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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

EPÍSTOLA A DIOGNETO

EPÍSTOLA A DIOGNETO

Um pagão culto, desejoso de conhecer melhor a nova religião que se espalhava pelas províncias do

império romano, impressionado pela maneira como os cristãos desprezavam o mundo, a morte e os

deuses pagãos, pelo amor com que se amavam, queria saber: que Deus era aquele em quem

confiavam e que gênero de culto lhe prestavam; de onde vinha aquela raça nova e por que razões

aparecera na história tão tarde.

Foi para responder a estas e outras questões de igual importância que nasceu esta jóia da literatura

cristã primitiva, o escrito que conhecemos como Epístola a Diogneto.

O texto se revela, simultaneamente, como crítica do paganismo e do judaísmo e defesa da

superioridade do cristianismo.

Sobre este documento, infelizmente, não se sabe muita coisa. Elementos importantes que ajudam a

determinar e caracterizar uma obra, tais como autor, data e local de composição, bem como o

destinatário, ficam na sombra. De qualquer maneira trata-se de um documento de primeira grandeza

sobre a vida cristã primitiva que merece ser colocado entre as obras mais brilhantes da literatura cristã.

De acordo com os últimos estudos o destinatário mais provável seria o imperador Adriano, que

exercia a função de arconte em Atenas desde 112 d.C.

Exódio

Excelentíssimo Diogneto,

1. Vejo que te interessas em aprender a religião dos cristãos e que, muito sábia e cuidadosamente te

informaste sobre eles: Qual é esse Deus no qual confiam e como o veneram, para que todos eles

desdenhem o mundo, desprezem a morte, e não considerem os deuses que os gregos reconhecem, nem

observem a crença dos judeus; que tipo de amor é esse que eles têm uns para com os outros; e,

finalmente, por que esta nova estirpe ou gênero de vida apareceu agora e não antes. Aprovo este teu

desejo e peço a Deus, o qual preside tanto o nosso falar como o nosso ouvir, que me conceda dizer de

tal modo que, ao escutar, te tornes melhor; e assim, ao escutares, não se arrependa aquele que falou.

Refutação da idolatria

2. Comecemos. Purificado de todos os preconceitos que se amontoam em sua mente; despojado do teu

hábito enganador, e tornado, pela raiz, homem novo; e estando para escutar, como confessas, uma

doutrina nova, vê não somente com os olhos, mas também com a inteligência, que substância e que

forma possuem os que dizeis que são deuses e assim os considerais; não é verdade que um é pedra,

como a que pisamos; outro é bronze, não melhor que aquele que serve para fazer os utensílios que

usamos; outro é madeira que já está podre; outro ainda é prata, que necessita de alguém que o guarde,

para que não seja roubado; outro é ferro, consumido pela ferrugem; outro de barro, não menos

escolhido que aquele usado para os serviços mais vis? Tudo isso não é de material corruptível? Não

são lavrados com o ferro e o fogo? Não foi o ferreiro que modelou um, o ourives outro e o oleiro

outro? Não é verdade que antes de serem moldados pelos artesãos na forma que agora têm, cada um

deles poderia ser, como agora transformado em outro? E se os mesmos artesãos trabalhassem os

mesmos utensílios do mesmo material que agora vemos, não poderiam transformar-se em deuses

como esses? E, ao contrário, esses que adorais, não poderiam transformar-se, por mãos de homens, em

utensílios semelhantes aos demais? Essas coisas todas não são surdas, cegas, inanimadas, insensíveis,

imóveis? Não apodrecem todas elas? Não são destrutíveis? A essas coisas chamais de deuses, as

servis, as adorais, e terminais sendo semelhante a elas. Depois, odiais os cristãos, porque estes não os

consideram deuses. Contudo, vós que os julgais e imaginais deuses, não os desprezais mais do que

eles? Por acaso não zombais deles e os cobris ainda mais de injúrias, vós que venerais deuses de pedra

e de barro, sem ninguém que os guarde, enquanto fechais à chave, durante a noite, aqueles feitos de

prata e de ouro, e de dia colocais guardas para que não sejam roubados? Com as honras que acreditais

tributar-lhes, se é que eles têm sensibilidade, na verdade os castigais com elas; por outro lado, se são

insensíveis, vós os envergonhais com sacrifícios de sangue e gordura. Caso contrário, que alguém de

vós prove essas coisas e permita que elas lhe sejam feitas. Mas o homem, espontaneamente, não

suportaria tal suplício, porque tem sensibilidade e inteligência; a pedra, porém, suporta tudo, porque é

insensível. Concluindo, eu poderia dizer-te outras coisas sobre o motivo que os cristãos têm para não

se submeterem a esses deuses. Se o que eu disse parece insuficiente para alguém, creio que seja inútil

dizer mais alguma coisa.

Refutação do culto judaico

3. Por outro lado, creio que desejais particularmente saber por que eles não adoram Deus à maneira

dos judeus. Os judeus têm razão quando rejeitam a idolatria, de que falamos antes, e prestam culto a

um só Deus, considerando-o Senhor do universo.Contudo, erram quando lhe prestam um culto

semelhante ao dos pagãos. Assim como os gregos demonstram idiotice, sacrificando a coisas

insensíveis e surdas, eles também, pensando em oferecer coisas a Deus, como se ele tivesse

necessidade delas, realizam algo que é parecido a loucura, e não um ato de culto. “Quem fez o céu e a

terra, e tudo o que neles existe”, e que provê todo aquilo de que necessitamos, não tem necessidade

nenhuma desses bens.Ele próprio fornece as coisas àqueles que acreditam oferece-las a ele. Aqueles

que crêem oferecer-lhe sacrifícios com sangue, gordura e holocaustos, e que o enaltecem com esses

atos, não me parecem diferentes daqueles que tributam reverência a ídolos surdos, que não podem

participar do culto. Os outros imaginam estar dando algo a quem de nada precisa.

O ritualismo judaico

4. Não creio que tenhas necessidade de que eu te informe sobre o escrúpulo deles a respeito de certos

alimentos, a sua superstição sobre os sábados, seu orgulho da circuncisão, seu fingimento com jejuns e

novilúnios, coisas todas ridículas, que não merecem nenhuma consideração. Não será injusto aceitar

algumas das coisas criadas por Deus para uso dos homens como bem criadas e rejeitar outras como

inúteis e supérfluas? Não é sacrílego caluniar a Deus, imaginando que nos proíbe fazer algum bem em

dia de sábado? Não é digno de zombaria orgulhar-se da mutilação do corpo como sinal de eleição,

acreditando, com isso ser particularmente amados por Deus? E o fato de estar em perpétua vigilância

diante dos astros e da lua, para calcular os meses e os dias, e distribuir as disposições de Deus, e

dividir as mudanças das estações conforme seus próprios impulsos, umas para festa e outras para luto?

Quem consideraria isto prova de insensatez e não de religião? Penso que agora tenhas entendido

suficientemente por que os cristãos estão certos em se abster da vaidade e do engano, assim como das

complicadas observâncias e das vanglórias dos judeus. Não creias poder aprender do homem o

mistério de sua própria religião.

Os mistérios cristãos

5. Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou

costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum

modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e a especulação de

homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo

em casa gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto

à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal.

Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como

estrangeiros.Toda pátria estrangeira é pátria deles, a cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e

geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põe a mesa em comum, mas não o leito; estão

na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem

as leis estabelecidas, as com sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos;

são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, deste modo, lhes é dada a vida; são

pobres e enriquecem a muitos; carecem de tudo e tem abundância de tudo; são desprezados e, no

desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e

bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados,

e se alegram como se recebessem a vida. Pelos judeus são combatidos como estrangeiros, pelos

gregos são perseguidos, a aqueles que os odeiam não saberiam dizer o motivo do ódio.

A alma do mundo

6. Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo. A alma

está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as partes do mundo. A alma

habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo.A

alma invisível está contida num corpo visível; os cristãos são vistos no mundo, mas sua religião é

invisível. A carne odeia e combate a alma, embora não tenha recebido nenhuma ofensa dela, porque

esta a impede de gozar dos prazeres; embora não tenha recebido injustiça dos cristãos, o mundo os

odeia, porque estes se opõem aos prazeres. A alma ama a carne e os membros que a odeiam; também

os cristãos amam aqueles que os odeiam. A alma está contida no corpo, mas é ela que sustenta o

corpo; também os cristãos estão no mundo como numa prisão, mas são eles que sustentam o mundo.A

alma imortal habita em uma tenda mortal; também os cristãos habitam como estrangeiros em moradas

que se corrompem, esperando a incorruptibilidade nos céus. Maltratada em comidas e bebidas, a alma

torna-se melhor; também os cristãos, maltratados, a cada dia mais se multiplicam. Tal é o posto que

Deus lhes determinou, e não lhes é lícito dele desertar.

Origem divina do cristianismo

7. De fato, como já disse, não é uma invenção humana que lhes foi transmitida, nem julgam digno

observar com tanto cuidado um pensamento mortal, nem se lhes confiou a administração de mistérios

humanos. Ao contrario, aquele que é verdadeiramente senhor e criador de tudo, o Deus invisível, ele

próprio fez descer do céu, para o meio dos homens, a verdade, a palavra santa e incompreensível, e a

colocou em seus corações. Fez isso, não m,andando para os homens, como alguém poderia imaginar,

algum dos seus servos, ou um anjo, ou algum príncipe daqueles que governam as coisas terrestres, ou

algum dos que são encarregados das administrações dos céus, mas o próprio artífice e criador do

universo; aquele por meio do qual ele criou os céus e através do qual encerrou o mar em seus limites;

aquele cujo mistério todos os elementos guardam fielmente; aquele de cuja mão o sol recebeu as

medidas que deve observar em seu curso cotidiano; aquele a quem a lua obedece, quando lhe manda

luzir durante a noite; aquele a quem obedecem as estrelas que formam o séqüito da lua em seu

percurso; aquele que, finalmente, por meio do qual todo foi ordenado, delimitado e disposto: os céus e

as coisas que existem nos céus, a terra e as coisas que existem na terra, o mar e as coisas que existem

no mar, o fogo, o ar, o abismo, aquilo que está no alto, o que está no profundo e o que está no meio.

Foi esse que Deus enviou. Talvez, como alguém poderia pensar, será que o enviou para que existisse

uma tirania ou para infundir-nos medo e prostração? De modo algum. Ao contrário, enviou-o com

clemência e mansidão, como um rei que envia seu filho. Deus o enviou, e o enviou como homem para

os homens; enviou-o para nos salvar, para persuadir, e não para violentar, pois em Deus não há

violência. Enviou-o para chamar, e não para castigar; enviou-o, finalmente, para amar, e não para

julgar. Ele o enviará para julgar, e quem poderá suportar sua presença? Não vês como os cristãos são

jogados às feras, para que reneguem o Senhor, e não se deixam vencer? Não vês como quanto mais

são castigados com a morte, tanto mais outros se multiplicam? Isso não parece obra humana. Isso

pertence ao poder de Deus e prova a sua presença.

A Encarnação

8. Quem de todos os homens sabia o que é Deus, antes que ele próprio viesse? Quererás aceitar os

discursos vazios e estúpidos dos filósofos, que por certo são dignos de toda fé? Alguns afirmam que

Deus é o fogo - para onde irão estes, chamando-o de deus? - Outros diziam que é água. Outros ainda

que é dos elementos criados por Deus. Não há dúvida de que se alguma dessas afirmações é aceitável,

poderíamos também afirmar que cada uma de todas as criaturas igualmente manifesta Deus. Mas

todas essas coisas são charlatanices e invenções de charlatães. Nenhum homem viu, nem conheceu a

Deus, mas ele próprio se revelou a nós. Revelou-se mediante a fé, unicamente pala qual é concedido

ver a Deus. Deus, Senhor e criador do universo, que fez todas as coisas e as estabeleceu em ordem,

não só se mostrou amigo dos homens, mas também paciente. Ele sempre foi assim, continua sendo, e

o será: clemente, bom, manso e verdadeiro. Somente ele é bom. Tendo concebido grande e inefável

projeto, ele o comunicou somente ao Filho. Enquanto o mantinha no mistério e guardava sua sábia

vontade, parecia que não cuidava de nós, não pensava em nós. Todavia, quando, por meio de seu

Filho amado, revelou e manifesto o que tinha estabelecido desde o princípio, concedeu-nos junto todas

as coisas: não só participar de seu benefícios, mas ver e compreender coisas que nenhum de nós teria

jamais esperado.

A economia divina

9. Quando Deus dispôs todo em si mesmo juntamente com seu Filho, no tempo passado, ele permitiu

que nós, conforme a nossa vontade, nos deixássemos arrastar por nossos impulsos desordenados,

levados por prazeres e concupiscências. Ele não se comprazia com os nossos pecados, mas também os

suportava. Também não aprovava aquele tempo de injustiça, mas preparava o tempo atual de justiça,

para que nos convencêssemos de que naquele tempo, por causa de nossas obras, éramos indignos da

vida, e agora, só pela bondade de Deus, somos dignos dela. Também para que ficasse claro que por

nossas forças era impossível entrar no Reino de Deus, e que somente pelo seu poder nos tornamos

capazes disso. Quando a nossa injustiça chegou ao máximo e ficou claro que a única retribuição que

poderiam esperar era castigo e morte, chegou o tempo que Deus estabelecera para manifestar a sua

bondade e o seu poder. Oh imensa bondade e amor de Deus! Ele não nos odiou, não nos rejeitou, nem

guardou ressentimento contra nós. Pelo contrário, mostrou-se paciente e nos suportou. Com,

misericórdia tomou para si os nossos pecados e enviou o seu Filho para nos resgatar: o santo pelos

ímpios, o inocente pelos maus, o justo pelos injustos, o incorruptível pelos corruptíveis, o imortal

pelos mortais. De fato, que outra coisa poderia cobrir nossos pecados, senão a sua justiça? Por meio de

quem poderíamos ter sido justificados nós, injustos e ímpios, a não ser unicamente pelo Filho de

Deus? Oh doce troca, oh obra insondável, oh inesperados benefícios! A injustiça de muito é reparada

por um só justo, e a justiça de um só torna justos muitos outros. Ele antes nos convenceu da

impotência da nossa natureza para ter a vida; agora mostra-nos o salvador capaz de salvar até mesmo

o impossível Com essas duas coisas, ele quis que confiássemos na sua bondade e considerássemos

nosso sustentador, pai, mestre, conselheiro, médico, inteligência, luz, homem, glória, força, vida, sem

preocupações com a roupa e o alimento.

A essência da nova religião

10. Se também desejas alcançar esta fé, primeiro deves obter o conhecimento do Pai. Deus, com

efeito, amou os homens. Para eles criou o mundo e a eles submeteu todas as coisas que estão sobre a

terra. Deu-lhes a palavra e a razão, e só a eles permitiu contemplá-lo. Formou-os à sua imagem,

enviou-lhes o seu Filho unigênito, anunciou-lhes o reino do céu, e o dará àqueles que o tiverem

amado. Depois de conhece-lo, tens idéia da alegria com que será preenchido? Como não amarás

aquele que tanto te amou? Amando-o, tu te tornarás imitador da sua bondade. Não te maravilhes de

que um homem possa se tornar imitador de Deus. Se Deus quiser, o homem poderá. A felicidade não

está em oprimir o próximo, ou em querer estar pro cima dos mais fracos, ou enriquecer-se e praticar

violência contra os inferiores. Deste modo, ninguém pode imitar a Deus, pois tudo isto está longe de

sua grandeza. Todavia, quem toma para si o peso do próximo, e naquilo que é superior procura

beneficiar o inferior; aquele que dá aos necessitados o que recebeu de Deus, é como Deus para os que

receberam de sua mão, é imitador de Deus. Então, ainda estando na terra, contemplarás porque Deus

reina nos céus. Aí começarás a falar dos mistérios de Deus, amarás e admirarás os que são castigados

por não querer negar a Deus. Condenarás o erro e o engano do mundo, quando realmente conheceres a

vida no céu, quando desprezares esta vida que aqui parece morte, e temeres a morte verdadeira,

reservada àqueles que estão condenados ao fogo eterno, que atormentarás até o fim aqueles que lhe

forem entregues. Se conheceres este fogo, ficarás admirado, e chamarás de felizes aqueles que, com

justiça, suportaram o fogo passageiro.

O discípulo do Verbo

11. Não falo de coisas estranhas, nem busco coisas absurdas. Discípulo dos apóstolos, torno-me agora

mestre das nações e transmito o que me foi entregue para aqueles que se tornaram discípulos dignos

da verdade. De fato quem foi retamente instruído e gerado pelo Verbo amável, não procura aprender

com clareza o que o mesmo Verbo claramente mostrou aos seus discípulos? O Verbo apareceu para

eles, manifestando-se e falando livremente. Os incrédulos não o compreenderam, mas ele guiou os

discípulos que julgou fiéis, e estes conheceram os mistérios do Pai. Deu enviou o Verbo como graça,

para que se manifestasse ao mundo. Desprezado pelo povo, foi anunciado pelos apóstolos a acreditado

pelos pagãos. Desde o princípio e apareceu como novo e era antigo, a agora sempre se torna novo nos

corações dos fiéis. Ele é desde sempre, e hoje é reconhecido como Filho. Por meio dele, a Igreja se

enriquece e a graça se multiplica, difundindo-se nos fiéis. Essa graça inspira a sabedoria, desvela os

mistérios e anuncia os tempos, alegra-se nos fiéis, entrega-se aos que a buscam, sem infringir as regras

da fé nem ultrapassar os limites dos Padres. Celebra-se então o temor da lei, reconhecesse a graça dos

profetas, conserva-se a fé dos evangelhos, guarda-se a tradição dos apóstolos e a graça da Igreja

exulta. Não contristando essa graça, saberás o que o Verbo diz por meio dos que ele quer e quando

quer. Com efeito, quantas coisas fomos levados a vos explicar com zelo pala vontade do Verbo que

no-las inspira! Nós vos comunicamos por amor essas mesmas coisas que nos foram reveladas.

A verdadeira ciência

12. Atendendo e ouvindo com cuidado, conhecereis que coisas Deus prepara para os que o amam com

lealdade. Transformam-se em paraíso de delícias, produzindo em si mesmos uma arvora fértil e

frondosa, ornados com toda a variedade de frutos. Com efeito, neste lugar foi plantada a árvore da

ciência e a arvora da vida; não é a arvora da ciência que mata, e sim a desobediência. Não é sem

sentido que está escrito: No princípio Deus plantou a arvora da ciência da vida no meio do paraíso,

indicando assim a vida por meio da ciência. Contudo, por não tê-la usado de maneira pura, os

primeiros homens ficaram nus por causa da sedução da serpente. De fato, não há vida sem ciência,

nem ciência segura sem verdadeira vida, e por isso as duas árvores foram plantadas uma perto da

outra. Compreendendo essa força e lastimando a ciência que se exercita sobre a vida sem a norma da

verdade, o Apóstolo diz: “A ciência incha; o amor, porém, edifica.” De fato, quem pensa que sabe

alguma coisa sem a verdadeira ciência, testemunhada pela vida, não sabe nada: é enganado pala

serpente, não tendo amado a vida. Aquele, porém, que sabe com temor e procura a vida, planta na

esperança, esperando o fruto. Que a ciência seja coração para ti; a vida seja o Verbo verdadeiramente

compreendido. Levando a arvora dele e produzindo fruto, sempre colherás o que é agradável diante de

Deus, o que a serpente não toca, nem se mistura em engano; nem Eva é corrompida, mas reconhecida

como virgem. A salvação é mostrada, os apóstolos são compreendidos, a Páscoa do Senhor se adianta,

os círios se reúnem, harmoniza-se com o mundo e, instruindo os santos, o Verbo se alegra, pelo qual o

Pai é glorificado. A ele, a glória pelos séculos. Amém.

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