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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

OS DONS DO ESPÍRITO SANTO

OS DONS DO ESPÍRITO SANTO

OS DONS DO ESPÍRITO SANTO

DOM PROSPER GUERANGER

Abade de Solesmes

EDITORA PERMANÊNCIA

2007

Título original em francês: Les dons du Saint-Esprit

traduzido de www.salve-regina.com

Editora Permanência

Estrada Matapaca 333 sl 1 - térreo

24320-520 Niterói RJ

www.permanencia.org.br

O DOM DO TEMOR

O nosso obstáculo ao bem é o orgulho. O orgulho nos leva a

resistir a Deus, a pôr o nosso fim em nós mesmos, em uma palavra,

a nos perder. Só a humildade pode nos salvar de tão grande perigo.

Quem nos dará a humildade? O Espírito Santo, derramando em

nós o Dom do Temor de Deus. Esse sentimento repousa na idéia da

majestade de Deus que a fé nos dá, em presença da qual nada somos;

na idéia da sua santidade infinita, diante da qual não passamos

de indignidade e escória; do julgamento soberanamente eqüitativo

que ele deve exercer sobre nós ao sairmos desta vida e do perigo de

uma queda sempre possível, se faltarmos à graça, que nunca nos

falta, mas à qual podemos resistir.

A salvação do homem se opera, pois, “com temor e tremor”,

como ensina o Apóstolo; mas este temor que é um dom do Espírito

Santo, não é um sentimento grosseiro que se limitaria a nos

lançar no horror da consideração dos castigos eternos. Ele nos

mantém com a compunção do coração, mesmo quando nossos

pecados já foram há muito tempo perdoados; ele nos impede de

esquecer que somos pecadores, que devemos tudo à misericórdia

divina e que só estamos salvos na esperança.

O Temor de Deus não é um temor servil; ao contrário, se

torna a fonte de sentimentos mais delicados. Pode-se aliar ao

amor, não sendo mais do que um sentimento filial que abomina

o pecado por causa do ultraje que este comete a Deus. Inspirado

pelo respeito à majestade divina, pelo sentimento da santidade

infinita, põe a criatura em seu verdadeiro lugar, São Paulo nos

ensina que o temor, assim purificado, contribui para “o aperfeiçoamento

da santificação”. Escutemos também esse grande

Apóstolo, que foi arrebatado até o terceiro céu, confessar que é

rigoroso consigo mesmo “a fim de não ser reprovado”.

O espírito de independência e de falsa liberdade que reina

hoje em dia contribui para tornar mais raro o Temor de Deus e aí

está uma das chagas do nosso tempo. A familiaridade com Deus

toma, na maior parte das vezes, o lugar dessa disposição fundamental

da vida cristã e, desde então, cessa todo progresso, a ilusão

se introduz na alma e os divinos Sacramentos, que no momento

de uma volta para Deus tinham operado com tanto poder, tornam-

se quase estéreis. É que o dom do Temor foi abafado pela vã

complacência da alma consigo mesma. A humildade se extinguiu;

um orgulho secreto e universal veio paralisar os movimentos desta

alma. Ela chega, sem perceber, a não mais conhecer a Deus, pelo

próprio fato de não tremer mais diante dele.

Conservai em nós, ó Divino Espírito, o dom do Temor de

Deus que nos foi derramado no nosso batismo. Este temor salutar

assegurará nossa perseverança no bem, detendo os progressos

do espírito de orgulho. Que ele seja como uma trave que atravessa

nossa alma de lado a lado e que fique sempre fixada como

nossa salvaguarda. Que abaixe nossa altivez, que nos arranque

da indolência, nos revelando sem cessar a grandeza e a santidade

Daquele que nos criou e que nos deve julgar.

Sabemos, ó Divino Espírito, que esse feliz Temor não

abafa o amor; longe disso, afasta os obstáculos que o deteriam

em seu desenvolvimento. As Potestades celestes vêem e amam

com ardor o soberano Bem, elas são inebriadas pela eternidade;

no entanto tremem diante da terrível majestade, tremunt Potestates.

E nós, cobertos das cicatrizes do pecado, cheios de imperfeições,

expostos a mil armadilhas, obrigados a lutar contra

tantos inimigos, não sentimos que é preciso estimular por um

temor forte e ao mesmo tempo filial, nossa vontade que adormece

tão facilmente, nosso espírito tomado por tantas trevas!

Velai por Vossa obra, ó divino Espírito! Preservai em nós o

Dom precioso que Vos dignastes dar-nos; ensinai-nos a conciliar

a paz e a alegria do coração com o Temor de Deus, segundo

a advertência do Salmista:

“Serve o Senhor com temor e exulta de felicidade tremendo diante dele”.

O DOM DA PIEDADE

O dom do Temor de Deus destina-se a curar em nós a chaga

do orgulho; o dom da Piedade é derramado em nossas almas

pelo Espírito Santo para combater o egoísmo, que é uma das

paixões más do homem decaído por causa do pecado original, e o

segundo obstáculo à sua união com Deus. O coração do cristão

não deve ser nem frio nem indiferente; é preciso que seja terno

e devotado; do contrário não poderá se elevar à via para a qual

Deus, que é amor, dignou-se chamá-lo.

Assim o Espírito Santo produz no homem o Dom da Piedade,

inspirando-lhe um retorno filial para seu Criador. “Vós recebestes

o Espírito de adoção, nos diz o Apóstolo, e é por este Espírito

que gritamos para Deus: Pai! Pai!”. Essa disposição torna

a alma sensível a tudo o que toca a honra de Deus. Faz o homem

alimentar em si mesmo a compunção de seus pecados, tendo em

vista a infinita Bondade que se dignou suportá-lo e perdoá-lo e

o pensamento dos sofrimentos e da morte do Redentor. A alma

iniciada no dom de Piedade deseja constantemente a glória de

Deus; quer pôr todos os homens a seus pés e os ultrajes que Ele

recebe lhe são particularmente sensíveis. Sua alegria é ver o progresso

das almas no amor e as devoções que este amor lhes inspira

por Aquele que é o soberano Bem. Cheia de submissão filial

para com o Pai universal que está nos céus, essa alma está pronta

para todas as suas vontades. Resigna-se de coração com todas as

disposições de sua Providência.

Sua fé é simples e viva. Mantém-se amorosamente submissa

à Igreja, sempre pronta a renunciar às suas próprias idéias e

àquelas mais caras, se estas afastam-se de alguma forma de seu

ensinamento ou de sua prática, tendo um horror instintivo da

novidade e da independência.

Essa devoção para com Deus que o dom de Piedade inspira,

unindo a alma a seu Criador pela afeição filial, a une, também,

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com uma afeição fraternal, a todas as criaturas, já que estas são

obra do poder de Deus e que as são para Ele.

Em primeiro lugar, nas afeições do cristão animado pelo

dom de Piedade, estão as criaturas glorificadas, das quais, Deus

goza eternamente e as quais gozam Dele para sempre. Ama ternamente

a Santíssima Virgem Maria e é zeloso de sua honra;

venera com amor os santos e os atos heróicos de virtude realizados

pelos amigos de Deus; delicia-se com seus milagres, honra

religiosamente suas relíquias sagradas.

Mas sua afeição não é apenas pelas criaturas coroadas no céu;

aquelas que ainda estão aqui embaixo ocupam um lugar importante

em seu coração. O dom de Piedade faz com que ele encontre nelas

o próprio Jesus. Sua boa vontade para com seus irmãos é universal.

Seu coração está inclinado ao perdão das injúrias, a suportar

as imperfeições do outro, a desculpar as imperfeições do próximo.

É compassivo para com o pobre, solícito aos pés do doente. Uma

doçura afetuosa revela o fundo do seu coração e em suas relações

com os irmãos da terra, o vemos sempre disposto a chorar com os que

choram, a se alegrar com os que se alegram.

Tal é, ó Divino Espírito, a disposição daqueles que cultivam o

dom de Piedade que derramais em suas almas. Por esse inefável benefício,

neutralizais o triste egoísmo que afloraria em seus corações,

livrando-os de uma frieza odiosa que torna o homem indiferente a

seus irmãos e fechais suas almas à inveja e ao ódio. Para isso, só foi

preciso esta piedade filial para com seu Criador; que amoleceu seus

corações, fundindo-os com uma viva afeição por tudo o que sai das

mãos de Deus. Fazei frutificar em nós este Dom tão precioso, ó Divino

Espírito! Não permitais que ele seja abafado pelo amor de nós

mesmos. Jesus nos encorajou dizendo-nos que seu Pai Celeste “faz

o sol nascer sobre os bons e os maus”; não permitais, Divino Paráclito,

que uma tão paternal indulgência seja um exemplo perdido para

nós e dignai-Vos desenvolver em nossas almas o germe de devoção,

de benevolência e de compaixão que Vos dignastes infundir no momento

em que delas tomastes possessão pelo santo batismo.

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O DOM DE CIÊNCIA

A alma, estando desligada do mal pelo Temor de Deus e

aberta às nobres afeições pelo dom de Piedade, experimenta a

necessidade de saber como evitará aquilo que é objeto de seu

temor e como encontrará o que deve amar. O Espírito Santo vem

em seu socorro e lhe trás o que deseja, derramando nela o dom

de Ciência. Por este Dom precioso a verdade lhe aparece, ela

sabe o que Deus pede e o que reprova, o que deve procurar e do

que deve fugir. Sem a Ciência divina nossa vista corre o risco

de perder-se por causa das trevas que muitas vezes obscurecem

totalmente, ou em parte, a inteligência do homem. Essas trevas

são provenientes, primeiramente, do fundo de nós mesmos, que

carrega os traços, bem reais, da decadência do pecado original.

São ainda causadas pelos preconceitos e máximas do mundo que

enganam diariamente os espíritos que se crêem os mais retos.

Enfim, a ação de Satã, que é o príncipe das trevas, exerce-se em

grande parte com o fim de envolver nossa alma na obscuridade

ou perdê-la com a ajuda de luzes falsas.

A fé que nos foi infundida no batismo é a luz de nossa alma.

Pelo dom de Ciência, o Espírito Santo produz, na virtude

da fé, raios tão vivos, que dissipam todas as trevas. As dúvidas,

então, se esclarecem, o erro se desvanece e a verdade aparece

com todo seu fulgor. Vemos cada coisa na sua verdadeira claridade

que é a claridade da fé. Descobrem-se os deploráveis erros

que estão em curso no mundo, que seduzem tão grande número

de almas, dois quais, talvez tenhamos sido, nós mesmos, durante

muito tempo, vítimas.

O dom de Ciência nos revela o fim que Deus se propôs na

criação, aquele fim fora do qual os seres não poderiam encontrar

nem o bem nem o repouso. Ensina o uso que devemos fazer das

criaturas, que nos são dadas não para tropeço, mas para nos ajudar

em nossa marcha para Deus. Sendo-nos, assim, manifestado

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o segredo da vida, nossa estrada torna-se segura, não hesitamos

mais e nos sentimos dispostos a nos retirar de todo caminho que

não nos conduza àquele fim.

É esta Ciência, dom do Espírito Santo, que o Apóstolo tem

em vista quando, falando aos Cristãos diz: “Antes éreis trevas;

agora sois luz no Senhor: andeis agora como filhos da luz”. Daí

vem a firmeza e a segurança da conduta cristã. A experiência

pode faltar algumas vezes e o mundo se perturba com o pensamento

de dar algum temível passo em falso; mas o mundo não

conta com o dom de Ciência. “O Senhor conduz o justo por vias

retas e para assegurar seus passos lhe deu a Ciência dos santos”.

Todos os dias esta lição é dada. O Cristão, por meio da luz sobrenatural,

escapa a todos os perigos e, se não tem experiência

própria, tem a experiência de Deus.

Seja bendito, Divino Espírito, por essa luz que derramais

e mantendes em nós com tão amável perseverança. Não permitais

que nunca procuremos uma outra. Somente ela nos baste;

fora dela só há trevas. Guardai-nos das tristes inconseqüências

em que muitos se deixam levar imprudentemente, aceitando um

dia vossa conduta e depois se entregando às opiniões do mundo;

levando uma vida que não satisfaz nem ao mundo nem a Vós.

Precisamos, pois, amar esta Ciência que nos destes para que sejamos

salvos; o inimigo de nossas almas inveja em nós essa Ciência

salutar; quer substituí-la por suas sombras. Não permitais, Divino

Espírito, que ele consiga seu pérfido desígnio e ajudai-nos

sempre a discernir o que é verdadeiro do que é falso, o que é justo

do que é injusto. Que segundo a palavra de Jesus, nosso olhar

seja simples, afim de que nosso corpo, quer dizer o conjunto de

nossos atos, de nossos desejos e de nossos pensamentos, esteja na

luz; salvai-nos daquele olho que Jesus chama de mau e que torna

tenebroso o corpo inteiro.

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O DOM DA FORÇA

O dom de Ciência nos ensina o que devemos fazer e o que

devemos evitar para estar de acordo com as intenções de Jesus

Cristo, nosso divino Chefe. É preciso agora que o Espírito Santo

estabeleça em nós um princípio, do qual possamos tomar a energia

que deverá nos sustentar no caminho que Ele acaba de nos

mostrar. Devemos, com efeito, contar com obstáculos e, o grande

número daqueles que sucumbem basta para nos convencer da

necessidade de sermos ajudados. O socorro que o divino Espírito

nos comunica é o dom da Força pelo qual, se somos fiéis ao

empregá-lo, será possível e mesmo fácil para nós triunfar sobre

tudo o que possa deter nossa marcha.

Nas dificuldades e nas provações da vida, o homem é tanto

levado à fraqueza e ao abatimento, quanto empurrado por um ardor

natural, que tem sua fonte no temperamento ou na vaidade.

Esta dupla disposição pouco ajudará na vitória dos combates pelos

quais a alma deve passar para sua salvação. O Espírito Santo

trás então um novo elemento como força sobrenatural, que lhe é

tão próprio, que o Salvador, ao instituir seus Sacramentos, estabeleceu

dentre estes um que tem por objeto especial nos dar esse

Espírito divino como princípio de energia. Está fora de dúvida

que tendo de lutar durante esta vida contra o demônio, o mundo

e nós mesmos, precisamos de outra coisa para resistir além da

pusilanimidade ou da audácia.

Temos necessidade de um dom que modere em nós o medo

e que, ao mesmo tempo, tempere a confiança que seríamos levados

a ter em nós mesmos. O homem assim modificado pelo Espírito

Santo certamente vencerá, pois a graça substituirá nele a fraqueza

da natureza ao mesmo tempo em que corrigirá a impetuosidade.

Duas necessidades encontram-se na vida do cristão: a de

saber resistir e a de saber suportar. O que poderia se opor às tentações

de Satã, se a Força do divino Espírito não viesse cobri-lo

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de uma armadura celeste e fortalecer seu braço? O mundo não

é também um adversário terrível, se considerarmos o número de

vítimas que caem todos os dias pela tirania de suas máximas e de

suas pretensões? Qual não deve ser a assistência do divino Espírito,

quando se trata de tornar o cristão invulnerável aos golpes

assassinos que fazem tantos estragos à sua volta?

As paixões do coração do homem não são um obstáculo menor

à sua salvação e à sua santificação: obstáculo tanto mais temível

por que mais íntimo. É preciso que o Espírito Santo transforme o

coração, que o leve mesmo a renunciar-se, quando a luz celeste indique

um outro caminho para o qual nos empurra o amor e a busca

de nós mesmos. Que Força divina não é preciso para “odiar até a

sua própria vida”, quando Jesus Cristo o exige, quando se trata de

escolher entre dois mestres cujos serviços são incompatíveis?

O Espírito Santo, todos os dias, realiza esses prodígios, por

meio do dom que derrama em nós, se não o desprezamos, se não

o abafamos com nossa covardia ou com nossa imprudência. Ele

ensina ao cristão a dominar suas paixões, a não se deixar conduzir

por guias cegos, a não ceder a seus instintos, a não ser, quando

são conformes à ordem que Deus estabeleceu. Algumas vezes esse

divino Espírito não pede somente que o cristão resista interiormente

aos inimigos de sua alma, mas exige também que proteste

abertamente contra o erro e o mal, se o dever de estado ou a posição

o reclamam. É aí, então, que é preciso afrontar uma espécie

de impopularidade que se associa às vezes ao cristão, e que não

deve surpreendê-lo ao lembrar-se das palavras do Apóstolo: “Se

eu fosse agradável aos homens, não seria servidor de Cristo”. Mas

o Espírito Santo não falta nunca e quando encontra uma alma resolvida

a fazer uso da Força divina da qual Ele é a fonte, não somente

lhe assegura o triunfo, mas a estabelece numa paz cheia de

doçura e de coragem que a leva à vitória sobre as paixões.

Tal é a maneira pela qual o Espírito Santo aplica o dom de

Força no cristão, quando este deve exercer resistência. Dissemos

que este precioso Dom trazia ao mesmo tempo a energia necessária

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para suportar as provações cujo prêmio é a salvação. Há temores

que gelam a coragem e podem levar o homem à sua perda. O dom

de Força os dissipa, substituindo-os por uma calma e uma segurança

que desconcerta a natureza. Vejam os mártires! E não só um São

Mauricio, chefe da legião Tebana, acostumado às lutas do campo

de batalha, mas tantos outros, como Felicidade, mãe de sete filhos,

como Perpétua, nobre senhora de Cartago para quem o mundo só

tinha favores; como Inês, criança de treze anos, bem como milhares

de outras, e digam se o dom da Força é estéril em sacrifícios. O

que foi feito do medo da morte, desta morte cujo único pensamento

nos acabrunha muitas vezes? E as generosas ofertas de toda uma

vida imolada na renúncia e nas privações, a fim de encontrar Jesus

sem reserva e de seguir suas pegadas de mais perto? E tantas existências

veladas aos olhares distraídos e superficiais dos homens,

existências cujo elemento é o sacrifício, onde a serenidade nunca é

vencida pela provação, onde a cruz sempre reinante é sempre aceita!

Que troféus para o Espírito de Força! Que dedicação ao dever

ele sabe produzir! E se o homem sozinho é pouca coisa, o quanto é

engrandecido sob a ação do Espírito Santo!

É ainda Ele que ajuda ao cristão a enfrentar a triste tentação

do respeito humano, elevando-o acima das considerações

mundanas que ditariam uma outra conduta. É Ele que empurra

o homem a preferir às honras vãs do mundo, a alegria de não ter

violado o mandamento de seu Deus. É esse Espírito de Força

que nos faz aceitar as desgraças da fortuna assim como tantos desígnios

misericordiosos do céu, que sustentam o cristão na perda

dolorosa dos entes queridos, nos sofrimentos físicos que tornariam

a vida um fardo, se não soubesse que são visitas do Senhor.

É Ele enfim, como lemos na Vida dos Santos, que se serve das

próprias repugnâncias da natureza, para provocar atos heróicos

onde a criatura humana parece atravessar os limites de seu ser

para elevar-se à ordem dos espíritos impassíveis e glorificados.

Espírito de Força, permanecei cada vez mais em nós e salvai-

nos da indolência desse século. Em época nenhuma a energia

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das almas esteve mais enfraquecida, o espírito mundano e diabólico

mais triunfante, o sensualismo mais insolente, o orgulho

e a independência mais pronunciados. Saber ser forte contra si

mesmo é uma raridade que excita o espanto daqueles que o testemunham:

como as verdades do Evangelho perderam terreno!

Detei-nos sobre esse declive que nos levaria como a tantos outros,

ó Divino Espírito! Deixai que peçamos como São Paulo aos

cristãos de Éfeso e que ousemos reclamar de Vossa liberalidade

“a armadura divina que nos porá em condições de resistir no dia

mau e de permanecermos perfeitos em todas as coisas. Cingi nossos

rins com a verdade, cobri-nos com a couraça da justiça, dai

a nossos pés, como calçados indestrutíveis, o Evangelho da paz;

muni-nos com o escudo da fé, contra o qual vem atingir as flechas

inflamadas de nosso cruel inimigo. Colocai em nossa cabeça

o elmo que é a esperança da salvação e em nossa mão a espada

espiritual que é a própria palavra de Deus” e com a ajuda da qual

possamos enfrentar, como o Senhor no deserto, todos os nossos

adversários. Espírito de Força fazei que assim seja.

O DOM DE CONSELHO

O dom da Força que reconhecemos ser necessário para a

obra da santificação do cristão, não seria suficiente para assegurar

esse grande resultado, se o Divino Espírito não tomasse

o cuidado de uni-lo a um outro Dom que vem em seguida e

afasta todo perigo. Este novo benefício consiste no dom de

Conselho. A Força não podia ser deixada sozinha: precisava

de um elemento que a dirigisse. O dom de Ciência não poderia

ser este elemento porque, se ele esclarece a alma quanto ao seu

fim e as regras gerais de conduta que ela deve seguir, não trás,

no entanto, luz suficiente quanto às aplicações especiais da lei

de Deus e o governo da vida. Nas diversas situações em que

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podemos nos encontrar, nas resoluções que devemos tomar, é

necessário que ouçamos a voz do Espírito Santo e é pelo dom

de Conselho que esta voz divina chega até nós. É ela quem

nos diz, se quisermos escutá-la, o que devemos fazer e o que

devemos evitar, o que devemos dizer e o que devemos calar,

o que podemos conservar e ao que devemos renunciar. Pelo

dom de Conselho, o Espírito Santo age em nossa inteligência,

assim como o dom da Força age em nossa vontade.

Este dom precioso aplica-se à vida inteira porque precisamos,

sem cessar, nos decidir por um partido ou por outro e é

um grande motivo de reconhecimento para com o Espírito divino,

pensar que Ele nunca nos deixa sozinhos conosco mesmos,

desde que estejamos dispostos a seguir a direção que Ele nos

imprime. Quantas armadilhas pode nos fazer evitar! Quantas

ilusões pode destruir em nós! Quantas realidades nos mostra!

Mas, para não perder suas inspirações, precisamos nos guardar

do encadeamento natural das coisas, com que tantas vezes nos

deixamos determinar, da temeridade que nos arrebata ao gosto

da paixão, da precipitação que nos induz a julgar e a agir, mesmo

quando só vemos um lado das coisas, da negligência que nos

faz decidir ao azar, no temor de nos cansarmos com a procura

daquilo que seria melhor.

O Espírito Santo, pelo dom de Conselho, arranca o homem

de todas essas inconveniências. Reforma a natureza,

tantas vezes excessiva quando não é apática. Mantém a alma

atenta àquilo que é verdadeiro, ao que é bom, ao que é verdadeiramente

vantajoso. Insinua a virtude que é o complemento

e como se fosse o tempero de todas as outras, ou seja, a discrição,

da qual Ele tem o segredo e pela qual as virtudes se

conservam, se harmonizam e não degeneram em defeitos. Sob

a direção do dom de Conselho, o cristão nada tem a temer. O

Espírito Santo toma a responsabilidade de tudo para ele. Que

importa que o mundo reclame ou critique, que se espante ou

se escandalize! O mundo se crê sábio; mas não tem o dom de

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Conselho. É daí que vêm, muitas vezes, as resoluções tomadas

sob uma inspiração e que acabam em um fim diferente do que

foi proposto. E tem que ser assim; porque foi ao mundo que o

Senhor disse: “Meus pensamento não são os vossos pensamentos

e meus caminhos não são os vossos caminhos”. Clamemos,

então, com todo ardor de nossos desejos, pelo Dom divino que

nos preservará do perigo de nos governarmos a nós mesmos;

mas compreendamos que este Dom só habita naqueles que O

estimam bastante para renunciarem-se em sua presença. Se

o Espírito Santo nos encontra desligados das idéias humanas,

convencidos de nossa fragilidade, dignar-se-á ser nosso Conselho;

mas se somos sábios a nossos próprios olhos, Ele retirará

sua luz e nos abandonará a nós mesmos.

Não queremos que isso aconteça conosco, ó Divino Espírito!

Estamos fartos de saber que correr atrás da prudência

humana não nos traz vantagem e, diante de Vós, abdicamos

sinceramente das pretensões de nosso espírito, tão pronto a

se deslumbrar e a se iludir. Conservai em nós e dignai-Vos

desenvolver com toda liberdade esse Dom inefável que nos

concedestes no batismo: sede para sempre nosso Conselho.

“Mostrai-nos Vossos caminhos e ensinai-nos Vossas veredas.

Dirigi-nos na verdade e instruí-nos; porque é de Vós que

virá a salvação e é por isso que nos prendemos à Vossa direção”.

Sabemos que seremos julgados por todas as nossas

obras e por todos os nossos desígnios; mas sabemos também

que não teremos nada a temer se formos fiéis à Vossa

direção. Estaremos, pois, atentos “para ouvir o que nos diz

o Senhor nosso Deus”, o Espírito de Conselho, seja nos falando

diretamente, seja nos enviando ao mediador que quis

escolher para nós. Bendito seja Jesus que nos enviou seu

Espírito para ser nosso condutor e bendito seja este Divino

Espírito que se digna nos assistir sempre e que nossas resistências

passadas não afastou de nós!

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O DOM DE INTELIGÊNCIA

O sexto Dom do Espírito Santo faz a alma entrar em uma

via superior a que ela se encontrava até aqui. Os cinco primeiros

Dons tendem todos para a ação. O Temor de Deus remete o

homem ao seu lugar humilhando-o, a Piedade abre seu coração

às afeições divinas, a Ciência ensina-o a discernir entre a via da

salvação e a via da perdição, a Força o arma para o combate e o

Conselho dirige o homem em seus pensamentos e em suas obras;

agora, então, ele pode agir e seguir pela estrada, com a esperança

de chegar ao termo. Mas a bondade do Espírito divino lhe reserva

ainda outros favores, fazendo-lhe desfrutar desde este mundo,

de um antegozo da felicidade que lhe reserva na outra vida. Este

será o meio de fortalecer sua marcha, de animar sua coragem e

de recompensar seus esforços. A via da contemplação lhe será,

de agora em diante, aberta e o Espírito divino nela o introduzirá

por meio da Inteligência.

Muitas pessoas, talvez, se inquietem com a palavra contemplação,

persuadidas erradamente de que as condições para isso só

poderão ser encontradas na rara condição de uma vida passada

no recolhimento e longe do comércio dos homens. É um grave

e perigoso erro que, muitas vezes, freia o impulso das almas. A

contemplação é o estado para o qual é chamado, em certa medida,

toda alma que procura a Deus. Não consiste nos fenômenos pelos

quais o Espírito Santo gosta de manifestar em algumas pessoas

privilegiadas e que são destinados a provar a realidade da vida

sobrenatural. Ela é, simplesmente, uma relação mais íntima que se

estabelece entre Deus e a alma que lhe é fiel na ação; se esta alma

não põe obstáculos, são-lhe reservados dois favores, entre os quais,

o primeiro é o dom de Inteligência, que consiste na iluminação do

espírito esclarecido desde então por uma luz superior.

Esta luz não retira a fé, mas clareia os olhos da alma, fortificando-

os e dando-lhes uma visão mais extensa sobre as coisas

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divinas. Muitas nuvens provenientes da fraqueza e da grosseria

da alma ainda não iniciada, se desvanecem. A beleza cheia de

encantos dos mistérios, a qual era vagamente sentida, se revela;

inefáveis harmonias que nem eram suspeitadas, aparecem. Não é

a visão face a face, reservada para o dia eterno; mas já não é mais

aquela fraca luminosidade que dirigia seus passos. Um conjunto

de analogias e de concordâncias mostram-se sucessivamente aos

olhos do espírito, trazendo uma certeza cheia de doçura. A alma

se dilata com essas claridades que enriquecem a Fé, aumentam

a Esperança e desdobram o Amor. Tudo parece novo; e quando

a alma olha para trás, compara e vê claramente que a verdade,

sempre a mesma, agora é alcançada por ela de maneira incomparavelmente

mais completa.

A leitura dos Evangelhos a impressiona mais; encontra um

sabor nas palavras do Salvador desconhecido para ela até então.

Compreende melhor o fim a que Ele se propôs instituindo os

Sacramentos. A santa Liturgia a emociona por suas fórmulas tão

augustas e seus ritos tão profundos. A leitura da vida dos santos

a atrai, nada a espanta nos seus sentimentos e nos seus atos; aprecia

seus escritos mais do que quaisquer outros e sente um aumento

de bem estar espiritual, tratando com esses amigos de Deus.

Rodeada de deveres de toda natureza, a chama divina guia essa

alma para satisfazer a cada um deles. As diversas virtudes que

deve praticar conciliam-se em sua conduta; uma nunca é sacrificada

pela outra, porque vê a harmonia que deve reinar entre elas.

Está longe do escrúpulo como do relaxamento e sempre atenta

para logo reparar os danos que pôde cometer. Algumas vezes, o

próprio Espírito a instrui por uma palavra interior que, quando

ouvida, ilumina sua situação com uma nova luz.

De agora em diante, o mundo e seus vãos equívocos, são

tomados por aquilo que são e a alma se purifica do resto de vínculos

e complacências que ainda poderia conservar por eles.

Aquilo que só tem grandeza e beleza segundo a natureza parece

insignificante e miserável para esses olhos que o Espírito Santo

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abriu para as grandezas e belezas divinas e eternas. Só uma coisa

redime a seus olhos esse mundo exterior que ilude o homem carnal:

é que a criatura visível, que trás a marca da beleza de Deus,

é susceptível de servir à glória de seu Autor. A alma aprende

a fazer uso dela com ação de graças, tornando-a sobrenatural,

glorificando com o Rei Profeta Àquele que imprimiu as marcas

de sua beleza nessa multidão de seres que servem tantas vezes

para a perda do homem, mas que são chamados a se tornarem

degraus que o conduziriam a Deus.

O dom de Inteligência derrama também na alma o conhecimento

de sua própria via. Faz com que ela compreenda o quanto

são sábios e misericordiosos os desígnios do alto que, muitas

vezes, a quebra e a transporta para onde não contava ir. Vê que

se ela fosse senhora de si mesma, para dispor de sua existência,

teria perdido o seu fim e que Deus nele a fez chegar, escondendo

primeiramente os desígnios de sua paternal Sabedoria. Agora ela

está feliz, pois goza da paz e seu coração não cabe de ações de

graças para agradecer a Deus que a conduziu ao termo sem consultá-

la. Se acontecer de ser chamada para dar conselhos, para

exercer uma direção por dever ou por motivo de caridade, podese

confiar nela; o dom de Inteligência a esclarece para os outros

como para ela própria. No entanto não se intromete, dando lições

àqueles que não lha pedem; mas se é interrogada, responde e

suas respostas são luminosas como a chama que a ilumina.

Este é o dom de Inteligência, verdadeira luz da alma cristã

e que se faz sentir nela em proporção à sua fidelidade aos outros

dons. Este dom se conserva pela humildade, moderação dos desejos

e recolhimento interior. Uma conduta dissipada detém o

seu desenvolvimento e pode mesmo abafá-lo. Essa alma fiel pode

se conservar recolhida mesmo em uma vida ocupada e cheia de

deveres, e até no meio de distrações obrigadas às quais a alma se

presta sem se prender. Que ela seja simples a seus próprios olhos

e o que Deus esconde aos soberbos e revela aos pequenos lhe

será manifestado e nela permanecerá.

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Não há duvida de que tal Dom seja um imenso socorro

para a salvação e a santificação da alma. Devemos implorá-lo ao

divino Espírito com todo ardor de nossos desejos, convencidos

de que o atingiremos mais seguramente pelo impulso do nosso

coração do que pelo esforço de nosso espírito. Na verdade é na

Inteligência, , que se derrama a luz divina, objeto desse Dom;

mas sua efusão provém, sobretudo, da vontade aquecida pelo

fogo da Caridade, segundo a palavra de Isaias: “Crede, e tereis a

inteligência”. Vamos nos dirigir ao Espírito Santo nos servindo

das palavras de Davi, dizendo: “Abri nossos olhos e contemplaremos

as maravilhas dos Vossos preceitos; dai-nos a inteligência

e teremos a vida”. Instruídos pelo Apóstolo, manifestaremos nosso

pedido de maneira ainda mais insistente, nos apropriando da

oração que ele dirige ao Pai celeste em favor dos fiéis de Éfeso,

quando implora por eles “o Espírito de Sabedoria e de revelação

pelo qual se conhece a Deus, os olhos iluminados do coração que

descobrem o objeto de nossa esperança e as riquezas da gloriosa

herança que Deus preparou para seus santos”.

O DOM DE SABEDORIA

O segundo favor que o divino Espírito destinou à alma que

lhe é fiel na ação é o dom de Sabedoria, ainda superior ao de Inteligência.

No entanto, está ligado a este último no sentido de que

o objeto mostrado na inteligência é saboreado e possuído no dom

de Sabedoria. O Salmista, convidando o homem a se aproximar

de Deus, recomenda-lhe o sabor do soberano Bem. “Provai, diz

ele, e experimentai que o Senhor é cheio de doçura”. A santa

Igreja, no próprio dia de Pentecostes, pede a Deus para nós o

favor de provar o Bem, recta sapere, porque a união da alma com

Deus é antes uma experiência do gosto do que uma visão, a qual

seria incompatível com nosso estado presente. A luz dada pelo

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dom de Inteligência não é imediata, ela alegra vivamente a alma e

dirige seu sentido para a verdade; mas tende a se completar pelo

dom de Sabedoria que é como se fosse seu fim.

A Inteligência é então iluminação e a Sabedoria é união.

Ora, a união com o soberano Bem se realiza pela vontade, quer dizer

pelo amor que reside na vontade. Notamos essa progressão nas

hierarquias angélicas. O Querubim refulge de inteligência, mas

acima dele ainda está o Serafim abrasado. O Amor é ardente no

Querubim, assim como a inteligência esclarece com sua luz viva

o Serafim; mas um é diferenciado do outro pela qualidade predominante

e o mais elevado é aquele que atinge mais intimamente a

divindade pelo amor, aquele que saboreia o soberano Bem.

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