mãos?” (Zc 13,6). Responde por Jesus o Abade Roberto:

São sinais do grande amor que vos tenho, são o preço pelo qual eu

vos livro das mãos dois inimigos e da morte. Ama, pois, ó alma fiel,

ama a teu Deus que tanto te amou, e, se ainda duvidas de seu amor,

olha, diz S. Tomás de Vilanova, olha para aquela cruz, para aquelas

dores e aquela morte acerba que ele sofreu por ti e essas provas te

farão conhecer claramente quanto te ama o teu Redentor (Conc. 3

dom. 17 p. Pent.). S. Bernardo ajunta que a cruz clama, clama cada

chaga de Jesus que ele vos ama com verdadeiro amor.

Ó meu Jesus, como vos vejo cheio de dores e triste! Tendes muita

razão em pensar que vós tanto sofrestes, chegando até a morrer

de dores nessa madeiro e que afinal tão poucas alas vos amarão. Ó

Deus, ainda agora, quantos corações, apesar de a vós consagrados,

não vos amam ou vos amam muito pouco. Ah, belas chamas de amor,

vós que consumistes a vida de um Deus sobre a cruz, consumi-me

também, consumi todos os afetos desordenados que vivem no seu

coração e fazei que eu viva ardendo e suspirando exclusivamente

por esse meu amado Senhor, que quer acabar a vida consumido pelos

tormentos, por meu amor, num patíbulo infame. Meu amado Jesus,

quero amar-vos sempre, e quero amar unicamente a vós, meu

amor, meu Deus, meu tudo. tudo.

4. “Teus olhos verão o teu preceptor” (Is 30,20). Foi prometido aos

homens poderem ver com os próprios olhos seu divino Mestre. A vida

inteira de Jesus foi contínuo exemplo e escola de perfeição, mas sem

nenhuma parte nos ensinou melhor suas mais belas virtudes do que

sobre a cátedra da cruz. Como daí nos ensinou bem a paciência,

especialmente no tempo das doenças, já que na cruz Jesus sofreu

corajosamente com suma paciência as dores de sua atrocíssima

morte. Aí, com seu exemplo nos ensinou uma estrita obediência aos

divinos preceitos, uma perfeita resignação com a vontade de Deus e

sobretudo ensinou-nos como se deve amar. O P. Paulo Segneri, o

moço, escreve a uma penitente sua que escrevesse aos pés do Crucifixo:

“Eis aqui como se ama”.

Eis aqui como se ama, é o que parece dizer a todos o próprio

Redentor do alto da cruz, quando nós, para não sofrer qualquer desgosto,

abandonamos as obras de seu agrado e por vezes chegamos

a renunciar até à sua graça e ao amor. Ele nos amou até à morte e

não desce da cruz senão depois de ter deixado de viver. Ah, meu

Jesus, vós me amastes até à morte: até à morte vos quero amar. No

passado eu vos ofendi e traí muitas vezes. Senhor, vingai-vos de mim,

mas com vingança de compaixão e amor: dai-me uma tal dor de meus

pecados, que me faça viver sempre contrito e aflito por vos haver

ofendido. Eu protesto preferir sofrer todos os males no futuro e vos

desgostar. E que maior desgraça poderia suceder-me que vos desgostar

a vós, meu Deus, meu Redentor, minha esperança, meu tesouro,

meu tudo.

5. “E eu, quando for exaltado da terra, atrairei tudo a mim. Ora,

isso ele dizia para indicar de que morte havia de morrer” (Jo 12,32).

Jesus Cristo afirmou que, quando fosse levantado na cruz, ele com

seus merecimentos, com seu exemplo e com a força de seu amor,

haveria de atrair para si os afetos de todas as almas, segundo o comentário

de Cornélio a Lápide. O mesmo escreve S. Pedro Damião:

“O Senhor apenas foi suspenso na cruz e já atraiu todos a si pelo

desejo de seu amor” (De inv. cruc.). E quem deixará de amar a Jesus

que morre por nós na cruz, pergunta o mesmo Cornélio. Vede, ó

almas remidas, assim nos exorta a S. Igreja, vede o vosso Redentor

pregado naquela cruz, onde toda a sua figura respira amor e convida

a amá-lo: a cabeça inclinada, para nos dar o ósculo de paz, os braços

estendidos para abraçar-nos, o coração aberto para nos amar. Ah,

meu amado Jesus, como minha alma podia ser tão cara aos vossos

olhos, conhecendo vós as injúrias que de mim haveis de receber?

Vós, para cativar o meu afeto, quisestes dar-me as provas extremas

de amor. Vinde, ó flagelos, espinhos, cravos e cruz, que atormentastes

as sagradas carnes de meu Senhor, vinde e feri meu coração.

Recordai-me sempre que todo o bem que eu recebi e que eu espero,

tudo me vem dos merecimentos de sua paixão. Ó mestre de amor, os

outros ensinam com a voz, ao passo que vós, nesse leito de morte,

ensinais com o sofrimento; os outros ensinam por interesse, vós por

afeto, não buscando outra recompensa que a minha salvação. Salvaime,

amor meu, e que minha salvação seja a graça de sempre vos

amar e agradar. Amar-vos é a minha salvação.

6. Enquanto Jesus agonizava sobre a cruz, os homens não cessavam

de atormentá-lo com impropérios e zombarias. Uns lhe dizi34

am: “Salvou os outros e não pode se salvar a si mesmo”. Outros: “Se

é o rei de Israel, desça da cruz”. E que faz Jesus na cruz, enquanto o

injuriam? Talvez pede a seu Pai que os castigue? Não, ele pede que

lhes dê o perdão: “Pai, perdoai-lhes; não sabem o que fazem” (Lc

23,32). Para demonstrar seu imenso amor pelos homens, diz S. Tomás

(p. III q. 47, a. 4), o Redentor pediu a Deus perdão para seus

perseguidores. Pediu-o, pois eles depois de o verem morto se arrependeram

de seus pecados: “Voltavam batendo no peito”.

Ah! meu caro Salvador, eis-me aos vossos pés: eu fui um dos

vossos mais ingratos perseguidores: pedi a vosso Pai para que ele

me perdoe também a mim. É verdade que os judeus e os algozes não

sabiam, ao crucificar-vos, o que faziam; eu, porém, muito bem sabia

que, pecando, ofendia a um Deus crucificado e morto por mim. Mas o

vosso sangue e a vossa morte me mereceram também a mim a divina

misericórdia. Eu não posso duvidar de ser perdoado vendo-vos

morrer para me obter o perdão. Ah, meu doce Redentor, lançai sobre

mim um daqueles olhares amorosos que me dirigistes ao morrer por

mim na cruz: olhai-me e perdoai-me todas as ingratidões com que

tratei o vosso amor. Arrependo-me, ó meu Jesus, de vos ter desprezado.

Amo-vos de todo o meu coração e, à vista de vosso exemplo,

porque vos amo, amo também todos aqueles que me ofenderam.

Desejo-lhes todo o bem e proponho servi-los e socorrê-los quanto

me for possível por amor de vós, meu Senhor, que quisestes morrer

por mim que tanto vos ofendi.

7. “Lembrai-vos de mim”, vos disse, ó meu Jesus, o bom ladrão, e

foi consolado com vossa resposta: “Hoje estarás comigo no paraíso”

(Lc 23,43). Lembrai-vos de mim, digo-vos também eu; recordai-vos,

Senhor, que eu sou uma daquelas ovelhas pelas quais vós destes a

vida. Consolai-me, fazendo-me sentir que me perdoastes, dando-me

uma grande dor de meus pecados. Ó grande sacerdote, que vos

sacrificastes a vós mesmo por amor das vossas criaturas, tende compaixão

de mim. Sacrifico-vos de agora em diante a minha vontade, os

meus sentidos, as minhas satisfações e todos os meus desejos. Eu

creio que vós, meu Deus, morrestes pregado na cruz por mim. Caia

sobre mim, vos suplico, o vosso sangue divino: ele me lave de todos

os meus pecados; ele me abrase em vosso santo amor e me faça

todo vosso. Eu vos amo, ó meu Jesus, e desejo morrer crucificado

por vós que morrestes crucificado por mim.

Eterno Pai, eu vos ofendi, mas eis vosso Filho que, preso a esse

madeiro, vos satisfaz por mim oferecendo-vos o sacrifício de sua vida

divina. Eu vos ofereço seus merecimentos que são todos meus, visto

que ele mos deu; por amor deste Filho vos peço tenhais piedade de

mim. A maior compaixão que vos suplico é que me concedais a vossa

graça, que eu infelizmente tantas vezes desprezei de livre vontade.

Arrependo-me de vos haver ultrajado e vos amo, meu Deus, meu

tudo, e para vos satisfazer estou pronto a suportar toda espécie de

opróbrios, de dores, de miséria e de morte.

35

CAPÍTULO XIII

Das últimas palavras de Jesus

na cruz e de sua morte

1. Diz S. Lourenço Justiniano que a morte de Jesus foi a mais

amarga e dolorosa dentre todas as mortes dos homens, porque o

Redentor morreu na cruz sem o mínimo alívio. Nas pessoas que sofrem,

a pena é sempre mitigada por qualquer pensamento ao menos

de consolação; mas a dor e a tristeza de Jesus foram inteiramente

puras, sem mistura de consolo, como diz o Angélico (III q. 46 a 6). Por

isso S. Bernardo, contemplando Jesus agonizando na cruz, exclama:

Meu caro Jesus, contemplando-vos sobre esse madeiro, dos pés até

à cabeça não vejo senão dor e tristeza.

Ó meu doce Redentor, ó amor de minha alma, por que quisestes

derramar todo o vosso sangue, por que sacrificar a vossa vida divina

por um verme ingrato como eu? Ó meu Jesus, quando será que eu

me ligarei tão estreitamente a vós que não possa mais separar-me e

deixar de vos amar? Ah, Senhor, enquanto vivo neste mundo, estou

em perigo de negar-vos o meu amor e perder a vossa amizade, como

tenho feito no passado. Ah, meu caríssimo Salvador, se, continuando

a viver, terei de passar por esse grande mal, suplico-vos por vossa

paixão, dai-me a morte agora que eu espero estar em vossa graça.

Eu vos amo e quero amar-vos sempre.

2. Lamentava-se Jesus pela boca do Profeta que, quando agonizava

na cruz, procurava quem o consolasse e não o encontrava (Sl

68,21). Os judeus e os romanos, mesmo quando ele estava para expirar,

o maldiziam e blasfemavam. Maria Santíssima, sim, estava aos

pés da cruz para dar-lhe algum alívio, se pudesse; mas essa mãe

aflita e amorosa, com a dor que suportava pelos sofrimentos de Jesus,

mais afligia a esse Filho que tanto a amava. Diz S. Bernardo que

os sofrimentos de Maria contribuíram mais para atormentar o coração

de Jesus. Quando o Redentor olhava para Maria assim atormentada,

sentia sua alma transpassada mais pelas dores da Mãe que

pelas suas próprias, como a mesma Santíssima Virgem revelou a S.

Brígida: “Ele, vendo-me, mais se doía de mim que de si mesmo”. Do

que conclui S. Bernardo: Ó bom Jesus, vós sofreis grandes dores no

corpo, mas sofreis ainda mais no coração por compaixão com vossa

Mãe.

3. Que sofrimentos, pois, não experimentaram esses corações

amorosíssimos de Jesus e Maria, quando chegou o momento em

que o Filho, antes de expirar, teve de se despedir de sua Mãe. Eis as

últimas palavras com que Jesus se despediu neste mundo de sua

Mãe: “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19,26), indicando-lhe João que lhe

deixava por filho em seu lugar.

Ó Rainha das dores, as recordações de um filho amado que morre

são muito caras e não saem mais da memória de uma mãe.

Recordai-vos que vosso Filho, que tanto vos amou, vos deixou a mim,

pecador, por filho, na pessoa de João. Pelo amor que tendes a Jesus,

tende piedade de mim. Eu não vos peço os bens da terra: vejo vosso

Filho que morre em tantos tormentos por mim; vejo-vos a vós, minha

Mãe inocente, sofrendo tantas dores por mim e vejo que eu, miserável

réu do inferno, nada padeci pelos meus pecados por vosso amor.

Quero sofrer alguma coisa por vós antes de morrer. Esta é a graça

que vos peço e vos digo com S. Boaventura que, se vos ofendi, é de

justiça que eu padeça por castigo, e seu eu vos servi, é justo que eu

sofra por recompensa. Impetrai-me, ó Maria, uma grande devoção e

uma recordação contínua da paixão de vosso Filho. E por aquele tormento

que sofrestes, vendo-o expirar na cruz, obtende-me uma boa

morte; assisti-me, minha Rainha, naquele último momento e fazei que

eu morra amando e proferindo os santíssimos nomes de Jesus e Maria.

4. Vendo Jesus que não encontrava quem o consolasse neste

mundo, levantou os olhos e o coração para seu Pai, para pedir-lhe

alívio. Mas o eterno Pai, vendo seu Filho coberto com as vestes de

pecador: Não, Filho, disse-lhe, não te posso consolar, já que estás

satisfazendo a minha justiça pelos pecados de todos os homens; convém

que agora eu te abandone aos teus sofrimentos e te deixe morrer

sem conforto. E foi então que o nosso Salvador, elevando a voz,

disse: “Deus meu, por que me abandonais”? (Mt 27,46). Explicando

esta passagem, o Beato Dionísio Cartusiano diz que Jesus proferiu

essas palavras com grande brado, para fazer todos compreenderem

a grande dor e tristeza em que morria. E quis nosso amantíssimo

Redentor morrer privado de toda consolação, acrescenta S. Cipriano,

para nos demonstrar seu amor e atrair para si todo o nosso amor.

Ah, meu amado Jesus, queixai-vos injustamente, dizendo: Meu

36

Deus, por que me abandonastes? Perguntas por quê? E eu pergunto-

vos: por que quisestes vos encarregar de pagar por nós? Não

sabíeis que só pelos nossos pecados merecíamos ser abandonados

por Deus? Com razão, pois, vos abandonou o vosso Pai e vos deixou

morrer num mar de dores e de tristezas. Ah, meu Redentor, o vosso

abandono me aflige e me consola: aflige-me, porque vos vejo morrer

com tantos sofrimentos, mas consola-me dando-me confiança de que,

pelos vossos merecimentos, não serei abandonado pela misericórdia

divina, como eu merecia por vos ter abandonado tantas vezes para

seguir os meus caprichos. Fazei-me compreender que, se para vós

foi tão cruel o ser privado por breve tempo da presença sensível de

Deus, qual seria o meu tormento se tivesse de ficar privado de Deus

para todo o sempre. Por esse vosso abandono, suportado com tanta

dor, não me abandoneis, ó meu Jesus, especialmente na hora de

minha morte. Nesse momento em que todos me abandonarão, não

me abandoneis, vós, meu Salvador. Sede então vós, meu Senhor

desolado, o meu conforto nas minhas desolações. Bem sei que se

vos amasse sem consolação, contentaria o vosso coração; conheceis,

porém, a minha fraqueza, ajudai-me com a vossa graça. infundindome

então perseverança, paciência e resignação.

5. Aproximando-se Jesus da morte, disse: :”Tenho sede”. Dizeime,

Senhor, de que tendes sede? pergunta Leão de Óstia. Vós não

vos queixais dos imensos tormentos que sofrestes na cruze vos

lamentais exclusivamente da sede? “Minha sede é a vossa salvação”,

lhe faz dizer S. Agostinho (In ps. 33).Ó almas, diz Jesus, esta

minha sede não é outra coisa que o desejo que tenho de vossa salvação.

O Redentor amorosíssimo tem um ardente desejo de nossas

almas e por isso ardia em se dar todo a nós por meio de sua morte.

Foi essa a sua sede, escreve S. Lourenço Justiniano. E S. Basílio de

Seleucia diz que Jesus Cristo afirma sentir sede, para dar-nos a entender

que, pelo amor que nos tinha, morria com o desejo de padecer

por nós mais ainda do que tinha padecido.

Ó Deus amabilíssimo, porque nos amais, desejais que nós suspiremos

por vós. “Deus tem sede de que tenhamos sede dele”, diz S.

Gregório Nazianzeno (Tetr. Sent. 34). Ah, meu Senhor, tendes sede

de mim, vilíssimo verme, e eu não sentirei sede de vós, meu Deus

infinito? Pelos merecimentos dessa sede suportada na cruz, dai-me

uma grande sede de vos amar e de comprazer-vos em tudo.

Prometestes que nos atenderíeis em tudo o que vos pedíssemos:

Pedi e recebereis. Eu vos peço este dom de vosso amor. Eu não o

mereço, mas será essa a glória de vosso sangue, fazer vosso grande

amigo um coração que durante tanto tempo vos desprezou; fazer todo

chamas de caridade um pecador todo cheio de lama e de pecados.

Fizestes muito mais do que isto, morrendo por mim. Ó Senhor infinitamente

bom, eu desejaria amar-vos tanto quanto vós o mereceis. Regozijo-

me do amor que vos têm tantas almas abrasadas e mais ainda

do amor que tendes por vós mesmo, ao qual uno o meu, embora

fraquíssimo. Amo-vos, ó Deus eterno, amo-vos, ó amabilidade infinita.

Fazei que eu cresça cada vez mais no vosso amor, repetindo sem

cessar atos de amor e esforçando-se par vos agradar em todas as

coisas sem intermitência e sem reserva. Fazei que, apesar de miserável

e pequenino como sou, seja pelo menos todo vosso.

6. Nosso Jesus, já estando para expirar, disse com voz moribunda:

“Tudo está consumado”. Enquanto profere essa palavra, rememora

em sua mente todo o decorrer de sua vida: viu todas as fadigas que

experimentara, a pobreza, as dores, as ignomínias suportadas, oferecendo-

as todas novamente a seu eterno Pai pela salvação do mundo.

Depois, voltando-se para nós, repetiu: “Tudo está consumado”,

como se dissesse: Ó homens, tudo está consumado tudo está completo:

concluída a vossa redenção, satisfeita a divina justiça, aberto o

paraíso. “Eis o teu tempo, e o tempo dos amantes” (Ez 16,8). É tempo,

finalmente, ó homens, de começardes a amar-me. Amai-me, pois,

amai-me porque nada mais me resta fazer para ser amado por vós.

Vede o que fiz para conquistar o vosso amor: por vós levei uma vida

tão cheia de tribulações; no fim de meus dias, antes de morrer, consenti

em que me tirassem todo o meu sangue, me escarrassem no

rosto, lacerassem as carnes, coroassem de espinhos, chegando até

aos horrores da agonia neste lenho, como estais vendo. Que falta

ainda? Só falta que eu morra por vós; pois bem: quero morrer: Vem, ó

morte, dou-te licença de tirar-me a vida pela salvação de minhas ovelhas.

E vós, ovelhas minhas, amai-me, porque nada mais posso fazer

para me fazer amar. Tudo está consumado, diz Tauler, tudo o que a

justiça exigia, o que requeria a caridade, tudo o que se podia fazer

para patentear o amor (De vita et pass. Salv. c. 49).

Pudesse dizer também eu ao morrer, meu amado Jesus: Senhor,

realizei tudo, fiz tudo que me impusestes, levei com paciência a minha

cruz, tudo vos satisfiz. Ah, meu Deus, se tivesse de morrer agora,

morreria descontente, porque não poderia repetir nenhuma dessas

coisas de verdade. Mas hei de viver sempre assim, ingrato ao

vosso amor? Dai-me a graça de contentar-vos nos anos que me res37

tam, para que, quando chegar a morte, possa dizer-vos que ao menos

desta data em diante executei a vossa vontade. Se vos ofendi

pelo passado, a vossa morte é minha esperança. Para o futuro não

quero mais atraiçoar-vos, mas é de vós que espero a minha perseverança.

Por vossos merecimentos, ó meu Senhor Jesus Cristo, eu volo

peço e espero.

7. Eis Jesus expirando na cruz. Contempla-o, minha alma, nas

dores da agonia, a exalar o último suspiro. Contempla esses lhos

moribundos, a face pálida, o coração que com lânguido movimento

apenas palpita, o corpo que já se entrega à morte e esse bela alma

que em breve deixará o corpo dilacerado. Já o céu se escurece, treme

a terra, abrem-se os sepulcros. Que significam esses terríveis

sinais? a morte do Criador do universo.

8. Por último, nosso Redentor, depois de haver recomendado sua

bendita alma a seu eterno Pai, tendo primeiramente dado um grande

suspiro partido de seu aflito coração, inclina a cabeça em sinal de

obediência, oferece sua morte pela salvação dos homens e expira

pela violência de dor, entregando seu espírito nas mãos de seu querido

Pai. “E clamando com grande brado, Jesus diz: ‘Pai, em vossas

mãos encomendo o meu espírito’. E dizendo isto, expirou” (Lc 23,46).

Chega-te, minha alma, aos pés deste santo altar, no qual morreu sacrificado

para te salvar o Cordeiro de Deus. Chega-te e pensa que ele

morreu pelo amor que te consagrou. Pede quanto desejares ao teu

Senhor morto e espera tudo. Ó Salvador do mundo, ó meu Jesus, eis

a que estado vos reduziu o amor pelos homens; agradeço-vos o terdes

querido perder a vida para que se não perdessem as nossas almas:

agradeço-vos por todos, mas particularmente por mim mesmo. Quem

mais do que eu se aproveitou do fruto de vossa morte? Eu, por vossos

merecimentos, sem nem sequer o saber, tornei-me filho da S.

Igreja pelo batismo: por vosso amor fui tantas vezes perdoado e recebi

tantas graças especiais; por vós tenho a esperança de morrer na

graça de Deus e de chegar a amar-vos no paraíso.

Meu amado Redentor, quanto vos devo! Entrego minha pobre

alma às vossas mãos traspassadas. Fazei que eu compreenda bem

quão grande foi o amor que levou um Deus a morrer por mim. Desejaria

morrer também por vós, Senhor, mas que compensação pode

dar a morte de um escravo perverso à de seu Senhor e Deus? desejaria

ao menos amar-vos quanto estivesse em mim, mas sem o vosso

auxílio, ó meu Jesus, eu nada posso. Ajudai-me e pelos merecimentos

de vossa morte fazei que eu morra a todos os amores da

terra para que eu ame somente a vós, que mereceis todo o meu amor.

Eu vos amo, bondade infinita, eu vos amo, meu sumo bem, e vos

suplico com S. Francisco: “Morra eu, Senhor, pelo amor de teu amor,

que te dignaste morrer pelo amor de meu amor”. Morra eu a tudo, ao

menos por gratidão ao grande amor que me mostrastes, dignandovos

morrer por meu amor e para ser amado por mim. Maria, minha

Mãe, intercedei por mim. Amém.

38

CAPÍTULO XIV

Da esperança que devemos ter

na morte de Jesus

1. Jesus é a única esperança de nossa salvação; fora dele não há

salvação, em nenhum outro (At 4,12). Eu sou a única porta, disse ele,

e quem entrar por mim encontrará certamente a vida eterna (Jo 10,9).

Que pecador poderia esperar perdão se Jesus não tivesse satisfeito

por nós a justiça divina com seu sangue e com sua morte? “Ele carregou

com suas iniqüidades” (Is 53,11). Por isso, o Apóstolo nos anima,

dizendo: “Se o sangue dos bodes e dos touros santifica os imundos

para a purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que

pelo Espírito Santo se ofereceu a si mesmo a Deus como vítima

imaculada, purificará a nossa consciência das obras mortas para servir

o Deus vivo?” (Hb 9,13-14). Se o sangue dos bodes e dos touros

sacrificados tirava nos hebreus as manchas exteriores do corpo, para

que pudessem ser admitidos aos sacros misteres, quando mais o

sangue de Jesus Cristo, o qual por amor se ofereceu a pagar por nós,

tirará os pecados de nossas almas para podermos servir o nosso

sumo Deus.

Nosso amoroso Redentor, tendo vindo a este mundo somente

para salvar os pecadores e vendo já escrita contra nós a sentença de

condenação por causa de nossas culpas, que faz? Ele com sua morte

pagou o castigo que nos era devido e, cancelando com seu sangue

a escritura da condenação, afixou-a na própria cruz em que morre,

para que a justiça divina não exigisse de nós a satisfação devida

(Cl 2,14).

“Cristo entrou uma só vez no santuário, havendo-nos adquirido

uma redenção eterna” (Hb 9,12). Ah, meu Jesus, se não tivésseis

encontrado esse modo de obter-me perdão, quem o poderia alcançar?

Tinha razão Davi para exclamar: “Publicarei as suas maravilhas”

(Sl 9,12). Publicai, ó bem-aventurados, os esforços amorosos que fez

nosso Deus para salvar-nos. Visto, pois, ó meu doce Salvador, que

me dedicaste tão grande amor, não deixeis de usar de piedade para

comigo. Vós me resgatastes das garras de Lúcifer por meio de vossa

morte: eu entrego minha alma nas vossas mãos, tendes de salvá-la.

“Nas vossas mãos encomendo o meu espírito: vós me remistes, Senhor

Deus de verdade” (Sl 30,6).

2. “Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis.

Mas, se alguém pecar, temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo,

o justo, e ele é a propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 2,1).

Jesus Cristo não cessou com sua morte de interceder por nós junto

de seu Pai, e mesmo agora é nosso advogado e parece, como escreve

S. Paulo, que no céu não tem outra ocupação que mover seu Pai a

usar de misericórdia para conosco. “Vive sempre a rogar por nós” (Hb

7,25). E ele ajunta que para isso subiu ao céu o Salvador: “Para se

apresentar agora perante a face de Deus por nós outros” (Hb 9,24).

Assim como são expulsos da face dos reis os rebeldes, nós, pecadores,

não seríamos mais dignos de ser admitidos na presença de Deus

nem mesmo para pedir-lhe perdão. Jesus, porém, como nosso Redentor,

apresenta-se por nós perante Deus e por seus merecimentos

nos obtêm a graça perdida: “Vós vos chegastes ao mediador do Novo

Testamento, Jesus, e à aspersão do sangue mais eloqüente que o de

Abel” (Hb 12,24). Oh! quanto melhor por nós implora misericórdia o

sangue do Redentor, do que o sangue de Abel exigia castigo contra

Caim! A minha justiça, disse Deus a S. Maria Madalena de Pazzi, se

transformou em clemência com a vingança exercida sobre a carne

inocente de Jesus Cristo. O sangue de meu Filho não exige de mim

vingança, como o sangue de Abel, mas pede somente misericórdia e

compaixão, e minha justiça não pode deixar de ficar aplacada com

essas voz. Esse sangue lhe amarra as mãos de tal maneira que não

as pode mover, por assim dizer, para tomar aquela vingança, que

deveria, dos pecados.

3. “Não te esqueças da graça que te fez teu fiador” (Eclo 29,20).

Ah, meu Jesus, eu era incapaz, depois de meus pecados, de satisfazer

a divina justiça, mas vós quisestes com a vossa morte satisfazer

por mim. Oh! quão grande seria a minha ingratidão se eu me esquecesse

dessa tão grande misericórdia. Não, meu Redentor, não quero

esquecer-me mais; quero agradecer-vos sempre e mostrar-me grato,

amando-vos e fazendo quanto puder para vos contentar. Socorrei-me

com as graças que me merecestes com tantos sofrimentos. Amovos,

ó meu amor, minha esperança.

“Minha pomba nas fendas do rochedo” (Ct 2,13). Oh! que refúgio

seguro encontraremos sempre nessas fendas sagradas da pedra, que

39

não as chagas de Jesus Cristo. “As fendas da pedra são as chagas

do Redentor, diz S. Pedro Damião; nelas a alma fiel põe a sua esperança”

(De S. Mat. serm. 3). Ah, aí nos veremos livres da desconfiança

causada pela vista de nossos pecados, aí encontraremos as armas

para nos defendermos quando formos tentados a pecar novamente.

“Confiai, eu venci o mundo” (Jo 16,33). Se não tendes forças

bastantes, exorta-nos o Salvador, para resistir aos assaltos que o

mundo vos oferece com seus prazeres, confiai em mim, porque eu o

venci e agora vós também o vencereis. Pedi para que meu eterno Pai

vos conceda, por meus merecimentos, a força e eu vos prometo que

tudo que lhe perdirdes em meu nome, ele vos dará (Jo 16,23). E em

outro lugar nos reafirma a promessa, dizendo que qualquer graça

que pedirmos a Deus por seu amor, ele mesmo, que é uma só coisa

com o Pai, no-la dará: “Tudo que pedirdes a meu pai em meu nome,

eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho” (Jo 14,13).

Ah! eterno Pai, confiado nos merecimentos e nessas promessas

de Jesus Cristo, não vos peço bens da terra, mas somente a vossa

graça. É verdade que eu, pelas injúrias que vos fiz, não mereceria

nem o perdão nem graças. Mas se eu não o mereço, mereceu-mas

vosso Filho, oferecendo seu sangue e sua vida por mim. Perdoai-me,

pois, por amor desse vosso Filho. Dai-me uma grande dor de meus

pecados e um grande amor a vós. Alumiai-me para que conheça quanto

é amável a vossa bondade e quão grande é o amor que me tendes

tido desde toda a eternidade. Fazei-me compreender a vossa vontade

e dai-me a força para executá-la perfeitamente. Senhor, eu vos

amo, e quero fazer tudo o que de mim exigis.

4. Que grande esperança de salvação nos dá a morte de Jesus

Cristo. “Quem é que nos há de condenar? Jesus Cristo, que morreu

por nós e que também intercede por nós” (Rm 8,34). Quem será que

nos condenará, pergunta o Apóstolo: é aquele mesmo Redentor que,

para não nos condenar à morte eterna, condenou-se a si mesmo a

morrer cruelmente numa cruz. Isso anima S. Tomás de Vilanova a

dizer: “Que temes, ó pecador, se pretendes deixar o pecado? Como

há de te condenar aquele Senhor que morrer para te não condenar?

Como te há de expulsar, quando voltares a seus pés, aquele que

desceu do céu a tua procura, quando fugias dele?” Mas ainda maior

coragem nos incute o Salvador mesmo, dizendo por Isaías: “Eis que

eu te gravei nas minhas mãos; tuas muralhas estão sempre diante de

meus olhos” (Is 49,16). Não percas a confiança, ovelha minha, vê

quanto me custaste, eu tenho-te escrita nas minhas mãos, nestas

chagas que eu sofri por ti: elas sempre me recordam que devo ajudar-

te e defender-te contra teus inimigos: ama-me e confia.

Sim, meu Jesus, eu vos amo e em vós confio. O resgatar-me vos

custou tanto, mas o salvar-me nada vos custa. A vossa vontade é que

todos se salvem e que ninguém se perca. Se meu pecados me espantam,

anima-me a vossa bondade que mais deseja fazer-me bem

que eu recebê-lo. Ah, meu amado Redentor, vos direi com Jó. “Mesmo

que ele me mate esperarei nele... E ele será meu salvador” (Jó

13,15). Ainda que me expulseis de vossa face, ó meu amor, não deixarei

de esperar em vós, que sois meu Salvador. Essas vossas chagas

e esse vosso sangue me dão suficiente confiança para esperar

todos os bens de vós. Eu vos amo, caro Jesus, eu vos amo e em vós

espero.

A glorioso S. Bernardo, achando-se enfermo, viu-se uma vez transportado

diante do tribunal de Deus, onde o demônio o acusava de

seus pecados e afirmava que ele não merecia o paraíso. O santo

respondeu: É verdade que eu não mereço o paraíso, mas Jesus tem

duplo direito a esse reino: um por ser Filho natural de Deus, outro por

havê-lo conquistado com sua morte; ele se contenta com o primeiro e

cede-me o segundo, por isso eu peço e espero o paraíso. O mesmo

podemos nós dizer, pois S. Paulo escreve que Jesus Cristo quis morrer

consumido de dores para obter o paraíso a todos os pecadores

arrependidos e resolvidos a emendar-se. “E, sacrificado, foi feito o

autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,9).

E o Apóstolo ajunta: “Corramos ao combate que nos está proposto,

olhando para o autor e consumador da fé, Jesus, que, sendo-lhe proposto

o gozo, suportou a cruz, desprezando a ignomínia” (Hb 12,1-2).

Combatamos com coragem os nossos inimigos, olhando para Jesus

Cristo que, com os merecimentos de sua paixão, nos oferece a vitória

e a coroa.

5. Ele disse que subia aos céus para preparar-nos um lugar: “Não

se turbe o vosso coração... porque eu vou preparar-vos um lugar” (Jo

14,1). Ele disse e continua a dizer a seu Pai que, visto o Pai nos ter

dado a ele, nos quer ter consigo no paraíso: “Pai, quero que aqueles

que me destes estejam comigo onde eu estou” (Jo 17,24). Que maior

misericórdia poderíamos esperar do Senhor, diz S. Anselmo, que o

Padre Eterno dizer a um pecador já condenado ao inferno por seus

crimes e que não tinha meios de livrar-se do castigo: “Toma o meu

Filho e oferece-o por ti” e o Filho acrescentar: “Toma-me e livra-te do

inferno” (Cur Deus homo l. 2, c. 20).

40

Ah, meu Pai amoroso, agradeço-vos haver-me dado vosso Filho

por meu Salvador, ofereço-vos sua morte e por seus merecimentos

vos suplico compaixão. Agradeço-vos sempre, ó meu Redentor, por

haverdes dado vosso sangue e vossa vida para livrar-me da morte

eterna. Socorrei-nos, pois, a nós, servos rebeldes, os quais com tanto

custo remistes. Ó meu Jesus, única esperança minha, vós me amais

e porque sois onipotente, fazei-me santo. Se eu sou fraco, dai-me

fortaleza, se estou enfermo pelas culpas cometidas, aplicai à minha

alma uma gota de vosso sangue e sarai-me. Dai-me o vosso amor e

a perseverança final e fazei que eu morra na vossa graça. Dai-me o

paraíso. Eu vos amo, ó Deus amabilíssimo, com toda a minha alma, e

espero amar-vos sempre: ajudai a um mísero pecador que vos quer

amar.

6. “Tendo nós o grande pontífice que penetrou nos céus, Jesus,

Filho de Deus, conservemos a nossa confissão. Não temos um pontífice

que não possa compadecer-se de nossas enfermidades, tendo

experimentado todas as tentações, exceto o pecado” (Hb 4,14). já

que temos um Salvador que nos abriu o paraíso, que por um certo

tempo nos estava fechado pelo pecado, diz o Apóstolo, confiemos

sempre nos seus merecimentos, pois ele sabe se compadecer de

nós, tendo querido na sua bondade padecer as nossas misérias. “Vamos,

pois cheios de confiança, ao trono da graça, para que consigamos

misericórdia e encontremos a graça para sermos socorridos oportunamente”

(Hb 4,16). Dirijamo-nos, pois, com confiança ao trono da

misericórdia, ao qual temos acesso por meio de Jesus Cristo, para

que aí encontremos todas as graças de que necessitamos. E como

poderemos duvidar, ajunta S. Paulo, que Deus, tendo-nos dado seu

Filho, nos tenha dado com ele todos os bens? “Entregou-o por nós

todos: como não nos deu com ele todas as coisas?” (Rm 8,32). O

cardeal Hugo comenta este passo: Não nos negará o menos, que é a

glória eterna, aquele Senhor que chegou a dar-nos o mais, que é o

seu próprio Filho.

Ó meu sumo bem, que vos darei por um tal dom que me fizestes

de vosso Filho? Dir-vos-ei com Davi: O Senhor retribuirá por mim (Sl

137,8). Senhor, não tenho com que retribuir-vos, vosso próprio Filho

é o único que vos poderá agradecer dignamente: ele vos agradece

por mim. Pai piedosíssimo, pelas chagas de Jesus, peço-vos que me

salveis. Amo-vos, bondade infinita, e, porque vos amo, arrependo-me

de vos haver ofendido. Meu Deus, meu Deus, eu quero ser todo vosso;

aceitai-me por amor de Jesus Cristo. Ah, meu doce Criador, será

possível que, havendo-me dado o vosso Filho, me negueis os vossos

bens, a vossa graça, o vosso amor, o vosso paraíso?

7. Assevera S. Leão que foram maiores os bens que nos trouxe a

morte de Jesus Cristo, do que os danos a nós causados pelo demônio

com o pecado de Adão (Serm. 1, de Asc.). É o que afirma claramente

o Apóstolo quando escreve aos Romanos: “Não se deu com o

pecado como com o dom. Onde abundou o pecado, superabundou a

graça” (Rm 5,20). Explica o Cardeal Hugo: A graça de Cristo é de

maior eficácia do que o pecado. “Não há comparação entre o pecado

do homem e o dom que Deus fez dando-nos Jesus Cristo; foi grande

o delito de Adão, mas muito maior a graça que Jesus Cristo nos mereceu

com sua paixão. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em

abundância” (Jo 10,10). Eu vim ao mundo, atestou o Salvador, para

que os homens, mortos pelo pecado, não só recebam por mim a vida

da graça, mas uma vida mais abundante do que a que perderam pela

culpa. Motivo esse que levou a santa Igreja a chamar feliz a culpa que

nos mereceu ter um tal Redentor.

“Eis o Deus meu Salvador: agirei com confiança e não recearei”

(Is 12,2). Se vós sois um Deus onipotente, ó meu Jesus, e sois também

meu Salvador, que receios poderei ter de condenar-me? Se no

passado vos ofendi, arrependo-me disso de todo o coração: no futuro

quero servir-vos, obedecer-vos e amar-vos: espero firmemente que

vós, meu Redentor, que tanto fizestes e padecestes por minha salvação,

não me negareis graça alguma necessária para salvar-me (S.

Boaventura).

“Tirareis águas com alegria das fontes do Salvador e direis nesse

dia: Louvai o Senhor e invocai o seu nome” (Is 12,3). As chagas de

Jesus Cristo são essas benditas fontes das quais podemos receber

todas as graças se com fé lhas pedirmos. “E sairá da casa do Senhor

uma fonte, que regará a torrente dos espinhos” (Joel 3,18). A morte

de Jesus é essa fonte prometida que irrigou as nossas almas com as

águas da graça e transformou em flores e frutos da vida eterna por

seus merecimentos os espinhos do pecado. Como diz S. Paulo, nosso

amante Redentor fez-se pobre neste mundo para que nós pelo

merecimento de sua pobreza nos tornássemos ricos (2Cor 8,9). Pelo

pecado nos fizemos ignorantes, injustos, iníquos, escravos do inferno;

Jesus Cristo morrendo e satisfazendo por nós, fez-se por Deus

nossa sabedoria, nossa santificação e nossa redenção, diz o Apóstolo

(1Cor 1,20). Fez-se nossa sabedoria, instruindo-nos; nossa justiça,

perdoando-nos; nossa santidade, com seu exemplo; nosso resgate,

41

com sua paixão, livrando-nos das garras de Lúcifer. Em suma, diz S.

Paulo, os merecimentos de Jesus Cristo nos enriqueceram de todos

os bens, de maneira que nada mais nos falta para receber todas as

graças (1Cor 1,5).

Ó meu Jesus, meu Jesus, que belas esperanças me incute vossa

paixão. Quanto vos devo, meu amado Senhor. Ah, não vos tivesse eu

ofendido. Perdoai-me todas as injúrias que vos fiz: inflamai-me para

sempre. E como posso temer não ser perdoado e receber a salvação

de todas as graças de um Deus onipotente que me deu todo o seu

sangue? Ah, meu Jesus, minha esperança, para não me condenardes,

quisestes perder a vossa vida: não quero perder-vos mais, bem infinito.

Se vos perdi no passado, eu me arrependo e no futuro não quero

perder-vos mais, vós me ajudareis para que eu não vos perca mais.

Senhor, eu vos amo e quero amar-vos sempre. Maria, depois de Jesus

sois a minha esperança; dizei a vosso Filho que vós me protegereis

e serei salvo. Amém.

CAPÍTULO XV

Do amor do Eterno Pai dando-nos o seu Filho

1. “Assim Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito”

(Jo 3,16). Três coisas devemos considerar nesta dádiva: quem é quem

dá, que coisa e com que o amor no-la dá. É sabido que, quanto mais

nobre o doador, tanto mais apreciável a dádiva; se alguém recebe

uma flor de um monarca, estimará essa flor mais que um tesouro.

Quanto, pois, devemos estimar este dom que nos vem das mãos de

Deus? E que foi o que nos deu? Seu próprio Filho. Não se contentou

o amor desse nosso Deus com dar-nos tantos bens nesta terra, mas

chegou a dar-se todo inteiro a nós na pessoa do Verbo encarnado. S.

João Crisóstomo diz: Deu-nos não um servo, nem um anjo, mas seu

próprio Filho (In Jo. Hom. 26). Por isso exclama a Igreja, cheia de

júbilo: “Ó maravilhosa condescendência de vossa ternura! Ó

inapreciável rasgo de caridade! Para resgatar o escravo, sacrificastes

o Filho!”

Ó Deus infinito, como pudestes usar para conosco de tão admirável

piedade? Quem jamais poderá compreender um excesso tão grande,

que, para resgatar o escravo, quisésseis sacrificar vosso único

Filho? ah, meu benigníssimo Senhor, desde que me destes o que de

melhor possuíeis, é justo que eu vos dê o mais que me for possível.

Vós quereis o meu amor e eu nada mais de vós desejo que o vosso

amor. Aqui tendes o meu mísero coração que eu consagro inteirinho

a vos amar. Criaturas todas, saí do meu coração e dai lugar ao meu

Deus, que o merece e quer possuí-lo todo e sem partilha. Amo-vos, ó

Deus de amor, amo-vos sobre todas as coisas e só a vós quero amar,

meu Criador, meu tesouro, meu tudo.

2. Deus nos deu seu Filho e por quê? Só por amor. Pilatos, por

temos humano, entregou Jesus aos judeus (Lc 23,25). O Eterno Pai

entrega-nos seu Filho, mas pelo amor que nos consagra (Rm 8,32).

S. Tomás afirma que numa dádiva o amor vem em primeiro lugar (I q.

38. a. 2). Quando nos fazem um presente, o primeiro dom que recebemos

é o amor que o doador nos oferece na dádiva que faz, porque

42

a única razão de um dom gratuito é o amor: quando se dá com outro

fim, que não seja o puro afeto, o dom perde a razão de verdadeiro

dom. A dádiva que nos fez de seu Filho o Padre Eterno, foi um verdadeiro

dom todo gratuito e sem mérito algum da nossa parte. É por

isso que se diz que a Encarnação do Verbo foi obra do Espírito Santo,

isto é, efetuada por puro amor, como afirma o mesmo santo doutor:

“Que o Filho de Deus se revestiu de carne proveio do mais acendrado

amor de Deus” (III q. 32, a. 1).

Mas Deus não somente nos deu seu Filho por puro amor, mas

no-lo deu igualmente com amor imenso. Foi justamente o que quis

Jesus significar, dizendo: “Assim amou Deus o mundo”. A palavra

assim denota a grandeza do amor, diz S. João Crisóstomo, com que

Deus nos fez essa grande dádiva (In Jo. Hom. 26). E que maior amor

poderia um Deus demonstrar-nos do que condenar à morte seu próprio

Filho, inocente, para nos salvar a nós, míseros pecadores? “Não

poupou a seu próprio Filho, mas entregou-o por nós todos” (Rm 8,32).

Se o Padre Eterno pudesse padecer, que dor não sentiria ao ver-se

obrigado por sua justiça a condenar o Filho, que amava como a si

mesmo, a uma morte tão cruel e cheia de ignomínias? Quis que morresse

consumido pelos tormentos e pelas dores, diz Isaías (53,10).

Imaginai que estais vendo o Padre eterno com Jesus morto nos

braços, dizendo-vos: Ó homens, é este o meu Filho muito amado, em

que eu encontrei todas as minhas complacências. Vede como eu o

quis ver maltratado pelas vossas iniqüidades (Is 53,8). Ei-lo condenado

à morte nessa cruz, aflito, abandonado até de mim, que tanto o

amo. E tudo isto eu o fiz para que vós me ameis.

Ó bondade infinita! Ó misericórdia infinita! Ó Deus de minha alma,

já que por minha causa quisestes a morte do objeto mais caro ao

vosso coração, ofereço-vos por mim o grande sacrifício que vos fez

de si mesmo este vosso Filho, e por seus merecimentos vos peço o

perdão de meus pecados, o vosso amor, o vosso paraíso. São grandes

estes favores que eu vos peço, mas é ainda mais valiosa a oferta

que vos apresento. Perdoai-me e salvai-me, ó meu Pai, pelo amor de

Jesus Cristo. Se vos ofendi pelo passado, arrependo-me disso mais

que de todo o mal e agora eu vos estimo e vos amo mais que todos

os bens.

3. Quem, a não ser um Deus de infinito amor, poderia nos amar a

tal ponto? S. Paulo escreve: “Mas Deus, que é rico em misericórdia,

pela excessiva caridade com que nos amou, nos vivificou em Cristo

quando estávamos mortos pelo pecado” (Ef 2,4). Chama o Apóstolo

amor excessivo esse amor que Deus nos demonstrou, dando aos

homens, por meio da morte de seu Filho, a vida da graça que haviam

perdido por seus pecados. Para Deus, porém, não foi excessivo esse

amor, pois que Deus é o mesmo amor: “Deus é amor” (1Jo 4,16). Diz

S. João que nisso quis Deus fazer-nos ver até aonde chegava a grandeza

do amor de um Deus para conosco, enviando seu Filho ao mundo

para obter-nos com sua morte o perdão e a vida eterna (1Jo 4,9).

Estávamos mortos à graça pelo pecado, e Jesus com sua morte os

restituiu a vida. Estávamos na miséria disformes e abomináveis, mas

Deus, por meio de Jesus Cristo, tornou-nos belos e caros aos seus

olhos divinos. Escreve o Apóstolo: “Ele nos fez agradáveis a si no seu

amado Filho” (Ef 1,6). O texto grego diz: fez-nos graciosos. Por isso S.

João Crisóstomo ajunta que, se houvesse um pobre leproso todo dilacerado

e disforme, e alguém o curasse da lepra e o tornasse belo e

rico, qual não seria a sua obrigação para com esse benfeitor? ora,

imensamente maior é a nossa dívida para com Deus, pois sendo nossas

almas disformes digno as de ódio pelas culpas cometidas, ele

por meio de Jesus Cristo não só as livrou dos pecados como também

as tornou mais belas e amáveis. “Abençoou-nos com toda a bênção

espiritual em bens celestes, em Cristo” (Ef 1,3). Cornélio a Lápide

comenta esta passagem: “Gratificou-nos com todos os bens espirituais”.

A bênção de Deus é gratificar ou fazer bem e o Padre eterno,

dando-nos Jesus Cristo, cumulou-nos de todos os bens, não terrenos

para o corpo, mas espirituais para a alma. Em bens celestes, “dandonos

com seu Filho uma vida celeste neste mundo, e no outro uma

glória celeste”.

Abençoai-me, pois, fazei-me bem, ó Deus amantíssimo, e que

esse benefício seja atrair-me inteiramente ao vosso amor: “Atraí-me

pelos laços de vosso amor”. Fazei que o amor que me consagrastes

me arrebate em amor pela vossa bondade. Vós mereceis um amor

infinito: eu vos amo com o amor de que sou capaz, amo-vos sobre

todas as coisas, amo-vos mais do que a mim mesmo. Consagro-vos

toda a minha vontade e esta é a graça que vos peço: fazei que de

hoje em diante eu viva e faça tudo segundo a vossa vontade, visto

que nada mais quereis que o meu bem e minha salvação eterna.

4. “Introduziu-me em sua adega e ordenou em mim a caridade”

(Ct 2,4). O meu Senhor, diz a esposa sagrada, conduziu-me à adega,

isto é, pôs-me diante dos olhos todos os benefícios que me fez para

induzir-me a amá-lo: Ordenou em mim a caridade. Diz um autor que

Deus, para conquistar nosso amor, enviou, por assim dizer, contra

43

nós um exército de graças de amor. “Dispôs contra mim a caridade

como um exército” (Casp. Sánchez). Segundo o Cardeal Hugo, o dom

de si mesmo a nós, que Jesus nos fez, foi a seta reservada predita

por Isaías: “Pôs-se como uma seta reservada: escondeu-me na sua

aljava” (Is 49,2). Como o caçador reserva a melhor seta para o último

tiro que deve abater a fera, assim Deus entre todos os seus benefícios

reservou Jesus, até chegar o tempo da graça, e então o enviou

como último golpe para ferir de amor os corações dos homens. Ferido

por esta seta, dizia S. Pedro a seu Mestre: Senhor, vós bem sabeis

que eu vos amo (Jo 21,15).

Ah, meu Deus, vejo-me circundado de todas as partes pelas finezas

de vosso amor. Eu também vos amo e se eu vos amo sei que

também vós me amais. E quem poderá privar-me de vosso amor? Só

o pecado. Mas deste monstro do inferno, vós, pela vossa misericórdia,

me haveis de livrar. Prefiro todos os males, a morte mais cruel,

mesmo a destruição de meu ser, a ofender-vos com um pecado mortal.

Vós, porém, já conheceis minhas quedas passadas, conheceis

minha fraqueza, ajudai-me, meu Deus, pelo amor de Jesus Cristo.

“Não desprezeis a obra de vossas mãos” (Sl 137,8). Sou a obra de

vossas mãos, vós me criastes; não me desprezeis. Se por minhas

culpas mereço ser abandonado, mereço não menos que tenhais misericórdia

de mim por amor de Jesus Cristo, que vos sacrificou sua

vida por minha salvação. Eu vos ofereço os seus merecimentos, que

são todos meus, e por eles eu vos peço e espero de vós a santa

perseverança com uma boa morte e, entretanto, a graça de viver o

resto de minha vida todo consagrado à vossa glória. Basta quanto

vos ofendi: eu me arrependo de todo o coração e quero amar-vos

quanto posso. Não quero mais resistir ao vosso amor: entrego-me

inteiramente a vós. Dai-me a vossa graça e o vosso amor e fazei de

mim o que quiserdes. Meu Deus, eu vos amo e quero e peço-vos

sempre o vosso amor: Atendei-me pelos merecimentos de Jesus Cristo.

Maria, minha Mãe, rogai a Deus por mim. Amém.

CAPÍTULO XVI

Do amor do Filho de Deus

em querer morrer por nós

1. “Eis aí o teu tempo, o tempo dos que amam... e te tornaste

extremamente bela” (Ez 16, 8, 13). Quanto nós, os cristãos, somos

devedores ao Senhor, por nos fazer nascer depois da vinda de Jesus

Cristo! Nosso tempo não é mais o tempo do temor, como era o dos

Hebreus, mas é o tempo do amor, havendo um Deus morrido por

nossa salvação e para ser amado por nós. É artigo de fé que Jesus

nos amou e por nosso amor se entregou à morte: “Cristo nos amou e

se entregou a si mesmo por nós” (Ef 5,2). E quem poderia fazer morrer

um Deus onipotente se ele não quisesse de livre vontade dar a

vida por nós? “Eu entrego a minha vida... Ninguém a tira de mim, mas

eu a entrego por mim mesmo” (Jo 10,17-18). Por isso diz S. João que

Jesus na sua morte deu-nos a última prova que podia dar-nos do seu

amor: “Tendo-os amado, amou-os até ao fim” (Jo 13,1). Afirma um

autor devoto que Jesus na sua morte nos deu a maior prova de seu

amor, nada mais lhe restando depois disso a fazer para nos demonstrar

quanto nos amava (Contens. 1. 10, d. 4, c. 1).

Meu amado Redentor, vós vos destes todo a mim por amor e eu

por amor me dou todo a vós. Destes a vida por minha salvação, eu

por vossa glória quero morrer quando e como vos aprouver. Vós não

podíeis fazer mais para conquistar o meu amor e eu, ingrato, entreguei-

vos por nada. Meu Jesus, arrependo-me disso de todo o coração:

perdoai-me por vossa paixão e em prova do perdão concedeime

a graça de amar-vos. Sinto em mim um grande desejo de vos

amar e tomo a resolução de ser todo vosso: vejo, porém, minha fraqueza,

e vejo as traições que vos fiz: só vós podeis socorrer-me e

tornar-me fiel. Ajudai-me, meu amor, fazei que vos ame e nada mais

vos peço.

2. Diz o Beato Dionísio Cartusiano que a paixão de Jesus Cristo

foi denominada um excesso: “E falavam do excesso que realizaria em

Jerusalém” (Lc 9,31), porque foi excesso de piedade e de amor. Ó

44

Deus, qual é o fiel que poderia viver sem amar Jesus Cristo, se meditasse

a miúdo na sua paixão? As chagas de Jesus, diz S. Boaventura,

são todas chagas de amor, são dardos e chamas que ferem até os

corações mais duros e abrasam as almas mais frias. O beato Henrique

Suso, para melhor imprimir em seu coração o amor a Jesus crucificado,

tomou uma vez um ferro cortante e gravou em seu peito o nome

de seu amado Senhor, e estando assim banhado em sangue dirigiuse

à igreja e prostrando-se diante do crucifixo, disse-lhe: Ó Senhor,

único amor de minha alma, vede o meu desejo, quereria escrever

vosso nome dentro de meu coração, mas não posso.. Vós, que tudo

podeis, supri o que falta às minhas forças e imprimi no mais fundo do

meu coração o vosso nome adorável, de tal maneira que não possa

ser mais dela apagado nem o vosso nome, nem o vosso amor.

“O meu bem amado é cândido e rosado, eleito entre mil” (Ct 5,10).

Ó meu Jesus, vós sois todo cândido por vossa ilibada inocência, mas,

sobre essa cruz, estais todo vermelho pelas chagas sofridas por mim.

Eu vos escolho pelo único objeto de meu amor. E a quem amarei

senão a vós? Que objeto entre todos posso eu encontrar mais amável

do que vós, meu Redentor, meu Deus, meu tudo? Eu vos amo,

Senhor amabilíssimo, eu vos amo sobre todas as coisas. Fazei que

eu vos ame com todos os meus afetos e sem reserva.

3. “Oh! se conhecesses o mistério da cruz”, disse S. André ao

tirano. Ó tirano, queria ele dizer, se conhecesses o amor que Jesus

Cristo te mostrou, querendo morrer sobre uma cruz para salvar-te,

deixarias todos os teus bens e esperanças terrenas para te entregares

inteiramente ao amor deste teu Salvador. O mesmo deve dizer-se

aos fiéis que crêem na paixão de Jesus Cristo, mas nela não meditam.

Ah, se todos os homens pensassem no amor que Jesus Cristo

lhes testemunhou na sua morte, quem poderia deixar de amá-lo? Diz

o Apóstolo que nosso amado Redentor morreu por nós, para que

com o amor que nos demonstrou na sua morte se fizesse senhor de

nossos corações. “Para isso Cristo morreu e ressuscitou, para ser

senhor tanto dos mortos como dos vivos. Quer, pois, morramos, quer

vivamos, somos do Senhor” (Rm 14,9). Portanto, quer morramos, quer

vivamos, é justo que sejamos todos de Jesus que a tanto custo nos

salvou. Oh! que eu pudesse dizer, como o abrasado S. Inácio, mártir,

que teve a sorte de dar a vida por Jesus Cristo: “Que venham sobre

mim o fogo, a cruz, as feras, e toda a espécie de tormentos, contanto

que goze de ti, ó Cristo” (Ep. ad Rom. c. V).

Ó meu caro senhor, morrestes para conquistar minha alma, e eu

que fiz para vos adquirir, bem infinito? Ah, meu Jesus, quantas vezes

eu vos perdi por um nada! Miserável! eu já sabia que com o meu

pecado perdia a vossa graça, sabia que vos causava um grande desgosto

e contudo eu o fiz. Consolo-me que tenho de tratar com uma

bondade infinita, que se esquece das ofensas, mal um pecador delas

se arrepende e a ama. Sim, meu Deus, eu me arrependo e vos amo.

Perdoai-me e de hoje em diante dominai sobre este coração rebelde.

Eu vo-lo entrego e a vós me dou inteiramente: dizei-me o que quereis,

que eu quero fazer tudo. Sim, meu Senhor, quero amar-vos, quero

contentar-vos em tudo: dai-me força e espero executá-lo.

4. Jesus com sua morte não cessou de nos amar; ama-nos ainda

e procura-nos com o mesmo amor com que veio do céu à nossa

procura e a morrer por nós. É célebre a fineza de amor que demonstrou

o Redentor a S. Francisco Xavier, quando ele viajava. Durante

uma tempestade, uma onda do mar havia-lhe roubado o crucifixo.

Chegado o santo à praia, sentia-se triste e desejava recuperar a imagem

de seu amado Senhor. E ei que vê um caranguejo vir ao seu

encontro com o crucifixo alçado entre suas tenazes. Ele correu-lhe

ao encalço e com lágrimas de ternura e amor o recebeu e estreitou

ao peito. Oh! com que amor Jesus vai ao encontro da alma que busca.

“Bom é o Senhor... para a alma que o busca” (Lm 3,25), isto é,

para a alma que o busca com verdadeiro amor. Poder-se-á pensar

que possuem este amor aquelas que recusam as cruzes que o Senhor

lhes envia? “Cristo não procurou agradar a si mesmo” (Rm 15,3).

Cristo não buscou sua vontade e cômodos, diz Cornélio a Lápide,

mas sacrificou tudo isso e sua própria vida por nossa salvação. Jesus,

por amor de nós, não procurou prazeres terrenos, mas os sofrimentos

e a morte, apesar de ser inocente. E nós que procuramos por

amor de Jesus Cristo? um dia se queixava S. Pedro, mártir, estando

encarcerado por uma injusta acusação que lhe fizeram, e dizia: Mas,

Senhor, que mal fiz eu para sofrer esta perseguição? E o crucificado

lhe respondeu: e eu que mal pratiquei para estar pregado nesta cruz?

Ó meu Salvador, perguntais que mal fizestes? Muito nos amastes

e por isso quisestes padecer tanto por nosso amor. E nós, que por

nossos pecados merecíamos o inferno, recusaremos padecer o que

nos enviardes para nosso bem? Vós sois todo amor, ó meu Jesus,

para quem vos procura. eu não busco vossas doçuras e consolações,

busco só a vós e a vossa vontade; dai-me o vosso amor e depois

tratai-me como vos aprouver. Abraço todas as cruzes que me

enviardes, pobreza, perseguições, enfermidades, dores: livrai-me uni45

camente do mal do pecado e em seguida sobrecarregai-me de todos

os males. Tudo será pouco em comparação dos males que vós

sofrestes por meu amor.

5. “Para remir o servo nem o Pai poupou o Filho, nem o Filho

poupou-se a si mesmo”, diz S. Bernardo (Serm. de pass.). E depois

de um tão grande amor para com os homens poderá haver alguém

que não ame a esse Deus tão amante? Escreve o Apóstolo que Jesus

morreu por nós todos, para que nós vivamos somente para ele e

seu amor: Por todos morreu Cristo, para que os que vivem, não vivam

mais para si, mas para aquele que morreu por eles (2Cor 5,15). A

maior parte dos homens, infelizmente, depois de um Deus haver

morrido por eles, vive para os pecados, para o demônio e não para

Jesus Cristo. Dizia Platão que o amor é o ímã do amor. E Sêneca

afirmava: Ama, se queres ser amado. E como é que Jesus, que, morrendo

pelos homens, pareceu enlouquecer de amor, na expressão de

S. Cregório (Hom. 6), não conseguiu atrair a si os nossos corações

depois de tantas provas de amor? Como é possível que amando-nos

tanto não chegou a fazer-se amar de nós?

Oh! se vos amassem todos os homens, ó Jesus meu amabilíssimo.

Sois um Deus digno de um amor infinito. Mas, meu pobre Senhor,

permiti que assim vos chame, sois tão amável, fizestes e padecestes

tanto para que os homens vos amassem, e quanto são os que vos

amam? Vejo quase todos os homens aplicados em amar ou os parentes,

ou os amigos, ou as riquezas, ou as honras, ou os prazeres, e

mesmo os animais: mas quantos são os que vos amam, bem infinito?

Ó Deus, são muito poucos, mas eu quero estar no número destes

poucos, apesar de mísero pecador, que durante tanto tempo também

vos ofendi, amando o lodo, separando-me de vós. Agora, porém, eu

vos amo e vos estimo sobre todos os bens e só a vós quero amar.

Perdoai-me, meu Jesus, e socorrei-me.

6. Ó cristão, diz S. Cipriano, Deus está contente contigo, chegando

até a morrer para conquistar teu amor, e tu não estarás contente

com Deus, visto que amas outros objetos, fora de teu Senhor? (Ap.

Cont.) Ah, meu amado Jesus, eu não quero ter outro amor que não

seja por vós: estou satisfeito convosco: renuncio a todos os outros

afetos, o vosso amor só me basta. Sinto que me dizeis: “Põe-me como

selo sobre o teu coração” (Ct 8,6). Sim, meu Jesus crucificado, eu vos

ponho e peço-vos que vos ponhais a vós mesmo como um selo sobre

o meu coração, para que fique fechado a todo outro afeto que não

tenda para vós. No passado eu vos desgostei com outros amores,

mas presentemente não há pena que mais me aflija como a recordação

de haver com os meus pecados perdido o vosso amor, e no

futuro “quem me separará do amor de Jesus Cristo?”

Não, meu amabilíssimo Senhor, depois de me haverdes feito conhecer

o amor que me tivestes, não quero mais viver sem vos amar.

Eu vos amo, meu amor crucificado, eu vos amo de todo o meu coração

e vos entrego esta alma tão procurada e amada por vós. Pelos

merecimentos de vossa morte, que tão atrozmente separou vossa

bendita alma de vosso corpo, desprendei-me de todo o amor que

possa impedir-me de ser todo vosso e de amar-vos de todo o meu

coração. Maria, minha esperança, ajudai-me a amar unicamente o

vosso dulcíssimo Filho, de tal maneira que eu possa repetir sempre,

no decorrer de minha vida: Meu amor foi crucificado. Amém.

Oração de S. Boaventura

Ó Jesus, que por mim não perdoastes a vós mesmo, imprimi em

mim a vossa paixão, a fim de que em toda parte para onde me volte

veja as vossas chagas e não encontre outro repouso que em vós e

em meditar os vossos sofrimentos. Amém.

46

OPÚSCULO II Quem considera o amor imenso que Jesus Cristo nos demonstrou

na sua vida e particularmente na sua morte, sofrendo tantos tormentos

por nossa salvação, não poderá deixar de sentir-se ferido e

obrigado a amar um Deus tão apaixonado por nossas almas. S.

Boaventura diz que as chagas de nosso Redentor comovem os corações

mais duros e inflamam em amor as almas mais frias. Consideremos

por isso, nesta breve resenha do amor de Jesus Cristo, segundo

o testemunho das sagradas escrituras, o quanto fez nosso amoroso

Redentor para dar-nos a entender o amor que nos tem e obrigar-nos

a amá-lo.

1. “Amou-nos e entregou-se a si mesmo por nós” (Ef 5,2). Tinha

Deus feito tantos favores aos homens para ganhar-lhes o amor, mas

os ingratos não somente não o amavam, mas nem mesmo queriam

conhecê-lo por seu Senhor. Apenas num recanto da Judéia era ele

reconhecido como Deus pelo povo eleito: este, porém, mais o temia

do que o amava. Ora, querendo ele ser mais amado do que temido

por nós, fez-se homem e escolheu uma vida pobre, atribulada e obscura

e uma morte penosa e ignominiosa. E por quê? Para atrair-nos

os corações. Se Jesus Cristo não nos tivesse remido, não seria menos

feliz e poderoso do que sempre o foi: quis, porém, procurar-nos a

salvação com tantos suores e penas como se a sua felicidade dependesse

da nossa. Poderia remir-nos sem sofrer, mas quis livrar-nos da

morte eterna com sua própria morte, e podendo salvar-nos de mil

modos, quis escolher a maneira mais humilde e penosa, morrendo

na cruz de pura dor, para conquistar o afeto de nós, vermes ingratos.

Pois não foi o amor que nos tem a única causa de seu nascimento tão

atribulado e de uma morte tão desolada? Ah, meu Jesus, que o amor

que nos fez morrer por mim no Calvário me faça morrer a todos os

afetos mundanos e me consuma naquele santo fogo que viestes acender

na terra. Maldigo mil vezes os indignos prazeres que vos custaram

tantas dores. Arrependo-me, meu caro Redentor, de toda a minha

alma, de todas as ofensas que vos fiz. Para o futuro prefiro mor-

SETAS DE FOGO OU PROVAS

QUE JESUS CRISTO NOS DEU

DE SEU AMOR

NA OBRA DA REDENÇÃO

47

rer a dar-vos desgosto e quero fazer quanto puder para agradar-vos.

Vós em nada vos poupastes por meu amor e eu também em nada

quero poupar-me por vosso amor. Vós me amastes sem reserva e eu

quero amar-vos também sem reserva. Amo-vos, meu único bem, meu

amor, meu tudo.

2. “Assim Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito”

(Jo 3,16). Oh! quanto significa essa partícula — assim! Significa que

nós não podemos compreender o impulso do amor que levou Deus a

enviar seu Filho a morrer para salvar o homem que estava perdido. E

quem poderia fazer-nos esse dom de valor infinito, senão um Deus

de amor infinito?

Agradeço-vos, ó Padre eterno, o haverdes me dado vosso Filho

por meu Redentor. E agradeço-vos, ó grande Filho de Deus, o me

haverdes remido com tantas penas e tão grande amor. Que seria de

mim, depois de tantas injúrias, que vos fiz, se vós não tivésseis morrido

por mim, ó meu Jesus? Ah, tivesse eu morrido antes de vos ofender,

meu Salvador. Eu vos suplico que me façais participar do horror que

durante vossa vida tivestes dos meus pecados e perdoai-me. Não me

basta, porém, o perdão: vós mereceis muito ser amado, vós me

amastes até à morte e eu também quero amar-vos até à morte. Amovos,

bondade infinita, de toda a minha alma, amo-vos mais do que a

mim mesmo e quero que sejais o único objeto de todos os meus

afetos. Ajudai-me, pois; não permitais que eu continue a viver tão

ingrato como tenho sido até agora. Dizei-me o que queres de mim,

que eu com vossa graça quero fazer tudo, tudo. Sim, meu Jesus, eu

vos amo e quero amar-vos sempre, meu tesouro, minha vida, meu

amor, meu tudo.

3. “Nem com o sangue dos bodes ou de novilhos, mas com o

próprio sangue entrou no santuário uma vez, obtendo uma redenção

eterna” (Hb 9,12). E de fato o que poderia valer o sangue de todos os

novilhos e mesmo de todos os homens para nos alcançar a graça

divina? só o sangue deste homem Deus podia merecer-nos o perdão

e a salvação eterna. Mas se o próprio Deus não tivesse inventado

este modo de remir-nos, isto é, morrendo por nossa salvação, quem

jamais poderia pensar nisso? Só o amor o sonhou e o executou. Tinha,

pois, razão Jó quando perguntava a este Deus tão amante dos

homens: “Que é o homem, para que assim o exaltes? e por que pões

sobre ele o teu coração?” (Jó 7,17).

Ah, meu Jesus, é pouco um coração para amar-vos, ainda que

vos amasse com o coração de todos os homens, seria ainda pouco.

Que ingratidão, pois, seria a minha se eu dividisse meu coração entre

vós e as criaturas? Não, meu amor, vós o quereis todo e o mereceis

todo, quero dar-vo-lo todo. E se não sei dar-vo-lo como é meu dever,

tomai-o vós e fazei que eu possa dizer-vos com verdade: Deus de

meu coração. Ah, meu Redentor, pelos merecimentos da vida desprezada

e atribulada que quisestes levar para me ensinar a verdadeira

humildade, fazei-me amar os desprezos e a vida oculta. Fazei que

eu abrace com amor as enfermidades, as afrontas, as perseguições,

as penas internas e todas as cruzes que me vierem de vossas mãos.

Fazei que eu vos ame e depois disponde de mim como vos aprouver.

Ó coração amante de Jesus, prendei-me a vós, fazendo-me conhecer

o imenso bem que vós sois. Fazei-me todo vosso antes de morrer.

Amo-vos meu Jesus, que tanto mereceis ser amado e tanto desejais

o meu amor: amo-vos com todo o meu coração, amo-vos com toda a

minha alma.

4. “Apareceu a benignidade e a humanidade de nosso Deus Salvador”

(Tt, 3,4). Deus amou o homem desde toda a eternidade: “Ameite

com um amor eterno” (Jr 31,3). Mas, segundo S. Bernardo, antes

da encarnação do Verbo manifestava-se o poder divino na criação do

mundo e a sabedoria de Deus em governá-lo; quando, porém, se fez

homem o Filho de Deus, manifestou-se então claramente o amor que

Deus tinha aos homens. Realmente, depois que vimos Jesus Cristo

levar uma vida tão atribulada e uma morte tão penosa, far-lhe-íamos

uma injúria se duvidássemos do afeto que ele tem por nós. Sim, muito

ele nos amou porque nos ama quer ser amado por nós. Morreu por

nós para que nós vivamos para ele. “Por todos morreu o Cristo, para

que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que por eles

morreu e ressuscitou” (2Cor 5,15).

Ah, meu Salvador, quando será que eu começarei a reconhecer

o amor que me tendes? No passado, em vez de vos amar, pagueivos

com injúrias e desprezos. Mas, visto que sois a bondade infinita,

não quero desesperar. Vós prometestes perdoar os que se arrependem;

por piedade, cumpri o que prometestes. Eu vos desonrei, pospondo-

vos às minhas satisfações; uma agora eu me arrependo de

toda a minha alma e nada me aflige tanto como o recordar-me de vos

haver ofendido a vós, meu soberano bem. Perdoai-me e uni-me inteiramente

a vós com laços de um amor eterno, para que eu não vos

48

deixe mais e viva somente para vos amar e obedecer. Sim, meu Jesus,

só para vós quero viver, só a vós quero amar. Tempo houve em

que eu vos abandonei pelas criaturas; mas agora abandono tudo e

todo a vós me dou. Amo-vos, ó Deus de minha alma, amo-vos mais

do que a mim mesmo. Ó Mãe de Deus, Maria, impetrai-me a graça de

ser fiel a Deus até à morte.

5. “A caridade de Deus para conosco mostrou-se em que Deus

enviou seu Filho unigênito ao mundo para que vivamos por ele” (Jo

4,9). Pelo pecado, todos os homens estavam mortos e teriam permanecido

mortos se o eterno Pai não tivesse enviado seu Filho a restituir-

lhes a vida por meio de sua morte. Mas como? um Deus morrer

pelo homem! Um Deus! E que é esse homem? “Quem sou eu? pergunta

S. Boaventura. Por que, Senhor, por que me amastes tanto

assim?” Mas é aqui que resplandece o amor infinito desse Deus. A

Igreja canta no Sábado Santo: “Ó admirável condescendência de vosso

amor para conosco. Ó inestimável predileção de vossa caridade: para

remirdes o servo, entregastes o Filho!”

Vós, pois, meu Deus, assim procedestes para que vivêssemos

por Jesus Cristo. Sim, é muito justo que vivamos por aquele que por

nós deu todo o seu sangue e a sua vida. Meu caro Redentor, à vista

de vossas chagas e da cruz em que vos vejo morto por mim, eu vos

consagro minha vida e toda a minha vontade. Ah, tornai-me todo vosso,

de maneira que de hoje em diante não bosque e não suspire

senão por vós. Amo-vos, bondade infinita, amo-vos, amor infinito, fazei

que eu viva dizendo sempre: meu Deus, eu vos amo, eu vos amo e

fazei que sejam também estas minhas últimas palavras na morte:

meu Deus, eu vos amo, eu vos amo.

6. “Pelas entranhas de misericórdia de nosso Deus, como que o

sol nascente nos visitou do alto” (Lc 1,78). Eis que vem à terra o Filho

de Deus e remir-nos e e vem unicamente movido pelas entranhas de

sua misericórdia. Mas, Senhor, se tendes compaixão do homem que

se perdeu, não será suficiente enviar um anjo para remi-lo? Não, responde

o Verbo eterno, quero fazê-lo pessoalmente, para que o homem

compreenda quanto eu o amo. Escreve S. Agostinho: “O motivo

principal por que Cristo veio foi para que o homem conhecesse quanto

Deus o ama”. Mas, ó meu Jesus, já que viestes para vos fazer

amar, quantos são os homens que vos amam verdadeiramente? Ah,

pobre de mim. Vós sabeis como vos amei no passado, sabeis com

que desprezo tratei o vosso amor. Ah, se eu pudesse morrer de dor.

Arrependo-me, meu caro Redentor, de ter-vos assim desprezado.

Ah, perdoai-me e junto com o perdão dai-me a graça de vos amar.

Não permitais que eu viva ainda esquecido do amor que me tendes.

Agora eu vos amo, mas vos amo pouco; vós mereceis um amor infinito.

Fazei que eu ao menos vos ame com todas as minhas forças. Ah,

meu Salvador, minha alegria, minha vida, meu tudo, e que mais quero

eu senão vos amar a vós, bem infinito? Eu consagro todos os meus

desejos à vossa vontade e, à vista dos padecimentos que quisestes

sofrer por mim, ofereço-me a sofrer tudo o que vos aprouver. Afastai

de mim todas as ocasiões de vos ofender. “Não nos deixeis cair em

tentação, mas livrai-nos do mal”. Livrai-me do pecado e depois

disponde de mim como vos aprouver. Eu vos amo, bondade infinita, e

estou pronto a sofrer todas as penas, mesmo a de ser aniquilado, a

viver sem vos amar.

7. “E o Verbo se fez carne” (Jo 1,14). Deus envia o Arcanjo Gabriel

a requerer o consentimento de Maria se quer aceitá-lo por filho. Maria

dá o seu consentimento e o Verbo divino se faz homem. Ó prodígio

que assombra o céu e a natureza: o Verbo feito carne, um Deus feito

homem. Que diríamos se víssemos um rei feito verme para salvar

com sua morte a vida de um vermezinho da terra? ora, vós, meu

Jesus, sois o meu Deus e, não podendo morrer como Deus, vos

fizestes homem para poderdes morrer e dar a vida por mim.

Meu doce Redentor, como é possível que eu não morra de dor à

vista de tantas misericórdias que usastes comigo e de tão grande

amor que me haveis demonstrado? Vós descestes do céu para procurar-

me, ovelha perdida, e eu tantas vezes vos tenho repelido, preferindo

as minhas indignas satisfações. Visto porém, que vós me

quereis, eu abandono tudo, quero ser vosso e não quero outra coisa

além de vós. Elejo-vos por único objeto de meus afetos: Meu dileto é

meu eu sou dele. Vós pensais em mim e eu não quero pensar senão

em vós. Fazei sempre que vos ame, e não deixe de vos amar. Porque

eu vos amo, contento-me com ficar privado de todas as consolações

sensíveis e sofrer todas as penas. Vejo que me quereis todo para vós

e eu quero também ser todo vosso. Conheço que tudo o que existe

no mundo é mentira, engano, fumaça, futilidade e vaidade. Vós sois o

verdadeiro e único bem e por isso vós só me bastais. “Meu Deus,

quero a vós somente e nada mais”. Senhor, ouvi-me, quero só a vós

e nada mais.

49

8. “Aniquilou-se a si mesmo” (Fl 2,7). Eis o Unigênito de Deus

onipotente, verdadeiro Deus como o Padre, nascido como uma pequena

criança em uma gruta. “Ele se aniquilou a si mesmo, tomando

a forma de servo e feito semelhante aos homens”. Quem quiser ver

um Deus aniquilado, entre na gruta de Belém e aí encontrará como

um menino ligado com faixas, sem se poder mover, chorando e tremendo

de frio. Ah, santa fé, dizei-me de quem é filho este pobre menino?

Ela responde: Ele é Filho de Deus e verdadeiro Deus. E quem

o reduziu a esse mísero estado? Foi o amor que ele tem aos homens.

E encontrar-se-ão homens que não amem este Deus?

Vós, meu Jesus, consumistes vossa vida inteira entre as penas,

para fazer-me compreender o amor que me tendes, e eu desperdicei

a minha vida, desprezando-vos e desgostando-vos com os meus pecados.

Ah, fazei-me conhecer o mal que eu vos fiz e o amor que

mereceis. Mas, desde que me haveis suportado até agora, não

permitais que eu ainda vos ofenda. Inflamai-me inteiramente de vosso

santo amor e recordai-me sempre quanto padecestes por mim,

para que eu de hoje em diante me esqueça de tudo e não pense

noutra coisa senão em vos amar e dar-vos gosto. Vós viestes à terra

para reinar em nossos corações: pois bem, tirai do meu coração tudo

o que vos impeça de possuí-lo inteirinho. Fazei que a minha vontade

seja toda conforme à vossa e a vossa seja a minha e que ela seja a

regra de todas as minhas ações e meus desejos.

9. “Um menino nos foi dado e um filho nos nasceu” (Is 9,6). O fim

que teve em vista o Filho de Deus, querendo nascer como uma criança,

foi o de dar-se a nós desde sua infância e assim ganhar o nosso

amor: Para que fim toma Jesus esta doce e amável condição de menino,

pergunta S. Francisco de Sales, senão para excitar-nos e amálo

e a confiar nele? E já S. Pedro Crisólogo o havia dito: “Quis nascer

desta maneira, porque quis ser amado”.

Meu caro menino, e meu Salvador, eu vos amo e em vós confio.

Vós sois minha esperança e todo o meu amor. E que seria de mim, se

não viésseis do céu para me salvar? O inferno seria minha partilha

pelas ofensas que vos fiz. Seja bendita a vossa misericórdia, pois

estais sempre pronto a perdoar-me se eu me arrepender de meus

pecados. Sim, eu me arrependo de todo o meu coração, ó meu Jesus,

de vos haver desprezado. Recebei-me na vossa graça e fazei

que eu morra a mim mesmo para viver só para vós, meu único bem.

Queimai, ó fogo consumidor, em mim, tudo o que desagrada aos vossos

olhos e atraí para vós todos os meus afetos. eu vos amo, ó Deus

de minha alma, eu vos amo, meu tesouro, minha vida, meu tudo. Eu

vos amo e quero expirar dizendo: Meu Deus, eu vos amo, para começar

então a amar-vos com amor perfeito que não terá mais fim.

10. Os santos profetas suspiraram durante tantos anos pela vinda

de nosso Salvador: “Destilai, ó céus, o vosso orvalho e as nuvens

chovam o justo” (Is 45,8). “Enviai o cordeiro que há de dominar a

terra” (Is 16,1). “Dai-nos o vosso Salvador” (Sl 84,6). O profeta Isaías

dizia: “Oxalá romperas tu os céus e desceras de lá, os montes se

derreteriam diante de tua face.... e as águas arderiam em fogo” (Is

64,1-2). Senhor, dizia, quando os homens vos virem descido à terra

por seu amor, e derreterão os montes, isto é, os homens vencerão

todas as dificuldades para servir-vos, que lhes pareciam ao princípio

montes insuperáveis. As águas arderão em fogo, isto é, as almas

mais frias, à vista de vós feito homem, se abrasarão no vosso santo

amor. E isso se deu de fato com muitas almas felizes, coo S. Teresa,

um S. Filipe Néri, um S. Francisco Xavier, que ainda nesta terra se

abrasaram neste fogo. Ma quantas são elas? Em verdade, muito poucas.

Ah, meu Jesus, eu quero ser do número dessas poucas. Eu deveria

já há tantos anos arder no inferno, separado de vós, odiandovos

maldizendo-vos para sempre. Mas vós me suportastes com tanta

paciência, para ver-me abrasado, não neste fogo desgraçado, mas

no bem-aventurado fogo de vosso amor. Para esse fim me destes

tantas luzes e tantos toques do coração, enquanto eu estava longe

de vós, enfim tanto fizestes que com vossos doces atrativos me

obrigastes a amar-vos. Eis que eu já sou vosso. Eu quero ser sempre

vosso e todo vosso. A vós pertence tornar-me fiel e eu o espero com

segurança de vossa bondade. Ah, meu Deus, quem terá ainda ânimo

de vos abandonar e de viver ainda que seja por um momento sem

vosso amor? Eu vos amo, ó meu Jesus, sobre todas as coisas, mas

isto é pouco. Amo-vos mais do que a mim mesmo e é ainda pouco.

Amo-vos com todo o meu coração, com toda a minha alma e também

isso é ainda pouco. Ó meu Jesus, ouvi-me, dai-me mais amor, mais

amor. Ó Maria, rogai a Deus por mim.

11. “O desprezado e o último dos homens” (Is 53,3). Eis o que foi

a vida do Filho de Deus feito homem: “o último dos homens”; foi tratado

como o mais vil e desprezível deles. E a que maior baixeza pode50

ria reduzir-se a vida de Jesus Cristo do que nascer numa gruta? viver

como artífice numa oficina, desconhecido e desprezado? ser preso

como réu? flagelado como escravo? esbofeteado, tratado como rei

de burla, escarrado na face? e finalmente morrer justiçado como

malfeitor num patíbulo infame? S. Bernardo exclama: “O último e

altíssimo”. Ó Deus, sois o senhor de todos e como vos contentais de

ser o mais desprezado de todos? E eu, ó meu Jesus, vendo-vos assim

humilhado por mim, como pretendo ser estimado e honrado de

todos, pecador e soberbo?

Ah, meu Redentor desprezado, fazei que pelo vosso exemplo eu

ame os desprezos e a vida obscura. De agora em diante, espero com

vosso auxílio abraçar todos os opróbrios que me forem feitos, por

amor de vós que suportastes tantos por amor de mim. Perdoai-me o

orgulho de minha vida passada e dai-me vosso amor. Eu vos amo,

meu Jesus desprezado. Ide adiante com vossa cruz, que eu quero

acompanhar-vos com a minha e não vos abandonar mais até morrer

crucificado por vós, como vós morrestes crucificado por mim. Meu

Jesus, meu Jesus desprezado, eu vos abraço e abraçado convosco

quero viver e morrer.

12. “Varão das dores” (Is 53,3). Qual foi a vida de Jesus Cristo?

vida de dores. Vida cheia de dores internas e externas, desde o começo

até ao fim. Mas o que mais afligiu a Jesus Cristo em toda a sua

vida foi a vista dos pecados e das ingratidões com que lhe haviam os

homens de pagar as penas que ele com tão grande amor sofreu por

nós: tal vista fez dele o homem mais aflito que jamais existiu nesta

terra. Ó meu Jesus, também eu concorri para vos afligir com os meus

pecados, durante toda a vossa vida. E por que não digo com S. Margarida

de Cortona que, exortada por seu confessor a tranqüilizar-se e

não chorar mais porque Deus já lhe havia perdoado os pecados, respondeu

com mais copioso pranto: Ah, meu padre, e como poderei

deixar de chorar, se os meus pecados afligiram meu Jesus durante

toda a sua vida?

Oh! pudesse eu morrer de dor, ó meu Jesus, todas as vezes que

me recordo de vos haver causado tantas amarguras nos dias de minha

vida! Ai de mim, quantas noites eu dormi privado da vossa graça.

Quantas vezes me perdoastes e eu tornei a voltar-vos as costas?

Meu caro Senhor, arrependo-me sobre todas as coisas de vos ter

ofendido e vos amo de todo o meu coração, amo-vos com toda a

minha alma. Ah, não permitais que eu ainda viva separado de vós.

Meu dulcíssimo Jesus, não permitais que eu me separe de vós. Meu

Jesus, ouvistes-me: não permitais que eu me separe de vós. Fazei

que eu antes morra que trair-vos novamente. Ó Mãe da perseverança,

Maria, impetrai-me a santa perseverança.

13. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até

ao fim” (Jo 13,1). O amor dos amigos cresce na ocasião da morte,

pois que estão para separar-se das pessoas amadas e por isso procuram

mais do que nunca testemunhar-lhes o seu afeto e demonstrar-

lhes o amor que lhes consagram. Jesus durante sua vida inteira

testemunhou-nos o seu afeto, mas nas vésperas de sua morte quer

dar-nos as mais convincentes provas de seu amor. E que prova mais

evidente nos poderia dar este amante Senhor, que dando-nos o seu

sangue e a sua vida em prol de cada um de nós? e ainda não satisfeito

com sacrificar-nos seu próprio corpo na cruz, no-lo quis deixar em

alimento, a fim de que cada um, que o recebesse, se unisse inteiramente

com ele e assim de sua parte crescesse no amor. Ó bondade

infinita, ó amor infinito, ó meu amado Jesus, enchei meu coração de

vosso santo amor, para que eu me esqueça do mundo e de mim

mesmo, para não pensar senão em vos amar e agradar. Eu vos consagro

o meu corpo, a minha alma, a minha vontade e a minha liberdade.

No passado procurei minhas satisfações com desgosto vosso;

arrependendo-me sumamente, meu amor crucificado, e de agora em

diante não quero buscar outra coisa senão vós: Meu Deus e meu

tudo. Quero só a vós e nada mais. Ah, se eu pudesse consumir-me

todo por vós como vós vos consumistes todo por mim, meu único

bem, meu único amor. Eu vos amo e me entrego inteiramente à vossa

santa vontade. Fazei que eu vos ame e depois fazei de mim o que vos

aprouver.

14. “Minha alma está triste até à morte” (Mt 26,38). Eis as palavras

que saíram do coração magoado de Jesus Cristo no jardim de

Getsêmani, antes de ele morrer. Mas onde nascia essa tristeza tão

grande que bastava para dar-lhe a morte? Talvez na visão dos tormentos

que devia sofrer? Não, porque esses tormentos já os viu desde

a sua encarnação, viu-os e aceitou-os de livre e própria vontade:

“Foi oferecido porque ele mesmo o quis” (Is 53,7). A sua tristeza foi

motivada pela vista dos pecados que os homens iriam cometer depois

de sua morte. E nessa hora viu todas as culpas particulares de

cada um de nós, diz S. Bernardino de Sena.

51

Não foi, ó meu Jesus, a vista dos açoites, dos espinhos e da cruz

que tanto vos afligiu no jardim das Oliveiras; foi a vista de meus pecados,

cada um dos quais vos oprimiu de tal modo o coração com dor e

tristeza, que vos fez suar sangue e entrar em agonia. Eis aí a recompensa

com que paguei o amor que me mostrastes morrendo por mim.

Oh! fazei-me sentir parte dessa dor que sofrestes no horto pelas minhas

culpas, para que essa dor me conserve na tristeza durante minha

vida inteira. Ah, meu doce Redentor, pudesse eu consolar-vos

tanto com minha dor e com o meu amor quanto eu vos afligi. Arrependo-

me, meu amor, de todo o meu coração, de vos haver posposto a

todas as minhas miseráveis satisfações. Arrependo-me e vos amo

sobre todas as coisas. Percebo que vós, apesar de ofendido por mim,

ainda me pedis o meu amor e quereis que eu vos ame de todo o

coração. “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda

a tua alma” (Mt 22,37). Sim, meu Deus, eu vos amo de todo o coração,

eu vos amo com toda a minha alma, dai-me o amor que desejais

de mim. Se pelo passado busquei a mim mesmo, agora não quero

buscar senão a vós. E vendo que me amastes mais do que aos outros,

quero também amar-vos mais do que os outros. Atraí-me sempre

mais, ó meu Jesus, ao vosso amor com o odor de vossos perfumes,

que são os amorosos atrativos de vossa graça. Dai-me, em suma,

força para corresponder a um afeto tão grande de um Deus, demonstrado

a um verme ingrato e traidor. Maria, Mãe de misericórdia, ajudaime

com as vossas súplicas.

15. “Aprisionaram a Jesus e o ligaram” (Jo 18,12). Um Deus preso

e ligado. Que deveriam dizer os anjos, vendo seu Rei passar pelas

ruas de Jerusalém com as mãos ligadas e ao meio de soldados! E

que deveríamos dizer nós, vendo nosso Deus que se deixa, por nosso

amor, prender como malfeitor, para ser apresentado aos juízes

que o condenarão à morte? “Que tendes vós com as cadeias?” pergunta

S. Bernardo. Que relação pode haver entre vós e as cadeias

dos malfeitores, ó meu Jesus, majestade e bondade infinita? Elas

nos pertencem a nós, pecadores e réus do inferno, não a vós, que

sois inocente e santo dos santos. E S. Bernardo, contemplando Jesus

declarado réu de morte, continua: Que fizestes, inocentíssimo

Jesus, para que assim vos condenem? Ó meu caro Salvador, sois a

inocência mesma; por que delito sereis condenado? Ah, eu vo-lo direi:

o delito que cometestes foi o amor excessivo que consagrastes

aos homens: O vosso pecado é o vosso amor. Beijo essas cordas

que vos prendem, ó meu amado Jesus: elas me livram das cadeias

que eu mereci. Mísero que sou, quantas vezes renunciei à vossa

amizade e me fiz escravo de Lúcifer, desonrando-vos, ó majestade

infinita. Arrependo-me sobre todas as coisas de vos haver injuriado

assim tão gravemente. Ah, meu Deus, prendei aos vossos pés esta

minha vontade com os dóceis laços de vosso amor, para que ela

nada mais queira senão o que vos agrada. Fazei que eu tome o vosso

querer pelo guia único de minha vida inteira. Fazei que eu não tenha

outro cuidado senão o de vos agradar, pois que vos empenhastes

tanto por meu bem. Eu vos amo, meu sumo bem, eu vos amo, único

objeto de meus afetos. Reconheço que só vós me amastes em verdade

e só a vós quero amar. Renuncio a tudo, vós só me bastais.

16. “Ele foi ferido por causa das nossas iniqüidades e quebrantado

por causa dos nossos crimes” (Is 53,5). Bastaria uma só bofetada

suportada por este Homem-Deus, para satisfazer pelos pecados de

todo o mundo. Com isso, porém, não se contentou Jesus Cristo: ele

quis ser ferido e quebrantado por nossas perversidades, isto é, ferido

e dilacerado da cabeça aos pés, de modo que não ficou uma parte sã

no seu corpo sacratíssimo. E assim o mesmo profeta o vi todo chagado

como um leproso: “E nós o julgamos como um leproso e ferido por

Deus e humilhado” (Is 53,4).

Ó chagas do meu atormentado Jesus, vós sois os penhores do

amor que este meu Redentor me consagra. Vós, com mui delicados

convites, me obrigais a amá-lo por tantos tormentos que ele quis sofrer

por meu amor. Ó meu querido Jesus, quando me entregarei todo

a vós, que vos destes todo a mim? Eu vos amo, meu sumo bem.

Amo-vos, ó Deus amante de minha alma. Ó Deus de amor, dai-me

amor. Fazei que com o amor compense as amarguras que vos causei

no passado. Fazei que eu arranque de meu coração tudo o que não

tende ao vosso amor. compense as amarguras que vos causei no passado.

Fazei que eu arranque de meu coração tudo o que não tende ao

vosso amor. Pai eterno, olhai para a face de vosso Cristo, olhai para as

chagas de vosso Filho, que vos imploram misericórdia para mim e, por

elas, perdoai-me os ultrajes que vos fiz: apossai-vos por completo de

meu coração, para que eu não ame, não busque, não suspire senão por

vós. Digo-vos com S. Inácio: “Dai-me unicamente o vosso amor com a

vossa graça e serei bastante rico”. Eis tudo o que vos peço, ó Deus de

minha alma, dai-me o vosso amor juntamente com a vossa graça e nada

mais desejo. Ó Mãe de Deus, Maria, intercedei por mim.

52

17. “Salve, rei dos judeus!” Assim saudavam por escárnio ao nosso

Redentor os soldados romanos. Depois de o terem tratado como

rei impostor e coroado de espinho, ajoelhavam-se diante dele, saudando-

o como rei dos judeus e em seguida, levantando-se com gritos

e risos, davam-lhe bofetadas e escarravam-lhe no rosto. É o que nos

contam S. Mateus (27,29) e S. João (19,3).

Ó Jesus meu, essa cruel coroa que vos cinge a cabeça, esse vil

caniço que tendes na mão, essa veste de púrpura dilacerada que vos

serve de ludíbrio, declaram suficientemente que sois rei, mas rei de

amor. Os judeus não vos querem reconhecer por seu rei e dizem a

Pilatos: “Não temos outro rei além de César” (Jo 19,15). Meu amado

Redentor, se os outros não vos querem por seu rei, eu vos aceito e

quero que sejais o único rei de minha alma. Consagro-me a vós por

completo, disponde de mim como vos aprouver. Para conseguir isto,

sofrestes tantos desprezos, dores e até a morte, para conquistar os

nossos corações e neles reinar com vosso amor. “Por isso Cristo

morreu... para dominar sobre os vivos e os mortos” (Rm 14,9). Apossaivos,

pois, de todo o meu coração, ó meu rei querido, e aí reinai e

dominai para sempre. No passado, rejeitei-vos como meu senhor, para

servir às minhas paixões; agora eu quero ser todo vosso e a vós só

servir. Ah, prendei-me a vós com vosso amor e fazei-me lembrar sempre

da morte cruel que por mim sofrestes. Ah, meu rei, meu Deus,

meu amor, meu tudo, que mais desejo senão vós, Deus de meu coração

e minha herança por toda a eternidade? Ó Deus de meu coração,

eu vos amo, vós sois a minha herança, vós meu único bem.

18. “E levando a cruz às costas, saiu para aquele lugar que se

chama Calvário” (Jo 19,17). Eis o Salvador do mundo já em caminho

com a cruz às costas para morrer condenado por amor dos homens.

O cordeiro divino, sem se queixar, deixa-se conduzir ao sacrifício da

cruz pela nossa salvação. Levanta-te, minha alma, acompanha e segue

o teu Jesus, que vai sofrer a morte por teu amor, para pagar por

teus pecados. Dizei-me, ó meu Jesus e meu Deus, que pretendeis

dos homens, dando vossa vida por amor deles? S. Bernardo responde:

“Quando Deus ama, nada mais quer do que ser amado”. Quisestes,

pois, ó meu Redentor, por esse preço conquistar o nosso amor. E

haverá homens que creiam em vós e não vos amem? Consola-me o

pensamento de que vós sois o amor de todos os santos, o amor de

Maria, o amor de vosso Pai. Mas, ó meu Deus, quantos há que não

querem vos conhecer e quantos que vos conhecem não querem vos

amar. Ó amor infinito, fazei-vos conhecer e fazei-vos amar. Oh! pudesse

eu com meu sangue e coma minha morte fazer-vos amar de

todos. Mas, ai de mim que passei tantos anos no mundo e apesar de

vos conhecer não vos amei. Vós, porém, com tanta delicadeza me

atraístes para vosso amor. Infeliz do tempo em que perdi a vossa

graça: a dor que agora sinto, o desejo que experimento de ser todo

vosso e em especial a morte que sofrestes por mim dão-me uma

firme confiança, ó meu amor, de que já me haveis perdoado e de que

presentemente me amais. Ó meu Jesus, pudesse eu morrer por vós

como morrestes por mim. Ainda que não houvesse castigo para quem

não vos ama, não quereria deixar de amar-vos e fazer todo o possível

para vos contentar. Vós, que me inspirastes este bom desejo, dai-me

a força de o pôr em prática. Meu amor, minha esperança, não me

abandoneis; fazei que eu corresponda na vida que me resta ao amor

particular que me consagrais. Vós quereis que eu seja vosso e eu

quero ser todo vosso. Eu vos amo, meu Deus, meu tesouro, meu

tudo. Eu quero viver e morrer, repetindo sempre: eu vos amo, eu vos

amo, eu vos amo.

19. “E como um cordeiro diante do tosquiador, se calará e não

abrirá sua boca” (Is 53,7). Era esse o texto que estava lendo o eunuco

da rainha Candace, sem compreender de quem se falava, quando S.

Filipe, inspirado pelo Senhor, subiu ao coche em que ele se achava e

explicou-lhe que isso se referia ao nosso Redentor Jesus Cristo (At

8,32). Jesus foi denominado cordeiro, porque, à semelhança do cordeiro,

foi primeiramente dilacerado no pretório de Pilatos e em seguida

conduzido à morte. Assim João Batista exclamou: “Eis o Cordeiro

de Deus, eis o que tira os pecados do mundo”. Ele é o Cordeiro que

padece e que morre como vítima na cruz pelos pecados dos homens.

“Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas fraquezas e carregou

com as nossas dores” (Is 53,4). Infelizes aqueles que não tiverem

amado a Jesus Cristo durante a sua vida. No dia do juízo, a vista

deste cordeiro irado os fará dizer aos montes: “Montes, caí sobre nós

e escondei-nos da face daquele que está assentado sobre o trono e

da ira do cordeiro” (Ap 6,6).

Ó meu divino Cordeiro, se até agora não vos amei, quero dora

em diante amar-vos sempre. Eu estava cego, mas agora que me

iluminastes e me fizestes conhecer o grande mal que fiz, voltandovos

as costas, e o amor infinito que mereceis por vossa bondade e

pelo amor que me mostrastes, arrependo-me de todo o coração de

53

vos haver ofendido e vos amo sobre todas as coisas. Ó chagas, ó

sangue de meu Redentor, vós, que haveis abrasado em amor tantas

almas, inflamai também a minha alma. Ó meu Jesus, fazei que eu

sempre me recorde de vossa paixão e das penas e ignomínias que

nela sofrestes por mim, a fim de que eu desprenda meus afetos dos

bens terrenos e os ponha todos em vós, único e infinito bem. Eu vos

amo, Cordeiro de Deus, sacrificado e morto sobre a cruz por amor de

mim. Vós não recusastes sofrer por mim e eu não recuso padecer por

vós quanto quiserdes. Não quero queixar-me mais das cruzes que

me enviardes. Eu deveria há tantos anos estar no inferno, como posso,

pois lamentar-me? Dai-me a graça de amar-vos e fazei de mim o

que vos aprouver. “Quem me há de separar da caridade de Cristo?”

Ah, meu Jesus, só o pecado pode separar-me do vosso amor, por

isso não permitais que eu peque novamente: dai-me antes a morte;

peço-vos por vossa paixão. E a vós suplico, ó Maria, que me livreis da

morte do pecado por vossas dores.

20. “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Mt 27,46).

Ó Deus, quem não se compadecerá do Filho de Deus que está morrendo

sobre a cruz? Ele é atormentado exteriormente no seu corpo

por inúmeras chagas e interiormente estão tão aflito e triste que procura

alívio a seus tormentos junto de seu eterno Pai. Este, porém,

para satisfazer a justiça divina, abandona-o e deixa-o morrer em desolação

e privado de todo o conforto.

Oh! morte desolada de meu amado Redentor, vós sois minha

esperança. Ó meu Jesus abandonado, vossos merecimentos dãome

a esperança de não viver abandonado e separado de vós para

sempre no inferno. Não pretendo viver em consolações nesta terra,

abraço todas as penas e desolações quem mereceu os tormentos

eternos, ofendendo-vos. Basta-me o amar-vos e viver na vossa graça.

Peço-vos unicamente que não permitais que me veja ainda uma

só vez privado de vosso amor. Ainda que todos me abandonem, não

me abandoneis vós, condenando-me a esta suma desgraça. Eu vos

amo, meu Jesus, que morrestes abandonado por mim; eu vos amo,

meu único bem, minha única esperança, meu único amor.

21. “Eles o crucificaram e com ele dois outros, um de um lado e o

outro de outro, ficando Jesus no meio” (Jo 19,18). A esposa sagrada

chama o Verbo encarnado “todo desejável é o meu dileto” (Ct 5,16).

Em qualquer estado de sua vida em que Jesus se nos apresente,

sempre aparece todo desejável e todo amável, quer o contemplemos

como um menino na gruta, quer como um operário na oficina de S.

José, quer como um solitário em oração no deserto, quer como um

pregador banhado em suor percorrendo a Judéia. Em nenhum passo,

porém, se nos mostra mais amável que pregado na cruz, onde

morre trucidado pelo amor imenso que nos dedica. S. Francisco de

Sales dizia: “o monte Calvário é o monte dos que amam; o amor que

não nasce da paixão do Salvador é fraco”. Desgraçada é a morte

sem o amor do Redentor. Acostumem-nos, pois, a considerar este

homem de dores pregado no lenho de opróbrios como nosso Deus,

que aí está sofrendo e morrendo exclusivamente por nosso amor.

Ó meu Jesus, se todos os homens se detivessem a contemplarvos

na cruz com fé viva, crendo que sois em verdade o seu Deus e

morrestes por sua salvação, como poderiam viver longe de vós e

privados de vosso amor? E eu, como pude dar-vos tantos desgostos,

sabendo tudo isso? Os outros, se vos ofenderam, pecaram nas trevas;

eu, porém, vos ofendi na luz. Mas essas mãos transpassadas,

esse lado aberto, esse sangue, essas chagas que vejo em vós, fazem-

me esperar o perdão e a vossa graça. Arrependo-me, ó meu

amor, de vos ter desprezado por algum tempo. Agora, porém, amovos

de todo o meu coração e não há coisa que mais me atormente do

que a lembrança de vos haver desprezado. Esta dor que sinto é sinal

de que já me perdoastes. Ó coração inflamado de Jesus, inflamai

meu pobre coração. Ó meu Jesus, que morrestes consumido de dor

por mim, fazei que eu morra consumido da dor de vos ter ofendido e

do amor que vós mereceis. Eu me sacrifico todo a vós que vos

sacrificastes todo por mim. Ó Mãe das dores, fazei-me fiel no amor a

Jesus Cristo.

22. “E inclinando a cabeça, entregou o seu espírito” (Jo 19,30).

Eis, ó meu Redentor, a que ponto vos levou o amor que tendes aos

homens, a morrer de dores numa cruz, submergido num mar de penas

e ignomínias, como já o previra Davi: “Cheguei ao alto mar e a

tempestade me submergiu” (Sl 68,3). S. Francisco de Sales escreve:

Consideremos este divino Salvador estendido na cruz, sobre um altar

honorífico, no qual morre de amor pelos homens. Ah, por que não

nos lançamos em espírito sobre essa cruz para morrer com ele, que

quis morrer por amor de nós? Eu o prenderei, devemos dizer, e não o

abandonarei jamais; morrerei com ele e me abrasarei nas chamas de

seu amor. Um só e o mesmo fogo consumirá esse divino Criador e a

54

sua miserável criatura. O meu Jesus é todo meu e eu sou todo dele.

Eu viverei e morrerei sobre seu peito; nem a morte nem a vida me

separarão mais de meu Jesus.

Sim, meu caro Redentor, eu me abraço com a vossa cruz, beijo

os vossos pés transpassados, enternecido e confuso, vendo o afeto

com que morrestes por mim. Recebei-me e ligai-me a vossos pés,

para que não me separe mais de vós e dora em diante só convosco

me entretenha, a vós comunique todos os meus pensamentos, em

vós concentre todos os meus afetos, de tal maneira que não busque

outra coisa senão amar-vos e agradar-vos, suspirando sempre por

sair deste vale de perigos e chegar a amar-vos face a face com todas

as minhas forças no vosso reino, que é o reino do eterno amor. Fazei,

entretanto, que eu viva sempre no arrependimento das ofensas que

vos fiz e ardendo em amor por vós, que por amor de mim destes a

vida. Eu vos amo, Jesus, morto por mim, eu vos amo, ó amor infinito,

eu vos amo, ó bondade infinita. Ó Mãe do belo amor, Maria, rogai a

Jesus por mim.

23. “Ele foi sacrificado porque ele mesmo o quis” (Is 53,7). O Verbo

encarnado, no instante de sua conceição, viu diante de si todas as

almas que ele deveria remir. Foste também tu, minha alma, apresentada

então como ré de todos os pecados que haverias de cometer, e

Jesus Cristo aceitou todas as penas que por ti deveria suportar na

vida e na morte. Dessa maneira, obteve-te, o perdão e todas as graças

que haverias de receber de Deus, as luzes, os convites de seu

amor, os auxílios para venceres as tentações, as consolações espirituais,

as lágrimas, as doces emoções na consideração do amor que

te consagrou e os sentimentos de dor ao te recordares das ofensas

que lhe fizeste.

Ó meu Jesus, desde, pois, o começo de vossa vida vos

sobrecarregastes de todos os meus pecados e vos oferecestes a satisfazer

por eles com vossas dores. Com vossa morte me livrastes da

morte eterna. “Vós, porém, livrastes a minha alma, para ela não perecer;

lançastes para trás de vossas costas todos os meus pecados” (Is

38,17). Vós, meu amor, em vez de castigos pelas injúrias que vos

irroguei, me cumulastes de favores e misericórdias, a fim de

conquistardes um dia o meu coração. Meu Jesus, esse dia já chegou,

eu vos amo com toda a minha alma. E se eu não vos amar, quem vos

há de amar? É este, ó meu Jesus, o primeiro pecado que haveis de

perdoar-me: o de ter vivido tantos anos no mundo e não vos ter amado.

Para o futuro quero fazer o quanto posso para vos agradar. Vossa

graça desperta em mim um grande desejo de viver só para vós e

desprender-me de todas as coisas criadas. Sinto igualmente um grande

desgosto das contrariedades que vos causei. Este desejo e este

desgosto são dons vossos, ó meu Jesus. Continuai, pois, ó meu amor,

a proteger-me para que eu continue fiel a vosso amor, pois conheceis

a minha fraqueza. Fazei-me todo vosso, como vos fizestes todo meu.

Eu vos amo, meu único bem, meu único tesouro, meu tudo. Ó meu

Jesus, eu vos amo, eu vos amo, eu vos amo. Ó Mãe de Deus, ajudaime.

24. “Deus, enviando seu Filho na semelhança da carne do pecado,

também por causa do pecado condenou o pecado da carne” (Rm

8,3). Deus, pois, enviou seu Filho para remir-nos, revestido da carne

humana semelhante à carne pecadora dos outros homens. “Cristo

nos remiu da maldição da lei, tornando-se por nosso amor maldito,

porque está escrito: Maldito todo aquele que é suspenso no lenho”

(Gl 3,3). Assim, Jesus Cristo quer aparecer ao mundo como réu amaldiçoado,

pendente da cruz, para nos livrar da maldição eterna. Ó Padre

eterno, por amor deste Filho que vos é tão caro, tende piedade de

mim. E vós, Jesus, meu Redentor, que com a vossa morte me livrastes

da escravidão do pecado com que nasci e dos pecados que cometi

depois do batismo, transformai as cadeias que me faziam escravo de

Lúcifer em cadeias de ouro que me liguem a vós pelo santo amor.

Demonstrai em mim a eficácia de vossa graça e merecimentos, transformando-

me de pecador em santo.

Eu deveria há muitos anos arder no inferno, mas espero arder em

vosso amor e ser todo vosso por vossa infinita misericórdia e para

glória de vossa morte. Não quero que meu coração ame outra coisa

além de vós. “A nós venha o vosso reino”. Reinai, ó meu Jesus, reinai

sobre minha alma inteira. Fazei que ela obedeça tão somente a vós,

sós a vós busque e só por vós suspire. Retirai-vos de meu coração,

afetos terrenos, e vinde vós, chamas do amor divino, e possuí-me

todo e consumi-me em amor por aquele Deus de amor que quis morrer

consumido por mim. Eu vos amo, ó meu Jesus, eu vos amo, ó

amabilidade infinita e meu verdadeiro amigo. Jamais alguém me amou

mais do que a vós e por isso todo a vós me dou e me consagro, meu

tesouro, meu tudo.

25. “Ele nos amou e nos lavou de nossos pecados em seu san55

gue” (Ap 1,5). Assim, ó meu Jesus, para salvar a minha alma, quisestes

preparar-lhe um banho com vosso próprio sangue e lavá-la das manchas

de seus pecados. Se, pois, nossas almas foram compradas com

o vosso sangue (fostes comprados por um grande preço — 1Cor 6,20)

é sinal de que vós muito as amais e por isso deixai-me rezar: Pedimos,

pois, que socorrais aos vossos servos que remistes com vosso

sangue precioso. É certo que com meus pecados tentei separar-me

de vós e de livre vontade vos quis perder, mas recordai-vos, ó Jesus,

que me comprastes com vosso sangue: não se perca por minha causa

este sangue derramado com tanta dor e com tanto amor.

Eu com os meus pecados vos expulsei de minha alma, ó meu

Deus, e mereci a vossa ira; vós, porém, dissestes que estais pronto a

vos esquecer das culpas de um pecador que se arrepende: “Se alguém

fizer penitência... não me recordarei de todas as suas iniqüidades”

(Ez 18,22). Além disso, afirmastes que amais aquele que vos

ama: “Eu amo os que me amam” (Pr 8,17). Esquecei-vos, portanto, ó

meu Jesus, de todos os desgostos que vos causei e amai-me; pois

eu agora vos amo mais do que a mim mesmo e me arrependo sobre

todas as coisas de vos haver ofendido. Eia, pois, meu amado Salvador,

por amor daquele sangue que derramastes por meu amor, não

me odieis e amai-me. Não me contento se só me perdoardes o castigo

que mereci; eu quero amar e ser amado por vós. Ó Deus todo

amor, todo bondade, uni-me e ligai-me todo a vós e não permitais

que de vós jamais me separe, para nunca mais me tornar merecedor

de vosso ódio. Não, meu Jesus, meu amor, não o permitais: quero ser

todo vosso e quero que vós sejais todo meu.

26. “Ele se humilhou a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte

da cruz” (Fl 2,8). Terão feito os santos mártires uma ação muito grande

dando a vida por Deus, quando se considera que ele se humilhou

até a morrer na cruz por amor deles? Para se retribuir condignamente

a morte de um Deus, não é suficiente o sacrifício das vidas de todos

os homens, mas seria necessário que um outro Deus morresse por

seu amor. Deixai-me, pois, dizer-vos, meu amado Jesus, com vosso

servo S. Francisco de Assis: “Morrerei, Senhor, por amor de vosso

amor, que vos dignastes morrer por amor de meu amor”.

É verdade, meu Redentor, que no passado eu infelizmente renunciei

ao vosso amor por minhas indignas satisfações; agora, porém,

iluminado e mudado por vossas graça, estou pronto a dar a vida

mil vezes por vosso amor. Oh! antes tivesse eu morrido e não vos

tivesse ofendido! Oh! tivesse eu vos amado sempre! Agradeço-vos o

tempo que me dais para amar-vos nesta vida, possibilitando-me o

amar-vos depois para todo o sempre, na eternidade. Recordai-me

sempre, ó meu Jesus, a morte ignominiosa que sofrestes por mim,

para que eu não me esqueça mais de amar-vos à vista do amor que

me consagrastes. Eu vos amo, bondade infinita, eu vos amo, meu

sumo bem, a nós todo me dou e vós, por aquele amor que vos obrigou

a morrer por mim, aceitai-me e fazei que antes eu morra e seja

destruído do que deixar de vos amar. Dir-vos-ei com S. Francisco de

Sales: Ó amor eterno, minha alma vos procura e vos escolhe para

sempre. Vinde, Espírito Santo, e inflamai os nossos corações com

vosso amor. Ou amar, ou morrer. Morrer a todo outro amor para viver

só para amor de Jesus.

27. “A caridade de Cristo nos impele” (2Cor 5,14). Muito ternas e

cheias de unção são as palavras que escreve S. Francisco de Sales

sobre este texto no seu livro do amor de Deus: Ouvi, Teótimo, nenhuma

coisa constrange e solicita o coração do homem como o amor. Se

alguém se sente amado por quem quer que seja, vê-se obrigado a

amá-lo; quando, porém, um rústico é amado por um grande senhor,

fica-lhe ainda mais obrigado, e quando é por um monarca, torna-se

maior a sua obrigação. Sabendo, pois, que Jesus, verdadeiro Deus,

nos amou até sofrer por nós a morte e a morte da cruz, não é isto

sentir os nossos corações como num torniquete que os comprime e

os força, a tresvazar amor com uma violência que é tanto mais forte

quanto mais amável?

Ó meu Jesus, desde que quereis ser amado por mim, fazei que

me lembre sempre do amor que me mostrastes e das penas que

sofrestes para patentear-me esse amor. Fazei que a sua recordação

não se afaste mais de minha mente e da mente de todos os homens,

pois não é possível crer que vós padecestes para nos obrigar a vos

amar e não amar-vos. No passado foi esse estado de minha vida tão

desregrada e celerada, por não ter considerado, ó meu Jesus, o afeto

que tínheis por mim. Eu conhecia, entretanto, o grande desgosto que

vos causava com os meus pecados e, não obstante isso, os cometi e

repeti. Todas as vezes que disso me recordo desejaria morrer de dor

e não teria coragem de pedir-vos perdão se não soubesse que

morrestes para me perdoar. Vós me suportastes para que, à vista do

mal que vos fiz e da morte que sofrestes por mim, eu sinta maior dor

e amor para convosco. Eu me arrependo, meu caro Redentor, de todo

56

o meu coração, de vos haver ofendido e vos amo com toda a minha

alma. Depois de tantos sinais de vosso amor e de tanta misericórdia

usada para comigo, prometo-vos que não quero mais amar outra coisa

fora de vós e quero amar-vos com todas as minhas forças. Vós

sois, ó meu Jesus, o meu amor, o meu tudo. Vós sois o meu amor,

porque em vós pus todos os meus afetos. Vós sois o meu tudo, porque

não quero outra coisa senão vós. Fazei, portanto, que eu sempre

vos chame na vida e na morte por toda a eternidade, meu Deus, meu

amor, meu tudo.

28. “A caridade de Cristo nos impele” (2Cor 5,14). Consideremos

mais uma vez a força destas palavras. O Apóstolo quer dizer que não

é tanto o que Jesus Cristo sofreu por nós na sua paixão que nos deve

obrigar a amá-lo, quanto o amor que ele nos demonstrou, querendo

padecer tanto por nós. Este amor levava nosso Salvador a dizer durante

sua vida que se sentia morrer de desejo de ver chegar logo a

hora de sua morte, para fazer-nos conhecer o imenso amor que nos

dedicava: “Eu devo ser batizado com um batismo e em que ansiedade

me sinto eu até que ele se cumpra” (Lc 12,50). E esse amor ainda

o fez exclamar na última noite de sua vida: “Eu desejei ardentemente

comer esta páscoa convosco” (Lc 22,15).

Tão grande, pois, ó meu Jesus, foi o desejo que tínheis de ser

amado por nós, que durante toda a vossa vida não desejastes outra

coisa senão padecer e morrer por nós, para nos obrigar a amar-vos

ao menos em agradecimento de tão grande amor. Vós tanto anelais o

nosso amor e nós tão pouco desejamos o vosso! Infeliz de mim, no

passado fui tão louco que não só não desejei o vosso amor, mas

provoquei mesmo a vossa ira, perdendo-vos o respeito. Meu caro

Redentor, reconheço o mal que fiz e o detesto sobre todas as coisas

e me arrependo de todo o meu coração. Agora só desejo o vosso

amor mais do que todos os bens do mundo. Sumo e único tesouro

meu, eu vos amo sobre todas as coisas, vos amo mais do que a mim

mesmo, vos amo com toda a minha alma e nada mais desejo senão

amar-vos e ser amado por vós. Esquecei-vos, ó meu Jesus, das ofensas

que vos fiz e amai-me muito para que eu também muito vos possa

amar. Vós sois o meu amor, vós sois a minha esperança. Já sabeis

como eu sou fraco, ajudai-me, Jesus, meu amor, ajudai-me, Jesus,

minha esperança. Socorrei-me também vós com as vossas súplicas,

ó grande Mãe de Deus, Maria.

29. “Ninguém tem mais amor que o daquele que dá a própria vida

por seus amigos” (Jo 15,13). E que mais podia fazer o teu Deus, ó

minha alma, do que dar a vida para fazer-se amar de ti? Dar a vida é

o maior sinal de afeto que um homem pode dar a um outro seu amigo.

Que afeto, porém, não foi aquele de nosso Criador, querendo morrer

por nós, suas criaturas? É o que nos faz considerar S. João, quando

escreve: Nisso conhecemos a caridade de Deus, porque ele deu sua

alma por nós (Jo 3,16). Se a fé não nos ensinasse que um Deus quis

morrer para nos provar o seu amor, quem jamais o creria?

Ah, meu Jesus, eu creio que vós morrestes por mim e por isso

me confesso digno de mil infernos, por ter pago com injúrias e ingratidões

o amor que me mostrastes, dando a vossa vida por mim. Agradeço

a vossa misericórdia, que prometeu perdoar àquele que se arrepende.

Confiado, pois, nessa doce promessa. espero de vós o perdão

e entretanto me arrependo de todo o meu coração de haver tantas

vezes desprezado o vosso amor. Mas visto que o vosso amor não

me abandonou ainda, vencido por vosso amor, consagro-me inteiramente

a vós. Vós, meu Jesus, consumistes a vossa vida morrendo de

dores numa cruz. Que vos posso oferecer em agradecimento, eu,

miserável criatura? Consagro-vos a minha vida, abraçando todos os

sofrimentos que me vierem de vossas mãos, tanto na vida como na

morte. Enternecido e confundido com tão grande misericórdia usada

para comigo, abraço com a vossa cruz os vossos pés e assim quero

viver e morrer. Ó meu Redentor, pelo amor com que me amastes,

morrendo por mim, não permitais que eu me separe jamais de vós.

Fazei que eu viva sempre e morre abraçado convosco. Meu Jesus,

meu Jesus, eu o repito, fazei que eu viva sempre e morra abraçado

convosco.

30. “Eu, quando for exaltado da terra, atrairei tudo a mim.” (Jo

12,32). Vós dissestes, meu Salvador, que uma vez na cruz, atrairíeis

a vós todos os corações. Como então o meu coração viveu por tantos

anos longe de vós? Ah, a culpa não é vossa. Quantas vezes não me

chamastes ao vosso amor e eu me fiz surdo? Quantas vezes me

perdoastes e advertistes amorosamente com os remorsos da consciência

a não mais vos ofender e eu tornei a ofender-vos? Ah, meu

Jesus, não me envieis ao inferno, porque lá maldirei para sempre

todas essas graças que me concedestes, pois essas graças todas,

as luzes que me destes, os convites feitos, a paciência com que me

suportastes, o sangue derramado para salvar-me serão o tormento

57

mais cruel de todo o inferno. Sinto, porém, que novamente me chamais

e me dizeis com tanto amor, como se eu nunca vos tivesse ofendido:

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração”. Vós me mandais

que eu vos ame e eu vos amo de todo o meu coração. Mas se não mo

mandásseis, ó meu Jesus, poderia eu viver sem vos amar, depois de

tantas provas de vosso afeto? Sim, eu vos amo, meu sumo bem, eu

vos amo de todo o meu coração. Amo-vos porque o mandais, amovos

porque sois digno de amor infinito; amo-vos, e não desejo nada

mais senão amar-vos e nenhuma coisa temo senão ver-me separado

de vós e viver sem vosso amor. Ó meu amor crucificado, não permitais

que eu cesse jamais de vos amar. Recordai-me sempre a morte que

por mim sofrestes. Recordai-me as finezas que me tendes demonstrado

e fazei que a sua lembrança me inflame sempre mais a amarvos

e a consumir-me por vós, que vos consumistes como vítima de

amor por mim sobre a cruz.

31. “O que não poupou nem sequer seu próprio Filho, mas entregou-

o por nós todos, como não nos terá dado com ele todas as coisas?”

(Rm 8,32). Oh! quantas chamas de amor não deveriam acender

em nossos corações essas palavras: entregou-o por todos nós. A

justiça divina, ofendida por nossos pecados, devia ser satisfeita, e

que faz Deus? para nos perdoar, quer que seu Filho seja condenado

à morte e pague o castigo que tínhamos merecido: Não poupou seu

próprio Filho. Ó Deus, se o Padre eterno estivesse sujeito à dor, que

dor não teria sentido ao condenar à morte seu Filho predileto e inocente

pelos pecados de seus escravos! Figuremo-nos o Padre com

seu Filho morto nos braços, a exclamar: “Eu o feri por causa dos

crimes de meu povo” (Is 53,8). Tinha, pois, razão S. Francisco de

Paula de exclamar em êxtase de amor, ao considerar a morte de

Jesus Cristo: Ó caridade, ó caridade, ó caridade! Ao demais, quanta

confiança não vos devem inspirar as palavras que seguem: Como

não vos terá dado com ele todas as coisas? Como posso eu temer, ó

meu Deus, que não me dareis o perdão, a perseverança, o vosso

amor, o paraíso e todas as graças que posso esperar de vós, depois

de me haverdes dado o objeto que vos é mais caro, a saber o vosso

próprio Filho? Já compreendo o que devo fazer para obter de vós

todos os bens: é pedir-vos pelo amor de Jesus Cristo. Isto é o que me

ensinou o mesmo Jesus: “Em verdade, em verdade eu vos digo, se

pedirdes alguma coisa a meu Pai em meu nome, ele vo-la dará” (Jo

16,23).

Meu sumo e eterno Deus, eu até ao presente desprezei a vossa

majestade e bondade infinita, mas agora eu vos amo sobre todas as

coisas e porque eu vos amo, me arrependo de todo o coração de vos

haver ofendido e proponho aceitar antes a morte e todos os sofrimentos

do que vos tornar a ofender. Perdoai-me e concedei-me as graças

que, confiado nas promessas de Jesus Cristo, agora vos peço. Em

nome de Jesus Cristo vos peço a santa perseverança até à morte;

dai-me um perfeito e puro amor para convosco; dai-me uma total conformidade

com a vossa santa vontade; dai-me, finalmente, o paraíso.

Tudo isso eu espero e vos peço pelos merecimentos de Jesus Cristo.

Eu não mereço nada: mereço apenas castigos e não graças; Vós

porém, nada negais a quem vos suplica pelo amor de Jesus Cristo.

Ah, meu bom Deus, vejo que me quereis todo a vós e eu quero ser

todo vosso e não quero temer que os meus pecados me impeçam ser

todo vosso:: Jesus Cristo já satisfez por eles, e vós, em consideração

ao amor de Jesus, estais pronto a conceder-me tudo o que eu desejo.

Ele é o meu desejo e o meu pedido. Meu Deus, ouvi-me: eu quero

amar-vos, eu quero amar-vos muito e ser todo vosso. Maria santíssima,

auxiliai-me.

32. “Nós, porém, pregamos Jesus crucificado, que é um escândalo

para os judeus e uma loucura para os gentios” (1Cor 1,25). Segundo

nos atesta S. Paulo, os gentios, ouvindo pregar que o Filho de

Deus tinha sido crucificado pela salvação dos homens, tinham isso

em conta de loucura. Quem poderá crer nessa loucura, diziam, que

um Deus tenha querido morrer por amor de suas criaturas? Até S.

Maria Madalena de Pazzi, extasiada de amor, exclamava, fora de si:

Não sabeis, caras irmãs, que o meu Jesus não é senão amor? que

ele é louco de amor? Digo que sois louco de amor, ó meu Jesus, e

sempre o direi.

Ah, meu Redentor, se eu possuísse os corações de todos os homens

e com esses corações vos amasse quanto mereceis! Ó Deus

de amor, por que é que nesta terra, na qual derramastes todo o vosso

sangue e destes a vida por amor dos homens, tão poucos homens

ardem em amor por vós? Vós viestes para acender nos nossos corações

o fogo desse amor e nada mais desejais do que vê-lo aceso:

“Eu vim trazer fogo à terra e que desejo eu, senão que ele se acenda?”

(Lc 12,49). Suplico-vos, pois, com a santa Igreja, para mim e

para todos os homens que vivem: Acendei neles o fogo de vosso

amor, acendei, acendei. Meu Deus todo bondade, todo amor. fazei58

vos conhecer e fazei-vos amar por todos. Eu não me acanho de assim

rogar, eu, que no passado desprezei mais que os outros o vosso

amor. Agora, iluminado com a vossa graça e ferido por tantas setas

de amor que me dirigistes de vosso coração inflamado e abrasado de

amor por minha alma, não quero mais ser ingrato como fui até aqui;

quero amar-vos com todas as minhas forças, quero arder em vosso

amor e vós mo haveis de conceder. Não pretendo consolações e ternuras

no vosso amor, não as mereço, nem vo-las peço, basta-me que

eu vos ame. Amo-vos, meu sumo bem, amo-vos, meu Deus, meu

tudo: “Meu Deus e meu tudo”.

33. “Nele pôs as iniqüidades de nós todos... e o Senhor quis

quebrantá-la na sua enfermidade” (Is 53,6-10). Eis aqui até onde chegou

o amor de Deus para com os homens. O eterno Padre carregou

sobre os ombros de seu próprio Filho todos os nossos pecados e

quis que o Filho pagasse com todo o rigor o castigo que merecíamos,

fazendo-o morrer sobre um lenho infame, consumido de dores. Tem,

pois, o apóstolo razão, falando de tal amor, de chamá-lo excessivo,

querendo Deus que nós recebêssemos a vida por meio da morte de

seu Filho querido: “Por causa da excessiva caridade com que nos

amou, quando estávamos mortos pelos pecados, nos convivificou em

Cristo (Ef 2,4-5).

Muito, pois, me tendes amado, ó meu Deus, e mui ingrato me

tenho mostrado, ofendendo-vos e voltando-vos tantas vezes as contas.

Ó eterno Pai, olhai naquela cruz vosso Filho unigênito, dilacerado

e morto por mim, e por seu amor perdoai-me e arrebatai o meu

coração ao vosso amor. “Senhor, vós não desprezareis um coração

contrito e humilhado”. Vós não sabeis desprezar um coração que se

humilha e se arrepende pelo amor de Jesus morto por nossa salvação.

Reconheço que mereço mil infernos, mas me arrependo de todo

o meu coração de vos ter ofendido, ó sumo bem. Não me repilais,

mas tende piedade de mim. Não me contento, porém, com o simples

perdão: quero que me concedais um grande amor para convosco,

que compense todas as ofensas que vos tenho feito. Eu vos amo,

bondade infinita, eu vos amo, ó Deus de amor. Pouco seria se eu

morresse e me consumisse por vós. Quereria amar-vos quanto o

mereceis. Mas vós sabeis que eu nada posso, fazei-me vós mesmo

grato ao grande afeto que me tendes, eu vo-lo peço pelo amor de

Jesus, vosso Filho. Fazei que em vida eu supere tudo para vos agradar

e na morte esteja todo unido à vossa vontade, para chegar e

amar-vos face a face com um amor perfeito e eterno no paraíso.

34. “Eu sou o bom Pastor: o bom pastor dá a sua alma por suas

ovelhas” (Jo 10,11). Que dizeis, meu Jesus? que pastor quer dar a

vida por suas ovelhas? Só vós, porque sois um Deus de infinito amor,

pudestes dizer: “E eu dou a vida por minhas ovelhas”. Só vós pudestes

demonstrar no mundo esse excesso de amor, que, sendo nosso Deus

e nosso supremo Senhor, quisestes morrer por nós. Desse excesso

falavam Moisés e Elias no monte Tabor: “Falavam do excesso que

realizaria em Jerusalém” (Lc 9,31). Também S. João nos exorta a

amar um Deus que foi o primeiro a amar-nos: “Amemos, pois, a ele,

porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4,19). É como se dissesse: se

não quisermos amar este Deus por sua infinita bondade, amemo-lo

ao menos pelo amor que nos demonstrou, querendo sofrer por nós

as penas que nos eram devidas.

Recordai-vos, pois, meu caro Jesus, que eu sou uma daquelas

vossas ovelhas pelas quais destes a vida. Olhai-me com um daqueles

olhares piedosos com que um dia do alto da cruz me olhastes,

morrendo por mim: olhai-me, mudai-me e salvai-me. Vós afirmastes

ser o pastor amoroso que, encontrando a ovelha perdida, a toma com

alegria e a coloca sobre os ombros e chama os amigos para se alegrarem

com ele: “Congratulai-vos comigo, porque encontrei a ovelha

que havia perdido” (Lc 15,6).. Eis, eu sou a ovelha perdida, buscai-me

e carregai-me: “Errei como uma ovelha que se perde; buscai o vosso

servo” (Sl 118,176).

Se por minha culpa ainda não me encontrastes, prendei-me agora,

carregai-me e ligai-me a vós, para que não tresmalhe mais. O laço

deve ser o vosso amor, se não me ligardes com esse doce laço, me

perderei de novo. Ah, não fostes vós que deixastes de ligar-me com

vosso santo amor, mas fui eu, ingrato, que andei fugindo sempre de

vós. Peço-vos, porém, por aquela infinita misericórdia que vos fez

descer à terra em busca de mim, ligai-me, mas ligai-me com laço

duplo de amor, para que não me percais jamais e eu nunca mais vos

perca. Meu amado Redentor, não quero separar-me mais de vós.

Renuncio a todo bem e gosto deste mundo e me prontifico a padecer

todas as penas, toda a espécie de morte, para que viva sempre e

morra ligado a vós. Amo-vos, meu amabilíssimo Jesus, eu vos amo,

meu bom pastor, morto por vossa ovelha perdida; ficai sabendo que

esta ovelha agora vos ama mais do que a si mesma e não deseja

outra coisa que amar-vos e consumir-se por vosso amor. Tende com59

paixão dela, amai-a e não permitais que se separe jamais de vós.

35. “Eu mesmo ponho a minha vida... Ninguém a toma de mim,

porém eu de mim mesmo a entrego” (Jo 10,17-18). Eis, pois, que o

Verbo encarnado, arrastado unicamente pelo amor que sente por nós,

aceita a morte na cruz, para restituir ao homem a vida que perdera.

Eis que um Deus, diz S. Tomás, faz pelo homem o que mais não

poderia fazer se o homem fosse o deus dele (para assim falar) e

como se Deus, privado do homem, não pudesse ser feliz. Nós pecamos,

e pecando merecemos as penas eternas. E que faz Jesus? toma

sobre si a obrigação de satisfazer e pagar por nós com seus sofrimentos

e sua morte: “Em verdade tomou sobre si as nossas fraquezas

e ele mesmo carregou com as nossas dores” (Is 53,4).

Ah, meu Jesus, pois que fui a causa de tantas amarguras e tormentos

que sofrestes durante a vida na terra, peço-vos que me façais

participar da dor que sentistes dos meus pecados e confiar na vossa

paixão. Que seria de mim, se vos não houvésseis dignado satisfazer

por mim? Ó majestade infinita, arrependo-me de todo o coração de

vos ter ultrajado, mas espero de vós compaixão, ó bondade infinita.

Aplicai à minha alma, ó Salvador do mundo, o fruto da vossa morte, e

de rebelde e ingrato que hei sido, tornai-me vosso filho tão amoroso

que não ame senão a vós e nada mais tema senão causar-vos desgosto.

Que aquele amor imenso que vos fez morrer por mim, também

faça morrer em mim todos os afetos terrenos. Ó meu Jesus, tomai o

meu corpo, para que ele só me sirva para vos obedecer, tomai o eu

coração para que ele só um desejo tenha, o de vos agradar; tomai a

minha vontade, para que ela não queira senão o que vós quereis. Eu

vos abraço e aperto ao meu coração, meu Redentor; não vos dedigneis

de vos unir a mim. Eu vos amo, ó Deus de amor, eu vos amo, meu

único bem. E quem terá coração capaz de vos abandonar, depois de

me haverdes feito conhecer quanto me tendes amado e quanta misericórdia

usastes comigo, mudando os castigos que me eram devidos

em graças e finezas? Ó Virgem santa, alcançai-me a graça de me

mostrar grato a vosso Filho.

36. “Destruindo o quirógrafo do decreto que existia contra nós,

ele o pôs de lado, pregando-o na cruz” (Cl 2,14). Já estava escrita

contra nós a sentença que nos condenava à morte eterna como rebeldes

contra a divina Majestade. E que fez Jesus Cristo? Com seu

sangue apagou a escritura da condenação e para livrar-nos de todo o

temor afixou-a à sua cruz, na qual morreu para satisfazer por nós a

justiça divina. Considera, minha alma, a obrigação de contraíste para

com este teu Redentor e ouve o que te diz o Espírito Santo: “Não te

esqueças da graça que te fez teu fiador” (Eclo 29,20). Quando, pois,

te recordares de teus pecados, olha para a cruz e confia: olha para

aquele lenho sagrado, tinto com o sangue do Cordeiro de Deus, sacrificado

por teu amor, e espera e ama o Deus que tanto te amou.

Sim, meu Jesus, eu tudo espero da bondade infinita que sois

vós. É próprio de vossa natureza divina pagar o mal com o bem a

quem, tendo-se emendado de suas culpas, se arrepende de as haver

cometido e vos ama. Sim, meu amado Redentor, o que me dói acima

de todos os males é haver desprezado a vossa bondade. Ferido por

vosso amor, eu vos amo e desejo comprazer-vos em tudo que for de

vosso agrado. Miserável que sou! quando eu estava em pecado, era

escravo do demônio e ele era meu senhor. Agora, espero estar na

vossa graça, sede vós só, meu Jesus, meu único Senhor e meu único

amor. Tomai posse de mim, possuí-me inteiramente, pois eu quero

ser só vosso e todo vosso. Não, eu não quero mais esquecer-me dos

tormentos que sofrestes por mim, para inflamar-me cada vez mais e

crescer no vosso amor. Eu vos amo, meu amabilíssimo Redentor, eu

vos amo, ó Verbo encarnado, meu tesouro, meu tudo, eu vos amo, eu

vos amo.

37. “Se alguém pecar, temos um advogado junto do Pai, Jesus

Cristo, o justo, e ele é a propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 2,1-

2). Oh! quanta confiança não inspiram estas palavras aos pecadores

arrependidos! Jesus Cristo, no céu, está fazendo o ofício de advogado

deles e lhes obtendo com segurança o perdão. Quando um pecador

escapa de suas cadeias, o demônio o tenta desconfiar do perdão.

S. Paulo, porém, o anima, dizendo: “Quem é que nos condenará?

Jesus Cristo, que morreu... e que também intercede por nós” (Rm

8,34). O Apóstolo quer dizer: se nós detestarmos os pecados cometidos,

por que havemos de temer? Quem é que nos há de condenar?

Jesus Cristo, o mesmo que morreu para não nos condenar e presentemente

está no céu e nos defende. E continua a dizer: “Quem, pois,

nos separará da caridade de Cristo?” como se dissesse: Depois de

termos sido perdoados por Jesus Cristo e recebidos na sua graça,

quem terá mais coragem para voltar-lhe as costas e separar-se de

seu amor?

Não, ó meu Jesus, não quero mais viver separado de vós e priva60

do de vosso amor. Deploro aqueles dias infelizes que vivi sem a vossa

graça. Espero que já me tenhais perdoado, pois eu vos amo e vós

me amais. Vós, porém, me amais com um amor imenso e eu vos amo

tão pouco: dai-me mais amor. Ó bondade infinita, eu me arrependo

sobre todas as coisas de vos haver assim maltratado no passado;

agora, porém, amo-vos sobre todas as coisas, amo-vos mais do que

a mim mesmo e me comprazo mais, ó meu Deus, em saber que sois

infinitamente feliz do que com toda a minha felicidade própria, porque

amo mais a vós, que mereceis um amor infinito, do que a mim, que só

mereço o inferno. Jesus, eu não quero outra coisa de vós senão vós

mesmo.

38. “Vinde a mim vós todos que trabalhais e estais sobrecarregados,

que eu vos aliviarei” (Mt 11,28). Ouçamos a Jesus Cristo, que da

cruz na qual está pregado e do altar permanece sacramentado nos

chama a nós, pobres e aflitos pecadores, para nos consolar e enriquecer

com suas graças. Oh! que dois grandes mistérios de esperança

e de amor são para nós a paixão de Jesus e o sacramento da

Eucaristia; mistérios que seriam inaceitáveis se a fé não nos desse

certeza. Um Deus querer derramar todo o seu sangue até à última

gota (o que significa a palavra: será derramado — Mt 26,28) e por

quê? para pagar pelos nossos pecados. E querer ainda dar em alimento

às nossas almas esse mesmo corpo que fora sacrificado na

cruz para nossa salvação. Estes grandes mistérios deveriam enternecer

os corações mais duros e abrandar os pecadores mais desprezados.

Diz em suma o Apóstolo que “fomos enriquecidos em todas as

coisas nele... de modo que nada nos falta em graça alguma” (1Cor

1,5-7). Basta que invoquemos este Deus, para que use de misericórdia

conosco, que ele encherá de graças cada um que lhe peça, como

nos assegura o mesmo Apóstolo: “Ele é rico para com todos que o

invocam” (Rm 10,12).

Logo, meu divino Salvador, se eu tenho motivo de desesperar do

perdão das ofensas e traições que vos fiz, tenho muito mais motivo

de confiar na vossa bondade. Meu Pai, eu vos abandonei qual filho

ingrato, agora eu me volto para vossos pés, contrito e enternecido

por tanta misericórdia usada para comigo, e humilhado vos digo: “Pai,

eu não sou digno de ser chamado vosso filho.” Vós dissestes que há

festa no paraíso quando um pecador se converte (Lc 15,7). Eis que

eu abandono tudo e me volto para vós, meu Pai crucificado; eu me

arrependo de todo o meu coração de vos haver perdido o respeito,

voltando-vos as costas. Recebei-me novamente na vossa graça e

inflamai-me no vosso santo amor, para que nunca mais vos abandone.

Vós dissestes: “Eu vim para que tenham a vida e a tenham em

abundância” (Jo 10,10). Por isso, eu não só espero de vós a graça

que eu já possuía antes de vos ofender, mas uma abundância de

graça que me transforme todo em fogo para vos amar. Oh! pudesse

eu amar-vos, ó meu Deus, quanto mereceis! Eu vos amo sobre todas

as coisas, eu vos amo mais do que a mim mesmo, eu vos amo com

todo o meu coração e desejo o céu para amar-vos eternamente: “Pois

que tenho eu no céu e fora de ti, que desejei eu sobre a terra? Deus,

para sempre” (Sl 72,25-26). Ah, Deus de meu coração, tomai e

conservai a posse de todo o meu coração e arrancai dele todo o afeto

que não for para vós. Vós sois o único tesouro, meu único amor. Eu

só quero a vós e nada mais. Ó Maria, minha esperança, atraí-me

todo a Deus com as vossas súplicas. Amém.

61

OPÚSCULO III Aviso ao Leitor

Eu te prometi, benévolo leitor, no meu livro das Glórias de Maria,

um outro livro sobre o Amor a Jesus Cristo. Em razão de minhas

enfermidades, meu diretor não me permitiu escrevê-lo. Foi-me apenas

concedida a licença de publicar estas sucintas reflexões sobre a

paixão, nas quais, contudo, eu compendiei o que de mais belo tinha

encontrado sobre essa matéria: excetuando algumas coisas referentes

à encarnação e nascimento do Senhor, que eu pretendo, se me

for permitido, publicar num livrinho para a novena de Natal. Espero,

não obstante, que esta minha obrinha te agrade, especialmente por

teres debaixo dos olhos, relatados com ordem, os passos da Sagrada

Escritura a respeito do amor que Jesus Cristo nos demonstrou na

sua morte, pois não há coisa que possa mover mais um cristão ao

amor divino do que a própria palavra de Deus, que possuímos nas

Santas Escrituras.

Amemos, pois, bastante a Jesus Cristo, em quem encontramos o

nosso Salvador, o nosso Deus e todo o nosso bem. Peço-te, pois,

que todos os dias medites um pouco sobre a sua paixão, na qual

encontrarás todos os motivos de esperar a vida eterna e de amar a

Deus, no que consiste toda a nossa salvação. Todos os santos se

mostraram enamorados de Jesus Cristo e de sua paixão e por este

meio único se santificaram. O Pe. Baltasar Álvarez, como se lê na sua

vida, diz que ninguém julgue ter feito alguma coisa, se não tiver chegado

a possuir Jesus crucificado sempre no coração, e por isso sua

oração consistia em pôr-se ao pé do crucifixo e, meditando e três

REFLEXÕES SOBRE A PAIXÃO

DE JESUS CRISTO,

EXPOSTA COM A SIMPLICIDADE

COM QUE A DESCREVEM

OS SANTOS EVANGELISTAS

62

coisas: na pobreza, no desprezo e nas dores do crucificado, aprender

a lição que Jesus lhe dava da cruz. Também tu podes esperar santificar-

te, se de modo semelhante perseverares na consideração do que

Jesus fez e padeceu por ti. Suplica-lhe sempre que te conceda o seu

amor. Pede-o sempre igualmente à tua senhora, a Maria, que se chama

a Mãe do belo amor. E quando lhes implorares este grande dom,

implora-o também para mim, que tive em vista fazer de ti um santo

com este meu pequeno trabalho. De minha parte prometo fazer o

mesmo por ti, para que um dia possamos no paraíso nos abraçar em

santa caridade e nos dar por amantes desta amabilíssimo Senhor e,

aí, como companheiros escolhidos para todo o sempre, amar face a

face e eternamente nosso Salvador e amor, Jesus. Amém.

Introdução

Diz S. Agostinho não haver coisa mais útil para conseguir a salvação

eterna do que pensar todos os dias nos tormentos que Jesus

sofreu por nosso amor (Ad Frat. in er. serm. 32). E já Orígenes tinha

escrito que o pecado não poderia certamente imperar na alma que

meditasse continuamente na morte de seu Salvador (Lib. 6 in Rm 6).

Além disso, revelou o Senhor a um santo anacoreta não haver exercício

mais apropriado para acender num coração o amor divino, do que

meditar na paixão de nosso Redentor. Por essa razão dizia o Pe.

Baltasar Álvarez que a ignorância dos tesouros que possuímos em

Jesus, na sua paixão, era a ruína dos cristãos, e por isso repetia a

seus penitentes que não pensassem ter feito coisa alguma se não

tivessem ainda conseguido ter sempre fixo no seu coração a Jesus

crucificado. As chagas de Jesus, dizia S. Boaventura (Stim. div. am. p.

I, c. 1), ferem os corações mais duros e inflamam as almas mais frias.

Ora, como adverte sabiamente um douto escritor (Pe. Croiset,

Exerc. Mart. t. 3), não há coisa melhor para nos descobrir os tesouros

recônditos na paixão de Jesus Cristo, do que a simples narração dessa

mesma paixão. Basta para inflamar uma alma fiel no amor divino a

narração feita pelos santos evangelhos e considerar com olhos cristãos

tudo o que o Salvador sofreu nos principais teatros de sua paixão,

isto é, no horto das Oliveiras, na cidade de Jerusalém e no monte

Calvário. São belas e boas as muitas considerações feitas e escritas

por autores piedosos sobre a paixão de Jesus; mas certamente

faz maior impressão a um cristão uma só palavra das sagradas Escrituras

do que cem ou mil considerações e revelações escritas ou feitas

a algumas pessoas devotas, pois as criaturas nos afiançam que

tudo o que elas nos referem é certo e tem uma certeza de fé divina.

Para tal fim quis, em benefício e para consolação das almas que amam

a Jesus Cristo, pôr em ordem e referir simplesmente (ajuntando apenas

algumas breves reflexões e afetos) o que nos dizem da paixão de

Jesus os sagrados evangelistas, os quais nos oferecem matéria de

63

meditação para cem e até mil anos, capaz de inflamar ao mesmo

tempo os nossos corações em amor para com nosso amantíssimo

Redentor.

Ó Deus, como é possível que uma alma, que tem fé e considera

as dores e ignomínias que Jesus Cristo sofreu por nós, não arda de

amor por ele e não tome firmes resoluções de fazer-se santa para

não ser ingrata para com um Deus tão amoroso? É preciso fé; do

contrário, se a fé não nos desse certeza, quem poderia aceitar o que

um Deus fez em verdade por nós: “Ele se aniquilou a si mesmo, tomando

a forma de escravo” (Fl 2,7). Quem poderia crer que Jesus é o

mesmo ser supremo que é adorado no céu, vendo-o nascer num estábulo?

quem o vê fugindo para o Egito, para livrar-se das mãos de

Herodes, crerá que ele é onipotente? Quem o vê a agonizar de tristeza,

no horto, o julgará felicíssimo? Vê-lo preso a uma coluna, pendente

de um patíbulo e crê-lo Senhor do universo?

Que espanto ver um rei que se fizesse verme, que se arrastasse

pelo chão, que habitasse numa cova de barro e daí desse leis, criasse

ministros e governasse o reino. Ó santa fé, revelai o que é Jesus

Cristo, quem é esse homem que parece tão vil como todos os outros

homens: “O Verbo se fez carne” (Jo 1,14). S. João nos atesta que ele

é Verbo eterno, é o Unigênito de Deus. E qual foi a vida que passou

na terra esse Homem-Deus? Ei-la, referida por Isaías: “Nós o vimos...

desprezado e como o último dos homens, como o varão das dores”

(Is 53,2-3). Ele quis ser o homem das dores e não houve um instante

em que ele estivesse livre de dores. Foi o homem das dores e o homem

dos desprezos. Desprezado e como o último dos homens, sim

porque Jesus foi o mais desprezado e maltratado, como se fosse o

último e o mais vil de todos os homens. Um Deus preso por esbirros

como um malfeitor! Um Deus flagelado como um escravo! Um Deus

tratado como rei da burla! Um Deus morre pendente num lenho infame!!

Que impressões não devem causar estes prodígios, em quem

tem fé? E que desejo não deverão infundir de padecer por Jesus

Cristo? Dizia S. Francisco de Sales: “As chamas do Redentor são

outras tantas bocas que nos ensinam como devemos padecer por

ele. Esta é a ciência dos santos, sofrer constantemente por Jesus, e

assim tornaram-se depressa santos. E como não nos abrasaremos

em amor, à vista das chagas que se encontram no seio do Redentor?

que ventura podermos ser abrasados pelo mesmo fogo em que se

abrasa o nosso Deus, e que alegria de sermos unidos a Deus pelas

cadeias de amor”.

Mas, por que então tantos fiéis contemplam Jesus Cristo na cruz

com olhos indiferentes? Assistem até na semana santa à comemoração

de sua morte, mas sem nenhum sentimento de ternura ou gratidão,

como se se tratasse de uma coisa irreal ou que nada tivesse

conosco? Talvez não saibam ou não creiam no que dizem os evangelhos

da paixão de Jesus Cristo? Respondo e digo que muito bem o

sabem e crêem, mas não refletem nisso. Pois quem o crê e nisso

pensa não poderá deixar de se abrasar no amor de um Deus que

tanto padeceu e morreu por seu amor. “A caridade de Cristo nos impele”

(2 Cor 5,14), escreve o apóstolo. Quer dizer que na paixão do

Senhor não devemos considerar tanto as dores e os desprezos que

ele padeceu, como o amor com que os suportou, pois se Jesus quis

sofrer tanto, não foi unicamente para salvar-nos, já que para isso bastava

uma simples oração sua, mas para nos patentear o amor que nos

consagra e assim ganhar os nossos corações. E de fato, se uma alma

pensa neste amor de Jesus Cristo, não poderá deixar de amá-lo: “A

caridade de Cristo nos impele”, ela se sentirá presa e obrigada quase

por força a dedicar-lhe todo o seu afeto. Por esta razão Jesus Cristo

morreu por nós todos, para que não vivamos mais para nós, mas

exclusivamente para esse amantíssimo Redentor, que por nós sacrificou

sua vida divina.

Oh! felizes de vós, almas amantes, diz Isaías, que meditais continuamente

na paixão de Jesus: “Tirareis com alegria águas das fontes

do Salvador” (Is 12,3). Vós tirareis águas perenes de amor e confiança

dessas fontes felizes que são as chagas de vosso Salvador. E

como poderá duvidar ainda da divina misericórdia qualquer pecador,

por enorme que seja, se ele se arrepende de suas culpas, à vista de

Jesus crucificado, sabendo que o Padre eterno carregou sobre esse

seu Filho dileto todos os nossos pecados, para que ele satisfizesse

por nós? “O Senhor carregou sobre ele a iniqüidade de todos nós” (Is

53,6). Como poderemos temer, ajunta S. Paulo, que Deus nos negue

alguma graça depois de haver-nos dado seu próprio Filho? “O qual

não poupou nem ainda seu próprio Filho, mas entregou-o por nós

todos, como não nos deu também com ele todas as coisas? (Rm

8,32).

64

CAPÍTULO I

Jesus entra em Jerusalém

“Eis que teu rei vem a ti cheio de mansidão, montado sobre uma

jumenta e um jumentinho, filho da que tem jugo” (Mt 21,5). Nosso

Redentor, avizinhando-se o tempo de sua paixão, parte de Betânia

para entrar em Jerusalém. Que humildade de Jesus Cristo em querer

entrar nessa cidade sentado sobre um jumento, sendo ele o rei do

céu. Ó Jerusalém, contempla o teu rei, como ele vem humilde e manso.

Não temas que ele venha para reinar sobre ti e apossar-se de

tuas riquezas; não, ele vem todo amor e cheio de compaixão para

salvar-te e trazer-te a vida com sua morte. Entretanto, o povo, que já

o venerava por causa de seus milagres e especialmente por causa

da ressurreição de Lázaro, vem ao seu encontro. Uns estendem suas

vestes sobre o caminho em que devia passar, outros espalham folhagens

de árvores para o honorificar. Quem diria então que esse Senhor,

recebido com tantas honras, dentro de poucos dias teria de

aparecer aí mesmo como réu condenado à morte com uma cruz às

costas?

Meu caro Jesus, quisestes, pois, fazer essa entrada solene para

que vossa paixão e morte fosse tanto mais ignominiosa quanto maior

fora a honra recebida. Os louvores, que agora vos dá essa ingrata

cidade, em poucos dias serão transformados em injúrias e maldições.

Agora vos dizem: “Hosana ao Filho de Davi, bendito aquele que vem

em nome do Senhor” (Mt 21,9). E depois levantarão a voz, dizendo:

Tira-o, tira-o, crucifica-o. Agora despojam-se de suas próprias vestes,

e depois vos despojarão das vossas para vos flagelar e crucificar.

Agora cortam as palmas para as colocar debaixo dos vossos pés e

depois cortarão ramos de espinhos para com eles vos atravessarem

a cabeça. Agora vos bendizem e louvam e depois vos encherão de

contumélias e blasfêmias. Ao menos tu, minha alma, dize-lhe com

amor e gratidão: Bendito o que vem em nome do Senhor. Meu amado

Redentor, sede sempre bendito, já que viestes salvar-me: se não

tivésseis vindo, estaríamos todos perdidos.

“E tendo-se aproximado e vendo a cidade, chorou sobre ela” (Lc

19,14). Jesus, ao se aproximar da infeliz cidade, a contemplou e chorou,

pensando na sua ingratidão e ruína. Ah, meu Senhor, vós, chorando

então sobre a ingratidão de Jerusalém, choráveis também sobre

a minha ingratidão e a ruína de minha alma. Meu amado Redentor,

vós chorais vendo o dano que eu mesmo me causei, expulsandovos

de minha alma e obrigando-vos a condenar-me ao inferno depois

de haverdes morrido para me salvar. Oh! deixai que eu chore, pois é

a mim que compete o chorar ao considerar o mal que vos causei,

ofendendo-vos e separando-me de vós, que tanto me amastes. Eterno

Pai, por aquelas lágrimas que vosso Filho derramou sobre mim,

dai-me a dor de meus pecados. E vós, ó amoroso e terno Coração de

meu Jesus, tende piedade de mim, pois eu detesto acima de todos os

males os desgostos que vos dei e estou resolvido a nada mais amar

afora vós.

Jesus Cristo, tendo entrado em Jerusalém e se ocupado o dia

inteiro com a pregação e cura dos enfermos, pela tarde não encontrou

ninguém que o convidasse a repousar em sua casa; viu-se por

isso obrigado a voltar novamente a Betânia. Meu amado Senhor, se

os outros vos expulsam, eu não quero expelir-vos. Houve, é verdade,

um tempo desgraçado em que eu vos expulsei de minha alma: agora,

porém, estimo mais estar unido a vós do que possuir todos os reinos

do mundo. Ah, meu Deus, o que poderá jamais separar-me do vosso

amor?

65

CAPÍTULO II

O conselho dos Juízes e a traição de Judas

“Reuniram-se os pontífices e os fariseus em conselho e diziam:

Que faremos nós? porque este homem faz muitos milagres” (Jo 11,47).

Eis como no mesmo tempo em que Jesus se empenhava em conceder

graças e fazer milagres em benefício dos homens, as primeiras

personagens da cidade se reúnem para maquinar a morte do autor

da vida. Eis o que diz o ímpio pontífice Caifás: “Considerai que vos

convém que um homem morra pelo povo e desta forma a nação toda

não pereça” (Jo 11,50). E desde esse dia, ajunta o mesmo apóstolo

S. João, os malvados pensaram em encontrar um modo de fazê-lo

morrer. Ah, judeus, não temais, pois este vosso Redentor não vos

fugirá, não, ele veio expressamente à terra a fim de morrer e por meio

de sua morte vos libertar e a todos os homens da morte eterna.

Mas eis que Judas se apresenta aos pontífices e diz-lhes: “Que

me quereis dar e eu vo-lo entregarei?” (Mt 26,15). Que alegria sentiram

então os judeus em conseqüência do ódio que tinham a Jesus,

vendo que um de seus próprios discípulos queria traí-lo e entregá-lo

nas suas mãos! Consideremos, a propósito, o júbilo que sente o inferno,

por assim dizer, quando uma alma, que por anos serviu a Jesus

Cristo, o trai por qualquer mísero bem ou vil satisfação.

Mas, ó Judas, se queres vender o teu Deus, exige pelos menos o

preço que ele merece. Ele é um bem infinito e por isso é digno de um

preço infinito. Deus do céu, tu fechas o negócio por apenas trinta

dinheiros! Ó minha infeliz alma, deixa a Judas, e volve a ti teu pensamento.

Diz-me, por que preço vendeste tantas vezes ao demônio a

graça de Deus? Ah, meu Jesus, envergonho-me de comparecer em

vossa presença, pensando nas injúrias que vos fiz. Quantas vezes

vos voltei as costas evos pospus a um capricho, a um desejo, a um

momentâneo e vil prazer? Já sabia que com tal pecado perdia vossa

amizade e voluntariamente a quis trocar por nada. Oh! tivesse eu

morrido antes de ter-vos assim ultrajado! Ó meu Jesus, arrependome

de todo o coração e desejaria morrer de dor.

Consideremos, entretanto, a benignidade de Jesus, que sabendo

muito bem o contrato feito por Judas, contudo, vendo-o, não o repele

de si, não o olha com maus olhos, antes o admite na sua companhia

e até à sua mesa e o adverte da sua traição, para que entre em si, e,

vendo-o obstinado, chega até a ajoelhar-se diante dele e a lavar-lhe

os pés para enternecê-lo. Ah, meu Jesus, vejo que o mesmo fizestes

comigo. Eu vos desprezei e vos traí e vós não me repelistes, mas me

olhastes com amor e me admitistes também à vossa mesa na santa

comunhão. Meu caro Salvador, se vos tivesse eu sempre amado! Já

agora não posso mais separar-me de vossos pés e renunciar ao vosso

amor.

66

CAPÍTULO III

Última ceia de Jesus Cristo

com seus discípulos

“Sabendo Jesus que era chegada a sua hora para passar deste

mundo ao Pai, tendo amado os seus amou-os até ao fim” (Jo 13,1).

Sabendo Jesus que estava perto de sua morte, devendo abandonar

este mundo, tendo até então amado demais os homens, quis então

dar-lhes as últimas e maiores provas de seu amor. Sentado à mesa e

todo inflamado em caridade, volta-se para seus discípulos e diz-lhes:

“Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco” (Lc 22,15). Meus

discípulos (e o mesmo dizia a cada um de nós), sabei que não desejei

outra coisa durante minha vida inteira senão comer convosco esta

última ceia, pois após ela terei de sacrificar minha vida por vossa

salvação.

Desejais então tanto, ó meu Jesus, dar a vida por nós, vossas

miseráveis criaturas? Ah, esse vosso desejo inflama os nossos corações

a desejar padecer e morrer por vosso amor, desde que por nosso

amor quisestes sofrer tanto e morrer. Ó amado Redentor, fazeinos

compreender o que quereis de nós, que só desejamos comprazervos

em tudo. Suspiramos por dar-vos prazer, para ao menos em parte

corresponder ao grande amor que nos tendes. Aumentai sempre

em nós esta bela chama, que nos faça esquecer o mundo e nós mesmos,

para que doravante não pensemos senão em contentar o vosso

amoroso coração. Põe-se à mesa o cordeiro pascal, figura de nosso

Salvador. Assim como o cordeiro era comido todo naquela ceia, assim

também no dia seguinte o mundo iria ver sobre o altar da cruz,

devorado pelas dores, o cordeiro Jesus Cristo.

“Tendo-se um discípulo reclinado sobre o peito de Jesus” (Jo

13,25). Ó feliz S. João, percebestes então a ternura que alimenta no

seu coração este amante Redentor para com as almas que o amam.

Ah, meu doce Senhor, quantas vezes me favorecestes com tal graça,

sim, também eu conheci a ternura do amor que me tendes, quando

me consolastes com inspirações celestes e doçuras espirituais e apesar

de tudo isso não me conservei fiel a vós. Ah, não me deixes mais

viver assim tão ingrato para convosco. Eu quero ser todo vosso, aceitaime

e socorrei-me.

“Levantou-se da mesa, depôs suas vestes e tomando uma toalha

cingiu-se com ela. Em seguida deitou água numa bacia e começou a

lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a tolha com que estava

cingido” (Jo 13,4-5). Minha alma, contempla o teu Jesus, como se

levante da mesa e pratica esse ato de humildade. O rei do universo,

pois, o Unigênito de Deus se rebaixa a lavar os pés de suas criaturas.

Ó Anjos, que dizeis? Seria já um grande favor se Jesus lhes permitisse

lavar com suas lágrimas seus pés divinos, como o fez com a

Madalena. Mas não, ele quis lançar-se aos pés de seus servos para

deixar-nos no fim de sua vida este grande exemplo de humildade e

sinal do grande amor que consagrava aos homens. E nós, Senhor,

continuaremos a ser sempre tão soberbos que não podemos suportar

uma palavra de desprezo, uma pequenina desatenção sem nos

ressentirmos subitamente, sem que vos venha o pensamento de vingança,

quando pelos nossos pecados merecíamos ser calcados pelo

demônio no inferno. Ah, meu Jesus, o vosso exemplo nos tornou mui

amáveis as humilhações e os desprezos. Eu vos prometo de hoje em

diante querer sofrer por vosso amor qualquer injúria ou afronta que

me for dirigida.

67

CAPÍTULO IV

Da instituição do santíssimo Sacramento

“Enquanto estavam ceando, tomou Jesus o pão, benzeu-o e partiu-

o e deu-o a seus discípulos, dizendo: Recebei e comei: isto é o

meu corpo” (Mt 26,26). Depois do lavapés, ato de tão grande humildade,

cuja prática Jesus recomendou aos discípulos, retomou as suas

vestes e sentando-se novamente à mesa quer então dar aos homens

a última prova da ternura que nutria por eles: e esta foi a instituição do

santíssimo Sacramento do altar. Para tal fim, tom um pão, consagrao

e, distribuindo-o a seus discípulos, disse-lhes: Tomai e comei, isto é

o meu corpo. Recomendou-lhes, em seguida, que todas as vezes

que comungassem se recordassem de sua morte por amor deles (1Cor

11,26). Jesus procedeu então como um príncipe que amasse muito

sua esposa e estivesse para morrer: escolhe entre suas jóias a mais

bela, e chamando a esposa, diz-lhe: Vou em breve morrer, minha esposa;

para que não te esqueças de mim, deixo-te esta jóia em recordação:

quando a olhares, recorda-te de mim e do amor que te dediquei.

São Pedro de Alcântara escreve em suas meditações: “Nenhuma

língua é suficiente para declarar a grandeza do amor que Jesus

consagra a cada alma e por isso, querendo este esposo partir deste

mundo, para que sua ausência não a fizesse esquecer-se dele, deixou-

lhe em recordação este santíssimo sacramento, no qual ele permanece

em pessoa, para que não houvesse entre os dois outro penhor

para avivar-lhe a memória do que ele mesmo”. Aprendamos daqui

quanto agrada a Jesus a recordação de sua missão: instituiu propositalmente

o sacramento do altar, para que nos recordemos continuamente

do amor imenso que nos demonstrou na sua morte.

Ó meu Jesus, ó Deus enamorado das almas, até onde vos arrastou

o amor que tendes aos homens? Até vos fazerdes seu alimento!

Dizei-me o que mais podeis fazer para obrigá-los a vos amar? Vós

vos dais todo a nós na santa comunhão, sem nada vos reservar; é,

pois, justo que nos demos também a vós sem reserva. Procurem os

outros o que quiserem: riquezas, honras e o mundo; eu quero ser

todo vosso, não quero amar coisa alguma afora de vós, meu Deus.

Vós dissestes que quem se alimentar de vós, viverá só por vós: “Aquele

que me comer, viverá também por mim” (Jo 6,58). Visto que tantas

vezes me admitistes a alimentar-me de vossa carne, fazei-me morrer

a mim mesmo, para que eu viva só para vós, só para vos servir e darvos

prazer. Ó meu Jesus, eu quero colocar em vós todos os meus

afetos, ajudai-me e ser-vos fiel.

S. Paulo nota o tempo em que Jesus instituiu este grande sacramento

e diz: “Jesus, na noite em que ia ser traído, tomou o pão e

disse: Tomai e comei, isto é o meu corpo” (1Cor 11,23). Ó Deus, naquela

mesma noite em que os homens se preparavam para dar a

68

morte a Jesus, o amante Redentor nos preparava este pão de vida e

de amor para nos unir todos a si, como ele o declarou: “Quem come a

minha carne permanece em mim e eu nele” (Jo 6,57). Ó amor de

minha alma, digno de um infinito amor, vós não podeis dar-me maiores

provas para me fazer compreender o afeto e a ternura que me

consagrais. Pois bem, atraí-me todo a vós: se eu não sei dar-vos meu

coração inteiro, arrancai-mo vós mesmo. Ah, meu Jesus, quando serei

todo vosso, como vós vos fazeis todo meu, quando vos receberei

nesse sacramento de amor? Iluminai-me e descobri-me sempre mais

as vossas belas qualidades, que vos fazem tão merecedor de afetos,

para que eu me abrase sempre mais em amor por vós e me esforce

em comprazer-vos. Eu vos amo, meu sumo bem, minha alegria, meu

amor, meu tudo.

CAPÍTULO V

Jesus ora no horto e sua sangue

“E tendo dito o hino, saíram para o monte das Oliveiras... Então

Jesus foi com eles a uma granja chamada Getsêmani” (Mt 26,30).

Tendo feito a ação de graças depois da ceia, Jesus deixa o cenáculo

com seus discípulos, entra no horto de Getsêmani e se põe a orar;

mal, porém, começa a orar assaltam-no ao mesmo tempo um grande

temor, um grande tédio e uma grande tristeza, diz S. Marcos (14,33).

E S. Mateus ajunta: “Começou a entristecer-se e ficar angustiado”.

Oprimido por essa tristeza, nosso Redentor diz que sua alma está

aflita até a morte (Mc 14,34). Passou-lhe então diante dos olhos toda

a cena funesta dos tormentos e dos opróbrios que lhe estavam preparados.

Esses tormentos o oprimiram durante sua paixão cada um

por sua vez, sucessivamente, mas aqui no horto todos juntos e ao

mesmo tempo o afligiram, as bofetadas, os escarros, os flagelos, os

espinhos, os cravos e os vitupérios que teria de sofrer depois. Jesus

os abraça todos juntos, mas, aceitando-os, sua natureza treme, agoniza

e ora: “Estando em agonia, orava com mais instância” (Lc 22,43).

Mas, ó meu Jesus, quem vos obriga a sofrer tantas penas? É o amor

que tenho aos homens, responde Jesus. Oh! como o céu terá pasmado

vendo a fortaleza tornar-se fraca, a alegria do paraíso se entristecer.

Um Deus aflito! E por quê? Para salvar os homens, suas criaturas.

Naquele horto se consumou o primeiro sacrifício: Jesus foi a vítima,

o amor foi o sacerdote e o ardor de seu afeto para com os homens

foi o fogo bem-aventurado que consumia o sacrifício.

“Meu Pai, se for possível, passe de mim este cálice” (Mt 26,39).

Assim suplica Jesus. Ele, porém, assim suplica não tanto para ver-se

livre como para nos fazer compreender a pena que sofre e aceita por

nosso amor. Suplica também assim para nos ensinar que nas tribulações

podemos pedir a Deus que nos livre delas, mas, ao mesmo

tempo, devemos em tudo nos confortar com sua divina vontade e

dizer como ele: “Contudo não se faça o que eu quero, mas como vós

quereis” (Mt 26,39). Sim, meu Senhor, eu abraço por vosso amor to69

das as cruzes que quiserdes enviar-me. Vós inocentemente tanto

sofrestes por meu amor e eu, pecador, depois de haver merecido

tantas vezes o inferno, recusarei sofrer para vos comprazer e alcançar

de vós o perdão e a vossa graça? Não seja feita a minha vontade,

mas a vossa.

“Prostrou-se em terra” (Mc 14,35). Jesus naquela oração prostrou-

se com a face na terra, porque, vendo-se coberto com a veste

sórdida de todos os nossos pecados, se envergonhara de levantar o

rosto para o céu. Meu caro Redentor, não teria coragem de pedir-vos

perdão de tantas injúrias que vos fiz, se os vossos sofrimentos e

méritos não me dessem confiança. Padre eterno, olhai para a face de

vosso Cristo; não olheis as minhas iniqüidades, olhai esse vosso Filho

querido, que treme, que agoniza, que sua sangue para obter-me

de vós o perdão. “E seu suor se fez como gotas de sangue correndo

sobre a terra” (Lc 22,44). Contemplai-o e tende piedade de mim. Mas,

ó meu Jesus, nesse jardim não existem carnífices que vos flagelem,

nem espinhos, nem cravos: e que vos faz derramar tanto sangue? ah,

eu compreendo, não foi tanto a previsão dos sofrimentos iminentes

que então vos afligiu, pois já vos havíeis oferecido para sofrer essas

penas: Foi oferecido porque ele mesmo o quis (Is 53,7), mas foi a

vista de meus pecados: eles foram a prensa cruel que espremeu o

sangue de vossas sagradas veias. Não foram tão cruéis os carrascos,

não foram tão atrozes os flagelos, os espinhos, a cruz, como o

foram os meus pecados, ó meu doce Salvador, que tanto vos afligiram

no horto.

Achando-vos num estado de grande aflição, eu ainda me prestei

a atormentar-vos e muito com o peso de minhas culpas. Se eu tivesse

pecado menos, vós teríeis padecido menos. Eis aí a paga que eu

vos dei por vosso amor, que quis morrer por mim, ajuntando penas às

vossas penas. Meu amado Senhor, eu me arrependo de vos haver

ofendido; pesa-me disso, mas esta minha dor é mui pequena. Desejaria

uma dor que me tirasse a vida. Eia, pois, por aquela agonia tão

amarga que sofrestes no horto, fazei-me participar da aversão que

tivestes dos meus pecados. E se então eu vos afligi com as minhas

ingratidões, fazei que agora eu vos amo de todo o meu coração, eu

vos amo mais do que a mim mesmo e por vosso amor renuncio a

todos os prazeres e bens da terra. Vós só sois e sereis sempre o meu

único bem, meu único amor.

CAPÍTULO VI

Jesus é preso e amarrado

“Levantai-vos, vamos: eis que já está perto quem me há de trair”

(Mc 14,42). Sabendo o Redentor que Judas juntamente com os judeus

e soldados que o vinham prender já estavam perto, levanta-se

ainda banhado no suor da morte, e com o rosto pálido mas com o

coração tão inflamado em amor, vai ao seu encontro para entregarse

em suas mãos, e, vendo-os reunidos, pergunta-lhes: “A quem

buscais?” Imagina, minha alma, que Jesus te pergunta do mesmo

modo: Dize-me, a quem buscas? Ah, meu Senhor, a quem eu procuro

senão a vós, que viestes do céu à terra em busca de mim, para

que me não perdesse?

“Prenderam a Jesus e o ligaram” (Jo 18,13). Ó céus, um Deus

amarrado! Que diríamos, se víssemos um rei preso e acorrentado

por seus criados! E que devemos dizer então, vendo um Deus entregue

às mãos da gentalha? Ó cordas felizes, vós que ligastes o meu

Redentor, prendei-me também a ele, mas prendei-me de tal modo

que eu não possa separar-me mais de seu amor; prendei o meu coração

à sua vontade santíssima, para que de agora em diante não queira

nada mais senão o que ele quer.

Contempla, minha alma, como uns lhe põe as mãos, outros o

ligam, estes o injuriam, aqueles o batem, e o Cordeiro inocente se

deixa atar e esbofetear à vontade deles. Não procura fugir de suas

mãos, não pede auxílio, não se queixa de tantas injúrias, não pergunta

por que o maltratam assim. Eis realizada a profecia de Isaías: “Foi

oferecido porque ele o quis e não abriu sua boca, como uma ovelha

será conduzido ao matadouro” (Is 53,7). Não fala e não se lamenta,

porque ele mesmo já se oferecera à justiça para satisfazer e morrer

por nós e assim deixou-se conduzir à morte qual ovelha, sem abrir a

boca.

Olha como, preso e circundado por aquele populacho, é arrastado

do horto e conduzido às pressas aos pontífices na cidade. E onde

estão seus discípulos? que fazem? Se, não podendo livrá-lo das mãos

de seus inimigos, ao menos o acompanhassem para defender sua

inocência diante dos juízes, ou então para consolá-lo com sua presença!

Mas não. O evangelho diz: “Então seus discípulos, abandonando-

o, fugiram todos” (Mc 14,50). Que dor não sentiu então Jesus,

70

vendo-se abandonado e deixado até por aqueles que lhe eram caros!

Jesus viu então todas as almas que, mais favorecidas por ele, deveriam

depois abandoná-lo e voltar-se ingratamente as costas. Ah, meu

Senhor, minha alma foi uma dessas infelizes que, depois de tantas

graças, luzes e convites recebidos de vós, esqueceram-se ingratamente

de vós e vos abandonaram. Recebei-me, por piedade, agora

que arrependido e contrito a vós me volto para não vos deixar mais, ó

tesouro, ó vida, ó amor de minha alma.

CAPÍTULO VII

Jesus é apresentado aos pontífices

e por eles condenado à morte

“Eles, apoderando-se de Jesus, o conduziram a Caifás, príncipe

dos sacerdotes, onde os escribas e anciãos se haviam congregado”

(Mt 26,57). Amarrado como um malfeitor, entra em Jerusalém nosso

Salvador, onde poucos dias antes entrara aclamado com tantas honras

e louvores. Atravessa ele de noite a estrada, entre lanternas e

tochas, e tão grande era o rumor e o tumulto, que fazia crer que se

conduzia preso algum famoso malfeitor. Chegam-se pessoas à janela

e perguntam quem é o prisioneiro. E a resposta é: Jesus Nazareno,

que se descobriu ser um sedutor, um impostor e falso profeta, merecedor

da morte. Quais foram então os sentimentos de desprezo e

desdém de todo o povo, vendo Jesus Cristo, que ele acolhera como o

Messias, aprisionando por ordem dos juízes como impostor. OH! como

se transformou em ódio a veneração de cada um que se arrependia

de o haver homenageado, envergonhando-se de ter tomado pelo

Messias a um malfeitor.

Eis como o Redentor é apresentado quase em triunfo a Caifás,

que sem dormir o espera, e, vendo-o na sua presença, só e abandonado

de todos os seus, sumamente se alegra. Contempla, minha alma,

teu doce Salvador, coo se mostra todo humilde e manso diante daquele

soberbo pontífice, estando amarrado como um criminoso e com

os olhos baixos. Contempla aquela bela face, que no meio de tantos

desprezos e injúrias não perdeu sua natural serenidade e doçura. Ah,

meu Jesus, agora que vos vejo cercado, não de anjos que vos louvam,

mas dessa plebe vil que vos odeia e despreza, que farei? continuarei

talvez a desprezar-vos como foi no passado? Ah, não. Na vida

que me resta quero estimar-vos e amar-vos como mereceis e vos

prometo não amar ninguém fora de vós. Vós sereis meu único amor,

meu bem, meu tudo. Meu Deus e meu tudo.

O ímpio pontífice interroga Jesus sobre seus discípulos e sobre

sua doutrina, para descobrir um motivo para condená-lo. Jesus hu71

mildemente lhe responde: “Eu lhe falei publicamente ao mundo... Pergunta

àqueles que ouviram o que eu lhes disse: Ei-los aí, eles sabem

o que eu ensinei” (Jo 18,20-21). Eu não falei em segredo, falei em

público: os que estão ao redor de mim podem atestar o que eu disse:

Aduz por testemunhas seus próprios inimigos. Mas, depois de uma

resposta tão acertada e tão mansa, se precipita do meio daquela

chusma um algoz mais insolente, que, tratando-o de temerário, lhe

dá uma forte bofetada, dizendo: “É assim que respondes ao pontífice?”

(Jo 18,22). Ó Deus, então uma resposta tão humilde e modesta

merecia uma afronta tão grande? O indigno pontífice o vê, mas em

vez de repreender aquele carrasco, cala-se e com seu silêncio bem

aprova o que ele fizera. Jesus, diante de tal injúria, para isentar-se da

culpa de falta de respeito ao pontífice, diz: “Se falei mal, dá testemunho

do mal, mas se falei bem, por que me bates?” (Jo 18,23). Ah,

meu amável Redentor, vós sofreis tudo para pagar as afrontas que

eu fiz à divina majestade com os meus pecados. Ah, perdoai-me,

pelo merecimento desses mesmos ultrajes que por mim sofrestes.

“Procuravam um falso testemunho contra Jesus, para o condenarem

à morte: mas não achavam” (Mt 26,59). Buscam um testemunho para

condenar a Jesus e, não o encontrando, o pontífice busca novamente

nas palavras de nosso Salvador um motivo para declará-lo réu e por

isso diz-lhe: “Eu te conjuro por Deus vivo que nos digas se tu és o

Cristo, Filho de Deus” (Mt 26,63). O Senhor, vendo-se instado em

nome de Deus, confessa a verdade e responde : “Eu o sou, e vereis o

Filho do homem sentado à destra do poder de Deus e vindo sobre as

nuvens do céu” (Mc 14,62). Eu o sou, e um dia me vereis, não assim

desprezível como agora vos pareço, mas num trono de majestade,

sentado como juiz de todos os homens, sobre as nuvens do céu. Ao

ouvir isso, o pontífice, em vez de lançar-se com o rosto em terra para

adorar seu Deus e seu juiz, rasga suas vestes e exclama: “Blasfemou,

que necessidade temos ainda de testemunhas? eis aí acabais

de ouvir a blasfêmia! Que vos parece?” (Mt 26,65-66). Responderam

todos os sacerdotes que sem dúvida alguma era digno de morte: “E

eles em resposta disseram: É réu de morte” (Mt 26,66). Ah, meu Jesus,

a mesma sentença proferiu vosso eterno Pai, quando vos

oferecestes para pagar por nossos pecados: desde que meu Filho

quer satisfazer pelos homens, é réu de morte e deve morrer.

Então lhe cuspiram no rosto e lhe deram bofetadas, outros lhe

descarregara as mãos na face, dizendo: Adivinha-nos, ó Cristo, quem

foi que te bateu?” (Mt 26,67-68). Puseram-se todos a maltratá-lo como

a um malfeitor já condenado à morte e digno de todos os vitupérios:

este lhe escarra no rosto, aquele lhe dá punhadas, mais um outro lhe

dá bofetadas e, cobrindo-lhe o rosto com um pano, como acrescenta

S. Marcos (13,65), o escarnecem como falso profeta e dizem-lhe: Pois

que és profeta, adivinha lá quem agora te bate. S. Jerônimo escreve

que foram tantos os ludíbrios e as irrisões a que sujeitaram o Senhor

naquela noite, que somente no dia de juízo serão todos eles conhecidos.

Portanto, ó meu Jesus, não repousastes naquela noite, mas fostes

o objeto da mofa e meus traços daquela gentalha. Ó homens, como

podeis contemplar um Deus tão humilhado e ser soberbos? como

podeis ver vosso Redentor padecer tanto por vós e não amá-lo? Ó

Deus, como é possível que aquele que crê e considera as dores e

ignomínias (mesmo só as narradas nos santos evangelhos) sofridas

por Jesus por nosso amor, possa viver sem se abrasar em amor por

um Deus tão benigno e tão amoroso para conosco?

Aumenta a dor de Jesus o pecado de Pedro, que o renega e jura

não haver conhecido. Vai, minha alma, vai àquele cárcere em busca

de teu Senhor, tão aflito, escarnecido e abandonado e agradece-lhe

e consola-o com teu arrependimento, já que tu durante tanto tempo

também o desprezastes e renegaste. Dize-lhe que desejarias morrer

de dor, pensando que no passado tanto amarguraste o seu doce coração,

que tanto te amou. Dize-lhe que agora o amas e nada mais

desejas senão sofrer e morrer por seu amor. Ah, meu Jesus, recordaime

dos desgostos que vos dei e olhai-me com um olhar amoroso

como olhastes para Pedro, depois de vos haver renegado; o que fez

que ele nunca mais deixasse de chorar o seu pecado até ao fim de

sua vida.

Ó grande Filho de Deus, ó amor infinito, que padeceis por aqueles

mesmos homens que vos odeiam e maltratam. Vós sois a glória

do paraíso, muita honra teríeis feito aos homens se os admitísseis

somente a beijar-vos os pés. Mas, ó Deus, quem vos arrastou a essa

determinação tão ignominiosa de vos tornar o joguete da gente mais

vil do mundo? Dizei-me, ó meu Jesus, que posso eu fazer para compensar-

vos a honra que esses vos roubam com seus opróbrios? Sinto

que me respondeis: Suporta os desprezos por amor de mim, como

eu os suportei por ti. Sim, meu Redentor, quero obedecer-vos. Meu

Jesus, desprezado por amor de mim, eu só quero e desejo ser desprezado

por amor de vós, quanto vos aprouver.

72

CAPÍTULO VIII

Jesus é conduzido a Pilatos e daí a Herodes,

sendo-lhe Barrabás preferido

“Chegada a manhã, entraram em conselho contra Jesus para

entregá-lo à morte, e preso o conduziram e entregaram ao governador

Pôncio Pilatos” (Mt 27,1-2). Pilatos, depois de muita interrogações,

feitas ora aos judeus ora ao Salvador, conhece que Jesus era

inocente e que as acusações eram unicamente calúnias. Por isso, sai

fora e diz aos judeus que não encontra motivo para condenar aquele

homem (Jo 18,38). Vendo, porém, os judeus tão empenhados em dar

a morte e ouvindo que Jesus era da Galiléia, para sair-se do embaraço,

remeteu-o a Herodes (Lc 23,7). Herodes sentiu uma grande alegria

por ter diante de si a Jesus Cristo, esperando presenciar algum

dos muitos prodígios feitos pelo Senhor, como lhe haviam relatado.

Pôs-se, pois, a crivá-lo de perguntas. Jesus, porém, se cala e nada

responde, repreendendo assim a vã curiosidade daquele temerário

(Lc 23,9). Pobre da alma à qual o Senhor não fala mais. Meu Jesus,

era isso que eu merecia, depois de me haverdes chamado tantas

vezes ao vosso amor com tantas vozes piedosas e eu não vos ter

dado ouvido. Mereceria, sim, que não me falásseis mais e me

abandonásseis: não o façais, porém, meu caro Redentor; tende piedade

de mim e falai-me: “Falai, Senhor, porque vosso servo vos escuta”.

Dizei-me, Senhor, o que quereis de mim, que eu quero obedecervos

em tudo e contentar-vos.

Mas, vendo Herodes que Jesus não lhe respondia, desprezou-o

e, tratando-o de louco, mandou que o revestissem com uma veste

branca e o ludibriou, no que foi acompanhado por sua corte inteira, e

assim vilipendiado e encarnecido o reenviou a Pilatos. “Herodes, porém,

com os da sua guarda, desprezou-o e fez escárnio dele, e, mandando

vesti-lo com uma túnica branca, o reenviou a Pilatos” (Lc 23,11).

Jesus é então levado pelas ruas de Jerusalém, revestido com aquela

veste de escárnio. Ó meu Jesus, desprezado, ainda faltava esta injúria:

ser tratado como louco! Ó cristãos, contemplai como o mundo

trata a Sabedoria eterna! Bem-aventurado aquele que se preza de

ser tratado como louco pelo mundo e não quer saber de nada mais

senão de Jesus crucificado, amando os sofrimentos e desprezos e

dizendo com S. Paulo: “Porque não entendi eu saber entre vós coisa

alguma senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1Cor 2,2).

O povo hebreu tinha o direito de pedir ao governador romano a

libertação de um réu na festa da Páscoa. Por isso Pilatos propõe-lhe

Jesus e Barrabás, dizendo: “A quem quereis que eu solte, a Barrabás

ou a Jesus?” (Mt 27,21). Pilatos esperava certamente que o povo

preferisse Jesus a Barrabás, homem celerado, homicida e ladrão

público, odiado por todos. Mas o povo, instigado pelos chefes da sinagoga,

pede, de repente, sem nenhuma deliberação, a Barrabás. “E

eles disseram: Barrabás”. Pilatos, surpreendido e ao mesmo tempo

indignado, vendo preferido um tão grande celerado a um inocente

diz: “Que hei então de fazer de Jesus? Todos responderam: Seja crucificado.

E Pilatos: Mas que mal fez ele? E eles gritavam ainda mais:

seja crucificado” (Mt 27,23). Ah, Senhor, assim procedi eu quando

pequei: eu me propunha então que coisa era preferível, ou renunciar

a vós ou àquele vil prazer. E eu respondia: Quero o prazer e não me

incomodo de perder a Deus. Assim disse eu então, meu Senhor. Agora,

porém, digo que prefiro a vossa graça a todos os prazeres e tesouros

do mundo. Ó bem infinito, ó Jesus, eu vos amo acima de todos

os bens: só a vós quero e nada mais.

Assim como foram propostos ao povo Jesus e Barrabás, do mesmo

modo foi proposto ao eterno Padre quem ele queria livre, seu filho

ou o pecador. O eterno Pai responde: Morra meu Filho e salve-se o

pecador. É o que atesta o Apóstolo: “Não poupou seu próprio Filho,

mas o entregou por todos nós” (Rm 8,32). Sim, a tal ponto, diz o

próprio Salvador, amou Deus o mundo que para salvá-lo entregou

aos tormentos e à morte seu Filho unigênito (Jo 3,16). Por isso exclama

a Igreja: Ó admirável condescendência de vossa piedade! Ó

inapreciável predileção de vossa caridade! para remirdes o escravo,

entregastes o Filho! (Hino Exultet). Ó santa fé de um homem que crê

essas coisas, como poderá deixar de ser todo fogo para amar um

Deus que ama tanto as criaturas! Oh! tivesse eu sempre diante dos

olhos esta imensa caridade de Deus.

73

CAPÍTULO IX

Jesus é flagelado numa coluna

“Pilatos então tomou Jesus e mandou açoitá-lo” (Jo 19,1). Vendo

Pilatos que os dois meios empregados para não condenar aquele

inocente, isto é, remetê-lo a Herodes e apresentá-lo junto com

Barrabás, não tinham dado resultado, escolhe um outro meio, o de

castigá-lo e depois mandá-lo embora. Convoca, pois, os judeus e dizlhes:

“Apresentastes-me este homem... e interrogando-o diante de

vós não achei nele culpa alguma, nem tão pouco Herodes... Portanto,

depois de castigado, o soltarei” (Lc 23,14-17). Vós me apresentastes

este homem como delinqüente; eu, porém, não encontro nele crime

algum, nem Herodes o descobriu. Contudo, para contentar-vos, eu o

farei castigar e depois o porei em liberdade. Ó Deus, que injustiça!

Ele o declara inocente e ainda assim lhe destina o castigo. Ó meu

Jesus, vós sois inocente, mas não eu, e desde que quereis satisfazer

por mim a justiça divina, não é injustiça mas é mesmo justo que sejais

punido. Mas qual é o castigo a quem condenas esse inocente, ó

Pilatos? A ser flagelado! Destinas, pois, a um inocente uma pena tão

cruel e vergonhosa? Mas assim esse fez. “Pilatos se apoderou de

Jesus e o mandou flagelar” (Jo 19,1). Contempla agora, minha alma,

como depois dessa tão injusta sentença os carrascos se laçam com

fúria sobre o manso Cordeiro e o conduzem aos gritos e alegria ao

pretório e o amarram à coluna. E que faz Jesus? Ele, todo humilde e

submisso, aceita por nossos pecados aquele tormento tão doloroso e

ignominioso. Eis como já se armam com os azorragues e, dado o

sinal, levantam o braço e começam a flagelar de todos os lados aquele

corpo sacrossanto. Ó carrascos, vós vos enganastes, não é ele o

réu, sou eu quem merece esses golpes. Aquele corpo virginal aparece

ao princípio todo lívido e em seguida começa a jorrar sangue de

todas as partes. E tendo os carnífices dilacerado todo o seu corpo,

continuam impiedosamente a golpear as feridas e ajuntar dores a

dores. “E sobre a dor das minhas chagas acrescentaram novas chagas”

(Sl 68,27). Ó minha alma, serás tu também do número daqueles

que com olhos indiferentes contemplam a Deus flagelado? Considera,

sim, as dores, mas ainda mais o amor com que este teu doce

Senhor padece esse grande tormento por ti. Certamente Jesus pensava

em ti na sua flagelação. Ó Deus, se ele não tivesse sofrido mais

que um golpe por amor de ti, deverias arder em amor por ele, dizendo:

um Deus se compraz em ser flagelado por meu amor! Ele, porém,

chega, por teus pecados, a se deixar dilacerar todas as carnes, como

já o predissera Isaías: “Ele, porém, foi vulnerado por causa de nossas

iniqüidades” (Is 53,5). Além disso, segundo o mesmo profeta, o mais

belo de todos os homens já não tem mais beleza. “Não existe nele

beleza nem formosura: nós o vimos e ele não tinha mais aparência”

(Is 53,2). Os flagelos o deformaram tanto que se não o conhece mais.

“O seu rosto se achava como encoberto e parecia desprezível e por

isso nenhum caso fizemos dele” (Is 53,3). Ficou reduzido a um estado

miserável, que parecia um leproso coberto de chagas dos pés até

à cabeça: “Nós o reputamos como um leproso e ferido por Deus e

humilhado” (Is 53,4). E por que isso? porque nosso amante Redentor

quis sofrer aquelas penas que nos eram devidas: “Verdadeiramente

ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas e ele mesmo carregou

com as nossas dores” (Is 53,4). Seja para sempre louvada a vossa

bondade, ó meu Jesus, que quisestes ser tão atormentado para

livrar-me dos tormentos eternos. Oh! pobre e infeliz do que não vos

ama, ó Deus de amor.

Mas, enquanto os carrascos o flagelam tão cruelmente, que faz nosso

amável Salvador? Ele não fala, não se lamenta, não suspira; mas com

toda a paciência oferece tudo a Deus para torná-lo misericordioso em

nosso favor: “Como Cordeiro mudo ante o que o tosquia, assim não abriu

ele a sua boca” (At 8,32). Ah, meu Jesus, inocente cordeiro, esses bárbaros

não vos cortam a lã, mas a pele e as carnes. Mas esse é o batismo de

sangue que durante vossa vida tanto haveis desejado: “Tenho de ser

batizado com um batismo e em que ansiedade me sinto eu até que ele

se cumpra” (Lc 12,50). Levanta-te, minha alma, e lava-te naquele sangue

precioso em que está toda banhada aquela terra afortunada. E como

poderei eu, meu doce Salvador, duvidar do vosso amor, vendo-vos todo

chagado e dilacerado por mim? Sei que cada uma de vossas chagas é

um testemunho certíssimo do afeto que me tendes. Sinto que cada uma

de vossas feridas me pede amor. Bastaria uma só gota de vosso sangue

para me salvar, mas vós quisestes dá-lo todo, sem reserva, para que eu

sem reserva me dê todo a vós. Sim, meu Jesus, eu me dou todo a vós

sem reserva, aceitai-me e ajudai-me a vos ser sempre fiel.

74

CAPÍTULO X

Jesus é coroado de espinhos

e tratado como rei de teatro

Então os soldados do governador, conduzindo Jesus para o

pretório, reuniram em torno dele toda a corte. E despindo-o cingiramlhe

um manto carmesim e tecendo uma coroa de espinhos lha puseram

sobre a cabeça e na sua mão direita uma cana” (Mt 27,27-29).

Continuemos a considerar os bárbaros tormentos que os soldados

fizeram nosso amabilíssimo Senhor sofrer. Reunindo toda a corte,

colocam-lhe sobre os ombros uma clâmide purpúrea (era um manto

velho que os soldados usavam por cima das armas) como manto

real, nas mãos uma cana figurando o cetro e na cabeça um feixe de

espinhos, parodiando a coroa, mas que, como um capacete, lhe cingia

toda a cabeça. E já que os espinhos com a só colocação não

entravam na cabeça já tão atormentada pelos golpes dos azorragues,

servem-se da cana e, cuspindo-lhe ao mesmo tempo no rosto, cravam-

lhe na cabeça com toda a força a tão cruel coroa: “E cuspindolhe

tomavam a cana e lhe batiam na cabeça” (Mt 27,30).

Ó espinhos, ó criaturas ingratas, que fazeis? assim atormentais o

vosso Criador? Por que, porém, invectivar os espinhos? Ó pensamentos

iníquos dos homens, fostes vós que atravessastes a cabeça

de meu Redentor. Sim, meu Jesus, nós com nossos consentimentos

perversos tecemos a vossa coroa de espinhos. Agora eu os detesto e

os odeio mais do que a morte ou outro mal qualquer. E a vós me volto

novamente, humilhado, ó espinhos, consagrados pelo sangue do Filho

de Deus, transpassai a minha alma e fazei-a sentir sempre a dor

de ter ofendido um Deus tão bom. E vós, Jesus, meu amor, que tanto

padeceis para me desprender das criaturas e de mim mesmo, fazei

que eu possa dizer em verdade que não sou mais meu, mas só de

vós e todo vosso. Ó meu Salvador afligido, ó Rei do mundo, a que vos

vejo reduzido? a representar o papel de rei de teatro e dor: a ser o

ludíbrio de toda a Jerusalém! O sangue ocorre a flux da cabeça

transpassada do Senhor, sobre sua face e seu peito. Ó meu Jesus,

eu admiro a crueldade dessa gente que não se satisfaz com vos ter

esfolado dos pés até à cabeça, e agora vos atormenta com novos

ultrajes e desprezos; admiro, porém, mais a vossa mansidão e o vosso

amor, que tudo sofre e aceita por nós com tanta paciência. “Que

injuriado não injuriava, recebendo maus tratos não fazia sequer ameaças,

porém se entregava àquele que o julgava injustamente” (1Pd

2,23). Devia realizar-se a predição do profeta de que nosso Salvador

devia ser saciado de dores e ignomínias: “Oferecerá a face ao que o

ferir, fartar-se-á de opróbrios” (Lm 3,30).

Mas vós, soldados, não estais ainda satisfeitos? “E dobrando o

joelho diante dele, motejavam dele dizendo: Eu te saúdo, rei dos judeus,

e davam-lhe bofetadas” (Jo 19,3). Depois de tê-lo atormentado

dessa forma e vestido como rei de teatro, ajoelhavam diante dele e o

escarneciam dizendo: Nós te saudamos, ó rei dos judeus, e levantando-

se com risos e escárnios, davam-lhe bofetadas. Ó Deus! a cabeça

sagrada de Jesus já estava toda dolorida pelas feridas feitas pelos

espinhos e por isso qualquer movimento lhe causava dores mortais e

toda bofetada ou pancada lhe causava um sofrimento horrendo. Ao

menos tu, minha alma, reconhece-o como supremo Senhor de tudo,

como ele é em verdade, e agradece-lhe e ama-o como verdadeiro rei

de dor e de amor, pois é para esse fim que ele padece e sofre por ti.

75

CAPÍTULO XI

Pilatos mostra Jesus ao povo, dizendo:

Ecce Homo!

“Pilatos saiu para fora e disse-lhes: Ecce homo” (Jo 19,5). Tendo

sido Jesus novamente conduzido a Pilatos, depois de sua flagelação

e coroação de espinhos, este, mirando-o e observando como estava

dilacerado e desfigurado, persuadiu-se de que o povo se moveria à

compaixão só com vê-lo. Por isso saiu para fora no terraço, levando

consigo nosso aflito Salvador, e disse: “Ecce Homo”, como se dissesse:

judeus, contentai-vos com o que já padeceu este pobre inocente,

eis o homem que temíeis fazer-se vosso rei, ei-lo, contemplai a que

estado está reduzido. Que temor podeis ainda ter agora que se acha

num estado que não pode mais viver? Deixai-o morrer em sua casa,

desde que pouco lhe resta de vida. “E Jesus saiu, tendo uma coroa

de espinhos e uma veste purpúrea” (Jo 19,15). Olha também, minha

alma, para aquele terraço e vê teu Senhor amarrado e conduzido por

um carrasco: vê como está meio nu, ainda que coberto de chagas e

de sangue, com as carnes dilaceradas, com aquele pedaço de púrpura

que lhe serve unicamente de ludíbrio e com aquela horrenda

coroa que o atormenta sem cessar. Contempla a que foi reduzido teu

pastor para te encontrar a ti, ovelha desgarradas. Ah, meu Jesus, sob

quantos aspectos os homens vos fazem aparecer, mas todos são de

dor e vitupério. Ah, doce Redentor, vós causais compaixão até às

feras, só entre os homens não encontrais piedade. Pois eis aqui o

que responde essa gente: “Ao verem-no, os pontífices e ministros

clamavam dizendo: Crucifica-o, crucifica-o” (Jo 19,6). Mas que dirão

eles no dia do juízo final, quando vos virem glorioso, sentado como

juiz num trono de luz? Ó meu Jesus, também eu durante muito tempo

exclamei: crucifica-o, crucifica-o, quando com os meus pecados vos

ofendi. Agora, porém, me arrependo de todo o meu coração e vos

amo acima de todos os bens, ó Deus de minha alma. Perdoai-me

pelos merecimentos de vossa paixão e fazei que naquele dia eu vos

veja aplacado e não irritado contra mim.

Do terraço Pilatos mostra Jesus aos judeus e diz: “Ecce Homo”.

Ao mesmo tempo o Padre eterno, do alto do céu, nos convida a contemplar

Jesus Cristo naquele estado e diz também: “Ecce Homo”. Ó

homens, este homem que vedes tão ferido e vilipendiado é meu Filho

bem amado, que por vosso amor, e para pagar por vossos pecados

sofre dessa maneira. Contemplai-o, agradecei-lhe e amai-o. Meu Deus

e meu Pai, vós me dizeis que eu devo contemplar o vosso Filho; eu,

porém, vos peço que vós o contempleis por mim; contemplai-o e por

amor desse vosso Filho tende piedade de mim.

Vendo os judeus que Pilados, apesar de seus clamores, procurava

dar liberdade a Jesus (Jo 19,12), pensaram em obrigá-lo a condenar

o Salvador, afirmando que, se não o fizesse, seria declarado inimigo

de César: “Os judeus, porém, clamavam dizendo: se soltares a

este, não és amigo de César: todo o que se faz rei contradiz a César”

(Jo 19,12). E de fato acertaram, porque Pilatos, temendo perder as

boas graças de César, toma consigo a Jesus Cristo, assenta-se para

dar a sentença e condená-lo: “Pilatos, tendo ouvido estas palavras,

trouxe Jesus para fora e assentou-se no seu tribunal” (Jo 19,13). Atormentado,

entretanto, pelos remorsos de sua consciência, sabendo

que ia condenar um inocente, volta-se novamente para os judeus: “E

disse-lhes: Eis o vosso rei”. Pois então hei de condenar o vosso rei?

“Eles, porém, clamavam: Tira-o, tira-o, crucifica-o” (Jo 1,14 e 15). Replicaram

os judeus mais enfurecidos que na primeira vez: Depressa,

Pilatos, que nosso rei, que rei, que rei esse? tira-o, tira-o, retira-o de

nossos olhos e faze-o morrer crucificado. Ah, meu Senhor, Verbo encarnado,

viestes do céu à terra para conversar com os homens e

para salvá-los e estes não podem mais nem sequer ver-vos entre

eles e tanto se esforçam para dar-vos a morte e não mais vos ver.

Pilatos ainda lhes resiste e replica: “Hei então de crucificar vosso rei?

Os pontífices responderam: Não temos outro rei senão César” (Jo

19,15). Ah, meu adorável Jesus, eles não querem reconhecer-vos

por seu Senhor e afirmam não ter outro rei senão César. Eu vos confesso

por meu rei e Deus e protesto que não quero outro rei para meu

coração senão vós, meu Redentor. Infeliz de mim, houve um tempo

em que me deixei também dominar por minhas paixões e vos expulsei

de minha alma, meu rei divino. Agora quero que só vós reineis

nele, ordenai e ela vos obedecerá. Dir-vos-ei com S. Teresa: “Ó amante

Jesus, que me amais acima do que eu posso compreender, fazei que

minha alma vos sirva mais segundo o vosso gosto que o dela. Morra,

pois, o meu eu e em mim viva um outro que não eu. Ele viva e me dê

76

vida. Ele reine e eu seja escravo, não querendo minha alma outra

liberdade”. Oh, feliz a alma que pode dizer em verdade: Meu Jesus,

vós sois o meu único rei, meu único bem, meu único amor.

CAPÍTULO XII

Jesus é condenado por Pilatos

“Então ele lho entregou para que fosse crucificado” (Jo 19,16).

Pilatos, depois de tantas vezes ter declarado a inocência de Jesus, e

então novamente lavando suas mãos e protestando que era inocente

do sangue daquele justo, sendo os judeus responsáveis por sua morte:

“Mandado vir água, lavou as mãos à vista do povo, dizendo: Eu

sou inocente do sangue deste justo: vós lá vos avenhais” (Mt 27,24),

assim mesmo dá a sentença e o condena à morte. Ó injustiça jamais

vista no mundo! O juiz condena o acusado ao mesmo tempo que o

declara inocente. S. Lucas escreve que Pilatos entregou Jesus nas

mãos dos judeus para que fizessem com ele o que desejavam: “Entregou

Jesus à sua vontade” (Lc 23,25). De fato, é o que acontece

quando se condena um inocente: ele é abandonado nas mãos de

seus inimigos, para que o façam morrer, e morrer da maneira que for

do gosto deles. Infelizes judeus, vós dissestes: “Seu sangue caia sobre

nós e nossos Filhos” (Mt 27,25), e assim chamastes sobre vós o

castigo e este já vos alcançou: vossa nação já sofre e sofrerá o castigo

desse sangue inocente até ao fim do mundo.

A injusta sentença de morte é lida diante do condenado. O Senhor

a ouve e inteiramente resignado ao justo decreto de seu eterno

Pai; que o condena à morte da cruz, não pelos delitos que lhe imputavam

falsamente os judeus, mas por nossas culpas verdadeiras, pelas

quais se oferecera a satisfazer com sua morte. Pilatos diz na terra:

Morra Jesus, e o Padre eterno o confirma no céu, dizendo: Morra

meu Filho. E o Filho diz também: Eis-me aqui; eu obedeço, aceito a

morte e a morte da cruz. “Ele se humilhou, fazendo-se obediente até

à morte e a morte de cruz” (Fl 2,8). Meu amado Redentor, aceitastes

a morte que me era devida e com vossa morte me obtivestes a vida.

Eu vos agradeço, meu amor, e espero poder louvar no céu as vossas

misericórdias para sempre: “Cantarei eternamente as misericórdias

do Senhor”. Visto que vós, inocente, aceitastes a morte da cruz, eu,

pecador, aceito-a com todas as penas que a devem acompanhar e

77

desde já a ofereço a vosso eterno Pai, unindo-a à vossa santa morte.

Pelos merecimentos de vossa morte tão dolorosa, concedei-me, ó

meu Jesus, a sorte de morrer em vossa graça e ardendo em vosso

santo amor.

CAPÍTULO XIII

Jesus leva a cruz ao Calvário

Publicada a sentença, o povo infeliz explode num grito de júbilo e

diz: Alegremo-nos, alegremo-nos. Jesus já foi condenado; não se perca

tempo, apreste-se a cruz e que morra hoje mesmo, pois que amanhã

é páscoa. E imediatamente o tomam, tiram-lhe aquele farrapo de púrpura,

restituem-lhe suas vestes, para que fosse reconhecido pelo povo,

segundo S. Ambrósio, por aquele impostor (como o chamavam) que

dias antes tinha sido acolhido como o Messias: “Tiraram-lhe a clâmide

e o revestiram com suas vestes e o conduziram para ser crucificado”.

(Mt 27,31). Em seguida tomam duas traves grosseiras, e formam com

ela às pressas uma cruz e, com insolência, mandam-lhe que a ponha

sobre os ombros e a carregue até ao lugar do suplício. Ó Deus, que

barbaridade, sobrecarregar com um tal peso um homem tão atormentado

e desprovido de forças!

Jesus abraça a cruz com amor: “E, levando sua cruz às costas,

saiu para aquele lugar que se chama Calvário” (Jo 19,17). A justiça

sai com os condenados e entre esses vai também nosso Salvador,

carregando o altar em que deve sacrificar a sua vida. Muito bem considera

um piedoso autor que na paixão de Jesus Cristo foi tudo maravilhoso

e excessivo como Moisés e Elias o afirmaram no Tabor: “E

falavam de seu excesso, que iria realizar em Jerusalém” (Lc 9,31).

Quem poderia jamais crer que a vista de Jesus, reduzido a uma só

chaga da cabeça aos pés, irritasse ainda mais o furor dos judeus e o

desejo de vê-lo crucificado? Que tirano obrigou jamais o próprio réu a

levar sobre seus ombros o instrumento de seu tormento, vendo-o

exausto e consumido já de dores? É horror considerar a multidão de

tormentos e ludíbrios que fizeram Jesus sofrer no pequeno espaço

de sua prisão até sua morte, sucedendo uns aos outros, sem intervalo,

prisão, bofetadas, escarros, zombarias, flagelos, espinhos, cravos,

agonia e morte. Todos se uniram, hebreus e gentios, sacerdotes

e populares, para tornarem Jesus Cristo o homem dos desprezos e

das dores, como havia predito o profeta Isaías. O juiz declara o Sal78

vador inocente, mas uma tal declaração só serve para acarretar-lhe

maiores sofrimentos e vitupérios, pois se logo no princípio tivesse

Pilatos condenado Jesus à morte, não lhe teriam preferido Barrabás,

nem teria sido tratado como louco, nem flagelado tão cruelmente,

nem coroado de espinhos.

Mas voltemos a considerar o espetáculo admirável do Filho de

Deus, que vai morrer por aqueles mesmos homens que o conduzem

à morte. Eis realizada a profecia de Jeremias: “E eu sou semelhante

ao manso cordeiro, que é levado para ser vitimado” (Jr 11,19). Ó cidade

ingrata, assim expeles de ti com tão grande desprezo o teu Redentor,

depois de receberes dele tantas graças? Ó Deus, é isso o que

faz também uma alma que, depois de favorecida por Deus com tantos

favores, ingrata, o expulsa pelo pecado.

A vista de Jesus nessa caminhada para o Calvário causava tal

compaixão, que as mulheres ao vê-lo se punham a chorar e lamentar

de tanta crueldade: “Seguia-o uma grande multidão de povo e de

mulheres, que choravam e o lamentavam” (Lc 23,27). O Redentor,

porém, voltando-se para elas, diz-lhes: “Não choreis sobre mim, mas

sobre vossos filhos. Porque se assim fazem com o lenho verde, que

farão com o seco?” (Lc 23,27). O Redentor, porém, voltando-se para

elas, diz-lhes: “Não choreis sobre mim, mas sobre vossos filhos. Porque

se assim fazem com o lenho verde, que farão com o seco?” (Lc

23,31). Com isso queria dar a entender o grande castigo que merecem

os nossos pecados, pois se ele, inocente e Filho de Deus, era

assim tratado por se ter oferecido a satisfazer por nós, como deveriam

ser tratados os homens por seus próprios pecados?

Contempla-o também tu, minha alma, vê como está todo dilacerado,

coroado de espinhos, onerado com aquele pesado lenho e acompanhado

por gente que lhe é contrária e que o segue injuriando-o e

maldizendo-o. Ó Deus, seu corpo sagrado está todo retalhado, de tal

maneira que a qualquer movimento que faz se renova a dor de todas

as suas chagas. A cruz já agora o atormenta, pois ela comprime seus

ombros chagados e vai encravando cada vez mais os espinhos daquela

bárbara coroa! Que dores a cada passo! Jesus, porém, não a

abandona. Sim, não a deixa porque por meio da cruz ele quer reinar

nos corações dos homens. como predisse Isaías: “E foi posto o principado

sobre o seu ombro” (Is 9,6). Ah, meu Jesus, com que sentimentos

de amor para comigo vós caminháveis para o Calvário, onde

devíeis consumar o grande sacrifício da vossa vida!

Minha alma, abraça também a tua cruz por amor de Jesus, que

por teu amor padece tanto. Nota como ele vai adiante com sua cruz e

te convida a segui-lo com a tua: “Quem quiser vir após mim, tome sua

cruz e siga-me” (Mt 16,24). Sim, meu Jesus, não quero deixar-vos,

quero seguir-vos até à morte. Vós, porém, pelos merecimentos de

vossa subida tão dolorosa ao Calvário, dai-me a força de levar com

paciência as cruzes que me enviardes. Oh! vós tornastes muito amáveis

as dores e desprezos, abraçando-os com tanto amor por nós.

“Encontraram um homem de Cirene, chamado Simão; obrigaramno

a carregar a cruz de Jesus”. (Mt 27,32). “E puseram-lhe a cruz par

que a carregasse atrás de Jesus” (Lc 23,26). Foi isso talvez motivado

pela compaixão, desvencilhar Jesus da cruz e fazê-la carregar pelo

Cirineu? Não, foi só iniqüidade e ódio. Vendo os judeus que o Senhor

quase exalava sua alma a cada passo que dava, temeram que antes

de chegar ao Calvário expirasse no caminho, e porque eles o queriam

ver morto, mas morto crucificado, para que sua memória ficasse

para sempre denegrida, obrigaram o Cirineu a carregar-lhe a cruz.

Era essa sua intenção, pois, para eles, morrer crucificado era o mesmo

que morrer amaldiçoado por todos: “Amaldiçoado é o que pende

da cruz” (Dt 21,23), dizia sua lei. Por isso, quando buscavam a morte

de Jesus, não só pediam a Pilatos que o fizesse morrer, mas sempre

instavam, gritando: Crucifica-o, seja crucificado! para que seu nome

ficasse desprestigiado na terra e nem sequer fosse mais lembrado,

conforme a profecia de Jeremias; “Exterminemo-lo da terra dos viventes

e não haja mais memória de seu nome” (Jr 11,19). E foi essa

a razão por que lhe tiravam a cruz dos ombros, para que chegasse

vivo ao Calvário e assim tivessem o gosto de vê-lo morrer crucificado.

Ah, meu Jesus desprezado, vós sois a minha esperança e todo o

meu amor.

79

CAPÍTULO XIV

Jesus é crucificado

Apenas chegou Jesus ao Calvário, consumido de dores e desfalecido,

dão-lhe a beber vinho misturado com fel, o que se costumava

dar aos condenados à cruz para mitigar-lhes um pouco o sentimento

de dor. Jesus, que queria morrer sem alívio, apenas o provou, mas

não bebeu: “E deram-lhe a beber vinho misturado com fel e, tendo ele

experimentado, não quis bebê-lo” (Mt 27,34). Forma-se um círculo

em torno de Jesus, os soldados tiram-lhe as vestes, que, estando

pegadas a seu corpo todo chagado e retalhado, ao serem arrancadas

levam consigo muitos pedaços de carne, atirando-o em seguida

sobre a cruz. Jesus estende suas sagradas mãos e oferece ao eterno

Pai o grande sacrifício de si mesmo e suplica-lhe que o aceite por nossa

salvação.

Eis que já tomam com fúria os pregos e os martelos e,

transpassando as mãos e os pés de nosso Salvador, pregam-no na

cruz. O som das marteladas ressoa por todo aquele monte e se faz

ouvir também por Maria, que, acompanhando o Filho, já havia também

chegado. Ó mãos sagradas, que com vosso contacto sarastes

tantos enfermos, por que vos atravessam nessa cruz? Ó pés sacrossantos,

que tanto vos cansastes, correndo atrás de nós, ovelhas desgarradas,

por que vos encravam com tantas dores? No corpo humano,

apenas se atinge um nervo, é tão aguda a dor, que isso ocasiona

desmaios e espasmos mortais. Qual, pois, terá sido o tormento de

Jesus, ao lhe serem traspassadas com cravos as mãos e os pés,

lugares cheios de ossos e nervos? Ó meu doce Salvador, quanto vos

custou a minha salvação e o desejo de conquistar o amor de um

verme miserável! E eu, ingrato, tantas vezes vos neguei o meu amor

e voltei-vos as costas!

A um dado momento, levantam a cruz com o crucificado e fazemna

cair com violência no buraco cavado na rocha. É firmada com pedras

e madeira e Jesus nela pregado fica suspenso entre dois ladrões,

para aí findar a vida. “E o crucificaram e com ele dois outros,

um de cada lado, e no meio Jesus” (Jo 19,18). Isaías já o havia predito:

“Ele foi posto no número dos malfeitores” (Is 53,12). Na cruz estava

afixada uma inscrição que dizia: “Jesus Nazareno, rei dos judeus”.

Queriam os sacerdotes que se mudasse tal inscrição; Pilatos, porém,

não quis mudá-la, porque Deus queria que todos soubessem que os

hebreus deram a morte a seu verdadeiro rei e Messias por tanto tempo

esperado e desejado por eles mesmos.

Jesus na cruz: eis a prova do amor de um Deus. Eis a última

aparição que o Verbo encarnado faz nesta terra. A primeira foi num

estábulo e esta última é numa cruz: tanto uma como a outra demonstram

o amor e a caridade imensa que ele tem pelos homens. São

Francisco de Paula, meditando um dia no amor de Jesus Cristo em

sua morte, extasiado e levado acima da terra, exclamou três vezes

em alta voz: Ó Deus caridade! Ó Deus caridade! Ó Deus caridade!

Com isso o Senhor queria ensinar-nos por meio do santo que nós

nunca seremos capazes de compreender o amor infinito que nos demonstrou

esse Deus, querendo sofrer tanto e morrer por nós. Minha

alma, chega-te humilhada e enternecida àquela cruz, beija ao mesmo

tempo este altar em que morre o teu amável Senhor. Coloca-te

debaixo de seus pés e faze que escorra sobre ti seu sangue divino e

suplica o eterno Pai, mas em sentido diferente do que fizeram os

judeus: Seu sangue caia sobre nós (Mt 27,25). Senhor, que esse sangue

escorra sobre nós e nos lave de nossos pecados: este sangue

não vos pede vingança, como pedia o sangue de Abel, mas vos pede

perdão e misericórdia para nós. É o que o vosso Apóstolo me anima

a esperar, quando diz: Vós, porém, vos aproximastes do Mediador do

Novo Testamento, Jesus, e da aspersão do sangue que fala melhor

que o de Abel (Hb 12,24).

Ó Deus, quando padece na cruz nosso Salvador moribundo! Cada

membro está sofrendo e um não pode socorrer o outro, estando os

pés e as mãos presos pelos cravos. A cada instante ele sofre dores

mortais e assim pode-se dizer que naquelas três horas de agonia

sofreu Jesus tantas mortes quantos os momentos que esteve pendente

da cruz. Sobre esse leito não teve o Senhor um só momento de

alívio ou repouso. Ora se apoiava sobre os pés, ora sobre as mãos,

mas onde se apoiava crescia a dor. Aquele corpo sagrado estava

suspenso sobre suas próprias chagas, pois as mãos e os pés cravados

deviam sustentar o peso de todo o corpo.

Ó meu caro Redentor, se eu vos contemplo exteriormente, não

vejo senão chagas e sangue; se observo vosso interior, vejo vosso

80

coração todo aflito e desconsolado. Leio sobre essa cruz que vós

sois rei, mas que insígnias tendes de realeza? eu não vejo outro trono

a não ser esse lenho de opróbrio; não vejo outra púrpura a não ser

vossa carne ensangüentada e dilacerada; não vejo outra coroa além

desse feixe de espinhos que tanto vos atormenta. Ah, sim, tudo vos

proclama rei, não de honra, mas de amor: essa cruz, esse sangue,

esses cravos e essa coroa são incontestavelmente insígnias de amor.

Assim Jesus na sua cruz não procura tanto a nossa compaixão,

como o nosso afeto. E se pede compaixão, pede-a unicamente para

que ela nos induza a amá-lo. Ele merece já por sua bondade todo o

nosso amor, mas agora procura ser amado ao menos por compaixão.

Ah, meu Jesus, tivestes muita razão de afirmar, antes da vossa paixão,

que uma vez levantado na cruz, havíeis de atrair para vós todos

os corações. “Quando eu for exaltado atrairei tudo para mim” (Jo 12,32).

Oh! quantas setas de fogo enviais aos nossos corações desse trono

de amor! Oh! quantas almas felizes atraístes a vós dessa cruz, livrando-

as das fauces do inferno. Permiti-me, pois, dizer-vos: Com razão,

Senhor, vos colocaram no meio de dois ladrões, pois vós com vosso

amor haveis roubado a Lúcifer tantas almas que por justiça lhe pertenciam

por causa de seus pecados. E eu espero ser uma destas. Ó

chagas de meu Jesus, ó belas fornalhas de amor, recebei-me no meio

de vós, para me abrasar, não já no fogo do inferno por mim merecido,

mas nas santas chagas de amor daquele Deus que por mim quis

morrer consumido de tormentos.

Os carrascos, depois de haverem crucificado a Jesus, dividem

entre si as suas vestes, segundo a profecia de Davi: “Repartiram entre

si os meus vestidos e lançaram sorte sobre a minha túnica” (Sl

21,19) e, assentando-se todos, esperam por sua morte. Minha alma,

assenta-te aos pés daquela cruz e debaixo de sua sombra de salvação

repousa durante tua vida inteira, a fim de que possas dizer com a

esposa sagrada: “Assentei-me à sombra daquele que eu tanto havia

desejado” (Ct 2,3). Oh! que repouso encantador é o que encontram

as almas amantes de Deus junto a Jesus crucificado, no meio dos

tumultos do mundo, das tentações do inferno e dos temores dos juízos

divinos!

Estando Jesus em agonia, com os membros doloridos e com o

coração desolado e triste, procurava quem o consolasse. Mas, ó meu

Redentor, não se encontra alguém que vos console? Se ao menos

houvesse alguém que se compadecesse de vós e com lágrimas acompanhasse

vossa agonia tão atroz! Mas, ó tristeza, vejo que uns vos

injuriam, outros vos encarnecem, outros ainda blasfemam contra vós.

Estes dizem: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz” (Mt 27,40). Aqueles:

“Ó tu, que destróis o templo de Deus... salva-te a ti mesmo” (Mc

15,29-30). E outros: “Salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo”

(Mt 27,42). Senhor, que condenado se viu jamais tão coberto de

injúrias e opróbrios no momento de sua morte no patíbulo infame?

81

CAPÍTULO XV

Palavras de Jesus na cruz

Jesus, porém, que faz, que diz, vendo-se o objeto de tantos ultrajes?

Suplica por aqueles que assim o maltratam: “Pai, perdoai-lhes,

pois não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Jesus orou então também

por nós, pecadores. Por isso, voltados para o Padre eterno, digamos

com confiança: Ó Pai, ouvi a voz deste Filho querido que vos suplica

que vos perdoeis. Um tal perdão é sem dúvida grande misericórdia

com relação a nós, que não o merecíamos, mas com relação a Jesus

Cristo, que nos satisfez superabundantemente por nossos pecados,

é justiça. Vós estais obrigado por seus merecimentos a perdoar e a

receber na vossa graça quem se arrepende das ofensas que vos fez.

Eu me arrependo, ó meu Pai, de todo o meu coração, de vos haver

ofendido e em nome desse vosso Filho os peço o perdão. Perdoai-me

e recebei-me na vossa graça.

“Senhor, lembrai-vos de mim quando entrardes no vosso reino”

(Lc 23,42). Assim foi que se dirigiu o bom ladrão a Jesus agonizante,

que lhe respondeu: “Em verdade eu te afirmo, que hoje estarás comigo

no paraíso” (Lc 23,43). Assim se cumpriu o que Deus já havia dito

por Ezequiel, que, quando um pecador se arrepende de suas culpas,

Deus lhe perdoa e se esquece das ofensas que lhe foram feitas: “Se,

porém, o ímpio fizer penitência... não me recordarei mais de todas as

suas iniqüidades” (Ez 18,21). Ó caridade imensa, ó bondade infinita

de meu Deus, quem deixará de vos amar? Sim, meu Jesus, esqueceivos

das injúrias que vos fiz e lembrai-vos da morte tão cruel que por

mim sofrestes e por ela dai-me o vosso reino na outra vida e na presente

fazei reinar em mim o vosso santo amor. Unicamente o vosso

amor domine no meu coração e seja ele o meu único Senhor, meu

único desejo, meu único amor. Feliz ladrão, que mereceste ser o companheiro

paciente da morte de Jesus! Feliz de mim, ó meu Jesus, se

tiver a sorte de morrer amando-vos e unindo a minha morte à vossa

santa morte.

“Estava, porém, ao pé da cruz de Jesus, sua Mãe” (Jo 19,25).

Considera, minha alma, ao pé da cruz, Maria, sua Mãe, traspassada

de dores e com os olhos fixos no amado e inocente Filho, contemplando

as crudelíssimas dores externas e internas no meio das quais

ele morre. Ela está toda resignada e em paz, oferecendo ao eterno

Pai a morte do Filho por nossa salvação. Mas muito a afligem a compaixão

e o amor. Ó Deus, quem não se compadeceria de uma mãe

que se encontrasse junto ao patíbulo do filho que lhe está morrendo

diante dos olhos? E, então, se considerarmos quem seja essa Mãe e

quem esse Filho! Maria amava esse Filho imensamente mais do que

todas as mães amam a seus filhos. Ela amava Jesus por ser ao mesmo

tempo seu Filho e seu Deus: Filho sumamente amável, incomparavelmente

belo e santo, Filho que lhe fora sempre respeitoso e obediente,

Filho que tanto a amara e que desde a eternidade a escolhera

por mãe. E essa mãe foi quem teve de ver morrer de dores um tal

filho, diante de seus olhos, naquele lenho infame, sem poder procurar-

lhe o menor alívio e até aumentando com sua presença o seu

tormento, pois a via padecer assim por seu amor. Ó Maria, pelas dores

que sofrestes na morte de Jesus, tende piedade de mim e

recomendai-me a vosso Filho. Ouvi como ele, na pessoa de S. João,

me recomenda a vós: “Mulher, eis aí teu Filho” (Jo 19,26).

“E perto da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Meu

Deus, meu Deus, por que me desamparastes?” (Mt 27,46). Jesus

agonizando na cruz, com o corpo estarrecido de dor e o espírito inundado

de aflição (pois que aquela tristeza que o assaltou no horto o

acompanhou até ao último suspiro de sua vida) procura alguém que

o console, mas não encontra ninguém, como já o predissera Davi:

“Esperei alguém que me consolasse e não o encontrei” (Sl 68,21).

Olha para sua Mãe e esta não o consola, antes mais o aflige com sua

presença. Olha em redor e vê que todos se mostram como seus inimigos.

Vendo-se assim privado de todo o conforto, volta-se para seu

eterno Pai a pedir-lhe alívio. Vendo-o, porém, o Pai coberto com todos

os pecados dos homens, por quem ele estava na cruz a satisfazer

sua justiça divina, também o abandona a uma morte de pura dor.

E foi então que Jesus gritou, para exprimir a veemência de sua pena,

dizendo: Meu Deus, por que até vós me abandonais? A morte de

Jesus foi, pois, a morte mais atroz que a de todos os mártires, pois

que foi uma morte inteiramente desolada e privada de todo o alívio.

Mas, ó meu Jesus, se vos oferecestes espontaneamente a uma

morte tão dura, por que então vos lamentais? Ah, eu vos compreendo,

vós vos lamentais para nos fazer compreender a pena excessiva

82

com que morreis e nos dar ao mesmo tempo ânimo para confiar e

nos resignarmos no tempo em que nos virmos desolados e privados

da assistência sensível da graça divina.

Meu doce Redentor, esse vosso abandono me faz esperar que

Deus não me abandonará, apesar de tê-lo traído tantas vezes. Ó meu

Jesus, como pude viver tanto tempo esquecido de vós? Agradeçovos

por vos não terdes esquecido de mim. Suplico-vos que me façais

recordar sempre da morte cruel que sofrestes por meu amor, para

que eu não me esqueça mais de vós e do amor que me consagraste.

Sabendo, entretanto, o Salvador que seu sacrifício já estava consumado,

disse que tinha sede e os soldados puseram-lhe nos lábios

uma esponja embebida em vinagre: “Em seguida, sabendo Jesus que

tudo estava consumado, para se cumprir ainda a Escritura, disse:

Tenho sede... Eles lhe chegaram à boca uma esponja ensopada em

vinagre” (Jo 19,28). A Escritura que devia cumprir-se era a profecia

de Davi: “E na minha sede me propinaram vinagre” (Sl 68,22). Mas,

Senhor, vós vos queixais de tantas dores que vos arrebatam a vida, e

vos lamentais da sede? Ah, a sede de Jesus era diferente da que

passamos. A sede que ele tem é o desejo de ser amado pelas almas

pelas quais morre. Logo, ó Jesus meu, vós tendes sede de mim, verme

miserável, e eu não terei sede de vós, bem infinito? Ah, sim, eu

vos quero, eu vos amo e desejo agradar-vos em tudo. Ajudai-me,

Senhor, a expelir de meu coração todos os desejos terrenos e fazei

que em mim reine o único desejo de agradar-vos e fazer a vossa

vontade. Ó santa vontade de Deus, vós que sois a bela fonte que

saciais as almas imortais, saciai-me também a sede o fito de todos

os meus pensamentos e de todos os meus afetos.

CAPÍTULO XVI

Morte de Jesus

Avizinha-se, porém, o fim da vida de nosso amável Redentor. Minha

alma, contempla esses olhos que se obscurecem, essa bela face

que empalidece, esse coração que palpita lentamente, esse sagrado

corpo que vai se tornando presa de morte.

“Tendo, Jesus experimentado o vinagre, disse: Tudo está consumado”.

(Jo 19,30). Estando Jesus para expirar, pôs diante todos os

sofrimentos de sua vida, pobreza, suores, penas e injúrias suportadas

e, oferecendo tudo novamente a seu terno Pai, disse: Tudo está

cumprido, tudo está realizado. Realizou-se tudo o que fora predito de

mim pelos profetas e está consumado inteiramente o sacrifício que

Deus espera para perdoar o mundo, e a justiça divina já está plenamente

satisfeita. Tudo está consumado, disse Jesus voltado para seu

Pai; tudo está consumado, disse ao mesmo tempo, voltado para nós,

como se afirmasse: Ó homens, acabei de fazer tudo que eu podia

fazer para salvar-vos e conquistar o vosso amor; fiz o que me competia,

fazei agora o que vos compete: amai-me e não desdenheis amar

um Deus que chegou a morrer por vós. Ah, meu Salvador, pudesse

também eu dizer no momento de minha morte, ao menos no referente

à vida que me resta: tudo está consumado: Senhor, eu cumpri com

a vossa vontade, eu vos obedeci em tudo. Dai-me força, meu Jesus,

pois eu espero e proponho realizar tudo com o vosso auxílio.

“E clamando com voz forte, Jesus disse: Pai, nas tuas mãos encomendo

o meu espírito” (Lc 23,46). Foi essa a última palavra que

Jesus disse na cruz. Vendo que sua alma estava prestar a separar-se

de seu corpo dilacerado, disse todo resignado na vontade divina e

com confiança de Filho: “Pai, eu vos recomendo o meu espírito, como

se dissesse: Meu Pai, eu não tenho vontade própria, não quero nem

viver nem morrer; se vos apraz que eu continue a padecer nesta cruz,

eis-me aqui, estou pronto; nas vossas mãos entrego o meu espírito,

fazei de mim o que vos aprouver”. Oh! se assim disséssemos também,

quando estamos sobre a cruz, e nos deixássemos guiar em

83

tudo pelo beneplácito do Senhor! É este, segundo S. Francisco de

Sales, aquele abandono em Deus que constitui toda a nossa perfeição.

É isso o que devemos fazer, principalmente no momento da morte,

mas, para fazê-lo bem, então, é preciso fazê-lo continuamente durante

toda a vida. Sim, meu Jesus, nas vossas mãos entrego a minha

vida e a minha morte; abandono-me inteiramente a vós e desde já

vos recomendo no fim de minha vida a minha alma: acolhei-a nas

vossa santas chagas como vosso Pai acolheu vosso espírito quando

morrestes na cruz.

Mas eis que Jesus expira. Vinde, anjos do céu, vinde assistir à

morte de vosso Deus. E vós, ó Mãe das dores, Maria, chegai-vos

mais à cruz, levantai os olhos para vosso Filho e olhai-o mais atentamente,

pois está prestes a expirar. Eis que o Redentor já chama a

morte e lhe dá licença para se apoderar dele: Vem, ó morte, diz-lhe,

depressa, faze o teu dever, tira-me a vida e salva as minhas ovelhas.

A terra treme, abrem-se os sepulcros, rasga-se o véu do templo. Pela

violência das dores faltam já as forças ao Senhor, falta-lhe o calor

natural, falta-lhe a respiração a ele com o corpo largado abaixo, a

cabeça sobre o peito, abre a boca e expira. “E tendo inclinado a cabeça,

entregou seu espírito” (Jo 19,30).

Sai, ó bela alma de meu Salvador, sai e vem abrir-nos o paraíso

até agora fechado para nós; vai apresentar-te à majestade divina e

impetrar-nos o perdão e a salvação. O povo alvoroçado em volta de

Jesus, por causa do grande brado com que havia proferido as últimas

palavras, contempla-o com atenção, em silêncio, vê-o expirar e, observando

que não faz mais movimento, exclama: Morreu, morreu.

Assim ouve Maria todos falarem e ela também diz: Morreu meu Filho!

Morreu! Ó Deus, quem morreu? O autor da vida, o Unigênito de

Deus, o Senhor do mundo. Ó morte, que causastes a admiração do

céu e da natureza. Um Deus morrer por suas criaturas! Ó caridade

infinita! Um Deus sacrificar-se todo, seus prazeres, sua honra, seu

sangue, sua vida, por quem? Por criaturas ingratas, e morrer num

mar de dores e de desprezos para pagar as nossas culpas.

Minha alma, levanta os olhos e contempla esse homem crucificado.

Contempla esse cordeiro divino já sacrificado nesse altar de dores,

reflete que ele é o Filho bem amado do Padre eterno e que ele

morreu pelo amor que te consagrava. Vê como tem os braços estendidos

para acolher-te, a cabeça inclinada para dar-te o beijo de paz, o

peito aberto para receber-te. Que dizes? Não merece ser amado um

Deus tão bom e tão amoroso? Ouve o que te diz o teu Senhor de sua

cruz: Filho, vê se há no mundo quem te haja amado mais do que eu,

teu Deus. Ah, meu Deus e meu Redentor, morrestes, pois, e

suportastes a mais infame e dolorosa das mortes. E por quê? Para

conquistar o meu amor. Como, porém, poderá o amor de uma criatura

compensar o amor de seu Criador morto por ela? Ó meu adorado

Jesus, ó amor de minha alma, como poderei amar outra coisa, depois

de vos saber morto de dores nessa cruz, para pagar pelos meus pecados

e salvar-me? Como poderei ver-nos morto e pendente desse

lenho e não vos amar com todas as minhas forças? Poderei pensar

que minhas culpas vos reduziram a esse estado e não chorar sempre

com suma dor as ofensas cometidas contra vós?

Ó Deus, se o mais vil dos homens tivesse padecido por mim o

que sofreu Jesus Cristo, se eu visse um homem dilacerado pelos

açoites, pregado a uma cruz e feito o ludíbrio do povo para me salvar

a vida, poderia recordar-me disso sem me enternecer? E se me apresentassem

seu retrato, morrendo na cruz, poderia eu olhá-lo com

indiferença e deixar de exclamar: Oh! este infeliz morreu assim atormentado

por meu amor; se não me tivesse amado, não teria padecido

a morte. Oh! quantos cristãos possuem um belo crucifixo no seu

quarto, mas unicamente como um belo ornamento: louvam a obra e a

expressão da dor, mas seu coração nada ou pouco sente, como se

não fosse a imagem do Verbo encarnado, mas de um estranho e

desconhecido.

Ah, meu Jesus, não permitais que eu seja um desses. Recordaivos

que prometestes atrair a vós todos os corações, quando fôsseis

suspenso na cruz. Eis o meu coração, que, enternecido coma vossa

morte, não quer resistir mais aos vossos convites; atraí-o, pois, todo

inteiro ao vosso amor. Vós morrestes por mim e eu não quero viver

senão para vós. Ó dores de Jesus, ó ignomínias de Jesus, ó morte de

Jesus, ó amor de Jesus, fixai-vos em meu coração e aí permaneça

sempre a vossa doce memória, para ferir-me continuamente e inflamar-

me de amor.

Ó Padre eterno, vede Jesus morto por mim e, pelos merecimentos

desse Filho, usai de misericórdia comigo. Minha alma, não percas

a confiança por causa dos delitos cometidos contra Deus: esse Pai é

o mesmo que o deu ao mundo para nossa salvação; e esse Filho é o

mesmíssimo que voluntariamente se ofereceu a pagar por nossos

pecados. Ah, meu Jesus, desde que vós não vos perdoastes para

perdoar a mim, olhai-me com aquele mesmo afeto com que me

olhastes uma vez quando agonizáveis na cruz. Olhai-me e iluminai84

me, perdoai-me especialmente as ingratidões que vos mostrei no

passado, pensando tão pouco na vossa paixão e no amor que nela

me mostrastes. Agradeço-vos a luz que me concedeis, fazendo-me

conhecer, por meio de vossas chagas e membros lacerados, como

por meio de outros tantos degraus, o terno afeto que me tendes.

Infeliz de mim se, depois dessa luz, eu deixasse de amar-vos ou

amasse outra coisa afora vós. Morra eu por amor de vosso amor, que

por amor de meu amor vos dignastes morrer, vos direi com S. Francisco

de Assis. Ó coração aberto de meu Redentor, ó morada bemaventurada

das almas amantes, não vos dedigneis de receber também

a minha alma. Ó Maria, ó Mãe das dores, recomendai-me a vosso

Filho, que tendes morto entre vossos braços. Contemplai suas

carnes dilaceradas, contemplai seu sangue divino derramado por mim

e concluí daí quanto lhe é agradável que vós lhe recomendeis a minha

salvação. A minha salvação é amá-lo e vós deveis alcançar-me

este amor, mas um grande amor, um amor eterno.

S. Francisco de Sales, falando daquele dito de S. Paulo: A caridade

de Cristo nos impele, diz: “Sendo do nosso conhecimento que

Jesus, verdadeiro Deus, nos amou até sofrer por nós a morte da cruz,

não é isso ter os nossos corações sob uma prensa e sentir comprimilos

com violência para espremer deles o amor com força tanto maior,

quanto ela é mais amável?” O monte Calvário, segundo ele, é o monte

dos amantes. E ajunta: “Ah, por que não nos lançamos sobre Jesus

crucificado, para morrer na cruz com ele, que quis morrer por

amor de nós? Eu o prenderei, devemos dizer, e não o abandonarei

jamais; morreria com ele e me abrasarei nas chamas de seu amor.

Um só fogo consumirá esse divino Criador e a sua miserável criatura.

O meu Jesus se dá todo a mim e eu me dou todo a ele. Eu viverei e

morrerei sobre seu peito; nem a morte nem a vida me separarão jamais

dele. Ó amor eterno, minha alma vos busca e vos elege eternamente.

Vinde, Espírito Santo, e inflamai os nossos corações com o

vosso amor. Ou amar ou morrer. Morrer a todo outro amor para viver

do de Jesus. Ó Salvador de nossas almas, fazei que cantemos eternamente:

Viva Jesus. Eu amo Jesus. Viva Jesus, que eu amo. Amo

Jesus, que vive nos séculos dos séculos”.

Concluamos, dizendo: Ó Cordeiro divino, que vos sacrificastes

por nossa salvação! Ó vítima de amor, que fostes consumida de dores

sobre a cruz! Oh! soubesse eu amar-vos como vós o mereceis.

Oh! pudesse eu morrer por vós, como vós morrestes por mim! Eu,

com os meus pecados, vos causei sofrimentos durante toda a vossa

vida; fazei que eu vos agrade no resto de minha vida, vivendo só para

vós, meu amor, meu tudo. Ó Maria, minha Mãe, vós sois a minha

esperança; obtende-me a graça de amar a Jesus.

Fim do I Volume

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