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domingo, 14 de agosto de 2011

A ORAÇÃO CRISTÃ

A ORAÇÃO CRISTÃ

I. A NOSSA EXPERIÊNCIA DE ORAÇÃO

Quase toda a gente diz que reza. Pelo menos, que reza «algumas vezes». Ou então que reza

«alguma coisa». Mesmo entre os não praticantes, não raro se ouve dizer: «eu não vou à missa,

mas tenho fé. E rezo». «Não me esqueço nunca de fazer o sinal da Cruz...»; «passo muitas vezes

pela Igreja e rezo a Nossa Senhora e aos santos». Outros dirão: «eu gosto de falar com Deus»,

«às vezes fico a pensar na minha Vida», «mas gosto de rezar sozinho»... Outros, quando se lhes

pergunta se rezam, rapidamente respondem: «Rezo sim. Rezo todos os dias um Pai Nosso e

uma Ave Maria»... «rezo o terço»...

Valia a pena pensar na «verdade» destas afirmações. Não para pôr em causa a sinceridade e

a intenção de quem as diz, mas para procurar descobrir se sim ou não estas «experiências» de

oração, são realmente «oração cristã». Que vos parece? Estes testemunhos correspondem à

experiência cristã da Oração? São também a vossa experiência? (ajudar ao diálogo) Em que

medida são «oração»?

II. A EXPERIÊNCIA DE ORAÇÃO DE JESUS

a) – O que Jesus diz sobre a oração:

Cordialidade: O aposento do coração (Mt 6, 6 a);

Intimidade: A palavra luminosa (Mt 6, 6 b);

Confiança: O Filho que pede pão (Mt 7, 9);

Perseverança: oração milagrosa (Mc 9, 27-28);

Comunhão: onde dois ou três (Mt 18, 19-20; Lc 11, 5-8; Mt 15, 21-28);

Feita em nome de Jesus (Jo 14, 13-14);

Feita com humildade (Mt 6, 5-6; Lc 18, 9-14: parábola do Fariseu e Publicano);

Feita com esperança de ser atendido, como filhos diante do Pai;

Feita com fé: episódio do centurião (Lc 8, 6-8) e do leproso (Mc 12, 22-23).

b) – Quando é que Jesus reza?

antes e depois dos grandes acontecimentos

- antes do chamamento dos apóstolos (Lc 6, 12)

- depois da multiplicação dos pães (Mt 14,19; Jo 11,41)

De madrugada ( Mc 1, 35)

Durante a noite (Mt 14, 23; Lc 6, 12)

Na sinagoga (Lc 4, 16)

Só e acompanhado; só e à noite (Mt 14, 23)

E reza sempre (Heb. 7, 25): «Ele vive para sempre, para interceder por nós»...

c) – Como é que Jesus reza?

Oração de exultação (Lc. 10, 21-24): «Eu te bendigo ao Pai»...

Oração no Getsemani (Lc. 22, 39-46): «Faça-se a tua vontade»

Oração na Cruz (Lc. 23, 33-49): «Pai, perdoa-lhes»...

Os silêncios de Jesus na Oração (Lc 4, 16)

Oração filial na Trindade (Jo.11, 41-42)

Jesus reza por nós (Jo. 17)

Oração do Espírito (Jo. 14, 16-17); Rom. 8, 27

d) – O que é que Jesus reza? O Pai Nosso... é uma boa síntese do conteúdo da Oração de Jesus.

e) Porque é que Jesus reza? Como expressão da sua relação filial com o Pai... Porque sente a

fragilidade da condição humana (tentações, debilidade)... Por solidariedade com a dor e a

alegria dos Homens...

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a) Jesus é baptizado, enquanto se encontra em Oração (Lc.3,21);

b) Jesus reza no deserto (Lc.4,1-12) e Jesus passa a noite a rezar, antes de escolher os Doze

(Lc.6,12);

c) Jesus, enquanto orava, transfigurou-se (Lc.9,28-36);

d) Jesus denuncia Marta e elogia Maria (Lc.10,38-42)

e) Jesus bendiz o Pai pela revelação aos humildes (Lc.10.21-24);

f) Jesus ensina o Pai nosso e algumas parábolas sobre a Oração (Lc.11,1-13; a viúva inoportuna:

(Lc.18,1-8); o fariseu e o publicano. (Lc.18,9-14).

g) Jesus enaltece o leproso, que soube agradecer a cura (Lc.17,11-19);

h) Jesus denuncia a hipocrisia na oração e exige humildade, na parábola do fariseu e do publicano

(Lc.18,9-14);

i) Jesus exorta à vigilância e à oração constante (Lc.21.34-36);

j) Jesus dá graças na Última Ceia (Lc.22,14-20);

k) Jesus reza insistemente na agonia e convida a rezar (Lc.22,39-46);

l) Jesus reza na Cruz (Lc.23,46);

m) Jesus pronuncia a bênção sobre o Pão aos discípulos de Emaús (Lc.24,30);

n) Jesus ergue as mãos e abençoa os discípulos na sua Ascensão (Lc. 24,50)

III. O DISCERNIMENTO NECESSÁRIO À ORAÇÃO DO CRISTÃO

É sempre difícil e arriscado «julgar». Porque a «Oração» enquanto «experiência do diálogo e

de relação íntima do homem com Deus» não cabe nas nossas medidas... O que se «passa»

dentro do coração de cada um só Deus bem conhece. Mas nós podíamos procurar alguns

critérios para «discernir», para distinguir a Oração cristã daquilo que ela não é.

1. "A Oração, no seu verdadeiro significado é união da alma com Deus, porque, como diz S. João

Damasceno: «A vida de oração consiste em estar habitualmente na presença de Deus, três vezes

Santo e em comunhão com Ele" (CIC 2565). A Oração «é elevação da alma a Deus». (A fé

ortodoxa, III, 4). Neste sentido, o homem, por si próprio, pelas suas energias, pelos seus desejos e

pensamentos, apenas pode pronunciar palavras, mas não «orar»; pois a oração, enquanto busca

e união com Deus, é sempre dom do próprio Deus. Quer dizer, eu posso dirigir palavras «a Deus»,

mas não estar «em Deus». Ora a simples recitação das palavras, sem aquela intimidade amorosa

com Deus, não é ainda Oração. Pode ser um «desabafo meu», uma «descontracção psicológica»,

que acalma o meu ser, que dá voz ao meu desejo, que exprime a minha situação.

Mas se isto é realmente necessário, como situação de partida para rezar em verdade, não é

todavia e ainda oração. Será oração, quando deixar «cair» um a um os meus desejos, quando me

esquecer de mim próprio e da minha vontade, quando deixar de me ouvir a mim e aos meus

pensamentos e me abrir inteiramente ao Espírito. Será então o Espírito Santo a fazer-me ouvir a voz

do Pai na Palavra do Filho. Será o Espírito Santo a colocar nos meus lábios o silêncio oportuno e a

palavra adequada. Será o Espírito Santo a despertar no meu coração o desejo e a vontade, de

modo que seja já Deus a desejar em mim, a minha vontade convertida na sua, a minha palavra a

Palavra que ele espera ouvir de mim... pelo que «ninguém é capaz de dizer "Jesus é o Senhor, a

não ser pela acção do Espírito Santo» (I Cor.12,3)

2. A Oração cristã não pode acontecer se não for Oração filial. Quer dizer: se nela, não me sentir

e não me realizar e não me exprimir como «filho de Deus». Rezar, dizia Sta. Teresa de Ávila «é estar

a sós com Aquele que sabemos que nos ama». Quantas vezes o temor, o medo e a desconfiança,

fazem da minha oração uma espécie de «grito» para afastar a «ira de Deus» e não um «balbúcio»

de criança que se confia aos braços do Pai... Também aqui, só pela acção do Espírito, nos

podemos abeirar do Pai, cheios de confiança no seu amor. Porque este «Espírito» nos habita

desde o Baptismo, ele impele-nos a rezar, a dar voz ao nosso coração de filhos, dizendo «Abba, ó

Pai». O mesmo Espírito que une o Pai e o Filho numa relação de eterno e inesgotável Amor é que

nos une pode unir, no Filho, ao Pai.

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3. A Oração cristã é feita «no Espírito». O homem que vive ainda mergulhado na fraqueza, na

incerteza e nos vaivéns do tempo, experimenta a dificuldade na oração, desconhecedor do que

deve pedir! Mas nem por isso deve desanimar, porque o Espírito vem ao seu encontro para tomar

conta da sua situação: aquele Espírito que o tornou participante do estado de filho adoptivo,

levando-o a experimentar a realidade, é o mesmo Espírito que agora reza nele e com ele.

Assumindo a sua fraqueza, completa a obra da salvação por Ele iniciada, apesar das dificuldades

que se podem encontrar ao longo do caminho: «O Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, pois

nem sabemos o que nos convém pedir; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos

inefáveis» (Rom 8, 26-27).

Portanto, toda a oração do cristão, tanto a da liturgia como a pessoal, acontece sempre no

Espírito, porque o acesso ao Pai faz-se pelo Filho, no Espírito (cf. Ef 2, 18). Leiam Judas 1,20: «rezai

movidos pelo Espírito Santo»; Ef.5, 18-20: «Procurai a plenitude do Espírito. Juntos recitai salmos,

hinos e cânticos inspirados, cantando e louvando ao Senhor de todo o coração»; Ef.6,18 «Rezai

incessantemente no Espírito». (comentar)

IV. A ORAÇÃO DO CRISTÃO: O Pai -Nosso

A oração por excelência «em Espírito e verdade» é a que foi ensinada pelo Senhor Jesus Cristo: o

Pai-Nosso, que é uma autêntica oração «espiritual». A propósito, escreve São Cipriano: «Aquele

que nos deu a vida também nos ensinou a orar, com a mesma benevolência com que Se dignou

conceder-nos os outros seus dons, de maneira que, dirigindo-nos ao Pai com a oração ensinada

pelo Filho, possamos mais facilmente ser escutados.

V. A ORAÇÃO DA IGREJA: Os Salmos

Dentro da Palavra de Deus, ocupam lugar especial os Salmos:

Os salmos são oração do Homem inspirada por Deus: são oração na verdade daquilo que o

homem sente e na verdade daquela resposta que Deus espera do Homem. Não estranhamos por

isso algumas reacções violentas do orante: Sal,59 (58), 5-7 «não tenhas compaixão deles»... e

também no Sal.58(57),7: «quebra-lhes os dentes»...

Os Salmos são “hinos que sob a inspiração do Espirito Santo, foram compostos pelos autores

sagrados do Antigo Testamento. Por sua própria origem, os salmos possuem a virtude de elevar

para Deus o espírito dos homens, de excitar neles santos e piedosos afectos, de os ajudar

admiravelmente a dar graças na prosperidade, de os consolar e robustecer na adversidade”

(I.G.L.H. 100).

A oração dos salmos, nascida numa cultura oriental e num tempo longínquo, nunca perdeu a sua

frescura original, porque os seus poemas "traduzem de forma adequada a dor e a esperança, a

miséria e a confiança dos homens de todos os tempos e regiões; cantam sobretudo a fé em Deus,

bem como a revelação e a redenção" (I.G.L.H. 107).

Jesus também rezou os Salmos (Sal.21:«Meu Deus, porque me abandonaste... e Sal.31: «Pai, nas

vossas mãos entrego o meu Espírito»). Jesus fazia parte de um Povo que rezava os Salmos. Santo

Agostinho, ao comentar o salmo 22, diz que Jesus:

Os Salmos são a Oração da Igreja. A Igreja utiliza muito a oração dos salmos, particularmente na

Liturgia das Horas, onde eles são integrados como elemento constitutivo mais importante, apesar

das muitas dificuldades que tal forma de oração apresenta, "mormente quando o salmo não fala

directamente de Deus", quando o salmista recorda a história de Israel, quando no mesmo salmo

ele introduz a falar Deus e os homens ou até os próprios inimigos de Deus, ou quando interpela

mesmo as criaturas irracionais (cfr. I.G.L.H. 105).

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VI. REZAR COM A BÍBLIA: A LECTIO DIVINA

Ajudar-nos-á muito à oração, o contacto com a Palavra de Deus. Enquanto Palavra de Deus, ela

deve ser:

a) Lida com fé (Mc.6,5);

b) Escutada sob a luz do Espírito Santo (Jo.14,26);

c) Escutada com simplicidade e disponibilidade interior (Lc.10,21);

d) Acolhida na disposição da conversão interior (Jo.3,3);

e) Posta em prática (Mt.7,24).

Alguns passos importantes da LECTIO DIVINA:

0. ESTACIONAR.... Silêncio, disposição interior...«Subir ao Templo» é «descer ao coração»...

1. LEITURA: Que diz o texto?

2. MEDITAÇÃO: Que me diz o Senhor neste texto? (C. Ig.Cat. 2705)

3. ORAÇÃO: Que digo eu ao Senhor que me fala neste texto?

4. CONTEMPLAÇÃO: Tratar de amizade, a sós, com Aquele que sabemos que nos ama... Olhar

mais para Deus do que para mim. É o olhar da fé: «Eu olho para Ele e Ele olha para mim». É escuta

silenciosa, presença amorosa, união de corações... (cf. Cat. Ig. Cat.2709-2719)

5. DISCERNIMENTO: Qual a vontade de Deus a meu respeito? Que me pede ele? Que tenho de

mudar na minha oração? Na minha atitude, diante de Deus e dos outros...

6. PARTILHA: Ouvir os outros. Falar com eles.

7. ACÇÃO: A palavra dá frutos. Que vou fazer? Rezar com humildade. Sou um mendigo de Deus...

Procurai na Leitura e achareis na meditação. Batei à porta na Oração e ela se vos abrirá na

contemplação...”

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