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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Espiritismo – orientação para católicos

Espiritismo – orientação para católicos

Frei Boaventura Kloppenburg

7ª ed. 2002

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 7

I - O ESPIRITISMO................................................................................................. 13

1. A11an Kardec e sua codificação do espiritismo.............................................. 14

2. A doutrina espírita.......................................................................................... 22

3. Doutrina espírita e mensagem cristã................................................................ 26

4. O espiritismo de umbanda............................................................................... 34

II - A EVOCAÇÃO.................................................................................................. 49

1. Será possível comunicar-se com os falecidos?................................................. 50

2. Rejeição cristã da revelação mediante falecidos.............................................54

3. Os efeitos negativos da evocação..................................................................... 56

III - O FUNDAMENTO ESPIRITA DA DOUTRINA.......................................... 63

1. Os quatro fatores formativos da doutrina espírita.......................................... 63

2. A credibilidade dos médiuns............................................................................ 66

3. A credibilidade dos espíritos que se comunicam............................................ 74

4. A credibilidade da codificação......................................................................... 80

5. As fontes humanas da doutrina espírita.......................................................... 92

IV - A REENCARNAÇÃO...................................................................................... 97

1. Ensinou Jesus a pluralidade das vidas terrestres?.................................. 104

2. Ensinou Jesus a lei do progresso irreprimível e universal para a perfeição?.....107

3. Ensinou Jesus a necessidade de conquistar a perfei­ção final por esforços e méritos pessoais?...110

4. Ensinou Jesus uma vida definitivamente independen­te do corpo?....113

5. João Batista seria a reencarnação do profeta Elias?.... 116

6. "Nascer de novo" (Jo 3,3)................................................................ 117

V - O FLUIDO....................................................................................................... 121

1. O mesmerismo.............................................................................................. 121

2. O fluidismo espírita...................................................................................... 125

3. Fluidismo curandeirista................................................................................. 129

VI - A PSICOGRAFIA.......................................................................................... 135

1. Kardec encontra as mesas falantes................................................................135

2. A insuficiência da crítica kardecista.............................................................. 139

3. A psicografia apresentada por Allan Kardec................................................ 142

4. Análise psicológica de uma mensagem psicografada...................................144

5 . A psicografia de Chico Xavier...................................................................... 147

6. "Nosso Lar": um exemplo concreto.............................................................. 150

7. O sobrinho também psicografava.................................................................. 153

VII - A IGREJA CATÓLICA E O ESPIRITISMO.............................................. 157

1. O espírita perante a Igreja............................................................................. 157

2. A Igreja perante a fenomenologia mediúnica................................................. 161

3 . Caridade e fé.................................................................................................. 165

VIII - O ALÉM CRISTÃO................................................................................... 169

1. Jesus, o revelador do além........................................................................... 170

2. A doutrina cristã sobre a morte................................................................... 173

3. A morte não é o fim de nossa existência..................................................... 173

4. Somos destinados à vida eterna................................................................... 174

5. A morte é o fim do estado de provação...................................................... 175

6. Os falecidos que estão no céu..................................................................... 177

7. A comunhão dos santos.............................................................................. 178

8 . As almas do purgatório............................................................................... 179

9 . O limbo das crianças que morrem sem batismo......................................... 182

10. Os condenados ao inferno............................................................................183

11. A ressurreição dos falecidos........................................................................186

12. Os anjos.......................................................................................................189

13. O anjo da guarda..........................................................................................191

14. O diabo e seus demônios.............................................................................194

15. Deus conosco..............................................................................................200

INTRODUÇAO

Não sou novato em matéria de espiritismo. Na década de 50 publiquei sobre a matéria livros, cadernos, folhetos e artigos sem conta. Era antes do Concílio Vaticano II (1962-1965), quando defendíamos nossa fé cristã e nossa Santa Igreja contra os ataques de seus adversários. E entre eles estava evidentemente o espiritismo. Era a apologética. Meus escritos, então, estavam sem dúvida mar­cados pelo ânimo de defesa da fé, para a orientação dos católicos. De um dos meus folhetos ("Por que o católico não pode ser espí­rita") chegamos atirar, em sucessivas edições de cem ou duzentos mil exemplares, mais de um milhão de cópias.

Veio então o Concílio com seu apelo ecumênico para o diálogo e a união. Dizia-se que o Vaticano II acabara de vez com a apo­logética. Em conseqüência e obediente, afastei-me da liça. Meus livros sobre a matéria não foram mais publicados. Os espíritas res­piraram então à vontade. Mas, de fato, depois não houve nem diá­logo nem muito menos união.

E como poderia haver união entre afirmar e negar a reencar­nação? Não ensinara o próprio Concílio Vaticano II a unicidade da vida humana na terra? E como conciliar a evocação dos mortos com a proibição divina da necromancia? Não nos recordara o mes­mo Concílio a interdição de quaisquer práticas de evocação dos espíritos?

O espiritismo prosseguiu, pois, sua sistemática ofensiva de pro­paganda e penetração nos ambientes católicos do Brasil, já sem encontrar da parte da Igreja uma atitude de defesa e de orientação. As obras de seu codificador, Allan Kardec, continuaram a ser edita­das e difundidas entre nossos fiéis. O evangelho segundo o espiri­tismo, que até 1958 tivera um total de 555 mil exemplares postos no mercado, recebeu agora, em 1986, sua 92ª edição, alcançando a cifra de 1.920.000 exemplares. Distribuídos por cinco editoras, já se venderam cerca de onze milhões de livros das obras do codi­ficador do espiritismo. Allan Kardec só é superado por Chico Xa­vier, com quinze milhões de exemplares vendidos.

Se na década de 50 em São Paulo houve um total de 1.869 novas associações mediúnicas (de espiritismo, umbanda e candom­blé) registradas nos cartórios, na década de 70, já depois do Con­cílio, houve um registro de 8.685 novas entidades deste tipo, só na cidade de São Paulo.

Estas cifras, por si sós, evidenciam que o espiritismo, em suas várias modalidades, continua sendo um grave problema também de­pois do Concílio. E o retraimento da Igreja pós-conciliar foi certa­mente uma das causas de sua difusão. Nem é verdade que o Va­ticano II não mais quis de nós uma atitude de defesa da fé. Na Constituição Lumen Gentiumos bispos são exortados para que "com vigilância afastem os erros que ameaçam seu rebanho" (n. 25a). No Decreto Optatam Totius determina o Concílio que nos seminá­rios as disciplinas teológicas sejam ensinadas de tal forma que os alunos "possam anunciá-las, expô-las e defendê-las no ministério sacerdotal" (n. 16a). Segundo a Lumen Gentium os leigos devem "difundir e defender a fé" (n. 11a). E no Decreto Apostolicam Actuositatem lemos: "Grassando na nossa época gravíssimos erros que ameaçam inverter profundamente a religião, este Concílio exorta de coração todos os leigos que assumam mais conscientemente suas responsabilidades na defesa dos princípios cristãos" (n. 6d). A própria Declaração Dignitatis Humanae, sobre a liberdade religiosa, recorda: "O discípulo tem o grave dever de anunciar a verdade recebida de Cristo com fidelidade e de defendê-la com coragem"(n. 14d). Também defesa da fé depois do Concílio.

Diálogo ecumênico com o espiritismo?

O Vaticano II nos explica que por "movimento ecumênico" se entendem iniciativas e atividades que visam à união dos cristãos (Unitatis Redintegratio, n. 4b). Um verdadeiro movimento ou diá­logo ecumênico só é possível com aquelas Igrejas ou comunidades cristãs separadas da comunhão católica que efetivamente dão espe­ranças positivas de chegar outra vez à comunhão plena. Mas o espi­ritismo não é uma Igreja separada, nem mesmo pretende ser Igreja. Não somente não há nenhuma esperança de conseguir algum dia "comunhão plena" com os reencarnacionistas, mas semelhante co­munhão não é nem sequer pensável. Leia-se na presente obra o capítulo sobre a reencarnação e ver-se-á que o reencarnacionismo não é cristão e que seus postulados fundamentais se opõem total e absolutamente à soteriologia cristã. E mesmo que se proclamas­sem cristãos, seria necessário dizer-lhes que em verdade não o são.

Em sua declaração oficial de 2 de janeiro de 1978, a Federação Espírita Brasileira, que é kardecista, fez saber que "é imprópria, ilegítima e abusiva a designação de espíritasadotada por pessoas, tendas, núcleos, terreiros, centros, grupos, associações e outras enti­dades que, mesmo quando legalmente autorizados a usar o título, não praticam a doutrina espírita", isto é, "o conjunto de princípios básicos codificados por Allan Kardec". Pela mesma lógica se pode afirmar também que é imprópria, ilegítima e abusiva a designação de cristãos adotada por pessoas, centros, terreiros ou outras entida­des que, mesmo quando legalmente autorizados a usar o título, não praticam a doutrina cristã.

Colocados pastoralmente diante dos movimentos espíritas (ou outros, que não faltam entre nós), é necessário que nos pergunte­mos honradamente qual é nosso objetivo. Temos dois campos bem diferentes: de um lado estão os sectários com seus métodos pro­selitistas, procurando penetrar no ambiente católico; de outro lado temos os próprios católicos mais ou menos facilmente vítimas desta propaganda sectária. A quem queremos dirigir-nos pastoralmente: aos propagadores da evocação e da reencarnação ou aos fiéis cat6­licos vítimas deste assalto? Do objetivo dependerá nosso método. Se não definimos previamente e com clareza a meta, ou se preten­demos alcançar uns e outros, animados com a benévola atitude de compreensão, de abertura e de diálogo com relação aos agressores, teremos uma ação pastoral híbrida, que produzirá nos fautores do erro grande alegria (pois lhes deixamos abertas todas as portas e ainda abrimos outras) e nos católicos um estado de confusão, deso­rientação e perplexidade ainda maior.

Desde o Concílio se insistiu muito no diálogo com os não-cat6­licos. Esta disposição de diálogo com os responsáveis do movimento espírita não deve jamais olvidar que sua ativa presença entre nossos fiéis tem um objetivo claro e definido, que certamente não é o de ajudar-nos a conseguir que sejam melhores cristãos católicos. O Documento de Puebla constata que "muitas seitas se têm mostrado clara e pertinazmente não só anti-católicas, mas até injustas contra a Igreja, e têm procurado minar seus membros menos esclarecidos. Devemos confessar com humildade que, em grande parte, até em determinados setores da Igreja, uma falsa interpretação do plura­lismo religioso permitiu a propagação de doutrinas errôneas e dis­cutíveis" (n. 80).

Por estes motivos nossa atitude pastoral há de dirigir-se em pri­meiro lugar diretamente às vítimas da propaganda espírita. Não podemos esquecer o grave fato da presença ativa, com claros pro­pósitos proselitistas, daquilo que o Senhor chamou "falsos profe­tas". Tem-se a impressão de que entre os mesmos pastores católicos já não há ambiente para recordar palavras como estas de Jesus: "Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7,15-16). Ou estas: "Então, se alguém vos dis­ser: 'Olha o Messias aqui', ou 'ali', não creiais. Pois hão de surgir falsos messias e falsos profetas, que apresentarão grandes sinais e prodígios, de modo a enganar até mesmo os eleitos, se possível. Eis que vo-lo predisse" (Mt 24,23-25). Daí a posterior advertência do Apóstolo: "Sede solícitos por vós mesmos e por todo o rebanho... Eu sei que, depois de minha partida, introduzir-se-ão entre vós lobos cruéis que não pouparão o rebanho, e que no meio de vós surgirão homens que farão discursos perversos com a finalidade de arrastar discípulos atrás de si" (At 20,28-30; ci. 2Ts 2,3-4; 2Pd 2,1-3 e todo o capo 13 do Ap). "Quem não entra pela porta do redil das ovelhas, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante" (10 10,1).

Não nego o alcance e o valor positivo do diálogo. Haverá situações concretas e objetivos pastorais que pedem dar absoluta preferência ao método e à atitude do diálogo: no verdadeiro ecume­nismo, quando há esperanças positivas de chegar a uma plena co­munhão, o diálogo será a via indispensável. Mas pode haver tam­bém situações concretas de defesa e de apologética: é precisamente o estado dos católicos indefesos, não suficientemente instruídos e preparados, constantemente molestados por importunos e falsos pro­fetas disfarçados como cristãos. O binômio apologética-diálogo não deve ser proposto em forma disjuntiva, "ou apologética ou diálogo", mas na forma conjuntiva, "e apologética e diálogo". Apologética será a atitude pastoral com os crentes vítimas da invasão das seitas; diálogo será a atitude pastoral com os não-católicos desejosos de encontrar a unidade perdida mandada pelo Senhor. Quando a situa­ção do agressivo proselitismo sectário nos obriga a recorrer ao método apologético ou defensivo, será também inevitável a polê­mica: diante da necessária atitude de defesa, o sectário reaciona; e esta reação pede muitas vezes resposta esclarecedora ou retifica­dora. Temos então a polêmica. Encontramo-la em Cristo, nos Após­tolos e nos melhores Santos Padres e Doutores da Igreja. "Este serviço dos pastores inclui o direito e o dever de corrigir e decidir, com a clareza e a firmeza que sejam necessários" (Puebla n. 249). "Em algumas ocasiões, falta a oportuna intervenção magisterial e profética do bispo, bem como maior coerência colegial" (ib. n. 678). O silêncio e a atitude de tolerância, por vezes, pode ser um pecado de omissão e ter como conseqüência uma grei desatendida e dis­persa. Devemos ser pastores. Pastores vigilantes. "O bom pastor dá a sua vida por suas ovelhas. O mercenário que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê o lobo aproximar-se, aban­dona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa" (10 10,11-12). No Apocalipse 2,13-16 diz o Senhor ao responsável da comunidade de Pérgamo: "Sei onde moras: é onde está o trono de Satanás. Tu, porém, seguras firmemente o meu nome, pois não renegaste a minha fé, nem mesmo nos dias de Antipas, minha testemunha fiel, que foi morto junto a vós, onde Satanás habita. Tenho, contudo, algu­mas reprovações a fazer: tens aí pessoas que seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balaq a lançar uma pedra de tropeço aos filhos de Israel, para que comessem das carnes sacrificadas aos ídolos e se prostituíssem. Do mesmo modo tens, também tu, pes­soas que seguem a doutrina dos nicolaítas. Converte-te, pois! Do contrário, virei logo contra ti para combatê-los com a espada de minha boca".

É certo que no Brasil o espiritismo não é nosso único pro­blema religioso. Infelizmente. Mas continua válida a constatação feita pelos bispos em 1953: que, no momento, o espiritismo ainda é o desvio doutrinário "mais perigoso", já que "nega não apenas uma ou outra verdade de nossa santa fé, mas todas elas, tendo, no entanto, a cautela de dizer-se cristão, de modo a deixar, a católicos menos avisados, a impressão erradíssima de ser possível conciliar catolicismo com espiritismo".

No Documento de Puebla os bispos latino-americanos sabem da existência, entre nós, de movimentos pararreligiosos que acei­tam uma realidade superior ("espíritos") com a qual pretendem comunicar-se para obter ajuda e normas de vida (n. 1105), pro­curando entrar em 'contato pessoal com aquele mundo da trans­cendência e do espiritual a fim de receber respostas para as neces­sidades concretas do homem (n. 1112). Pedem então os bispos que as comunidades católicas recebam informação e orientação sobre estes movimentos, particularmente acerca das "distorções que eles contêm para a vivência da fé cristã" (n. 1124).

Como ontem, também hoje é necessário oferecer aos fiéis os subsídios de que precisam para que possam cumprir aquele dever que o Concílio lhes recordava de defender com coragem a fé contra os erros que ameaçam inverter profundamente a vida cristã. Nu­merosos bispos, padres e leigos em apostolado me pediram esta ajuda. Não seria tão difícil: já escrevera tanto sobre o assunto. E como tudo está esgotado, sinto-me desimpedido para escolher e retomar o que me parece mais conveniente para a situação atual.

Com total desembaraço retomo antigos textos meus sem colocá-los entre aspas nem indicar sua origem. No Brasil de 1986, o espiri­tismo é exatamente igual que em 1960, quando publiquei a primeira edição de O espiritismo no Brasil. Refiro-me ao espiritismo de Kardec, porque no de umbanda houve complicações. A Fede­ração Espírita Brasileira, tutora do kardecismo, lança hoje as mes­mas obras de ontem, tendo-se tomado apenas mais intransigente com relação à umbanda. É, como diria Roger Bastide, um exem­plo típico de religião em conserva. Entrementes, na França, donde nos veio o kardecismo no século passado, houve mudanças essen­ciais, com um desfeche inesperado: em 1976 aRevue Spirite, fun­dada por Allan Kardec em 1858, mudou o título para Renaitre 2000. E a "Union Spirite Française" passou a ser "Union des Sociétés francophones pour I'investigation psychique et I'étude de Ia survivance" (USFIPES). Como se vê, a pr6pria palavra "espí­rita" foi banida. A inconcussa convicção de Allan Kardec acerca da sobrevivência se transformou em problema a ser ainda investi­gado. Eles lá, hoje, não concordam com a orientação que o espi­ritismo tomou no Brasil: "Inteiramente estagnado", preocupado "com o aspecto extraordinário dos fenômenos espíritas" e "com a moral evangélica e a caridade". Eles lá pretendem continuar a obra "como queria Allan Kardec", isto é: desvinculada de Cristo e da religião, para fazer apenas pesquisas psíquicas e estudar se de fato há sobrevivência. Começam agora por onde Allan Kardec deveria ter iniciado em 1855.

Para facilitar as citações e evitar a fastidiosa repetição dos títu­los das obras de Allan Kardec, usarei este sistema de siglas: AK significa sempre Allan Kardec, o número romano indica a obra e o número arábico a página. Estes são os títulos das obras de AK:

I. O livro dos espíritos (1857), 22ª - ed. da Federação Espí­rita Brasileira (FEB).

II. O que é o espiritismo (1859), 19ª - ed. da FEB.

III. O livro dos médiuns 0861), 20ª - ed. da FEB.

IV. O evangelho segundo o espiritismo (1864), 39ª - ed. da FEB.

V. O céu e o inferno (1865), 16ª - ed. da FEB.

VI. A gênese (1868), ed. da FEB de 1949.

VII. Obras póstumas, 10ª - ed. da FEB.

Assim, por exemplo, a citação "III, 347" significa: O livro dos médiuns, 20ª edição da Federação Espírita Brasileira, página 347.

I

O ESPIRITISMO

O Congresso Internacional de Espiritismo de 1925, reunido em Paris, aprovou unanimemente a proposta de erigir um monu­mento comemorativo em Hydesville, nos Estados Unidos, para co­memorar as primeiras manifestações espíritas, que tiveram lugar a 31 de março de 1848, nas pessoas das meninas irmãs Margarida e Catarina Fox. O monumento recebeu depois a seguinte inscrição:

- "Erigido a 4 de dezembro de 1927 pelos espiritistas de todo o mundo, em comemoração da revelação do espiritismo mo­derno em Hydesville, N. Y., a 31 de março de 1848, em home­nagem à mediunidade, base de todas as demonstrações sobre que se apóia o espiritismo. A morte não existe. Não há mortos".

Para recordar as irmãs Fox, gravaram numa lápide de mármore estas palavras: "Aqui nasceu o movimento espiritista moderno. Neste lugar estava, em Hydesville, a casa de habitação das irmãs Fox, cuja comunicação mediúnica com o mundo dos espíritos foi estabelecida a 31 de março de 1848. A morte não existe. Não há mortos. Esta lápide foi aqui colocada por Mme. Cadwallader".

No Congresso Internacional de Espiritismo de 1928, celebrado em Londres, os que a ele assistiram tiveram a satisfação de ouvir a narração das cerimônias que consagraram a inauguração daquele monumento oficial. De tudo isso somos informados por La Revue Spirite de novo de 1928, pp. 511-512, sob o título de "Um grande acontecimento na história do espiritismo".

Assim esta autorizada revista, fundada em 1858 por AlIan Kardec, e dois Congressos Internacionais de Espiritismo proclama­ram solene e oficialmente que a origem das práticas espíritas está nos fatos de Hydesville; que lá teve lugar a revelação do atual espiritismo; e que, portanto, o espiritismo se funda numa revelação positiva; que as irmãs Fox foram as primeiras a entrar em comu­nicação mediúnica com o mundo dos espíritos; e que dessas comu­nicações parte o movimento espírita moderno; que o monumento é uma homenagem oficial do espiritismo mundial à mediunidade; e que esta é o fundamento de todas as demonstrações em que se apóia o espiritismo.

Mas aqui no Brasil o espiritismo se diz "kardecista" e procla­ma que seu codificador oficial foi Allan Kardec; e que o dia 18 de abril de 1857, quando foi lançada a primeira edição de O livro dos espíritos, deve ser considerado como o dia da fundação do espiritismo.

Estudarei, por isso, neste primeiro capítulo: 1) como Allan Kardec se iniciou no espiritismo; 2) em que consiste a doutrina espírita difundida aqui no Brasil; 3) como esta doutrina se rela­ciona com a mensagem cristã; e 4) a forma dissidente do espiri­tismo de umbanda.

1. ALLAN KARDEC E SUA CODIFICAÇÃO DO ESPIRITISMO

1. Hippolyte Uon Denizard Rivail, mais conhecido por seu pseudônimo "AlIan Kardec", nasceu em Lião, França, no dia 3 de outubro de 1804, de família católica. Com a idade de 10 anos é enviado a Yverdun, Suíça, ao Instituto de Educação dirigido por João Henrique Pestalozzi. Lá ficou até 1822. O ambiente religioso daquele Instituto era protestante e liberal, que identificava religião com moralidade. Vai então a Paris. Já em 1824 publica um "Curso prático e teórico de aritmética segundo princípios de Pestalozzi, com modificações". Em 1825 funda e dirige uma escola primária. No ano seguinte estabelece sua Instituição Rivail, segundo o modelo que conhecera em Yverdun. Publicou vários livros pedagógicos e didáticos. De boa formação geral e cultural, era metódico, didá­tico, lógico e claro na exposição. Trabalhou ainda como contabi­lista. Sabia bem o alemão e o inglês, além do francês, o que o levou a ocupar-se também como tradutor. Em 1826 casou-se com a professora Amélie Gabrielle Boudet, nove anos mais velha que ele e de boa situação financeira. Não tiveram filhos. A partir de 1855 dedicou-se inteiramente ao espiritismo. Morreu no dia 31 de março de 1869, em Paris, com a idade de 65 anos incompletos.

2. Ainda jovem, em 1823, Rivail começou a interessar-se pelo "magnetismo animal", um movimento então em voga, chamado também "mesmerismo", porque criado pelo médico austríaco Francisco Antônio Mesmer (1733-1815), instalado em Paris desde 1778. Quando, em 1853, as "mesas girantes e dançantes", vindas dos Estados Unidos, invadiram a Europa, os mesmeristas ou magnetistas de Paris tomaram a si o estudo deste curioso fenômeno, tratando de explicá-lo com suas teorias "magnéticas" e "sonambúlicas". Em fins de 1854, o magnetista Fortier comunicou a Rivail o fenômeno das mesas dançantes que "falavam", isto é, respondiam mediante pan­cadas às perguntas feitas. Este fato mudaria completamente sua vida. Num manuscrito sobre "A minha primeira iniciação no espi­ritismo", publicado nas Obras póstumas, Rivail descreve os passos iniciais que o conduziram à codificação do espiritismo. Depois de presenciar pela primeira vez a dança da mesa na casa da Sra. Plai­nemaison, em maio de 1855, Rivail teve uma intuição fundamental (cito a 20ti edição da FEB):

- "Eu entrevia naquelas aparentes futilidades, no passatempo que faziam daquele fenômeno, qualquer coisa de sério, como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim estudar a fundo" (p. 267).

Naqueles dias, o Sr. Baudin, magnetista, organizara sessões se­manais em sua casa, com as duas filhas "sonâmbulas" (mais tarde cunhou-se a palavra "médium") e Rivail começou a participar nes­tas sessões. Sua intuição se fez mais clara:

- "Compreendi, antes de tudo, a gravidade da exploração que ia empreender; percebi, naqueles fenômenos, a chave do pro­blema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro da humanidade, a solução que eu procurara em toda a minha vida. Era, em suma, toda uma revolução nas idéias e nas crenças; fa­zia-se mister, portanto, andar com a maior circunspeção e não levianamente; ser positivista e não idealista, para não me deixar iludir" (p. 268).

3. A esta altura Rivail já aceitara a teoria da presença e atuação de "espíritos" ou falecidos nos movimentos das mesas, ces­tas e outros objetos usados pelos "sonâmbulos" dos "magnetizado­res". A idéia lhe fora sugerida diretamente por Carlotti, seu amigo há 25 anos. Não foi ele, por conseguinte, o descobridor. Eram idéias já amplamente ventiladas por aqueles anos nos Estados Uni­dos, sobretudo depois das famosas irmãs Fox, em 1848. Mas jáem 1847 aparecia nos Estados Unidos um livro mediúnico: The principles of nature, her divine revelations and a voice to mankind, através da mediunidade de Andrew Jackson Davis. Na própria França, também em 1847, Louis Alphonse Cahagnet, do grupo dos "magnetizadores" de Paris, publicava seu primeiro tomo de Arca­nes de Ia vie future dévoilés, com a descrição de experiências rea­lizadas com médiuns ("sonâmbulos" se dizia então). Em 1856, ainda antes da primeira obra de Allan Kardec, Cahagnet publicava as Révelations d'outre tombe, ditadas, segundo supunha, pelos fale­cidos Galileu, Hipócrates, Franklin e outros. Foi por causa do grupo de Cahagnet que, em 1856, quando ainda não se conhecia a palavra "espiritismo", a Santa Sé lembrava em documento espe­cial a proibição divina de "evocar as almas dos mortos e pretender receber suas respostas". O católico Rivail recebia uma clara e explícita exortação da Santa Sé.

O grupo de Carlotti, com Vitorien Sardou, Saint-René Taillan­dier, Pierre-Paul Didier e Tiedeman-Marthese, já havia constituído um verdadeiro centro "espírita", que trabalhava na casa de Roustan, com a "sonâmbula" (médium) Srta. Japhet e já tinha reunido cerca de 50 cadernos de comunicações diversas. Em 1856 Rivail passou a freqüentar também este centro. Levava para cada sessão uma série de questões preparadas e metodicamente dispostas, para as quais pedia e supunha receber respostas dos "espíritos".

No dia 25 de março de 1856, na casa de Baudin, sendo mé­dium uma das filhas, Rivail aceita a revelação de ter como guia um espírito chamado "A Verdade". Depois ficará sabendo que se tra­taria do próprio Espírito Santo, o Espírito da Verdade, que Jesus Cristo prometera enviar, como lemos no Evangelho segundo João:

"Tenho ainda muito a vos dizer, mas não podeis agora compreen­der. Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à ver­dade plena" (Jo 16,12-13). Mais tarde Rivail escreve esta nota acerca da importante revelação:

"A proteção desse espírito, cuja superioridade eu então estava longe de imaginar, jamais, de fato, me faltou. A sua solicitude, e a dos bons espíritos que agiam sob suas ordens, se manifestou em todas as circunstâncias da minha vida, quer a me remover difi­culdades materiais, quer a me facilitar a execução dos meus tra­balhos, quer, enfim, a me preservar dos efeitos da malignidade dos meus antagonistas, que foram sempre reduzidos à impotência. Se as tribulações inerentes à missão que me cumpria desempenhar não me puderam ser evitadas, foram sempre suavizadas e largamente compensadas por muitas satisfações morais gratíssimas" (p. 276).

No dia 12 de junho de 1856, o Espírito da Verdade lhe teria comunicado sua missão de reformador:

- "Previno-te de que é rude a tua missão, porquanto se trata de abalar e transformar o mundo inteiro" (p. 282).

4. Rivail começa a trabalhar intensamente sobre o material acumulado pelo grupo de Carlotti, e as respostas que ele mesmo recebera no centro de Roustan. Em seu depoimento pessoal publi­cado nas Obras p6stumas, informa acerca dos trabalhos preparató­rios de sua primeira grande obra espírita: "Foi assim que mais de dez médiuns prestaram concurso a esse trabalho. Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas e muitas vezes remodeladas no silêncio da meditação, foi que elaborei a pri­meira edição de O livro dos espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril de 1857" (pp. 270-271).

Este dia 18 de abril de 1857 é considerado pelos espíritas como dia da fundação do espiritismo.

É a obra fundamental da codificação da doutrina espiritista, com o seguinte subtítulo: "Princípios da doutrina espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da humanidade, segundo os ensinos dados por espíritos superiores com o concurso de diversos médiuns, recebidos e coordenados por Allan Kardec".

5. Allan Kardec é o pseudônimo usado por Rivail.

A partir daquele dia 18 de abril de 1857 desaparece o Sr. Hippolyte Uon Denizard Rivail, para dar lugar a Allan Kardec. Este teria sido seu nome ao tempo dos druidas, em encarnação anterior. Numa carta a Tiedeman, de 27-10-1857, Rivail explica assim seu pseudônimo: "Duas palavras ainda a propósito do pseu­dônimo. Direi primeiramente que neste assunto lancei mão de um artifício, uma vez que dentre 100 escritores há sempre 3/4 que não são conhecidos por seus nomes verdadeiros, com a só diferença de que a maior parte toma apelidos de pura fantasia, enquanto que o pseudônimo Allan Kardec guarda uma certa significação, po­dendo eu reivindicá-lo como próprio em nome da doutrina. Digo mais: ele engloba todo um ensinamento cujo conhecimento por parte do público reservo-me o direito de protelar... Existe, aliás, um motivo que a tudo orienta: não tomei esta atitude sem consultar os espíritos, uma vez que nada faça sem lhes ouvir a opinião. E isto o fiz por diversas vezes e através de diferentes médiuns, e não somente eles autorizaram esta medida, como também a apro­varam".

Notemos uma vez mais a data da publicação da obra fundante do espiritismo: 18-4-1857. Recordemos também que Rivail come­çou a ocupar-se com as novas revelações em maio de 1855. Por­tanto o tempo de coleção, estudo, coordenação e "remodelação no silêncio da meditação" de todo o material acumulado não durou nem dois anos. É certo que aquela primeira edição de 1857 foi depois "inteiramente refundida e consideravelmente aumentada" para a segunda edição, publicada em março de 1860, que é até hoje o texto definitivo da codificação espírita.

6. É preciso assinalar também que Rivail não era nenhum especialista em matéria de religião e muito menos em teologia. Em­bora fosse católico (foi batizado numa igreja católica no dia 15-6­1805), recebeu uma formação religiosa do tipo protestante-liberal no Instituto do calvinista Pestalozzi, inteiramente avesso aos prin­cípios (dogmas) da fé cristã, contentando-se "com uma religião na­tural, com um deísmo filosófico à Rousseau, com um cristianismo racionalista", no dizer de seu biógrafo Gabriel Compayré, citado por Zeus Wantuil em Allan Kardec (vol. I, p. 70). Nas críticas constantes que Rivail depois fará, já agora como "Allan Kardec", à doutrina da Igreja, é fácil perceber que ele desconhecia a reflexão teológica sistemática séria sobre a fé cristã. Ele aceitará sem maiores escrúpulos mensagens "do além", como esta recebida no dia 30-9­1863 e reproduzida em suasObras póstumas:

- "É chegada a hora em que a Igreja tem de prestar contas do depósito que lhe foi confiado, da maneira por que pratica os ensinos de Cristo, do uso que fez da sua autoridade, enfim, do estado de incredulidade a que levou os espíritos. A hora é vinda em que ela tem que dar a César o que é de César e de assumir a responsabilidade de todos os seus atos. Deus a julgou e a reconhe­ceu inapta, daqui por diante, para a missão de progresso que incum­be a toda autoridade espiritual. Somente por meio de uma trans­formação absoluta lhe seria possível viver; mas, resignar-se-á ela a essa transformação? Não, pois que já não seria a Igreja; para assimilar as verdades e as descobertas da ciência, teria de renunciar aos dogmas que lhe servem de fundamentos; para volver à prática rigorosa dos preceitos do Evangelho, teria de renunciar ao poder, à dominação, de trocar o fausto e a púrpura pela simplicidade e a humildade apostólicas. Ela se acha nesta alternativa: ou se suicida, transformando-se, ou sucumbe nas garras do progresso, se perma­necer estacionária" (p. 310).

7. O espiritismo, tal como foi codificado por Allan Kardec, surgiu claramente como movimento oposto à Igreja. No dia 15 de abril de 1860 um "espírito" comunica a Allan Kardec:

- "O espiritismo é chamado a desempenhar imenso papel na terra. Ele reformará a legislação ainda tão freqüentemente con­trária às leis divinas; retificará os erros da história; restaurará a religião de Cristo que se tomou, nas mãos dos padres, objeto de comércio e de tráfico vil; instituirá a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai diretamente a Deus, sem se deter nas franjas de uma sotaina, ou nos degraus de um altar..." (p. 299).

E no dia 9 de agosto de 1863 recebe Kardec este aviso "do além":

- "Aproxima-se a hora em que te será necessário apresentar o espiritismo qual ele é, mostrando a todos onde se encontra a verdadeira doutrina ensinada pelo Cristo. Aproxima-se a hora em que, à face do céu e da terra, terás de proclamar que o espiritismo é a única tradição verdadeiramente cristã e a única instituição ver­dadeiramente divina e humana" (p. 308).

8. O espiritismo se apresenta como "terceira revelação". A primeira, dizem os espíritas, veio por Moisés; a segunda por Jesus Cristo; e a terceira através dos "espíritos", principalmente do "Espí­rito da Verdade", o "Consolador" prometido por Jesus (cf. Jo 16,12-13 ), que teria sido o espírito guia de Allan Kardec, segundo a mensagem que ele teria recebido a 25-3-1856, ou, como lhe foi revelado no dia 14-9-1863: "Nossa ação, principalmente a do Es­pírito da Verdade, é constante ao teu derredor e tal que não a podes negar" (p. 309).

De fato, Allan Kardec, em A gênese, cap. I, sobre o caráter da revelação espírita, sustenta ser o espiritismo "a terceira das gran­des revelações" (n. 20). Segundo ele, a primeira, de Moisés, reve­lou aos homens a existência de um Deus único e os dez manda­mentos (n. 21); a segunda, de Cristo, mostrou que Deus não é o Deus terrível, ciumento e vingativo de Moisés; e revelou a imorta­lidade da alma e a vida futura (n. 22-25). Continua então Allan Kardec, no n. 26:

- "Entretanto, o Cristo acrescenta: 'Muitas das coisas que vos digo agora ainda não as compreendeis e muitas outras teria a dizer, que não compreenderíeis; por isso é que vos falo por pará­bolas; mais tarde, porém, enviar-vos-ei o Consolador, o Espírito de Verdade, que restabelecerá todas as coisas e vo-las explicará todas' (S. João, caps. XIV, XVI; S. Mat., capo XVII)".

Observe-se que esta citação é inexata e, como tal, não se en­contra em parte nenhuma dos Evangelhos. Nem consta que Jesus teria dito que o Espírito da Verdade "restabelecerá todas as coisas". Esta afirmação foi feita por Jesus com relação a Elias (cf. Mt 17,11). Da arbitrária citação feita, conclui Allan Kardec:

- "Se o Cristo não disse tudo quanto poderia dizer, é que julgou conveniente deixar certas verdades na sombra, até que os homens chegassem ao estado de compreendê-las. Como ele próprio o confessou, seu ensino era incompleto, pois anunciava a vinda da­quele que o completaria; previra, pois, que suas palavras não se­riam bem interpretadas, e que os homens se desviariam do seu ensino; em suma, que desfariam o que ele fez, uma vez que todas as coisas hão de ser restabelecidas: ora, só se restabelece aquilo que foi desfeito".

Mais adiante, no n. 42, Allan Kardec garante aos seus leitores:

- "O espiritismo realiza todas as promessas do Cristo a respeito do Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito da Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a promessa da sua vinda se acha por essa forma cumprida, porque, de fato, é ele o verdadeiro Consolador".

O espiritismo seria, por conseguinte, o Consolador.

A verdade, porém, é que a promessa de Jesus acerca do Espí­rito da Verdade não foi tão vaga para um futuro tão incerto e distante. Jesus se dirigia diretamente aos Apóstolos que estavam então com ele na última ceia: "Rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre, o Espí­rito da Verdade... O Paráclito, o Espírito, que o Pai enviará em meu nome, é que vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse" (10 14,16-17.26). E pouco antes de sua ascensão man­dou aos Apóstolos: "Eis que eu vos enviarei o que meu Pai prometeu ­do Alto" (Lc 24,49). E lhes disse ainda: "O Espírito Santo des­cerá sobre vós e dele recebereis força" (At 1,8). Alguns dias depois, na festa de Pentecostes, quando estavam reunidos na sala de Jerusalém, "de repente veio do céu um ruído semelhante ao soprar de impetuoso vendaval, e encheu toda a casa onde se acha­vam. E apareceram umas como línguas de fogo, que se distribuí­ram e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo" (At 2,1-4).

Era a vinda do Espírito da Verdade.

9. O espiritismo tem a pretensão de ser religião. Já vimos a comunicação ("do além") do dia 9-8-1863, proclamando que "o espiritismo é a única tradição verdadeiramente cristã e a única instituição divina e humana". Vimos também a comunicação, sem­pre "do além", de 15-4-1860, segundo a qual o espiritismo "insti­tuirá a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai diretamente a Deus, sem se deter nas franjas de uma sotaina, ou nos degraus de um altar".

No dia 1º de novembro de 1863, Allan Kardec fez na Socie­dade Parisiense de Estudos Espíritas um discurso sobre o tema: "É teu. Por isso permanecei nesta cidade. até serdes revestidos da força o Espiritismo uma Religião?" (reproduzido em Reformador, março de 1976, pp. 78-82). Apresentou então um resumo da Doutrina Espírita, terminando com estas palavras:

- "Eis o Credo, a religião do espiritismo, religião que pode conciliar-se com todos os cultos, isto é, com todas as maneiras de adorar a Deus. Esse é o laço que deve unir todos os espíritas numa santa comunhão de pensamentos, enquanto se espera que ele ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal".

Aqui no Brasil, a Federação Espírita, por seu Conselho Nacio­nal, em sua reunião de 5-7-1952, declarou oficialmente e por una­nimidade que "o espiritismo é religião". Em outra oportunidade a mesma Federação fez esta declaração:

- "Os espíritas do Brasil, reunidos no II Congresso Espírita Internacional Panamericano, com expressões de maior respeito à liberdade de pensamento e de consciência, afirmam que, no Brasil, a Doutrina Espírita, sem prejuízo de seus aspectos científicos e filo­sóficos, é fundamentada no Evangelho de Cristo, certo de ser o Consolador Prometidode que nos falam aqueles mesmos Evange­lhos. Por isso é que nós outros, que vivemos no Brasil ligados à doutrina espírita, consideramo-la a religião".

No prefácio ao livro Religião, de Carlos Imbassahy (de 1944; cito a edição de 1982, da FEB), escrevia o Sr. Guillon Ribeiro, então presidente da Federação Espírita Brasileira:

- "Surgindo, como dissemos, em cumprimento de uma das promessas do Cristo, que personifica a única Igreja verdadeiramente universal, o espiritismo é, sem dúvida, a revivescência do vero cris­tianismo, agora desempecido de todos os véus da letra, de todas as obscuridades do mistério, do manto maravilhoso do milagre, as três principais geratrizes dos dogmas. Nenhuma outra doutrina, con­seqüentemente, lhe pode disputar a qualidade de religião. Tão pre­dominante é nele essa qualidade, que não há tê-lo por 'uma' reli­gião, mas como 'a' religião, no mais lato sentido do vocábulo".

O atual presidente da Federação, o Sr. Francisco Thiesen, in­siste, na obra Allan Kardec, vol. III, 1982, p. 53:

- "Os que se atêm ao fato de que o espiritismo é a religião - não apenas mais uma religião - sabem, como sabia o insigne Allan Kardec, que é de todo intolerável, além de contraproducente, pretender competir com qualquer das religiões - manifestações frag­mentárias da revelação -, pois o espiritismo em verdade as abrange".

Assim leio no órgão oficial da Federação Espírita Brasileira, Reformador, junho de 1979, p. 19: "Não há fugir: se o espiritismo, na conceituação de seu Codificador, realiza todas as promessas do Cristo a respeito do Consolador, vindo até a completar o ensino do Cristo, e se o grande intérprete do sentir das entidades espiri­tuais nos assevera que o espiritismo evangélico é o Consolador, ilógico seria, portanto, que não aceitássemos o espiritismo como religião" .

2. A DOUTRINA ESPÍRITA

Pouco antes de sua morte, em março de 1869, vivamente preocupado por um "formulário de profissão de fé, circunstanciado e claramente expresso", Allan Kardec iniciou a elaboração de um texto com o título: "Credo espírita". Chegou a escrever o preâm­bulo, que termina assim: "São inúmeras as questões que ele (o espiritismo) envolve, as quais, no entanto, podem resumir-se nos pontos seguintes que, considerados verdades inconcussas, formam o programa das crenças espíritas". Deixou redigido ainda este título: "Princípios fundamentais da doutrina espírita, reconhecidos como verdades inconcussas". E então morreu.

Mas a doutrina espírita existe: está nas obras de Allan Kardec. Segundo as determinações do Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira (1985), cada estatuto de uma instituição espírita deve consignar esta finalidade: "O estudo, prática e divul­gação da doutrina espírita como religião, filosofia e ciência, nos moldes da codificação de Allan Kardec". E propõe um modelo de estatuto, no qual se determina assim a primeira finalidade: "Estu­dar o espiritismo e propagar ilimitadamente seus ensinamentos dou­trinários, por todos os meios que oferece a palavra escrita, falada e exemplificada de conformidade dos métodos estabelecidos na codi­ficação de Allan Kardec e nas obras subsidiárias".

Na introdução a O livro dos espíritos, o mesmo Allan Kardec ensaiou um resumo dos pontos principais da doutrina espírita. Eis as unidades mais expressivas deste resumo:

1. "Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, so­beranamente justo e bom. Criou o universo, que abrange todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais. Os seres mate­riais constituem o mundo visível ou corpóreo, e os seres imateriais, o mundo invisível ou espírita, isto é, dos espíritos. O mundo espí­rita é o mundo normal, primitivo, eterno, preexistente e sobrevivente a tudo. O mundo corporal é secundário; poderia deixar de existir, ou não ter jamais existido, sem que por isso alterasse a essência do mundo espírita".

2. "Os espíritos revestem temporariamente um invólucro ma­terial perecível, cuja destruição pela morte lhes restitui a liberdade.

Entre as diferentes espécies de seres corpóreos, Deus escolheu a espécie humana para a encarnação dos espíritos que chegaram a certo grau de desenvolvimento, dando-lhes superioridade moral e intelectual sobre as outras. A alma é um espírito encarnado, sendo o corpo apenas o seu envoltório".

3. "Há no homem três coisas: 1ª) o corpo ou ser material análogo aos animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2ª) a alma ou ser imaterial, espírito encarnado no corpo; 3ª) o laço que prende a alma ao corpo, princípio intermediário entre a ma­téria e o espírito. Tem assim o homem duas naturezas: pelo corpo, participa da natureza dos animais, cujos instintos lhe são comuns; pela alma, participa da natureza dos espíritos. O laço ou peris­pírito, que prende ao corpo o espírito, é uma espécie de envol­tório semi-material. A morte é a destruição do invólucro mais gros­seiro. O espírito conserva o segundo, que lhe constitui um corpo etéreo, invisível para nós no estado normal, porém que pode tor­nar-se acidentalmente visível e mesmo tangível, como sucede no fenômeno das aparições. O espírito não é, pois, um ser abstrato, indefinido, só possível de conceber-se pelo pensamento. É um ser real, circunscrito, que, em certos casos, se torna apreciável pela vista, pelo ouvido e pelo tato".

4. "Os espíritos pertencem a diferentes classes e não são iguais nem em poder, nem em inteligência, nem em saber, nem em moralidade. Os da primeira ordem são os espíritos superiores, que se distinguem dos outros pela sua perfeição, seus conhecimentos, sua proximidade de Deus, pela pureza de seus sentimentos e por seu amor do bem: são os anjos ou puros espíritos. Os das outras classes se acham cada vez mais distanciados dessa perfeição, mos­trando-se os das categorias inferiores, na sua maioria, eivados das nossas paixões: o ódio, a inveja, o ciúme, o orgulho etc. Compra­zem-Se no mal. Há também, entre os inferiores, os que não são nem muito bons nem muito maus, antes perturbadores e enreda­dores, do que perversos. A malícia e as inconseqüências parecem ser o que neles predomina. São espíritos estúrdios ou levianos".

5. "Os espíritos não ocupam perpetuamente a mesma cate­goria. Todos se melhoram passando pelos diferentes graus da hie­rarquia espírita. Esta melhora se efetua por meio da encarnação, que é imposta a uns como expiação, a outros como missão. A vida material é uma prova que lhes cumpre sofrer repetidamente, até que hajam atingido a absoluta perfeição moral. Deixando o corpo, a alma volve ao mundo dos espíritos, donde saíra, para passar por nova existência material, após um lapso de tempo mais ou menos longo, durante o qual permanece em estado de espírito errante".

6. "Tendo o espírito que passar por muitas encarnações, se­gue-se que todos nós temos tido muitas existências e que teremos ainda outras, mais ou menos aperfeiçoadas, quer na Terra, quer em outros mundos. A encarnação dos espíritos se dá sempre na espécie humana; seria erro acreditar-se que a. alma ou espírito possa encarnar no corpo de um animal. As diferentes existências corpó­reas do espírito são sempre progressivas e nunca regressivas; mas a rapidez do seu progresso depende dos esforços que faça para chegar à perfeição".

7. "Os espíritos encarnados habitam os diferentes globos do universo. Os não-encarnados ou errantes não ocupam uma região determinada e circunscrita; estão por toda parte no espaço e ao nosso lado, vendo-nos e acotovelando-nos de contínuo. É toda uma população invisível, a mover-se em tomo de nós. Os espíritos exercem incessante ação sobre o mundo moral e mesmo sobre o mundo físico. Atuam sobre a matéria e sobre o pensamento e constituem uma das potências da natureza, causa eficiente de uma multidão de fenômenos até então inexplicáveis ou mal explicados e que não encontram explicação racional senão no espiritismo".

8. "As relações dos espíritos com os homens são constantes. Os bons espíritos nos atraem para o bem, nos sustentam nas pro­vas da vida e nos ajudam a suportá-las com coragem e resignação. Os maus nos impelem para o mal: é-lhes um gozo ver-nos sucumbir e assemelhar-nos a eles. As comunicações dos espíritos são ocultas ou ostensivas. As ocultas se verificam pela influência boa ou má que exercem sobre nós, à nossa revelia. Cabe ao nosso juízo discer­nir as boas das más inspirações. As comunicações ostensivas se dão por meio da escrita, da palavra ou de outras manifestações materiais, quase sempre pelos médiuns que lhes servem de instru­mentos".

9. "Os espíritos se manifestam espontaneamente ou mediante evocação. Podem evocar-se todos os espíritos: os que animaram homens obscuros, como os das personagens mais ilustres, seja qual for a época em que tenham vivido; os de nossos parentes, amigos ou inimigos, e obter-se deles, por comunicações escritas ou verbais, conselhos, informações sobre a situação em que se encontram no além, sobre o que pensam a nosso respeito, assim como as revela­ções que lhes sejam permitidas fazer-nos".

10. "Os espíritos são atraídos na razão da simpatia que lhes inspire a natureza moral do meio que os evoca. Os espíritos supe­riores se comprazem nas reuniões sérias, onde predominam o amor do bem e o desejo sincero, por parte dos que as compõem, de se instruírem e melhorarem. A presença deles afasta os espíritos infe­riores que, inversamente, encontram livre acesso e podem obrar com toda a liberdade entre pessoas frívolas ou impelidas unicamente pela curiosidade e onde quer que existam maus instintos. Longe de se obterem bons conselhos, ou informações úteis, deles só se devem esperar futilidades, mentiras, gracejos de mau gosto, ou mistifica­ções, pois que muitas vezes tomam nomes venerados, a fim de melhor induzirem ao erro".

11. "A moral dos espíritos superiores se resume, como a do Cristo, nesta máxima do Evangelho: fazer aos outros o que quereríamos que os outros nos fizessem, isto é, fazer o bem e não o mal. Neste princípio encontra o homem uma regra universal de proceder, mesmo para as suas menores ações. Ensinam-nos (...) não haver faltas irremissíveis, que a expiação não possa apagar. Meio de consegui-lo encontra o homem nas diferentes existências que lhe permitem avançar, conformemente aos seus desejos e esfor­ços, na senda do progresso, para a perfeição, que é o seu destino final".

Este resumo, compendiado pelo próprio AK, de fato nos apre­senta uma concepção centrada em Deus e, sobretudo nos espíritos. Tanta é a importância conferida aos espíritos que, com razão, se pode qualificar o conjunto desta doutrina como "espiritismo". Assim, com efeito, o entendia seu codificador, já na primeira alínea da introdução a O livro dos espíritos:

- "Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem para evitar a confusão ine­rente à variedade de sentidos das mesmas palavras. Os vocábulos espiritual, espiritualista, espiritualismo têm acepção bem definida. Dar-lhes outra, para aplicá-los à doutrina dos espíritas, fora multi­plicar as causas já numerosas de anfibologia. Com efeito, o espiri­tualismo é o oposto do materialismo. Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria é espiritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez da palavra espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar a crença a que vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria. Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os espi­ritistas”.

É importante esta precisão no uso das palavras e a fundamen­tal diferença entre "espiritualismo" e "espiritismo". No vocabulário espírita, elaborado por AK e publicado no final de O livro dos médiuns, o codificador repete os mesmos conceitos:

- "Espírita: o que tem relação com o espiritismo; adepto do espiritismo; aquele que crê nas manifestações dos espíritos".

- "Espiritismo: doutrina fundada sobre a crença na existência dos espíritos e em suas manifestações".

- "Espiritualista: o que se refere ao espiritualismo; adepto do espiritualismo. O espiritualista aquele que acredita que em nós nem tudo é matéria, o que de modo algum implica a crença nas manifestações dos espíritos. Todo espírita é necessariamente espiritualista, mas pode-se ser espiritualista sem se ser espírita".

Em que consiste, pois, a diferença? O "espírita" admite não só a existência de espíritos (nisso coincide com o "espiritualista"), mas acredita também na sua manifestação.

Entretanto, aqui se faz necessário ulterior esclarecimento: tam­bém os cristãos, que evidentemente são espiritualistas, aceitam a manifestação dos espíritos, mas nem por isso gastariam de ser qua­lificados coma "espíritas". Há, pois, ambigüidade na expressão "ma­nifestação dos espíritos". O próprio AK costuma insistir na distin­ção entre manifestações espontâneas e manifestações "provocadas mediante a evocação" (veja-se, por exemplo, no n. 9 do elenco de doutrinas acima reproduzido). Os cristãos admitem sem dificuldade as manifestações espontâneas, mas se negam a aceitar as provo­cadas mediante a evocação, como veremos nas páginas 50ss.

Por conseguinte, o espiritismo se especifica, caracteriza e define por sua aceitação das manifestações provocadas (evocação) dos espíritos. Espírita é todo espiritualista que admite a prática da evocação dos falecidos.

3 DOUTRINA ESPÍRITA E MENSAGEM CRISTÃ

No Brasil, o movimento criado por AK é mantido e divulgado pela Federação Espírita Brasileira, fundada em 1884, que a pro­põe sistematicamente não apenas como "a religião", mas também como "espiritismo cristão" (sua revista oficial, Reformador, que começou em 1883, então como "órgão evolucionista", se apresenta agora no subtítulo como "Revista do Espiritismo Cristão").

Embora o próprio AK jamais tenha usado esta expressão, to­mada de J. B. Roustaing (1865), ofereceu-lhe, no entanto, um bom fundamento para isso quando proclamou que a espiritismo é a reali­zação das promessas de Jesus Crista acerca do Consolador e a apresentou como "a Terceira Revelação"; e quando endossou este "aviso do além", recebido no dia 9-8-1863: "Aproxima-se a hora em que te será necessário apresentar o espiritismo qual ele é, mos­trando a todos onde se encontra a verdadeira doutrina ensinada pelo Cristo. Aproxima-se a hora em que, à face do céu e da terra, terás de proclamar que o espiritismo é a única tradição verdadeiramente cristã e a única instituição verdadeiramente divina e humana" (cf. sua Obras póstumas, 20ª - ed., p. 308); ou quando aceitou esta pro­fecia recebida no dia 15-4-1860: "O espiritismo... restaurará a religião de Cristo" (ib., p. 299). Em O Evangelho segundo o espi­ritismo (cito agora a 90ª - ed., p. 59) escreve AK: "Assim como o Cristo disse: 'Não vim destruir a lei, porém cumpri-la', também o espiritismo diz: não venho destruir a lei cristã, mas dar-lhe exe­cução. Nada ensina em contrário ao que ensinou o Cristo". Seme­lhantes afirmações são comuns entre os espíritas e pode ser que sejam sinceras, mas mostram um desconhecimento profundo da doutrina do Evangelho segundo Mateus, Marcos, Lucas e João e segundo o ensinamento apostólico contida em suas cartas. O Re­formador, órgão oficial do nosso kardecismo, de março de 1981, num artigo sobre a missão do Consolador (que seria o Espírito Santo segundo o Evangelho de são João), conclui: "É missão, pois, do espiritismo devolver ao cristianismo a sua pureza original, liber­tando-o dos dogmas e das idéias humanas nele introduzidas" (p. 85).

Veremos agora como se fez esta fundamental operação liber­tadora:

1. A revelação divina

Para a generalidade dos cristãos de todos os tempos, sejam eles católicos, ortodoxos ou protestantes, os livros da Sagrada Escritura são divinamente inspirados. É um princípio inconcusso ("dogma") dos cristãos. No credo espírita de AK não entra este ponto funda­mental. Jamais a afirma em nenhuma de suas obras. Mas com freqüência se compraz em mostrar o que ele considera absurdos e contradições da Bíblia. No órgão oficial da Federação Espírita Brasileira, Reformador, janeiro de 1953, p. 23, encontramos a po­sição bem definida dos nossos espíritas perante a Bíblia: "Do Velho Testamento já nos é recomendado somente o Decálogo e do Novo Testamento apenas a moral de Jesus; já consideramos de valor secundário, ou revogado e sem valor algum, mais de 90% do texto da Bíblia. Só vemos na Bíblia toda um livro respeitável pelo seu valor cultural, pela força que teve na formação cultural dos povos de Ocidente". Vem de AK dizer que do Antigo Testamento só se aceita como de origem divina o Decálogo (rv, 42). Falando de escritos apostólicos do Novo Testamento, escreve AK: "Todos os escritos posteriores (aos Evangelhos), sem exclusão dos de S. Paulo, são apenas, e não podem deixar de ser, simples comentários ou apreciações, reflexos de opiniões pessoais, muitas vezes contraditó­rias que, em caso algum, podem ter a autoridade da narrativa dos que receberam diretamente do Mestre as instruções" (VII, 110). Esta posição negativa reaparece com freqüência na literatura espírita brasileira. Assim, por exemplo, Carlos Imbassahy, em À margem do espiritismo (2ª - ed.), esclarece que "em matéria de escritura, os espíritas, no a que se referem, é tão unicamente aos Evangelhos. Não os apresentam, porém, como prova, senão como fonte de luz subsidiária, elemento de reforço" (p. 126). Pois "nem a Bíblia prova coisa nenhuma, nem temos a Bíblia como probante. O espi­ritismo não é um ramo do cristianismo como as demais seitas cris­tãs. Não assenta os seus princípios nas escrituras. Não rodopia junto à Bíblia. A nossa base é o ensino dos espíritos, daí o nome - espiritismo" (p. 219).

2. A doutrina sobre Deus

Os conceitos de AK sobre a existência de Deus e seus atri­butos coincidem de fato com a doutrina cristã. Duas vezes, em seus escritos, AK se refere expressamente ao panteísmo, para rejei­tá-lo (I, 53; VII, 179). E contra os panteístas chega a afirmar positivamente uma nítida distinção entre Deus e o Universo, acusan­do o panteísmo de "confundir o Criador com a criatura"; e, por isso, declara inequivocamente: "As obras de Deus não são o pró­prio Deus" (I, 54). Não obstante, por vezes tem expressões com sabor panteísta. Assim quando diz que "ignoramos" se a inteligên­cia é uma "emanação da Divindade" (I, 56); ou quando o "fluido universal" toma qualidades panteístas; ou quando esclarece que os espíritos "se acham mergulhados no fluido divino" (VI, 63). Já Leão Denis, outro patriarca do espiritismo, então membro da equipe de codificação da doutrina espírita, resvalou para um evidente mo­nismo panteísta. Segundo seu modo de falar, "Deus é a grande alma universal, de que toda alma humana é uma centelha, uma irradiação.

Cada um de nós possui, em estado latente, forças emanadas do divino foco" (assim em Cristianismo e espiritismo, 5ª - ed., p. 246). Fala com freqüência de Deus como "divino foco", "supremo foco do bem e do belo", "o grande foco divino" etc. Também em outra obra sua, Depois da morte, 6ª - ed., voltam expressões panteísticas: "Deus é infinito e não pode ser individualizado; isto é, separado do mundo, nem subsistir à parte" (p. 114); ou: "o Ser supremo não existe fora do mundo, porque este é a sua parte integrante e essencial" (p. 124). Em vez do "Deus fantástico da Bíblia", ele quer o "Deus imanente, sempre presente no seio das coisas" (p. 213): "O universo não é mais essa criação, essa obra tirada do nada de que falam as religiões. É um organismo imenso animado de vida eterna" (p. 123); e em seguida explica que Deus está para o uni­verso como a alma para o corpo: "O eu do universo é Deus" (p. 349).

3 . A Santíssima Trindade

Todos os cristãos - católicos, ortodoxos e protestantes ­professam sua fé na Santíssima Trindade. É o mistério central da fé e mensagem cristã, desde os primórdios do cristianismo. Mas o credo espírita proposto por AK desconhece totalmente a Santíssima Trindade. A posição de AK, no conjunto de suas obras, é de absoluto e sistemático silêncio com relação a esta doutrina cristã. Seu silêncio era apenas oportunista. Na realidade, em seu sistema de pensamento não cabia este mistério cristão, não s6 porque para ele "absolutamente não há mistérios" (VII, 201), mas porque não há lugar para uma intensa vida divina intratrinitária, dado que, segundo AK, o Deus que não cria incessantemente, desde toda a eternidade, seria um Deus solitário e ocioso (cf. I, 56; VI, 107). Mas se AK julgou mais oportuno não negar abertamente o mistério trinitário, seus seguidores não compartilham este ponto de vista. Já Leão Denis, em Cristianismo e espiritismo, p. 74, abre sua crítica dos nossos principais dogmas com estas palavras: "Começa com a estranha concepção do Ser divino, que se resolve no mistério da Trindade". Depois explica: "A noção da Trindade, colhida numa lenda hindu que era a expressão de um símbolo, veio obscurecer e desnaturar essa alta idéia de Deus... Essa concepção trinitária, tão incompreensível, oferecia, entretanto, grande vantagem às pre­tensões da Igreja. Permitia-lhe fazer de Jesus Cristo um Deus" (p. 75). No Brasil, o espiritismo em peso ou desconhece ou nega a Santíssima Trindade.

4. A doutrina sobre Jesus

Professam os cristãos que Jesus é verdadeiramente Deus e ver­dadeiramente homem. A afirmação da divindade de Jesus é funda­mental para a fé cristã. Mas este Jesus não entra no credo espírita formulado por AK. Ele nos deixou entre suas Obras póstumas um "Estudo sobre a natureza de Cristo", de 41 páginas, todo ele ten­denciosamente orientado para provar que Jesus não era Deus. Com este objetivo nega, sucessivamente, o valor dos milagres, das pala­vras de Jesus, da opinião dos Apóstolos e das profecias messiâ­nicas. Mas nos dias de AK surgiu um advogado de Bordéus cha­mado João Batista Roustaing, que teve seu primeiro contato com o espiritismo em 1861 e em 1865 publicou sua obra: "Espiritismo cristão ou Revelação da Revelação", em três volumes. Sua tese central: o corpo de Jesus não era real, de carne e osso, mas apa­rente e meramente fluídico. Repetia o docetismo do primeiro século cristão. Sua tese não foi aceita por AK. Mas no Brasil a Fede­ração Espírita, desde sua fundação, propaga a obra de Roustaing. Bittencourt Sampaio, Sayão, Bezerra de Menezes, Guillon Ribeiro e outros conhecidos dirigentes da Federação Espírita são rusteinistas professos. Guillon Ribeiro, que foi presidente da Federação em 1920-1921 e de 1930 a 1943 e tradutor das obras de AK, com­pendiou a cristologia espírita no título que deu ao livro: Jesus, nem Deus nem homem, reeditado e divulgado pela Federação Espírita.

5. A doutrina sobre a redenção

"É pelo sangue de Jesus Cristo que temos a redenção, a remis­são dos pecados, segundo a riqueza de sua graça que ele derramou profusamente sobre nós", explicava são Paulo aos efésios (1,7). Nossa redenção pela paixão, morte e ressurreição de Jesus é outra verdade fundamental da fé cristã. Nisso consiste propriamente a "boa nova" ou o "evangelho". Mas nem esta verdade tão central entra no credo espírita de AK. Segundo ele cada um deve ser seu próprio redentor através do sistema das reencarnações. Por isso no espiritismo a soteriologia (ou doutrina sobre a redenção ou salva­ção do homem) é deslocada da cristologia para a antropologia. Leão Denis o enuncia cruamente quando escreve: "Não, a missão de Cristo não era resgatar com o seu sangue os crimes da huma­nidade. O sangue, mesmo 'de um Deus, não seria capaz de resgatar ninguém. Cada qual deve resgatar-se a si mesmo, resgatar-se da ignorância e do mal. É o que os espíritos, aos milhares, afirmam em todos os pontos do mundo" (Cristianismo e espiritismo, p. 88). E o Reformador, órgão máximo da propaganda reencarnacionista no Brasil, ensina em seu número de outubro de 1955 (p. 236): "A salvação não se obtém por graça nem pelo sangue derramado por Jesus no madeiro", mas "a salvação é ponto de esforço indi­vidual que cada um emprega, na medida de suas forças". Daí esta doutrina de AK: "Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se não for em uma existência, sê-lo-á na seguinte ou seguintes" (V, 88). Ele reconhece a neces­sidade e o valor do arrependimento; mas este arrependimento não basta ao pecador para obter o perdão divino. Segundo ele, a con­trição é apenas o início da expiação e tem como conseqüência o desejo de "uma nova encarnação para se purificar" (I, 446). "O arrependimento concorre para a melhoria do espírito, mas ele tem que expiar o seu passado" (I, 448); "o arrependimento lhe apressa a reabilitação, mas não o absolve" (I, 450); "o arrependimento sua­viza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito, des­truindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação" (V, 90); e a graça é coisa que não existe porque "seria uma injustiça" (IV, 76). No livro Roma e o Evangelho (5ª - ed.), o espírito de "Maria" dita estas palavras: "Jesus Cristo não podia, nem quis assumir todas as responsabilidades individuais, contraídas ou por contrair, emanadas dos pecados dos homens, e muito menos podia, pelo sacrifício da sua vida, remir a humani­dade da pena de desterro a que fora condenada... A redenção da humanidade não se firma, pois, nos méritos e sacrifícios de Jesus, e, sim, nas boas obras dos homens... Que cegueira! Quanta aber­ração! Supor e afirmar que os sofrimentos e a morte do Justo foram ordenados do alto, em expiação dos pecados de todos, é a mais orgulhosa das blasfêmias contra a justiça do Eterno".

6. A doutrina sobre a Igreja

"Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica." É a pro­fissão cristã. Nem esta profissão entra no credo espírita. Com a negação da doutrina cristã sobre a redenção e santificação dos ho­mens, contestam-se conseqüentemente também todos os meios insti­tuídos por Jesus Cristo para a salvação e santificação. A começar pelo batismo. Jesus mandou aos apóstolos ir pelo mundo inteiro, ensinar a todos tudo quanto ele lhes ordenara, batizando a todos "em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28,19-20), esclarecendo: "Aquele que crer e for batizado será salvo; o que não crer será condenado" (Mc 16,16). No Brasil, os espíritas, fiéis à doutrina codificada por AK, já não batizam nem fazem batizar seus filhos. Nem teria sentido. Pois é pelas reencarnações que os homens devem alcançar a perfeição. Na última ceia Jesus instituiu a eucaristia e ordenou aos apóstolos: "Fazei isto em minha memória" (Lc 22,19). Mas os espíritas não o fazem. Nem teria sentido. Pois, segundo eles, o mistério pascal não tem valor de sacrifício pelos pecados dos homens. Jesus disse aos apóstolos: "Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados" (Jo 20,23). Mas os espíritas não procuram receber o perdão divino que lhes é generosamente oferecido. Nem teria sentido. Pois so­mente mediante as reencarnações se alcança o perdão. Jesus disse a Pedro: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do reino dos céus e o que ligares na terra será ligado nos céus e o que desligares na terra será desligado nos céus" (Mt 16,18-19). Mas os espíritas não dão nenhuma importância nem a Pedro e seus sucessores, nem à Igreja que Jesus dizia "sua", nem ao poder das chaves que o Senhor Jesus entregou ao chefe do colégio apostólico. Jesus declarou aos apóstolos: "Quem vos ouve a mim ouve, quem vos despreza a mim despreza, e quem me des­ preza, despreza aquele que me enviou" (Lc 10,16). Para os espí­ritas tudo isso já está superado. Pois eles vão receber as orientações dos espíritos que baixam em seus centros. Proclamando a nuli­dade dos sacramentos, quer AK que o espiritismo não tenha "nem culto, nem rito, nem templos" (VII, 235). E o Conselho Federa­tivo Nacional dos espíritas, em sua reunião de 5-7-1952, declarou, "por unanimidade, que o espiritismo é religião sem ritos, sem litur­gia e sem sacramentos". Proclama-se assim a total inutilidade da Igreja, que será substituída pelo espiritismo. No livro Depois da morte (p. 80), profetiza Leão Denis: "Chegará a ocasião em que o catolicismo, seus dogmas e práticas não serão mais do que vagas reminiscências quase apagadas da memória dos homens, como o são para nós os paganismos romanos e escandinavos".

Não seria difícil continuar a lista de negações. Assim, para dar apenas mais alguns exemplos, o espiritismo nega a criação da alma humana; recusa a união substancial entre corpo e alma; afirma que não há anjos e demônios; repudia os privilégios de Maria San­tíssima; não admite o pecado original; contesta a graça divina; aban­dona toda a doutrina do sobrenatural; rejeita a unicidade da vida humana terrestre; ignora o juízo particular depois da morte; não concede a existência do purgatório; ridiculariza o inferno; reprova a ressurreição da carne; e desdenha o juízo final. Em uma palavra: renuncia a todo o credo cristão.

Em que consiste, pois, seu anunciado "cristianismo"? Tudo é simplesmente reduzido à aceitação de alguns princípios morais do Evangelho, tal como AK aprendera em sua juventude, no Instituto de Pestalozzi, em Yverdun, na Suíça. Seu manual "cristão" é uni­camente O evangelho segundo o espiritismo, "com a explicação das máximas morais do Cristo em concordância com o espiritismo e suas aplicações às diversas circunstâncias da vida", que AK pu­blicou em 1864. Na Revue Spirite de junho de 1867, AK critica a obra de J. B. Roustaing (que ensinava que o corpo de Jesus era meramente aparente ou fluídico) e revela que em O evangelho segundo o espiritismo ele se circunscrevera simplesmente às máxi­mas morais que são, geralmente, claras e nem poderiam ser inter­pretadas de maneiras diversas e são, por isso, aceitas por todos. E então revela: "Essa a razão que nos levou a começar por aí, a fim de sermos aceitos sem contestação, aguardando, relativamente ao mais, que a opinião geral se encontrasse familiarizada com a idéia espírita". Passa então a criticar Roustaing, dizendo: "O autor desta nova obra julgou dever seguir outra orientação: em lugar de proceder gradativamente, quis de um salto atingir o fim. Assim é que tratou de certas questões que ainda não julgáramos oportuno abordar”.

AK era oportunista. Daí seu proposital silêncio sobre certas questões, por exemplo, a Santíssima Trindade. Seu único estudo de caráter teológico, embora negativo, sobre a natureza de Jesus Cristo, não foi por ele publicado, mas apareceu apenas depois em suas Obras póstumas. Ele recomenda esta norma de agir: "Cum­pre nos façamos compreensíveis. Se alguém tem uma convicção bem firmada sobre uma doutrina, ainda que falsa, necessário é que lhe tiremos essa convicção, mas pouco a pouco. Por isso é que muitas vezes nos servimos de seus termos e aparentamos abundar nas suas idéias: é para que não fique de súbito ofuscado e não deixe de se instruir conosco" (III, 336).

Sendo o Brasil um país tradicionalmente católico ou cristão, os espíritas, de acordo com o citado princípio de AK, se apresen­tam como "cristãos" e difundem principalmente O evangelho segun­do o espiritismo. Começam por dizer que o espiritismo é apenas ciência e filosofia, não cogitando de questões dogmáticas; que eles não combatem crença alguma; que o católico, para ser espírita, não precisa deixar de ser católico; que todas as religiões são boas, con­tanto que se faça o bem e se pratique a caridade etc. E por isso vão dando nomes de santos nossos aos centros espíritas. O Con­selho Federativo resolveu prescrever a seguinte norma geral: "As sociedades adesas (à Federação Espírita Brasileira), mediante en­tendimento com a Federação, quando esta julgar oportuno e as convidar para isso, cuidarão de modificar suas denominações no sentido de suprimir delas o qualificativo de 'santo' e de substituir por outras, tiradas dos princípios e preceitos espíritas, dos lugares onde tenham sua sede, das datas de relevo nos anais do espiritismo e dos nomes dos seus grandes pioneiros". Assim, por exemplo, começa algum centro espírita por chamar-se "Centro são Francisco de Assis"; depois, quando a Federação julgar oportuno, suprimirá o qualificativo "santo"; e afinal, quando seus adeptos já estive­rem suficientemente distanciados da Igreja, será "Centro Allan Kardec"...

Assim era antes. Já agora, em 1985, o Conselho Federativo, no "Manual de Administração das Instituições Espíritas", determina "não tomar por patronos, os nomes de arcanjo, anjo, pai, caboclo, santo e congêneres".

4. O ESPIRITISMO DE UMBANDA

1. No fim de sua vida, AK, como lemos em suas Obras póstumas, via com profunda inquietação o problema da unidade do espiritismo. Seu último manuscrito, sobre a "Constituição do espiritismo", toca também a questão dos cismas. Para garantir a unidade, proclamava como condição fundamental "que todas as partes do conjunto da doutrina sejam determinadas com precisão e clareza". Exatamente quando se dispunha a formular os "princí­pios fundamentais da doutrina espírita, reconhecidos como verdades inconcussas", foi chamado pelo Senhor da vida. Na Constituição falava também da "necessidade de uma direção central superior, guarda vigilante da unidade progressiva e dos interesses gerais da doutrina"; e fazia sentir sua inquietação por não ver, "a surgir no horizonte, o seu condutor". Sem isso, escrevia ele, o espiritismo corre o risco de "caminhar ao léu". Quis mesmo estabelecer um "formulário de fé e adesão, por escrito", para garantir "a unidade "sob o império de uma mesma fé, de uma comunhão de pensa­mentos, de modos de ver e de aspirações". Dir-se-ia que dese­java um papa...

Mas tudo isso não se concretizou. E o espiritismo iniciou sua marcha ao léu... "Todos queriam a união dos espíritas em tomo de um centro diretor. Todos, porém, queriam ser esse centro."

No Brasil, a reação mais violenta e extrema dentro do espiri­tismo kardecista surgiu em 1910, com o Sr. Luiz de Mattos, fun­dador do "Espiritismo Racional e Científico (Cristão)". Naquele ano, o padre Antônio Vieira, "em corpo astral", o escolheu para iniciar o novo movimento. Contra o aspecto excessivamente reli­gioso dos kardecistas, acentuou o lado científico e racional das comunicações com o "mundo astral". Em suas obras investe furio­samente contra o kardecismo, "a maior praga que na terra existe, porque, além dos perversos instintos que os dominam, são domi­nados pela indolência mental, não gravam senão aquilo que agrada a sua animalidade"; "um saco de patifarias enfeitado com as ren­das sem caridade não há salvação e outras frioleiras". Com rela­ção à Igreja, estes espiritistas racionalistas são igualmente agressi­ vos. Eles se orgulham de ter uma filosofia própria e de poder explicar com exatidão o que é o espírito, a matéria, o astral, o fluido, o pensamento, o espaço, a aura e a evolução. E todos quantos não aceitam estas explicações, são cretinos e obsedados.

Menos violenta, mas mais profunda e incomparavelmente mais popular, foi outra cisão, da qual surgiu o assim chamado espiri­tismo "de umbanda". Informa o Conselho Nacional Deliberativo da Umbanda (CONDU) que no dia 15 de novembro de 1907 o Sr. Zélio Fernandino de Moraes, de tradicional fanu1ia fluminense, compareceu a uma sessão da Federação Espírita de Niterói e lá "recebeu um aviso" do além: seria o responsável pela organização de um novo culto no Brasil.

No dia seguinte foi fundado o primeiro terreiro de umbanda: a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. Dez anos depois Zélio de Moraes criou mais sete tendas espíritas, todas de "Nossa Senhora". Em 1937 organizou a Federação Espírita de Umbanda do Brasil, posteriormente denominada União Espiritista da Um­banda do Brasil (UEUB), que, em 1941, promoveu o I Congresso do Espiritismo de Umbanda, para ensaiar a codificação formal da doutrina e do ritual.

Que acontecera?

2. As pesquisas feitas por Diana Brown ("Uma história da umbanda no Rio", em Cadernos de ISER, n. 18, 1985) revelam que Zélio de Moraes e seu grupo eram kardecistas insatisfeitos com o elitismo da prática espírita, que começaram a visitar terreiros de cultos africanos localizados nos bairros populares dos arredores do Rio de Janeiro e de Niterói. Todos eles eram brancos e da classe média: funcionários públicos, comerciantes, militares, profissionais liberais. Deu-se então o encontro do kardecismo francês com a religião africana de origem banta, caracterizada pelo culto aos ante­passados ou ancestrais, que também eram evocados à maneira espi­ritista e se manifestavam durante o ritual africano.

Era evidente a afinidade entre espiritismo e culto banto. Ritual e doutrinariamente pobre, a prática banta ("macumba") já se havia enriquecido com elementos do culto nagô ("candom­blé"), sobretudo pela adoção de orixás iorubanos (também ances­trais, embora de certa categoria e após um processo de ancestrali­zação), mas sem deixar de estar sempre centrado na evocação de seus próprios antepassados, que já então se manifestavam ora como "pretos velhos", ora como "caboclos" ou "crianças". Na época já se realizara também o sincretismo do culto africano (sudanês e banto) com a religiosidade popular católica.

Os kardecistas insatisfeitos, congregados por Zélio de Moraes, passaram a preferir as entidades que se manifestavam nos cultos bantos como mais competentes nas curas e no tratamento de doen­ças e na solução de outros problemas humanos. Os ritos africanos lhes pareciam mais estimulantes e dramáticos que o seco e mon6tono cerimonial kardecista (espiritismo "de mesa"). Mas não aceitavam ritos que envolviam sacrifícios de animais e a presença de espíritos trevosos ("exus"). Nem concordavam com as bebedeiras e a explo­ração econômica dos clientes. A dispendiosa roupagem sacral femi­nina (das "baianas") foi substituída por um higiênico avental branco, incentivando-se também o uso do tênis, em vez de dançar descalço. Simplificou-se o culto, a defumação e os cumprimentos do altar.

Houve, pois, um processo de desafricanização do rito banto­-nagô. Fiéis ao corpo doutrinário do kardecismo, Zélio de Moraes e seus adeptos adotaram ritos de sabor africano e começaram a confabular com pretos velhos e caboclos do além.

Surgiu assim o espiritismo de umbanda.

3. "Umbanda" era o nome dado ao chefe do culto banto. O termo ainda hoje é comum em Angola, como me informaram vá­rios missionários que lá trabalharam. O folclorista angolano Oscar Ribas, na obra Ilundo, publicada pelo Museu de Angola em 1958, confirma que o dirigente do terreiro, palavra que lá também é usada para indicar o lugar de culto, quando é homem, chama-se pai-de­-umbanda, quando é mulher, mãe-de-umbanda. No dicionário dos dialetos Ouimbunda e Umbunda, de A. da Silva Maia, edição de 1955, apalavra "umbanda" significa simplesmente: ''feitiçaria, fei­tiço, feiticeiro". De um missionário angolano recebi acerca desta palavra os seguintes dados: "Umbanda" é um vocábulo da língua umbunda, falada pela tribo do mesmo nome, da raça banta, na região central de Angola (Bailundo, Huambo, Bié, Andulo, Cacon­da etc.). O mesmo termo, mais ou menos alterado, encontra-se também em outras tribos afins, como Nhaneca, ao sul de Angola. A palavra pode ter três significados: a) um talismã com a prolação das devidas palavras rituais, a que se atribuem efeitos maravilhosos, causados por espíritos ou almas dos falecidos; b) o próprio talis­mã, que pode ser um manipanço, raízes de plantas especiais, partes do corpo animal, como o fígado da hiena, unhas, cornos, ossos hu­manos sobretudo o crânio, moedas etc. As palavras rituais variam segundo o efeito a obter e que podem ter ou finalidade defensiva, contra o feitiço de outros, evitar uma calamidade etc., ou finalidade ofensiva para provocar doença ou morte de um inimigo, ou com fins benéficos para conseguir riquezas, sorte nos negócios, nas rela­ções, na caça, na agricultura; podem também relacionar-se com os ancestrais falecidos, para apaziguá-los, merecer sua proteção etc.; c) o poder de exercer os atos supramencionados.

Arthur Ramos, em O negro brasileiro (3ª ed., p. 102, nota 150), cita esta informação de Heli Chatelain, Folks-tales of An­gola, de 1894: "U-mbanda é derivada de Ki-mbanda,pelo prefixo U., como u-ngana o é de ngana. Umbanda é: 1) a faculdade, ciên­cia, arte, ofício, negócio: a) de cura por meios de medicina natural (remédios) ou medicinas supematurais (encantos); b) de adivinha­ção do desconhecido pela consulta aos espíritos dos mortos, aos gênios, demônios, que não são espíritos humanos nem divinos; c) de indução destes espíritos humanos e não-humanos a influir sobre os homens e a natureza para o bem-estar ou a desgraça humana; 2) as forças atuantes na saúde, na adivinhação e na influência dos espíritos; 3) os objetos (encantos) que são supostos a estabelecer e determinar a conexão entre os espíritos e o mundo físico".

No já citado livro Ilundo, o folclorista angolano Oscar Ribas ensina: "Na religião negra nada se opera sem a influência dos espí­ritos. Através dos seus instrumentos de mediunidade, eles agem para todas as circunstâncias, quer para o bem, quer para o mal. São os espíritos que revelam as causas das enfermidades, azares, tudo, enfim, o que se pretende saber. São os espíritos que receitam por intermédio de seus sacerdotes, quer no momento da atuação, quer em sonho também. E são os espíritos, ainda, que tomam à sua guarda quem a eles recorre, ou, inversamente, também são eles que matam, quando a isso os induzem".

4. Mas não eram os umbandas de Angola que entusiasma­ram o grupo fundador da umbanda no Brasil. Por ocasião do I Congresso do Espiritismo de Umbanda, em 1941, o grupo, então ainda numericamente insignificante, tinha a preocupação de mos­trar que a umbanda é de origem antiquíssima, vem dos hindus, con­temporânea dos Vedas, que depois passou à África, donde veio para o Brasil. Era este o teor das duas primeiras conclusões unani­memente aceitas por aquele congresso:

"I. O espiritismo de umbanda é uma das maiores correntes do pensamento humano existente na terra há mais de cem séculos, cuja raiz provém das antigas religiões e filosofias da Índia, fonte de inspiração de todas as demais doutrinas filosóficas do Ocidente".

"2. Umbanda é palavra sânscrita, cuja significação em nosso Idioma pode ser dada por qualquer dos seguintes conceitos: Prin­cípio Divino, Luz Irradiante, Fonte Permanente de Vida, Evolução Constante."

Era a desafricanização.

Os primeiros anos da incipiente umbanda não foram fáceis. Uma lei de 1934 (Getúlio Vargas) colocou os grupos religiosos de inspiração africana sob a jurisdição do Departamento de Tóxi­cos e Mistificações da polícia. Para poderem funcionar, tinham que solicitar registro especial neste Departamento. Naqueles anos houve repressão e perseguição policial. Numerosos grupos ficavam na clan­destinidade ou, quando se registravam, procuravam esconder suas ligações ou inspirações africanas e se registravam como "espiritistas".

5. A alta direção da Federação Espírita Brasileira, ortodoxa­mente kardecista, embora hostil ao novo tipo de espiritismo, em nota publicada no Reformador, seu órgão oficial, de julho de 1953, fez esta declaração: "Todo aquele que crê nas manifestações dos espíritos é espírita; ora, o umbandista nelas crê, logo o umbandista é espírita”. E esclarecia: "Os que aceitam o fenômeno espírita como manifestação de 'Satanás', ou como ocasionado somente por forças desconhecidas, esses não são espíritas; mas aqueles que o têm como produzido por espíritos, esses devem ser considerados como adeptos do espiritismo, isto é, espiritistas, admitam ou não a reencarnação e pratiquem ou não rituais que nós não adotamos".

Era o endosso oficial.

Mas tão generosa e tolerante atitude da mais alta autoridade espírita no Brasil, que permitia às tendas umbandistas registrar-se oficialmente como "espíritas" para escaparem da perseguição poli­cial, foi drasticamente modificada pela declaração oficial de 2 de janeiro de 1978, publicada no Reformador de fevereiro de 1978:

"1. É imprópria, ilegítima e abusiva a designação de espíritas adotada por pessoas, tendas, núcleos, terreiros, centros, grupos, associações e outras entidades que, mesmo quando legalmente auto­rizados a usar o título, não praticam a doutrina espírita, tal como foi clara e formalmente definida no editorial de Reformador de setembro de 1977, ano 95, n. 1.782". Este editorial definia: "Dou­trina espírita é o conjunto de princípios básicos, codificados por Allan Kardec, que constituem o espiritismo. Estes princípios estão contidos nas obras fundamentais, que são: O livro dos espíritos, O livro dos médiuns, O evangelho segundo o espiritismo, O céu e o inferno, A gênese. Todas as demais obras, por mais preciosas que sejam ou venham a ser, são e serão obras complementares, sem que isso diminua o extraordinário valor de muitas delas".

"2. O espiritismo é uma doutrina de princípios estabelecidos com clareza e exatidão (...) e não se confunde com quaisquer outras ciências, filosofias, religiões, movimentos, sincretismos, fol­clore, crenças ou crendices."

"3. Não são espíritas, mesmo que assim se digam, nem mé­diuns espíritas, mesmo que sejam médiuns, os que não se enqua­dram nas definições doutrinárias contidas no Editorial de Refor­mador de novembro de 1977, ano 95, n. 1.784."

Era a excomunhão.

Aliás, já em 1926 o Conselho Federativo da mesma Federação kardecista publicara um parecer oficial sobre "caboclos e africanos". Já então se manifestavam "caboclos" e "pretos velhos" que não se pautavam pela doutrina AK (cf. Reformador, maio de 1978, p. 165), embora também viessem "do além". O além imaginado pelos espiritistas é tão pluralista como este aquém dos mortais.

6. Depois da guerra mundial e dos 15 anos da ditadura de Getúlio Vargas (1945), há o retomo a um governo constitucional. Diminui a perseguição policial. A umbanda pode ser praticada livre­mente. Criam-se novos centros. Formam-se novas federações. E a umbanda começa a aparecer nos meios de comunicação social, em programas de rádio, em colunas semanais dos principais jornais do Rio e em numerosas publicações de sua própria iniciativa. Em 1949 inicia a circulação do Jornal de umbanda, ainda por iniciativa do grupo Zélio de Moraes. O movimento passa a outros Estados. O pequeno grupo local se transforma em movimento nacional. Co­meça a ser proclamado como "a religião do Brasil".

Sobretudo a partir de 1950 muitos terreiros afro-brasileiros, completamente independentes da umbanda pura idealizada por Zélio de Moraes, identificam-se publicamente também com a umbanda. Aparecem e pululam "terreiros de umbanda" de todo tipo. Cada qual dirige seu terreiro ou escreve seu livro inteiramente por conta própria, persuadido de ter assistência especial de alguns "guias" do além. Eis alguns desabafos da época:

- "Os autores de umbanda se contradizem a si próprios e não apenas a seus colegas" (Samuel Ponze, Lições de umbanda, Rio, 1954, p. 35). E mais: "Reina a anarquia, a incompreensão, a vai­dade, a mistificação, a pouca cultura entre a maioria dos umban­distas" (p. 26); "cada qual quer ser o maior. Cada chefete de terreiro acha que acima de seu guia ou de seus guias, só Deus" (p. 27).

- "Cada um procura fazer uma umbanda a seu modo, e den­tro do conceito que ele próprio imagina, de acordo com a sua instrução, com a sua capacidade de imaginação, com os seus conhecimentos, e, quase nunca, com a orientação dada pelos seus pró­prios guias" (A. Fontenelle, Exu, Rio, 1952, p. 60).

- "Até hoje, nada de claro ao público, em matéria literária sobre umbanda" (Emanuel Zespo, pseudônimo de Paulo Menezes, Codificação da lei de umbanda, Parte Científica, Rio, 1951, p. 16).

- "A umbanda, no Brasil, difere de Estado para Estado, de cidade para cidade, de município para município, de vila para vila e de tenda para tenda" (Lourenço Braga, Um banda e quimbanda, 2ª parte, Rio, 1956, p. 7). Depois explica: "Essa divergên­cia tem sua origem na ignorância, na pretensão, na vaidade e, mui­tas vezes, na falta de escrúpulos e nas segundas intenções, de alguns de seus praticantes e dirigentes, que para serem adorados pelos que os cercam ou para tirarem quaisquer espécies de vanta­gens, mesclam e maculam a umbanda, com rituais desnecessários, usados para impressionar os crentes e freqüentadores".

- "Hoje uma vasta onda de mistificação invadiu a umbanda. Criaram, os intrusos, uma umbanda branca, uma umbanda mista, modificaram o ritual sagrado, e pior sob o ponto de vista espiri­tual, introduziram o comercialismo na seita. Escritores improvisa­dos publicaram livros cheios de erros e fantasias, servindo a um­banda de capa a atividades inteiramente comerciais. Para completar a mistificação, pessoas que nada conhecem dos mistérios de um­banda, que nunca foram sacerdotes, que nunca fizeram 'cabeça', abriram centros e tendas, montaram consultórios luxuosos, onde os clientes são atendidos mediante fichas numeradas" (Byron Tor­res de Freitas e Tancredo da Silva Pinto,Fundamentos de umban­da, Rio, 1956, p. 19).

7. Para remediar situação tão confusa, multiplicaram-se as federações e confederações. Em meados de 1950 surgiram seis novas federações no Rio, além da já existente UEUB: três foram orga­nizadas por umbandistas do setor médio, seguindo as diretrizes gerais da orientação ritual e doutrinária da umbanda pura (idealizada pelo grupo de Zélio de Moraes). As outras três defendiam uma forma de umbanda de orientação africana, com elementos provenientes do setor pobre, negros e mulatos. Entre estes estava a Confederação Espírita Umbandista, fundada em 1952 por Tancredo da Silva Pinto, declaradamente africanista, "com a finalidade de restabelecer a tra­dição antiga, em toda a sua força e pureza primitiva". Bem dife­rente queria ser a Associação Umbandista Brasileira, comandada por Lourenço Braga, que também pretendia reunir, sob uma única direção, "todos os centros, grêmios, tendas, cabanas, terreiros, agre­miações, sociedades e associações, que praticam o espiritismo nos moldes de umbanda". Nesta associação os terreiros deviam cha­mar-se "tendas"; e nelas não se permitiria bater tambores, nem usar pembas pretas ou vermelhas, punhais, bebidas, roupas de cores diferentes da branca; nem se toleraria cantar no ritmo de jêje, nagô, banto, keto, angola ou omolocô, mas apenas "em ritmo de umbanda e sem alterar a voz em demasia"; nelas os médiuns só trabalhariam vestidos de branco, calçados com sapatos de corda ou descalços, os homens de calça branca e camisa branca, as mulheres de blusa e saia brancas; não seria permitida a matança de quaisquer ani­mais, nem comida de santo, nem despachos em nenhum lugar; mas seria facultado o uso de defumadores, velas, pembas brancas ou de cor (menos as pretas e vermelhas, que são do exu), banhos de descarga, breves, patuás, seixos, conchas, fitas, figas de guiné e arruda...

Comentava Tancredo da Silva Pinto, o grande chefe angolano que iniciou 3.576 filhos-de-santo: "Terreiro de umbanda que não usar tambores e outros instrumentos rituais, que não cantar pontos em linguagem africana, que não oferecer o sacrifício de preceito e nem preparar comida de santo, pode ser tudo, menos terreiro de umbanda".

Era o cisma.

Em 1955 formou-se então o Colegiado Espírita do Cruzeiro do Sul, tentando reunir e unificar as facções. A nova coalizão agrupou as cinco federações mais ativas do Rio e teve na UEUB sua principal promotora, incluindo também a confederação liderada pelo angolanista Tancredo da Silva Pinto, que foi nomeado um de seus presidentes. Este colegiado organizou e realizou o II Congresso de Umbanda, em 1961, com a presença de milhares de umbandistas (no Maracanãzinho) e representantes de dez Estados. Membros dos setores profissionais e políticos declararam abertamente sua crença na umbanda e defendiam sua nova religião nas assembléias estaduais. Grande, muito grande, foi sobretudo a influência dos mi­litares e não poucos oficiais do exército e da polícia se transfor­maram em líderes da umbanda.

Nesta década de 50 aumentaram também as migrações internas, da zona rural para as periferias das grandes cidades, fazendo crescer as favelas e a miséria humana. Nelas entrou a umbanda Com suas mirabolantes promessas de contato perceptível com os espíritos do além, capazes de resolver os problemas dos pobres.

Era uma nova maneira de fazer caridade: mediante a necro­mancia e a magia. Lembrada do preceito divino que interdita a evocação dos falecidos ou de quaisquer outros espíritos do além, não podia a Igreja abrir-se para este tipo de filantropia.

8 . A década de 50 é também o tempo da institucionalização da umbanda em São Paulo. Suas federações se ligam com as do Rio. Apenas em 1953 apareceram em São Paulo as duas primeiras federações, das quais ainda está em atividade a FUESP: Federação Umbandista do Estado de São Paulo. Só na década de 60 organi­zam-se em São Paulo 15 diferentes federações de umbanda. Se­gundo a pesquisa promovida pelo Centro de Estudos da Religião Douglas Monteiro, de São Paulo, todas as federações tinham mais ou menos os mesmos objetivos: 19) filiar terreiros, registrando-os em cartório e conferindo-lhes proteção e assistência jurídica; 29) apresentar a umbanda como sendo uma religião cristã; 39) praticar a caridade mediante a criação de entidades assistenciais e a prática espírita da evocação dos mortos; 49) combater a comer­cialização das práticas religiosas e zelar pelo bom nome público de umbanda; 59) promover a unificação institucional e a codifi­cação doutrinário-ritual; 69) representar a umbanda e intermediar os terreiros em suas relações com o aparato burocrático legal. Mas seu grande propósito seria assegurar à umbanda seu estatuto de reli­gião reconhecida pelo Estado e legitimar-se frente à sociedade civil.

Em 1961, por ocasião do I Congresso Umbandista do Estado de São Paulo, sob a liderança do coronel Nelson Braga Moreira (depois general), é criado o Superior Órgão de Umbanda do Esta­do de São Paulo (SOUESP), congregando boa parte das federa­ções. Até o final da década de 60 havia em São Paulo 21 federa­ções. Na década de 70 apareceram outras 21. E nos primeiros anos da década de 80 temos mais 7 novas federações, sempre em São Paulo. Das 29 federações paulistas nascidas depois de 1970, apenas 13 são confederadas. Para assegurar sua autonomia, grande número de terreiros resiste firmemente a toda tentativa de unifica­ção ou centralização e nega sua filiação a qualquer federação. Se­rão assim incontroláveis em sua criatividade e nos critérios com que aceitam as orientações "recebidas do além". Pois todos são convictamente espiritistas, sentindo cada chefe de terreiro os mesmos direitos que no século passado AK tomara para si. Comanda a arbitrariedade do além.

Mas o Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo (SOUESP) encontrará seu forte rival em outro Superior Órgão de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo (SOUCESP), fun­dado em 1976 pelo tenente da polícia militar Hilton de Paiva Tu­pinambá (o famoso "tenente Tupinambá"), que em 1969 já fun­dara a União Regional Umbandista (URU) de Taubaté, com sucur­sais em outras regiões. A confederação destas várias URUs é pre­cisamente a SOUCESP.

Houve, pois, uma mudança radical com relação à umbanda: se antes os policiais eram os algozes dos terreiros, agora serão seus promotores ou protetores; se antes os pais-de-santo eram tidos como contraventores, agora serão personalidades cortejadas pelos mais influentes políticos.

9. Maria Helena Villas Boas Concone e Lísias Nogueira Ne­grão, do Centro de Estudos da Religião (CER) Douglas Teixeira, fizeram um levantamento das associações civis umbandistas, espíri­tas e candomblecistas registradas nos Cartórios de Registro de Títu­los e Documentos da cidade de São Paulo, de 1930 a 1982 (d. cadernos do ISER, n. 18, 1985, p. 48). E compuseram o seguinte quadro, no qual os números entre parênteses se referem a porcentagem:


A impressionante tabela merece algumas observações. As 16.600 associações civis registradas nos cartórios da Capital estão de fato localizadas também em municípios da grande São Paulo e algumas em municípios do interior do Estado. Os números expres­sam apenas as associações registradas, mas não indicam as que de­pois, talvez, desapareceram; em compensação, é preciso lembrar também o grande número de terreiros ativos não registrados. Os centros espíritas constituem a absoluta maioria nas décadas de 30 e 40. Mas isso não significa sem mais que todos fossem kardecistas, dado que naqueles anos, por causa da repressão policial, muitos terreiros escondiam sua condição umbandista e se diziam simples­ mente espiritistas, coisa que, como víamos no n. 5, a própria Federação Espírita (kardecista) lhes facultara pela declaração de julho de 1953. Este fato talvez explique também o forte declínio do registro de centros espíritas (kardecistas) a partir de 1960, quando aparece novo e surpreendente fenômeno: o surto do candomblé em São Paulo e seu notável crescimento até nossos dias. Pode-se admitir que na década de 70 muitas associações candomblecistas, antes registradas como umbandistas, assumiram uma mais clara cons­ciência negra, identificando africanismo com candomblé (idealização da tradição nagô como sinônimo de africanidade em certos ambien­tes do Brasil).

A explosão umbandista a partir de 1970 é certamente a nota mais marcante da tabela: 7.627 somente

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