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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O Gradual Desenvolvimento da Missa Romana

A primeira fonte para a história da

Missa é obviamente o relato da Última

Ceia no Novo Testamento. Porque foi Nosso

Senhor quem nos mandou que fizéssemos

como Ele o fez, em Sua memória, é que

existem as liturgias Cristãs. Não importa a

extensão das diversas diferenças entre as

liturgias Eucarísticas; elas todas obedecem

Seu comando de fazer “isto”, ou seja, o que

Ele mesmo tinha feito. Um padrão

definitivo para a celebração da Eucaristia

foi desenvolvido nas décadas que se seguiram logo após a morte de

Nosso Senhor, um padrão que continuou bem depois de já terminado o

1o. século e que ainda pode ser discernido claramente na edição

finalizada da Missa Romana de 1570.

O mais antigo e detalhado relato da Eucaristia é encontrado na

Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, que é anterior aos

Evangelhos e foi escrito em Éfeso entre 52 – 55 A.D. Pesquisadores

concordam que a fórmula da Consagração usada por São Paulo em I

Coríntios 11, cita literalmente uma fórmula estilizada já em uso na

liturgia Apostólica. O relato de São Paulo diz:

Desenvolvimento da Missa Romana

1

§ O presente material baseia-se no livro A Short History of The Roman Mass, de autoria de Michael

Davis. Seu livro é em grande parte uma compilação do clássico trabalho do Padre Adrian Fortescue,

The Mass: A Study of the Roman Liturgy§ (London: Longmans, 1912), que aqui utilizará a mesma

abreviatura empregada por Michael Davis (TM). A Short History of The Roman Mass poderá ser

comprado pelo site da editora TAN Books - http://www.tanbooks.com/ - ou ainda ser lido, na íntegra

e em inglês, nos seguintes endereços eletrônicos:

http://www.catholictradition.org/Eucharist/mass-history.htm

http://www.geocities.com/Vienna/Strasse/5816/mhist.html

http://www.romancatholicism.org/davies-short.htm

OBS: Esclarecemos que a mera indicação dos endereços eletrônicos acima não expressa qualquer

adesão do sítio “Missa Gregoriana” à linha editorial, às idéias ou opiniões de quaisquer natureza que

tenham ou que possam vir a ser emitidas pelos responsáveis dos sítios ou demais autores que tenham

seus artigos neles disponibilizados.

O Gradual Desenvolvimento

da

Missa Romana

Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor

Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter

dado graças, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo, que é

entregue por vós; fazei isto em memória de mim.

Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou

também o cálice, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança no

meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em

memória de mim.

Assim, todas as vezes que comeis desse pão e bebeis

desse cálice lembrais a morte do Senhor, até que venha.

Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o

cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do

sangue do Senhor. (I Cor. 11, 23-27)

A passagem é rica em doutrina. Relaciona a Eucaristia com a

Paixão. Um novo e permanente pacto ou aliança é consumada entre

Deus e o homem no Sangue de Jesus. Seu sacrifício foi misticamente

antecipado na Última Ceia. Os Apóstolos, e implicitamente seus

sucessores, são ordenados a celebrar a Eucaristia em Sua memória; e

esta lembrança é de tamanha eficácia que é uma proclamação

incessante de Sua morte redentora e verdadeiramente a expressa no

presente até o dia quando Ele gloriosamente retornar em Sua segunda

vinda. A Eucaristia é o memorial da Paixão, anamnesis em grego, e

celebra a Paixão ao renová-la de forma incruenta sobre o altar.

Finalmente, grande pureza de alma é requerido para tomar parte em

um rito tão sagrado quanto a oferta e recepção do Corpo e Sangue de

Nosso Salvador.

Ao combinar o relato de São Paulo com aqueles dos quatro

Evangelhos sinópticos, temos o essencial da liturgia Eucarística em

cada rito antigo. Nosso Senhor pegou o pão, deu graças, abençoou e o

partiu, e deu aos Seus Apóstolos para comer; então Ele tomou o cálice

de vinho, novamente deu graças (Lucas e Paulo não agregam esta

segunda ação de graças), e disse as palavras de Instituição (ou

Consagração) sobre ele, e o deu para eles beberem. Temos, portanto, os

cinco elementos essenciais para a Eucaristia Cristã: 1) Pão e vinho são

trazidos para o altar; 2) O celebrante dá graças; 3) Ele toma o pão, o

abençoa e diz as palavras da Consagração; 3) ele faz o mesmo sobre o

vinho; 5) O Pão consagrado, agora tendo se tornado o Corpo de Cristo,

é repartido e é dado às pessoas em Comunhão juntamente com o

conteúdo do Cálice, que é o Precioso Sangue.

Embora houvesse uma considerável uniformidade litúrgica nos

dois primeiros séculos, não havia uma uniformidade absoluta. Livros

litúrgicos certamente estavam sendo usados pelo meio do quarto século

e possivelmente antes do final do terceiro, mas os mais antigos textos

remanescentes datam do 7o. século e notações musicais não eram

usadas no Oriente até o século 9o., quando as melodias do canto

Desenvolvimento da Missa Romana

2

Gregoriano foram codificadas. Com certeza absoluta, o único livro

conhecido de ter sido usado até o século 4o. era a Bíblia, das quais os

trechos eram tirados.

Fatores históricos desempenharam um

papel crucial na maneira em que a liturgia

era celebrada. Durante os tempos da

perseguição, brevidade e simplicidade eram

suas principais características por razões

óbvias. A tolerância ao cristianismo sob

Constantino I e a sua adoção como a religião

do Império sob Teodósio I (379 – 395) teve um

efeito dramático no desenvolvimento do

ritual. As Congregações aumentaram de

tamanho e benefícios para construção e

mobi l iário de igrejas resul taram no

enriquecimento dos vasos e vestimentas.

Aqueles que faziam tais doações naturalmente iriam querer que

fossem de natureza o mais rico e belo possíveis. Paralelamente o

desenvolvimento natural é que os ritos litúrgicos se tornassem mais

elaborados, com procissões solenes e ênfase sobre a impressionante

natureza do rito. Esta elaboração da liturgia se sucedeu de maneira

mais rápida e mais profunda no Oriente do que no Ocidente durante o

4o. século, mas a mudança universal no estilo deu-se início por todo o

mundo cristão ao deixar de ser um ritual ilegal e privado para um

público com apoio do estado.

Aproximadamente por volta da metade do século 4o. existiam

com toda certeza alguns livros litúrgicos. Pelo final do século 4o., Santo

Ambrósio de Milão, numa compilação das instruções para os recémbatizados

intitulado De Sacramentis, cita a parte central do Cânon,

que é substancialmente idêntico com às respectivas orações do Cânon

Romano tradicional, porém um pouco mais curto. Isso prova, alem de

qualquer dúvida, que o centro do nosso Cânon tradicional, desde o

Quam oblationem (a oração antes da Consagração), incluindo a oração

sacrificial após a Consagração, já existia pelo final do século 4o.

Dos sacramentários, três se sobressaem como os mais antigos, os

mais completos e os mais importantes em todos os sentidos. Esses são os

bem-conhecidos Sacramentários Leonino, Gelasiano e Gregoriano

nomeados respectivamente devido aos Papas: São Leão (440-461),

Gelásio I (492-496) e São Gregório I Magno (590 – 604). Os nomes

indicam uma autoria que não podem ser confirmados nem mesmo no

caso de São Gregório. Não há qualquer evidência que o Papa Gelásio I

tenha contribuído em algo para o Sacramentário atribuído a ele; São

Desenvolvimento da Missa Romana

3

Leão pode ter composto algumas das orações no Sacramentário

Leonino, mas isso não é certeza; mas o Sacramentário Gregoriano

quase certamente contem algum material composto por São Gregório.

São Gregório Magno tornou-se Papa em 590 e reinou até

604. Suas realizações durante aqueles 14 anos quase desafiam a

credibilidade. A reforma litúrgica foi a mais proeminente dentre as

muitas importantes que ele empreendeu. Seu pontificado marca uma

época na história da Missa Romana, que em cada aspecto importante

ele deixou no estado que ainda temos hoje.

A tônica da reforma de São Gregório foi

a fidelidade às tradições que tinham sido

transmitidas (o significado da raiz da palavra

latina traditio é transmitir ou legar.). Sua

reforma cons i s t iu principalmente na

simplificação e o arranjo mais ordenado do

rito existente – a redução das orações

variáveis de cada missa para três (Coleta,

Secreta e Póscomunhão) e uma redução da

variações que ocorriam naquela época no

Cânon, Prefácio e formas adicionais para os

Comunicantes e Hanc Igitur. Essas variações ainda podem ser

encontradas em algumas poucas ocasiões, tais como no Natal e na

Páscoa. Seu principal trabalho foi certamente a organização

definitiva do Cânon Romano.

O Ordo da Missa como encontrado no Missal de 1570 de

São Pio V (1566 – 1572), aparte de adições menores e amplificações,

corresponde bem proximamente ao Ordo estabelecido por São

Gregório. É também a este grande Papa que devemos, em grande

extensão, a codificação do incomparável canto que traz o seu nome.

A Missa romana como reformada por São Gregório

gradualmente se espalhou e tornou-se dominante, não apenas na

Itália, mas também além dos Alpes. O prestígio da Igreja Romana, a

natureza sóbria de sua liturgia, o fato que em Roma estavam as

tumbas do Príncipe dos Apóstolos e muitos outros mártires, tudo

combinado para dar à liturgia Romana um ethos nítido de

autenticidade e autoridade. Ademais, a ausência de qualquer grande

sé primacial na Europa, exceto Toledo, na Espanha, e a natureza

turbulenta dos tempos, favoreceram essa rápida expansão.

Da Alta Idade Media em diante há pouco para registrar acerca

da natureza da mudança na ordem da Missa em si, que tinha se

tornado uma herança sagrada e inviolável – sua origem esquecida.

Desenvolvimento da Missa Romana

4

Era popularmente aceito que tinha sido legada pelos Apóstolos sem

mudanças, ou que tinha sido escrita pelo próprio São Pedro. Padre

Fortescue considera que o reinado de São Gregório Magno marca uma

época na história da Missa, tendo deixado a liturgia com seus

princípios básicos como a temos hoje. Ele escreve:

Há, alem disso, uma constante tradição

que São Gregório foi o último a tocar a

parte essencial da Missa, a saber, o

Cânon. Bento XIV (1740 – 1758) diz:

“Nenhum papa agregou ou modificou o

Cânon desde São Gregório.”2.

Se isso é totalmente exato não é uma questão de grande

importância e ainda que de fato algumas adições bem pequenas se

tenham discretamente infiltrado posteriormente, talvez alguns

Améns, o ponto importante é que uma tradição de mais de um milênio

certamente existia na Igreja Católica que o Cânon não deveria ser

mudado. De acordo com o Cardeal Gasquet:

Esse fato, que ela tenha se mantido tão inalterada

durante treze séculos, é o testemunho mais expressivo da

veneração com a qual sempre se demonstrou respeito a

ela e do escrúpulo que sempre foi expresso em tocar uma

herança tão sagrada, chegando a nós de uma

antiguidade indescritível3.

Muito embora o rito da Missa continuasse a se desenvolver depois

do tempo de São Gregório, Pe. Fortescue explica que:

Todas as modificações posteriores foram feitas

dentro da antiga organização e as partes mais

importantes permaneceram intocadas. Desde o, mais ou

menos, tempo de São Gregório temos o texto da Missa,

sua ordem e organização, como uma tradição sagrada

que ninguém arriscou tocar, exceto em detalhes sem

importância4.

Desenvolvimento da Missa Romana

5

2 TM, p. 172.

3 F. Gasquet & H. Bishop, Edward VI and the book of Common Prayer (London: john Hodges, 1890), p.

197.

4 TM, p. 173.

Dentre as adições posteriores:

As orações ditas ao pé do altar são nas suas formas

atuais a última parte de todas. Elas se desenvolveram a

partir de preparações particulares medievais e não

foram formalmente fixadas em seu estado presente

antes da Missa de Pio V (1570)5.

Elas foram, contudo, amplamente usadas bem antes da Reforma e

são encontradas na primeira edição impressa do Missal Romano

(1474).

O Gl ó r i a f o i i n t r o d u z i d o g r a d u a lme n t e ,

primeiramente apenas para ser cantado em festas nas

Missas episcopais. É possivelmente Galicano. O Credo

veio para Roma no século 11. As orações do Ofertório e o

Lavabo foram introduzidas alem dos Alpes dificilmente

antes do século 14. O Placeat, a Bênção e o Último

Evangelho foram introduzidos gradualmente na Idade

Média6.

A evolução do que ficou conhecido como Missa rezada é a mais

importante das modificações reportadas pelo Padre Fortescue. A

simplicidade da Missa Rezada poderia dar vazão à impressão que é

uma forma primitiva. Nada poderia estar tão longe da verdade. É, na

verdade, uma redução tardia. Tudo o que tem sido escrito concernente

à Missa romana até agora diz respeito ao que poderia ser descrito

como a Missa Cantada. Desde o começo lemos sobre a liturgia sendo

celebrada com diáconos e assistentes e na presença das pessoas que

cantam suas partes. Até a Idade Média, a Missa não era rezada mais

que uma vez no mesmo dia. O bispo ou o clérigo mais experiente

celebrava e o resto do clero também recebia Comunhão ou

concelebrava. Essa é ainda a prática nas Igrejas Orientais, onde não

há o equivalente para nossa Missa rezada e onde a prática original de

um altar em cada igreja ainda é mantida. No início da Idade Média

no Ocidente, cada sacerdote oferecias sua própria Missa cada dia.

Uma prática que de efeitos profundos não apenas sobre a liturgia, mas

sobre a arquitetura da Igreja e mesmo sobre Código do Direito

Canônico.

A mudanças aconteceram por razões teológicas. Cada missa

enquanto um sacrifício propiciatório tem um valor definitivo perante

Desenvolvimento da Missa Romana

6

5 TM, pp. 183 - 184.

6 TM, p. 184.

a Deus; portanto, duas missas valem o dobro de uma. O costume surgiu

de oferecer cada Missa para uma intenção específica e a aceitação de

um estipêndio pela mesma. Este era particularmente o caso das Missas

de Réquiem. Fieis Católicos tomariam as providências em seus

testamentos para que Missas fossem celebradas pelas suas almas e

fariam doações para fundações monásticas para este fim. No final da

Idade Média capelanias foram criadas para o fim específico de

oferecerem réquiens para uma pessoal em particular, e tal era prática

comum das associações medievais; ter Missas rezadas para os seus

membros falecidos. Por volta do século 9o., a multiplicação das Missas

progrediu tanto que muitos sacerdotes celebravam Missa várias vezes

em um dia. (No século 13, ações seriam tomadas para freiar a

excessiva multiplicação de Missas, e diversos sínodos proibiram

sacerdotes de celebrara mais que uma vez ao dia, exceto nos Domingos

e dias de festa, e em casos de necessidade.).

A multiplicação de Missas levou à construção de muitos altares

na mesma igreja e nos monastérios, onde muitos sacerdotes

celebravam ao mesmo tempo em diferentes altares. Por volta do século

9o. cada grande monastério era convidado a oferecer centenas ou

mesmo milhares de Missas cada ano. Todos esses fatores levaram a

uma redução no ritual que hoje chamamos de Missa Rezada e foi a

Missa Rezada que causou a compilação do Missal como nós hoje

conhecemos.

No Período anterior, como vimos, os livros foram organizados

para aquelas pessoas que os usariam. O livro do sacerdote era o

Sacramentário, contendo sua parte da Missa e outros rituais. Ele não

precisava ter os trechos da Bíblia ou as antífonas em seu livro, uma

vez que ele não rezava. Mas em celebrações privadas ele rezava estas

partes, em substituição a ausência de ministros e coro. Os livros

tiveram que ser compilados contendo essas partes, também, e o

processo começou já no ano século 6o. com os Sacramentários que

mostram o início desse desenvolvimento. Por volta do século 9o. as

Missas Comum dos Santos são muitas vezes acompanhadas com a

Epístola, Evangelho e a parte do coro. O século 10o. testemunhou as

primeiras tentativas de compilação do que é conhecido como Missal

Pleno, Missale Plenarium, com o texto por inteiro da Missa.

A necessidade de um Missal Pleno abrangente

teve estímulo especial de Roma, sob o pontificado

do Papa Inocêncio III, por um livro que pudesse ser

usado pelos membros da cúria Romana, que tinham

que viajar bastante e freqüentemente para

empreender suas obrigações. Foi compilado sob o

nome de Missale Secundum Consuetudinem

Desenvolvimento da Missa Romana

7

Romanae Curiae, e se espalhou amplamente para o triunfo final do

Rito Romano. Isso foi causado em boa medida por sua adoção pela

recém fundada ordem dos Frades Franciscanos, que levaram-no

consigo a todo o lugar durante sua rápida expansão e, claro,

posteriormente, para o Novo Mundo. Do século 13 em diante ninguém

ouvia mais falar de Sacramentários.

A Missa Rezada então reagiu a Missa Cantada. Originalmente o

celebrante dizia ou cantava sua parte e escutava, como todos os

demais, as outras partes – passagens da Sagradas Escrituras, Gradual

e assim por diante.

Posteriormente, tendo tornado-se acostumado a rezar estas

outras partes na Missa Rezada – na qual ele tinha que tomar o lugar

dos ministros e do próprio coro – o celebrante começou a rezá-las

também na Missa Cantada.

Assim temos a atual organização onde o celebrante também

reza em voz baixa no altar o que quer que seja cantado pelos

ministros e o coro7.

O Missal de São Pio V foi compilado e publicado

em 1570 em obediência aos Padres do Concílio de

Trento. Esse é o Missal que é usado hoje quando

quer que a Missa Tradicional do Rito Romano,

comumente chamada de Tridentina.

As intenções dos Padres do Concílio de Trento foram bem

expressas pelo Pe. Fortescue:

Os Reformadores Protestantes naturalmente

levaram a destruição da antiga liturgia. Foi por meio da

própria expressão das idéias que eles rejeitavam (a

Presença Real, Sacrifício Eucarístico, etc.). Desta forma

eles a substituíram por novos ritos de comunhão que

expressavam seus princípios, mas, obviamente, rompiam

terminantemente com todo o desenvolvimento litúrgico

histórico. O Concílio de Trento (1545 – 1563), em oposição à

anarquia desses novos rituais, desejou que a Missa

Romana fosse celebrada uniformemente em todo o lugar.

Os usos medievais locais tinham durado tempo

Desenvolvimento da Missa Romana

8

7 TM, pp. 185 – 190.

suficiente. Tinham se tornado muito floridos e

exuberantes; suas variedades causavam confusão8.

A pr ime i ra pr i o r idade do

Concílio de Trento foi codificar o

ensino Eucarístico Católico. Fez isso

em termos grandemente detalhados,

claros e inspirados. Anátema era

pronunciado contra qualquer um que

rejeitasse esse ensinamento e os Padres

insistiram que o que ele tinham

ens inado deve r ia s e r mant ido

imutável até o Final dos Tempos:

E assim este Concílio ensina a verdadeira e

genuína doutrina sobre este venerável e divino

sacramento da Eucaristia – a doutrina que a Igreja

Católica sempre deteve e que ela aprendeu do Próprio

Cristo Nosso Senhor, de Seus Apóstolos e do Espírito

Santo, que constantemente traz a verdade à mente dEla.

O Concílio proíbe todos os fiéis de Cristo, de agora em

diante, de acreditar, ensinar ou pregar o que quer que

seja sobre a Santíssima Eucaristia que seja diferente do

que está explicado e definido no presente decreto9.

Em sua décima oitava sessão, o Concílio encarregou uma

comissão de examinar o Missa, revisá-lo e restaurá-lo “de acordo com o

costume e o rito dos Santos Padres.”. Pe. Fortescue considera que os

membros da Comi s são indi cados para revi sar o Mi s sal

“desempenharam sua tarefa muito bem”: seu objetivo não era fazer

um novo Missal, mas restaurar o existente “de acordo com o costume e

o rito dos Santos Padres”, usando para esta propósito os melhores

manuscritos e outros documentos10. Ele faz menção particular da

continuidade litúrgica que caracterizou o novo Missal.

O Missal promulgado por São Pio V não é simplesmente um

decreto pessoal de Soberania Pontifícia, mas um ato do Concílio de

Trento, muito embora o Concílio tenha se encerrado em 4 de dezembro

de 1563, antes da comissão ter completado sua tarefa. O material foi

enviado ao Papa Pio IV, mas ele morreu antes que trabalho fosse

Desenvolvimento da Missa Romana

9

8 TM, pp. 205 – 206.

9 H. Denzinger, Enchiridion Symbolorum (Editio 31), 873a.

10 TM, p. 206.

concluído, assim foi o seu sucessor, São Pio V, quem promulgou o

Missal resultante do Concílio, com a Bula Quo Primum Tempore, 14 de

Julho de 1570. Porque o Missal é um ato do Concílio de Trento, seus

titulo oficial é Missale Romanum ex decreto sacrosancti Concilii

Tridentini Restitutum – “O Missal Romano Restaurado de Acordo com

os Decretos do Santo Concílio de Trento.”. Esta foi a primeira vez em

1570 anos de história da Igreja que um concílio ou um papa tinham

usado a legislação para especificar e impor um rito completo da Missa.

A essência da reforma de São Pio V era, como aquela de São

Gregório Magno, o respeito pela tradição; estava fora de questão

qualquer “manuseio desarmonioso” daquilo que foi transmitido. Em

uma carta para o The Tablet de 24 de Julho de 1971, Padre David

Knoles, o mais reconhecido pesquisador britânico até sua morte em

1974, afirmava que

O Missal de 1570 foi na realidade o resultado de

instruções dadas em Trento, mas era, de fato, muito

mais uma réplica do Missal Romano de 1474 - no que

tange ao Ordinário, Cânon, Próprio do Tempo - que, por

seu turno, repetiu em todos os princípios básicos a

prática da Igreja Romana da época de Inocêncio III

(1198 – 1216), que por sua vez derivou-se do uso de

Gregório Magno (590 – 604) e de seus sucessores no

século sétimo. Em resumo, o Missal de 1570 foi, em todo

os seus princípios básicos, o uso da liturgia européia

medieval dominante, que incluía a Inglaterra e todos os

seus ritos.

Escrevendo em 1912, Padre Fortescue foi capaz de comentar com

satisfação:

O Missal de Pio V é aquele que ainda usamos.

Revisões posteriores são de importância desprezível. Sem

dúvida que em toda a reforma alguém pode encontrar

alguma coisa que se gostaria que não mudasse.

Entretanto, uma crítica justa e razoável admitirá que a

r e s t a u r a ç ã o d e Pi o V f o i em s e u c onj unt o

eminentemente satisfatória. O padrão da comissão foi a

antigüidade. Eles aboliram características ornamentais

ulteriores e buscaram a simplicidade, mesmo assim sem

destruir todos aqueles elementos pitorescos que

adicionam beleza poética à severa Missa Romana. Eles

expeliram o bando de longas seqüências que apinhavam

a Missa continuamente, mas retiveram os que são

indubitavelmente os cinco melhores: eles reduziram as

Desenvolvimento da Missa Romana

10

procissões e o elaborado cerimonial, mantiveram, no

entanto, cerimônias realmente ricas de velas, cinzas,

palmas e os belos ritos da Semana Santa. Com toda

certeza, nós no Ocidente podemos ficar muito felizes que

tenhamos o rito Romano na forma do Missal de Pio V11.

Reformas aconteceram desde o Papa São Pio V. Em alguns casos o

que hoje é chamado de “reformas” referiam-se principalmente à

restauração do Missal para a forma codificada por São Pio V quando,

devido grandemente a impressões descuidadas, desvios começaram a

aparecer. Isso é particularmente verdadeiro no caso das “reformas”

dos Papas Clemente VIII propostas no Breve Pontifício Cum

Sanctissimum de 7 de julho de 1604 e de Urbano VIII no Breve

Pontifício Si quid est, de 2 de setembro de 1634.

São Pio X fez uma revisão, não do texto da Missa mas da

notação do Cantochão. O Gradual Vaticano de 1906 contem novas, ou

melhor restauradas, formas dos cantos cantados pelo celebrante, e por

essa razão a ser impresso no Missal.

Em 1955, o Papa Pio XII autorizou uma revisão de rubrica, sobre

tudo relacionada com o calendário. Em 1951 ele restaurou a Vigília

Pascal da manhã para a noite do Sábado Santo e em 16 de Novembro

de 1955 aprovou o Decreto Maxima redemptionis reformando as

cerimônias da Semana Santa.

Papa Beato João XXIII também fez uma reforma de rubricas

mais abrangentes que foi promulgada em 25 de julho de 1960 e entrou

em vigor em 1o. de Janeiro de 1961. Mais uma vez, estava relacionada

principalmente com o calendário e foi incorporado no Missal

publicado em 1962. A única mudança feita no Ordinário da Missa foi a

abolição do Confiteor antes da Comunhão dos fiéis. Em nenhuma das

reformas citadas foi feita qualquer mudança significativa no

Ordinário da Missa.

Papa São Pio X Papa Pio XII Papa Beato João XXIII

Desenvolvimento da Missa Romana

11

11 TM, p. 208.

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