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domingo, 14 de agosto de 2011

Carta de Santo Inácio de Antioquia aos Magnésios (107 d.C)

Sobre a Obra Por Alessandro Ricardo Lima

Esta carta foi escrita em Esmirna onde Policarpo era bispo, aproximadamente em 107 d.C.. Damas, então bispo de Magnésia, vai até Esmirna saudar Inácio a, além dos presbíteros Basso e Apolônio e o diácono Zotion. Inácio aproveita a oportunidade para enviar uma carta à comunidade da Magnésia.

Podemos perceber nesta carta que a Igreja já se encontrava organizada em três níveis hieráquicos distintos: bispo, presbíteros e diáconos.

É o mais antigo testemunho da era pós-apotólica da fé na Santíssima Trindade (Magnésios - Saudação). Inácio confessa a sempre existência da pessoa divina de Cristo (Magnésios 6:1) e sua Divindade, apontando-o como inspirador dos Profetas (Magnésios 8:2). Inácio dá testemunho da fé primitiva em um único Deus (Magnésios 8:2), mas composto por três pessoas divinas (Magnésios 13).

O tema central da carta é a Unidade. Inácio exorta toda a comunidade à submissão ao diáconos, e estes aos presbíteros e estes ao bispo. A hierarquia deve ser respeitada como sinal de união com Deus. A carta revela a importância que o cristianismo primitivo dava ao bispo, que era fundamental na edificação e condução da Igreja, pois representava o próprio Deus (Magnésios 6:1)

Nesta carta observamos que os primeiros cristãos guardavam o domingo como dia santo (Dia do Senhor) em vez do sábado (Magnésios 9:1). E, ainda que observavam como regra de fé o Magistério da Igreja em vez da Lei de Moisés (Magnésios 8;9;10).

Carta de Santo Inácio de Antioquia aos Magnésios - Caps I a VII

Por Santo Inácio de Antioquia

Tradução: Ivo Storniolo, Euclides M. Balancin

Fonte: Padres Apostólicos, Volume I, Coleção Patrística. Ed. Paulus

Saudação

Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja que está em Magnésiaa, junto ao Meandro, abençoada na graça de Deus em Jesus Cristo nosso Salvador. Minha saudação e meus votos de grande alegria em Deus Pai e em Jesus Cristo.

Amor na unidade

1. 1Tendo conhecido a ordem perfeita do vosso amor segundo Deus, alegrei-me e pensei em falar-vos na fé em Jesus Cristo. 2Honrado com o nome de esplendor divino, nessas cadeias que ora carrego, eu canto para as Igrejas e desejo-lhes a união na carne e no espírito de Jesus Cristo, nossa eterna vida; união na fé e no amor, ao qual nada é preferível, e, o que é mais importante, união com Jesus Cristo e o Pai. Se nele perseverarmos e evitarmos todas as ameaças dos príncipes deste mundo, chegaremos até Deus.

2. 1Tive a honra de vos ver na pessoa de Damas, vosso bispo digno de Deus, e na pessoa de vossos presbíteros Basso e Apolônio, como também do diácono Zotion, meu companheiro de serviço, de cuja presença espero sempre usufruir. Ele é submisso ao bispo como à graça de Deus, e aos presbíteros como à lei de Jesus Cristo.

Respeito pelo Bispo

3. 1Convém que não abuseis da idade do vosso bispo b, mas, pelo poder de Deus Pai, lhe tributeis toda reverência. De fato, eu soube que vossos santos presbíteros não abusaram de sua evidente condição juvenil, mas, como gente sensata em Deus, se submetem a ele, não a ele, mas ao Pai do bispo de todos, Jesus Cristo. 2Portanto, para honra daquele que nos amou, é preciso obedecer sem nenhuma hipocrisia, porque não é ao bispo visível que se engana, mas é ao invisível que se mente. Não se fala da carne, mas do Deus que conhece as coisas escondidas.

4. 1É preciso não só levar o nome de cristão, mas ser de fato. Alguns falam sempre do bispo, mas depois agem de modo independente. Estes não me parecem ter boa consciência, pois não se reúnem para o culto de modo válido, conforme o mandamentoc.

5. 1As coisas têm fim, e duas coisas estão diante de nós: a morte e a vida, e cada um irá para o seu próprio lugar. 2É como se se tratasse de duas moedas, a de Deus e a do mundo, cada uma delas cunhada com a sua marca; os infiéis trazem a marca deste mundo, os fiéis trazem no amor a marca de Deus Pai, gravada por Jesus Cristo. Se não estamos dispostos a morrer por ele, para participar de sua paixão, a vida dele não está em nós.

6. 1Nas pessoas acima designadas eu vi e amei na fé toda a vossa comunidade. Por isto vos peço que estejais dispostos a fazer todas as coisas na concórdia de Deus, sob a presidência do bispo, que ocupa o lugar de Deus, dos presbíteros, que representam o colégio dos apóstolos, e dos diáconos, que são muito caros para mim, aos quais foi confiado o serviço de Jesus Cristo, que antes dos séculos estava junto do Pai e por fim se manifestou. 2Tendo todos essa unidade de sentimentos que vem de Deus, respeitai-vos mutuamente. Que ninguém olhe o seu próximo segundo a carne, mas amai-vos uns aos outros em Jesus Cristo. Que não haja entre vós que vos possa dividir, mas uni-vos ao bispo e aos chefes como sinal e ensinamento de incorruptibilidade.

7. 1Assim como o Senhor nada fez, nem por si mesmo nem por meio de seus apóstolos, sem o Pai, com o qual ele é um, também vós não façais nada sem o bispo e os presbíteros. Não tenteis fazer passar por louvável coisa alguma que fizerdes sozinhos. Pelo contrário, reunidos em comum, haja uma só oração, uma só súplica, um só espírito, uma só esperança no amor, na alegria imaculada, que é Jesus Cristo: nada é melhor do que ele. 2Correi todos juntos como ao único templo de Deus, ao redor do único altar, em torno do único Jesus Cristo, que saiu do único Pai e que era único em si e para ele voltou.

aAntiga cidade da Cária, região costeira do sudoeste de Éfeso, junto ao rio Meandro. Colônia fenícia, foi helenizada pelos dorianos. Mais tarde, fez parte do território do rei de Pérgamo e anexada, em 133, por Roma. Aliada a Roma, na guerra contra Mitridates, tornou-se cidade livre pelos esforços de Silas.

bInácio adverte aos cristãos magnesianos que, apesar da pouca idade, o bispo merece todo respeito, pois é preciso fazer tudo "em comum", na unidade, e para ele o bispo é o fator essencial da unidade.

cForte evidência de que aquele que não está em comunhão com a hierarquia não está em comunhão com a Igreja e com Jesus.

Carta de Santo Inácio de Antioquia aos Magnésios - Caps VIII a XV

Por Santo Inácio de Antioquia

Tradução: Ivo Storniolo, Euclides M. Balancin

Fonte: Padres Apostólicos, Volume I, Coleção Patrística. Ed. Paulus

Cuidado com os judaizantes

8. 1Não vos deixeis enganar por doutrinas heterodoxas nem por velhas fábulas que são inúteis. Com efeito, se ainda vivemos segundo a lei, admitimos que não recebemos a graça. 2De fato, os diviníssimos profetas viveram segundo Jesus Cristo. Por essa razão foram perseguidos, pois eram inspirados pela graça dele, a fim de que os incrédulos ficassem plenamente convencidos de que existe um só Deus, que se manifestou por meio de Jesus Cristo seu Filho, que é o seu Verbo saído do silêncio; e que em todas as coisas se tornou agradável àquele que o tinha enviado.

9. 1Aqueles que viviam na antiga ordem de coisas chegaram à nova esperança, e não observam mais o sábado, mas o dia do Senhor, em que a nossa vida se levantou por meio dele e da sua morte. Alguns negam isso, mas é por meio desse mistério que recebemos a fé e no qual perseveramos para ser discípulos de Jesus Cristo, nosso único Mestre. 2Como podemos viver sem aquele que até os profetas, seus discípulos no espírito, esperavam como Mestre? Foi precisamente aquele que justamente esperavam, que ao chegar, os ressucitou dos mortos.

10. 1Portanto, não sejamos insensíveis à sua bondade. Se ele nos imitasse na maneira como agimos, já não existiríamos. Contudo, tornando-nos seus discípulos, abraçamos a vida segundo o cristianimso. Quem é chamado com o nome diferente desse, não é de Deus. 2Jogai fora o mau fermento, velho e ácido, e transformai-vos no fermento novo, que é Jesus Cristo. Deixai-vos salgar por ele, a fim de que nenhum de vós se corrompa, pois é pelo odor que sereis julgados.

3É absurdo falar de Jesus Cristo e, ao mesmo tempo judaizar. Não foi o cristianismo que acreditou no judaísmo, e sim o judaísmo no cristianismo, pois nele se reuniu toda língua que acredita em Deus.

11. 1Meus caríssimos, não vos escrevo isso por ter sabido que alguns dentre vós se comportam desse modo. Ao contrário, embora inferior a vós, quero deixar-vos de sobreaviso, para que não sejais fisgados pelo anzol da vaidade, mas estejais convencidos do nascimento, da paixão e da ressurreição que aconteceram sob o governo de Pôncio Pilatos. Essas coisas foram realizadas verdadeira e seguramente por Jesus Cristo, vossa esperança, da qual nenhum de vós possa jamais se afastar.

Viver na fé e na unidade

12. 1Possa eu alegrar-me convosco em todas as coisas, caso eu seja digno. Embora acorrentado, não me posso comparar com um só de vós que estais livres. Sei que não vos inflais de orgulho, pois tende Jesus Cristo em vós. Por outro lado, quando vos elogio, sei que vos enrubesceis de vergonha, como está escrito: "O justo é acusador de si mesmo."

13. 1Procurai manter-vos firmes nos ensinamentos do Senhor e dos apóstolos, para que prospere tudo o que fizerdes na carne e no espírito, na fé e no amor, no Filho e no Pai e no Espírito, no princípio e no fim, unidos ao vosso digníssimo bispo e à preciosa coroa espiritual formada pelos vossos presbíteros e diáconos segundo Deus. 2Sejam submissos ao bispo e também uns aos outros, assim como Jesus Cristo se submeteu, na carne, ao Pai, e os apóstolos se submeteram a Cristo, ao Pai e ao Espírito, a fim de que haja união, tanto física como espiritual.

Saudação Final

14. 1Sei que estais repletos de Deus e, por isso, vos exortei brevemente. Lembrai-vos de mim em vossas orações, a fim de que eu possa alcançar a Deus, e lembrai-vos da Igreja que está na Síria, da qual eu não sou digno de portar o nome. Tenho necessidade da vossa oração unida em Deus e do vosso amor, a fim de que, pela vossa Igreja, a Igreja da Síria mereça receber o orvalho celeste.

15. 1Saúdam-vos os efésios de Esmirna, de onde vos escrevo. Eles vieram aqui para a glória de Deus, como também vós. E em tudo me reconfortaram, juntamente com Policarpo, bispo dos esmirniotas. As outras Igrejas também vos saúdam em honra de Jesus Cristo. Estejam bem, na harmonia com Deus, possuindo o espírito inseparável, que é Jesus Cristo.

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