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domingo, 14 de agosto de 2011

A nuvem do não-saber

Notas

Contemplação e discrição segundo o autor

d’A nuvem do não-saber*

Introdução

A nuvem do não-saber é um tratado sobre contemplação que terá sido

escrito pouco depois de 13901 Ao seu autor (um anónimo inglês que escrevia em

vernáculo) são atribuídas mais seis pequenas obras, a saber: O livro dos conselhos

particulares, Epístola sobre a oração, Epístola sobre a discrição, Teologia Mística

(uma tradução do De Mystica Theologia, de Pseudo-Dionísio Areopagita), Benjamim

(uma tradução e adaptação do Benjamim Menor, de Ricardo de São Vítor) e O

discernimento dos espíritos (uma amálgama de dois sermões de São Bernardo2, com

vários acrescentos originais)3

A tendência da crítica actual vai cada vez mais no sentido de aceitar

pacificamente que tanto A nuvem do não-saber como os outros títulos citados se

devem realmente a um só e o mesmo autor. Nesta conferência, também adoptarei essa

posição, e procurarei expor brevemente o pensamento do anónimo inglês sobre as

relações entre a contemplação e a discrição, recorrendo à totalidade dos escritos que

lhe são atribuídos Dividirei a minha exposição em três partes: a primeira tratará do

que se deve entender por contemplação; a segunda abordará a discrição enquanto via

para se chegar à contemplação; a terceira será dedicada a demonstrar que, em última

análise, a própria virtude da discrição depende da graça da contemplação

Entremos, então, sem mais delongas na primeira destas três questões

1. A contemplação é caridade

Na terminologia do nosso autor, a contemplação é normalmente designada

pela palavra “trabalho” (work), e quem se quiser entregar a essa actividade

1 Publica-se aqui o texto de uma conferência proferida pelo autor no decurso da XXXI Semana de Estudios

Monásticos, que teve lugar em Salamanca de 30 de Agosto a 05 de Setembro de 2007

2 John P H CLARK, The Cloud of Unknowing: An Introduction, Salzburg, 1995, vol 1, 92

3 Bernardo de CLARAVAL, Sermones de diversis, 23-24: PL 183, 600-605

126 Lino Correia Marques Moreira

do espírito terá de permanecer num estado de completa ignorância intelectual e

esforçar-se por não prestar atenção a nenhuma das realidades criadas. Daí que

ele afirme:

“Ao executares pela primeira vez o trabalho de que falo, só encontras

escuridão e como que uma nuvem de desconhecimento [... ] Por conseguinte,

dispõe-te a permanecer na escuridão o mais que puderes, clamando sempre por

Aquele que amas. É que, se alguma vez O houveres de sentir ou ver, na medida

do possível neste mundo, tal só deverá acontecer nesta nuvem e nesta escuridão4”.

E ainda:

“Mas se chegares a esta nuvem do não-saber, para aí ficares a trabalhar

como te digo, que hás-de fazer? Assim como tal nuvem se encontra em cima,

entre ti e o teu Deus, assim deves colocar em baixo uma nuvem de esquecimento,

entre ti e todos os seres criados. [...] Numa palavra, todas as coisas se

devem ocultar sob a nuvem do esquecimento”5.

O contemplativo deve, pois, renunciar a todo o pensamento analítico,

mesmo aquele que tenha a Deus por objecto. Diz o anónimo:

“… Tudo aquilo em que pensas está por cima de ti, no momento de o

pensares, interpondo-se entre ti e o teu Deus, e assim tu estás longe d’Ele na

mesma proporção em que houver na tua mente alguma coisa mais para além

d’Ele.

Sim!, e se tanto for possível afirmar com reverência, direi que para o

trabalho em questão de pouco ou nada adianta chamar ao pensamento a bondade

ou a dignidade de Deus [...] Porque embora seja bom pensar na bondade de Deus,

e amá-Lo e louvá-Lo por essa mesma bondade, é contudo muito melhor pensar

no próprio ser nu de Deus, e amá-Lo e louvá-Lo por Ele mesmo”6.

A expressão “ser nu de Deus” designa a sua mesma essência, na qual

estão compreendidos todos os seus atributos indistintamente. E para sublinhar

ainda mais que a atenção do contemplativo se deve concentrar inteiramente na

essência de Deus, o nosso autor diz a certa altura:

“Entende bem que, no trabalho a que me refiro, não deves considerar

mais as qualidades de Deus do que as tuas próprias. Não há nome, nem sentimento,

nem consideração que concorde mais e melhor com o Eterno, que é

4 Os títulos originais são: The Cloud of Unknowing, The Book of Privy Counselling, The Epistle of

Prayer, The Epistle of Discretion, Hid Divinity, Benjamin Minor, Of Discerning of Spirits (cf. Phyllis

HODGSON, The Cloud of Unknowing and Related Treatises, Salzburg, 1982, xiv-xv). As passagens

extraídas de outros escritos que não A nuvem do não-saber serão traduzidas por mim expressamente

para esta conferência.

5 A nuvem do não-saber, Lisboa, 2006, 34

6 A nuvem, ed. cit., 42

Contemplação e descrição segundo o autor d’A nuvem do não-saber 127

Deus, do que aquilo que se pode obter, contemplar e sentir, na cega e amorosa

consideração desta palavra: ‘é’. Os atributos ‘bom’ ou ‘belo Senhor’, ‘doce’,

‘misericordioso’, ‘justo’, ‘sábio’, ‘omnisciente’, ‘poderoso’, ‘omnipotente’ – e

ainda: ‘Conhecimento’ e ‘Sabedoria’, ‘Força’ e ‘Poder’, ‘Amor’ e ‘Caridade’

(ou qualquer outro termo que possas dizer acerca de Deus) – estão inteiramente

ocultos e guardados nesta curta palavra: ‘é’. De facto, para Deus, ser equivale

a possuir todas estas perfeições. Se utilizares cem mil expressões de ternura,

como: – ‘bom’, ‘belo’ e outras palavras semelhantes –, não te afastará desta

palavra: ‘é’. Se as disseres todas até ao fim, não lhe acrescentarás nada. E se

não disseres nenhuma, não lhe tirarás nada. Por isso, procura manter-te cego na

contemplação amorosa do ser de Deus e na consideração nua do teu próprio ser,

e renuncia a utilizar as tuas faculdades com o objectivo de esquadrinhar algum

atributo de Deus ou alguma qualidade do teu ser”7.

De resto, a concentração na essência de Deus deveria ser tão radical que

levasse o contemplativo a perder a consciência do seu próprio “ser nu”, da sua

própria essência individual.8 Por isso, o anónimo diz ainda:

“Tem por certo o seguinte: eu pedi-te que esquecesses todas as coisas,

menos o obscuro sentimento do teu ser nu; mas o que eu pretendia desde o início

era que esquecesses o sentimento do teu próprio ser em favor do sentimento

do ser de Deus. Por isso é que demonstrei, logo à partida, que Deus é o ser

do teu ser. Pareceu-me, no entanto, que ainda não serias capaz de te elevar ao

sentimento espiritual do ser de Deus, devido à imperfeição das tuas impressões

espirituais. Portanto, para que pudesses chegar aí de forma gradual, eu comecei

por te sugerir que tratasses de ‘rilhar’ o sentimento cego e nu do teu próprio

ser. E devias fazê-lo até que, pela perseverança espiritual nesse trabalho secreto,

te tornasses capaz de um elevado sentimento de Deus. De facto, nesta prática,

hás-de ter sempre a intenção e o desejo de sentir Deus. Se, pois, no início, eu te

pedi que revestisses e envolvesses o sentimento do teu Deus no sentimento de

ti mesmo, foi por causa da tua falta de experiência e da tua rudeza de espírito.

Mais tarde, porém, quando a perseverança te houver feito progredir na pureza de

espírito, hás-de desnudar-te, despojar-te e despir-te por completo do sentimento

de ti mesmo, para que, pela graça, te possas revestir do sentimento de Deus”9.

Ao fixar-se apenas na essência de Deus, o contemplativo debate-se com

um vazio intelectual. Todavia, – como diz o nosso místico – “quando a inteligência

fracassa é que tem êxito, porque aquilo em que ela falha nada mais é

7 A nuvem, ed. cit., 43

8 O livro dos conselhos particulares (cf. Phyllis HODGSON, The Cloud, ed. cit., 8081)

9 A nuvem, ed. cit., 60, 120122

128 Lino Correia Marques Moreira

do que Deus somente. Foi por isso que São Dionísio afirmou: ‘O conhecimento

mais divino de Deus é o que se alcança por meio da ignorância’”10.

Quando o entendimento permanece no vazio, a razão partilha da sua

sorte e já não consegue sobreviver. Esta realidade vem expressa de uma forma

particularmente engenhosa no Benjamim, que é uma leitura alegórica da história

de Jacob e da sua família. Nesse tratado, Raquel representa a razão, e o seu

filho primogénito, José, a discrição, enquanto o seu filho mais novo, Benjamim,

simboliza a contemplação. Ora, o que tragicamente sucede é que Raquel morre

quando dá à luz Benjamim, e isso significa que a razão também está destinada

a sucumbir, no preciso momento em que a contemplação nasce na alma11.

Do ponto de vista da razão e da inteligência, a contemplação nada mais

é do que um olhar cego, mas do ponto de vista da vontade ela pode definir-se

como um impulso de amor, que é perfeita adesão à vontade de Deus12:

“Por conseguinte – diz o nosso místico –, presta atenção ao trabalho de

que falo e ao seu modo de actuar maravilhoso no interior da alma. De facto, concebido

correctamente, ele não passa de um impulso súbito e como que imprevisto,

que salta de repente para Deus, como uma centelha do carvão. E é maravilhoso

observar a quantidade de impulsos que se podem operar numa só hora, na alma

que se dispõe para tal trabalho. Numa única moção destas poderá esquecer todas

as coisas criadas, súbita e perfeitamente. Mas depressa, depois de cada impulso,

por causa da corrupção da carne, recai novamente em algum pensamento ou na

lembrança de qualquer acção feita ou por fazer. Que importa, no entanto? Logo

de novo se ergue, tão subitamente como antes”13.

Os impulsos de que se fala nesta passagem são suscitados por Deus,

pois só Ele é capaz de mover directamente a vontade humana14. E este dado permite

deduzir orientações precisas acerca do tipo de esforço que o contemplativo

deve fazer na oração:

“Mas em que consiste esse tal esforço? – pergunta o nosso místico –.

Certamente que nada tem que ver com os devotos impulsos de amor que continuamente

se produzem na vontade, não por iniciativa da própria pessoa, mas

pela acção de Deus todo-poderoso. Deus está sempre pronto a realizar essa obra

na alma que se dispõe para isso e vem fazendo, desde longo tempo, tudo o que

está ao seu alcance para se tornar apta. Mas em que consiste o referido esforço?

10 O livro dos conselhos particulares (cf. Phyllis HODGSON, The Cloud, ed. cit., 8889)

11 A nuvem, ed. cit., 178. Aqui o anónimo cita Pseudo-Dionísio AREOPAGITA, De divinis nominibus,

7,3: PG 3, 872.

12 Benjamim (cf. Phyllis HODGSON, The Cloud, ed. cit., 144)

13 A nuvem, ed. cit., 136

14 A nuvem, ed. cit., 39

Contemplação e descrição segundo o autor d’A nuvem do não-saber 129

Sem dúvida que todo ele se resume em calcar aos pés a memória de todas as

criaturas de Deus, mantendo-as sob a nuvem do esquecimento de que já falei.

Nisto reside todo o esforço, pois esta é a parte que o ser humano deve executar,

com o auxílio da graça. Quanto à outra parte – ou seja, os impulsos de amor

–, essa pertence a Deus somente. Por isso, prossegue com a tua parte, e eu te

asseguro que Deus não faltará com a d’Ele”15.

Todavia, a contemplação nem sempre exige esforço, e pode muito bem

culminar na experiência da união passiva, conforme é dito logo a seguir:

“... Quando tiveres devoção, tornar-se-á repousante e facílimo o que

dantes era muito duro, e executá-lo-ás com pouco esforço ou até sem esforço

nenhum. É que por vezes Deus chegará a fazer todo o trabalho sozinho. Mas

isso não acontecerá sempre, nem tão-pouco por longo tempo: só quando Lhe

aprouver e da forma que Lhe agradar. E nessa altura sentirás alegria em deixá-

Lo agir por sua conta!

Às vezes, nessas ocasiões, pode acontecer que Deus envie um raio de

luz espiritual, que trespasse a nuvem do não-saber, interposta entre ti e Ele:

assim te mostrará alguns dos seus segredos, sobre os quais o homem não tem

permissão nem capacidade para falar. Então sentirás o teu afecto inflamado no

fogo do seu amor muito mais intensamente do que eu posso ou quero dizer

neste momento”16

Podemos concluir, então, que, na óptica do nosso autor, a contemplação

é perfeito esquecimento de si e perfeita caridade. Com efeito, ao chegar aos mais

altos cumes da contemplação, o orante já nem sequer está consciente da sua própria

essência individual, e a sua vontade encontra-se inteiramente livre, para que

Deus suscite nela uma cadeia ininterrupta de impulsos de amor. Tais impulsos,

por seu lado, constituem a mais perfeita forma de caridade, pois em cada um

deles o contemplativo nada mais faz do que amar a Deus por Ele mesmo, sobre

todas as criaturas, e amar o próximo como a si mesmo, por causa de Deus17.

2. A discrição é a via para se chegar à contemplação

Tendo concluído a minha resenha sobre a contemplação, passo agora à

doutrina sobre a discrição. Também aqui terei de me contentar com uma apresentação

muito sumária.

15 A nuvem, ed. cit., 103

16 A nuvem, ed. cit., 88

17 A nuvem, ed. cit., 89

130 Lino Correia Marques Moreira

Em sentido espiritual, a discrição é, essencialmente, o juízo da razão

a respeito do bem e do mal. E este conceito inspirou o nosso autor a fazer a

seguinte observação, bastante pitoresca:

“… O septo que o ser humano tem no nariz, para separar uma narina da

outra, indica que todo o homem deve possuir discrição espiritual, para distinguir

o bem do mal, o mau do pior e o bom do melhor, antes de emitir qualquer juízo

definitivo sobre alguma coisa que viu ou ouviu à sua volta”18.

Uma tal capacidade de discernir o bem e o mal, nas suas diferentes

gradações, é difícil de classificar. Efectivamente, São Bernardo afirma que “a

discrição não é tanto uma virtude, mas a moderadora e o auriga das virtudes, a

ordenadora dos afectos e a mestra dos costumes”19. E dentro da mesma ordem

de ideias, o anónimo inglês dá a entender que a discrição é uma virtude especial,

pois é ela que simultaneamente gera e regula todas as demais virtudes20.

Vejamos o que isto quer dizer exactamente. Só seremos capazes de compreender

o pensamento do nosso autor, neste ponto, se tivermos em conta que ele

define a virtude como “um afecto ordenado e medido, cujo alvo nítido é Deus

por Ele mesmo”21. Assim, existem na nossa alma vários afectos – por exemplo,

o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, o temor e a esperança. A discrição não é

um afecto semelhante a estes. Todavia, é graças a ela que tais afectos se tornam

ordenados e medidos, isto é, se dirigem para o seu objecto próprio e não são

demais nem de menos22. Portanto, “a discrição é – como diz Cassiano – a geradora,

a guarda e a moderadora de todas as virtudes”23, pois é ela que transforma

os afectos em virtudes e os faz permanecer como tais.

Para se alcançar a discrição, duas coisas são necessárias: por um lado,

praticar durante muito tempo cada uma das virtudes propriamente ditas24 e, por

outro, submeter-se à direcção espiritual.

“Assim – escreve o nosso autor –, depois de muitas quedas e falhas,

seguidas de vergonha, aprende-se por experiência que não há nada melhor do

que ser guiado pelo conselho de outrem, pois esse é o modo mais rápido de se

alcançar a discrição. Aquele que faz tudo com conselho nunca se há-de arrepender.

De facto, um homem prudente vale mais do que um homem forte; sim,

18 A nuvem, ed. cit., 8384

19 A nuvem, ed. cit., 147

20 Bernardo de CLARAVAL, Sermones in Cantica, 49, 5: PL 183, 1018

21 Benjamim (cf. Phyllis HODGSON, The Cloud, ed. cit., 141)

22 A nuvem, ed. cit., 58

23 Benjamim (cf. Phyllis HODGSON, The Cloud, ed. cit., 141)

24 João CASSIANO, Collatio secunda, 4: PL 49, 528

Contemplação e descrição segundo o autor d’A nuvem do não-saber 131

e a perícia é melhor do que a força bruta. E um homem prudente há-de falar

de vitórias”25.

Na verdade, a discrição é uma espécie de espada afiada que serve para

abater os maus impulsos26. E para que ela possa exercer essa função, é necessário,

antes de mais, saber discernir a origem dos pensamentos. É este o tema d’O

discernimento dos espíritos, um pequeno tratado que ensina a identificar as diferentes

“vozes” que falam no íntimo da alma, de um modo que se poderia resumir

mais ou menos nos seguintes termos: se penso em satisfazer os apetites da carne,

fala o espírito da carne; se penso em fazer alguma coisa que me engrandeça aos

meus próprios olhos ou aos olhos dos outros, fala o espírito do mundo; se penso

em coisas amargas, que me tiram a paz e a tranquilidade, fala o espírito do mal;

se penso em fazer o bem, fala o espírito de Deus (directamente, ou através dos

seus anjos tanto da Terra como do Céu); se consinto em algum pensamento, daí

em diante passa a falar o meu próprio espírito, que assume o ofício do espírito

a que dei o meu consentimento. Todavia, se, depois de ter sido absolvido das

minhas faltas em confissão sacramental, voltar a ser tentado, já não será o meu

espírito que fala, mas antes um dos três inimigos da alma novamente, ou seja:

o espírito da carne, o espírito do mundo ou o espírito do mal.

O espírito do mundo é mais perigoso e difícil de vencer que o espírito

da carne, e o espírito do mal é mais perigoso e difícil de vencer que o espírito

do mundo. Além disso, o espírito do mal – que é o próprio Demónio – transforma-

se às vezes em anjo de luz, e, sob a capa de virtude, nada mais faz do

que semear amargura e discórdia, dissensões e calúnias. Isto acontece quando

alguns se deixam atrair por uma ascese rigorosa e, julgando-se melhores do que

os outros, começam a censurar abertamente as faltas do próximo.

À medida que a alma vai triunfando dos maus impulsos, que têm origem

nos pensamentos, o fruto que se obtém é o auto-conhecimento. Assim sendo,

pode-se dizer que a discrição é a via para chegar à contemplação, uma vez que

é pelo conhecimento de si mesmo que o ser humano chega ao conhecimento de

Deus. De facto, como afirma o nosso místico:

“… Por este mesmo José [ou seja, a discrição], um homem não só aprende

a evitar os embustes dos inimigos, mas também é muitas vezes conduzido ao

perfeito conhecimento de si mesmo. E quanto mais o homem se conhece a si

mesmo, tanto mais progride no conhecimento de Deus, de quem é a imagem e

semelhança. Por isso é que, depois de José, nasce Benjamim; pois do mesmo

modo que José representa a discrição, também nós entendemos que Benjamim

simboliza a contemplação. E ambos nasceram de uma só mãe, e foram gerados

25 Benjamim (cf. Phyllis HODGSON, The Cloud, ed. cit., 141142)

26 Benjamim (cf. Phyllis HODGSON, The Cloud, ed. cit., 142)

132 Lino Correia Marques Moreira

por um único pai27. De facto, pela graça de Deus que ilumina a nossa razão, nós

chegamos ao perfeito conhecimento de nós próprios e de Deus – tanto quanto

isso é possível nesta vida”28.

3. A discrição depende da contemplação

Uma vez que a discrição ordena e modera os afectos da alma, para que

estes se transformem em virtudes, devemos concluir que ela também determina

a exacta medida das acções humanas, para que estas não registem nenhuma

falha, nem por excesso nem por defeito. Mas isto confronta-nos com uma nova

questão, que é a seguinte: a própria contemplação, enquanto exercício da caridade

perfeita e actividade puramente espiritual, também deve ser regulada pela

virtude da discrição? O nosso autor dá uma resposta negativa:

“... Se me perguntas – diz ele – que discrição hás-de guardar na contemplação,

a resposta que te dou é a seguinte: – ‘Nenhuma! ‘ – Em todas as

outras acções deves usar de discrição, e.g. no comer e no beber, no dormir, em

proteger o teu corpo dos extremos do calor ou do frio, nas orações ou leituras,

nas conversas com o teu semelhante. Em todas estas coisas deves guardar a discrição,

para evitar tanto o que é demais como o que é de menos. Mas no trabalho

a que me refiro não te deves ater a nenhuma medida, pois gostaria que nunca o

interrompesses em nenhum momento da tua vida”29.

Podemos encontrar um fundamento para esta posição na seguinte passagem:

“[a contemplação] é o trabalho em que o homem teria prosseguido, se

nunca tivesse pecado: para essa actividade é que o ser humano foi criado, e para

ele todas as coisas foram feitas com vista a ajudá-lo a progredir nessa mesma

actividade, pela qual será novamente restaurado”30.

Aqui se sugere que a contemplação é uma actividade interior em que

o homem encontra o seu bem e a sua justificação. Assim, a contemplação é um

fim que deve ser procurado por si mesmo, e a actividade humana exterior deve

ser um meio orientado para esse fim31. Ora, de tudo aquilo que é um fim, nós

tentamos alcançar o máximo possível, e é apenas em relação aos meios que nos

atemos a determinada medida. Por conseguinte, o ser humano deveria praticar

os seus actos exteriores – e.g., comer ou beber, dormir, defender-se do calor ou

27 A nuvem, ed. cit., 99100

28 Na alegoria do Benjamim, Jacob representa Deus.

29 Benjamim (cf. Phyllis HODGSON, The Cloud, ed. cit., 142143)

30 A nuvem, ed. cit., 116

31 A nuvem, ed. cit., 37

Contemplação e descrição segundo o autor d’A nuvem do não-saber 133

do frio, rezar ou ler, falar com o seu semelhante... – exactamente na medida

em que eles lhe permitissem realizar o maior número possível daqueles actos

da vontade que constituem a contemplação. Aliás, em vez do verbo “realizar”,

melhor seria empregar aqui a locução verbal “consentir em”, pois tais actos da

vontade não são outra coisa senão os impulsos de amor suscitados por Deus, de

que já falámos anteriormente.

Contudo, se existe uma medida ideal para os actos exteriores, como é

que ela se poderá encontrar? A este respeito, o nosso autor escreve:

“Aplica-te ao trabalho de que falo, sem pausa nem discrição, e saberás

começar e acabar tudo o mais com grande discrição. De facto, se uma alma perseverar

na contemplação dia e noite, sem discrição, creio que nunca se poderá

enganar nos seus actos exteriores; mas se não perseverar assim, julgo que sempre

se enganará.

Por conseguinte, se eu prestasse uma atenção vigilante e aturada à actividade

contemplativa da minha alma, deixaria de me preocupar com o comer e

o beber, o dormir e o falar, e todos os demais actos exteriores. Efectivamente,

estou em crer que o que me faria chegar à discrição em tais actos externos seria

a indiferença em relação a eles, e não a atenção cuidada que lhes dispensasse,

como se quisesse impor-lhes limites”32.

O nosso autor dá este mesmo género de conselhos a um discípulo que se

sente atraído por uma vida de rigorosa ascese, e se pergunta como é que poderá

discernir, no concreto das diferentes situações, se o que mais lhe convém é falar

ou guardar silêncio, jejuar ou comer, estar só ou estar com os outros. A primeira

coisa que o nosso místico lhe recomenda é que, nessas matérias, não siga as

inclinações da inteligência nem da vontade. Portanto, numa primeira etapa, o

discípulo deverá submeter-se humildemente à oração e à direcção espiritual de

mestres experimentados. Depois, quando tiver alcançado o conhecimento de si

mesmo e das suas aspirações interiores, já poderá dispensar o auxílio de outrem.

Nessa altura, deverá entregar-se o mais possível à contemplação, pois isso é que

lhe permitirá orientar-se no seu comportamento exterior, de modo a não cometer

erros. Assim, a sua única ocupação há-de ser amar a Deus, que Se encontra

misteriosamente oculto no meio de actividades opostas:

32 A actividade humana exterior deve ser orientada de tal modo que não se torne um obstáculo à contemplação;

mas, em rigor, aquela nunca pode ser um meio para se alcançar esta, pois, como afirma o

anónimo: “Todos os meios bons dependem da contemplação, e a contemplação não depende de nenhum

meio. Além disso, também não existe nenhum meio que possa conduzir à contemplação” (A nuvem,

ed. cit., 103).

134 Lino Correia Marques Moreira

“Escolhe-O a Ele – diz o autor inglês –: então, estarás em silêncio enquanto

falas, e a falar enquanto guardas silêncio; estarás a jejuar enquanto comes, e a

comer enquanto jejuas; e assim sucessivamente a respeito de tudo o mais”33.

Nesta fase mais avançada, o discípulo deixa-se guiar exclusivamente

pela acção da graça, e pelo impulso de amor que lhe advém da memoria Dei ou

recordação de Deus (mind of God):

“Então – afirma o nosso autor –, esse mesmo impulso de amor que te

é dado sentir será perfeitamente capaz de te dizer quando deves falar e quando

deves guardar silêncio. Ele te guiará sabiamente, em toda a tua vida, sem sombra

de erro. E ele te ensinará misticamente como hás-de começar e acabar toda

a actividade natural, com perfeita discrição. De facto, por virtude da graça, um

tal impulso de amor pode tornar-se um hábito e uma prática contínua. E nesse

caso, se tiveres necessidade de falar, de te alimentar como os demais, de permanecer

na companhia de outros, ou de fazer qualquer outra coisa que pertença aos

usos e costumes dos cristãos, ele com suavidade te moverá a falar, ou a realizar

qualquer outra acção natural, seja ela qual for. E se não fores dócil, ele te ferirá

o coração como um punhal, e não te deixará em paz até que lhe obedeças. Por

outro lado, quando estiveres a falar, ou ocupado em qualquer outra acção natural,

se for útil e necessário que guardes silêncio e te entregues a alguma prática

característica de uma santidade singular – como, por exemplo, jejuar em vez

de comer ou estar só em vez de permanecer na companhia de outros –, ele te

impelirá a fazê-lo”34.

Em suma, segundo o autor d’A nuvem do não-saber, quem não for

agraciado com o dom da contemplação sempre se há-de enganar de alguma

forma, não só nos seus juízos, mas também nos seus actos exteriores. Portanto,

em última análise, a própria virtude da discrição depende da graça da contemplação.

Aliás, o nosso autor chega mesmo a afirmar que a contemplação “não só

destrói o fundamento e a raiz do pecado, tanto quanto é possível na Terra, mas

também gera as virtudes”35. Isto quer dizer que, nas almas perfeitas, a discrição

e a contemplação se encontram tão intimamente unidas que quase se confundem

uma com a outra.

Conclusão

Num mundo tão dilacerado e confuso como o nosso, as pessoas têm

cada vez mais dificuldade em encontrar critérios de orientação para a sua vida.

33 A nuvem, ed. cit., 118

34 Epístola sobre a discrição (cf. Phyllis HODGSON, The Cloud, ed. cit., 114115)

35 Epístola sobre a discrição (cf. Phyllis HODGSON, The Cloud, ed. cit., 117)

Contemplação e descrição segundo o autor d’A nuvem do não-saber 135

Mas nós, monges e monjas do século XXI, podemos ajudá-las. De facto, nós

somos herdeiros de uma longa e riquíssima tradição espiritual, que nos revela

os meios e os modos de alcançar a virtude da discrição. Portanto, nós temos a

possibilidade – e também a obrigação moral – de mostrar aos nossos irmãos e

irmãs que vivem no mundo como é que se pode chegar a discernir o bem e o

mal com segurança, e como é que se pode encontrar a justa medida em todas

as coisas. Todavia, convém não esquecer um pormenor muito importante: segundo

o autor d’A nuvem do não-saber, ninguém pode alcançar a discrição perfeita, se

Deus não lhe conceder o dom da contemplação. Por conseguinte, é essencial que,

fiéis ao ideal que São Bento nos propõe, busquemos a Deus de todo o coração36.

Só assim é que poderemos ser sal da Terra e luz do Mundo37, e só assim é que

chegaremos a brilhar como luzeiros no meio desta geração38. Na verdade, nós

nunca poderemos aspirar a ser autênticos profetas, se não nos esforçarmos por

ser, antes de mais e acima de tudo, verdadeiros místicos!

Lino Correia Marques Moreira, O.S.B.

36 A nuvem, ed. cit., 58

37 Regula Benedicti, 58,7

38 Mt 5,1314

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