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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Hierarquia Celeste de São Dinis, o Areopagita

Hierarquia

Celeste

de São Dinis, o Areopagita

Introdução. Capítulo I. Capítulo II. Capítulo III. Capítulo IV. Capítulo V. Capítulo

VI. Capítulo VII. Capítulo VIII. Capítulo IX. Capítulo X. Capítulo XI. Capítulo XII.

Capítulo XIII. Capítulo XIV. Duplo papel das essências celestes, Capítulo XV.

Introdução.

O presente trabalho consiste na apresentação da obra de referência obrigatória no estudo

da Angeologia, "Hierarquia Celeste" de São Dinis, o Areopagita.

A apresentação tem por base o texto publicado nas "Oeuvres Complètes du Pseudo-Denys

l’Areopagite" traduzido para o francês, anotado e comentado por Maurice de Gandillac

numa edição apresentada em 1980 pela Editora Aubier na sua coleção "Bibliothèque

Philosophique". É importante advertir desde já que o texto aqui exposto não corresponde a

uma tradução rigorosa e integral da obra para o português. Pretende-se somente

proporcionar uma abordagem relativamente facilitada a um texto que nada tem de fácil,

nem no seu estilo, nem no seu conteúdo.

São Dinis o Areopagita foi discípulo de São Paulo, o qual ministrou a ele os primeiros

conhecimentos dos mistérios divinos. Encontramos a respeito dele uma referência nos Atos

dos Apóstolos: "Assim saiu Paulo do meio deles. Todavia algumas pessoas, agregando-se

a ele, abraçaram a fé; entre as quais foi Dionísio, o areopagita..." (At 17:33-34).

Ele teria sido o primeiro ateniense convertido por São Paulo e foi o primeiro bispo de

Atenas. A sua obra teve grande impacto em toda a igreja sobretudo após a divulgação que

se iniciou em meados do século V. Em sua teologia transparece uma forte formação

filosófica imbuída do pensamento neo-platônico.

Os seus textos mais conhecidos no nosso tempo são: "Hierarquia Celeste", "Hierarquia

Eclesiástica", "Os Nomes de Deus", "Teologia Mística" e 10 cartas.

As críticas históricas, tanto as que procuram examinar as evidências externas como as que

se dedicam à investigação do próprio texto, afirmam que as obras não pertencem a São

Dinis, mas a um autor desconhecido do século IV ou V. Esse hipotético autor é designado

por uns como pseudo-Dinis o Areopagita e por outros como Dinis o pseudo-Areopagita.

Alguns afirmam que somente no ano 533 num concílio realizado em Constantinopla os

textos de São Dinis o chamado "Corpus dionysiacum" fazem a sua aparição na história.

É claro que os críticos para fazerem valer as suas teses têm que contradizer São Gregório de

Nazianzo, São Jerônimo, Orígenes, São Máximo o Confessor, Liberatus de Cartago, além

de muitos outros autores.

Sabe-se que existiram doutrinas e costumes elaborados mantidos secretamente desde os

tempos de São Paulo, visto que São Basílio o Grande e Tertuliano referiram-se a alguns

deles. É possível ainda admitir a existência de contraposições posteriores. Mas a conjunção

desses dois fatores era pouco grata aos defensores de ambas as teses.

De qualquer forma, além dessa polêmica, os textos afirmam-se de modo especial em

virtude do seu valor interno. Os cristãos ortodoxos foram sempre aqueles que os invocaram

em virtude da sua retidão dogmática, solidez filosófica e profundidade espiritual. Entre eles

destacam-se São Máximo o Confessor, São João Damasceno, São Teodoro o Estudita, São

Symeão o Novo Teólogo e São Gregório de Palamas. Entre outros aprofundamentos

teológicos podemos citar a teologia apofática como aquela que tem em São Dinis o seu

deliberador.

Os seus textos se difundiram largamente tanto no ocidente como no oriente cristão. São

Máximo o Confessor (580-662) fixa-nos definitivamente no seio da tradição oriental. Até

São Gregório de Palamas e mesmo depois dele São Dinis é considerado como o verdadeiro

inspirador de toda a mística. No ocidente foi necessário esperar mais dois séculos para que

a importância do "Corpus dionysiacum" se impusesse através de João Scot que demonstrou

entusiasmo por ele.

A "Hierarquia Celeste" é constituída de 15 capítulos ao longo dos quais São Dinis nos fala

da iluminação divina, da relação entre os símbolos, das alegorias e dos mistérios divinos a

eles associados, da função hierárquica, do significado dos nomes dos anjos, da composição

das três grandes ordens angélicas e das imagens utilizadas para a representação dos seres

angélicos. Porém, para conhecermos a obra nada melhor do que mergulharmos no próprio

texto.

Pe. Sérgio

Capítulo I.

A Luz irradia do Pai. A Luz saí d’Ele para nos iluminar com os Seus excelentes dons.

Apenas Ela nos restabelece e nos eleva. É Ela que nos converte à unidade do Pai segundo

as Sagradas Escrituras: "Porque Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas..." (Rom 11:

36).

"Toda a dádiva excelente e todo o dom perfeito vêm do alto e descende do Pai das Luzes..."

(Tg 1: 17).

É por isso que invocando Jesus, Luz do Pai, através do Qual temos acesso ao Pai, princípio

de toda a Luz, elevemos nossos olhos tanto quanto pudermos até as iluminações

provenientes das Sagradas Escrituras e iniciemos na medida das nossas forças, no

conhecimento da hierarquia das inteligências celestes tal como nos revelam as próprias

Escrituras: "(O Verbo) era a Luz verdadeira, que ilumina todo o homem que vem a este

mundo" (Jo 1:9).

Os santos que primitivamente regularam os nossos ritos religiosos, organizaram a nossa

hierarquia sagrada segundo o modelo das hierarquias celestes. Essas hierarquias encontramse

revestidas na sua descrição de uma variedade de figuras e formas materiais para que

elevemos a nossa compreensão de forma analógica desses símbolos, às realidades

espirituais, das quais esses símbolos são apenas imagens.

De fato, é para nós impossível a contemplação das hierarquias celestes sem utilizarmos

meios materiais adequados a nossa natureza para nos guiarmos nessa contemplação. A

beleza manifesta-se na harmonia das figuras, os aromas agradáveis representam a

iluminação intelectual, a luz material representa a efusão de luz imaterial e a recepção da

Santa Eucaristia manifesta a participação em Jesus.

A nossa própria hierarquia imita a hierarquia celeste o tanto quanto possível enquanto

instituição humana, a fim de que ela entre em colegialidade com o sacerdócio angélico.

Capítulo II.

É necessário que elevemos a nossa compreensão a partir das alegorias com as quais as

inteligências celestes nos são representadas nas Sagradas Escrituras, a fim de não

deduzirmos como pensaria qualquer pessoa desprevenida, que as inteligências celestes têm

vários pés e vários rostos, que elas se assemelham ao gado como os bois, que apresentam o

aspecto selvagem do leão, o bico curvo da águia, ou ainda, que possuem asas e penas como

as aves. Não devemos imaginá-las como rodas inflamadas girando no céu, como guerreiros

a cavalos armados de lanças, nem sob outras formas que as Sagradas Escrituras nos

transmitem através de uma variedade de símbolos reveladores.

Se os teólogos aplicaram essa imaginação poética às inteligências celestes foi porque

tiveram em conta o caráter humano da nossa inteligência, a fim de nos proporcionarem um

meio de elevação espiritual adaptado a nossa natureza.

Se aceitarmos essas alegorias como figurações de realidades que não podemos conhecer

nem contemplar, julgaremos que as imagens usadas pelas Sagradas Escrituras para

representar as inteligências celestes são inadequadas ao seu objetivo, que os nomes

atribuídos aos anjos não correspondem senão muito parcialmente às realidades que

sugerem. Contrapomos, que para materializar os anjos os teólogos deveriam ter utilizado

imagens tanto quanto possível adequadas ao seu objeto, utilizando substâncias que

consideramos como sendo as mais nobres, ao invés de ligar à essas realidades uma

multiplicidade de figuras retiradas do que poderia ser considerado como pertencendo às

mais baixas realidades terrestres. Assim, a alegoria seria mais rica de ensinamentos

espirituais e não nos arriscaríamos a ofender a dignidade das potências divinas. Com efeito,

não seríamos levados a imaginar que o céu está cheio de rebanhos de leões, manadas de

cavalos, bandos de pássaros e de outros animais com essas alegorias inadequadas?

Mas se procurarmos a verdade estará claro para nós, que os autores Sagrados tiveram o

cuidado providencial de simultaneamente dar expressão contida a tudo isso que os nossos

contraditores consideram um ultraje às potências divinas e nos pouparão dos riscos de uma

ligação excessiva a tudo que tais símbolos podem ter de baixo e vulgar.

Se é necessário dar figura ao desfigurado, dar forma ao que está sem forma, não é somente

porque somos incapazes de contemplar diretamente essas realidades, mas porque convém

às passagens místicas das Sagradas Escrituras ocultar sob a forma de enigmas, a santa e

misteriosa unidade dessas inteligências que não pertencem a esse mundo. Porque nem todos

são santos e como dizem as Sagradas Escrituras: "Mas nem em todos há a ciência..." (1Co

8:7).

Quanto ao caráter inadequado das imagens escriturísticas, é necessário responder a essa

objeção afirmando que a revelação do sagrado se faz de dois modos: o primeiro modo

procede por imagens adequadas ao seu objeto; o segundo modo pelo contrário passa pela

inadequação das imagens que modela levada até à extrema inacreditibilidade, até o absurdo.

É por isso que as Sagradas Escrituras se referem a Trindade sobreessencial com os nomes

de Razão, Inteligência e Essência, manifestando assim o que convém atribuir a Deus de

racionalidade e sabedoria: designando-A como Substância que subsiste por si própria, como

causa verdadeira da existência de todos os seres, ou ainda, como Luz e Vida.

Essas designações são seguramente mais santas e parecem de algum modo superiores às

imagens materiais. Mas na realidade elas são menos deficientes que as outras se se

pretender significar toda a Verdade da própria Divindade que está para lá de toda a essência

e de toda a vida e que não se caracteriza por nenhuma luz, da qual nenhuma razão e

nenhuma inteligência pode dar uma imagem autêntica.

É por isso que também acontece de celebrar-se nas mesmas Escrituras a Trindade,

representando-A de um modo que não é desse mundo, por imagens que não se Lhe

assemelham de modo algum. Elas descrevem-Na como invisível, ilimitada e

incompreensível, não procurando significar o que Ela é, mas o que Ela não é.

A meu ver, essa segunda maneira de celebrar a Santíssima Trindade Lhes convém melhor,

porque seguindo a tradição sagrada nós temos razão em dizer que Ela não é nada do que

são os outros seres, e nós ignoramos essa indefinível Sobreessência que não se pode pensar

nem dizer.

Assim, as negações são verdadeiras no que concerne aos mistérios divinos, enquanto que

toda afirmação pela positiva permanece inadequada. Convém mais ao caráter secreto

d’Aquele que permanece em si próprio incomum, não revelar o invisível a não ser através

de imagens sem semelhança com o seu objeto.

(São Dinis nos introduz em dois métodos teológicos: o afirmativo ou Catafático e o

negativo ou Apofático. O primeiro, que São Dinis considera menos adequado, refere-se a

Deus através de afirmações como: Deus é Amor, Verdade, Mestre, Senhor, Pai, Todo-

Poderoso, Santo, Eterno, etc. O método Apofático proposto por São Dinis procede pela

negativa, como também nos fala São João Crisóstomo, o reconhecimento da

incompreensibilidade de Deus é a única maneira de compreendê-Lo. Esse método refere-se

a Deus como sendo Inacessível, Inexprimível, Invisível, Incompreensível, Imutável, etc.).

Portanto, longe de humilhar as legiões celestes as alegorias honram-nas, porque mostram

até que ponto essas legiões que não pertencem a este mundo excluem toda a materialidade.

(Temos que entender esse termo "materialidade" como empregado para designar uma

materialidade terrena. De fato, só Deus é espírito puro e todas as criaturas mesmo as

angélicas são dotadas de alguma materialidade).

A utilização de figuras sagradas de natureza mais elevada nos induziria mais facilmente a

erros, porque elas nos levariam a imaginar as essências celestes como figuras de ouro, ou

como seres luminosos lançando raios, ou como seres de bela estatura revestidos de

suntuosas vestes repletas de esplendor, ou sob todas as outras formas do mesmo gênero de

que a teologia fez uso para representar as inteligências celestes: "O que falava comigo tinha

uma cana de ouro de medir, para medir a cidade, as suas portas e o muro" (Apoc 21:15).

"Como estivessem olhando para o céu, quando Ele ia subindo, eis que se apresentaram

junto deles dois personagens vestidos de branco..." (At 1:10). "E, fixando Nele os olhos

todos os que estavam sentados no conselho, viram o Seu rosto como o rosto de um anjo"

(At 6:15). "Passados quarenta anos, apareceu-lhe no deserto do Monte Sinai um anjo na

chama de uma sarça que ardia" (At 7:30). "Porque um anjo do Senhor desceu do Céu, e,

aproximando-se, revolveu a pedra e sentou sobre ela. O seu aspecto era como um

relâmpago. A sua veste branca como a neve" (Mt 28:2-3).

Não importa qual imagem possa servir de ponto de partida para a bela contemplação, o que

importa é que possamos nos apoiar em figurações materiais para aplicar a esses seres que

são inteligíveis e inteligentes as metáforas sem semelhança com o objeto do qual falamos

atrás, na condição de nunca esquecermos a grande diferença existente entre o

comportamento dos seres inteligentes e o comportamento dos seres sensíveis (esses são

privados de razão).

As alegorias sagradas são usadas pelos teólogos não somente para revelarem as ordens

celestes, mas também para manifestarem os mistérios de Deus. Ainda que se refiram a Ele

fazendo apelo às mais belas imagens como: Sol de Justiça; Estrela da Manhã (Apoc 22:16;

Núm 24:17; 2Pdr 1:19), Luz Radiante (Jo 1:5) e apelo a símbolos de nível mediano como:

Fogo que queima sem consumir (Êx 3:2), Água que conduz à plenitude da vida e de

metáforas vulgares quando se fala por exemplo de Ungüento suave; Pedra Angular (Ef

2:20), mesmo assim as Sagradas Escrituras fazem ainda uso de figuras animais quando

atribui a Deus qualidades do leão e da pantera ou quando apresenta-O como um leopardo

ou como um urso que perdeu os seus filhos (Os 13:7).

Finalmente, o apelo à metáfora mais indigna de todas e que parece ser a mais inadequada:

com efeito, não foi sob a forma de um vaso de terra que os admiráveis intérpretes dos

ministérios divinos nos representaram?

Por tudo isso, vemos que nada há de absurdo, quando os teólogos representam igualmente

as essências celestes por imagens inadequadas que não apresentam nenhuma semelhança

com o seu modelo original. Talvez não tivéssemos procurado a interpretação espiritual

minuciosa dessas santas realidades, se não tivéssemos perturbados pelo caráter disforme

das imagens que nas Sagradas Escrituras representam os anjos.

Capítulo III.

Hierarquia é uma santa ordem, um saber e uma ação tão próxima quanto possível da

forma divina elevada à imitação de Deus na medida das iluminações divinas. Na sua

simplicidade, na sua bondade, na sua perfeição fundamental, na perfeição que convém a

Deus, comunica a cada ser segundo o seu mérito uma parte da sua própria luz. Ela o

aperfeiçoa através da iniciação divina, revestido da sua própria forma, de modo harmonioso

e estável àqueles que ela aperfeiçoou.

A finalidade da hierarquia consiste em conferir às criaturas tanto quanto possível a

semelhança divina para uní-las a Deus. Deus é para a hierarquia, com efeito, o mestre de

todo o conhecimento e de toda a ação. Ela não cessa de contemplar a Sua divina bondade e

dos seus seguidores ela faz imagens perfeitas de Deus. Tendo recebido a plenitude do Seu

esplendor elas são capazes, seguindo os preceitos da Trindade, de transmitir essa luz até

mesmo aos seres que lhe são hierarquicamente inferiores.

Assim, quando se fala de hierarquia, se entende por isso uma certa ordenação perfeitamente

santa, imagem do esplendor divino, tendendo tanto quanto possível e sem sacrilégio

assemelhar-se Àquele que é o seu próprio princípio. Para cada um dos membros da

hierarquia a perfeição consiste em imitar a Deus o melhor que puder, tornando-se

"cooperadores" Dele.

"Efetivamente, nós somos cooperadores de Deus..." (1Cor 3:9).

Se, por exemplo, a ordem hierárquica impõe a uns a função de receber a purificação e a

outros a de purificar; a uns a de receber a iluminação e a outros a de iluminar; a uns a de

receber o aperfeiçoamento e a outros a de aperfeiçoar; cada um imitará a Deus segundo o

modo que convém a sua própria função.

Convém, que os purificados se libertem de toda a impureza e de toda a dissemelhança; que

os iluminados recebam a plenitude da luz divina e que elevem a sua inteligência até

atingirem a capacidade de contemplar; que os perfeitos tenham abandonado toda a

imperfeição e tomem parte da perfeição dos iniciados; e que os iluminadores, com

inteligências mais transparentes que as outras, difundam essa luz por todos os lados e por

todos aqueles que forem dignos dela.

Assim, cada escalão da ordem hierárquica na medida de suas forças eleva-se para a

cooperação divina e ao seu redor cada um revela essa cooperação às inteligências que

amam a Deus, cumprindo na virtude e sob a ação da Graça o que a própria Divindade

cumpre graças ao Seu caráter sobreessencial.

Capítulo IV.

Antes de mais nada, queremos afirmar em primeiro lugar que foi por bondade que a

Divindade criou essa ordem hierarquia, porque Lhe pertence esse Bem totalmente

transcendente a chamar todos os seres para entrarem em comunhão com Ela na medida da

capacidade de cada um. É por isso que tudo que existe tem alguma relação com a

Divindade, a Causa Universal, porque sem a participação n’Ela que é a essência e o

princípio de todo o ser, nada existiria.

É, portanto, a esses seres que recebem de forma inicial e múltipla a participação divina e

que revelam ao seu redor de modo original e múltiplo o mistério da Divindade, que é

atribuído de forma louvável e sublime o título de seres angélicos — pois eles receberam em

primeiro lugar a iluminação e é por intermédio deles que nos são transmitidas essas

revelações que ultrapassam a todos nós. Como ensina a teologia, a Lei nos foi transmitida

pelos anjos.

"Para que é então a Lei? Foi acrescentada por causa das transgressões, até que viesse a

descendência, a quem tinha sido feita a promessa, e foi promulgada pelos anjos na mão de

um mediador" (Gál 3:19).

Foram os anjos que guiaram os nossos veneráveis antepassados em direção às realidades

divinas; tanto nos tempos que precederam a Lei, como no tempo da Lei; tanto na prescrição

a eles de regras de conduta desviando-os de uma vida repleta de erros e de pecados, assim

como na revelação da interpretação da santa hierarquia e das visões secretas dos mistérios

que não são deste mundo; como também ainda na revelação das profecias divinas.

"Vós, que recebestes a Lei por ministério dos anjos e não a guardastes" (At 7:53). "Este

viu claramente numa visão, cerca da hora de Noa, que um anjo de Deus se apresentava

diante dele e lhe dizia: Cornélio" (At 10:3).

Se argumentar-se que Deus manifestou-Se sem intermediários a algum santo, que se saiba

que nunca ninguém O viu e nem jamais O verá, porque essa verdade provem claramente

das Sagradas Escrituras e é a própria substância de Deus naquilo que tem de mais secreto.

"Ninguém jamais viu a Deus; o Unigênito, que está no seio do Pai, Ele mesmo é que O deu

a conhecer" (Jo 1:18). "...Que é o Único que possui a imortalidade e que habita numa Luz

inacessível, O qual não foi nem pode ser visto por nenhum homem, ao qual seja dada

honra e império sempiterno. Amém" (1Tim 6:16).

Seguramente, Deus apareceu a certos homens piedosos segundo o modo que convinha a

Sua divindade, revelando-Se por visões adaptadas à medida dos visionários. A santa

teologia tem razão ao chamar visão divina Teofania a essa espιcie de apariηão, na

qual se reflete a semelhança divina segundo o modo que convém à figuração do infigurável,

isto é, elevando espiritualmente os visionários para as realidades divinas. Com efeito,

através dessa visão os visionários recebem a plenitude da iluminação divina e uma certa

iniciação sagrada em relação aos mistérios de Deus. Os nossos ilustres antepassados não

foram iniciados através dessas visões, senão por intermédio das potências celestes.

Há de se cogitar, que a tradição escriturística afirma que os mandamentos da Lei foram

transmitidos diretamente por Deus a Moisés. Certamente! Mas se as Sagradas Escrituras

assim se exprimem é para que não ignoremos que essas prescrições são a própria imagem

da Lei divina e sagrada. A teologia ensina sabiamente que essas prescrições vieram até nós

por intermédio dos anjos, para que a ordem instituída pelo Divino Legislador nos ensine

que é por intermédio de seres hierarquicamente superiores que se elevam espiritualmente

para o Divino aqueles que Lhe são inferiores.

"Porque, se a palavra anunciada pelos anjos ficou firme, e toda a prevaricação e

desobediência recebeu a justa retribuição que merecia..." (Hebr 2:2).

Mesmo ao que concerne ao mistério divino do amor de Jesus pelos homens foram os anjos

que em primeiro lugar receberam a iniciação. E foi por intermédio deles que esse

conhecimento desceu até nós.

Foi assim que o divino Gabriel ensinou ao grande sacerdote Zacarias que o filho que iria ter

contra toda a sua esperança, mas pela graça de Deus, seria o profeta da obra divinohumana,

através do qual Jesus operaria para bem do mundo e para a sua salvação.

Igualmente o arcanjo Gabriel ensinou à Santíssima Virgem Maria que nela se cumpriria o

mistério da Encarnação. Um outro anjo instruiu José sobre a verdade dos acontecimentos e

sobre o cumprimento das promessas divinas feitas a Davi. Foi um anjo que difundiu a boa

nova aos pastores, que eram de algum modo homens purificados pela vida tranqüila que

levavam e afastados das multidões, ao mesmo tempo que os exércitos celestes transmitiam

a toda a terra o célebre cântico de glorificação "Glória a Deus nas alturas, paz na terra aos

homens a quem Ele ama".

Por intermédio dos anjos José foi avisado que ele deveria partir para o Egito e assim

novamente quando de seu regresso a Judéia. Não falou também Jesus a nós como um

mensageiro quando Ele nos comunicava a vontade do Pai?

Capítulo V.

Importa agora procurar a razão pela qual os teólogos chamam anjos a todas as essências

celestes indistintamente, enquanto reservam o termo angélico mais propriamente à ordem

mais baixa que é subordinada às legiões dos Arcanjos, dos Principados, das Potestades, das

Dominações, essências das quais a tradição revela e as Escrituras reconhecem como

superiores.

Ora, nós afirmamos que em toda a ordenação sagrada as ordens superiores possuem todas

as iluminações das ordens inferiores, sem que essas últimas participem nos privilégios das

que lhe são superiores. É por isso que os teólogos chamam de anjos os escalões mais altos e

mais santos das essências celestes, porque eles são reveladores da iluminação divina.

Quando fazemos referências à ordem inferior não seria adequado designar os seus membros

de Principados, Tronos ou Serafins, porque eles não participam de modo algum das

capacidades das essências celestes que possuem um nível superior. O que podemos afirmar

é que se todos os anjos recebem um nome comum isto se sucede também pelo fato das

potências celestes possuírem em comum o poder de permanecerem em harmonia com Deus

e de entrarem em comunhão com a luz que vem de Deus.

Capítulo VI.

Quais e quantas são as ordens desses seres que vivem no Céu? Como é que cada

hierarquia recebe a sua consagração ou o seu aperfeiçoamento? Afirmo que apenas o

Princípio Divino poderia responder exatamente a essas questões. Mas os seres angélicos

não ignoram nem as qualidades que lhes são próprias, nem a hierarquia sagrada que os rege

e que não pertence a este mundo.

É impossível conhecermos os segredos das inteligências que vivem no céu, a menos que

Deus nos revele por intermédio dessas mesmas inteligências, as quais não ignoram a sua

própria natureza. Portanto, não faremos nada de nossa própria autoria e nos contentaremos

em expor na medida dos nossos conhecimentos essas visões angélicas, tal como os santos

teólogos as contemplam e tal como eles a nós revelaram.

Os seres angélicos dividem-se em três ordens e possuem nove nomes.

A primeira ordem rodeia a Deus de modo permanente e está unida a Ele constantemente.

Ela está em primeiro lugar e não possui qualquer mediação: são os Tronos santíssimos e os

batalhões notáveis por seus números de olhos e de asas que recebem os nomes de

Querubins e Serafins. Eles têm uma proximidade de Deus superior a todos os outros. Essa

ordem de três batalhões formam uma só e constitui a primeira hierarquia de nível igual.

A segunda ordem compõe-se de Virtudes, Dominações e Potestades constituindo a

segunda hierarquia.

A terceira ordem constitui a última hierarquia celeste. É a ordem dos Anjos, Arcanjos e

Principados.

Capítulo VII.

Todos os nomes atribuídos às inteligências celestes designam capacidades para eles

receberem a semelhança divina.

Querubim em hebraico significa "aquele que arde". Significa também "massa de

conhecimento e efusão de sabedoria".

A primeira hierarquia é a mais sublime de todas e graças a sua proximidade com Deus

recebe primeiro que as outras as aparições Dele e os seus nomes revelam o modo como se

ligam a Ele.

Os Serafins têm como qualidades especiais o movimento perpétuo em torno dos segredos

divinos, o calor, a profundidade, o ardor dum constante movimento que não conhece

diminuição, o poder de elevarem eficazmente as suas semelhanças aos que lhes são

inferiores, comunicando-lhes o mesmo ardor a mesma chama e o mesmo calor. Eles têm o

poder de purificarem a evidente e indestrutível aptidão para conservarem a sua própria luz,

o seu poder de iluminação e a faculdade de abolirem todas as trevas.

Os Querubins designam aptidões a conhecerem e a contemplarem a Deus, a receberem os

mais altos dons da Sua Luz, a contemplarem na sua potência primordial o esplendor divino,

a acolherem em si a plenitude dos dons que transmitem sabedoria e a comunicá-los em

seguida às essências inferiores graças a expansão da própria sabedoria que lhes foi

transmitida.

Os Tronos, sublimes e luminosos, indicam a ausência total de qualquer concessão aos bens

inferiores e a tendência contínua para os cumes, que sublinha bem o fato de eles nada terem

em comum com o que lhes está abaixo. Eles indicam a sua infalível aversão a toda

indignidade, a grande concentração de toda a sua capacidade para se manterem constante e

firmemente perto do Altíssimo, a capacidade de receberem indiferentemente todas as

visitações da Divindade, o privilégio que têm de servirem de assento a Deus e o seus zelos

em se abrirem aos dons de Deus.

Essa é a explicação de seus nomes na medida do que nos é possível revelar aos homens.

Resta-nos dizer o que entendemos pela suas hierarquias. Que o objetivo de toda hierarquia

é imitar constantemente a Deus; que toda a função hierárquica consiste em acolher e

transmitir a pureza sem mistura da luz divina e da sabedoria, como já o dissemos.

Agora proponho-me a mostrar o que as Escrituras revelam das suas hierarquias.

Esses seres angélicos constituem uma só hierarquia inteiramente homogênea. Devemos

pensar que eles são puros não apenas por estarem livres de todo o pecado e de tudo o que é

profano, mas porque eles ignoram toda a imaginação material; porque estão acima de toda a

fraqueza; porque a sua sublime pureza ultrapassa a de quaisquer outras inteligências

angélicas; porque conservam sem qualquer perda ou corrupção a estabilidade perpétua do

poder que possuem de estarem em harmonia com Deus.

Eles são igualmente contemplativos. Não porque contemplem intelectualmente símbolos

nem porque se elevem espiritualmente através de santas alegorias, mas porque recebem em

toda a plenitude o saber de uma Luz superior através da contemplação desse Ser

Sobreessencial e triplamente luminoso, que está na origem e no princípio de toda a beleza.

Eles têm igualmente o mérito de entrarem em comunhão com Jesus através de uma

verdadeira proximidade, pois tomam parte no conhecimento de Suas operações divinas,

uma vez que lhes foi dada no mais alto grau a capacidade de imitarem a Deus. Eles entram

em contato tanto quanto lhes é possível com as virtudes, pelas quais Ele exerce a Sua ação

divina face aos homens e manifesta o Seu amor por eles.

Eles são perfeitos não pela iluminação de uma sabedoria que lhes permitiria analisar a

variedade dos santos mistérios, mas pela plenitude duma deificação, pela ciência superior

que possuem na qualidade de mensageiros das operações divinas. É diretamente de Deus

que eles recebem a iniciação sagrada e é graças a esse poder de se elevarem diretamente até

Deus, que eles devem a superioridade sobre todos os outros seres.

Os teólogos mostram claramente que as ordens inferiores das essências celestes aprendem

de seus superiores tudo o que lhes concernem às operações divinas, enquanto que a ordem

mais elevada é iniciada por Deus. Eles nos revelam, que certos anjos são iniciados por

aqueles que possuem um nível mais elevado que o seu e que aprendem através desses, que

Deus é o Senhor das potências celestes, o Rei da Glória, que sob a forma humana subiu aos

céus. Outros recebem de Jesus Cristo a sua iniciação sem intermediários, recebendo d’Ele

antes de todos os outros a revelação da obra redentora que Ele levou a cabo por amor aos

homens.

"Eu sou (responderá Ele) O que falo a justiça, e venho para defender e salvar" (Is 63:1).

Assim é, tanto quanto eu posso conhecer, essa primeira ordem das essências celestes,

aquela que rodeia a Deus e que se situa na Sua vizinhança, aquela que envolve o Seu

perpétuo conhecimento. Ela pode não somente contemplar, mas ainda receber iluminações

e sustentar-se do maná divino.

Digna ao mais alto nível, de entrar em comunhão e em cooperação com Deus, essa primeira

ordem assemelha-se tanto quanto pode à bondade dos poderes e das operações próprias a

Deus.

É por isso que a teologia nos transmite os hinos que cantam esses anjos, onde se manifesta

o caráter transcendente da sua sublime iluminação. Se ousarmos utilizar uma imagem

terrena, eles se assemelham à voz de uma torrente tempestuosa quando gritam: "Bendita

seja a glória do Senhor, que se vai do seu lugar" (Ez 3:12). Outros anjos entoam o hino

célebre e venerável: "Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus dos exércitos, toda a terra está

cheia da Sua glória" (Is 6:3).

Nessa primeira ordem das essências celestes estão os lugares divinos, onde segundo a

expressão das Sagradas Escrituras a Divindade "repousa". Essa ordem ensina também aos

outros anjos que a Divindade é una. Una em Três Pessoas e que Ela exerce a sua

Providência benfeitora desde as essências que vivem no céu até as mais baixas criaturas

terrenas, pois Ela é o Princípio e a Causa de toda a essência e é Ela que envolve o universo

inteiro de modo sobreessencial num abraço irresistível.

Capítulo VIII.

Abordaremos agora a segunda ordem das inteligências celestes iniciando-nos no

conhecimento das Dominações, Virtudes e Potestades.

Cada uma dessas denominações revela a forma própria de cada inteligência angélica de

imitar e se configurar a Deus.

O nome das santas Dominações significa a elevação espiritual livre de qualquer

compromisso terreno tal como convém a uma entidade incorruptível e verdadeiramente

livre, tendendo com um firme vigor para o verdadeiro princípio de toda a Dominação,

recebendo ela e os seus subordinados à medida das suas forças a semelhança do Senhor e

participando do princípio constante e divino de toda a Dominação.

No que concerne às santas Potestades o seu nome indica uma certa vigorosidade corajosa

em todos os atos pelos quais se configuram a Deus. Uma vigorosidade que exclui qualquer

enfraquecimento de forças no recebimento das iluminações divinas que lhe é outorgada;

uma vigorosidade que se eleva corajosamente até a imitação de Deus e que não abandona a

ascensão à forma divina e cujo olhar permanece rigidamente direcionado para a fonte de

toda a potestade Sobreessencial. Porque essa vigorosidade torna-se imagem da potestade,

da qual ela assume a forma, ligando-se a ela com todas as suas forças para fazer descer

sobre as essências inferiores o seu processo dinâmico e deificante.

O nome das Virtudes indica que ela tem o nível igual das Dominações e Potestades. Ela é

disposta harmonicamente e sem confusão para receber os dons divinos. Ela indica ainda

que o poder intelectual que lhe pertence é perfeitamente ordenado e que longe de abusar do

seu poder ela se eleva harmoniosamente para as realidades divinas, conduzindo na sua

bondade as essências inferiores e imitando tanto quanto pode a virtude fundamental, que é a

fonte de toda a virtude sem deixar de difundí-la na medida de sua capacidade.

Eis como a segunda hierarquia das inteligências celestes manifesta a sua identidade com

Deus. É assim que ela se purifica, se ilumina e se aperfeiçoa graças às iluminações divinas

que lhe são transmitidas pelos membros da primeira ordem hierárquica.

Essa tradição, que se transmite regularmente de anjo a anjo, simbolizará a nós essa

perfeição que vinda de longe, se confunde descendo progressivamente do primeiro ao

segundo nível. Do mesmo modo, as evidentes perfeições das realidades divinas são mais

perfeitas que as participações nas visões divinas que se fazem através de intermediários.

Assim parece-me que a participação imediata das ordens angélicas que mais se aproximam

de Deus é mais clara que a dos anjos cuja iniciação é mediata. É por isso que segundo os

termos consagrados pela nossa tradução as primeiras inteligências iluminam e purificam as

que têm um nível (hierárquico) inferior, de modo que essas últimas elevadas por intermédio

da primeira até o princípio Universal e Sobreessencial tomem parte tanto quanto lhes é

possível nas iluminações e nos aperfeiçoamentos operados por Aquele, que é o princípio de

toda a perfeição.

A Lei Universal, pela qual as essências celestes da segunda ordem participam por

intermédio das de primeira ordem nas iluminações divinas, é instituída pelo Princípio

Divino.

Deus no Seu amor paternal pelos homens depois de ter corrigido Israel para convertê-lo e

reconduzí-lo ao caminho da salvação, livrou-o em primeiro lugar da barbárie vingativa das

nações, a fim de assegurar o aperfeiçoamento aos homens submetidos a Sua providência e

praticou em seguida o ato de libertá-lo de seu cativeiro e de devolvê-lo a sua antiga

felicidade. Como diz as Sagradas Escrituras segundo a visão de um de seus teólogos

Zacarias (Zac 1:8-17), parece ter sido um anjo da primeira ordem, daqueles que vivem

junto de Deus, que recebeu do próprio Deus as palavras consoladoras. Foi enviado ao

encontro do primeiro um outro anjo pertencente aos níveis inferiores para receber e

transmitir a iluminação e que uma vez iniciado na vontade divina, confiou ao teólogo a

santa nova de que Jerusalém refloresceria e que multidões de homens a repovoariam.

Um outro teólogo Ezequiel declara que essa lei foi santamente instituída por Deus e que na

Sua glória mais elevada do que qualquer outra, Ele comanda os Querubins.

"Estes são os mesmos animais que eu vi debaixo do Deus de Israel, junto do rio Cobar; e

conheci que eram Querubins" (Ez 10:20).

Deus no Seu amor paternal pelos homens e querendo punir Israel para os ensinar ordenou

por um ato de justiça que os inocentes fossem separados dos responsáveis. É o primeiro dos

Querubins que segundo o texto sagrado recebe a santa ordem e se reveste de um manto que

caí até os pés como símbolo da sua função sagrada. Em seguida, somente o Princípio

Divino de toda a ordem prescreve ao primeiro dos anjos que o segredo da decisão divina

seja transmitido àqueles anjos que usam armas destruidoras. Lhe é ordenado ainda que

atravesse toda a cidade de Jerusalém e marque os inocentes nas suas frontes. Aos outros

anjos Ele ordena: "Passai pelo meio da cidade, seguindo-o, e feri: não sejam compassivos

os vossos olhos, nem tenhais compaixão alguma. O velho, o jovem e a donzela, o menino e

as mulheres, matai todos, sem que nenhum escape; mas não mateis nenhum daqueles sobre

quem virdes o tau; começai pelo Meu santuário. Começaram, pois pelos anciãos que

estavam diante da casa do Senhor" (Ez 9:5-6).

E que dizer ainda daquele anjo que anunciou a Daniel: "Desde o princípio das tuas preces,

foi dada esta ordem, e eu vim para ta descobrir, porque tu és um varão de desejos; toma,

pois, bem sentido no que vou dizer-te e compreende a visão" (Dan 9:23).

Ou daquele que recebe o fogo do meio dos Querubins: "E (o Senhor) falou ao homem que

estava vestido de roupas de linho, dizendo: Vai ao meio das rodas que estão debaixo dos

Querubins, enche a tua mão de carvões ardentes, que estão entre os Querubins, e espalhaos

sobre a cidade..." (Ez 10:2).

E ainda daquele que demonstra mais claramente a boa ordem que preside aos anjos: o

Querubim que toma o fogo e o põe nas mãos daquele que estava vestido de roupas de linho

(Ez 10:6-7).

Que dizer igualmente daquele que chamou o divino Gabriel e lhe disse: "Ouvi a voz dum

homem no meio de Ulai, o qual gritou e disse: Gabriel, explica-lhe esta visão" (Dan 8:16).

Ou que dizer enfim de todos os outros exemplos fornecidos pelos santos teólogos?

Capítulo IX.

Falta-me contemplar a terceira ordem que termina a hierarquia angélica e que se compõe

de Principados, Arcanjos e Anjos. Creio que em primeiro lugar é preciso explicar o

sentido desses nomes sagrados.

O nome dos Principados celestes significa que eles possuem na ordem sagrada um princípio

e uma hegemonia de forma divina; que eles possuem das potências de comando da mais

alta conveniência o poder de se converterem inteiramente ao Princípio que está acima de

todo o princípio e de conduzirem os outros para eles com uma autoridade primordial e de

revelarem o Princípio Sobreessencial de toda a ordem pela harmonia do seu comando.

Os Santos Arcanjos têm o mesmo nível que os Principados celestes e formam uma única

hierarquia juntamente com os Anjos.

A ordem dos Arcanjos, graças ao seu lugar intermediário na hierarquia, participa nos dois

extremos uma vez que ela entra em comunhão com os Principados e com os Anjos. Em um

dos extremos ela participa no sentido de sua conversão ao Princípio Sobreessencial e lhe

confere a unidade graças aos poderes invisíveis da harmonização; no outro extremo ela

participa no sentido de também pertencer ao nível dos intérpretes, recebendo

hierarquicamente a iluminação por intermédio das potências do primeiro nível transmitida

aos Anjos e por intermédio desses transmitida a nós na medida em que cada um possa

recebê-la através dos segredos divinos.

Como já dissemos, os Anjos terminam e completam a regra das inteligências celestes,

porque são eles que possuem entre elas o mais baixo grau da qualidade angélica e se nós os

designamos por anjos é precisamente porque por seu intermédio se manifesta a sua

hierarquia mais claramente aos nossos olhos.

A ordem superior (Tronos, Querubins e Serafins) mais próxima — pela sua dignidade —

do Santuário Secreto inicia misteriosamente a segunda ordem, aquela que se compõe das

Dominações, Potestades e Virtudes, que por outro lado comanda os Principados, Arcanjos e

Anjos. A segunda ordem revela os mistérios menos secretamente que a primeira ordem mas

menos abertamente que a última. A função reveladora pertence à ordem dos Principados,

Arcanjos e Anjos. É ela que através dos graus da sua própria ordenação preside as

hierarquias humanas, a fim de que se produzam de modo ordenado a elevação para Deus, a

conversão, a comunhão, a união e ao mesmo tempo o movimento que provem de Deus que

gratifica liberalmente todas as hierarquias e dons e as ilumina, fazendo com que essas

hierarquias humanas entrem em comunhão com essa função reveladora. Daí resulta, que a

teologia reserva aos Anjos o cuidado pela nossa hierarquia chamando a Miguel o arconte

(magistrado da Grécia antiga) do povo judeu e aos outros anjos arcontes de outras nações,

porque: "Quando o Altíssimo dividiu as nações, quando separou os filhos de Adão, fixou os

limites dos povos segundo os números dos filhos de Israel" (Dt 32:8) (versão dos 70).

Se nos perguntarmos como é que apenas o povo judeu foi elevado às iluminações de

origem divina? É necessário dizer que os anjos preencheram de justiça a sua função de

vigilância e não é culpa deles se outras nações se envolveram no culto de falsos deuses.

Foram essas nações, com efeito, que pelos seus próprios movimentos abandonaram a via da

ascensão espiritual para o divino. Foi à medida do seu orgulho e da sua presunção que elas

veneraram os ídolos que lhes pareciam divinos. O povo hebreu testemunha propriamente

essa verdade, pois a ele sucedeu-se o mesmo acidente. Porque as Sagradas Escrituras

dizem: "O meu povo calou-se, porque não teve ciência. Porque tu (ó sacerdote) rejeitaste a

ciência, também Eu te rejeitarei a ti" (Os 4:6).

Nem a nossa vida é necessariamente determinada, nem a liberdade dos seres submetidos à

Providência das luzes divinas priva essas luzes do seu poder de iluminação providencial.

Mas é a suficiente assimilação das visões — e da sabedoria que por elas é transmitida —

que impede toda a participação nos dons luminosos da bondade paternal e constitui

obstáculo a sua difusão, na medida em que torna as comunicações desiguais, pequenas ou

grandes, obscuras ou claras, enquanto que a Fonte Radiante permanece única e simples

sempre idêntica a si própria e superabundante. É assim mesmo entre as outras nações,

nações das quais nós nos elevamos para o oceano indefinido e generoso dessa Luz Divina,

que difunde os Seus dons sobre todos os seres. É para o único Princípio Universal que os

anjos encarregados de cuidar de cada nação elevaram todos aqueles que os quiseram seguir.

Lembremo-nos de Melquisedec que teve em si próprio um grande amor a Deus, do Deus

Altíssimo e Verdadeiro. Os conhecedores da Sabedoria Divina não se contentaram em

chamá-lo de amigo de Deus, mas chamaram-no de Sacerdote para indicar claramente aos

homens sensatos que o seu papel não foi somente o de converter-se ao culto do verdadeiro

Deus, mas ainda enquanto grande sacerdote teve a função de conduzir a outros na ascensão

espiritual, a qual leva à Única e Verdadeira Divindade.

"E Melquisedec, rei de Salém, trazendo pão e vinho, porque era sacerdote do Deus

Altíssimo" (Gên 14:18).

Não nos esqueçamos do faraó que aprendeu sob a forma de visão de um anjo dedicado ao

cuidado dos egípcios (Gên 41:1-7), tal como do príncipe dos Babilônios que aprendeu

através do seu anjo particular; a solicitude do poder universal (Dan 12). Ministros do

verdadeiro Deus, os anjos foram instituídos como condutores dessas nações para

interpretarem as visões enviadas por Deus sob a forma alegórica, por intermédio de homens

cuja santidade era próxima a dos anjos como Daniel e José; porque no Universo há um só

Princípio e uma só Providência. Não poderíamos imaginar que Deus partilhasse o governo

do povo judeu com anjos ou falsos deuses. As expressões que nos poderiam fazer crer

nisso, devem ser interpretadas segundo um sentido sagrado. Elas não significam que Deus

tenha partilhado o governo da humanidade, mas sim que neste mundo em que a Providência

universal do Altíssimo tinha confiado para a salvação de todos os povos com anjos

encarregados de os conduzir a Ele, foi só Israel que converteu-se à Luz e confessou o

verdadeiro Senhor. Por isso, para mostrar que Israel tinha se devotado ao culto do

verdadeiro Deus as Sagradas Escrituras exprimem-se assim: "A porção, porém, do Senhor é

o Seu povo" (Dt 32:9).

Mas para mostrar que um dos anjos foi designado para a função de conduzir esse povo à

confissão d’Aquele que é o Princípio Único e Universal, a teologia relata igualmente que

Miguel preside ao governo do povo judeu. "Mas Eu te anuciarei o que está expresso na

Escritura da Verdade; e em todas estas coisas ninguém Me ajuda senão Miguel, que é o

vosso príncipe" (Dan 10:21).

As Sagradas Escrituras nos ensinam assim de modo claro, que não existe mais do que uma

só Providência para o universo inteiro. Providência sobreessencialmente, transcendente a

toda a potência visível ou invisível. Na medida do possível, todos os anjos dedicados a cada

nação elevam para essa Providência aqueles que os seguem de bom grado.

Capítulo X.

Concluamos, portanto, que a ordem mais antiga dentre as inteligências que envolvem

Deus, iniciada nos mistérios pelas iluminações que lhe vêem do próprio Princípio de toda a

iluminação, recebe purificação, iluminação e aperfeiçoamento graças ao Dom das

iluminações mais secretas da Divindade.

Depois dessa e proporcionalmente a sua natureza vem a segunda ordem, depois a terceira e

por último a hierarquia humana. Todas as ordens se elevam hierarquicamente para o

Princípio fundamental de toda a harmonia. Elas são reveladoras e mensageiras das que as

precedem. Deus as distinguiu segundo os modos de harmoniosa deificação que convém em

particular a cada uma. Os teólogos dizem que os Serafins trocam mútuos clamores

mostrando assim segundo creio e de modo claro, que os primeiros transmitem aos segundos

conhecimentos teológicos. "Clamavam um para o outro e diziam: Santo, Santo, Santo é o

Senhor Deus dos exércitos" (Is 6:3).

Capítulo XI.

Uma vez colocada essas questões convem considerar porque razão nos acostumamos a

chamar igualmente "potências celestes" a todas as essências angélicas. Não podemos dizer

como o fizemos para o termo Anjo, que a ordem das Santas Potestades é a última das

ordens e que as essências superiores participam na iluminação das ordens inferiores e que

essas últimas não tomam parte na iluminação das primeiras. Tal explicação não justificaria

a extensão do nome de potestades celestes a todas as inteligências divinas dos Serafins, dos

Tronos ou das Dominações em virtude do princípio segundo o qual as ordens inferiores não

participam nas propriedades das superiores. Restariam os Anjos e antes deles os Arcanjos,

os Principados e as Virtudes que os teólogos subordinam às Potestades e que recebem

freqüentemente na linguagem comum o nome de potestades ou potências celestes ao

mesmo título que os outros anjos.

Ao usar o nome de potestades para designar todas as essências não introduzimos nenhuma

confusão nas propriedades de cada ordem. No seio de todas as inteligências divinas

distinguimos com efeito três qualidades: a essência, a potência e o ato. Se nos ocorre

designá-las indistintamente por essências ou potências celestes importa considerar que o

fazemos por rodeio de palavras e não se trata de atribuir na totalidade às essências

subordinadas a eminente propriedade das santas potestades. Como já foi dito, as ordens

superiores possuem as propriedades das inferiores, porque somente uma parte das

iluminações primordiais é transmitida às ordens inferiores à medida de suas capacidades.

Capítulo XII.

Vejamos um outro problema que é colocado a quem quer que se envolva no estudo

escriturístico minucioso: Uma vez que as últimas ordens não participam inteiramente nas

ordens superiores, porque é que os grandes sacerdotes da hierarquia humana recebem nas

Sagradas Escrituras o título de anjos do Senhor Todo Poderoso?

"Porque os lábios dos sacerdotes serão os guardas da ciência; da sua boca se há de

aprender a lei, porque ele é o anjo do Senhor dos exércitos" (Ml 2:7; cf.Apoc 2:1).

Creio que o uso desse termo não contradiz as definições dadas até o momento. Quando se

diz que às inteligências da terceira ordem falta a inteira potência, integral e sublime que

pertence às ordens mais antigas, entende-se que elas participam na medida de suas forças

numa comunhão única e universal, harmoniosa e sintética. Assim é, por exemplo, que se a

ordem dos Querubins participa numa sabedoria mais elevada, as legiões formadas de

essências inferiores participam também na sabedoria, mas de forma mais parcial. A

participação geral na sabedoria é a característica comum a todas as inteligências que vivem

em conformidade com Deus.

O que não é comum é o caráter mais ou menos imediato e primordial dessa participação,

grau que se define para cada essência na medida de suas próprias capacidades. Essa

verdade pode ser aplicada sem risco a todas as inteligências divinas, porque assim como as

primeiras ordens possuem as propriedades de suas subordinadas, também as últimas

possuem as propriedades das suas superiores, não do mesmo modo, mas de modo inferior.

Eu não vejo inconveniente que um grande sacerdote da hierarquia humana seja chamado de

anjo pelos teólogos, porque ele participa segundo a sua própria capacidade no papel de

intérprete dos anjos e na medida de suas possibilidades tende a imitar o seu poder

revelador.

Notaremos, que a teologia concede o título de deuses às essências celestes e chama também

"deuses" aos homens que se distinguem pelo seu amor a Deus e pela sua santidade: "Jacó

pôs àquele lugar o nome de Fanuel, dizendo: Eu vi a Deus face a face, e a minha alma foi

salva" (Gên 32:30). "E o Senhor disse a Moisés: Eis que Te constituí deus do faraó, e Arão,

teu irmão, será teu profeta" (Êx 7:1). "Eu disse: Sois deuses" (Sl 81:6).

Ora, o mistério divino é transcendente; o seu caráter sobreessencial separa-o de todas as

coisas e nenhum ser vivo merece em propriedade ser nomeado do mesmo modo. Toda a

inteligência que tende integralmente no máximo da sua potência para a união com

Deus e que se eleva incessantemente tanto quanto pode para as iluminações divinas

imitando o próprio Deus, se isso se pode dizer à medida de suas forças, então merece bem o

título de divina.

Capítulo XIII.

Prossigamos o nosso caminho e examinemos porque é que se diz que um dos teólogos

recebeu a visita de um Serafim. Notemos que Serafim é um anjo da primeira ordem, das

mais antigas essências celestes, o qual desce para purificar o profeta.

"Voou para mim um dos Serafins, o qual trazia na mão uma brasa viva, que tinha tomado

do altar com uma tenaz" (Is 6:6).

Alguns intérpretes respondem que em virtude da definição já dada aos nomes que se

atribuem em comum a todas as inteligências, as Sagradas Escrituras não afirmam que a

inteligência que desce para purificar o teólogo pertence a essa ordem superior que se situa

próxima a Deus, mas que se trata de um dos anjos que nos são designados a título de

ministro sagrado encarregado da purificação do profeta. Seria um desses anjos que teria

recebido por semelhança o nome de Serafim, em virtude da operação que realiza apagando

pelo fogo os pecados que as Sagradas Escrituras enumeram e restabelecendo na obediência

de Deus aquele que tinha sido purificado. Assim, segundo esse estudo minucioso, as

Sagradas Escrituras falando simplesmente de Serafim não designam uma dessas

inteligências que se situam nas proximidades de Deus, mas designam outras das potências

purificadoras que nos são dedicadas.

Um outro estudioso oferece uma solução referente a isso para nos tirar desse embaraço.

Esse grande mensageiro, que aparece ao teólogo para iniciá-lo nos segredos divinos,

"relatou" a Deus e depois à hierarquia primordial a santidade da sua própria operação

purificadora. O estudioso que assim falava, afirmava que a potência divina se difunde por

todo lado e penetra todas as coisas de modo irresistível, permanecendo misteriosa não

somente pela sua total e sobreessencial transcendência, mas ainda pelo mistério pelo qual

envolve todas as suas operações providenciais. Portanto, está claro que a potência divina se

revela a quem quer que seja dotado de inteligência e que esteja à medida de suas

capacidades receptoras.

Tendo doado sua própria luz às essências mais antigas, ela usa em seguida o serviço dessas

mesmas essências para transmitir essa mesma luz de modo harmonioso às essências de

ordem inferior, segundo a aptidão visionária de cada ordem. Por outro lado, se preferirmos

uma expressão mais clara com imagens mais adequadas temos: a difusão do raio solar

atravessa mais facilmente a primeira matéria que é mais transparente que todas as outras.

Através dessa matéria o seu próprio esplendor brilha de modo mais visível, mas quando se

depara com matérias mais opacas a sua potência de difusão se obscurece, porque as

matérias penetradas resistem pela sua própria natureza à passagem da efusão luminosa e

esta resistência aumenta progressivamente ao ponto de quase impedir inteiramente a

passagem do raio luminoso.

Pela mesma razão, o calor do fogo transmite-se melhor nos corpos que são mais aptos a

recebê-lo e que pelo seu movimento interno de ascensão se aproximam mais da sua

semelhança, mas logo que se aproxima de substâncias refratárias a sua chama permanece

sem efeito ou pelo menos não deixa mais do que um ligeiro traço. O melhor ainda é dizer: o

fogo não atua sobre substâncias que não têm afinidade com ele a não ser por intermédio de

corpos já familiarizados, de modo a fazer o fogo chegar aos objetos inflamáveis e somente

em seguida através deles aquecer a água ou outra substância rebelde à combustão.

É através dessa lei harmoniosa que rege toda a natureza, que o Princípio maravilhoso de

toda a ordem visível e invisível manifesta originalmente por efusões benfeitoras a chama da

sua própria luz às essências superiores, que por seu intermédio aquelas que vêm depois

delas participam na luz divina. Com efeito, essas essências que confessam Deus em

primeiro lugar e que tendem mais que todas as outras para a virtude divina, merecem ser as

primeiras na imitação divina. São elas que na sua bondade distribuem generosamente às

ordens inferiores esse esplendor que as penetra, que por sua vez as distribuem às outras

subordinadas. É assim que gradativamente a que precede, distribui à seguinte a luz divina

que ela própria recebeu, a qual se distribui providencialmente sobre todas as essências à

medida das suas capacidades.

Capítulo XIV.

O que significam os números atribuídos tradicionalmente aos anjos.

Mas ainda é conveniente a meus sentidos refletir sobre essa tradição escriturística que

atribui aos anjos os números de mil vezes mil e dez mil vezes dez mil (Daniel 7:10),

retornando sobre eles mesmos e multiplicando por eles mesmos os números mais elevados

que nós conhecemos, para nos revelar claramente que o número das legiões celestes para

nós escapa de todas as medidas.

Tal é, com efeito, a multidão desses exércitos bem-aventurados que não são desse mundo,

que ela ultrapassa a ordem débil e restrita de nossos sistemas de numeração material e que

só pode ser conhecida e definida pela sua própria inteligência e sua própria ciência que não

são desse mundo, mas que pertencem ao céu e que elas receberam como dom perfeitamente

generoso da Tearquia, pois essa Tearquia conhece o infinito, Ela é a fonte de toda

sabedoria, o princípio comum e supraessencial de toda existência, a causa que dá

classificação de essência a todo ser, a potência que contem e o termo que abarca a

totalidade do universo.

Duplo papel das essências celestes,

Capítulo XV.

Quais são as imagens figurativas das potências angélicas: o fogo, a forma humana, os

olhos, o nariz, as orelhas, a boca, o tato, as pálpebras, as sobrancelhas, a flor da idade, os

dentes, os ombros, os braços, as mãos, o coração, o peito, o dorso, os pés, as asas, a nudez,

a vestimenta, os véus brilhantes, o manto sacerdotal, os cintos, os bastões, as lanças, os

machados, as correntes, os ventos, as nuvens, o bronze, o âmbar, os coros, os aplausos, as

nuanças das pedras coloridas, a forma de leão, aquela do boi e da águia, os cabelos, os

mantos cavalares, os rios, os carros, as rodas e a alegria que se atribui aos anjos.

Continuando nossa reta eis o que nos resta dizer. O olho de nossa inteligência vai afrouxar,

se você vê bem, o esforço pelo qual ele se ensaiava de maneira angélica nas mais altas

visões. Nós vamos descer de novo aos planos da divisão e da multiplicidade para a

diversidade polimórfica das figuras que os anjos assumem. Retornaremos em seguida aos

nossos passos e subiremos das imagens para a simplicidade das essências celestes. Mas

saiba primeiramente (Maurice de Gandillac acrescenta aqui: "somente isso") que as

interpretações sagradas das imagens figurativas revelam às vezes que as mesmas ordens das

essências celestes, tanto iniciam quanto são iniciadas, que aquelas da última ordem iniciam

e que aquelas da primeira ordem são iniciadas e que elas possuem todas, como se diz,

potências superiores, médias e inferiores, sem que portanto exegeses (estudos) desse gênero

tenham nada de irracional. Com efeito, pretender que todas juntas, tais ordens sejam

iniciadas por aquelas que as precedem e que essas últimas recebam delas a mesma

iniciação, ou ainda, que as superiores iniciando as inferiores, sejam a seguir iniciadas por

aquelas mesmas que elas iniciaram, seria o puro absurdo e a confusão total. Mas afirmandose

que as mesmas essências iniciam e são iniciadas nós não entendemos por essa afirmação,

que elas iniciam as mesmas que as iniciaram: nós apenas queremos dizer que cada uma

delas é iniciada por aquelas que as precedem e que ao mesmo tempo elas iniciam aquelas

que a seguem.

Não há então nenhuma inconveniência em afirmar que as figurações sagradas que as

Escrituras nos apresentam, podem se atribuir às vezes sem modificação, propriamente e

verdadeiramente, às vezes às potências primeiras, às vezes às médias, às vezes às últimas.

Por exemplo: o poder de se elevar ao alto por um movimento constante de conversão,

aquele de executar em torno de si próprio uma indefectível revolução conservando suas

próprias potências, o poder de participar na potência providencial comunicando-se

processivamente com as ordens inferiores, tudo isso convem, sem mentir, a todas as

essências celestes, a algumas todas as vezes (como se disse muitas vezes) de modo

eminente e total, às outras de modo parcial e inferior.

É necessário que abordemos agora o problema colocado e que comecemos a elucidação das

figuras, procurando o porquê da Teologia, como se pode constatar, situar as alegorias

tiradas do fogo quase acima de todas as outras. Você notará, com efeito, que ela não só nos

apresenta rodas de fogo ardente (Dan 7:9), mas ainda animais como brasas de fogo ardente

(Ez 1:13) e homens com semelhança de fogo (Ez 1:27) (Maurice traz "brilhantes como de

fogo"). Ela imagina em volta das essências celestes mãos cheias de brasas acesas (Ez 10:2)

e rios de fogo (Dan 7:10). Ela afirma em outra passagem que os tronos são de chamas de

fogo (Dan 7:9) e invoca a etmologia da palavra serafins para declarar que essas

inteligências superiores são incandescentes e para lhes atribuir as propriedades e os

atributos do fogo. No total, quer se trate da alta ou da baixa hierarquia, é sempre para as

alegorias tiradas do fogo que vão suas preferências. Me parece que de fato, é a imagem do

fogo que revela melhor o modo pelo qual as inteligências celestes se conformam a Deus. É

por isso que os Santos Teólogos descrevem freqüentemente sob forma incandescente essa

essência suprasubstancial que escapa a toda figuração e é essa forma que fornece mais de

uma imagem visível daquilo que nós ousamos chamar de propriedade teárquica.

O fogo sensível é, por assim dizer, presente em toda parte e ilumina tudo sem se misturar

com nada, permanecendo sempre totalmente separado. Ele brilha com um clarão total e

permanece ao mesmo tempo secreto, pois em si ele permanece desconhecido fora de uma

matéria que revele sua operação própria. Não se pode suportar o seu clarão nem contemplálo

face a face, mas seu poder se estende por toda parte e de lá onde ele nasce ele tira tudo

para si fazendo dominar (essas duas palavras faltam em Maurice) seu ato próprio. Por essa

transmutação ele faz dom de si a qualquer um que se aproxime por pouco que seja: ele

regenera os seres por seu calor vivificante (Maurice traz "por sua vivificação"), ele os

clareia por suas brilhantes iluminações, mas em si, ele permanece puro e sem mistura. Ele

tem o poder de decompor os corpos sem sofrer ele mesmo nenhuma alteração. Ele se agita

vivamente. Ele vive nas alturas, ele escapa a toda atração terrestre, ele se move sem cessar,

ele se move por si próprio e ele move os outros. Seu domínio se estende por toda a parte,

mas ele não se deixa prender em lugar algum. Ele não precisa de ninguém. Ele se aumenta

insensivelmente, manifestando sua grandeza em toda matéria que o acolhe. Ele é ativo,

poderoso, invisível e presente por toda a parte. Negligenciado, ele parece que não existe.

Mas, sob o efeito dessa fricção que é como uma oração, ele aparece bruscamente com todas

as suas qualidades; logo se o ve tomar um voo irresistível e é sem perder nada de si que ele

se comunica jubilosamente em torno de si. Encontraremos ainda, mais uma propriedade do

fogo que se aplica como uma imagem sensível às operações da Tearquia. Os conhecedores

da Sabedoria Divina o sabem bem já que atribuem figuras incandescentes às essências

celestes, revelando assim que formas elas assumem e tanto quanto lhes é possível, a

semelhança de Deus.

Mas eles usam também para os figurar alegorias antropomórficas, porque o homem possui

uma inteligência; porque ele é capaz de olhar para o alto; porque ele se mantem firme e

direito; porque sua natureza é aquela de um príncipe e de um chefe; porque se é verdade

que no plano sensível os animais desprovidos de razão tem maiores poderes que os do

homem, no entanto, é ele que domina todos pelo entendimento de sua potência intelectual,

pela soberania de seu poder racional, pelo caráter naturalmente livre e independente da sua

alma.

Quer me parecer ainda mais, que cada parte do corpo humano pode nos fornecer muitas

imagens que se aplicam perfeitamente (essas seis últimas palavras faltam em Maurice) às

potências celestes. Pode-se dizer que as faculdades visuais significam sua tendência a se

elevar, em plena claridade, para as Luzes Divinas assim como a maneira pela qual elas

recebem impassivelmente as iluminações teárquicas com toda simplicidade "ternamente",

com flexibilidade, sem resistência, em um voo rápido e puro. O discernimento dos odores

significa o poder de agarrar ao máximo as suaves emanações que ultrapassam a

inteligência, de discernir da ciência segura seus contrários e deles fugir absolutamente. O

ouvido significa o poder de participar na inspiração teárquica e dela tirar o saber que ela

contem. O paladar significa a plenitude dos alimentos intelectuais e a arte de se abeberar

(matar a sede) na fecundidade dos canais divinos; o tato, a arte de distinguir seguramente o

útil do nocivo; as pálpebras e as sobrancelhas, o cuidado com o qual elas conservam as

visões intelectuais de Deus; a adolescência e a juventude a constante floração das potências

vitais; os dentes, a perfeição com a qual eles dividem o alimento que eles recebem, pois

cada essência intelectual tendo recebido de uma essência mais divina, em dom, a intelecção

unitiva, a divide e a multiplica providencialmente para elevar espiritualmente tanto quanto

possa a essência inferior (daquela que ela é encarregada).

As espáduas (ombros), os braços e as mãos, representam o poder de fazer, de agir, de

operar; o coração é o símbolo de uma vida conforme a Deus e que espalha em sua bondade

sua própria potência vital sobre os seres submetidos a sua Providência; o peito revela a

muralha inexpugnável (segura) ao abrigo da qual um coração generoso espalha seus dons

vivificantes; o dorso (costa) figura a reunião de todas as potências que engenharam a vida;

os pés, o caráter móvel e rápido desse curso perpétuo que os conduz para as realidades

divinas. É por isso que as alegorias divinas colocam asas nos pés das santas inteligências,

pois as asas significam uma rápida elevação espiritual, uma elevação celeste, uma

progressão para o alto, uma ascensão que libera a alma de toda baixeza; A ligeireza das

asas simbolizam a ausência de toda atração terrestre, o impulso total e puro, isento de todo

peso, para os cimos; o corpo e os pés nús significam desembaraço, liberação,

independência, purificação relativamente a toda suprafluidez exterior, assimilação máxima

à divina simplicidade.

Mas como a sabedoria, toda junta una e variada, veste sua nudez e as representa como

portadoras de equipamentos, é necessário explicar agora, tanto quanto pudermos, as santas

vestimentas e os instrumentos sagrados que se atribuem às inteligências celestes.

Eu penso que a toga luminosa e incandescente significa a forma divina; segundo o

simbolismo do fogo, essa potência de iluminação que elas extraem da morada celeste que

lhes foi determinada e que é o próprio lugar da luz; enfim o caráter totalmente inteligível da

iluminação delas e totalmente intelectual da visão delas. A toga pontifical significa o poder

de se elevar espiritualmente até os espetáculos divinos e místicos e aí consagrar uma vida

inteira. Os cinturões significam o cuidado com o qual elas conservam suas potências

genéticas; o poder que elas tem de se recolher, de unificar suas potências mentais

reentrando nelas mesmas, e se dobrando novamente harmoniosamente (Maurice traz

"facilmente") sobre si no círculo indefectível (infalível) da própria identidade delas.

As varas representam o poder real, a soberanidade, a retitude com a qual elas conduzem

todas as coisas a seu acabamento; as lanças e os machados, sua arte de discriminar o que é

estrangeiro, a sutileza, a atividade e a eficácia de suas potências de análise; os

equipamentos dos geometras e dos arquitetos, seu poder de fazer fundação, de edificar e de

acabar, e em geral, tudo que concerne à elevação espiritual e a conversão providencial de

seus subordinados. Acontece também às vezes, que os instrumentos com os quais os

representamos simbolizam os julgamentos de Deus à respeito dos homens, uns

representando as correções disciplinares ou os castigos merecidos, outros representando o

socorro divino em circunstâncias difíceis "nos incêndios", o fim da disciplina ou o retorno a

anterior felicidade, ou ainda o dom de novos benefícios, pequenos ou grandes, sensíveis ou

intelectuais. Em suma, uma inteligência perspicaz não ficaria embaraçada em fazer

corresponder os sinais visíveis às realidades invisíveis.

Acrescentemos, que os chamamos ventos, para mostrar a rapidez com a qual elas agitam

por toda parte de maneira quase instantânea, o vai-e-vem do alto para baixo e de baixo para

o alto, pelo que elas elevam suas subordinadas até o cimo mais alto e pelo que elas inclinam

suas superiores a descer processivamente para se comunicarem com as essências inferiores

e exercer a Providência delas para com essas últimas. Poder-se-ia dizer também que o nome

de vento, que significa um espírito aéreo, revela a maneira pela qual as inteligências divinas

vivem em conformidade com Deus; pois esse nome contem a imagem e a marca da

atividade teárquica (como foi mostrado mais explicitamente na Teologia Simbólica dando a

exegese dos quatros elementos) graças a seu movimento natural e vivificante, graças a

indomável impetuosidade de sua marcha adiante, graças ao mistério para nós incognoscível

(desconhecido) dos princípios e dos fins de seu movimento: "não sabes, (diz a Escritura)

donde vem, nem para onde vai" (Jo 3:8).

Mas, a Escritura as representa também sob a forma de nuvens (Ez 10:4) para significar

assim que as santas inteligências contêm de um modo que não é daqui de baixo, a plenitude

da luz secreta; que tendo recebido em primeira mão e sem orgulho excessivo a efusão

primordial dessa luz, elas a transmitem a suas subordinadas em segunda mão e de modo

generoso tanto quanto essas últimas possam receber; enfim elas possuem uma fecundidade

que doa a vida e que faz crescer os seres e que os aperfeiçoa derramando sobre eles a chuva

da inteligência, e chamando por chuvaradas fecundantes para partos vivificantes o seio que

as recebeu.

Se a teologia atribui além disso às essências celestes a forma do cobre e do âmbar e aquela

das pedras multicores (Ez 8:2; 40:3; Apoc 21:19-20), é porque o âmbar que reune em si as

formas do ouro e da prata simboliza por sua vez a pureza incorruptível, inesgotável,

indefectível (infalível) e intangível que pertencem ao ouro e o clarão luminoso, brilhante e

celeste que pertencem à prata. Quanto ao cobre pelas razões que foram ditas ele lembra seja

o ouro seja o fogo. E no que concerne às formas multicores das pedras crê-se que elas

representam no branco, a luz; no vermelho, o fogo (1da pág.seg.) (essas quatro palavras

faltam em Maurice); no amarelo, o ouro; no verde, o apogeu da juventude. Para cada

espécie você encontrará assim um ensinamento espiritual na exegese simbólica das imagens

que ela representa.

A figura do leão (Ez 1:10; Apoc 4:7) deve revelar esse esforço soberano, veemente,

indomável, pelo qual as essências celestes imitam tanto quanto elas podem o mistério da

inefável (encantadora) Tearquia, envolvendo intelectualmente os traços desse mistério,

disfarçando-os modesta e misticamente sobre a via sobre a qual a iluminação divina as

eleva.

A figura do boi (Ez 1:10; Apoc 4:7) marca a força e a potência, o poder de escavar sulcos

intelectuais para receber as fecundas chuvas do céu, enquanto os chifres (essas 4 palavras

faltam em Maurice) simbolizam a força conservadora e invencível.

A figura da águia (Ez 1:10; Apoc 4:7) indica a realeza, a tendência aos cumes, o voo

rápido, a agilidade, a prontidão, a engenhosidade em descobrir os alimentos fortificantes, o

vigor de um olhar estendido livremente, diretamente e sem desvio para a contemplação

desses raios, dos quais a generosidade do Sol teárquico multiplica-os.

A figura do cavalo (Apoc 6:2-8) significa a obediência e a docilidade. Se eles são brancos,

essa limpidez tão próxima quanto possível da luz divina; se eles são baios (castanho ou

amarelo torrado), o caráter misterioso; se eles são de uma cor entre o branco, o amarelo e a

camurça, o poder do fogo e sua eficácia; se eles são pretos com o dorso tendendo ao azul

escuro e o baixo dorso tendendo ao branco, a síntese dos opostos e o poder de passar de um

ao outro, essa adaptação dos superiores aos inferiores e dos inferiores aos superiores que

nasce da conversão de uns e do cuidado providencial dos outros.

Se nós não tivéssemos o desígnio (intenção) de conservar nesse tratado proporções

harmoniosas, nós poderíamos considerar cada parte dos animais que acabamos de citar,

todos os detalhes de sua estrutura física e nós não estaríamos errados de aplicar esses

detalhes às potências celestes segundo o procedimento das imagens diferentes (da pág.seg.;

ver todo o cap.II). É assim que, para quem quer se elevar do sensível ao espiritual as

faculdades irascíveis (iradas) desses animais ensinam essa virilidade da inteligência, da

qual a cólera é o último eco; suas faculdades concuspiscentes (desejo de bens ou gozo

material) ensinam o desejo amoroso que provam os anjos à volta de Deus; mais

sinteticamente todas as sensações das bestas privadas de razão e a multiplicidade de suas

partes ensinam as intelecções imateriais das essências celestes e suas potências sem

diversidade. Mas para quem sabe raciocinar, esses exemplos bastam; dizendo melhor, a

exegese de uma só dessas imagens paradoxais esclarece por analogia todos os símbolos do

mesmo tipo.

É necessário examinar ainda o que significa a aplicação alegórica às essências celestes dos

nomes de rios, de rodas e de carros (Dan 7:10; Ez 10:2; 2Rs 2:11). Os rios de fogo

significam esses canais teárquicos que generosamente não cessam de escoar seus fluxos

sobre as essências celestes e que conservam assim sua vivificante fecundidade. Os carros

significam essa comunidade que se liga ao mesmo varão do carro (nota do tradutor:

entenda-se os carros da época como carroças) essências de nível igual. Quanto às rodas

aladas que avançam sem desvio nem inclinação, elas significam o poder de rolar de

maneira reta, em linha reta sobre a via reta e sem desvio, graças a uma rotação perfeita que

não pertence a esse mundo. Mas a alegoria sagrada das rodas da inteligência se presta ainda

a uma outra exegese que corresponde a um outro ensinamento espiritual. Como diz, com

efeito, o teólogo, deu-se a elas o nome de galga que em hebreu significa ao mesmo tempo

revolução e revelação (Ez 10:13). Essas rodas inflamadas e que recebem a forma divina

tem o poder de rolar sobre elas mesmas, porque elas se movem perpetuamente em torno do

imutável bem; elas têm também o poder de revelar, pois elas iniciam nos mistérios; e elas

elevam espiritualmente as inteligências de baixo, ao mesmo tempo que fazem descer as

iluminações mais elevadas até as mais humildes.

Resta-nos explicar o que as Escrituras entendem quando elas falam da alegria das ordens

celestes (Lc 15:10). Essas ordens, com efeito, não saberiam de maneira nenhuma sentir as

volúpias apaixonadas que os homens conhecem. O que se quer dizer por conseqüência é

que elas participam da alegria divina por ocasião do retorno de pecadores: elas

experimentam uma felicidade calma e verdadeiramente divina, uma felicidade boa e sem

inveja ao vigiar providencialmente e ao salvar aqueles que se convertem a Deus; uma

alegria inefável (encantadora), a qual adveio com freqüência também a homens santos

graças as visitações deificantes das iluminações divinas.

Tais são minhas explicações concernentes às alegorias sagradas. Se elas estão distantes de

revelar exatamente as iluminações, elas ao menos economizarão, eu penso, a humilhação de

nos prendermos ao caráter imaginativo desses símbolos. Mas se nos reprovassem o fato de

não termos feito menção a todas as potências, a todos os atos, a todas as alegorias que as

Escrituras contêm relativamente ao anjos, nós teríamos o direito de justificar algumas de

nossas omissões reconhecendo que nós ignoramos a ciência das realidades que não são

desse mundo e que para nos conduzir a essa ciência nos fizeram falta as luzes de um

iniciador. Quanto a outras omissões concernentes a questões análogas àquelas que nos

tratamos, elas se explicam pelo duplo cuidado de não estender nosso tratado para outras

medidas e respeitar o nosso silêncio a respeito de mistérios que nos ultrapassam.

Folheto Missionário número P

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Editor: Bishop Alexander (Mileant)

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