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domingo, 14 de agosto de 2011

C. S. Lewis - Cristianismo puro e simples

C. S. Lewis

CRISTIANISMO PURO E SIMPLES

Livro I

O CERTO E O ERRADO COMO CHAVES PARA A COMPREENSÃO DO SENTIDO DO UNIVERSO

Tradução: Álvaro Oppermann e Marcelo Brandão Cipolla

Revisão de tradução: Luiz Gonzaga de Carvalho Neto e Marcelo Brandão Cipolla

Revisão técnica: Omar de Souza

Martins Fontes

São Paulo 2005

Índice

Prefácio

Introdução

Livro I - O certo e o errado como chaves para a compreensão do sentido do universo

1. A lei da natureza humana..........................................

2. Algumas objeções..........................................................

3. A realidade da lei............................................................

4. O que existe por trás da lei........................................

5. Temos motivos para nos sentir inquietos.......

Prefácio

O conteúdo deste livro foi originalmente divulga­do na forma de programas de rádio antes de ser publi­cado em três volumes separados[1]: Broadcast Talks (1942), Christian Behaviour (1943) e Beyond Personality (1944). Nas versões impressas, fiz pequenos acréscimos àquilo que falei ao microfone; mas, em linhas gerais, mantive o texto tal como fora ao ar. Na minha opinião, uma "con­versa" pelo rádio deve manter-se o mais próxima possí­vel da linguagem oral e não deve soar como um ensaio acadêmico lido em voz alta. Em meus programas, por­tanto, empreguei todas as contrações e coloquialismos usados nas conversas cotidianas. Nas edições impressas, reproduzi este modo de falar, usando don't e we've em vez de do not e we have[2]. E toda vez que, nos colóquios radiofônicos, eu sublinhara a importância de uma pa­lavra com o tom de voz, publiquei-a em itálico. Hoje, tendo a pensar que isso foi um erro — um híbrido in­desejável entre a arte da fala e a da escrita. Um pales­trante deve usar a variação da voz como instrumento de ênfase, pois esse método é próprio ao meio de co­municação empregado. Já um escritor não deve utilizar os itálicos para esse fim. Ele dispõe de meios próprios e diversos de frisar as palavras-chave, e deve usá-los. Na presente edição, desfiz as contrações e substituí a maior parte dos itálicos, reformulando as frases em que apare­ciam: espero que, mesmo assim, a obra não tenha per­dido o tom "popular" ou "familiar" que desde o início pretendi dar-lhe. Também fiz cortes e acréscimos em partes da obra cujo tema julguei compreender melhor hoje do que há dez anos, ou onde sabia que a versão original não fora compreendida pelo público.

O leitor deve saber desde já que não oferecerei aju­da a ninguém que esteja hesitante entre duas denomi­nações cristãs. Não sou eu que vou lhe dizer se você deve seguir a Igreja Anglicana, a Católica Romana, a Meto­dista ou a Presbiteriana. Essa omissão é intencional (mes­mo na lista que acabei de elaborar, a ordem é alfabética).

Não faço mistério a respeito da minha posição pessoal. Sou um simples leigo da Igreja Anglicana e não tenho preferência especial nem pela Alta Igreja, nem pela Baixa, nem por coisa alguma. Neste livro, porém, não busco converter ninguém à minha posição. Desde que me tor­nei cristão, penso que o melhor serviço, talvez o único, que posso prestar a meus semelhantes incrédulos seja explicar e defender a fé comum a praticamente todos as cristãos em todos os tempos. Tenho várias razões para pensar assim. Em primeiro lugar, as questões que divi­dem os cristãos entre si quase sempre envolvem pontos da alta teologia ou mesmo de história eclesiástica, que de­vem ser tratados apenas pelos verdadeiros conhecedores da matéria. Vadeando nessas águas profundas, eu não po­deria ajudar a ninguém; antes, teria de ser ajudado. Em segundo lugar, penso que se deve admitir que a discussão dos pontos disputados não contribui em nada para tra­zer para o âmbito cristão uma pessoa de fora. Enquan­to nos ocuparmos em escrever e discutir sobre estes te­mas, estaremos fazendo mais para impedir essa pessoa de ingressar em qualquer comunidade cristã do que para trazê-la para a comunidade à qual pertencemos. Nossas divisões só devem ser discutidas na presença dos que já chegaram a acreditar que existe um único Deus e que Jesus Cristo é seu único Filho. Por fim, tenho a impres­são de que mais e melhores autores se engajaram no debate desses temas controversos do que na defesa daquilo que Baxter chamou "cristianismo puro e simples". A par­te que me coube é a mais modesta, mas é também aquela em que penso poder dar a melhor contribuição. A deci­são de segui-la foi natural.

Pelo que sei, foram esses os meus únicos motivos, e ficarei grato se as pessoas se abstiverem de fazer espe­culações fantasiosas sobre o meu silêncio a respeito de certos temas em que há desavença.

Esse silêncio não significa, por exemplo, que eu es­teja "em cima do muro". As vezes estou: há, entre os cris­tãos, certas questões pendentes cujas respostas, segundo penso, ainda não nos foram fornecidas. A respeito de ou­tras, talvez eu nunca obtenha as respostas; se as buscasse, mesmo que num mundo melhor, ser-me-ia dito o que foi respondido a um inquiridor bastante superior a mim: "O que lhe importa? Quanto a você, siga-me!"[3] Há uma terceira ordem de questões, no entanto, sobre as quais tenho uma posição firme, mas mesmo assim não me pronunciarei sobre elas, pois não escrevo para expor o que eu poderia chamar "minha religião", mas para ex­plicitar o cristianismo "puro e simples", que é o que é e sempre foi, desde muito antes de eu nascer, quer eu goste disso, quer não.

Certas pessoas tiram conclusões precipitadas do fato de eu manter silêncio a respeito da Virgem Maria, a não ser para afirmar o nascimento virginal de Jesus Cristo. Mas não é óbvio o meu motivo para proceder dessa ma­neira? Se falasse mais, penetraria em regiões altamente controvertidas; e não existe, entre os cristãos, uma con­trovérsia maior ou que deva ser tratada com maior tato. As crenças dos católicos sobre esse assunto não são de­fendidas apenas com o fervor normal que se espera en­contrar em toda a religiosidade sincera, mas (muito naturalmente) com o ardor incomum e, por assim dizer, cavalheiresco, com que um homem defende a honra de sua mãe ou de sua amada. E muito difícil discordar do católico sem, ao mesmo tempo, não parecer a seus olhos um malcriado ou mesmo um herege. Já a crença do pro­testante a respeito deste assunto desperta sentimentos inerentes às raízes de todo o monoteísmo. Para o pro­testante radical, a distinção entre o Criador e a criatura (por mais santa que seja) parece ameaçada: o politeísmo renasce. Logo, é difícil discordar do protestante sem parecer a seus olhos algo pior do que um herege — um pagão. Se existe um tema que tem o poder de causar danos a um livro sobre o "cristianismo puro e simples" - se existe um tema que pode tornar absolutamente im­produtiva sua leitura para quem ainda não acredita que o filho da Virgem é Deus -, é este.

Curiosamente, você não poderá concluir, a partir do meu silêncio deliberado sobre os temas que suscitam polêmica, se eu os considero importantes ou pouco im­portantes, pois a questão da importância é em si mes­ma um dos pontos polêmicos. Uma das coisas sobre as quais os cristãos discordam é a importância de suas discordâncias. Quando dois cristãos de igrejas diferentes iniciam uma discussão, não demora muito para que um deles pergunte se o ponto em questão "é realmen­te importante", ao que o outro retruca: "Importante? Como não? E absolutamente essencial!"

Digo tudo isso só para tornar claro que tipo de li­vro tentei escrever; não, de forma alguma, para ocultar ou tentar fugir à responsabilidade por minhas crenças pessoais. Sobre elas, como já disse antes, não há segredo. Para citar o Tio Toby[4]: "Estão todas no Livro de Ora­ção Comum."[5]

O maior perigo, sem dúvida, era o de apresentar como do cristianismo comum algo específico da Igreja Anglicana, ou (pior ainda) de mim mesmo. Preveni-me contra este perigo enviando os originais do atual Livro II a quatro clérigos (um anglicano, um católico, um me­todista e outro presbiteriano), pedindo suas opiniões.

O clérigo metodista achou que não falei o suficiente so­bre a Fé, e o católico achou que fui longe demais ao ta­xar de relativamente pouco importantes as teorias que explicam a Expiação. Fora isso, nós cinco estivemos de acordo. Não submeti os livros restantes a "Veto" porque, neles, apesar de as diferenças entre os cristãos poderem aparecer, são somente desavenças entre indivíduos ou escolas, não entre denominações.

A partir das resenhas e das numerosas cartas que recebi, chego à conclusão de que o livro, mesmo que im­perfeito em outros aspectos, conseguiu ao menos apre­sentar um cristianismo consensual, comum, central, ou "simples". Nesse sentido, o livro pode colaborar para refutar a tese segundo a qual, uma vez omitidos os pon­tos em disputa, restaria do cristianismo apenas um va­go e minguado Máximo Divisor Comum. O MDC é, no fim, algo positivo, pleno e tocante, que se distingue das crenças não-cristãs por um abismo ao qual as piores di­vergências internas da Cristandade não são de modo algum comparáveis. Se não pude promover diretamente a causa da reunificação, talvez ao menos tenha tornado claro por que devemos nos reunir. Sem dúvida encon­trei algo do afamado odium theologicum da parte de mem­bros convictos de comunhões cristãs diferentes da mi­nha. A hostilidade, no entanto, veio principalmente de pessoas pouco qualificadas, seja de dentro da Igreja Anglicana, seja de fora: homens que, na verdade, não perten­cem propriamente a nenhuma comunhão. Isto é curio­samente consolador. E no centro da religião, onde ha­bitam seus mais verdadeiros filhos, que cada comunhão cristã se aproxima das outras em espírito, mesmo que não em doutrina. Isto sugere que nesse centro existe algo, ou Alguém, que, apesar de todas as divergências de fé, de todas as diferenças de temperamento, de toda uma história de perseguições mútuas, fala com uma só voz. Isso é tudo o que tenho a dizer sobre as omissões doutrinais. No Livro II, que trata da moral, também deixei que alguns assuntos passassem em branco, mas por outros motivos. Desde que servi na infantaria, durante a Primeira Guerra Mundial, me desagradam as pessoas que, cercadas de segurança e conforto, fazem exortações aos homens na frente de batalha. Do mesmo modo, re­luto em falar a respeito de tentações às quais não estou exposto. Nenhum homem, segundo penso, é tentado a cometer todos os pecados. A compulsão pelo jogo, por exemplo, foi deixada de fora da minha constituição; e, sem dúvida, o preço que pago por isso é faltar-me al­gum bom impulso do qual essa compulsão é o excesso ou a perversão. Logo, não me sinto qualificado para fa­lar sobre o permitido e o proibido nessa questão: não me atrevo nem mesmo a dizer se nela existe o permitido. Também não me pronunciei a respeito do controle de natalidade, pois não sou mulher, não sou nem mesmo um homem casado, nem sou sacerdote. Não caberia a mim emitir opiniões sobre as dores, os perigos e o pre­ço daquilo de que estou protegido. Não exerço nenhu­ma atividade pastoral que me obrigue a isso.

Objeções bem mais profundas poderão fazer-se sen­tir - e foram expressas — a respeito do uso que faço da palavra cristão, significando aquele que aceita as dou­trinas comuns ao cristianismo. As pessoas me pergun­tam: "Quem é você para definir quem é e quem não é cristão?" Ou então: "Não é possível que um homem que não consiga crer nessas doutrinas seja muito mais verdadeiramente cristão, esteja muito mais próximo do espírito de Cristo, do que alguns que crêem nelas?" Essa objeção é, de certo modo, muito acertada, muito gene­rosa, espiritual e sensível. Ela pode ter todas as qualida­des imagináveis, menos a de ser útil. Simplesmente não podemos, sem causar um desastre, usar a linguagem como esses contestadores querem que a usemos. Tenta­rei esclarecer o assunto a partir da história do uso de ou­tra palavra, muito menos importante.

Originalmente, a palavra gentleman tinha um sig­nificado evidente: o gentil-homem exibia um brasão e era senhor de terras. Quando dizíamos que alguém era um gentleman, não lhe estávamos fazendo um elogio, mas simplesmente reconhecendo um fato. Se disséssemos de

um outro que não era um gentleman, não o estaríamos insultando, mas dando uma informação a seu respeito. Não havia contradição alguma em chamar John de men­tiroso e de gentleman, assim como não há em dizer que James é um tolo e um bacharel. Então, certas pessoas começaram a afirmar — com tanta propriedade, genero­sidade, espiritualidade, sensibilidade; com tudo, enfim, menos com praticidade: "Ah, mas o que faz um gentle­man não são as terras nem o brasão; é o saber compor­tar-se. Será que o verdadeiro gentleman não é aquele que se porta como tal? Logo, será que Edward não é mais gentleman que John?" A intenção dessas pessoas era boa. Ser honrado, cortês e corajoso é, sem dúvida, coisa me­lhor do que ter um brasão familiar. Porém, não é a mes­ma coisa. Pior, é uma coisa sobre cuja definição as pessoas jamais chegarão a um acordo. Chamar um homem de gentleman segundo esse sentido novo e mais refinado não é, na verdade, uma forma de dar informações a seu respeito, mas sim um modo de elogiá-lo: negar-se a cha­má-lo de gentleman é simplesmente uma forma de in­sultá-lo. Quando uma palavra deixa de ter valor descri­tivo e passa a ser um mero elogio, ela não nos esclarece sobre o objeto, só denota o conceito que o falante tem dele. (Uma "boa" refeição é simplesmente uma refeição que agradou a quem fala.) Um gentleman, agora que o velho sentido prosaico e objetivo da palavra deu lugar ao sentido "espiritualizado" e "refinado", quase sempre significa apenas uma pessoa do nosso agrado. O resulta­do é que hoje gentleman é uma palavra inútil. Já tínhamos no vocabulário palavras suficientes que expressam apro­vação; não precisávamos de mais uma. Por outro lado, se alguém quiser utilizar a palavra em seu velho sentido (numa obra histórica, por exemplo), não poderá fazê-lo sem dar explicações. Ela já não serve para esse fim.

Ora, se permitirmos que as pessoas comecem a es­piritualizar e refinar, ou, como elas diriam, "aprofundar" o sentido da palavra cristão, ela também vai rapidamente se tornar inútil. Em primeiro lugar, os próprios cristãos não poderão mais aplicá-la a ninguém. Não cabe a nós dizer quem, no sentido mais profundo, está próximo do espírito de Cristo, pois não temos o dom de sondar os corações humanos. Não nos cabe julgar. Aliás, nos é proibido julgar. Para nós, seria uma maldosa arrogância dizer que um homem é ou não é cristão nes­se sentido refinado. E, obviamente, uma palavra que não podemos aplicar não é de grande utilidade. Já os des­crentes ficarão exultantes, sem dúvida, de a utilizar neste sentido refinado. Em suas bocas, ela se tornará simples­mente um elogio. Quando chamarem alguém de cristão, estarão somente dizendo que o julgam uma boa pes­soa. Este uso da palavra, porém, não enriquecerá a lín­gua, pois já dispomos do adjetivo bom. Entrementes, a palavra cristão terá sido destituída da verdadeira utili­dade que poderia ter.

Devemos, portanto, ater-nos ao sentido original, e óbvio, da palavra. O nome cristão foi empregado pela primeira vez em Antioquia (At 11:26) para designar "os discípulos", os que acataram os ensinamentos dos após­tolos. Não há, pois, por que restringir a palavra somen­te àqueles que tiraram o máximo proveito da instrução apostólica, nem estendê-la aos que, seguindo o sentido refinado, espiritual e interiorizado, estão "muito mais próximos do espírito de Cristo" do que o menos satis­fatório dos discípulos. A questão não é teológica nem moral, mas somente de usar as palavras de forma que todos possamos entender o que elas significam. Quan­do um sujeito segue uma vida indigna da doutrina cris­tã que professa, é muito mais claro dizer que se trata de um mau cristão do que chamá-lo de não-cristão.

Espero que nenhum leitor tome o cristianismo "puro e simples" aqui exposto como uma alternativa à profissão de fé das diversas comunhões cristãs existentes — como se um homem pudesse adotá-lo em vez do Congregacionalismo, da Igreja Ortodoxa Grega ou de qualquer outra igreja. O cristianismo "puro e simples" é como um saguão de entrada que se comunica com as diversas peças da casa. Se eu conseguir trazer alguém até esse saguão, te­rei cumprido o objetivo a que me propus. Porém, é nos cômodos da casa, e não no saguão, que estão a lareira e as cadeiras e são servidas as refeições. O saguão é uma sala de espera, um lugar a partir do qual se podem abrir as várias portas, e não um lugar de moradia. Para morar, segundo creio, o pior dos cômodos (seja lá qual for) será preferível. E verdade que certas pessoas vão desco­brir que terão de esperar no saguão por um tempo con­siderável, enquanto outras saberão com certeza e ime­diatamente em qual das portas deverão bater. Eu não co­nheço o porquê dessa diferença, mas tenho a convicção de que Deus não deixa ninguém à espera a não ser que a julgue benéfica. Quando você chegar ao seu cômodo, descobrirá que a longa espera lhe fez um bem que não seria alcançável por outros meios. Porém, sua estada no saguão deve ser encarada como uma espera, e não como um acampamento. Você deve perseverar na oração, im­plorando pela luz; e, claro, mesmo que ainda no saguão, deve começar a tentar obedecer às regras comuns a casa inteira. Acima de tudo, deve se perguntar continua­mente qual das portas é a verdadeira; não qual delas tem a pintura mais bonita ou possui os melhores orna­mentos. Em linguagem clara, a pergunta a ser feita não deve ser: "Será que eu gosto desses rituais?", mas sim: "Serão essas doutrinas verdadeiras? O sagrado mora aqui? Será que minha relutância em bater nesta porta não se deve ao orgulho, ou a um gosto pessoal, ou ao capricho de não simpatizar com o seu guardião?"

Quando você chegar ao seu cômodo, seja bondo­so com as pessoas que escolheram outras portas, bem como com as que ainda estão no saguão. Se elas estão no erro, precisam ainda mais de suas preces; e, se forem suas inimigas, você, como cristão, tem o dever de orar por elas. Esta é uma das regras comuns à casa inteira.

Introdução

Este livro deve ser interpretado à luz de seu contex­to histórico. Num ato de coragem, seu autor quis con­tar histórias que curassem os corações num mundo que perdera a sanidade. Em 1942, apenas vinte e quatro anos depois do fim de uma guerra brutal que dizimara uma geração inteira de jovens, a Grã-Bretanha via-se de novo envolvida numa guerra. Dessa vez, quem sofria mais eram os seus cidadãos comuns, na medida em que a peque­na nação insular era bombardeada todas as noites por quatrocentos aviões, na blitz[6] de triste lembrança que mudou a face da guerra, transformando civis em alvos e suas cidades em fronts de batalha.

Ainda rapaz, C. S. Lewis serviu nas pavorosas trin­cheiras da Primeira Guerra Mundial e, em 1940, quando as bombas começaram a cair sobre a Inglaterra, se alistou como oficial da vigilância antiaérea e passou a dar pa­lestras para os soldados da Royal Air Force, homens que sabiam, com quase toda a certeza, que seriam dados co­mo mortos ou desaparecidos depois de apenas treze mis­sões de bombardeio. A situação deles incitou Lewis a fa­lar sobre os problemas do sofrimento, da dor e do mal. Estes trabalhos resultaram no convite da BBC para que ele fizesse uma série de programas de rádio sobre a fé cristã. Ministradas de 1942 a 1944, estas conferências ra­diofônicas foram mais tarde reunidas no livro que co­nhecemos hoje como Cristianismo puro e simples.

Este livro, portanto, não é feito de especulações filo­sóficas acadêmicas. E, isto sim, um trabalho de litera­tura oral dirigido a um povo em guerra. Quão insólito devia ser ligar o rádio — que a toda hora dava notícias de mortes e de uma destruição indescritível — e ouvir um homem falar, de forma inteligente, bem-humorada e profunda, sobre o comportamento digno e humano, sobre a conduta leal e sobre a importância da distinção entre o certo e o errado. Chamado pela BBC para expli­car aos seus conterrâneos no que os cristãos acreditavam, C. S. Lewis lançou-se à tarefa como se ela fosse a coisa mais fácil do mundo, mas também a mais importante.

Mal podemos imaginar o efeito que as metáforas utilizadas no livro tiveram sobre os ouvintes na época. A imagem do mundo como um território ocupado pelo inimigo, invadido por forças malignas que destroem tudo o que é bom, ainda hoje desperta fortes associações. Nossos conceitos de modernidade e de progresso, bem como todos os avanços tecnológicos, não bastaram para dar fim às guerras. O fato de termos declarado ob­soleta a noção de pecado não diminuiu o sofrimento humano. E as respostas fáceis - colocar a culpa na tec­nologia ou, por que não, nas religiões do mundo - não resolveram o problema. O problema, C. S. Lewis insis­tia, somos nós. A geração ímpia e perversa da qual fa­lavam milhares de anos atrás os salmistas e os profetas é também a nossa, sempre que nos submetemos a ma­les sistêmicos e individuais como se não tivéssemos ou­tra alternativa.

C. S. Lewis, que certa vez foi descrito por um ami­go como um homem apaixonado pela imaginação, acreditava que a aceitação complacente do status quo era muito mais do que uma fraqueza inócua. Em Cris­tianismo puro e simples, não menos do que em suas obras de fantasia, como as Crônicas de Nárnia ou os ro­mances de ficção científica, Lewis deixa escapar sua

crença profunda no poder que a imaginação humana tem de revelar a verdade oculta a respeito de nossa con­dição e de nos trazer esperança. "O caminho mais lon­go é o mais curto para chegar em casa"[7]tal é a lógica tanto das fábulas quanto da fé.

Falando unicamente com a autoridade da expe­riência de leigo e ex-ateu, C. S. Lewis disse aos ouvintes na rádio que o motivo pelo qual fora selecionado para a missão de explicar o cristianismo para a nova geração era o de não ser ele um especialista no assunto, mas antes "um amador... e um iniciante, não uma mão calejada"[8]. Confidenciou a amigos que aceitara a tarefa porque acreditava que a Inglaterra, que passara a se considerar como parte de um mundo "pós-cristão", nunca tinha aprendido de fato, em termos simples, em que consistia a religião. Assim como Soren Kierkegaard antes dele, e de Dietrich Bonhoeffer, seu contemporâneo, Lewis bus­cou, em Cristianismo puro e simples, nos ajudar a ver a religião com novos olhos, como uma fé radical cujos par­tidários devem ser comparados a um grupo clandesti­no agrupado numa zona de guerra, num lugar onde o mal parece predominar, para ouvir mensagens de espe­rança vindas do lado livre.

O cristianismo "puro e simples" de C. S. Lewis não é uma filosofia nem mesmo uma teologia que deve ser lida, discutida e guardada na estante. E um modo de vida que nos desafia sempre a lembrar, como Lewis disse cer­ta vez, que "não existem pessoas comuns", e que "aque­les de quem fazemos troça, com quem trabalhamos ou nos casamos, os que menosprezamos ou exploramos, são todos imortais"[9]. Quando entramos em sintonia com essa realidade, crê Lewis, nos abrimos para transformar imaginativamente nossas vidas de tal forma que o mal declina e o bem triunfa. É isto que Cristo quis de nós quando tomou para si nossa humanidade, santificou nossa carne e nos pediu em troca que revelássemos Deus uns aos outros.

Se o mundo faz essa tarefa parecer impossível, Lewis insiste em que ela não é. Mesmo alguém que ele vê co­mo "envenenado por uma criação miserável numa casa cheia de ciúmes vulgares e brigas gratuitas"[10] pode estar seguro de que Deus está bem ciente "da máquina gros­seira que tenta dirigir", e pede-lhe somente para "ir em frente e fazer o possível". O cristianismo que Lewis co­munga é humano, mas não é fácil: ele nos chama a reco­nhecer que a maior batalha religiosa não se trava num

campo espetacular, mas dentro do coração humano co­mum, quando, a cada manhã, acordamos e sentimos a pressão do dia a nos afligir e temos de decidir que tipo de imortais queremos ser. Talvez nos sirva de consolo, como serviu ao sofrido povo britânico quando ouviu pela primeira vez estes colóquios, recordar que Deus pre­ga uma peça nos que buscam o poder a qualquer preço. Lewis nos lembra, com seu humor e sua verve costumei­ra: "Quão monótona é a semelhança que une todos os grandes tiranos e conquistadores; quão gloriosa é a di­ferença dos santos!"[11]

KATHLEEN NORRIS

CRISTIANISMO PURO E SIMPLES

Livro I

O CERTO E O ERRADO COMO CHAVES PARA A COMPREENSÃO DO SENTIDO DO UNIVERSO

A LEI DA NATUREZA HUMANA

Todo o mundo já viu pessoas discutindo. As vezes, a discussão soa engraçada; em outras, apenas desagradável. Como quer que soe, acredito que podemos aprender algo muito importante ouvindo os tipos de coisas que elas dizem. Dizem, por exemplo: "Você gostaria que fi­zessem o mesmo com você?"; "Desculpe, esse banco é meu, eu sentei aqui primeiro"; "Deixe-o em paz, que ele não lhe está fazendo nada de mal"; "Por que você teve de entrar na frente?"; "Dê-me um pedaço da sua laran­ja, pois eu lhe dei um pedaço da minha"; e "Pôxa, você prometeu!" Essas coisas são ditas todos os dias por pes­soas cultas e incultas, por adultos e crianças.

O que me interessa em todos estes comentários é que o homem que os faz não está apenas expressando o quanto lhe desagrada o comportamento de seu interlocutor; está também fazendo apelo a um padrão de compor­tamento que o outro deveria conhecer. E esse outro rara­mente responde: "Ao inferno com o padrão!" Quase sem­pre tenta provar que sua atitude não infringiu este pa­drão, ou que, se infringiu, ele tinha uma desculpa muito especial para agir assim. Alega uma razão especial, em seu caso particular, para não ceder o lugar à pessoa que ocupou o banco primeiro, ou alega que a situação era muito diferente quando ele ganhou aquele gomo de la­ranja, ou, ainda, que um fato novo o desobriga de cum­prir o prometido. Está claro que os envolvidos na dis­cussão conhecem uma lei ou regra de conduta leal, de comportamento digno ou moral, ou como quer que o queiramos chamar, com a qual efetivamente concordam. E eles conhecem essa lei. Se não conhecessem, talvez lutassem como animais ferozes, mas não poderiam "dis­cutir" no sentido humano desta palavra. A intenção da discussão é mostrar que o outro está errado. Não haveria sentido em demonstrá-lo se você e ele não tivessem algum tipo de consenso sobre o que é certo e o que é errado, da mesma forma que não haveria sentido em marcar a falta de um jogador de futebol sem que hou­vesse uma concordância prévia sobre as regras do jogo. Ora, essa lei ou regra do certo e do errado era cha­mada de Lei Natural. Hoje em dia, quando falamos das "leis naturais", quase sempre nos referimos a coisas co­mo a gravitação, a hereditariedade ou as leis da quími­ca. Porém, quando os pensadores do passado chamavam a lei do certo e do errado de "Lei Natural", estava im­plícito que se tratava da Lei da Natureza Humana. A idéia era a seguinte: assim como os corpos são regidos pela lei da gravitação, e os organismos, pelas leis da biolo­gia, assim também a criatura chamada "homem" pos­sui uma lei própria — com a grande diferença de que os corpos não são livres para escolher se vão obedecer à lei da gravitação ou não, ao passo que o homem pode es­colher entre obedecer ou desobedecer à Lei da Nature­za Humana.

Examinemos a questão sob outro prisma. Todo ho­mem está continuamente sujeito a diversos conjuntos de leis, mas a apenas um ele é livre para desobedecer. Enquanto corpo, ele é regido pela gravitação e não pode desobedecê-la; se ficar suspenso no ar, sem apoio, fatal­mente cairá como cairia uma pedra. Enquanto organis­mo, está sujeito a diversas leis biológicas, às quais, como os animais, não pode desobedecer. Em outras palavras, o homem não pode desobedecer às leis que tem em comum com os outros seres; mas a lei própria da natureza hu­mana, a lei que não é compartilhada nem pelos animais, nem pelos vegetais, nem pelos seres inorgânicos, a esta lei o ser humano pode desobedecer, se assim quiser.

Essa lei era chamada de Lei Natural porque as pes­soas pensavam que todos a conheciam naturalmente e não precisavam que outros a ensinassem. Isso, evidente­mente, não significava que não se pudesse encontrar, aqui e ali, um indivíduo que a ignorasse, assim como existem indivíduos daltônicos ou desafinados. Considerando a raça humana em geral, no entanto, as pessoas pensavam que a idéia humana de comportamento digno ou decen­te era óbvia para todos. E acredito que essas pessoas ti­nham razão. Se assim não fosse, as coisas que dizemos a respeito da guerra não teriam sentido nenhum. Se o Cer­to não for uma entidade real, que os nazistas, lá no fun­do, conhecem tão bem quanto nós e têm o dever de pra­ticar, qual o sentido de dizer que o inimigo está errado? Se eles não têm nenhuma noção daquilo que chamamos de Certo, talvez tivéssemos de combatê-los do mesmo jeito, mas não poderíamos culpá-los pelas suas ações, da mesma forma que não podemos culpar um homem por ter nas­cido com os cabelos louros ou castanhos.

Sei que certas pessoas afirmam que a idéia de uma Lei Natural ou lei de dignidade de comportamento, co­nhecida de todos os homens, não tem fundamento, por­que as diversas civilizações e os povos das diversas épocas tiveram doutrinas morais muito diferentes.

Mas isso não é verdade. E certo que existem diferen­ças entre as doutrinas morais dos diversos povos, mas elas nunca chegaram a constituir algo que se asseme­lhasse a uma diferença total. Se alguém se der ao traba­lho de comparar os ensinamentos morais dos antigos egípcios, dos babilônios, dos hindus, dos chineses, dos gregos e dos romanos, ficará surpreso, isto sim, com o imenso grau de semelhança que eles têm entre si e tam­bém com nossos próprios ensinamentos morais. Reuni alguns desses dados concordantes no apêndice que es­crevi para um outro livro, chamado The Abolition of Man [A abolição do homem]. Porém, para os fins que agora temos em vista, basta perguntar ao leitor como seria uma moralidade totalmente diferente da que co­nhecemos. Imagine um país que admirasse aquele que foge do campo de batalha, ou em que um homem se orgulhasse de trair as pessoas que mais lhe fizeram bem. O leitor poderia igualmente imaginar um país em que dois e dois são cinco. Os povos discordaram a respeito de quem são as pessoas com quem você deve ser altruís­ta - sua família, seus compatriotas ou todo o gênero humano; mas sempre concordaram em que você não deve colocar a si mesmo em primeiro lugar. O egoísmo nunca foi admirado. Os homens divergiram quanto ao número de esposas que podiam ter, se uma ou quatro; mas sempre concordaram em que você não pode sim­plesmente ter qualquer mulher que lhe apetecer.

O mais extraordinário, porém, é que, sempre que encontramos um homem a afirmar que não acredita na existência do certo e do errado, vemos logo em segui­da este mesmo homem mudar de opinião. Ele pode não cumprir a palavra que lhe deu, mas, se você fizer a mesma coisa, ele lhe dirá "Não é justo!" antes que você pos­sa dizer "Cristóvão Colombo". Um país pode dizer que os tratados de nada valem; porém, no momento seguinte, porá sua causa a perder afirmando que o tratado espe­cífico que pretende romper não é um tratado justo. Se os tratados de nada valem, se não existe um certo e um errado - em outras palavras, se não existe uma Lei Na­tural —, qual a diferença entre um tratado justo e um in­justo? Será que, agindo assim, eles não deixam o rabo à mostra e demonstram que, digam o que disserem, conhe­cem a Lei Natural tanto quanto qualquer outra pessoa? Parece, portanto, que só nos resta aceitar a existên­cia de um certo e um errado. As pessoas podem volta e meia se enganar a respeito deles, da mesma forma que às vezes erram numa soma; mas a existência de ambos não depende de gostos pessoais ou de opiniões, da mesma forma que um cálculo errado não invalida a tabuada, Se concordamos com estas premissas, posso passar à se­guinte: nenhum de nós realmente segue à risca a Lei Natural. Se existir uma exceção entre os leitores, me des­culpo. Será mais proveitoso que essa pessoa leia outro livro, pois nada do que vou falar lhe diz respeito. Feita a ressalva, volto aos leitores comuns.

Espero que vocês não se irritem com o que vou di­zer. Não estou fazendo uma pregação, e Deus sabe que não pretendo ser melhor do que ninguém. Só estou ten­tando chamar a atenção para um fato: o de que, neste ano, neste mês ou, com maior probabilidade, hoje mes­mo, todos nós deixamos de praticar a conduta que gos­taríamos que os outros tivessem em relação a nós. Pode­mos apresentar mil e uma desculpas por termos agido assim. Você se impacientou com as crianças porque es­tava cansado; não foi muito correto naquela questão de dinheiro - questão que já quase fugiu da memória -porque estava com problemas financeiros; e aquilo que prometeu para fulano ou sicrano, ah!, nunca teria pro­metido se soubesse como estaria ocupado nos últimos dias. Quanto a seu modo de tratar a esposa (ou o ma­rido), a irmã (ou o irmão) - se eu soubesse o quanto eles são irritantes, não me surpreenderia; e, afinal de con­tas, quem sou eu para me intrometer? Não sou diferente. Ou seja, nem sempre consigo cumprir a Lei Natural, e, quando alguém me adverte de que a descumpri, me vem à cabeça um rosário de desculpas que dá várias vol­tas ao redor do pescoço. A pergunta que devemos fazer não é se essas desculpas são boas ou más. O que impor­ta é que elas dão prova da nossa profunda crença na Lei Natural, quer tenhamos consciência de acreditar nela, quer não. Se não acreditássemos na boa conduta, por que a ânsia de encontrar justificativas para qualquer des­lize? A verdade é que acreditamos a tal ponto na decên­cia e na dignidade, e sentimos com tanta força a pressão da Soberania da Lei, que não temos coragem de encarar o fato de que a transgredimos. Logo, tentamos transfe­rir para os outros a responsabilidade pela transgressão. Perceba que é só para o mau comportamento que nos damos ao trabalho de encontrar tantas explicações. São somente as fraquezas que procuramos justificar pelo cansaço, pela preocupação ou pela fome. Nossas boas qualidades, atribuímo-las a nós mesmos.

São essas, pois, as duas idéias centrais que preten­dia expor. Primeiro, a de que os seres humanos, em todas as regiões da Terra, possuem a singular noção de que devem comportar-se de uma certa maneira, e, por mais que tentem, não conseguem se livrar dessa noção. Se­gundo, que na prática não se comportam dessa manei­ra. Os homens conhecem a Lei Natural e transgridem-na. Esses dois fatos são o fundamento de todo pensamen­to claro a respeito de nós mesmos e do universo em que vivemos.

ALGUMAS OBJEÇÕES

Se essas duas idéias são nosso fundamento, é me­lhor que eu deixe esse fundamento bem firme antes de seguir em frente. Algumas das cartas que recebi mostram que um grande número de pessoas tem dificuldade para compreender o que significa essa Lei da Natureza Huma­na, ou Lei Moral, ou Regra de Bom Comportamento.

Certas pessoas, por exemplo, me escreveram per­guntando: "Isso que você chama de Lei Moral não é simplesmente o nosso instinto gregário? Será que ele não se desenvolveu como todos os nossos outros instin­tos?" Não vou negar que possuímos esse instinto, mas não é a ele que me refiro quando falo em Lei Moral. To­dos nós sabemos o que é ser movido pelo instinto - pelo amor materno, o instinto sexual ou o instinto da alimentação: sentimos o forte desejo ou impulso de agir de determinada maneira. E é claro que, às vezes, sentimos o desejo intenso de ajudar outra pessoa. Isso se deve, sem duvida, ao instinto gregário. No entanto, sentir o desejo intenso de ajudar é bem diferente de sentir a obri­gação imperiosa de ajudar, quer o queiramos, quer não. Suponhamos que você ouça o grito de socorro de um homem em perigo. Provavelmente sentirá dois desejos: o de prestar socorro (que se deve ao instinto gregário) e o de fugir do perigo (que se deve ao instinto de auto-preservação). Mas você encontrará dentro de si, além desses dois impulsos, um terceiro elemento, que lhe man­dará seguir o impulso da ajuda e suprimir o impulso da fuga. Esse elemento, que põe na balança os dois instin­tos e decide qual deles deve ser seguido, não pode ser nenhum dos dois. Você poderia pensar também que a partitura musical, que lhe manda, num determinado momento, tocar tal nota no piano e não outra, é equi­valente a uma das notas no teclado. A Lei Moral nos informa da melodia a ser tocada; nossos instintos são meras teclas.

Há outra maneira de perceber que a Lei Moral não é simplesmente um de nossos instintos. Se existe um conflito entre dois instintos e, na mente dessa criatura, não há mais nada além desses instintos, é óbvio que o instinto mais forte tem de prevalecer. Porém, nos momentos em que enxergamos a Lei Moral com maior cla­reza, ela geralmente nos aconselha a escolher o impulso mais fraco. Provavelmente, seu desejo de ficar a salvo é maior do que o desejo de ajudar o homem que se afoga, mas a Lei Moral lhe manda ajudá-lo, apesar dos pesares. E, em geral, ela nos manda tomar o impulso correto e tentar torná-lo mais forte do que originalmente era - não é mesmo? Ou seja, sentimos que temos o dever de es­timular nosso instinto gregário, por exemplo, despertan­do a imaginação e estimulando a piedade, entre outras coisas, para termos força para agir corretamente na hora certa. E evidente, porém, que, no momento em que de­cidimos tornar mais forte um instinto, nossa ação não é instintiva. Aquilo que lhe diz: "Seu instinto está ador­mecido, desperte-o!", não pode ser o próprio instinto. O que lhe manda tocar tal nota no piano não pode ser a própria nota.

Há ainda uma terceira maneira de ver a Lei Moral. Se ela fosse um de nossos instintos, seríamos capazes de identificar dentro de nós um impulso que sempre pu­déssemos chamar de "bom" segundo a regra da boa con­duta. Mas isso não acontece. Não existe nenhum impul­so que às vezes a Lei Moral não nos aconselhe a inibir, nem outro que ela não nos encoraje a praticar de vez em quando. E um erro achar que alguns de nossos impul­sos, como o amor materno e o patriotismo, são bons, e outros, como o instinto sexual e a agressividade, são maus. Tudo o que queremos dizer é que existem mais situações em que o instinto de luta e o desejo sexual de­vem ser contidos do que situações em que devemos con­ter o amor materno e o patriotismo. No entanto, em certas ocasiões, é dever do homem casado encorajar seu impulso sexual, e do soldado fomentar sua agressividade. Existem também oportunidades em que a mãe deve re­frear o amor pelo filho, ou um homem deve conter o amor por seu país, para que não cometam injustiça con­tra outras crianças ou outros países. A rigor, não existem impulsos bons e impulsos maus. Voltemos ao piano. Não há nele dois tipos de notas, as "certas" e as "erradas". Cada uma das notas é certa para uma determinada oca­sião e errada para outra. A Lei Moral não é um instin­to particular ou um conjunto de instintos; é como um maestro que, regendo os instintos, define a melodia que chamamos de bondade ou boa conduta.

Este tema, aliás, tem grandes conseqüências práti­cas. A coisa mais perigosa que podemos fazer é tomar um certo impulso de nossa natureza como critério a ser seguido custe o que custar. Não existe um único im­pulso que, erigido em padrão absoluto, não tenha o po­der de nos transformar em demônios. Talvez você pense que o amor pela humanidade em geral é livre de peri­gos, mas isso não é verdade. Se deixarmos de lado o senso de justiça, logo estaremos violando acordos e falsifican­do provas judiciais em prol do "bem da humanidade". Teremos então nos tornado homens cruéis e desleais.

Outras pessoas me escreveram perguntando: "Isso que você chama de Lei Moral não é somente uma con­venção social, algo que nos foi incutido pela nossa edu­cação?" Acredito que essas pessoas incorrem num mal-entendido. Elas tomam por pressuposto que, se apren­demos alguma regra de nossos pais e professores, essa regra é uma simples invenção humana. Mas é evidente que isso não é verdade. Todos aprendemos a tabuada na escola. Uma criança que crescesse sozinha numa ilha deserta não a aprenderia. Mas salta à vista que a tabuada não é apenas uma convenção humana, algo que os seres humanos fizeram para si e que poderiam ter feito diferen­te se assim quisessem. Concordo plenamente que apren­demos a Regra de Boa Conduta dos pais e professores, dos amigos e dos livros, assim como aprendemos todas as ou­tras coisas. Porém, certas coisas que aprendemos são me­ras convenções que poderiam ser diferentes - aprendemos a manter-nos à direita na estrada, mas a regra poderia ser manter-se à esquerda —, e outras coisas, como a matemá­tica, são verdades. A pergunta a ser feita é a qual das duas classes pertence a Lei da Natureza Humana.

Há duas razões para afirmar que ela pertence à mes­ma classe que a da matemática. A primeira, expressa no primeiro capítulo, é que, apesar de haver diferenças en­tre as idéias morais de certa época ou país e as de outros tempos ou lugares, essas diferenças, na realidade, não são muito grandes — nem de longe são tão importantes quanto a maioria das pessoas imagina —, e, assim, pode­mos reconhecer a mesma lei dentro de todas elas; ao passo que as meras convenções, como o sentido do trân­sito ou os tipos de vestimenta, diferem largamente. A segunda razão é a seguinte: quando você considera as diferenças morais entre um povo e outro, não pensa que a moral de um dos dois é sempre melhor ou pior que a do outro? Será que as mudanças que se constatam en­tre elas não foram mudanças para melhor? Caso a res­posta seja negativa, então está claro que nunca houve um progresso moral. O progresso não significa apenas uma mudança, mas uma mudança para melhor. Se um conjunto de idéias morais não fosse melhor do que ou­tro, não haveria sentido em preferir a moral civilizada à moral bárbara, ou a moral crista à moral nazista. E pon­to pacífico que a moralidade de alguns povos é melhor que a de outros. Acreditamos também que certas pes­soas que tentaram mudar os conceitos morais de sua época foram o que chamaríamos de Reformadores ou Pioneiros — pessoas que entenderam melhor a moral do que seus contemporâneos. Pois muito bem. No momen­to em que você diz que um conjunto de idéias morais é superior a outro, está, na verdade, medindo-os ambos segundo um padrão e afirmando que um deles é mais conforme a esse padrão que o outro. O padrão que os mede, no entanto, difere de ambos. Você está, na realidade, comparando as duas coisas com uma Moral Ver­dadeira e admitindo que existe algo que se pode chamar de O Certo, independentemente do que as pessoas pen­sam; e está admitindo que as idéias de alguns povos se aproximaram mais desse Certo que as idéias de outros povos. Ou, em outras palavras: se as suas noções mo­rais são mais verdadeiras que as dos nazistas, deve exis­tir algo - uma Moral Verdadeira — que seja o objeto a que essa verdade se refere. A razão pela qual sua con­cepção de Nova York pode ser mais verdadeira ou mais falsa que a minha é que Nova York é um lugar real, cuja existência independe do que eu ou você pensamos a seu respeito. Se, quando mencionássemos Nova York, tudo o que pensássemos fosse "a cidade que existe na minha cabeça", como é que um de nós poderia estar mais pró­ximo da verdade do que o outro? Não haveria medida de verdade ou de falsidade. Do mesmo modo, se a Re­gra da Boa Conduta significasse simplesmente "tudo que cada povo aprova", não haveria sentido em dizer que uma nação está mais correta do que a outra, nem que o mun­do se torna moralmente melhor ou pior.

Concluo, portanto, que, apesar de as diferenças de idéias a respeito da Boa Conduta nos levarem a suspeitar de que não existe uma verdadeira Lei de Conduta natural, as coisas que estamos naturalmente propensos a pensar provam justamente o contrário. Algumas pala­vras antes de terminar: conheci pessoas que exageraram essas diferenças, por terem confundido as diferenças mo­rais com as meras diferenças de crença a respeito dos fa­tos. Por exemplo, um homem me perguntou certa vez: 'Trezentos anos atrás, as bruxas na Inglaterra eram quei­madas na fogueira. E isso que você chama de Regra da Natureza Humana ou de Boa Conduta?" Mas é claro que a razão pela qual não se executam mais bruxas hoje em dia é que não acreditamos que elas existam. Se acre­ditássemos — se realmente pensássemos que existem pessoas entre nós que venderam a alma para o diabo, receberam em troca poderes sobrenaturais e usaram es­ses poderes para matar ou enlouquecer os vizinhos, ou para provocar calamidades naturais -, certamente con­cordaríamos que, se alguém merecesse a pena de morte, seriam essas sórdidas traidoras. Não há aqui uma dife­rença de princípios morais, apenas de enfoque dos fatos. Pode ser que o fato de não acreditarmos em bruxas seja um grande avanço do conhecimento, mas não existe avanço moral algum em deixar de executá-las quando pensamos que elas não existem. Não consideraríamos misericordioso um homem que não armasse ratoeiras por não acreditar que houvesse ratos na casa.

A REALIDADE DA LEI

Volto agora ao que disse no final do primeiro capí­tulo: que a raça humana tem duas características curiosas. Em primeiro lugar, que os homens são assombrados pela idéia de um padrão de comportamento que se sentem obrigados a pôr em prática, o qual se poderia chamar de conduta leal, decência, moralidade ou Lei Natural. Em segundo lugar, que eles não o põem em prática. Al­guns de vocês podem se perguntar por que razão cha­mei de "curioso" isso que pode lhes parecer a coisa mais natural do mundo. Em especial, talvez vocês me tenham achado muito duro com a humanidade; afinal de con­tas, aquilo que chamei de transgressão da Lei do Certo e do Errado, ou da Lei Natural, significa somente que ninguém é perfeito. E por que, ó céus, esperaria eu o contrário? Essa seria uma boa resposta se tudo o que eu pretendesse fosse medir numa balança a culpa exata que cabe a cada um de nós por não nos termos portado como queremos que os outros se portem. Não é essa, porém, a tarefa que me propus. Nesta investigação, não estou preocupado com a culpa; estou tentando desco­brir a Verdade. Desse ponto de vista, a própria idéia de imperfeição, de algo que não é o que deveria ser, tem suas conseqüências.

Se considerarmos um ente como uma pedra ou uma árvore, ele é o que é e não há sentido em dizer que de­veria ser de outro jeito. E claro que podemos dizer que a pedra tem "a forma errada" se pretendemos usá-la para uma construção, ou que uma árvore não é boa porque não faz sombra suficiente. Porém, isso significa tão-so­mente que a pedra ou a árvore não se prestam ao uso que queremos fazer delas; não as culpamos de terem tais ou quais características, a não ser como piada. Te­mos consciência de que, dado um determinado clima e tipo de solo, a árvore não poderia ser em nada dife­rente do que é. A árvore que, de nosso ponto de vista, chamamos de "má" obedece às leis de sua natureza tan­to quanto a que chamamos de "boa".

Vocês vêem aonde quero chegar? É que o que nós costumamos chamar de leis naturais - o modo pelo qual o clima age sobre a planta, por exemplo - não são leis no sentido estrito da palavra. Essa é só uma maneira de dizer. Quando afirmamos que uma pedra obedece à lei da gravidade, isso não é, por acaso, o mesmo que dizer que essa lei significa apenas "o que a pedra sempre faz"? Não pensamos realmente que a pedra, quando é solta, su­bitamente se lembra de que tem o dever de cair. Tudo o que queremos dizer é que ela, de fato, cai. Em outras palavras, não podemos ter certeza de que exista algo su­perior aos fatos mesmos, uma lei que determine o que deve acontecer e que seja diferente do que efetivamen­te acontece. As leis da natureza, quando aplicadas às ár­vores ou pedras, podem significar apenas "o que a Na­tureza efetivamente faz". Mas, se nos voltarmos para a Lei da Natureza Humana, ou Lei da Boa Conduta, a história é outra. E ponto pacífico que ela não significa "o que os seres humanos efetivamente fazem", já que, como eu disse antes, muitos deles não obedecem em absoluto a essa lei, e nenhum deles a observa integral­mente. A lei da gravidade nos diz o que a pedra faz quan­do cai; já a Lei da Natureza Humana nos diz o que os seres humanos deveriam fazer e não fazem. Ou seja, quando tratamos de seres humanos, existe algo além e acima dos fatos. Existem os fatos (como os homens se comportam) e também uma outra coisa (como deve­riam se comportar). No resto do universo, não há necessidade de outra coisa que não os fatos. Elétrons e mo­léculas comportam-se de determinada maneira e disso decorrem certos resultados, e talvez o assunto pare aí[12]. Os homens, no entanto, comportam-se de determina­da maneira e o assunto não pára aí, já que estamos sem­pre conscientes de que o comportamento deles deveria ser diferente.

Isso é tão singular que ficamos tentados a nos en­ganar com falsas explicações. Podemos, por exemplo, afirmar que, quando você diz que um homem não de­veria fazer o que fez, quer dizer a mesma coisa quando assevera que a pedra tem a forma errada: ou seja, que a atitude dele é inconveniente para você. Mas isso é simplesmente falso. Um homem que chega primeiro no trem e ocupa um bom assento é tão inconveniente quanto um homem que tira minha mala do assento e o ocupa sorrateiramente enquanto estou de costas. Po­rém, não culpo o primeiro homem, mas culpo o se­gundo. Não fico bravo - exceto talvez por um breve momento, até recuperar a razão - com uma pessoa que por acidente me faz tropeçar, mas fico bravo com al­guém que tenta me fazer tropeçar de propósito, mes­mo que não consiga. Porém, foi a primeira pessoa que efetivamente me machucou, e não a segunda. Às vezes, o comportamento que julgo mau não é inconvenien­te para mim de modo algum, muito pelo contrário. Na guerra, cada um dos lados beligerantes achará muito útil um traidor do lado oposto; porém, apesar de usá-lo e de recompensá-lo pelos serviços prestados, o consi­derará um verme em forma humana. Assim, não pode­mos dizer que o que chamamos de boa conduta alheia é simplesmente a conduta que nos é útil. E, quanto à nossa boa conduta, parece-me óbvio que não se trata da que nos traz vantagens. Trata-se, isto sim, de ficar contente com 30 xelins quando poderíamos ter ganho três libras; de fazer o dever de casa honestamente quan­do poderíamos copiar o do vizinho; de respeitar uma moça quando gostaríamos de ir para a cama com ela; de não nos afastar de um posto perigoso quando po­deríamos escapar para um lugar mais seguro; de manter a palavra quando preferiríamos faltar com ela; de falar a verdade mesmo que assim pareçamos idiotas perante os outros.

Certas pessoas dizem que, apesar de a boa condu­ta não ser o que traz vantagens para cada pessoa indi­vidualmente, pode significar o que traz vantagens para a humanidade como um todo; e, portanto, a coisa não seria tão misteriosa. Os seres humanos, no fim das con­tas, possuem algum bom senso; percebem que a segu­rança e a felicidade só são possíveis numa sociedade em que cada qual age com lealdade, e é por perceber isso que tentam conduzir-se com decência. Ora, é perfeitamente verdadeira a idéia de que a segurança e a felicidade só podem vir quando os indivíduos, as classes sociais e os países são honestos, justos e bons uns com os outros. E uma das verdades mais importantes do mundo. Ela só não consegue explicar por que temos tais e tais senti­mentos diante do Certo e do Errado. Se eu perguntar: "Por que devo ser altruísta?", e você responder: "Porque isso é bom para a sociedade", poderei retrucar: "Por que devo me importar com o que é bom para a socie­dade se isso não me traz vantagens pessoais?", ao que você terá de responder: "Porque você deve ser altruísta" — o que nos leva de volta ao ponto de partida. O que você diz é verdade, mas não nos faz avançar. Se um ho­mem pergunta o motivo de se jogar futebol, de nada adianta responder que é "fazer gols", pois tentar fazer gols é o próprio jogo, e não o motivo pelo qual o joga­mos. No final, estamos dizendo somente que "futebol é futebol" - o que é verdade, mas não precisa ser dito. Da mesma forma, se uma pessoa pergunta o motivo de se agir com decência, não vale a pena responder "para o bem da sociedade", pois tentar beneficiar a sociedade, ou, em outras palavras, ser altruísta (pois "sociedade", no fim das contas, significa apenas "as outras pessoas"), é um dos elementos da decência. Tudo o que se estará dizendo é que uma conduta decente é uma conduta de­cente. Teríamos dito a mesma coisa se tivéssemos parado na declaração de que "As pessoas devem ser altruístas". E é nesse ponto que eu paro. Os homens devem ser altruístas, devem ser justos. Não que os homens se­jam altruístas ou gostem de sê-lo, mas que devem sê-lo. A Lei Moral, ou Lei da Natureza Humana, não é sim­plesmente um fato a respeito do comportamento hu­mano, como a Lei da Gravidade é ou pode ser simples­mente um fato a respeito do comportamento dos ob­jetos pesados. Por outro lado, não é mera fantasia, pois não conseguimos nos desvencilhar dessa idéia; se con­seguíssemos, a maior parte das coisas que dizemos sobre os homens seria absurda. Ela também não é uma sim­ples declaração de como gostaríamos que os homens se comportassem para a nossa conveniência, pois o com­portamento que taxamos de mau ou injusto nem sempre é inconveniente, e, muitas vezes, é exatamente o con­trário. Conseqüentemente, essa Regra do Certo e do Er­rado, ou Lei da Natureza Humana, ou como quer que você queira chamá-la, deve ser uma Verdade - uma coisa que existe realmente, e não uma invenção huma­na. E, no entanto, não é um fato no mesmo sentido em que o comportamento efetivo das pessoas é um fato. Co­meça a ficar claro que teremos de admitir a existência de mais de um plano de realidade; e que, neste caso em particular, existe algo que está além e acima dos fatos comuns do comportamento humano, algo que no en­tanto é perfeitamente real - uma lei verdadeira, que ne­nhum de nós elaborou, mas que nos sentimos obrigados a cumprir.

O QUE EXISTE POR TRÁS DA LEI

Vamos fazer um resumo de tudo o que vimos até aqui. No caso das pedras, das árvores e de coisas dessa natureza, o que chamamos de Lei Natural pode não ser nada além de uma força de expressão. Quando você diz que a natureza é governada por certas leis, quer dizer ape­nas que a natureza, de fato, se comporta de certa forma. As chamadas "leis" talvez não tenham realidade pró­pria, talvez não estejam além e acima dos fatos que po­demos observar. No caso do homem, porém, percebe­mos que as coisas não são bem assim. A Lei da Natu­reza Humana, ou Lei do Certo e do Errado, é algo que transcende os fatos do comportamento humano. Neste caso, além dos fatos em si, existe outra coisa - uma verdadeira lei que não inventamos e à qual sabemos que devemos obedecer.

Quero considerar agora o que isso nos diz sobre o universo em que vivemos. Desde que o homem se tor­nou capaz de pensar, ele se pergunta no que consiste o universo e como ele veio a existir. Grosso modo, dois pontos de vista foram sustentados. O primeiro deles é o que chamamos de materialista. Quem o adota afirma que a matéria e o espaço simplesmente existem e sem­pre existiram, ninguém sabe por quê. A matéria, que se comporta de formas fixas, veio, por algum acidente, a produzir criaturas como nós, criaturas capazes de pen­sar. Numa chance em mil, um corpo se chocou contra o sol e gerou os planetas. Por outra chance infinitesimal, as substâncias químicas necessárias à vida e a tempera­tura correta se fizeram presentes num desses planetas, e, assim, uma parte da matéria desse planeta ganhou vida. Depois, por uma longuíssima série de coincidências, as criaturas viventes se desenvolveram até se tornarem se­res como nós. O outro ponto de vista é o religioso[13]. Se­gundo ele, o que existe por trás do universo se assemelha mais a uma mente que a qualquer outra coisa conhecida. Ou seja, é algo consciente e dotado de objetivos e pre­ferências. De acordo com essa visão, esse ser criou o universo. Alguns dos seus desígnios são ocultos, enquanto outros são bastante claros: produzir criaturas semelhan­tes a si mesmo - quero dizer, semelhantes na medida em possuem mentes. Por favor, não pensem que um destes pontos de vista era sustentado há muito tempo e aos poucos foi cedendo lugar ao outro. Onde quer que tenha havido homens pensantes, os dois pontos de vista sem­pre apareceram de uma forma ou de outra. Notem tam­bém que, para saber qual deles é o correto, não pode­mos apelar à ciência no sentido comum dessa palavra. A ciência funciona a partir da experiência e observa como as coisas se comportam. Todo enunciado científico, por mais complicado que pareça à primeira vista, na verda­de significa algo como "apontei o telescópio para tal par­te do céu às 2h20min do dia 15 de janeiro e vi tal e tal fenômeno", ou "coloquei um pouco deste material num recipiente, aqueci-o a uma temperatura X e tal coisa aconteceu". Não pensem que eu esteja desmerecendo a ciência; estou apenas mostrando para que ela serve. Quan­to mais sério for o homem de ciência, mais (no meu entender) ele concordará comigo quanto ao papel dela - papel, aliás, extremamente útil e necessário. Agora, per­guntas como "Por que algo veio a existir?" e "Será que existe algo - algo de outra espécie - por trás das coisas que a ciência observa?" não são perguntas científicas. Se existe "algo por trás", ou ele há de manter-se totalmente desconhecido para o homem ou far-se-á revelar por outros meios. A ciência não pode dizer nem que esse ser existe nem que não existe, e os verdadeiros cientis­tas geralmente não fazem essas declarações. São quase sempre jornalistas e romancistas de sucesso que as pro­duzem a partir de informações coletadas em manuais de ciência popular e assimiladas de maneira imperfei­ta. Afinal de contas, tudo não passa de uma questão de bom senso. Suponha que a ciência algum dia se tornas­se completa, tendo o conhecimento total de cada mí­nimo detalhe do universo. Não é óbvio que perguntas como "Por que existe um universo?", "Por que ele con­tinua existindo?" e "Qual o significado de sua existên­cia?" continuariam intactas?

Deveríamos perder as esperanças, não fosse por um detalhe. No universo inteiro, existe uma coisa, e somen­te uma, que nós conhecemos melhor do que conhecería­mos se contássemos somente com a observação externa. Essa coisa é o Ser Humano. Nós não nos limitamos a observar o ser humano, nós somos seres humanos. Nes­se caso, podemos dizer que as informações que possuí­mos vêm "de dentro". Estamos a par do assunto. Por cau­sa disto, sabemos que os seres humanos estão sujeitos a uma lei moral que não foi criada por eles, que não con­seguem tirar do seu horizonte mesmo quando tentam e à qual sabem que devem obedecer. Alguém que estudasse o homem "de fora", da maneira como estudamos a eletricidade ou os repolhos, sem conhecer a nossa lín­gua e, portanto, impossibilitado de obter conhecimen­to do nosso interior, não teria a mais vaga idéia da exis­tência desta lei moral a partir da observação de nossos atos. Como poderia ter? Suas observações se resumiriam ao que fazemos, ao passo que essa lei diz respeito ao que deveríamos fazer. Do mesmo modo, se existe algo acima ou por trás dos fatos observados sobre as pedras ou sobre o clima, nós, estudando-os de fora, não temos a menor esperança de descobrir o que ele é.

A natureza da questão é a seguinte: queremos saber se o universo simplesmente é o que é, sem nenhuma razão especial, ou se existe por trás dele um poder que o produziu tal como o conhecemos, Uma vez que esse poder, se ele existe, não seria um dos fatos observados, mas a realidade que os produziu, a mera observação dos fenômenos não pode encontrá-lo. Existe apenas um ca­so no qual podemos saber se esse "algo mais" existe; a saber, o nosso caso. E, nesse caso, constatamos que exis­te. Ou examinemos a questão de outro ângulo. Se existis­se um poder exterior que controlasse o universo, ele não poderia se revelar para nós como um dos fatos do pró­prio universo - da mesma forma que o arquiteto de uma casa não pode ser uma de suas escadas, paredes ou larei­ra. A única maneira pela qual podemos esperar que esta força se manifeste é dentro de nós mesmos, como uma influência ou voz de comando que tente nos levar a ado­tar uma determinada conduta. E justamente isso que descobrimos dentro de nós. Já não deveríamos ficar com a pulga atrás da orelha? No único caso em que po­demos encontrar uma resposta, ela é positiva; nos outros, em que não há respostas, entendemos por que não po­demos encontrá-las. Suponha que alguém me pergun­tasse, acerca de um homem de uniforme azul que passa de casa em casa depositando envelopes de papel em cada uma delas, por que, afinal, eu concluo que dentro dos envelopes existem cartas. Eu responderia: "Porque sem­pre que ele deixa envelopes parecidos na minha casa, dentro deles há uma carta para mim." Se o interlocutor objetasse: "Mas você nunca viu as cartas que supõe que as outras pessoas recebam", eu diria: "E claro que não, e nem quero vê-las, porque não foram endereçadas a mim. Eu imagino o conteúdo dos envelopes que não posso abrir pelo dos envelopes que posso." O mesmo se dá aqui. O único envelope que posso abrir é o Ser Hu­mano. Quando o faço, e especialmente quando abro o Ser Humano chamado "Eu", descubro que não existo por mim mesmo, mas que vivo sob uma lei, que algo ou alguém quer que eu me comporte de determinada forma. E claro que não acho que, se pudesse entrar na existência de uma pedra ou de uma árvore, encontraria exatamente a mesma coisa, assim como não acho que as pessoas da minha rua recebam exatamente as mesmas cartas que eu. Devo concluir que a pedra, por exemplo, tem de obedecer à lei da gravidade - que, enquanto o missivista se limita a aconselhar-me a obedecer à lei da minha natureza, ele obriga a pedra a obedecer às leis de sua natureza pétrea. O que não consigo negar é que, em ambos os casos, existe, por assim dizer, esse missivista, um Poder por trás dos fatos, um Diretor, um Guia.

Não pense que estou indo mais rápido do que es­tou na realidade. Ainda não estou nem perto do Deus da teologia cristã. Tudo o que obtive até aqui é a evidên­cia de Algo que dirige o universo e que se manifesta em mim como uma lei que me incita a praticar o certo e me faz sentir incomodado e responsável pelos meus er­ros. Segundo me parece, temos de supor que esse Algo é mais parecido com uma mente do que com qualquer outra coisa conhecida — porque, afinal de contas, a úni­ca outra coisa que conhecemos é a matéria, e ninguém ja­mais viu um pedaço de matéria dar instruções a alguém. E claro, porém, que não precisa ser muito parecido com uma mente, muito menos com uma pessoa. No próximo capítulo, vamos tentar descobrir mais a seu respeito. Ape­nas uma advertência. Houve muita conversa fajuta a res­peito de Deus nos últimos cem anos, e não é isso que tenho a oferecer. Esqueça tudo o que ouviu.

NOTA:

Para manter esta seção curta o suficiente para ir ao ar, só mencionei os pontos de vista materialis­ta e religioso. Para completar o quadro, tenho de men­cionar o ponto de vista intermediário entre os dois, a chamada filosofia da Força Vital, ou Evolução Criativa, ou Evolução Emergente, cuja exposição mais brilhante e arguta encontra-se nas obras de Bernard Shaw, ao pas­so que a mais profunda, nas de Bergson. Seus defenso­res dizem que as pequenas variações pelas quais a vida neste planeta "evoluiu" das formas mais simples à for­ma humana não ocorreram em virtude do acaso, mas sim pelo "esforço" e pela "intenção" de uma Força Vital. Quando fazem tais afirmações, devemos perguntar se, por Força Vital, essas pessoas entendem algo semelhan­te a uma mente ou não. Se for semelhante, "uma mente que traz a vida à existência e a conduz à perfeição" não é outra coisa senão Deus, e seu ponto de vista é idên­tico ao religioso. Se não for semelhante, qual o sentido, então, de dizer que algo sem mente faça um "esforço" e tenha uma "intenção"? Este argumento me parece fatal para esse ponto de vista. Uma das razões pelas quais as pessoas julgam a Evolução Criativa tão atraente é que ela dá o consolo emocional da crença em Deus sem im­por as conseqüências desagradáveis desta. Quando nos sentimos ótimos e o sol brilha lá fora, e não queremos acreditar que o universo inteiro se reduz a uma dança mecânica de átomos, é reconfortante pensar nessa gigan­tesca e misteriosa Força evoluindo pelos séculos e nos car­regando em sua crista. Se, por outro lado, queremos fa­zer algo escuso, a Força Vital, que não passa de uma for­ça cega, sem moral e sem discernimento, nunca vai nos atrapalhar como fazia o aborrecido Deus que nos foi en­sinado quando éramos crianças. A Força Vital é como um deus domesticado. Você pode tirá-lo de dentro da caixa sempre que quiser, mas ele não vai incomodá-lo em ocasião alguma — todas as coisas boas da religião sem custo nenhum. Não será a Força Vital a maior invenção da fantasia humana que o mundo jamais viu?

TEMOS MOTIVOS PARA NOS SENTIR INQUIETOS

Encerrei o último capítulo com a noção de que, na Lei Moral, entramos em contato com algo, ou alguém, acima do universo material. Acho que alguns leitores sentiram um certo desconforto quando cheguei a esse ponto, e pensaram, inclusive, que eu lhes preguei uma peça, embalando cuidadosamente no papel de embrulho da filosofia algo que não passa de mais uma "conversa fiada sobre religião". Talvez você estivesse disposto a me ouvir se eu tivesse novidades para contar; se, porém, tudo se resume à religião, bem, o mundo já experimentou esse caminho e não podemos voltar no tempo. Tenho três coisas a dizer para quem estiver se sentindo assim.

A primeira delas é a respeito de "voltar no tempo". Você pensaria que estou brincando se dissesse que podemos atrasar o relógio e que, se o relógio está errado, é essa a coisa sensata a fazer? Prefiro, entretanto, deixar de lado essa comparação com relógios. Todos nós que­remos o progresso. Progredir, porém, é aproximarmo-nos do lugar aonde queremos chegar. Se você tomou o ca­minho errado, não vai chegar mais perto do objetivo se seguir em frente. Para quem está na estrada errada, pro­gredir é dar meia-volta e retornar à direção correta; nes­se caso, a pessoa que der meia-volta mais cedo será a mais avançada. Todos já tivemos essa experiência com as contas de aritmética. Quando erramos uma soma des­de o início, sabemos que, quanto antes admitirmos o engano e voltarmos ao começo, tanto antes chegaremos à resposta correta. Não há nada de progressista em ser um cabeça-dura que se recusa a admitir o erro. Penso que, se examinarmos o estado atual do mundo, é bastante óbvio que a humanidade cometeu algum grande erro. Tomamos o caminho errado. Se assim for, devemos dar meia-volta. Voltar é o caminho mais rápido.

A segunda coisa a dizer é que estas palestras ainda não tomaram o rumo de uma "conversa fiada sobre re­ligião". Não chegamos ainda no Deus de nenhuma reli­gião verdadeira, muito menos no Deus dessa religião específica chamada cristianismo. Tudo o que temos até aqui é Alguém ou Algo que está por trás da Lei Moral. Não lançamos mão da Bíblia nem das igrejas: estamos tentando ver o que podemos descobrir por esforço pró­prio a respeito deste Alguém. Quero, inclusive, deixar bem claro que essa descoberta é chocante. Temos dois indícios que dão prova desse Alguém. Um deles é o uni­verso por ele criado. Se fosse essa a nossa única pista, teríamos de concluir que ele é um grande artista (já que o universo é um lugar muito bonito), mas que também é impiedoso e cruel para com o homem (uma vez que o universo é um lugar muito perigoso e terrível). O outro indício é a Lei Moral que ele pôs em nossa mente. E uma prova melhor do que a primeira, pois co­nhecemo-la em primeira mão. Descobrimos mais coi­sas a respeito de Deus a partir da Lei Moral do que a partir do universo em geral, da mesma forma que sabe­mos mais a respeito de um homem quando conversamos com ele do que quando examinamos a casa que ele cons­truiu. Partindo desse segundo vestígio, concluímos que o Ser por trás do universo está muitíssimo interessado na conduta correta - na lealdade, no altruísmo, na co­ragem, na boa fé, na honestidade e na veracidade. Nes­se sentido, devemos concordar com a visão do cristia­nismo e de outras religiões de que Deus é "bom". Mas não vamos apressar o andar da carruagem. A Lei Mo­ral não embasa a idéia de que Deus é "bom" no sentido de indulgente, suave ou condescendente. Não há nada de indulgente na Lei Moral. Ela é dura como um osso. Exorta-nos a fazer a coisa certa e parece não se importar com o quanto essa ação pode ser dolorosa, perigosa ou di­fícil. Se Deus é como a Lei Moral, ele não tem nada de suave. De nada adianta, a esta altura, dizer que um Deus "bom" é um Deus que perdoa. Estaríamos indo depres­sa demais. Só uma pessoa pode perdoar, e não chega­mos ainda a um Deus pessoal - só a um poder que está por trás da Lei Moral e se parece mais com uma men­te do que com qualquer outra coisa. Mas ainda seria improvável dizer que se trata de uma pessoa. Caso se tra­te de uma pura mente impessoal, não há sentido algum em pedir que ela nos dê uma certa folga e nos descul­pe, da mesma forma que não há sentido em pedir que a tabuada seja tolerante com nossos erros de multiplicação. Nesse caminho, encontraremos a resposta errada. Tampouco adianta dizer que, se existe um Deus assim - uma bondade impessoal e absoluta -, você não pre­cisa gostar dele nem se preocupar com ele. Afinal, a ques­tão é que uma parte de nós está ao lado dele e realmente concorda com ele quando desaprova a ganância, as baixezas e os abusos humanos. Talvez você queira que ele abra uma exceção no seu caso e o perdoe desta vez; mas no fundo sabe que, a menos que esse poder por trás do mundo realmente deteste inabalavelmente esse tipo de comportamento, ele não pode ser bom. Por outro lado, sabemos que, se existe um Bem absoluto, ele deve detestar quase tudo o que fazemos. Este é o terrível dilema em que nos encontramos. Se o universo não é governa­ do por um Bem absoluto, todos os nossos esforços es­tão fadados ao insucesso a longo prazo. Se, no entanto, ele é governado por esse Bem, fazemo-nos inimigos da bondade a cada dia e o panorama não parece dar sinais de melhora no futuro. Logo, nosso caso é, de novo, ir­remediável — inviável com ou sem ele. Deus é o nosso único alento, mas também o nosso terror supremo; é a coisa de que mais precisamos, mas também da qual mais queremos nos esconder. E nosso único aliado possível, e tornamo-nos seus inimigos. Certas pessoas parecem pensar que o encontro face a face com o Bem absoluto seria divertido. Elas devem pensar melhor no que dizem.

Estão apenas brincando com a religião. O Bem pode ser o maior refúgio ou o maior perigo, dependendo de como reagimos a ele. E temos reagido mal.

Enfim, a terceira coisa que tinha a dizer. Quando decidi dar todas estas voltas para chegar a meu verda­deiro assunto, nunca tive a intenção de lhes pregar uma peça. Meu motivo foi outro: foi que o cristianismo só tem sentido para quem teve de encarar de frente os te­mas tratados até aqui. O cristianismo exorta as pessoas a se arrepender e promete-lhes o perdão. Consequente­mente (que me conste), ele não tem nada a dizer às pes­soas que não têm a consciência de ter feito algo de que devem se arrepender e que não sentem a urgência de ser perdoadas. E quando nos damos conta da existência de uma Lei Moral e de um Poder por trás dessa Lei, e percebemos que nós violamos a Lei e ficamos em dívida para com esse Poder - é só então, e nunca antes disso, que o cristianismo começa a falar a nossa língua. Quan­do você sabe que está doente, dá ouvidos ao médico. Quando perceber que nossa situação é crítica, começará a entender a respeito do que os cristãos estão falando. Eles nos oferecem uma explicação de por que nos en­contramos em nosso estado atual, de odiar o bem e tam­bém de amá-lo; de por que Deus pode ser essa mente impessoal oculta por trás da Lei Moral e, ao mesmo tempo, uma Pessoa. Explicam que as exigências dessa lei, que nem eu nem você conseguimos cumprir, foram cum­pridas por Alguém, para o nosso bem; que Deus mes­mo se fez homem para salvar os homens de sua própria ira. E uma velha história, e se você quiser esmiuçá-la poderá consultar pessoas que, sem dúvida nenhuma, têm mais autoridade do que eu para falar dela. Tudo o que faço é pedir a todos que encarem os fatos - que compreendam as perguntas para as quais o cristianis­mo pretende oferecer respostas. Os fatos amedrontam. Gostaria de poder falar de coisas mais amenas, mas devo declarar o que penso ser a verdade. Evidentemente, pen­so que, a longo prazo, a religião cristã traz um consolo indescritível; mas ela não começa assim. Ela começa com o desalento e a consternação que descrevi, e é inútil ten­tar obter o consolo sem antes passar pela consternação. Na religião, como na guerra e em todos os outros as­suntos, o consolo é a única coisa que não pode ser al­cançada quando é buscada diretamente. Se você buscar a verdade, encontrará a consolação no final; se buscar o consolo, não terá nem o consolo nem a verdade - terá somente uma melosidade vazia que culminará em deses­pero. Muitos entre nós já nos recuperamos da euforia de antes da guerra em matéria de política internacional. E hora de fazer a mesma coisa com a religião.



[1] Neste texto, encontra-se apenas o volume 1.

[2] Em inglês, as formas verbais não abreviadas são mais formais, e poderiam soar pretensio­sas ao público a que C. S. Lewis se dirigia. (N. do T.)

[3] As referências bíblicas foram extraídas da Nova Versão Internacional (Sociedade Bíblica In­ternacional), salvo quando outra referência é mencionada. (N. do R. T.)

[4] Uncle Toby, "Tio Toby": o autor faz referência ao personagem do romance A vida e as opi­niões do cavaleiro Tristram Shandy, de Laurence Sterne (1713-1768), publicado no Brasil pela Companhia das Letras. (N. doT.)

[5] Livro de Oração Comum: livro de orações da Igreja Anglicana. (N. do T.)

[6] As informações sobre a bíitz e os pilotos da Royal Air Force foram tiradas das seções dos anos 1941 e 1942 do livro Clive Staples Lewis: A Dramatic Life, de William Griffin (Holt & Rinehart, 1986).

[7] "The longest way round", citação tirada de Cristianismo puro e simples.

[8] "An amateur", de um colóquio radiofônico levado ao ar em 11 de janeiro de 1942. Ci­
tado em Clive Staples Lewis: A Dramatic Life.

4. [9] "There are no ordinary peopíe", citação tirada de "The Weight of Glory", sermão profe­
rido por Lewis em 8 de junho de 1941.

[10] "Poisoned by a wretched upbringing", citação tirada de Cristianismo puro e simples.

[11] "How monotonously alike", citação tirada de Cristianismo puro e simples

[12] Não acredito que "o assunto pare aí", como você verá mais adiante. Só quis dizer que, a se levar em conta somente os argumentos dados até aqui, pode ser que pare

[13] Ver a Nota ao fim do capítulo.

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