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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Em que creem os quais nao creem?

Umberto Eco

e

Carlo Maria Martini

(Arcebispo de Milao )

Em que creem os quais nao creem?

Um dialogo sobre a etica no fim do milenio

Com a intervencao de

Emanuele Severino Manlio Sgalambro

Eugenio Scalfari Indro Montanelli

Vittorio Foa Claudio Martelli

Traducao de Carlos Gumpert Melgosa

© 1996, Atlantide Editoriale S. P. A.

© 1997, EDICOES TEMAS DE HOJE, S.A (T.H.)

Edicao em espanhol realizada com a mediacao

da Agencia Letteraria Eulama

Titulo original: In cosa crede chi non crede?

Passeio da Castelhana, 28. 20046 Madrid

Desenho de capa: Rudesindo de la Fonte

Fotografias de capa: Cover (Umberto Eco) e

Contifoto (Carlo Maria Martini)

Primeira edicao: outubro de 1997

ISBN (edicao italiana): 88-86838-03-4

ISBN (edicao espanhola): 84-7880-876-0

Composto no J. A. Desenho Editorial, S. L.

Reimpressao para Editorial Planeta Argentina S.A.I.C.

Independencia 1668, 1100, Bs. As.

Primeira edicao argentina: maio de 1998

ISBN: 950-730-039-2

Impresso na Argentina

EM QUE CREEM OS QUE NAO CREEM?

Autor: MARTINI, CARLO MARIA

Autor: ECO, UMBERTO

Editora: RECORD

Assunto: FILOSOFIA

ISBN : 8501055271

ISBN-13: 9788501055279

Livro em portugues

Brochura

1? Edicao - 1999 - 160 pag.

Este livro

O dialogo epistolar entre o cardeal Carlo Maria Martini e Umberto Eco, que ocupa a

primeira parte do presente livro, deu comeco no primeiro numero da revista Liberal

aparecido em 22 de marco de 1995 — e prosseguiu com ritmo trimestral. As oito cartas deste

epistolario publico — intercambiadas e respondidas com admiravel pontualidade pelos dois

correspondentes — aparecem aqui com a data de sua redacao efetiva. O interesse que

despertou entre os leitores e o eco obtido em toda a imprensa pelos temas tratados no curso de

um ano — especialmente o ultimo, o mais amplo e atrevido — fizeram aconselhavel ampliar a

discussao a outros interlocutores implicados por uma ou outra razao no tema: dois filosofos (E.

Severino e M. Sgalambro), dois jornalistas (E. Scalfari e I. Montanelli) e dois politicos (V. Foa e

C. Martelli). Suas «variacoes» apareceram no numero 12 (marco de 1996).

Por ultimo, ao cardeal Martini foi proposta, nao uma (impossivel) conclusao ou sintese,

a nao ser, a recapitulacao de alguns pontos determinantes. Uma replica com funcoes de

clarificacao e, por que nao?, de ulterior relancamento.

Os escritos aqui recolhidos reproduzem exatamente os textos da primeira edicao, com

emenda de umas poucas erratas e com novos titulos a cargo da redacao da revista.

A obsessao laica por um novo Apocalipse

Querido Carlo Maria Martini:

Confio em que nao me considere desrespeitoso se dirigir a voce lhe chamando por seu

nome e sobrenomes, e sem referencia aos habitos que viu. Entenda-o como um ato de

comemoracao e de prudencia. De comemoracao, porque sempre me chamou a atencao o modo

no qual os franceses, quando entrevistam a um escritor, a um artista ou a uma personalidade

politica, evitam usar apelidos reduzidos como professor, eminencia ou ministro, a diferenca do

qual fazemos na Italia. Ha pessoas cujo capital intelectual lhes vem dado pelo nome com o que

assinam as proprias ideias. Deste modo, quando os franceses se dirigem a alguem cujo maior

titulo e o proprio nome, fazem-no assim: «Dites-moi, Jacques Ma-ritain», «dites-moi, Claude Levi-

Strauss». E o reconhecimento de uma autoridade que continuaria sendo tal, embora, o sujeito

nao tivesse chegado a embaixador ou a academico da Franca. Sim eu empaturrei-me de dirigir-me

a Santo Agostinho (e confio em que tampouco desta vez me considere irreverente por excesso)

nao lhe chamaria «Senhor bispo de Hipona» (porque outros depois dele foram bispos dessa

cidade), a nao ser, «Agostinho de Tagasta».

Ato de prudencia, disse alem disso. Efetivamente, poderia resultar embaracoso o que

esta revista requereu a ambos, quer dizer um intercambio de opinioes entre um laico e um

cardeal. Poderia parecer como se o laico quisesse conduzir ao cardeal a expressar suas opinioes

quanto ao principe da Igreja e pastor de almas, o que suporia uma certa violencia, tanto para

quem e interpelado como para quem escuta. E melhor que o dialogo se apresente como o que e

na intencao da revista que nos convocou: um intercambio de reflexoes entre homens livres. Por

outra parte, ao me dirigir a voce desta forma, pretendo sublinhar o fato de sua consideracao

como mestre da vida intelectual e moral inclusive, por parte daqueles leitores que nao se sentem

vinculados a outro magisterio que nao seja o da reta razao.

Superados os problemas de etiqueta, ficam os de etica, porque considero que e,

principalmente, destes dos quais deveria ocupar-se qualquer classe de dialogo que pretenda

achar alguns pontos comuns entre o mundo catolico e o laico (por isso nao me pareceria

realista abrir nestas paginas um debate sobre o Filioque). Porem, a este respeito, decidindo-me a

realizar o primeiro movimento (que resulta sempre o mais embaracoso), tampouco me parece

que nos adentremos em uma questao de raivosa atualidade, sobre a que, possivelmente,

surgiriam imediatamente posicoes excessivamente divergentes. O melhor, pois, e elevar o olhar

e expor um argumento de discussao que, ate sendo com efeito de atualidade, afunda suas raizes

o suficientemente longe e foi causa de fascinacao, temor e esperanca para todos os

componentes da familia humana no curso dos dois ultimos milenios.

Acabo de pronunciar a palavra chave. Com efeito, estamos nos aproximando do final do

segundo milenio, e espero que seja ainda «politicamente correto», na Europa, contar os anos

que contam partindo de um evento que tao profundamente — e estarao de acordo inclusive os

fieis de qualquer outra religiao ou de nenhuma — influiu na historia de nosso planeta. A

cercania desta data nao pode deixar de evocar uma imagem que dominou o pensamento

durante vinte seculos: o Apocalipse.

A vulgata historica nos diz que nos anos finais do primeiro milenio se viveu obcecado

pela ideia do fim dos tempos. E verdade que faz muito que os historiadores descartaram como

legendarios os tao cacarejados «terrores do Ano Mil», a visao de multidoes gimoteantes

aguardando uma alvorada que nao teria que chegar, todavia, ao mesmo tempo, estabeleceram

que a ideia do final tinha precedido em alguns seculos aquele dia fatal e, o que e ainda mais

curioso, que o tinha sobrevivido. Dai tomaram forma os varios milenarismos do segundo

milenio, que nao foram unicamente movimentos religiosos, por mais ortodoxos, ou hereticos

que fossem, porque hoje em dia se tende a classificar tambem como formas de milenarismo a

muitos movimentos politicos e sociais, e de matriz laica e inclusive ateia, que pretendiam

acelerar, violentamente, o fim dos tempos, nao para construir a Cidade de Deus, a nao ser uma

nova Cidade Terrena.

Livro bifido e terrivel, o Apocalipse de Sao Joao, junto com a sequela de Apocalipse

apocrifos aos quais se associa — apocrifos para o Canone, mas, autenticos para os efeitos, as

paixoes, os terrores e os movimentos que suscitaram —, pode ser lido como uma promessa,

embora tambem, como o anuncio de um final, e assim foi reescrito a cada passo, e esta espera

do 2000, inclusive por parte de quem nao o le. Nao ja, pois, as sete trombetas, e o pedrisco e o

mar que se converte em sangue, e a queda das estrelas, e das lagostas que surgem com a fumaca

do poco do abismo» e os exercitos do Gog e Magog, e a Besta que surge do mar; a nao ser, o

multiplicar-se dos depositos nucleares incontrolados e incontrolaveis; e as chuvas acidas; e os

bosques do Amazonas que desaparecem; e o buraco de ozonio; e as migracoes de hordas de

deserdados que vao a chamar, as vezes com violencia, as portas do bem-estar; e a fome de

continentes inteiros; e novas e incuraveis pestilencias; e a destruicao interessada do solo; e os

climas que se modificam; e as geleiras que se degelam; e a engenharia genetica que construira

nossos replicantes; e, segundo o ecologismo mistico, o necessario suicidio da humanidade inteira,

que tera que perecer, para salvar a especie que quase destruiu, a mae Geia a que desnaturalizou

e sufocou.

Estamos vivendo (embora nao seja mais que na medida desatenta a que nos

acostumaram os meios de comunicacao de massas) nossos proprios terrores do final dos

tempos, e poderiamos dizer que os vivemos com o espirito do bibamus, edarnus, cras moriemur (1),

[Bebamos, comamos, amanha morreremos (N. do T.)] ao celebrar o crepusculo das ideologias e

da solidariedade no torvelinho de um consumismo irresponsavel. Deste modo, cada um joga

com o fantasma do Apocalipse, ao mesmo tempo que o exorciza, e quanto mais o exorciza mais

inconscientemente, o teme, e o projeta nas telas em forma de espetaculo cruento, com a

esperanca de assim have-lo convertido em irreal. A forca dos fantasmas, entretanto, reside

precisamente em sua irrealidade.

Agora queria propor a ideia, um pouco ousada, de que o conceito do fim dos tempos e

hoje mais proprio do mundo laico que do cristao. Ou dito de outro modo, o mundo cristao faz

disso objeto de meditacao, todavia, comporta-se como se o adequado fosse projeta-lo em uma

dimensao que nao se mede pelo calendario; o mundo laico finge ignora-lo, mas

substancialmente, esta obcecado por isso. E nao se trata de um paradoxo, porque nao se faz

mais que repetir o que ja aconteceu nos primeiros mil anos.

Nao me deterei em questoes exegeticas que voce conhece melhor que eu, porem, queria

recordar aos leitores que a ideia do fim dos tempos surgia de uma das passagens mais ambiguas

do texto de Sao Joao, o capitulo 20. Este deixava entender o seguinte «cenario»: com a

Encarnacao e a Redencao, Satanas foi apressado, todavia, depois de mil anos retornara, e entao

sera inevitavel o choque final entre as forcas do bem e as do mal, coroado pela volta de Cristo e

o Julgamento Universal. E inegavel que Sao Joao fala de mil anos, mas ja alguns Padres da

Igreja tinham escrito que mil anos sao para o Senhor um dia, ou um dia, mil anos, e que

portanto, nao terei que tomar as contas ao pe da letra; em Santo Agostinho a leitura do

fragmento adquire um significado «espiritual». Tanto o milenio como a Cidade de Deus nao sao

acontecimentos historicos, mas sim, melhor, misticos, e o Armageddon nao e desta terra;

evidentemente, nao se nega que a historia possa finalizar algum dia, quando Cristo desca para

julgar aos vivos e aos mortos, entretanto, o que fica em evidencia nao e o fim dos seculos, a nao

ser, seu proceder, dominado pela ideia reguladora (nao pelo prazo historico) da parusia.

Com isso, nao so Santo Agostinho, mas tambem a patristica em seu conjunto, doa ao

mundo a ideia da Historia como trajetoria para diante, ideia estranha para o mundo pagao. Ate

Hegel e Marx sao devedores desta ideia fundamental, como o sera Teilhard de Chardin. Foi o

cristianismo que inventou a historia, e e, com efeito, o moderno Anticristo quem a denuncia

como enfermidade. O historicismo laico, se acaso, entendeu esta historia como imensamente

imperfeita de modo que o manha aperfeicoe o hoje, sempre e sem reservas, e no curso da

historia mesma, Deus se va fazendo a si mesmo, por assim dize-lo, educando-se e

enriquecendo-se. Todavia, nao e esta a forma de pensar de todo o mundo laico, que da historia

soube ver as regressoes e as loucuras; em qualquer caso, da-se uma visao da historia

originalmente crista cada vez que este caminho se percorre sob o sinal da Esperanca. De modo

que, ate sendo capaz de julgar a historia e seus horrores, e-se, fundamentalmente, cristao tanto

se se compartilhar o otimismo tragico de Mounier, como se, seguindo ao Gramsci, fala-se do

pessimismo da razao e do otimismo da vontade.

Considero, pois, que ha um milenarismo desesperado, cada vez que o fim dos tempos se

contempla como inevitavel, e qualquer esperanca cede o lugar a uma celebracao do fim da

historia, ou a convocatoria do retorno a uma tradicao intemporal, ou arcaica, que nenhum ato

de vontade e nenhuma reflexao, nao digo ja racional, a nao ser, razoavel, podera jamais

enriquecer. Disto surge a heresia gnostica (tambem em suas formas laicas), segundo a qual o

mundo e a historia sao o fruto de um engano, e so alguns escolhidos, destruindo ambos,

poderao redimir ao proprio Deus; dai nascem as distintas formas de super-humanismo para as

quais, no miseravel cenario do mundo e da historia, so os adeptos a uma raca, ou a uma seita

privilegiada, poderao celebrar seus flamigeros holocaustos.

So se conta com um sentido da direcao da historia (inclusive para quem nao acredita na

parusia) podem-se amar as realidades terrenas e acreditar — com caridade — que exista ainda

lugar para a Esperanca.

Existe uma nocao de esperanca (e de propria responsabilidade em relacao ao amanha )

que possa ser comum a crentes e nao crentes? No que pode apoiar-se ainda? Que funcao critica

pode adotar uma reflexao sobre o fim que nao implique desinteresse pelo futuro, a nao ser,

julgamento constante aos enganos do passado?

Pois, de outra maneira, seria perfeitamente plausivel, inclusive sem pensar no fim, aceitar

que este se aproxima, colocar-se ante o televisor (resguardados por nossas fortificacoes

eletronicas) e esperar que alguem nos divirta, enquanto as coisas, enquanto isso, vao como vao.

E ao diabo os quais venham atras.

Umberto Eco, marco de 1995

A esperanca faz do fim «um fim»

Querido Umberto Eco:

Estou plenamente de acordo em que voce se dirija a mim utilizando meu nome e

sobrenome, e por isso eu farei o mesmo com voce. O Evangelho nao e muito benevolo com os

titulos («Vos, em troca, nao lhes deixeis chamar "Rabbi"... nem chameis a ninguem "seu Pai na

terra... nem tampouco lhes deixeis chamar "Mestre"», Mateus 23, 8-10). Assim resulta, por outra

parte, mais claro, como voce diz, que este e um intercambio de reflexoes realizado entre nos

com liberdade, sem espartilhos nem implicacoes de cargo algum. Espero, em todo caso, que se

trate de um intercambio frutifero, porque me parece importante por de relevo, com franqueza,

nossas preocupacoes comuns e procurar a maneira de esclarecer nossas diferencas, tirando a luz

o que, verdadeiramente, e diferente entre nos.

Estou deste modo de acordo em elevar o olhar neste primeiro nosso dialogo.

Entre os problemas que mais nos preocupam se contam sem duvida os relacionados

com a etica. Todavia, os acontecimentos diarios que mais impressionam a opiniao publica

(refiro-me em particular aos quais afetam a bioetica) sao, frequentemente, eventos

«fronteiricos», ante os quais se impoe, em primeiro lugar, compreender do qual se trata, do

ponto de vista cientifico, antes de precipitar-se a emitir julgamentos morais que sejam

facilmente causa de polemica. O importante e determinar antes que nada os grandes horizontes

entre cujos limites se formam nossos julgamentos. E so a partir deles poderemos discernir

tambem os porques das valoracoes praticas em conflito.

Voce me propoe o problema da esperanca e, em consequencia, o do futuro do homem,

as portas do segundo milenio. Voce evocou essas imagens apocalipticas que, ao que parece,

fizeram tremer as multidoes para finais do primeiro milenio. Embora, tudo isso, nao seja

verdade, como se diz, E ben trovato, porque o medo ao futuro existe, os milenarismos se

reproduziram constantemente ao longo dos seculos, seja em forma de seitas, seja na desses

quiliasmos implicitos que dao vida, no mais profundo, aos grandes movimentos utopicos. Hoje

em dia, alem disso, as ameacas ecologicas foram substituindo as fantasias do passado, e seu

carater cientifico as faz ainda mais espantosas.

E o que e que o Apocalipse, o ultimo dos livros que compoem o Novo Testamento, tem a

ver com tudo isso? Pode-se definir, realmente, este livro como um deposito de imagens de

terror, que evocam um fim tragico e irremissivel, face as semelhancas de tantas paginas do

chamado Apocalipse de Sao Joao, com outros numerosos textos apocalipticos daqueles seculos,

sua chave de leitura e distinta. Esta vem dada do contexto do Novo Testamento, no qual o

livro em questao foi (nao sem resistencias) admitido.

Tentarei me explicar melhor. No apocalipse o tema predominante e, em geral, a fuga do

presente para refugiar-se em um futuro que, depois de ter desbaratado as estruturas atuais do

mundo, instaure com forca uma ordem de valores definitiva, conforme as esperancas e desejos

de quem escreve o livro. Depois da literatura apocaliptica se acham grupos humanos oprimidos

por graves sofrimentos religiosos, sociais e politicos, os quais, nao vendo saida alguma na acao

imediata, projetam-se na espera de um tempo, no qual as forcas cosmicas se abatam sobre a

terra para derrotar todos os seus inimigos. Neste sentido, pode observar-se que em todo

apocalipse ha uma grande carga utopica e uma grande reserva de esperanca, entretanto, ao

mesmo tempo, uma desolada resignacao em relacao ao presente.

Agora bem, talvez seja possivel achar semelhancas de tudo isso, depois dos documentos

singulares que logo confluiram no atual livro do Apocalipse, mas, uma vez que o livro se le da

perspectiva crista, a luz dos Evangelhos, troca de acento e de sentido. Converte-se, nao na

projecao das frustracoes do presente, a nao ser, na prolongacao da experiencia da plenitude, em

outras palavras, da «salvacao», levada a cabo pela Igreja primitiva. Nem ha, nem havera,

potencia humana, ou satanica, que possa opor-se a esperanca do crente.

Deste ponto de vista, estou de acordo com voce quando afirma que a ideia do fim dos

tempos e hoje mais propria do mundo laico que do cristao.

O mundo cristao, por sua vez, nao foi alheio ao pulsear apocaliptico, que em parte se

remetiam a uns obscuros versiculos do Apocalipse, 20: «...dominou a serpente antiga e a

encadeou por mil anos... as almas dos quais foram decapitados... reviveram e reinaram com

Cristo mil anos». Houve uma corrente da tradicao antiga que interpretava estes versiculos a

letra, todavia, tais milenarismos literais, nunca gozaram de excessivo credito na grande Igreja.

Prevaleceu o sentido simbolico destas passagens, que interpreta ai, como em outras paginas do

Apocalipse, uma projecao estendida ao futuro dessa vitoria que os primeiros cristaos sentiam

viver na presente gracas a sua esperanca.

Desta maneira, a historia foi vista sempre, mais claramente, como um caminho para uma

meta fora desta, que nao imanente a ela. Esta perspectiva poderia ser expressa mediante uma

tripla conviccao:

1. A historia possui um sentido, uma direcao de marcha, nao e um mero amontoado de

feitos absurdos e vaos.

2. Este sentido nao e puramente imanente, mas sim, projeta-se alem dela, e portanto,

nao deve ser objeto de calculo, mas sim de esperanca.

3. Esta perspectiva nao esgota, mas sim, solidifica o sentido dos acontecimentos

contingentes: e o lugar etico, no qual se decide o futuro meta-historico da aventura humana.

Ate aqui observo que dissemos muitas coisas parecidas, embora com acentos diversos e

com referencias a fontes distintas. Agrada-me esta consonancia sobre o «sentido» que tem a

historia e que permite que (cito suas proprias palavras) «possam-se amar as realidades terrenas e

acreditar — com caridade — que exista ainda lugar para a Esperanca».

Mais dificil e responder a pergunta de se existir uma «nocao» de esperanca (e de propria

responsabilidade em relacao ao amanha) que possa ser comum a crentes e nao crentes. Tem

que haver, de um modo ou outro, porque na pratica se pode ver como ha crentes e nao crentes,

que vivem seu proprio presente, conferindo-se-lhe um sentido e comprometendo-se com ele

responsavelmente. Isso resulta especialmente visivel no caso de quem se entrega de maneira

desinteressada e por seu proprio risco, em nome dos mais altos valores, sem compensacao

visivel. O que quer dizer, portanto, que existe um humus profundo, do qual crentes e nao

crentes, conscientes e responsaveis, alimentam-se ao mesmo tempo, sem serem capazes, talvez,

de lhe dar o mesmo nome. No momento dramatico da acao importam muito mais as coisas que

os nomes, e nao vale a pena, desatar uma quaestio de nomine (2) quando se trata de defender e

promover valores essenciais para a humanidade.

[2 - Problema terminologico. (N. do T.)]

Entretanto, e obvio, que para um crente, em particular catolico, os nomes das coisas tem

sua importancia, porque nao sao arbitrarios, a nao ser, fruto de um ato de inteligencia e de

compreensao que, se e compartilhado por outro, leva ao reconhecimento inclusive teorico de

valores comuns. Em relacao a isto, considero que fica ainda muito caminho por percorrer, e

que esse caminho se chama exercicio de inteligencia e valor para escrutinar juntos as coisas

singelas. Muito frequentemente repete Jesus nos Evangelhos: «Quem tem ouvidos para ouvir,

que ouca!... prestem atencao!... ainda nao compreendem nem entendem?» (Marcos 4,9; 8,17...)-

Ele nao se remete a teorias filosoficas, ou a disputas de escolas, a nao ser, a essa inteligencia que

nos foi dada, a cada um de nos, para compreender o sentido dos acontecimentos e nos orientar.

Cada minimo progrido neste entendimento, sobre as grandes coisas singelas, significaria um

passo adiante para compartilhar as razoes da esperanca tambem.

Uma ultima provocacao em sua carta despertou meu interesse: que funcao critica pode

adotar uma reflexao sobre o fim, que nao implique desinteresse pelo futuro, a nao ser, processo

constante aos enganos do passado? Parece-me evidente, que nao e so a ideia de um fim

irremissivel, o que pode nos ajudar a valorar, criticamente, quanto deixamos atras. Tal ideia

sera, em todo caso, fonte de temor, de medo, de retirada para a gente mesmo, ou de evasao

para um futuro «distinto», como precisamente ocorre na literatura apocaliptica.

Para que uma reflexao sobre o fim estimule nossa atencao, tanto para o futuro, como

para o passado, para reconsidera-los de maneira critica, e necessario que este fim seja «um fim»,

que tenha o carater de um valor final decisivo, capaz de iluminar os esforcos do presente e lhes

dotar de significado. Se o presente possuir valor em relacao a um valor final reconhecido e

apreciado, que eu possa antecipar com atos de inteligencia e de responsavel eleicao, isso me

permitira tambem refletir a respeito dos enganos do passado sem angustia. Saberei que estou

em marcha; poderei vislumbrar algo da meta; ao menos, em seus valores essenciais; saberei que

me e possivel me corrigir e melhorar. A experiencia demonstra que somente nos arrependemos

daquilo que pressentimos poder fazer melhor. Quem nao reconhece seus enganos permanece

preso a eles, porque nao ve nada melhor ante si e se pergunta entao, por que tem que

abandonar o que tem.

Todos estes me parecem modos de conjugar essa palavra, «Esperanca», que talvez nao

me atrevesse a escrever com maiuscula se voce nao me tivesse dado exemplo. Nao e pois, ainda

o momento de deixar-se embebedar pela televisao, enquanto esperamos o fim. Ainda fica muito

por fazer juntos.

Carlo Maria Martini, marco de 1995

Quando comeca a vida humana?

Querido Carlo Maria Martini:

De acordo com a proposta inicial desta revista, volta-nos a apresentar a ocasiao para

nossa conversa trimestral. A finalidade deste intercambio epistolar e estabelecer um terreno de

discussao comum entre laicos e catolicos (onde voce, o recordo, fala como homem de cultura e

crente, e nao em qualidade de principe da Igreja). Pergunto-me, entretanto, se o que se trata e

de achar unicamente pontos de consenso. Vale a pena que nos perguntemos, reciprocamente, o

que pensamos sobre a pena de morte, ou sobre o genocidio, para descobrir, em que se refere a

certos valores, nosso acordo e profundo? Se tiver que haver dialogo, devera ter lugar tambem

nas zonas, nas quais o consenso nao exista. Todavia, isto tampouco basta: que, por exemplo,

um laico nao creia na Presenca real e um catolico obviamente sim, nao constitui causa de

incompreensao, mas sim, de mutuo respeito para as respectivas crencas. O ponto critico se

encontra ali, onde do desacordo, possam surgir choques e incompreensoes mais profundos, que

se traduzam em um plano politico e social.

Um destes pontos criticos e apelar ao valor da vida frente a legislacao existente sobre a

interrupcao do embaraco.

Quando se confrontam problemas deste alcance, e necessario por as cartas sobre a mesa,

para evitar qualquer equivoco: quem expoe a pergunta deve esclarecer a perspectiva da qual a

expoe e o que espera do interlocutor. Eis aqui, pois, minha primeira clarificacao: nao me vi

jamais na circunstancia de, ante uma mulher que se declarasse gravida por causa de minha

colaboracao, ter que lhe aconselhar o aborto, ou dar meu consentimento a sua vontade de

abortar. Se me ocorresse algo assim, faria todo o possivel para persuadi-la de que desse vida a

essa criatura, fosse qual fosse o preco que juntos tivessemos de pagar. E isso, porque considero

que o nascimento de um menino e algo maravilhoso, um milagre natural que tera que aceitar. E,

contudo, nao me sinto capaz de impor esta posicao minha etica (esta disposicao passional

minha, esta persuasao intelectual minha) a ninguem. Considero que existem situacoes terriveis,

das quais todos nos sabemos pouquissimo (por isso, me abstenho de esbocar tipologia, ou

casuistica alguma); nas quais a mulher tem direito a tomar uma decisao autonoma, que afeta seu

corpo, seus sentimentos e seu futuro.

Entretanto, outros apelam aos direitos da vida: se em nome do direito a vida nao

podemos consentir que ninguem mate a um semelhante, e nem sequer que se mate a si mesmo

(nao quero me inundar discutindo os limites da defesa propria), da mesma forma, nao podemos

permitir que ninguem trunque o caminho de uma vida iniciada.

E vamos com a segunda clarificacao: pecaria de malicia se — neste contexto — lhe

convidasse a expressar seu parecer, ou a remeter-se ao magisterio da Igreja. Convido-lhe,

melhor, a comentar algumas das reflexoes que lhe vou propor, e a nos contribuir elucidacoes

sobre o estado da doutrina. A bandeira da Vida, quando ondeia, nao pode, a nao ser, comover

todos os animos. Sobretudo, permita-me dize-lo, os dos nao crentes, ate os dos ateus mais

recalcitrantes, porque eles sao precisamente quem, ao nao acreditar em nenhuma instancia

sobrenatural, cifram na ideia da Vida, no sentimento da Vida, o unico valor, a unica fonte de

uma etica possivel. E entretanto, nao ha conceito mais esquivo, esfumado ou, como revestem

dizer hoje os logicos, fuzzy. Como ja sabiam os antigos, a vida se reconhece nao so onde ha

uma aparencia de alma intelectiva, mas tambem, uma manifestacao de alma sensitiva e

vegetativa. E mais, existem hoje quem se define como ecologistas radicais, para os quais ha uma

vida da Mae terra mesma, incluindo seus Montes e seus vulcoes, ate tal ponto que se perguntam

se nao seria melhor que a especie humana desaparecesse, ao objeto de que o planeta (ameacado

por ela) sobrevivesse. Estao, alem disso, os vegetarianos, que renunciam em respeito da vida

vegetal para proteger a animal. Ha ascetas orientais que cobrem a boca para nao ingerir e

destruir microorganismos invisiveis.

Recentemente, em um congresso, o antropologo africano Harris Memel-Fote recordava

que a atitude habitual do mundo ocidental foi cosmofagica (bonito termo, tendiamos e tendemos

a devorar o universo); agora devemos nos preparar (e certas civilizacoes o tem feito) a uma

certa forma de negociacao: trata-se de ver o que e que o homem pode fazer a natureza para

sobreviver e o que e que nao deve lhe fazer para que esta sobreviva. Quando ha negociacao e

porque nao existe ainda uma regra fixa, negocia-se para estabelecer uma. Parece-me que,

deixando a parte certas posicoes extremistas, negociamos sempre (e mais frequentemente

emotiva que intelectualmente) nosso conceito de respeito a vida.

A maior parte de nos se horrorizaria se tivesse que degolar a um porco, mas o presunto

comemo-lo tranquilamente. Eu nao esmagaria jamais uma centopeia na grama, todavia,

comporto-me com violencia frente aos mosquitos. Chego ate a discriminar entre uma abelha e

uma vespa (embora ambas possam ser uma ameaca para mim, possivelmente porque reconheco

a primeira virtudes que nao reconheco a segunda). Poder-se-ia dizer que, se nosso conceito de

vida vegetal ou animal esta um pouco esfumado, nao o esta o da vida humana. E, entretanto, o

problema turvou a teologos e filosofos ao longo dos seculos. Se por ventura um macaco,

oportunamente educado (ou geneticamente manipulado), fora capaz, nao digo ja de falar, mas

sim de teclar em um ordenador proposicoes sensatas, sustentando um dialogo; manifestando

afetos, memoria, capacidade de resolver problemas matematicos; receptividade ante os

principios logicos da identidade e do terceiro excluido, considerariamo-lo um ser quase

humano? Reconheceriamo-lhe direitos civis? Veriamo-lo como humano porque pensa e ama?

Entretanto, nao consideramos, necessariamente, humano a quem ama, e de fato matamos aos

animais ate sabendo que a mae «ama» a seus proprios brotos.

Quando comeca a vida humana? Existe (hoje em dia, sem voltar para os costumes dos

espartanos) um nao crente, que afirme que, um ser e humano, unicamente, quando a cultura o

iniciou a humanidade, dotando-lhe de linguagem e pensamento articulado (os unicos acidentes

externos dos quais, conforme dizia Sao Tomas, pode-se inferir a presenca da racionalidade e,

portanto, de uma das diferencas especificas da natureza humana), por isso, nao constitui delito

matar a um menino que acaba de nascer, que e, portanto, e exclusivamente, um «infante»? Nao

acredito. Todos consideramos ja como ser humano ao recem-nascido, unido ainda ao cordao

umbilical. Ate quando podemos nos retroagir? Se vida e humanidade estao ja no semen (ou

inclusive, no programa genetico), consideraremos que o desperdicio do semen e igual ao

homicidio? Nao o diria o confessor indulgente de um adolescente que cedeu a tentacao, mas

nao o dizem tampouco as Escrituras. Na Genese o pecado de Caim e condenado atraves de uma

explicita maldicao divina, enquanto que o de Onan comporta sua morte natural por haver-se

subtraido ao dever de dar a vida. Por outra parte, e voce sabe melhor que eu, o traducianismo

pregado por Tertuliano, segundo o qual a alma (e com ela o pecado original) transmite-se

atraves do semen, foi repudiado pela Igreja. Se ainda Santo Agostinho tentava mitiga-lo sob

uma forma de traducianismo espiritual, pouco a pouco, se foi impondo o criacionismo segundo

o qual a alma e introduzida diretamente por Deus no feto em um momento dado de sua

gestacao.

Sao Tomas empregou tesouros de sutileza para explicar como e por que deve ser assim,

dando lugar a uma longa discussao, sobre como o feto passa atraves de fases puramente

vegetativas e sensitivas, e so ao cumprir-se estas se dispoe a receber a alma intelectiva em ato

(acabo de reler as formosas questoes, tanto da Summa como do Contra gentes); e nao vou evocar

os longos debates que se levaram a cabo para decidir em que fase do embaraco tem lugar esta

«humanizacao» definitiva (entre outras coisas, porque nao sei ate que ponto a teologia de hoje,

esta ainda disposta a tratar o assunto em termos de potencia e ato). O que quero dizer e que

dentro da propria teologia crista se expos o problema dos limites (sutilissimos) a partir dos

quais o que era uma hipotese, um germe — um obscuro articular-se de vida, unido ainda ao

corpo materno, um maravilhoso desejo de luz, nao distinto ao da semente vegetal que na

profundidade da terra conflita por converter-se em flor—, em determinado momento deve ser

reconhecido como animal racional, alem de mortal. E o mesmo problema se expoe ao nao

crente, disposto a reconhecer que dessa hipotese inicial vai surgir em qualquer caso um ser

humano.

Nao sou biologo (como nao sou teologo) e nao me sinto capaz de expressar nenhuma

afirmacao sensata a respeito de tais limites, se e que existem realmente limites. Nao ha nenhuma

teoria matematica das catastrofes que saiba nos dizer se existe um ponto de inflexao, de

explosao foto instantanea; talvez estejamos condenados a saber, unicamente, que tem lugar um

processo, cujo resultado final e o milagre do recem-nascido, e que decidir ate que momento se

tem o direito de intervir nesse processo e a partir de qual ja nao e licito faze-lo, nao pode ser

nem esclarecido nem discutido. E portanto, ou tal decisao nao se deve tomar nunca, ou toma-la

e um risco do qual a mae deve responder so ante Deus, ou ante o tribunal de sua propria

consciencia, ou do da humanidade.

Ja disse que nao pretendia lhe solicitar um pronunciamento sobre a questao. O que lhe

peco e que comente, o apaixonante processo de varios seculos de teologia, sobre uma questao

que se situa na mesma base de nosso reconhecimento como consorcio humano. Qual e o

estado atual do debate teologico a respeito, agora que a teologia nao se mede ja com a fisica

aristotelica, a nao ser, com as certezas (e as incertezas!) da ciencia experimental moderna?

Como bem sabe voce, sob tais questoes nao subjaz, unicamente, uma reflexao sobre o

problema do aborto, mas tambem, uma dramatica serie de problemas novissimos, como a

engenharia genetica, por exemplo, ou a bioetica, sobre a que hoje todos discutem, sejam crentes

ou nao.

Qual e hoje a atitude do teologo frente ao criacionismo classico?

Definir o que e, e onde comeca, a vida e uma questao em que nos jogamos a vida.

Expor-me estas perguntas e um duro peso, moral, intelectual e emotivo, creia, tambem para

mim.

Umberto Eco, junho de 1995

A vida humana participa da vida de Deus

Querido Umberto Eco:

Com toda razao recorda voce, ao principio de sua carta, o objetivo desta conversa

epistolar. Trata-se de estabelecer um terreno de discussao comum entre laicos e catolicos,

confrontando tambem aqueles pontos nos quais nao ha consenso. Sobretudo, aqueles pontos

dos quais surgem incompreensoes profundas, que se traduzem em conflitos em um plano

politico e social. Estou de acordo, sempre que se tenha a valentia de desmascarar, antes que

nada, os mal-entendidos que estao nas raizes da incompreensao. Resultara entao muito mais

facil medir-se com as verdadeiras diferencas. E isso com tanto mais paixao e sinceridade,

quanto mais afetado e comprometido resulte um pelo tema em questao, disposto a «pagar em

pessoa». Por isso, apreciei muito sua primeira elucidacao sobre o tema da Vida: o nascimento

de um menino e «algo maravilhoso, um milagre natural que tera que aceitar».

A partir desta evidencia devemos reconhecer que o tema da Vida (mais adiante

comentarei esta maiuscula que utiliza voce) constitui sem duvida um dos pontos criticos de

conflito, em especial no que se refere a legislacao sobre a interrupcao do embaraco. Mas aqui

nos encontramos ja com a primeira fonte de mal-entendidos. Uma coisa, com efeito, e falar da

vida humana e de sua defesa do ponto de vista etico, e outra e perguntar-se pela maneira

concreta mediante a qual uma legislacao pode defender, do melhor modo possivel, estes valores

em uma determinada situacao civil e politica. Outra fonte de mal-entendidos e o que voce

chama «a bandeira da Vida», que, «quando ondeia, nao pode, a nao ser, comover todos os

animos». Acredito que estara voce de acordo comigo em que as bandeiras resultam uteis para

assinalar grandes ideais de ordem geral, todavia, nao servem muito na hora de resolver questoes

complexas nas quais emergem conflitos de valores no ambito dos proprios ideais. O que faz

falta entao, e uma reflexao atenta, detida, sensivel, paciente. As fronteiras sao sempre terrenos

falaciosos. Lembro-me quando pequeno, passeando pelas montanhas fronteiricas do Vale da

Aosta, detinha-me a pensar em qual seria realmente o ponto exato do limite entre as duas

nacoes. Nao compreendia como era, humanamente, determinada. E, entretanto, as nacoes

existiam, e bem diferenciadas.

A terceira fonte de mal-entendidos e, a meu entender, a confusao entre o uso extenso,

«analogico» (como diriam os escolasticos, e cito-os, confiando em que voce, como me assegura,

tornou a ler algumas paginas da Summa e do Contra gentes) e do termo «Vida» e o uso restringido

e proprio do termo «vida humana». Pela primeira acepcao se entende qualquer ser vivente no

ceu, sobre a terra e clandestinamente, e em ocasioes inclusive a «Mae terra» mesma com seus

sobressaltos, sua fecundidade, sua respiracao. O hino ambrosiano da noite da quinta-feira canta,

referindo-se ao primeiro capitulo da Genese: «O quarto dia tudo o que vive/ tirou, Oh, Deus,

das aguas primordiais:/ saltam os peixes no mar/ os passaros se perseguem pelo ar.» Mas nao e

este conceito extenso de «Vida» o que esta agora em questao, por muito que possa haver aqui,

tambem diferencas culturais e inclusive religiosas. O candente problema etico se refere a «vida

humana».

Mas tambem, sobre isso se fazem necessarias certas elucidacoes. Pensa-se as vezes, e

assim se escreve, que a vida humana e para os catolicos o valor supremo. Semelhante maneira

de expressar-se resulta pelo menos imprecisa. Nao corresponde aos Evangelhos, que dizem:

«Nao temam a quem mata o corpo, pois nao tem poder para matar a alma» (Mateus, 10,28). A

vida que representa o supremo valor para os Evangelhos nao e a vida fisica e, nem sequer, a

psicologica (para as quais os Evangelhos usam os termos gregos bios e psyche) a nao ser, a vida

divina comunicada ao homem (para a qual se usa o termo zoe). Os tres termos se distinguem

cuidadosamente no Novo Testamento e os dois primeiros ficam subordinados ao terceiro: «que

ama sua vida (psyche) perde-a; que odeia sua vida (psyche) neste mundo, guarda-la-a para uma vida

eterna (zoe)» (Joao 12,25). Por isso, quando dizemos «Vida» com maiuscula, devemos entender

antes que nada a suprema e muito concreta Vida e Ser que e Deus mesmo. E esta a vida que

Jesus se atribui a si mesmo («Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida», Joao, 14,6) e da que

todos os homens e as mulheres sao chamados a formar parte. O valor supremo neste mundo e

o homem vivente da vida divina.

Por ai se compreende o valor da vida humana fisica na concepcao crista: e a vida de uma

pessoa chamada a participar da vida de Deus mesmo. Para um cristao, o respeito da vida

humana desde sua primeira individuacao nao e um sentimento generico (voce fala de

«disposicao pessoal», de «persuasao intelectual»), a nao ser, o encontro com uma precisa

responsabilidade: a deste ser vivente humano concreto, cuja dignidade nao esta ao arbitrio,

unicamente, de uma valoracao benevola minha, ou de um impulso humanitario, mas sim de

uma chamada divina. E algo que nao e so «eu» ou «meu» ou «dentro de mim», a nao ser, diante

de mim.

Todavia, quando se pode dizer que me encontro ante um ser vivente concreto ao que

posso chamar humano, no qual se pousa a benevolencia divina? Recorda voce com toda razao

que «todos consideramos ja como ser humano ao recem-nascido unido ainda ao cordao

umbilical». Entretanto, «ate quando podemos nos retroagir?». Onde estao os «limites»? Voce faz

confrontacao, oportunamente, as sutis reflexoes de Sao Tomas, a respeito das distintas fases do

desenvolvimento do ser vivente. Nao sou filosofo nem biologo, e nao quero entrar em tais

questoes. Mas todos sabemos que hoje se conhece melhor a dinamica do desenvolvimento

humano e a claridade de sua determinacao genetica a partir de um momento que, teoricamente

ao menos, pode ser precisado. A partir da concepcao nasce, com efeito, um novo ser. Novo

significa distinto dos dois elementos que, ao unir-se, formaram-lhe. Tal ser comeca um

processo de desenvolvimento que lhe levara a converter-se nesse «menino, algo maravilhoso,

milagre natural que tera que aceitar». E este o ser do qual se trata, desde o comeco. Ha uma

continuidade na identidade.

Acima de discussoes cientificas e filosoficas, o fato e que algo que esta aberto a um

destino tao grande, o de ser chamado por seu nome pelo mesmo Deus, e digno desde o

comeco de um enorme respeito. Nao queria me remeter a um generico «direito a Vida», que

pode parecer frio e impessoal. Trata-se de uma responsabilidade concreta para quem e o

referente de um enorme e pessoal amor, e portanto, de responsabilidade para «alguem». Em sua

condicao de chamado e amado, este alguem tem ja um rosto, e objeto de afeto e de atencao.

Qualquer violacao desta exigencia de afeto e de atencao so pode ser vivida como conflito,

como profundo sofrimento, como doloroso rasgo. O que estou dizendo e que resulta

necessario fazer todo o possivel para que tal conflito nao se verifique, para que este desgarrar

nao se produza. Sao feridas que se fecham com muita dificuldade, talvez nao o facam jamais.

Quem leva as cicatrizes e sobretudo a mulher, a quem em primeiro lugar e de maneira fiduciaria

lhe confia o mais debil e mais nobre do mundo.

Se nisto consiste o problema etico e humano, o problema civil consequente sera como

ajudar as pessoas e a sociedade inteira a evitar, tanto quanto possivel, tais desgarroes? Como

apoiar a quem se encontra em um aparente ou real conflito de deveres, para que nao resulte

esmagado?

Conclui voce dizendo: «definir o que e, e onde comeca, a vida e uma questao em que

nos jogamos a vida». Estou de acordo, pelo menos sobre o «que e», e ja dei minha resposta. O

«onde» pode continuar sendo misterioso, mas fica subordinado ao valor do «o que e». Quando

algo e de supremo valor, merece o maximo respeito. Este deve ser o ponto de partida para

qualquer casuistica de casos limite, que resultara sempre ardua de confrontar mas que, partindo

dai, nao podera ser confrontada jamais com ligeireza.

Fica, entretanto, uma pergunta; visto que sublinhei com insistencia que para o Novo

Testamento nao e a vida fisica a que conta, a nao ser, a vida que Deus nos comunica, como

pode haver dialogo sobre um ponto tao preciso de doutrina «revelada»? Uma resposta se acha

em muitas de suas proprias afirmacoes, que revelam a angustia e a ansiedade que todos

sentimos quando nos achamos frente ao destino de uma vida humana, em qualquer momento

de sua existencia. Existe uma esplendida metafora que expressa de maneira laica o que une, no

mais profundo, a catolicos e a laicos: a metafora do «rosto». Levinas falou que isso em termos

afligidos, como de uma instancia irrefutavel. Todavia, queria recordar umas palavras de Italo

Mancini em um de seus ultimos livros, Tornino i volti (O regresso dos rostos), quase um testamento:

«Nosso mundo, para vive-lo, amar, nos santificar, nao nos vem dado por uma neutra teoria do

ser, nao nos vem dado pelos eventos da historia, ou pelos fenomenos da Natureza; vem-nos

dado pela existencia desses inauditos centros de alteridade que sao os rostos, rostos para olhar,

para respeitar, para acariciar.»

Carlo Maria Martini, junho de 1995

Homens e mulheres segundo a Igreja

Querido Carlo Maria Martini:

Hei-nos aqui de novo para prosseguir nossa conversacao, e confesso-lhe que lamento,

de certa maneira, que a redacao tenha decidido que eu seja sempre o que comece, pois, da-me a

impressao de que resulto algo impertinente. Talvez, a redacao se deixou levar por esse banal

cliche, segundo o qual os filosofos estao especializados em formular perguntas, cujas respostas

desconhecem, enquanto que um pastor de almas, e por definicao, aquele que sempre tem a

resposta adequada. Felizmente demonstrou voce, em suas precedentes cartas, a problematica e

sofrida, que pode chegar a ser a reflexao de um pastor de almas, decepcionando a quem

esperava de suas palavras o exercicio de uma funcao oracular.

Antes de lhe expor uma questao cuja resposta desconheco, queria expor algumas

premissas. Quando uma autoridade religiosa qualquer, de uma confissao qualquer, pronuncia-se

sobre problemas que concernem aos principios da etica natural, os laicos devem lhe reconhecer

este direito; podem estar ou nao de acordo com sua posicao, mas nao tem razao alguma para

lhe negar o direito a expressa-la, inclusive se se manifesta como critica ao modo de viver dos

nao crentes. O unico caso no qual se justifica a reacao dos laicos e se uma confissao tende a

impor aos nao crentes (ou aos crentes de outra fe) comportamentos que as leis do Estado ou da

outra religiao proibem, ou a proibir outros que, pelo contrario, as leis do Estado ou da outra

religiao consentem.

Nao considero igual o caso contrario. Os laicos nao tem direito a criticar o modo de

viver de um crente salvo no caso, como sempre, de que va contra as leis do Estado (por

exemplo, a negativa a que aos filhos doentes lhes pratiquem transfusoes de sangue) ou se

oponha aos direitos de quem professa uma fe distinta. O ponto de vista de uma confissao

religiosa se expressa sempre atraves da proposta de um modo de vida que se considera otimo,

enquanto que do ponto de vista laico deveria considerar-se otimo qualquer modo de vida que

seja consequencia de uma livre eleicao, sempre que esta nao impeca as eleicoes de outros.

Como linha de principio, considero que ninguem tem direito a julgar as obrigacoes que

as distintas confissoes impoem a seus fieis. Eu nao tenho nada que objetar ao fato de que a

religiao muculmana proiba o consumo de substancias alcoolicas; se nao estiver de acordo, nao

me faco muculmano. Nao vejo por que os laicos tem que se escandalizar quando a Igreja

catolica condena o divorcio: se quer ser catolico, nao se divorcie, se quer se divorciar, faca-se

protestante; reage so se a Igreja pretende impedir a si, que nao e catolico, que se divorcie. Devo

confessar que ate me causam irritacao quao homossexuais pretendem ser reconhecidos pela

Igreja, ou os sacerdotes que querem casar-se. Eu, quando entro em uma mesquita, retiro os

sapatos, e em Jerusalem aceito que em alguns edificios, no sabado, os elevadores funcionem

por si mesmos detendo-se, automaticamente, em cada andar. Se quero me deixar calcados os

sapatos, ou dirigir o elevador a meu desejo, vou a outra parte. Ha atos sociais (completamente

laicos) para os quais se exige o smoking, e sou eu quem devo decidir se quero me adequar a um

costume que me irrita, porque tenho uma razao impelente para participar no ato, ou se prefiro

afirmar minha liberdade ficando em minha casa.

Se um grupo de sacerdotes tomasse a iniciativa de defender que, em materias nao

dogmaticas como o celibato eclesiastico, a decisao nao deve corresponder ao Papa, a nao ser, a

comunidade de fieis agrupada em torno de cada bispo, e ao redor desta iniciativa surgisse a

solidariedade de muitissimos crentes praticantes, eu negar-me-ia a assinar qualquer manifesto a

seu favor. Nao porque fosse insensivel a seus problemas, mas sim porque nao pertenco a sua

comunidade e nao tenho o direito de colocar meu nuance em questoes que sao estranhamente

eclesiasticos.

Uma vez dito isto, parece-me algo muito distinto, para um laico sensivel, o tentar

compreender por que a Igreja aprova ou desaprova certas coisas. Se convidar para jantar a um

hebreu ortodoxo (ha muitos, por exemplo, entre meus colegas americanos que estudam

filosofia da linguagem), apresso-me (por razoes de cortesia) a lhe perguntar por antecipado que

tipo de alimentos esta disposto a tomar, mas isso, nao me impede de lhe pedir elucidacoes

depois, sobre a cozinha kosher, para compreender por que deve evitar certos alimentos, que a

mim, a primeira vista, parecem consumiveis ate para um rabino. Deste modo, parece-me

legitimo perguntar ao Papa por que a Igreja se mostra contraria a limitacao da natalidade,

contraria ao aborto, contraria a homossexualidade. O Papa responde-me e eu devo admitir que,

dado que se optou por dar uma determinada interpretacao ao preceito crescite et multiplicamini (3),

sua resposta e coerente. Posso escrever um ensaio para propor uma hermeneutica alternativa,

mas ate que a Igreja nao de conformidade a minha interpretacao, tenda a saltar pela manga, ou,

melhor dizendo, o estilo por parte do escoliasta.

[3 – Crescei e multiplicai-vos. (N. do T.)]

E chego por fim a minha pergunta. Nao consegui encontrar ainda na doutrina nenhuma

razao persuasiva pela qual as mulheres devam ser excluidas do sacerdocio. Se a Igreja quer

excluir as mulheres do sacerdocio — repito-o —, tomo nota disso e respeito sua autonomia em

materia tao delicada. Se fosse mulher e quisesse a todo custo me fazer sacerdotisa, passar-me-ia

ao culto de Isis, sem tentar forcar a mao do Papa. Mas, como intelectual, como leitor (ja

veterano) das Escrituras, alimento certas perplexidades que queria ver esclarecidas.

Nao vejo razoes escriturais. Se leio o Exodo (29 e 30), assim como o Levitico, apreendo

que o sacerdocio e recomendado ao Aarao e a seus filhos, e nao a suas mulheres (e por outro

lado, embora se queria seguir, segundo Sao Paulo, Aos judeus, nao a ordem de Aarao, a nao ser,

a ordem de Melquisedec — que ademais goza de precedencia historico-escritural, veja-se Genese,

14 —, as coisas nao mudariam muito).

Todavia, se quisesse ler a Biblia como um integrista protestante, deveria dizer, como o

Levitico, que os sacerdotes «nao se barbearao nem a cabeca nem a barba», para entrar depois em

crise lendo Ezequiel (44, 20), segundo o qual, pelo contrario, deverao cortar-se cuidadosamente

a juba; alem disso, segundo ambos os textos nao podem aproximar-se dos cadaveres. E como

bom integrista deveria exigir que um sacerdote (embora fosse catolico) se detivesse ao Levitico,

segundo o qual os sacerdotes podem tomar esposa, ou ao Ezequiel, segundo o qual podem

casar-se so com uma virgem, ou com a viuva de outro sacerdote.

Mas, inclusive um crente, admite que os autores biblicos escreviam adaptando tanto a

cronica dos acontecimentos, como os argumentos a possibilidade de compreensao e aos

costumes das civilizacoes as quais se dirigiam, por isso se Josue houvesse dito; «Detenha, Oh,

terra!» ou inclusive «Que se suspenda a lei newtoniana da gravitacao universal!», tivessem-no

tomado por louco. Jesus disse que terei que pagar os tributos ao Cesar, porque era o que lhe

sugeria a situacao politica do Mediterraneo, mas isso nao significa que um cidadao europeu

tenha hoje o dever de pagar impostos ao ultimo descendente dos Autriacos, e qualquer

sacerdote perspicaz lhe dira que ira ao inferno (ou assim o espero) se sonegar ao devido tributo

ao Ministerio da Fazenda de seu pais respectivo.

O nono mandamento proibe desejar a mulher de outro, mas o magisterio da Igreja

jamais pos em duvida que se referisse, por sinedoque, tambem as mulheres, proibindo-lhes

desejar ao homem de outra.

Desta forma resulta obvio, inclusive para o crente, que se Deus decide que a segunda

pessoa da Santissima Trindade tem que encarnar na Palestina, e naquela epoca, nao ficava outro

remedio que fazer que se encarnasse como varao, porque, senao, sua palavra nao teria gozado

de autoridade alguma. Suponho que nao negara voce que, se por um inescrutavel intuito divino,

Cristo tivesse encarnado no Japao, teria consagrado o arroz e o sake, e o misterio da Eucaristia

continuaria sendo o que e. Se Cristo encarnou-se um par de seculos mais tarde, quando

gozavam de notavel credito profetisas montanhistas como Priscila e Maximila, possivelmente

tivesse podido faze-lo sob forma feminina, e assim ocorresse talvez em uma civilizacao como a

romana, que tinha em grande consideracao as Vestais. Para negar isto seria necessario afirmar

que a femea e um ser impuro. Se alguem, em alguma civilizacao, ou em alguma epoca, tem-no

feito, nao e o caso, certamente, do atual Pontifice.

Podem-se aduzir razoes simbolicas: dado que o sacerdote e imagem de Cristo, sacerdote

por excelencia, e que Cristo era varao, para preservar a riqueza deste simbolo o sacerdocio deve

ser prerrogativa masculina. Mas de verdade um plano como o da Salvacao deve seguir as leis da

iconografia, ou da iconologia?

Visto que e indubitavel que Cristo se sacrificou tanto pelos homens como pelas

mulheres e que, em oposicao aos costumes de seu tempo, conferiu privilegios altissimos a seus

seguidores de sexo feminino, visto que a unica criatura humana nascida imune ao pecado

original foi uma mulher, visto que foi as mulheres e nao aos homens a quem apareceu, em

primeira instancia, apos sua ressurreicao, nao supoe tudo isso um claro sinal de que Jesus, em

polemica com as leis de seu tempo, e na medida em que razoavelmente podia as violar, quis dar

algumas claras indicacoes a respeito da igualdade dos sexos, se nao ante a lei e os costumes

historicos, sim pelo menos, respeito ao plano de Salvacao? Fique claro que nem sequer ouso me

aventurar na vexata quaestio (4) de se o termo Elohim que aparece ao principio da Genese e

singular ou plural, e se nos diz gramaticalmente que Deus tinha sexo (e por identica razao me

limito a considerar uma pura figura retorica, sem implicacoes teologicas, a afirmacao de Joao

Paulo I segundo a qual Deus e uma Mae).

[4 - Tormentosa questao. (N. do T.)]

A argumentacao simbolica nao me convence. Tampouco o arcaico argumento segundo

o qual a mulher em lodos momentos de sua vida expele impurezas (o argumento que foi

defendido no passado, como se uma mulher com suas menstruacoes, ou que parisse com

sangue, fosse mais impura que um sacerdote com AIDS).

Quando me encontro tao perdido em questoes de doutrina recorro a unica pessoa da

que confio, que e Sao Tomas de Aquino. Agora bem, Sao Tomas, que antes de ser doutor

angelico era um homem de extraordinario sentido comum, em mais de uma ocasiao tem que

confrontar o problema de por que o sacerdocio e so uma prerrogativa masculina. Por nos

limitar a Summa theo-fogiae, o expoe em II- 1, 2, e se depara com a afirmacao paulina (ninguem e

perfeito, nem sequer os Santos) segundo a qual as mulheres na assembleia eclesial, devem calar

e nao podem ensinar. Mas Sao Tomas acha nos Proverbios que Unigenitas fui coram matrem meam,

ea docebat me (5). Como se as concerta? Aceitando a antropologia de seu tempo (o que outra

coisa podia fazer?): o sexo feminino deve ficar submetido ao masculino, e as mulheres nao sao

perfeitas em sabedoria.

[5- Unigenito fui em presenca de minha mae, ela me ensinava. (N. do T.)]

Em III, 31, 4 Sao Tomas se pergunta se a materia do corpo de Cristo poderia ser

assumida por um corpo feminino (como voce sabe, circulavam teorias gnosticas segundo as

quais Cristo tinha passado atraves do corpo da Maria como a agua atraves de um tubo, como

por um veiculo casual, sem ser decidido, sem ser poluido por nenhuma inmunditia relacionada

com a fisiologia do parto). Sao Tomas recorda que se Cristo devia ser um ser humano

convenientissimun tamen fuit ut de foemina carnem acciperet (6), para que, sirva de testemunha Santo

Agostinho, «a liberacao do homem deve aparecer em ambos os sexos». E, entretanto, nao e

capaz de livrar-se da antropologia de seu tempo, e continua admitindo que Cristo devia ser

homem porque o sexo masculino e mais nobre.

[6- Todavia, foi muito apropriado que recebesse a carne de uma mulher. (N. do T.)]

Sao Tomas, em que pese a tudo, sabe ir alem da inevitavel antropologia de seu tempo.

Nao pode negar que os varoes sao superiores e mais aptos para a sabedoria que as mulheres,

mas se esforca em mais de uma ocasiao em resolver a questao de que as mulheres foi concedido

o dom da profecia, e as abadessas a direcao de almas e do ensino, e o faz com sofismas

elegantes e sensatos. Entretanto, nao parece convencido, e com a astucia que lhe caracteriza,

responde indiretamente, ou o que e o mesmo, finge nao recordar que tinha respondido com

antecedencia, em I, 99, 2: se o sexo masculino for superior, por que no estado primitivo, antes

do pecado original, permitiu Deus que nascessem mulheres? E responde que era necessario que

no estado primitivo houvesse tanto homens como mulheres, nao para garantir a continuidade

da especie, dado que os homens eram imortais e nao era necessario introduzir a diferenciacao

sexual como condicao de sobrevivencia da especie, mas sim porque (veja-se Supplementum, 39, 1,

que nao e de sua propria mao, mas se trata de uma ideia a que Sao Tomas recorre em outras

ocasioes) «o sexo nao esta na alma». Com efeito, para Sao Tomas o sexo era um acidente que

sobrevinha em um estagio avancado da gestacao. Era necessario, e justo, criar dois sexos

porque (e isso fica esclarecido em III, 4, respondeu) existe uma combinatoria exemplar na

geracao dos humanos: o primeiro homem foi concebido sem varao nem mulher, Eva nasce do

varao sem participacao da mulher, Cristo de uma mulher sem participacao de varao, mas todos

os outros homens nascem de um varao e de uma mulher. E com essas tres admiraveis excecoes

a regra e essa e esse, o plano divino.

Em III, 67, 4 Sao Tomas se pergunta se a mulher pode batizar, e liquida facilmente as

objecoes que a tradicao lhe propoe: e Cristo quem batiza, mas dado que (como Sao Tomas tira

de Sao Paulo, Colossenses, 3, 11, embora em realidade se diz com maior claridade em Galatas, 3,

28) in Christo non est masculus neque foemina (7), igualmente, pode batizar um varao, pode faze-lo

uma mulher. Logo (ai o poder das opinioes correntes!) concede que, dado que caput mulieris est

vir (8); e se houver varoes presentes, a mulher nao deve batizar. Porem, em ad primum distingue

muito claramente entre o que a uma mulher «nao esta permitido» (segundo o costume) e o que

«pode» entretanto fazer (segundo o direito). E em ad tertium esclarece que, embora e certo que

na ordem carnal a mulher e principio passivo e so o varao e principio ativo, na ordem espiritual,

posto que tanto o varao como a mulher atuam em virtude de Cristo, tal distincao hierarquica

nao e valida.

[7- Em Cristo nao ha nem masculino, nem feminino. (N. do T.)]

[8- A «cabeca» da mulher e o varao. (N. do T.)]

Em que pese a tudo, em Suppkmentum 39, 1 (que, como ja disse, nao e de sua propria

mao), expondo-se diretamente a questao de se a mulher pode receber a ordem sacerdotal,

responde recorrendo, uma vez mais, ao argumento simbolico: o sacramento e igualmente um

sinal, cuja validez nao requer unicamente a «coisa», mas tambem, o «sinal da coisa»; e dado que

no sexo feminino nao se significa eminencia alguma, as mulheres, posto que vivem em estado

de submissao, nao podem receber a ordem sacerdotal.

E certo que, em uma questao que nao recordo, Sao Tomas usa o argumento propter

libidinem (9), em outras palavras, que se o sacerdote fosse mulher, os fieis (varoes!) excitar-seiam

ao ve-la. Mas, dado que os fieis sao tambem mulheres, o que ocorre entao com as jovens

que poderiam excitar-se a vista de um «padre bonito» (recordo-lhe as paginas de Stendhal em

La Cartuja de Parma sobre os fenomenos de incontinencia passional suscitados pelos sermoes de

Fabrizio del Dongo?) A historia da Universidade de Bolonha registra a uma tal Novella

d'Andrea, ao que parece, teve cadeira no seculo XIV e foi obrigada a ensinar coberta por um

veu para nao distrair aos estudantes com sua beleza. Permitir-me-a voce suspeitar que a tal

Novella nao era uma beldade tao irresistivel, mas sim melhor, os estudantes propensos a certa

libertina indisciplina. Pelo que se tratava, pois, era de educar aos estudantes, como hoje em dia

de educar aos fieis, nao de excluir a mulher da gratia sermonis (10).

[9- Por causa da luxuria.]

[10- Graca da Palavra. (N. do T.)]

Em resumidas contas, minha impressao e que nem sequer Sao Tomas sabia dizer com

exatidao por que o sacerdocio deve ser uma prerrogativa masculina, a menos que se aceite

(como ele fazia, e nao podia deixar de faze-lo, segundo as ideias de seu tempo) que os homens

sao superiores por inteligencia e dignidade. Todavia, nao acredito que seja esta a posicao atual

da Igreja. Parece-me melhor a posicao da sociedade chinesa, que, conforme se soube

recentemente, e com horror, tende a eliminar as recem-nascidas de sexo feminino para manter

com vida aos recem-nascidos de sexo masculino.

Eis aqui, pois, minhas perplexidades. Quais sao as razoes doutrinais para proibir o

sacerdocio as mulheres? Se se dessem simples razoes historicas, de oportunidade simbolica,

dado que os fieis estao ainda acostumados a imagem de um sacerdote varao, nao haveria razoes

para apressar a Igreja, cujos prazos sao largos (embora isso sim, eu gostaria de conhecer uma

data, antes da Ressurreicao da Carne).

Mas o problema, evidentemente, nao me corresponde. O meu nao e mais que

curiosidade. Entretanto, a outra metade do ceu (como se diz na China) talvez esteja mais

ansiosa.

Umberto Eco, outubro de 1995

A Igreja nao satisfaz expectativas, celebra misterios

Querido Umberto Eco:

Uma vez mais voce decidiu comecar este dialogo. Nao acredito, entretanto, que sejam

razoes ideologicas as que determinem a quem corresponde comecar, mas sim melhor,

problemas praticos. No mes de setembro tive uma serie de compromissos no estrangeiro e e

possivel que para a redacao tenha resultado mais singelo ficar em contato com voce. Por minha

parte tenho uma pergunta que queria lhe fazer e que me reservo para a proxima vez; trata-se de

uma pergunta a qual nao consigo encontrar resposta e para a qual nao me socorre nem sequer

essa «funcao, oracular» que as vezes, como nota voce, atribui, erroneamente, aos pastores.

Como muito, tal funcao oracular poderia ser atribuida aos profetas, mas em nossos dias, temo,

sao bem mais raros.

A pergunta, pois, que tenho intencao de lhe fazer se refere ao fundamento ultimo da

etica para um laico. Eu gostaria que todos os homens e as mulheres deste mundo tivessem

claros fundamentos eticos para seu obrar e estou convencido de que existem nao poucas

pessoas que se comportam com retidao, pelo menos em determinadas circunstancias, sem

referencia a um fundamento religioso da vida. Todavia, nao consigo compreender que tipo de

justificacao ultima dao a seu proceder.

Entretanto, deixando de lado por hora, este interrogante cuja ilustracao me reservo para

uma proxima carta, se e que me e concedida a primeira intervencao, passo a me ocupar das

reflexoes que faz voce preceder a «espinhosa questao» do sacerdocio das mulheres. Voce

declara que, como laico, respeita os pronunciamentos das confissoes religiosas sobre os

principios e problemas da etica natural, mas nao admite a imposicao aos nao crentes, ou aos

crentes de outra fe de comportamentos, que as leis do Estado proibem. Estou completamente

de acordo com voce. Qualquer imposicao de fora de principios, ou comportamentos religiosos

a quem nao esta de acordo com isso viola a liberdade de consciencia. Dir-lhe-ei ainda mais: se

tais imposicoes tiveram lugar no passado, em contextos culturais distintos do atual e por razoes

que hoje nao podemos ja compartilhar, o justo e que uma confissao religiosa o reconheca como

engano.

Esta foi a valorosa posicao adotada por Joao Paulo II em sua carta sobre o proximo

jubileu do ano 2000, de titulo Tertio millenio adveniente, em que se diz: «Outro capitulo doloroso

sobre o que os filhos da Igreja nao podem deixar de voltar com o animo disposto ao

arrependimento e o constituido pela aquiescencia manifestada, em certos seculos especialmente,

a metodos de intolerancia e inclusive de violencia ao servico da verdade... E certo que um

julgamento historico correto nao pode prescindir de uma atenta consideracao dos

condicionamentos culturais do momento... mas a consideracao das circunstancias atenuantes

nao exonera a Igreja da obrigacao de um arrependimento profundo pelas debilidades de tantos

filhos deles... De tais rasgos dolorosos do passado emerge uma licao para o futuro, que deve

induzir todo cristao a abracar com forca o aureo principio ditado no Concilio [Dignitatis

humanae]: «A verdade nao se impoe mais que com a forca da propria verdade, a qual penetra nas

mentes brandamente e de uma vez com vigor» (N. 35).

Queria, entretanto, fazer uma precisao importante a respeito do qual voce afirma

falando das «leis do Estado». Estou de acordo no principio geral de que uma confissao religiosa

deve ater-se ao ambito das leis do Estado e que, por outra parte, os laicos nao tem direito a

censurar os modos de vida de um crente que se ajustam ao quadro de tais leis. Mas considero (e

estou seguro de que tambem voce estara de acordo) que nao se pode falar de «leis do Estado»

como de algo absoluto e imutavel. As leis expressam a consciencia comum da maioria dos

cidadaos e tal consciencia comum esta submetida ao livre jogo do dialogo e das propostas

alternativas, sob as que subjazem (ou podem subjazer) profundas conviccoes eticas. Resulta por

isso obvio, que algumas correntes de opiniao, e portanto, as confissoes religiosas tambem,

podem tentar influenciar, democraticamente, no teor das leis que nao consideram

correspondentes a um ideal etico; que para eles nao representa algo confessional, a nao ser,

pertencente a todos os cidadaos. Nisto consiste o delicado jogo democratico que preve uma

dialetica entre opinioes e crencas, com a esperanca de que tal intercambio faca crescer essa

consciencia moral coletiva que subjaz a uma convivencia ordenada.

Neste sentido, aceito com muito gosto sua «espinhosa questao» sobre o sacerdocio

negado as mulheres pela Igreja catolica, porque voce me expoe isso justamente como fruto do

desejo de um laico sensivel de tentar compreender por que a Igreja aprova, ou desaprova certas

coisas. Bem e certo que aqui nao se trata de um problema etico, a nao ser, teologico. Trata-se

de compreender por que a Igreja catolica, e com ela todas as igrejas do Oriente, quer dizer, na

pratica todas as igrejas que se remontam a uma tradicao bimilenaria, continuam fieis a uma

certa praxe cultural que sempre exclui as mulheres do sacerdocio.

Afirma voce que nao conseguiu encontrar ainda na doutrina, razoes persuasivas para tal

feito, com o maior respeito por sua parte para a autonomia da Igreja em materia tao delicada. E

expoe suas perplexidades em referencia a interpretacao das Escrituras, as assim chamadas

razoes teologicas, as razoes simbolicas, ou inclusive as extraidas da biologia, para acabar

examinando com acuidade algumas paginas de Sao Tomas, nas quais inclusive este homem «de

extraordinario sentido comum» parece deixar-se levar por argumentacoes pouco coerentes.

Revisemos com calma todos estes pontos, embora renunciarei a entrar em consideracoes

muito sutis, nao porque eu nao goste, ou as considere superfluas, mas sim, porque temo que de

outro modo esta carta, que forma parte de um epistolario publico, ficara sem leitores. Ja me

pergunto se quem nao conhece bem as Escrituras, nem muito menos a Sao Tomas, terao sido

capazes de lhe seguir, no qual afirma a tal proposito, mas me alegra que tenha tirado voce a

confrontacao nestes textos, porque neles me encontro como em casa e tambem porque espero

que a algum leitor entrem vontades de folhea-los.

Vamos, pois, as Escrituras. Voce, em primeiro lugar, remete-se a um principio geral

hermeneutico, segundo o qual os textos tem que ser interpretados nao em sua literalidade

integrista, a nao ser, tendo em conta o tempo e o ambiente em que foram escritos. Estou

plenamente de acordo com este principio e com os becos sem saidas aos quais conduz uma

exegese integrista. Queria objetar, entretanto, que nem sequer um integrista se sentiria

incomodo com a regra sobre o penteado e a barba dos sacerdotes que voce recorda.

Voce cita ao Ezequiel (44, 20) e o livro do Levitico (suponho que se refere ao Lev., 19, 27-

28; 21, 5; cfr. tambem Dt., 14, 1) para sustentar que se se interpretassem literalmente estes

textos se incorreria em uma contradicao: a barba descuidada para o Levitico e o corte regular

para o Ezequiel. Mas a mim (e a muitos exegetas parece-me que nesta questao de detalhe (citada

aqui unicamente a titulo de exemplo) Ezequiel nao pretende contradizer ao Levitico: este ultimo

pretende proibir certos ritos de luto de origem provavelmente paga (o texto de 21, 5 deve

traduzir-se como «nao se farao tonsuram na cabeca nem se barbearao as bordas da barba, nem

se farao incisoes na carne» e Ezequiel faz referencia provavelmente a essa mesma norma). Tudo

isto nao o digo nem em defesa dos integristas, nem para favorecer um ou outro penteado, a nao

ser, para indicar que as vezes nao resulta facil saber o que e que a Biblia quer dizer sobre certos

pontos concretos, nem decidir se sobre determinado argumento se fala de acordo com os usos

de seu tempo, ou para assinalar uma condicao permanente do povo de Deus.

No que se refere a nosso tema, os exegetas que procuraram na Biblia argumentos

positivos para o sacerdocio das mulheres se depararam sempre com grandes dificuldades.

O que posso dizer sobre os argumentos que se poderiam denominar «teologicos» e que

voce exemplifica com o arroz e o sake, possivel materia da eucaristia, se «por um inescrutavel

intuito divino, Cristo se tivesse encarnado no Japao». A teologia, entretanto, nao e a ciencia dos

possiveis ou «do qual tivesse podido acontecer se...»; nao pode fazer outra coisa mais que partir

dos dados positivos e historicos da Revelacao e tentar compreende-los. Neste sentido, resulta

inegavel que Jesus Cristo escolheu aos doze apostolos. Este deve ser o ponto de partida para

determinar qualquer outra forma de apostolado na Igreja. Nao se trata de procurar razoes, a

priori, mas sim, de aceitar que Deus se comunicou de uma certa maneira e em uma certa

historia, e que tal historia em sua singularidade nos segue determinando ainda hoje.

Na mesma linha concordo com voce em que as razoes simbolicas, ao menos tal e como

ate agora nos foram expostas, nao sao a priori convincentes. Recorda voce com toda a razao os

privilegios altissimos que Cristo conferiu as mulheres que o seguiram, a quem apareceu em

primeiro lugar depois de sua ressurreicao. Em polemica com as leis de seu tempo, Cristo deu

algumas claras indicacoes a respeito da igualdade dos sexos. Estes sao fatos inegaveis dos quais

a Igreja deve extrair com o tempo as oportunas consequencias, porque nao podemos pensar,

que se tenha dado ja razao de tudo a forca destes principios operativos. Sem duvida alguma,

ficou superado tambem o argumento arcaico de tipo biologico.

Por isso, inclusive Sao Tomas, que era um homem de grande doutrina e grande sentido

comum, mas que nao podia ir muito alem das concepcoes cientificas de seu tempo e tampouco

dos costumes de seus contemporaneos, nao sabe propor argumentos que hoje sejam

persuasivos para nos. Renuncio a lhe seguir na sutil analise ao que voce submete varias

passagens da Summa, nao porque nao o ache interessante, mas sim porque temo que o leitor se

perderia. Em sua analise, entretanto, sugere-se que em Sao Tomas se dava uma especie de

combate interior entre diversos principios e que se esforcava em encontrar razoes para a praxe

da Igreja, mas com plena consciencia de nao ser de todo convincente. Seu principal obstaculo

era o principio de que sexus masculinus est nobilior quam femininus (11)(Summa, 3, 31, 4 ad primum),

que por um lado, ele aplicava como evidente para seu tempo e que por outro, contrastava com

as prerrogativas dadas por Cristo e na Igreja as mulheres. Hoje em dia, um principio assim

parece superado e por isso desaparecem as razoes teologicas que dele se derivavam.

[11- O sexo masculino e melhor que o feminino. (N. do T.)]

Mas entao, perguntar-me-a voce, qual e a consequencia de tudo isso? A consequencia e

uma coisa muito singela e muito importante; quer dizer, que uma praxe da Igreja tao

profundamente enraizada em suas tradicoes, que nao conheceu excecoes reais em dois milenios

de historia, nao pode estar apoiada em razoes abstratas, ou aprioristicas, a nao ser, em algo que

corresponde a seu proprio misterio. O mesmo fato de que a maioria das razoes contribuidas ao

longo dos seculos para ordenar sacerdotes so aos homens nao possam hoje ja propor-se,

enquanto a praxe mesma persevera com grande forca (basta pensar nas crises que ate fora da

Igreja catolica, quer dizer, na comunhao anglicana, esta provocando a praxe contraria), advertenos

que nos achamos, nao ante raciocinios simplesmente humanos, a nao ser, ante o desejo da

Igreja de nao ser infiel aos atos salvificos que a geraram e que nao se derivam de pensamentos

humanos, mas sim da propria atuacao de Deus.

Isso comporta duas consequencias importantes as quais o atual pontifice se atem

estritamente. Por um lado, trata-se de valorizar o papel e a presenca da mulher em todos os

aspectos da vida da sociedade e da Igreja, muito alem de quanto se fez ate agora. Por outro,

trata-se de penetrar na compreensao da natureza do sacerdocio e dos ministerios ordenados

com muito maior profundidade que nos seculos precedentes. Permito-me citar aqui umas

muito importantes palavras do Concilio Vaticano II: «Cresce com efeito a compreensao, tanto

das coisas quanto das palavras transmitidas, seja com a reflexao e o estudo dos crentes, os quais

meditam em seu coracao (cfr. Le, 2, 19 e 51), seja com a experiencia dada por uma mais

profunda inteligencia das coisas espirituais, seja pela evangelizacao daqueles quem com a

sucessao episcopal receberam um carisma seguro de verdade. A Igreja, portanto, no curso dos

seculos, tende incessantemente a plenitude da verdade divina, ate que nesta nao se cumpra a

palavra de Deus» (Dei Verbum N. 8).

A Igreja reconhece, portanto, que nao chegou ainda a plena compreensao dos misterios

que vive e celebra, mas olha com confianca para um futuro que lhe permita viver a realizacao

nao de simples expectativas ou desejos humanos, mas sim das promessas mesmas de Deus.

Neste caminho se preocupa de nao separar-se da praxe e do exemplo de Jesus Cristo, porque so

permanecendo exemplarmente fiel a eles podera compreender as implicacoes da liberacao que,

como recorda Sao Tomas citando a Santo Agostinho, in utroque sexu debuit apparere (12): «Foi

muito conveniente que o Filho de Deus recebesse o corpo de uma mulher... porque deste

modo se enobreceu toda a natureza humana. Por isso Agostinho diz: "A liberacao do homem

devia manifestar-se em ambos os sexos"» (Summa, 3, 31, 4).

Carlo Maria Martini, outubro de 1995

[12 – Que devo manifestar em um e em outro sexo. (N. do T.)]

Onde encontra o laico a luz do bem?

Querido Umberto Eco:

Eis aqui a pergunta que, como ja lhe tinha antecipado na ultima carta, tinha intencao de

lhe fazer. Refere-se ao fundamento ultimo da etica para um laico, no quadro da «posmodernidade

». Quer dizer, mais em concreto, em que base a certeza e a imperatividade de sua

acao moral que nao pretende remeter, para cimentar o carater absoluto de uma etica, a

principios metafisicos, ou em todo caso, a valores transcendentes e tampouco a imperativos

categoricos universalmente validos? Em termos mais singelos (dado que alguns leitores me tem

feito chegar suas queixas pela excessiva dificuldade de nossos dialogos), que razoes confere a

seu obrar, quem pretende afirmar e professar principios morais, que possam exigir inclusive o

sacrificio da vida, mas nao reconhece um Deus pessoal? Ou, dito de outro modo, como se

pode chegar a dizer, prescindindo da referencia a um Absoluto, que certas acoes nao se podem

fazer nao, sob nenhum conceito, e que outras devem fazer-se, custe o que custar? E certo que

ha leis, mas em virtude das quais podem chegar a nos obrigar ate a custa da vida?

Sobre estas interrogacoes queria que tratasse nesta ocasiao nossa conversacao.

Como e logico, eu gostaria que todos os homens e as mulheres deste mundo, incluindo a

quem nao acredita em Deus, tivessem um claro fundamento etico para seu comportamento e

atuassem conforme o mesmo. Estou convencido, alem disso, de que existem nao poucas

pessoas que se comportam com retidao, pelo menos nas circunstancias ordinarias da vida, sem

referencia a nenhum fundamento religioso da existencia humana. Sei tambem que existem

pessoas que, sem acreditar em um Deus pessoal, chegam a dar a vida para nao abdicar de suas

conviccoes morais. Todavia, nao consigo compreender que tipo de justificacao ultima dao a seu

proceder.

Resulta claro e obvio que tambem uma etica laica pode achar e reconhecer de fato

normas e valores validos para uma reta convivencia humana. E assim como nascem muitas

legislacoes modernas. Mas, para que os alicerces destes valores nao se enfadonhem de confusao

ou incerteza, sobretudo nos casos limite, ou sejam, simplesmente, mal-entendidos como

costume, moda, comportamento funcional, ou util, ou mera necessidade social, mas sim

assumam o valor de um verdadeiro e proprio absoluto moral, e preciso que nao estejam atados

a nenhum principio mutavel, ou negociavel.

E isso sobretudo quando abandonamos o ambito das leis civis ou penais e, acima delas,

entramos na esfera das relacoes interpessoais da responsabilidade, que cada um tem para seu

proximo acima das leis escritas, na esfera da gratuidade e da solidariedade.

Ao perguntar-me sobre a insuficiencia de uns alicerces puramente humanistas nao queria

turvar a consciencia de ninguem, a nao ser, unicamente, tentar compreender o que acontece em

seu interior, em nivel das razoes de fundo, para poder promover assim, alem disso, uma mais

intensa colaboracao sobre temas eticos entre crentes e nao crentes.

E sabido, com efeito, que as grandes religioes empreenderam um caminho comum de

dialogo e de comparacao, ainda em seus inicios, para a afirmacao de principios eticos

compartilhados por todos. Desta maneira, pretende-se nao so eliminar as raizes de todo

conflito religioso entre os povos, mas tambem, contribuir com maior eficacia a promocao do

homem. Em que pese todas as dificuldades historicas e culturais que um dialogo semelhante

comporta, este se faz possivel gracas ao fato de que todas as religioes situam, embora seja com

modalidades diversas, um Misterio transcendente como fundamento de atuacao moral. Desta

maneira, resulta possivel, identificar uma serie de principios gerais e de normas de

comportamento nos quais qualquer religiao pode reconhecer-se e para os quais pode contribuir

sua cooperacao em um esforco comum, sem ver-se obrigada a renegar nenhuma crenca

propria. Com efeito, «a religiao pode cimentar de maneira inequivoca, porque a moral, as

normas e os valores eticos, devem vincular, incondicionalmente, (e nao so quando resulta

comodo) e, portanto, universalmente, (para todas as hierarquias, classes e racas). O humano se

mantem, precisamente, assim que lhe considera baseado sobre o divino. Cada vez resulta mais

claro que somente o incondicionado pode obrigar de maneira absoluta, somente o Absoluto

pode vincular de maneira absoluta» (Hans Kung, Projeto para uma etica mundial).

E possivel um dialogo parecido na relacao entre crentes e nao crentes sobre temas

eticos, especialmente entre catolicos e laicos? Esforco-me, frequentemente, em entrever nas

expressoes de alguns laicos, algo equivalente a razao profunda e, de alguma forma, absoluta de

seu comportamento moral. Interessei-me, por exemplo, nas razoes nas quais alguns fundam o

dever da proximidade e da solidariedade, inclusive, sem recorrer a um Deus Pai e Criador de

tudo e ao Jesus Cristo nosso irmao. Parece-me que se formula mais ou menos assim: Outros

estao em nos! Estao em nos com independencia de como os tratemos, do fato de que os

amemos, odiemo-los, ou sejam-nos indiferentes.

Parece-me que este conceito de outros em nos, supoe para uma parte do pensamento

laico uma especie de fundamento essencial de qualquer ideia de solidariedade. Isso me

impressiona muito, sobretudo quando o vejo funcionar na pratica, para estimular, inclusive, a

solidariedade para o longinquo, ou o estrangeiro. Impressiona-me tambem porque, a luz das

reflexoes crentes de Sao Paulo sobre o unico Corpo do qual todos somos membros (cfr. I Carta

aos Corintios, cap. 12 e Carta aos Romanos, cap. 12), e um conceito de forte realismo e pode ser

lido em chave de fe crista. Mas, o que me pergunto precisamente, e se a leitura laica, que carece

desta justificacao de fundo, e suficiente, se tiver uma forca de conviccao iniludivel e pode

sustentar por exemplo, inclusive o perdao dos inimigos. E mais, parece-me que sem o exemplo

e a palavra de Jesus Cristo, que da cruz perdoou a quem crucificava, inclusive, para as tradicoes

religiosas este ultimo ponto supoe uma dificuldade. O que dizer entao de uma etica laica?

Reconheco, portanto, que existem numerosas pessoas que atuam de maneira eticamente

correta e que em ocasioes, realizam inclusive atos de elevado altruismo sem terem, ou sem

serem conscientes de ter um fundamento transcendente para seu comportamento, sem fazerem

referencia nem a um Deus criador, nem ao anuncio do Reino de Deus com suas consequencias

eticas, nem a morte e a ressurreicao de Jesus e ao dom do Espirito Santo, nem a promessa da

vida eterna; precisamente deste realismo e de onde extraio eu a forca dessas conviccoes eticas

que quero, em minha debilidade, que constituiram sempre a luz e a forca de meu obrar. Mas

quem nao faz referencia a este ou a analogos principios, onde encontra a luz e a forca para fazer

o bem nao so em circunstancias faceis, mas tambem naquelas que nos poem a prova ate os

limites de nossas forcas humanas e, sobretudo, naquelas que nos situam frente a morte? Por

que o altruismo, a sinceridade, a justica, o respeito por outros, o perdao dos inimigos sao

sempre um bem e devem preferir-se, inclusive a custa da vida, a atitudes contrarias? E como

decidir com certeza, em cada caso concreto, o que e altruismo e o que nao e? E se nao existir

uma justificacao ultima e sempre valida para tais atitudes, como e possivel na pratica que estas

sejam sempre as que prevalecam, que sejam sempre as vencedoras? Se inclusive a quem dispoe

de argumentos fortes para um comportamento etico o custa grande esforco o ater-se ao

mesmo, o que ocorre com quem conta com argumentos debeis, incertos e vacilantes?

Custa-me muito compreender como uma existencia inspirada nestas normas (altruismo,

sinceridade, justica, solidariedade, perdao) pode sustentar-se longo tempo e em qualquer

circunstancia, se o valor absoluto da norma moral nao esta baseado em principios metafisicos,

ou sobre um Deus pessoal.

E muito importante que exista um terreno comum para laicos e crentes no plano da

etica, para poder colaborarem juntos na defesa do homem, da justica e da paz. E obvio, que a

invocacao da dignidade humana e um principio que funda um comum sentir e obrar: nao usar

nunca a outros como instrumento, respeitar em qualquer caso e constantemente sua

inviolabilidade, considerar sempre a toda pessoa como realidade indisponivel e intangivel.

Todavia, aqui tambem chega um momento em que alguem se pergunta qual e a justificacao

ultima destes principios. O que cimenta, com efeito, a dignidade humana se nao o fato de que

todos os seres humanos estao abertos para algo mais elevado e maior que eles mesmos? So

assim pode esta nao ficar circunscrita em termos intramundanos e garantir-lhe uma legitimidade

que nada pode por em discussao.

Sinto, pois, um grande desejo de aprofundar em tudo aquilo que permita uma acao

comum entre crentes e nao crentes em relacao a promocao da pessoa. Mas sei, ao mesmo

tempo, que quando nao existe acordo sobre os principios ultimos, antes ou depois, em especial

quando se chega aos casos limite e os problemas de limites, surge algo que demonstra as

divergencias de fundo que existem. Faz-se entao, mais dificil a colaboracao e emergem em

ocasioes, inclusive julgamentos eticos contrapostos, sobre pontos chave da vida e da morte.

O que fazer, pois? Proceder em comum com modestia e humildade naqueles pontos nos

quais exista acordo, com a esperanca de que nao emerjam as razoes da diferenca e da oposicao?

Ou melhor, tentar aprofundar juntos nas razoes que de fato permitem um acordo sobre temas

gerais (por exemplo, a justica, a paz, a dignidade humana), de modo que se possa chegar a essas

razoes nao ditas, que se zelam depois das decisoes cotidianas e nas quais se revela entao a nao

coincidencia de fundo, ou a possibilidade, talvez, de ir alem de cepticismos e agnosticismos,

para um «Misterio» ao qual se entregar, porque dessa entrega nasce tambem a possibilidade de

fundar uma acao comum em favor de um mundo mais humano?

Sobre este tema tao apaixonante queria, pois, conhecer suas reflexoes. E evidente que

toda discussao a respeito de temas eticos particulares leva sempre a perguntar-se sobre seus

fundamentos. Parece-me que vale a pena, portanto, expor-se temas como estes, para projetar

um pouco de claridade, ao menos, sobre o que cada um pensa e compreender melhor o ponto

de vista do outro.

Carlo Maria Martini, janeiro de 1996

Quando outros entram em cena, nasce a etica

Querido Carlo Maria Martini:

Sua carta libera-me de uma ardua situacao comprometida para me jogar em outra

igualmente ardua. Ate agora foi a mim (embora nao por minha decisao) a quem correspondeu

abrir o discurso, e quem fala o primeiro e fatalidade que interrogue, esperando que o outro

responda. Dai a apurada situacao de me sentir inquisitivo. E valorei em sua justa medida a

decisao e humildade com as quais voce, por tres vezes, desmentiu a lenda segundo a qual os

jesuitas respondem sempre uma pergunta com outra pergunta.

Agora, entretanto, encontro-me no apuro de responder eu a sua pergunta, porque minha

resposta seria significativa se eu tivesse recebido uma educacao laica; pelo contrario, minha

formacao se caracteriza por um forte rastro catolico ate (por assinalar um momento de fratura)

os vinte e dois anos. A perspectiva laica nao foi para mim uma heranca absorvida passivamente,

a nao ser o fruto, bastante sofrido, de uma longa e lenta mudanca, de modo que fica sempre a

duvida de se algumas de minhas conviccoes morais nao dependem ainda desse rastro religioso

que marcou minhas origens. Ja em idade avancada pude ver (em uma universidade catolica

estrangeira que arrola tambem a professores de formacao laica, exigindo-lhes como muito

manifestacoes de obsequio formal no curso dos rituais academico-religiosos) alguns colegas

aproximar-se dos sacramentos sem acreditar na «presenca real», e portanto, sem nem sequer

haver-se confessado. Com um calafrio, depois de tantos anos, adverti ainda o horror do

sacrilegio.

Contudo, acredito poder dizer sobre que fundamentos se apoia hoje minha

«religiosidade laica», porque retenho com firmeza que se dao formas de religiosidade, e

portanto, um sentido do sagrado, do limite, da interrogacao e da esperanca, da comunhao com

algo que nos supera, inclusive em ausencia da fe em uma divindade pessoal e providencial. Mas

isso, como se desprende de sua carta, sabe voce tambem. O que voce se pergunta e no qual

radica o vinculante, impelente e irrenunciavel nestas formas de etica.

Eu gostaria de adotar uma perspectiva distante em relacao a questao. Alguns problemas

eticos me tornaram mais claros refletindo sobre certos problemas semanticos — e nao se

preocupe que possa haver quem diz que nosso dialogo e dificil; os convites a pensar muito

facilmente provem das revelacoes dos mass-media, previsiveis por definicao —. Que se

acostumem a dificuldade do pensar, porque nem o misterio nem a evidencia sao faceis.

Meu problema era se existiam «universais semanticos», quer dizer, nocoes elementares

comuns a toda a especie humana que possam ser expressas por todas as linguas. Problema nao

tao obvio, do momento em que, como se sabe, muitas culturas nao reconhecem nocoes que

nos parecem evidentes, como por exemplo, a de substancia a que pertencem certas

propriedades (como quando dizemos que «a maca e vermelha») ou a de identidade (a = a). Pude

persuadir-me, entretanto, de que efetivamente existem nocoes comuns a todas as culturas, e que

todas se referem a posicao de nosso corpo no espaco.

Somos animais de posicao ereta, por isso, resulta-nos fatigante permanecer longo tempo

de cabeca pra baixo, e portanto, possuimos uma nocao comum do alto e do baixo, tendendo a

privilegiar o primeiro sobre o segundo. Igualmente possuimos as nocoes de direita e esquerda,

de estar parados ou de caminhar, de estar de pe ou reclinados, de arrastar-se ou de saltar, da

vigilia e do sono. Dado que possuimos extremidades, sabemos todos o que significa golpear

uma materia resistente, penetrar em uma substancia branda ou liquida, desfazer algo,

tamborilar, pisar, dar patadas, talvez inclusive dancar. Poderia continuar longo momento

enumerando esta lista, que abrange tambem o ver, o ouvir, o comer ou beber, o tragar ou

expelir. E naturalmente todo homem possui nocoes sobre o que significa perceber, recordar ou

advertir desejo, medo, tristeza ou alivio, prazer ou dor, assim como emitir sons que expressem

estes sentimentos. Portanto, (e entramos ja na esfera do direito) possuimos concepcoes

universais a respeito da constricao: nao desejamos que ninguem nos impeca de falar, ver,

escutar, dormir, tragar ou expelir, ir aonde queiramos; sofremos se alguem nos ata ou nos

segrega, se nos golpear, fere ou mata, se submeter a torturas fisicas, ou psiquicas, que diminuam

ou anulem nossa capacidade de pensar.

Note-se que ate agora me limitei atirar em cena somente a uma especie do Adao bestial e

solitario que nao sabe ainda o que e uma relacao sexual, o prazer do dialogo, o amor aos filhos,

a dor pela perda de uma pessoa amada; mas ja nesta fase, ao menos para nos se nao para ele ou

para ela), esta semantica se converteu na base para uma etica: devemos, acima de tudo, respeitar

os direitos da corporalidade alheia, entre os quais se contam tambem o direito a falar e a pensar.

Se nossos semelhantes tivessem respeitado estes direitos do corpo, nao teriam tido lugar a

matanca dos Santos Inocentes, os cristaos no circo, na noite de Sao Bartolomeu, a fogueira para

os hereges, os campos de exterminio, a censura, os meninos nas minas, os estupros de Bosnia.

Todavia, como e que, em que pese a elaborar imediatamente um repertorio instintivo de

nocoes universais, o bestao (ou a bestona) — todo estupor e ferocidade — que pus em cena

pode chegar a compreender que nao so deseja fazer certas coisas e que nao lhe sejam feitas

outras, mas tambem que nao deve fazer a outros o que nao deseja que facam a ele? Porque, por

fortuna, o Eden se povoa em seguida. A dimensao etica comeca quando entram em cena

outros. Qualquer lei, por moral ou juridica que seja, regula sempre relacoes interpessoais,

incluindo as que se estabelecem com quem a impoe.

Voce mesmo atribui ao laico virtuoso a conviccao de que outros estao em nos.

Entretanto, nao se trata de uma vaga inclinacao sentimental, mas sim de uma condicao basica.

Como ate as mais laicas dentre as ciencias humanas nos ensinam, sao outros, e seu olhar, o que

nos define e nos conforma. Nos (da mesma forma que nao somos capazes de viver sem comer

nem dormir) nao somos capazes de compreender quem somos sem o olhar e a resposta de

outros. Ate quem mata, estupra, rouba ou tiraniza o faz em momentos excepcionais, porque

durante o resto de sua vida mendiga de seus semelhantes aprovacao, amor, respeito, elogio. E

inclusive de quem humilha pretende o reconhecimento do medo e da submissao. A falta de tal

reconhecimento, o recem-nascido abandonado na selva nao se humaniza (ou, como Tarzan,

procura a qualquer preco a outros no rosto de um macaco), e corre o risco de morrer ou

enlouquecer quem viver em uma comunidade em que todos tivessem decidido

sistematicamente nao lhe olhar nunca e comportar-se como se nao existisse.

Como e que entao ha, ou houve, culturas que aprovam os massacres, o canibalismo, a

humilhacao dos corpos alheios? Simplesmente porque nelas se restringe o conceito de «outros»

a comunidade tribal (ou a etnia) e se considera os «barbaros» como seres desumanos. Nem

sequer os cruzados sentiam aos infieis como um proximo ao que amar excessivamente; e e que

o reconhecimento do papel de outros, a necessidade de respeitar neles essas exigencias que

consideramos irrenunciaveis para nos, e o produto de um crescimento milenar. Inclusive o

mandamento cristao do amor sera enunciado, fatigosamente aceito, so quando os tempos

estejam o suficientemente amadurecidos.

O que voce me pergunta, entretanto, e se esta consciencia da importancia de outros e

suficiente para me proporcionar uma base absoluta, uns alicerces imutaveis para um

comportamento etico. Bastaria com que lhe respondesse que o que voce define como

fundamentos absolutos nao impede a muitos crentes pecar sabendo que pecam, e a discussao

terminaria ai; a tentacao do mal esta presente inclusive em quem possui uma nocao fundada e

revelada do bem. Mas queria lhe contar duas anedotas, que me deram muito que pensar.

Alguem se refere a um escritor que se proclama catolico, embora seja sui generis, cujo

nome omito so porque me disse quanto vou citar no curso de uma conversacao privada, e eu

nao sou nenhum mexeriqueiro. Foi em tempos de Joao XXIII, e meu anciao amigo, elogiando

com entusiasmo suas virtudes, afirmou (com evidente intencao paradoxal): «Este papa Joao

deve ser ateu. So um que nao acredita em Deus pode querer tanto a seus semelhantes!» Como

todos os paradoxos, este tambem possui seu germe de verdade: sem pensar no ateu (figura cuja

psicologia me escapa, porque ao modo kantiano, nao vejo de que forma se pode nao acreditar

em Deus e considerar que nao se pode provar sua existencia, e acreditar depois firmemente na

inexistencia de Deus, e sentir-se capaz de poder prova-la), parece-me evidente que para uma

pessoa que nao tenha tido jamais a experiencia da transcendencia ou a tenha perdido, quao

unico pode dar sentido a sua propria vida e a sua propria morte, quao unico pode consola-la, e

o amor para outros, o intento de garantir a qualquer outro semelhante uma vida vivivel,

inclusive depois de ter desaparecido. Naturalmente, dao-se tambem casos de pessoas que nao

acreditam e que, entretanto, nao se preocupam em dar sentido a sua propria morte, igualmente,

ha tambem casos de pessoas que afirmam serem crentes e, entretanto, seriam capazes de

arrancar o coracao de um menino vivo com tal de nao morrer por eles. A forca de uma etica se

julga pelo comportamento dos Santos, nao pelo dos ignorantes cuius deus venter est (13).

[13- Cujo deus e o ventre. (N. do T.)]

E vamos com a segunda anedota. Sendo eu um jovem catolico de dezesseis anos, vi-me

envolto em um duelo verbal com um conhecido, maior que eu, famoso por ser «comunista», no

sentido que tinha este termo nos terriveis anos cinquenta. Dado que me provocava, expus-lhe a

pergunta decisiva: como podia ele, nao crente, dar um sentido a um fato de outra forma tao

insensato como a propria morte? E ele me respondeu: Pedindo antes de morrer um enterro

civil. Assim, embora eu ja nao esteja, terei deixado a outros um exemplo.» Acredito que

inclusive voce pode admirar a profunda fe na continuidade da vida, o sentido absoluto do dever

que animava aquela resposta. E e este o sentido que levou a muitos nao crentes a morrer sob

tortura com tal de nao trair a seus amigos e a outros a adoecer de peste para curar aos

empestados. E tambem, as vezes, quao unico empurra aos filosofos a filosofar, aos escritores a

escrever: lancar uma mensagem na garrafa, para que, de alguma forma, aquilo no qual se

acreditava, ou que nos parecia formoso, possa ser acreditado ou pareca formoso a quem venha

depois.

E de verdade tao forte este sentimento para justificar uma etica tao determinada e

inflexivel, tao solidamente fundada como a de quem acredita na moral revelada, na

sobrevivencia da alma, nos premios e nos castigos? Tentei apoiar os principios de uma etica

laica em um fato natural (e, como tal, para voce resulta tambem de um projeto divino) como

nossa corporalidade e a ideia de que sabemos instintivamente que possuimos uma alma (ou algo

que faz as vezes dela) so em virtude da presenca alheia. Por isso se deduz que o que defini

como etica laica e no fundo uma etica natural, que tampouco o crente desconhece. O instinto

natural, levado a sua justa maturacao e autoconsciencia, nao e um fundamento que de garantias

suficientes? Claro, pode-se pensar que nao supoe um estimulo suficiente para a virtude: total,

pode dizer o nao crente, ninguem sabera o mal que secretamente estou fazendo. Mas advirta-se

que o nao crente considera que ninguem lhe observa do alto e sabe portanto tambem —

precisamente por isso— que nao ha ninguem que possa lhe perdoar. Se for consciente de ter

obrado mal, sua solidao nao tera limites e sua morte sera desesperada. Tentara melhor, mais

ainda que o crente, a purificacao da confissao publica, pedira o perdao de outros. Isto sabe no

mais intimo de suas entretelas, e portanto, sabe que devera perdoar por antecipado a outros. De

outro modo, como se poderia explicar que o remorso seja um sentimento advertido tambem

pelos nao crentes?

Nao queria que se instaurasse uma oposicao cortante entre quem acredita em um Deus

transcendente e quem nao acredita em principio supraindividual de algum. Eu gostaria de

recordar que precisamente a Etica estava dedicado o grande livro de Spinoza que comeca com

uma definicao de Deus como causa de si mesmo. Alem do fato de que esta divindade

spinoziana, bem sabemos, nao e nem transcendente nem pessoal, inclusive da visao de uma

enorme e unica Substancia cosmica, em que algum dia voltaremos a ser absorvidos, pode

emergir precisamente uma visao da tolerancia e da benevolencia, porque no equilibrio e na

harmonia dessa Substancia unica estamos todos interessados. Estamo-lo porque de alguma

forma pensamos que e impossivel que essa Substancia nao resulte de alguma forma enriquecida

ou deformada por aquilo que no curso dos milenios tambem nos temos feito. De modo que me

atreveria a dizer (nao e uma hipotese metafisica, e so uma timida concessao a esperanca que

nunca nos abandona) que tambem em uma perspectiva semelhante se poderia voltar a propor o

problema das formas de vida depois da morte. Hoje o universo eletronico nos sugere que

podem existir sequencias de mensagens que se transferem de um suporte fisico a outro sem

perder suas caracteristicas irrepetiveis, e parecem inclusive sobreviver como pura nao materia

algoritmica no instante no qual, abandonando um suporte, nao se imprimiram ainda em outro.

Quem sabe se a morte, mais que uma implosao nao poderia ser uma explosao e impressao, em

algum lugar, entre os vortices do universo, do software (que outros chamam alma) que fomos

elaborando enquanto vivemos, ate de que formam nossas lembrancas e remorsos pessoais, e

portanto, nosso sofrimento incuravel, nosso sentido de paz pelo dever completo e nosso amor.

Afirma voce que, sem o exemplo e a palavra de Cristo, a qualquer etica laica faltaria uma

justificacao de fundo que tivesse uma forca de conviccao iniludivel. Por que substrair ao laico o

direito de servir do exemplo de Cristo que perdoa? Tente, Carlo Maria Martini, pelo bem da

discussao e do paragao no qual cre, aceitar embora nao seja mais que por um instante a

hipotese de que Deus nao existe, de que o homem aparece sobre a Terra por um engano de

uma torpe casualidade, nao so entregue a sua condicao de mortal, mas tambem condenado a ser

consciente disso e a ser, portanto, muito imperfeito entre todos os animais (e seja-me

consentido o tom leopardiano desta hipotese). Este homem, para achar a coragem de aguardar

a morte, converter-se-ia, necessariamente, em um animal religioso e aspiraria a elaborar

narracoes capazes de lhe proporcionar uma explicacao e um modelo, uma imagem exemplar. E

entre quao muitas e capaz de imaginar, algumas fulgurantes, algumas terriveis, outras

pateticamente consolatorias, ao chegar a plenitude dos tempos tem em determinado momento

a forca, religiosa, moral e poetica, de conceber o modelo de Cristo, do amor universal, do

perdao dos inimigos, da vida oferecida em holocausto para a salvacao de outros. Se eu fosse um

viajante proveniente de longinquas galaxias e deparasse-me com uma especie que foi capaz de

propor-se tal modelo, admiraria subjugado tamanha energia teogonica e consideraria a esta

especie miseravel e infame, que tantos horrores cometeu, redimida so pelo fato de ser capaz de

desejar e acreditar que tudo isso era a verdade.

Abandone agora se o desejar a hipotese e deixe-a a outros, mas admita que embora

Cristo nao fosse mais que o sujeito de uma grande lenda, o fato de que esta lenda pode ser

imaginada e querida por estes bipedes sem plumas que so sabem que nada sabem, seria tao

milagroso (milagrosamente misterioso) como o fato de que o filho de um Deus real fora

verdadeiramente encarnado. Este misterio natural e terreno nao cessaria de turvar e fazer

melhor o coracao de quem nao cre.

Por isso considero que, em seus pontos fundamentais, uma etica natural —respeitada na

profunda religiosidade que a anima— pode sair ao encontro dos principios de uma etica

fundada sobre a fe na transcendencia, a qual nao deixa de reconhecer que os principios naturais

foram esculpidos em nosso coracao sobre a base de um programa de salvacao. Se ficarem,

como logicamente ficarao, certas margens irreconciliaveis, nao serao diferentes dos que

aparecem no encontro entre religioes distintas. E nos conflitos da fe devem prevalecer a

Caridade e a Prudencia.

Umberto Eco, janeiro de 1996

A tecnica supoe o ocaso de toda boa fe

Emanuele Severino

Esta busca de um terreno comum para a etica crista e a laica esta dando por supostas

muitas coisas decisivas. Ambas pensam a si mesmas como um modo de guiar, modificar e

corrigir ao homem. Na civilizacao ocidental, a etica possui o carater da tecnica. Na tradicao

teologico-metafisica, chega a ser inclusive uma supertecnica, porque e capaz de outorgar nao

simplesmente a salvacao mais ou menos efemera do corpo, a nao ser a eterna da alma. Com

mais modestia, mas dentro da mesma ordem de ideias, hoje em dia se pensa que a etica e uma

condicao indispensavel para a eficiencia economica e politica. Os modos de guiar, modificar e

corrigir ao homem sao muito distintos, mas compartilham o mesmo espirito. Se nao se

compreender o significado da tecnica e o significado tecnico da etica, a vontade de achar um

terreno comum para a etica dos crentes e dos nao crentes esta condenada a vagar na escuridao.

Existe, entretanto, um ulterior traco comum a ambas as formas de etica: a boa fe, quer dizer, a

retidao da consciencia, a boa vontade, a conviccao de fazer aquilo que sem a menor duvida

todo ser consciente deve fazer. O conteudo da boa fe pode ser inclusive muito distinto. Ha

quem ama ao proximo porque esta convencido de dever ama-lo, e ha quem nao o ama porque,

por sua vez, de boa fe, esta convencido de que nao existem motivos para ama-lo. Assim que

atua de boa fe, tambem este ultimo realiza em si o principio fundamental da etica, quer dizer,

somente sua mera conformidade com a lei. Etico e o homem que em boa fe nao ama; nao etico

e o homem que ama porque, em que pese a sua conviccao de nao dever amar, quer evitar a

desaprovacao social.

A conviccao para atuar de uma certa maneira pode ter motivacoes distintas. Este me

parece o tema sobre o que reclama atencao o cardeal Martini (veja-se «Onde encontra o laico a

luz do bem?»). As motivacoes da boa fe nao sao a boa fe e nem sequer seu conteudo: sao o

fundamento da conviccao em que a boa fe consiste. A conviccao de atuar de uma certa maneira

surge, bem porque assim ordena atuar uma legislacao de tipo religioso, bem porque, com o

nascimento da filosofia na Grecia, a certeza de conhecer a verdade definitiva e incontrovertivel

faz que esta seja adotada como lei suprema e fundamento absoluto do atuar. Todavia, pode

haver tambem quem esta convencido de dever atuar de uma certa maneira, em que pese a saber

que nao dispoe de motivacao absoluta alguma para tal forma de atuar. Em todos estes casos se

atua em boa fe, quer dizer, eticamente, mas a solidez da boa fe varia segundo a consistencia das

motivacoes.

Quando a motivacao da boa fe e a lei constituida pela verdade incontrovertivel a que

aspira a tradicao filosofica, quando a motivacao possui um fundamento absoluto, a solidez da

boa fe resulta ajudada e reforcada ao maximo (e ajudada ao maximo resulta a eficacia tecnica da

etica). Cabe deixar em suspense o problema da possibilidade de que nestas condicoes de solidez

a lei seja transgredida, porque efetivamente se pode afirmar, como escreve Umberto Eco em

sua resposta ao Martini, que tambem atuam mal quem acredita dispor de uns alicerces absolutos

da etica; igualmente se pode dizer que a transgressao da verdade e possivel porque essa

transgressao e so uma verdade aparente, ou nao nos aparece em sua verdade autentica.

A solidez da boa fe que nao dispoe de motivacao alguma resulta, pelo contrario,

reforcada ao minimo, precisamente porque nao e ajudada por nenhum fundamento; entretanto,

nao se pode descartar que consiga ser mais solida que uma boa fe que cre apoiar-se em um

fundamento absoluto. Entre estes dois extremos se situa a multidao de formas intermediarias

da boa fe.

Faz tempo que venho dizendo que se a verdade nao existir, quer dizer, se nao existir um

fundamento absoluto da etica, tambem carece de verdade o rechaco da violencia. Para quem

esta convencido da inexistencia da verdade e rechaca em boa fe a violencia, este rechaco e,

precisamente, uma simples questao de fe, e como tal lhe aparece. Pelo contrario, para quem esta

convencido de ver a verdade, e uma verdade que implique o rechaco da violencia, este rechaco

nao se parece como simples fe, mas sim como sabedoria, igualmente, acontece na etica fundada

sobre principios metafisico-teologicos da tradicao. E, ao nao existir a verdade, esse rechaco da

violencia nao e mais que uma fe, a qual, precisamente por isso, nao pode possuir mais verdade

que a mesma fe (mais ou menos boa) que, pelo contrario, acredita que deve perseguir a

violencia e a devastacao do homem. Da-me a impressao de que este raciocinio foi recolhido nas

recentes enciclicas da Igreja e de que nesta direcao aponta tambem o texto do cardeal Martini.

Com a condicao de que ele considera, com a Igreja, que ainda hoje pode existir um fundamento

absoluto da etica, «alem de cepticismos e agnosticismos»; que ainda hoje pode existir «uma

verdadeira e propria absoluta moral» e que, portanto, pode-se falar ainda de verdade absoluta,

no sentido da tradicao filosofico-metafisico-teologica que para a Igreja segue definindo a base

de sua propria doutrina.

Contra este pressuposto da Igreja e de toda a tradicao ocidental se eleva a filosofia

contemporanea, que, por outro lado, so atraves de escassas frestas toma consciencia de sua

propria forca invencivel. Quando se sabe captar sua essencia profunda, o pensamento

contemporaneo nao nos parece como cepticismo e agnosticismo ingenuo, mas sim como

desenvolvimento radical e inevitavel da fe dominante que se acha na base de toda a historia do

Ocidente: a fe no suceder do ser. Sobre o fundamento desta fe, o pensamento contemporaneo

e a consciencia de que nao pode existir nenhuma verdade distinta do suceder» ou seja, do

proprio atropelo de toda verdade. Por minha parte, convido frequentemente a Igreja a nao

infravalorizar a potencia do pensamento contemporaneo do qual, indubitavelmente, e

necessario saber captar, por cima de suas proprias formas explicitas, a essencia profunda e

profundamente oculta, e entretanto absolutamente invencivel, em respeito a qualquer forma de

saber que se mantenha dentro dos limites da fe no suceder. O que se mostra nesta essencia e

que a grande tradicao do Ocidente esta destinada ao ocaso e que, portanto, resulta ilusoria a

tentativa de salvar ao homem contemporaneo recorrendo as formas da tradicao metafisicoreligiosa.

A tradicao metafisica tenta demonstrar que se por cima do suceder nao existisse uma

verdade e um ser imutavel e eterno, deduzir-se-ia que um nada, no suceder provem das coisas,

transformar-se-ia em um ser (quer dizer, no ser que produz as coisas). Pelo que se trata, em

troca (como expliquei em mais de uma ocasiao), e de compreender que na essencia profunda

do pensamento contemporaneo se assenta a identificacao de um nada e do ser (a qual e de uma

vez cancelamento do suceder, ou seja, da diferenca entre aquilo que e e aquilo que ainda nao e

ou deixou ja de ser), que tem lugar precisamente quando se afirmam esse ser e essa verdade

imutavel nos quais a tradicao confia. Assim, tenta-se compreender que qualquer imutavel

antecipa, convertendo-o portanto em aparente e impossivel, o suceder do ser, quer dizer, aquilo

que para o Ocidente e a evidencia suprema e supremamente inegavel.

Todavia, se a morte da verdade e do Deus da tradicao ocidental e inevitavel, e-o tambem

a morte de todo fundamento absoluto da etica, que situe a verdade como motivacao da boa fe.

Deste modo, qualquer etica nao pode ser outra coisa que boa fe, ou o que e igual, somente

pode ser fe, e nao pode aspirar a mais verdade que qualquer outra boa fe. O desacordo entre as

distintas fes so pode resolver atraves de um enfrentamento no qual o unico sentido possivel da

verdade e sua capacidade pratica, como fe, de impor-se sobre as demais. E um desacordo entre

varias boas fes (entre as quais tera que contar tambem a boa fe da violencia), ja que a ma fe e

uma contradicao (quer dizer, uma nao verdade que nao pode ser aceita nem sequer pela fe no

suceder), em que o estar convencido de algo distinto do que se faz obstaculiza e debilita a

eficacia do fazer.

As formas violentas do enfrentamento pratico podem ser postergadas pela perpetuacao

do compromisso. Mas desta maneira o dialogo e o acordo sao um equivoco, porque, se a

verdade nao existir, resulta so uma conjetura a existencia de um terreno e de um conteudo

comuns, de uma dimensao universal identica para as distintas fes em contraste (e que por sua

vez seja um imutavel, quer dizer, algo que faz impossivel o suceder do mundo). Se for so uma

conjetura que voce fale meu idioma, nossos acordos serao meros equivocos. E o equivoco zela

a violencia do enfrentamento. A ultima frase da resposta de Eco ao Martini —«E nos conflitos

de fe devem prevalecer a caridade e a prudencia»— e uma aspiracao subjetiva, uma boa fe debil

que se pode afirmar unicamente na medida em que nao obstaculiza a boa (ou ma) fe mais

potente. Que Eco se expresse dessa maneira resulta por outro lado compreensivel, porque ele,

demonstrando que esta ainda muito longe da essencia profunda do pensamento

contemporaneo, sustenta um ponto de vista que volta a propor a aspiracao tradicional a um

fundamento absoluto da etica. Deste modo e por cima de suas intencoes, tambem seu

raciocinio e somente uma fe, como o de Martini.

Mas nao acaba ai a simetria entre o texto de Martini e o de Eco. Martini propoe uma

etica fundada sobre «principios metafisicos», «absolutos», «universalmente validos»: «um

verdadeiro e proprio absoluto moral», apoiado sobre «claros fundamentos». Mas depois

considera que estes claros fundamentos sao um «Misterio» (quer dizer, algo que por definicao e

obscuro); em outras palavras, quer «um Misterio transcendente como fundamento de atuacao

moral». Por sua vez Eco propoe uma etica fundada sobre nocoes «universais», «comuns a todas

as culturas», fundada em outras palavras nesse fato «natural», «certo», indiscutivel, que e o

«repertorio instintivo» do homem. Mas logo considera, por sua vez, que o fato de que o

homem, para sobreviver, construa-se um mundo de ilusoes e de modelos sublimes e algo tao

«milagrosamente misterioso» como a encarnacao de Deus. Ambos os interlocutores pretendem

situar na base da etica um fundamento «claro» e «certo», e portanto, evidente, mas depois

afirmam que tal fundamento e misterioso, quer dizer, obscuro. Poderao evitar a incoerencia,

mostrando em que sentido o fundamento e evidente e em qual (distinto) misterioso. Mas a

simetria continua. (Essa incoerencia me parece que gravita em especial sobre o texto de Martini,

mas resulta estranho que Eco —depois de ter afirmado que o homem, filho do azar, inventa

grandes ilusoes para sobreviver— considere «milagrosa» essa capacidade de fazer-se ilusoes,

quando, em troca, a presenca desta significa simplesmente que a vontade de viver, presente no

homem, possui um grau de intensidade capaz de forjar-se ilusoes ate esse extremo. Ja Leopardi

explicava que quando tal intensidade decresce e as ilusoes desaparecem, o homem se converte

em algo morto.)

A simetria entre os dois discursos nao se detem ai, porque ambos apresentam como

evidente um conteudo que nao o e. Martini, conforme parece, aproxima perigosamente os

«principios metafisicos» aos principios religiosos da etica. Sao Tomas de Aquino e a Igreja sao

conscientes de sua diversidade. Os primeiros constituem uma verdade evidente da razao e sao

absolutos porque sao evidentes. Pertencem ao que os gregos chamavam episteme, Sao Tomas,

scientia, Fichte e Hegel, Wissenschaft. Os segundos vem dados, em troca, pela revelacao de

Jesus, que se propoe a si mesmo como mensagem sobrenatural e excede a qualquer capacidade

da razao; seu carater absoluto e a certeza absoluta do ato de fe (fides quae creditur), que e fe nessa

configuracao do Absoluto que e o misterio trinitario (fides quae creditur). Se se afirmar —como

Hans Kung em um fragmento citado por Martini— que «a religiao pode fundar de maneira

inequivoca porque a moral... deve vincular incondicionalmente... e, portanto, universalmente»,

nao se pode conceber o carater inequivoco da religiao como verdade evidente da razao. A

religiao funda «inequivocamente» o vinculo moral, no sentido de que nela a fe aceita os

conteudos sobrenaturais da revelacao e sua imposicao como determinacao da moral. A fe e a

certeza absoluta de coisas nao evidentes (argumentum non apparentium), que representam um

problema inclusive do ponto de vista da «razao» tal e como e entendida pela Igreja catolica

(embora esta ultima evite reconhece-lo e, com Sao Tomas, afirme a «harmonia» de fe e razao).

A fe e um fundamento problematico da moral; como problematicas sao a incondicionalidade e

a universalidade da moral, assim que fundadas pela razao.

Mas tambem Eco situa como fundamento evidente da etica algo que nao o e.

«Persuadido de que, com efeito, existem nocoes comuns a todas as culturas» (como as do alto e

do baixo, de uma direita e uma esquerda, de estar parados ou do mover-se, do perceber,

recordar, gozar, sofrer...) — onde «persuadido de que, com efeito, existem» nao e mais que uma

maneira de dizer que sua existencia e incontrovertivel e evidente—, Eco sustenta que tais

nocoes sao «a base para uma etica» que ordena «respeitar os direitos da corporalidade alheia».

Agora bem, que tais nocoes existam, e que a existencia do proximo seja, como sustenta Eco,

um ingrediente iniludivel de nossa vida, e uma tese de sentido comum, mas nao uma verdade

evidente, a nao ser uma conjetura, uma interpretacao desse conjunto de acontecimentos que se

denominam linguagens e comportamentos humanos; e, portanto, algo problematico. Estar

«seguros» da existencia do conteudo de tal interpretacao supoe, pois, desde o comeco, uma fe.

Uma fe que Eco, como Martini, situa como evidencia. E assim como para a tradicao existe uma

«lei natural» imodificavel, que o comportamento do homem deve ter em conta, do mesmo

modo para Eco ha na base da «etica laica» um «fato natural» igualmente imodificavel, metafisico

e teologico: o instinto natural. A filosofia contemporanea, entretanto, em sua forma mais

avancada nega qualquer nocao comum e universal (e tambem, portanto, a que esta presente no

«nao faca a outros o que nao queira que faca a si», a que Eco se remete), posto que o universal e

tambem um imutavel que antecipa e faz va essa inovacao absoluta em que consiste o suceder. A

boa fe da etica contemporanea leva a ocaso a boa fe que a tradicao pretendia apoiar na verdade

do pensamento filosofico, ou na verdade a que se remete a fe.

Todavia, acima das formas filosofico-religiosas da boa fe, e legitimada, entretanto, pela

inevitabilidade desse ocaso, situou-se faz ja tempo a etica da ciencia e da tecnica, quer dizer, a

boa fe constituida pela conviccao de que o que e necessario fazer, a tarefa suprema que se tem

que levar a cabo, e o incremento indefinido dessa capacidade de realizar fins que o aparelho

cientifico-tecnologico planetario esta convencido de poder impulsionar mais que qualquer outra

forca, e que e hoje a condicao suprema da salvacao do homem na Terra. Na epoca da morte da

verdade, a etica da tecnica possui a capacidade pratica de conseguir que qualquer outra forma

de fe fique subordinada a ela. Todavia, qual e o sentido da tecnica? E como e possivel que a

civilizacao do Ocidente seja capaz de acabar com a violencia, se situar em seu proprio

fundamento essa fe no suceder que — ao pensar as coisas como disponiveis a sua producao e

violencia — constitui a raiz mesma da violencia?

(Fevereiro de 1996)

O bem nao se pode fundar em um Deus homicida

Manlio Sgalambro

Os interrogantes que o cardeal Martini expoe em sua ultima intervencao, sobre os quais

me pediu que me pronuncie, induzem a partir de uma pergunta ulterior: como aparece o bem

entre os homens? Como e possivel que sobre este bando de canalhas, de vez em quando, com a

rapidez do raio, abata-se algo, um ato bom, um gesto de pena, e retire-se com a mesma rapidez?

A maravilha etica inicia-nos na moral em um mundo no qual resulta mais facil que se cometa

um delito. «E que fazem falta pretextos para cometer um delito?», pergunta a princesa Borghese

em Juliette. O inicio da etica esta intimamente unido ao estupor. O mal social e uma bagatela

frente ao mal metafisico: um ato de bem contem a mais absoluta negacao de Deus.

Refuta a ordem do mundo, atenta contra a disposicao que se pretende divina. O bem e a

maior tentativa de anular «o ser». Por isso nao pode apoiar-se em Deus, em algo que em todo

caso deu origem a um mundo que se sustenta ontologicamente sobre o mutuo carnage. Com o

bem negamos, portanto, a Deus; mas «o ser», quer dizer, Deus, ou a ordem «metafisica» do

mundo, leva sempre as de ganhar. Em consequencia, como pode apoiar o bem em Deus?

Lembro-me o julgamento global de Spinoza sobre intelecto e vontade em Deus, julgamento

que se pode expressar desta maneira: Deus nao e inteligente nem bom. E um ser, um horrivel

ser, acrescentaria um spinoziano coerente. Chamamo-lhe Deus so por sua potencia. Suspeito de

todas as formas que ha, outras muitas coisas silenciadas na filosofia de Spinoza. Estimado

senhor, queria em qualquer caso lhe fazer notar todo o peso que a grande teologia escolastica

sofre por esta existencia. Fazer-lhe notar os milhares de subterfugios com os quais esta zela sua

raiva! As leis da exclusao da impiedade sao leis complexas e praticadas em estado de

sonambulismo, sem que portanto nos demos conta de nada, como acontece cada vez que se

leva a cabo uma infidelidade. A ideia de Deus nao deve ser, essa e a questao, a ideia que formo

de Deus, a ideia que de Deus se forma o impio. Deus nao deve existir. Quero acrescentar que

isso se deduz da austeridade da impiedade. Nos nao podemos nos associar com uma natureza

inferior. Acredito estar seguro da natureza inferior de Deus. A ideia de Deus nao supoe uma

natureza divina. Estou muito preocupado pela opiniao comum, que se converteu em um elo

nao divisivel de ideias. Vejo com amargura que a ideia de Deus e a ideia do bem se apresentam

enlacadas. Pelo menos quando nao nos vigiam. Compartilham-se nesse momento as piores

astucias de uma alma turvada. Naturalmente, voce nao sabe, mas eu sustento que o bem so

pode pensar-se, nao se fazer. O que me diria se eu acrescentasse que, sendo «pensamento», nao

pode «ser»? Acrescento alem que para mim a impiedade e sede inexausta de bem e resulta-me

revoltante que isso se relacione com Deus, cuja ideia, volto a repeti-lo, rechaca-o totalmente.

Ao escolher a um homem como proximo, como irmao, responde-se ao Absoluto que

nos arroja juntos a morte. Porque para nos, os mortais, desejar o bem de um e desejar que nao

morra.

Escolher a um homem como proximo e escolhe-lo para a vida. Como pode fundar-se

este ato, portanto, em um Deus «que chama a seu lado»? Ille omicida erat ab initio (14): no

principio ontologico mesmo se contem nossa morte. O ato do bem, no momento em que

escolhe a «outro» como proximo, diz-lhe: voce nao deve morrer. O resto e uma subespecie do

util. No bem ha aflicao e dor pelo fato da morte. O bem e uma luta contra a mortalidade do

outro, contra «o ser» que o absorve e o mata (ou segundo as terriveis e ameacadoras palavras

que em um tratado do Mestre Eckhart descrevem assim o ato no qual «unimos» a Deus: «Um

com Um, um do Um, um no Um e, no Um, eternamente um»). Entendido deste modo, o bem

e impraticavel e e unicamente «pensamento». Como se pode, por outro lado, sustentar uma

visao que nao seja a da impraticabilidade do bem? Desejar o bem de outros e desejar que nao

morram, isso e tudo. (Como se pode conciliar, repito, a ideia do bem com Deus, que e a morte

mesma? Acredito, pelo contrario, que a ideia de Deus e a ideia da morte se associam de tal

maneira que podemos usar tanto um nome como o outro.) O resto e Justiz und Polizei.

[14- E era homicida desde o principio. (N. do T.)]

(Fevereiro de 1996)

Para atuar moralmente, confiemos em nosso instinto

Eugenio Scalfari

O cardeal Martini nao e unicamente um pastor de almas que opera em uma das mais

importantes diocese italianas; e alem disso um padre jesuita de grande cultura, um intelectual

militante, com esse espirito missionario que supoe uma especie de marca genetica da

companhia a que pertence.

Os padres jesuitas nasceram como missionarios, e nao so para converter a fe a

longinquas etnias educadas em outras civilizacoes e em outras religioes, mas tambem para

conter na cristianissima Europa o terremoto luterano e a ainda mais devastadora difusao da

nova ciencia e da nova filosofia.

Os tempos, depois, mudaram bastante; basta pensar que a companhia, depois de ter

representado durante alguns seculos, a asa direita — se e que pode chamar-se assim — da

Igreja romana, nestes ultimos anos se situou, frequentemente, a margem da heterodoxia,

compartilhando com esta, se nao teses teologicas, ao menos, comportamentos sociais e ate

objetivos politicos.

Queria dizer que os jesuitas de nossos dias privilegiaram seu desejo de conhecer outros

sobre a missao de converte-los, atitude de grande interesse para um laico que seja capaz de

manifestar a mesma disponibilidade para o conhecimento e o dialogo.

O intercambio de cartas entre Martini e Umberto Eco proporciona-nos um exemplo

insigne desta reciproca abertura, e em tal sentido resulta muito valioso. Pergunto-me se este

ponto de partida pode servir de apoio para contribuir a uma nova fundacao de valores. O

cardeal assim o espera, mas —se tiver entendido bem suas palavras— vincula o resultado ao

redescobrimento do Absoluto como unica fonte possivel da lei moral.

Pois bem, tal posicao e preliminar. Se sobre ela nao se consegue projetar claridade,

resultara enormemente dificil que laicos e catolicos levem a cabo juntos o reimplantacao de

novos valores capazes de suscitar comportamentos tendentes ao bem comum, a busca do justo

e, em resumidas contas, a uma etica apropriada para as necessidades e as esperancas dos

homens do seculo XXI.

Os padres da Igreja, em que pese a dar a graca um peso decisivo para a salvacao das

almas, nao renunciaram nunca a percorrer, embora nao fosse mais que de maneira subsidiaria, o

caminho que, com o unico auxilio da razao, deveria levar o homem a conhecer e a reconhecer

ao Deus transcendente.

Durante um milenio inteiro esta tentativa esteve unida as teses da Primeira Causa, do

Primeiro Motor. Mas com o tempo os intelectuais mais finos compreenderam que aquela tese

tinha perdido ja toda sua forca de persuasao, a medida que a ciencia ia destronando ao homem

e, com ele, a seu criador.

No momento mesmo, em que a necessidade e o azar substituiam a casualidade e ao

destino, a pretensao de remontar-se mediante a razao do efeito final ate a Primeira Causa

resultava insustentavel e, de fato, nenhuma mente amadurecida recorre hoje a semelhantes

argumentos.

Nao por isso se atenuou a vocacao missionaria; somente trocou de terreno. Se os padres

da Igreja tinham acoplado a busca do Absoluto as relacoes entre o criado e o criador, seus

epigonos modernos tornaram a propor o Absoluto como o unico fundamento possivel do

sentimento moral. Posto que o homem nao esta dominado unicamente por seu proprio

egoismo, mas tambem pelo desejo da virtude, do conhecimento, do bem e da justica, e dado

que estes sentimentos sao, em boa medida, conflitivos em relacao ao mero amor de si, eis aqui a

preciosa inducao por meio da qual o conhecimento e o amor por outros se fazem derivar desse

Deus transcendente que nao se sustenta ja em sua representacao como grande artifice do

universo. Nao ja, pois, Primeiro Motor, a nao ser fonte de mandamentos e de valores morais:

esta e a moderna representacao que os catolicos dao do Deus transcendente as portas do

terceiro milenio.

Em outras palavras, o Deus transcendente deixou de ser no imaginario catolico a

potencia ordenadora do caos universal da que falam os primeiros capitulos da Genese, para

adaptar-se a medida humana como fonte de verdade, bondade e justica. Os animais, as plantas,

as rochas, as galaxias, a natureza, em resumo, separa-se do dominio do divino, e ao mesmo

tempo, afasta-se dele a imagem apocaliptica do Deus das batalhas, das tentacoes e dos castigos

terriveis e cosmicos. Verdade, bondade, justica, mas, sobretudo, amor: esta e a representacao

crista que emerge da cultura catolica mais informada e mais avancada a portas do seculo XXI.

Uma especie, pois, de humanismo catolico que consente o encontro com outras

culturas, religiosas ou nao, que custodiam bem viva a chama da moralidade.

Esta evolucao da cultura catolica, da metafisica, ate a etica, nao pode deixar de ser

acolhida pelos laicos como um acontecimento extremamente positivo. Por outro lado, faz

tempo que a filosofia esta registrando de novo, depois de um longo parentese de declive, um

ardor de estudos precisamente no campo da moralidade, enquanto que, por sua parte, a ciencia

se expoe hoje problemas que tempo atras eram competencia exclusiva das especulacoes dos

filosofos. Quando a reflexao modifica sua optica e seus objetivos, isso acontece sempre pela

pressao das necessidades dos homens, os quais evidentemente estao hoje em dia mais

concentrados nos problemas da convivencia que nos da transcendencia.

Chegados a este ponto poder-me-ia objetar — se minhas observacoes fossem

compartilhadas — em virtude de que razoes recolho aqui o tema do Absoluto para negar que

este conceito seja utilizavel como fundamento da moral. Por que nao deixar que cada um

resolva a seu gosto os problemas de natureza metafisica e que, portanto, nao influenciam nos

comportamentos e nas motivacoes que os determinam?

Posso responder que o tema do Absoluto foi proposto por Martini e e, pois, obrigado

lhe responder, por um lado, e, por outro, que nao se trata de um tema sem nenhuma influencia

no problema que se esta debatendo. O cardeal expoe, com efeito, uma questao a que me parece

que Eco nao chegou a responder completamente, ou seja; se a moral nao esta ancorada nos

mandamentos que se derivam de um Absoluto, sera indiferente, sera relativa, sera variavel, sera,

enfim — ou podera ser — uma nao moral, ou inclusive uma antimoral.

E que acaso nao corresponde ao pensamento ateu a responsabilidade de concernir a

moral e, portanto, de aplainar o caminho a sua destruicao, a dissolucao de todos os valores e,

enfim, ao extravio que atualmente nos circunda? Nao e verdade que e necessario retornar do

Absoluto se quisermos refundar esses valores e sair do reino do egoismo no qual nos

afundamos?

Assim parece raciocinar o cardeal Martini. E sobre este assunto tera que lhe dar uma

resposta. Reclama-a e tem direito a obte-la.

O cardeal pensa — e nao poderia ser de outra maneira, embora nao fosse mais que

pelos habitos que viu — que a moral tem sua sede na alma e na doce debilidade do corpo sua

permanente tentacao. O cardeal, em consequencia, ata todo seu raciocinio a separacao entre o

corpo e a alma, estando esta ultima formada a imagem e semelhanca do criador e a ele

vinculada por uma entupida rede de correspondencias, a primeira das quais e a possibilidade da

graca e, junto a ela, ou talvez inclusive, independentemente, dela, a inspiracao direta do bem,

perenemente assediado, mas perenemente vencedor.

Esta crenca na alma nao e discutivel, posto que e axiomatica para quem a possui. Pelo

resto, como e sabido, a prova negativa e impossivel. Alem disso, por que razao devem

empenhar os ateus em por em discussao, sem proveito algum, os baluartes que o crente

levantou em defesa de suas ultraterrenas crencas?

Atraves da comunicacao entre a alma e o Deus que a criou, o homem recebeu o halito

moral, mas nao so isso: tambem recebeu as normas, os preceitos, as leis que se traduzem em

comportamentos, com os conseguintes premios para quem os obedece e os correspondentes

castigos, as vezes leves, as vezes terriveis e eternos, para quem nao o faz.

Naturalmente, normas e preceitos podem ser interpretados e portanto relativizados

segundo os tempos e os lugares; frequentemente, os castigos celestes foram anulados pela

clemencia e as indulgencias sacerdotais; outras vezes, em troca, antecipados pelo braco secular

mediante processos, prisoes e fogueiras.

A historia da Igreja, junto a infinitos atos de exemplaridade e de bondade, esta

intimamente entretecida da violencia dos clerigos e das instituicoes regidas por eles. Dir-se-a

que todas as instituicoes humanas e os homens que as administram —por muito ministros de

Deus que sejam— sao faliveis e e verdade. Mas aqui se esta discutindo outra questao, mais

importante, ou seja: nao ha conexao absoluta que pode impedir a relatividade da moral.

Queimar a uma bruxa, ou a um herege nao foi considerado um pecado, e muito menos um

crime, durante quase a metade da historia milenar do catolicismo; pelo contrario, crueldades

como estas, que violavam a essencia de uma religiao que tinha sido fundada sobre o amor, eram

levadas a cabo em nome e como tutela dessa mesma religiao e de quao moral dela

intrinsecamente deveria formar parte. Repito-o: nao pretendo desenterrar enganos e ate crimes

que hoje —mas so hoje— a Igreja admitiu e repudiou; simplesmente estou afirmando que a

moral crista, unida, eminentissimo cardeal Martini, ao Absoluto emanado pelo Deus

transcendente, nao impediu de maneira nenhuma uma interpretacao relativa dessa mesma

moral. Jesus impediu que a adultera fosse apedrejada e sobre isso edificou uma moral apoiada

no amor, mas a Igreja por ele fundada, em que pese a nao renegar daquela moral, extraiu dela

interpretacoes que conduziram a autenticas matancas e a uma cadeia de delitos contra o amor.

E isso nao em alguns casos esporadicos, ou por alguns tragicos enganos individuais, a nao ser

sobre a base de uma concepcao que guiou os comportamentos da Igreja durante quase um

milenio. Concluo com este ponto: nao existe conexao com o Absoluto, seja o que for, aquilo

que se entende com esta palavra, que evite as mudancas da moral segundo os tempos, os

lugares e os contextos historicos nos quais as vicissitudes humanas se desenvolvem.

Qual e entao o fundamento da moral no qual todos, crentes e nao crentes, podemo-nos

reconhecer?

Pessoalmente sustento que reside na pertenca biologica dos homens a uma especie.

Sustento que na pessoa se enfrentam e convivem dois instintos essenciais, o da sobrevivencia

do individuo e o da sobrevivencia da especie. O primeiro da lugar ao egoismo, necessario e

positivo sempre que nao supere certos limites a partir dos quais se volta devastador para a

sociedade; o segundo da lugar o sentimento da moralidade, quer dizer, a necessidade de fazer-se

encargo do sofrimento alheio e do bem comum.

Cada individuo elabora com sua propria inteligencia e sua propria mente estes dois

instintos profundos e biologicos. As normas da moral mudam e devem mudar, posto que muda

a realidade a que se aplicam. Mas em um aspecto sao imutaveis por definicao: essas normas,

esses comportamentos podem ser definidos como morais sempre que superarem de alguma

forma o horizonte individual e obrem em favor do bem do proximo.

Este bem sera sempre o fruto de uma elaboracao autonoma e, como tal, relativa, mas

esta nao podera prescindir nunca da compreensao e do amor para outros, posto que este e o

instinto biologico que se acha na base do comportamento moral.

Pessoalmente desconfio desse Absoluto que dita mandamentos heteronimos e produz

instituicoes chamadas a administra-los, a sacraliza-los e a interpreta-los. A historia, cardeal

Martini, incluindo a da Companhia religiosa a que voce pertence, autoriza-me ou, melhor

dizendo, incita-me a desconfiar.

Por isso, deixemos de lado metafisicas e transcendencias se quisermos reconstruir juntos

uma moral perdida; reconhecamos juntos o valor moral do bem comum e da caridade no

sentido mais alto do termo; pratiquemo-lo ate o final, nao para merecer premios ou escapar a

castigos, a nao ser, simplesmente, para seguir o instinto que provem de nossa comum raiz

humana e do comum codigo genetico que esta inscrito em cada um de nos.

(Fevereiro de 1996)

Da falta de fe como injustica

Indro Montanelli

Agradeco aos amigos da revista Liberal o convite para intervir neste debate entre o

cardeal Martini e Umberto Eco, embora meu agradecimento seja algo hesitante. Nem tanto

pelo que se refere ao laico Eco, com quem compartilho ao menos uma linguagem, mas sim

porque confrontar temas como estes com um homem de igreja da talha de Martini me provoca,

em certo modo, calafrios. Em qualquer caso, eis aqui, com toda humildade, minhas opinioes a

respeito.

Nada que objetar a argumentacao do cardeal, que me parece a seguinte: quem acredita

poder reduzir a religiao a um credo moral sem fundamento em um valor transcendente nao

podem resolver seu problema existencial, porque a Moral nao possui em si nada de Absoluto,

sendo as regras que ela dita sempre relativas, assim que propensas a adaptar-se as mudancas que

se produzem, no tempo e no espaco, nos costumes dos homens.

Como nega-lo? Eu mesmo que, em meu muito humilde caso, e sem nenhuma pretensao

de consegui-lo, procuro no estoicismo um modelo de comportamento, devo reconhecer sua

relatividade e, em consequencia, sua insuficiencia; estas foram tambem patente de curso para

seu mesmo Mestre, Seneca, e induziram-lhe a comportar-se em sua vida de maneira

notavelmente distinta de suas predicacoes, as quais se adequou unicamente na morte.

Naturalmente, suas contravencoes a seu proprio credo moral deveram-se ao fato de que esse

credo nao teve o sustento de um valor transcendente que o fizesse absoluto, imprescritivel e

inevitavel.

Quem pode negar que por um mero codigo de comportamento, embora fosse o mais

elevado, ninguem teria tido a forca nem a coragem para subir a cruz, e sem esse ato o

cristianismo se teria reduzido a uma pura e simples «academia» dentre quao muitas pululavam

na Palestina, destinadas somente a acumular po nos poroes de alguma sinagoga de Jerusalem.

Eu tambem sei, Eminencia, que, ante voces os crentes, armados de fe em algo que lhes

transcende, quer dizer, em Deus, nos, os que procuramos esta fe sem conseguir acha-la, nao

somos mais que uns deficientes. Deficientes que nao terao jamais a forca de converter-se em

outros ate entregar sua propria vida em troca da outra, e possivelmente nem sequer de resistir

as lisonjas de um Nero qualquer. Mas, e suficiente? (e e esta a objecao que me atrevo a expor ao

cardeal, sempre, repito, com toda humildade), basta com a consciencia de tal menosvalia para

dar a fe? Ou faz falta algo mais?

Sei perfeitamente que assim desembocamos em um problema, como e o da Graca, sobre

o que, como e obvio, nao posso me medir com o cardeal Martini. Mas espero que esteja de

acordo comigo em que este problema nao turva unicamente aos pobres desprovidos como eu,

mas sim, segue sendo causa de divisao, nao so para o mundo cristao, mas tambem, no fundo,

para o catolico. Porque os primeiros em afirmar que a fe e uma iluminacao concedida por um

gracioso dom do Senhor aqueles que, em seu inextricavel julgamento, ele destina a salvacao,

nao foram Lutero, nem Calvino; foram os dois maiores padres fundadores da Igreja, Paulo e

Agostinho, se e que interpretei bem algumas de suas passagens, lidos por mim so em uma

vulgata e sem ajuda de teologia alguma, por desgraca.

Confesso-o, eu nao vivi, e nao vivo a falta de fe com o desespero de um Guerreiro, de

um Prezzolini, de um Giorgio Levi della Vida (limitando-me as tribulacoes de meus

contemporaneos, das quais posso prestar testemunho). Entretanto, sempre a senti e a sinto

como uma profunda injustica que priva a minha vida, agora que chegou ao momento de prestar

contas, de qualquer sentido. Se meu destino e fechar os olhos sem ter sabido de onde venho,

aonde vou e o que vim fazer aqui, mais me valia nao have-los aberto nunca. Espero que o

cardeal Martini nao tome esta minha confissao por uma rabugice. Ao menos em meu

proposito, nao e mais que a declaracao de um fracasso.

(Fevereiro de 1996)

Como vivo no mundo, este e meu fundamento

Vittorio Foa

Nao estou de todo convencido de que uma acareacao entre crentes e nao crentes seja

um caminho util para indagar no fundamento ultimo da etica. Para comecar, quem acredita esta

no fundo tao convencido de acreditar?, e os nao crentes (falo por experiencia propria), estao

tao seguros de nao acreditar? Sempre pensei que um crente, embora o seja, nao deixa nunca de

procurar. Os limites sao incertos.

Se um crente exigir a um nao crente que justifique suas crencas eticas sem exigir-se a si

mesmo justificar a relacao entre sua fe e suas proprias certezas, corre o risco de passar por cima

de toda a historia da humanidade e de impor, prejudicialmente, uma hierarquia que pode fazer

va a propria acareacao. Pede-se ao nao crente: diga-me em que cre quem nao cre! Com um

pequeno trocadilho, da-se, e obvio, que o unico modo de acreditar e o de quem faz a pergunta;

assim, o problema fica resolvido antes de comecar, nao fazem falta justificacoes.

Ademais, da inutilidade, ha um segundo risco que e especular respeito ao primeiro. Se a

fe em um Deus pessoal consente «decidir com certeza em cada caso concreto o que e altruismo

e que nao o e» ou, ainda mais, consente «dizer que certas acoes nao se podem realizar, sob

nenhum conceito, e que outras se devem realizar, custe o que custar» (Martini), o crente que

sabe o que e verdade e o que e justo tem nao so o direito, mas tambem o dever, de obter que

outros se adequem a verdade e a justica. Deste modo se desata a confusao entre a letra e o

Espirito, entre o Livro e a etica. No integrismo a experiencia religiosa se dissolve. O integrismo

se encontra tambem entre os nao crentes. A acareacao nao e entre crentes e nao crentes, a nao

ser sobre o modo de acreditar e o modo de nao acreditar.

Faz falta algo mais que a fe religiosa, ou que um refinado humanismo ou racionalismo.

Eu nao consigo falar de etica se nao contemplar o mal e nao me introduzo nele. Estou

pensando no odio etnico. Olhei aos olhos, sob distintas formas, durante quase todo este seculo.

Comecava o seculo com o nacionalismo dos Estados, os sofrimentos e a morte de nove

milhoes de homens jovens. Aquele nacionalismo nao tinha chovido do ceu, nao era uma

fatalidade. Tinha nascido das transformacoes, eu diria inclusive do tombo, de certas

experiencias civis, do sentimento nacional como sentir comum de uma comunidade, de querer

ser como outros, com outros. O tombo tinha suposto a negacao dos outros, uma vontade de

morte. As leis da historia inventadas para justificar aquele massacre eram todas falsas. Em

qualquer momento daquele processo seria possivel tentar dete-lo. A identidade de uma

comunidade, como a de um individuo, nasce por diferenca. O no da etica se encontra nessa

diferenca: e negacao de outros, ou e pelo contrario, convivencia e busca comum? Aquele odio

nao era fatal, era uma construcao humana, as coisas poderiam ser distintas.

Ao final de seculo, a um tiro de pedra de nos, eis aqui de novo a guerra etnica, assim

como o horror de sua limpeza. E, uma vez mais, uma construcao humana, nao uma catastrofe

natural. Que problemas nos expos? Lamentar os males humanos esta bem, mas nao basta.

Rezar esta bem, mas nao basta. Ajudar, atenuar os sofrimentos, como tem feito

admiravelmente o voluntariado catolico, esta bem, mas nao basta. O problema esta em

compreender quem sao os agressores e os agredidos, os verdugos e as vitimas; as vitimas devem

ser reconhecidas como tais e, se for possivel, tera que arrebatar as armas das maos dos

verdugos.

A predica do altruismo como primazia de outros acaba por resultar fastidiosa e inutil. A

fonte do mal reside no modo de comportar-se da propria consciencia, no modo de

organizarmos a nos mesmos e de construirmos nossa relacao com o mundo. Existe uma difusa

tentacao, verdadeira fuga da realidade, de negar a comunidade (ou o individuo) com seu

egoismo, de rechacar a identidade por diferenca. Ao contrario, devemos partir precisamente

dai. Nao posso chegar ao amor por outros se nao parto de um exame de mim mesmo. Resulta

verossimil que nos achamos ante o inicio de grandes movimentos migratorios no mundo, e na

Italia nao estamos culturalmente preparados para estes acontecimentos. As raizes do odio (e do

racismo que lhe propoe como modelo) sao profundas; o que em determinado momento nos

apresenta como inelutavel e so o produto de todas as irresponsabilidades que o precederam, da

maneira em que nos enfrentamos a intolerancia, a inseguranca cada vez mais estendida.

Seguimos prometendo seguranca em vez de procurar a maneira de viver a inseguranca no

respeito reciproco sem a ansiedade da autodefesa.

De maneira analoga, a questao etica se expoe para todos os aspectos do desequilibrio

que foi crescendo entre o progresso tecnico com sua capacidade destrutiva e autodestrutiva e o

grau de responsabilidade pessoal. Eu respeito profundamente a quem extrai suas certezas eticas

da fe em um Deus pessoal ou de um imperativo transcendente. Queria pedir um pouco de

respeito, um pouco menos de suficiencia, para quem lavra suas certezas nao na fragil conviccao

de ter obrado bem, a nao ser na maneira mediante a que encara a relacao entre sua vida e a do

mundo.

(Fevereiro de 1996)

O credo laico do humanismo cristao

Claudio Martelli

Fala-se habitualmente de laicos e de catolicos, de crentes e de nao crentes, como se se

tratasse de entidades sempre separadas e opostas, como de nacoes ou etnias culturalmente

dispares e, cada uma em relacao a outra, alheia, estrangeira e intolerante. So depois, em ocasioes

e com bastante fatiga, busca-se o dialogo. Permito-me assinalar que as coisas nao deveriam ser

assim e, por sorte, as vezes nao o foram e nao o sao. Pelo menos entre a maioria dos homens e

as mulheres do Ocidente.

Para conquistar um ponto de vista distinto devemos supor que o que separa laicos e

catolicos, a crentes e a nao crentes —em geral e para a maior parte dos homens, ao menos no

Ocidente—, nao e uma distincao abismal, mas, uma fronteira movel, nao so entre nos e outros,

a nao ser, o que e mais importante, dentro de nos.

O ponto de vista que sugiro e que a consciencia moderna foi forjada como unidade

pessoal para milhoes de seres humanos, ao mesmo tempo pelo cristianismo e o pensamento

ilustrado. Nao sei se foi obra da astucia da razao, ou da forca das circunstancias, mas o que vejo

em geral sao individuos nos quais, em maior ou menor grau de consciencia, mesclam-se

educacao crista e educacao ilustrada, dando vida a esse organismo que denominamos laicismo, a

essa identidade que denominamos laica.

Termos aos quais tera que restituir o significado originario de uma fe nos limites da

razao, da razao difundida entre o povo, do sentido comum que, como dizia Descartes, esta tao

repartido que todos os homens acreditam have-lo recebido como dote.

Quando, pela parte laica, apresentam-se os proprios creditos e se alude as proprias

origens em geral se faz referencia a ilustracao.

Todavia, a ilustracao nao e algo estranho em relacao ao cristianismo. Com as devidas

excecoes — o cepticismo de David Hume, ou o materialismo mecanicista de Holbach e de

Helvetius —, a ilustracao esta dentro da milenar evolucao do cristianismo e nao e alheia a este,

nem a suas mutaveis relacoes com o poder, consigo mesmo, com a sociedade, com os costumes

e com as ciencias.

Igualmente a Reforma protestante, a ilustracao se remete ao cristao individual contra a

Igreja catolica e as seitas reformadas. A diferenca da Reforma, nao prega um cristianismo puro

contra outro impuro, a nao ser um cristianismo universal baseado no sentido comum.

A Ilustracao —Reforma postergada— acelera e desloca a racionalizacao do cristianismo,

laiciza e seculariza a mensagem crista, mas so ate o limite do teismo. O branco dos ilustrados e

a ignorancia, porque a ignorancia, especialmente no poder, e uma fabrica de problemas, uma

ameaca permanente para a humanidade. Os ilustrados perseguem um objetivo politico com as

armas da critica intelectual: certo grau de liberdade maior, de maior tolerancia das opinioes e

dos direitos de todos, reformas economicas e juridicas, escrupulos, eficiencia, justica. «deixelhes

guiar pelos philosophes

Nunca antes se viu que escritores, cientistas, poetas, historiadores, politicos e

matematicos tirassem da mao ao mesmo tempo e, com a branda violencia da razao, fizessemno

progredir com o singelo procedimento de ir arrojando lastro.

A ilustracao nao e uma ruptura com o ethos (15) cristao: e uma tentativa de purifica-lo do

absurdo e do fanatismo. Nem sequer a revolucao, pelo menos ao principio e antes das tropelias

e dos embrulhos dos jacobinos, do terror e da decapitacao do rei e da rainha, e hostil ao

cristianismo.

[15- Comportamento, moral. (N. do T.)]

A Ilustracao de Bayle e Voltaire, de Rousseau e Kant, de Newton e Laplace e, embora de

modo critico e desencantado, crista; heterodoxa, ecumenica, tolerante, mas crista; e embora nao

todos sao crentes em um Deus pessoal, prevalece um convencido e declarado teismo.

A consciencia laica e seus declinios — o respeito aos outros, a inviolabilidade dos

direitos da pessoa, a liberdade da ciencia, a sofrida aceitacao do pluralismo religioso e politico,

da democracia politica e do mercado economico—, tudo isso nasce dentro e nao fora do

cristianismo, dentro e nao fora da historia do Deus do Ocidente.

As tribulacoes de Galileu nao eram falsas: isso nos faz supor que Galileu, alem de pensar

seriamente, tambem acreditava seriamente. E como Galileu, quantos mais?; e nos, os que

afirmamos nao acreditar, e que nao acreditamos, por nossa vez, em algo?

Embora sejam valores puramente racionais, exigimos, entretanto, que sejam professados

e praticados: da obrigatoriedade da escolarizacao a assistencia sanitaria, passando pela

necessidade do respeito as leis, aos valores e a todos os infinitos regulamentos, contratos,

termos e prazos de nossa existencia cotidiana, incluindo —ainda ha quem acredita nisso— a

obrigacao moral, se nao penal, de votar em todas as eleicoes.

Isso tambem e acreditar: acreditar nas ciencias, na medicina, na carreira, nos colegios

profissionais, nos juizes, na policia, nas companhias de seguros: a vida do homem

contemporaneo e um continuo ato de fe laico em coisas, as vezes, muito mais abstrusas,

absurdas e irrisorias das que se declaram em premissas fundadas no misterio.

Contudo, em principio, custa-me aceitar que seja melhor guia para o comportamento

moral um ensino e uns preceitos apoiados em um misterio transcendente. Como bom ilustrado

cristao, por detras dos valores, vislumbro os poderes. Nao tenho nada contra os misterios.

Infundem-me temor as revelacoes. A repentina aparicao e oferecimento de uma necessidade, de

um descobrimento, de um aspecto novo da sociedade, da ciencia, da arte, da cultura; e a

igualmente brusca manifestacao da repressao, da censura agressiva dos comportamentos

disformes, ou conforme uma norma que se sustenta por si mesmo gracas a sua forca, que e

verdadeira e limpa em sua evidencia e em sua autonomia.

O cristianismo e um grande humanismo, talvez o maior, o unico que, acima de herois e

semideuses, de imortalidades, de reencarnadores e de imoveis teocracias concebeu o Deus que

se faz homem e o homem que se faz Deus, e em seu nome evangelizou o Ocidente, e o

Ocidente cristao liberou ao homem.

Em epocas e em momentos distintos, os cristaos foram tanto perseguidos como

perseguidores, e o cristianismo inspirou a vontade de poder de um povo, de um clero, de um

homem, assim como os direitos da pessoa, da gente, e sua liberacao de dominios injustos.

Pensar em discutir com o cristianismo como se fosse uma compacta e coerente

ideologia, ou pior, argumentar em um julgamento como se se tratasse de enfrentar-se com um

despacho legal associado e uma estupidez. Reduzir a fabula, a prejuizo, a supersticao, a puro

poder o maior, o mais duradouro, o mais subjugante dos humanismos forjados pelo homem e

grotesco furor.

O mito cristao se estende do extremo de um teismo personalista e de uma fe tao

laicizada que pretende medir-se so com suas proprias obras, ate as antipodas da santidade

radical e do turvo poder temporario. Seu ethos profundo, incoercivel, foi interpretado como ratto

(16) e como absurdum (17), como mistica e como logica, como liberdade e como prisao, como

sentido da vida e como sentido da morte, mas, em definitivo, o ethos cristao e amor.

[16 – Razao e 17- Absurdo. (N. do T.)]

So os jesuitas, com sua psicanalise do poder, esquecem e tendem a ofuscar este ponto,

todos outros sabem: a etica crista e amor. E o amor do qual fala o cristianismo nao e uma

deducao logica, a nao ser uma intuicao do coracao: afinal de contas, nao pretende ser

demonstrado e desatendido, melhor seria interpretado mal, em sua doutrina, mas testemunhado

em seus feitos.

E este cristianismo essencial, este cristianismo como amor, este cristianismo do sentido

comum, o novo mito racional elaborado pelos philosophes, impugnado pelos ilustrados contra o

cristianismo como poder, como supersticao, como alquimia sofistica, idolatra e violenta;

brandida de modo horrendo contra outros cristaos reus de nao pensar do mesmo modo sobre

o Papa ou sobre a Virgem, a respeito dos Santos e sobre a confissao. Esse cristianismo

degenerado — nao somente o de Roma, ou Paris papistas, mas tambem, o de Genebra

intolerante de Calvino — e tambem a causa do ateismo. Para Voltaire sao «as inconcebiveis

estupidezes» do cristianismo escolastico pseudocientifico clerical e temporario, seus privilegios,

seus abusos e suas fraudes os quais sacodem nao so nossa honestidade intelectual, mas tambem

nossa fe crista.

Nesse momento «as mentes debeis e temerarias» chegam «a negar o Deus que esses

mestres desonram». De distinta maneira se comportam os espiritos firmes e sabios, os quais

compreendem que Deus nada tem a ver com isso, mas sim e culpa desses mestres nossos que

atribuem a Deus seus proprios absurdos e seus proprios furores».

Para concluir muito bem citando a si mesmo: «Um catequista anuncia Deus aos

meninos, Newton o demonstra aos sabios.» (Voltaire, Dicionario filosofico, voz «Ateu, ateismo».)

E o que dizer do outro pai fundador e campeao infatigavel do laicismo?, o que dizer de

Kant , que pregava e predizia a paz perpetua e o governo universal, e que via no homem ate

tres mentes, uma especulativa, uma pratica e uma estetica? Esgotado pelo esforco gigantesco e

minucioso de emancipar em linha de principio, a alema, a investigacao cientifica das visoes

metafisicas, apressa-se a submeter logo a liberada ciencia pura (embora atencao, teorica, que

nao tecnologica) a um novo amo: a razao moral. Esta segunda, melhor dizendo, primeira mae

de nossas possibilidades, comunica-nos em determinado momento de nosso desenvolvimento

que se quisermos —como podemos e devemos— seguir uma conduta moral, uniformizar em

relacao a um criterio moral estavel e incondicional, nao podemos deixar de aceitar como

postulados («proposicao teorica como tal nao demonstravel assim que se adere

inseparavelmente a uma lei pratica que tem um valor incondicional a priori») a imortalidade da

alma e a existencia de Deus (Kant, Critica da razao pura).

A grandeza de Kant, em nivel etico, reside precisamente nesta laicidade hibrida, neste

heroismo da conciliacao racional com a essencia do cristianismo. Um cristianismo redefinido

como esperanca de futuro e beatitude que se desenvolve atraves do aperfeicoamento infinito do

espirito humano, o qual tem na existencia de Deus como supremo bem sua garantia.

Em Voltaire menos, em Kant algo mais, o laicismo mostra o rastro da ilustracao crista

que absorve fatigosamente a cisao latente no homem ocidental.

Nao ocorre o mesmo no laicismo de Marx, de Nietzsche ou de Freud, antes e depois das

grandes revolucoes da ciencia, da economia e dos povos.

Com eles, e nao so com eles, o laicismo sai da dimensao da ilustracao crista, do credo

que se dissolve na cultura e no sentido comum que se eleva a credo, e que fazia que Goethe,

pagao e ilustrado, reconhecesse o merito fundamental do cristianismo em sua capacidade de

nos conciliar com a dor, de justificar e absorver a dor, as dores da vida e da morte.

«Depois disso — diziam-nos os maiores quando eram pequenos — o mundo ja nao e o

mesmo.» Depois de quando? Depois da Revolucao Francesa? Depois do telegrafo? Depois de

Marx? Depois de Darwin? Depois de Nietzsche? Depois de Freud e Einstein? Depois do

comunismo e do nazismo? Depois das explosoes nucleares e do mundo partido pela metade?

Em resumidas contas, depois da modernidade tal e como a conhecemos nestes dois seculos de

fins do milenio? Ou dentro dessa modernidade nova que nos chegou por ultimo, que nos atrai

e nos ultrapassa e que, enquanto procura uma unidade mais profunda a medida da exigencia de

unidade no mundo, multiplica analise e preceitos eticos, cataloga-os e exibe-os em um

supermercado moral, virtual, de religioes, esoterismos, doutrinas salutiferas, legalidades,

psicoterapias e psicofarmacos.

Na carta de Martini entrelacam-se dois planos: a gente e da teoria etica que proporciona

a justificacao para as acoes; o outro e o dos comportamentos praticos que se derivam da

aplicacao da teoria. Por isso, refere-se ao primeiro nivel, e certo que muitas eticas religiosas tem

em comum o remeter-se a um «misterio transcendente como fundamento de atuacao moral», e

que disso fazem derivar a ideia de que a norma moral possui um valor absoluto. Por outra

parte, nao e certo que a ideia do vinculo incondicional, que a norma moral, exerce sobre nos e

caracteristica da etica religiosa, posto que a etica kantiana (os imperativos) e, mais em geral, as

eticas naturalistas (por exemplo, os direitos naturais das pessoas) afirmam igualmente a nao

negociabilidade dos preceitos morais. Do ponto de vista da derivacao de principios absolutos, a

discriminacao nao se produz entre presenca, ou ausencia de um elemento transcendente na

proposta etica, a nao ser, com maior precisao, entre uma etica produto e projeto do homem e

uma etica derivada, independente do homem e inscrita na natureza das coisas, ou no desenho

divino.

Que esta e a distincao essencial se deduz da observacao do segundo nivel, o dos

comportamentos praticos que descendem das normas morais. As eticas que fazem derivar seus

preceitos do misterio da transcendencia sao bastante distintas entre si. O que esta claro e que

nao sao tipicos desta classe de eticas assim que tais «o altruismo, a sinceridade, a justica, o

respeito por outros, o perdao dos inimigos». Nossa epoca conhece por experiencia direta a falta

de respeito para outros, propria dos chamados integrismos, que frequentemente se remetem

abertamente a uma religiao transcendente qualquer; tampouco «o perdao dos inimigos» e

ensinado e praticado por todas as religioes. E certo que o cristianismo acabou por sustentar e

praticar estes ensinos evangelicos em epoca contemporanea, mas nao e menos certo que isso

nao esta inscrito em seu codigo genetico, como nos recorda isso, obscuramente, sua propria

historia. Por outra parte, houve eticas carentes de transcendencia, mas aderentes a qualquer

valor mundano afirmado de maneira absoluta, que mostraram ainda menor respeito pela

humanidade: basta pensar nas eticas totalitarias da raca, ou da luta de classes, que afligiram este

nosso seculo.

Tera que dar a volta, portanto, ao argumento de Martini. Nao deve surpreender o fato

de «que existem numerosas pessoas que atuam de maneira eticamente correta e que em

ocasioes realizam, inclusive, atos de elevado altruismo, sem terem, ou sem serem conscientes de

ter um fundamento transcendente para seu comportamento». Pelo contrario, poderia resultar

que a falta de valores morais absolutos, nao negociaveis e que por isso tem que seguir,

incondicionalmente, fora o que explicasse a tolerancia e a renuncia a coacao de outros. Uma

concepcao moral «de mais ampla pausa», a disposicao a transigir e a acolher no proprio mundo

de valores parte dos valores de outros —ou em todo caso, a nao se opor a eles «a todo custo»

— pode ajudar a desterrar os excessos dos comportamentos e a fazer menos dificil a

convivencia entre comunidades, que se sustentam em sistemas de valores distintos. (Nem

sequer a reciprocidade pode ser um valor absoluto. Quem nao recorda o aforismo de George

B. Shaw: «Nao faca aos outros o que nao quereria que fizessem a si mesmo. Poderiam nao ter

os mesmos gostos.») Ironias a parte, tive ocasiao de viver a experiencia concreta de rechacar o

principio de reciprocidade em nome de um principio de abertura gratuita maior, ao rechacar as

teses de quem, quando se estavam debatendo as leis sobre a imigracao, estavam dispostos a

reconhecer certos direitos aos estrangeiros (por exemplo, o de formar cooperativas trabalhistas,

ou o de inscrever-se nos colegios profissionais) unicamente, provinham-se de paises que

reconheciam direitos analogos aos residentes italianos. Nao e, portanto, a evangelizacao sem

pausa de valores absolutos, nem sequer o da reciprocidade, o maior alicerce do comportamento

moral. E tampouco um valor moral resulta mais elevado e digno de veneracao quanto mais

integro e imutavel se conserve. Ao contrario, foi gracas ao emergir do humanismo liberal a

partir do cristianismo, primeiro, e mais adiante a influencia da mencionada etica da tolerancia e

do compromisso, da parcial e sempre fatigante negociabilidade dos valores, em definitivo, da

etica liberal (ou melhor dizendo, de uma caracteristica de quao mesma em realidade compartilha

com algumas eticas religiosas, como por exemplo o budismo), foi tudo isso, o que levou

progressivamente, o cristianismo a renunciar ao projeto de evangelizacao forcada de toda a

humanidade, que entretanto, tinha acoitado durante muitos seculos. Cabe esperar que esta

influencia possa alcancar os mesmos efeitos em outras eticas religiosas que, no dia de hoje, nao

renunciaram ainda a perseguir de distintas maneiras o predominio sobre as consciencias.

Observo que o termo tolerancia (que, entretanto, e familiar para outras visoes eticas surja da

Igreja catolica) esta ausente da carta de Martini, e isso pode explicar seu estupor frente ao bom

obrar de uma parte dos laicos, assim como, seu esquecimento do mau obrar de uma parte dos

crentes.

A ideia liberal de tolerancia afirma o principio de uma possivel convivencia com aquilo

que nao se compartilha. E um conceito moral flexivel embora nao por isso brando: expressa a

ideia do reconhecimento da existencia e da legitimidade do diverso, mas tambem o do mal-estar

por sua presenca; um mal-estar que induz a resistir ante ela, mas de modo contido e com certos

limites. Por estar intrinseca sua capacidade de modular os comportamentos dos homens, e

estranha ao mundo sem claros-escuros da obrigacao moral absoluta e carente de mediacoes.

Alem disso, a tolerancia e o resultado de uma eleicao humana deliberada. Nada exclui

que esteja inscrita na natureza, ou em um desenho divino, sempre que deixar aos homens uma

substancial liberdade de eleicao. Mas, por que os homens tem que ser tolerantes? A diferenca da

solidariedade, que expressa um compromisso que pode carecer inclusive de mediacoes, ao qual

se adapta, como diz Martini, o principio do «valor absoluto do outro», a tolerancia, a que e

intrinseca a ideia de «medida», expressa o resultado de um calculo entre os mal-estares atuais

que impoe e o balanco das consequencias futuras positivas e negativas.

O calculo moral (que, pelo resto, nao e absolutamente alheio a etica crista, como

testemunham Sao Tomas de Aquino, Tomas Moro e Blaise Pascal) supoe que os

comportamentos, e com eles a ordem social e civil, dependem da vontade e racionalidade dos

homens. Depois de ter valorado as oportunidades e os vinculos oferecidos pelos contextos

historico-sociais, os homens identificam as normas que oferecem maiores probabilidades de

conseguir os adequados niveis de qualidade de vida (liberdade, bem-estar, justica, equidade de

tratamento...). Esta concepcao de quao moral o homem constroi gradualmente, mediante prova

e engano, e nao como um produto industrial, mas sim, melhor, como uma linguagem, como

forma e ordem imperfeita do ser social, parece capaz de ter em conta as mutacoes que se

produzem na consciencia dos homens pela exposicao a condicoes de vida ineditas e a sistemas

de valores distintos.

Pelo fato de renunciar a uma verdade moral absoluta e imutavel, a etica da tolerancia

pode aproveitar melhor as oportunidades, mas nao por isso, se sonegar riscos e problemas. A

renuncia a exigencia de extrair qualquer movimento da pagina e da moral a partir da tutela de

valores absolutos (e nao negociaveis, portanto) impoe o preco de extrair da interacao entre as

condicoes historico-sociais e a consciencia humana o sistema de valores, a ordem das

prioridades que se devem atribuir sua constante adaptacao e aperfeicoamento. E esta uma

tarefa que se renova continuamente e, continuamente, exige o impulso intelectual e moral de

uma nova ilustracao crista, que esclareca com maior energia as relacoes entre o homem e o

mundo moderno, que hoje sao consideradas por muitos, com razao, bastante embaralhadas e

confusas. Contudo, e evidente que os principios praticos da prudencia, da tolerancia, do calculo

das oportunidades, ou a contencao de conflitos, podem guiar a progressiva, parcial e dolorosa

renuncia a intangibilidade de nossos principios morais — que e necessaria para a nova

convivencia humana em escala planetaria, entre religioes e entre crentes e nao crentes — muito

mais que o que possam fazer, explicitas chamadas a um misterio e uma metafisica

transcendente. Nem o remeter-se com rigidez a tradicoes rigidamente interpretadas, nem a

exaltacao acritica das oportunidades atuais, nem a etica pre-moderna, o ditado moral imutavel

nem a seducao pos-moderna da evolucao espontanea da relacao entre o homem e a natureza

podem liberar «os modernos» desta responsabilidade.

(Fevereiro de 1996)

Recapitulacao

A etica, entretanto, precisa da verdade

Carlo Maria Martini

As intervencoes sobre o interrogante «no qual acreditam os nao crentes?», incisivamente

forjado pela redacao da revista Liberal (com o risco de uma interpretacao algo reducionista do

problema proposto por mim) foram numerosas e importantes. Pessoalmente, alegra-me que a

partir dela se expos uma discussao sobre os alicerces da etica. Fazia-nos falta, a todos.

Agora a revista convida-me a tomar de novo a pluma e, depois de algumas incertezas,

decidi nao dizer que nao. Como e logico, ninguem deve esperar uma «resposta» pontual e

articulada. Far-me-iam falta, muitas mais, das poucas paginas das quais disponho, e talvez

tampouco seja o mais conveniente. Queria, entretanto, recalcar a atencao com a que tenho lido

as contribuicoes individuais de Emanuele Severino, Manlio Sgalambro, Eugenio Scalfari, Indro

Montanelli, Vittorio Foa e Claudio Martelli. Alegra-me ter dado e recebido material e estimulos

para pensar e dialogar. Aqui vou limitar-me a explicar melhor o que estava detras de minhas

palavras.

Como premissa, queria fazer insistencia na sincera intencao dialogica de minha

intervencao. Nao pretendia nem «ensinar», nem «dissertar», nem «polemizar», mas, sobretudo

interrogar, e interrogar para saber, para compreender como um laico sustenta, teoricamente, o

carater absoluto de seus principios morais. Pude captar em algumas respostas (sobretudo nas

aparecidas aqui e la na imprensa, em realidade, mais que nas das seis intervencoes) certa veia

polemica e certo esforco de «apologetica laica». Pude captar tambem, certa facilidade para

simplificar a doutrina e a tradicao crista a proposito da etica, com sintese nas quais nao leio meu

pensamento. Por isso, animo-me a dedicar ao assunto algumas palavras mais.

O que mais agradeco, de fato, aos participantes no debate e seu estimulo para uma

reflexao comum sobre o sentido do dever, sobre a pureza da vida moral, sobre os ideais eticos,

que de certo modo, todos sentimos, ou nos quais queriamos nos inspirar. E tudo isso a partir

da questao que suscitou minha carta a Eco: se a etica nao for mais que um elemento util para

regular a vida social, como se podiam justificar os imperativos eticos absolutos, quando o mais

comodo e prescindir deles? E alem disso, no que se apoia a dignidade humana, se nao no fato

de sua abertura para algo mais elevado e maior que ela?

O primeiro que observo e que, face a ampla e desconcertante variedade de posicoes,

quase todas as respostas identificam na etica um elemento proprio do homem, algo gracas ao

qual o homem e o que e. Os seres humanos nao esperaram ao cristianismo para dotar-se de

uma etica e para expor-se problemas morais, sinal de que a etica estabelece um elemento

essencial da condicao humana, que a tudo afeta. Nela, seja laica, ou transcendente, emerge uma

esfera fundamental do significado da vida, no qual se patenteia o sentido do limite, dos

interrogantes, da esperanca, do bem.

Precisamente este ultimo termo, o «bem», merece uma mais atenta consideracao, entre

outras coisas porque varias intervencoes consideraram a responsabilidade para o rosto de

outros como um «bem», uma eleicao moral justa.

Eu gostaria de convidar a meditacao sobre a dialetica que e intrinseca a isso que se

chama eleicao moral justa, sobre o movimento interior do qual se deriva um ato livre tao

determinado. Isto pode acontecer em qualquer momento da vida: cada ato livre e sempre o

primeiro, original, imprevisivel. O que e que resulta comprometido nesse ato, na decisao, por

exemplo, de nao dizer uma mentira porque e mau, e de dizer uma verdade porque e bom? Isso

comporta a ideia do bem como retidao, como integridade e beleza, nao como um pouco

meramente util. O que esta comprometido e o sentido da vida, a divisao entre o que esta bom e

o que esta mau e a existencia de uma ordem do bem e do mal.

Em tal movimento leio um dirigir-se, que tambem pode ser pre-consciente e ate opor-se

a nosso sistema de conceitos, para o bem subsistente. Cabe observar que assim resulta menos

arduo dar conta da surpreendente e nao estranha discrasia entre teorias morais insuficientes e

comportamento moral positivo, porque a correcao dos comportamentos morais nao se mede

em primeiro lugar por um esquema de conceitos, mas sim pela orientacao da vontade e sua

retidao. Podem decantar-se pelo bem, inclusive quem nao o percebe em teoria ou o negam. Um

ato justo, realizado porque e justo, conduz a uma afirmacao de transcendencia. «Se Deus nao

existir, tudo esta permitido», tinha observado Dostoievski. Palavras vas? E entretanto Sartre

esta de acordo precisamente do seu ponto de vista ateu: «Com Deus desaparece toda

possibilidade de encontrar valores em um ceu inteligivel; ja nao pode existir um bem a priori,

porque nao ha nenhuma consciencia infinita e perfeita para pensa-lo; nao esta escrito em

nenhuma parte que o bem exista, que terei que ser honrado, que nao deverei mentir» (O

existencialismo e um humanismo).

Se se percorrer adequadamente, este itinerario de reflexao deve indicar que a moral nao

regula so as relacoes interpessoais e que abrange uma dimensao transcendente. Embora por

outros caminhos, volto a deparar-me com uma ideia a que ja deu voz Eco, quer dizer, que uma

etica natural pode encontrar-se com a etica surgida da revelacao biblica, assim que na primeira

esta incluido, previamente, um caminho, ou uma referencia a transcendencia, nao so ao rosto

de outros. Na experiencia moral humana destaca uma voz que nos chama, a «voz da

consciencia», que e imanente em cada homem e que estabelece a primeira condicao para que

seja possivel um dialogo moral entre homens de racas, culturas ou conviccoes distintas.

Os recursos da etica sao, portanto, maiores do qual se pensa. E necessario, entretanto,

atrasar-se de maneira atenta e paciente em torno da experiencia moral humana, evitando toda

solucao precipitada. Talvez um modo «impaciente» de pensar a moral aflora em algumas das

intervencoes que me precedem, nas quais a experiencia moral se reduz fundamentalmente a

vida corporal e ao instinto. Contudo, parece impossivel identificar em Antigona uma moral

surgida do instinto de sobrevivencia da especie, quando decide sair livremente ao encontro da

morte para obedecer a leis nao escritas, superiores as da cidade. Outros, em suas intervencoes,

tendem a desfigurar a etica, considerando que a tradicao a coloca do lado da tecnica. Se esta

ultima produz, transforma, manipula, e pode ser pilotada pela vontade de poder, a etica, em

troca, move-se em um horizonte de liberdade e atende a realizacao da pessoa.

Quem pretende fundar a moral no instinto de sobrevivencia da especie, considera-a

relativa e mutavel. E certo que trocam as circunstancias, mas o que nao trocam sao as atitudes

de fundo. Se refletir sobre o conteudo moral essencial e sobre seus valores centrais, nao vejo

que tenham mudado absolutamente com o tempo, que o codigo fundamental da moralidade

humana —contido nos Dez Mandamentos— esteja sujeito a revisao. Nao advirto que o matar,

o roubar, ou o mentir, possam chegar a converter-se em algo recomendavel em si mesmo, ou

dependente de nossos contratos instituidos. Isso e bem distinto da questao de se em

determinadas circunstancias uma certa acao possa englobar-se baixo esta ou aquela categoria.

Sobrecarregam muitas incertezas morais sobre as acoes individuais, dao-se muitas oscilacoes

concretas ao julgar os fatos, mas isso nao quer dizer que resulte concebivel que em um futuro

chegue a decretar-se que o melhor e serem desleais, desonestos ou irresponsaveis.

Ja aludi a extrema variedade das respostas dos seis participantes, circunstancia sobre a

que vale a pena meditar, porque constitui um indice de controvertida, e ate confusa, que resulta

a reflexao teorica a respeito da moral. Isto pode estender-se tambem ao ambito dos crentes,

onde as vezes parece prevalecer uma compreensao quase exclusivamente kantiana, quer dizer

constritiva, da etica, em que o acento recai exclusivamente sobre o dever. Eu mesmo, em minha

precedente intervencao, referi aos principios da etica e aos imperativos universalmente validos.

Mas eu nao gostaria de dar lugar as mas interpretacoes, como se eu quisesse fazer insistencia

unicamente sobre o que e obrigatorio, sobre o que e justo fazer ou nao fazer. E certo que

invoquei, ao comecar meu raciocinio, um aspecto da moral, o de ontologico e obrigatorio, mas

a esfera do etico nao se reduz a isso; seu traco mais fascinante consiste em conduzir ao homem

para uma vida justa e obtida, para a plenitude de uma liberdade responsavel. Os imperativos

eticos, rochosos, duros, se esmagarem a vontade malvada, dirigem para uma espontaneidade

muito mais alta a vontade positiva de fazer o bem.

A uma ultima reflexao empurra a leitura das contribuicoes antes mencionadas.

Persuadido de que a etica nao totaliza a experiencia humana, queria tomar distancia dela por um

instante. O processo do ateismo moderno, ja em parte para nossas costas, foi preparado e

acompanhado (possivelmente em alguns aspectos entre os crentes tambem) pela degradacao da

ideia de Deus. Deus foi apresentado como relojoeiro do universo, enorme ser denotado

unicamente por sua potencia, imenso e onivoro Leviata; como o inimigo do homem ate como

um demiurgo malvado, entre outras coisas. A critica da religiao, entretanto, e proveitosa se

purificar a ideia de Deus de quedas e antropomorfismos, nao se a empobrece e a degrada em

relacao a pureza que se comprova na revelacao biblica lida em sua integridade.

Parece-me, portanto, que inclusive entre os nao crentes deve levar-se a cabo uma dificil

luta para nao reduzir ao Deus, no qual nao se cre, a idolo dotado de atributos improprios.

Perguntamo-nos o que podem ter em comum o Deus biblico que esta junto ao homem, e e um

«Deus para o homem», e o «deus» de quem se diz que e a mesma morte e que nada tem a ver

com o bem (cfr. a intervencao de Sgalambro). Talvez fosse util recordar o Salmo 23: «O Senhor

e meu pastor, nada me falta; por prados de fresca erva me apascenta, para aguas de repouso me

conduz!»

Scalfari da no branco, parcialmente, ao advertir uma evolucao (ou «involucao») de

pensamento tambem na cultura catolica, que tende a privilegiar unicamente a etica. Mas esta

por si mesmo e fragil e deve ser sustentada pelo sentido ultimo e pela verdade de conjunto. A

verdade e o remedio para essa fragilidade do bem com a que nos deparamos, constantemente,

em nossa experiencia diaria. Nao expressaria pois minhas conviccoes de tudo se nao dissesse

que determinada producao de assercoes apodicticos (a ja assinalada separacao entre Deus e

bem, ou a oposicao arbitrariamente estabelecida entre casualidade e casualidade...) permitem

adivinhar uma crise do significado do verdadeiro. Se me interrogar como homem, nao posso

deixar de reconhecer a posicao central e decisiva da experiencia moral em minha vida. E isto

quase ninguem discute, ao contrario, os nao crentes parecem hoje em dia propensos em geral

ao elogio da etica.

Todavia, a etica por si mesmo e suficiente? Constitui o horizonte unico do sentido da

vida e da verdade? Parece empresa descabelada fundar a etica so sobre si mesmo, sem

referencia ou conexao a um horizonte global e, portanto, ao tema da verdade. Mas, qual e a

essencia da verdade? Pilato fez a Jesus esta pergunta, mas nao esperou a sua resposta, porque

tinha pressa e possivelmente tambem porque nao estava realmente interessado no problema. A

questao da etica esta unida ao problema da verdade; talvez se veja aqui um sinal das serias

dificuldades que sobrecarregam sobre o pensamento contemporaneo, precisamente para

afirmar que nada pode ser fundamentado e que tudo pode ser criticado.

Em que creem os que nao creem? Ao menos e preciso acreditar na vida, em uma

promessa de vida para os jovens, a quem nao e estranho ver enganados por uma cultura que

lhes convida, sob o pretexto da liberdade, a toda experiencia, com o risco de que tudo conclua

em derrota, desespero, morte, dor. E digno de reflexao que em muitas intervencoes resultem

ausentes as interrogacoes sobre o enigma do mal, e isso tao mais quanto pode considerar-se que

vivemos em uma epoca que conheceu as mais terriveis manifestacoes da maldade. Certo clima

de facil otimismo, segundo o qual as coisas se vao arrumando por si mesmos, nao so mascara o

dramatismo da presenca do mal, mas apaga tambem, o sentido da vida moral como luta,

combate, tensao agonica; que a paz se consegue ao preco da laceracao sofrida e superada.

Por isso, pergunto-me se estas inadequadas ideias sobre o mal nao estao unidas a umas

insuficientes ideias sobre o bem; se o pensamento ilustrado nao se equivoca ao nao captar, ou

ao infravalorizar o elemento dramatico inerente a vida etica.

(Marco de 1996)

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