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domingo, 14 de agosto de 2011

ASSIM PENSAVA SANTO AFONSO

ASSIM PENSAVA SANTO AFONSO

(Título Original: SENTIMENTI DE MONSIGNORE)

Tradução, subtítulos e ed. PDF de Fl. Castro, cssr.

Aparecida, 2004 2

INTRODUÇÃO

Este texto, conservado no Arquivo Geral dos Redentoristas, foi publicado pela primeira vez pelo Pe. Oreste Gregorio, cssr, no Spici-legium Historicum 9 (1961), pp. 439-475.

O conjunto é formado por 103 tópicos, re-ferentes à prática das virtudes para cada mês, tendo em vista a imitação de Cristo pro-posta aos congregados. O manuscrito (27x19 cm) tem vinte folhas, trazendo, com a letra de Tannoia, o título na última página: “Sentimenti di Monsignore”. “Monsignore” era o título que se dava a Afonso depois de bispo. O texto é provavelmente transcrição de anotações fei-tas por confrades que estiveram presentes às reuniões semanais da comunidade, aos assim chamados “Capítulos de Culpa”, presi-didos pelo Fundador.

Os textos foram redigidos a partir de 1752-1762. Apresentam lacunas devidas às limitações de quem fazia as anotações duran-te as palestras do santo. Essas lacunas foram preenchidas pelo Pe. Oreste Gregorio, estan-do seus acréscimos entre [].

Das suas notas aproveitamos as que nos pareceram úteis. Acrescentamos a tradução dos textos latinos que preferimos conservar no texto.

Fl. Castro. 3

Oração

1. A oração é o alimento da alma que, por meio dela, vive vida espiritual e perfeita. Todos vocês são homens de oração, fazendo-a três vezes ao dia; resta ver se vivem vida perfeita.

Os Irmãos viverão vida perfeita se cumprirem bem suas próprias obrigações. O cozinheiro, o porteiro, os estudantes, os padres, todos viverão vida perfeita se forem modestos, humil-des, obedientes, recolhidos. Mas o que vemos é o contrário; portanto, a oração não está sendo bem feita.

Diz o P. S.1 que há três classes de homens que fazem ora-ção: alguns são como as moscas, que giram daqui para ali por sobre as flores do jardim; outros são como os besouros2 que pousam sobre uma rosa e a comem até se saciar; outros ainda são como as abelhas que recolhem o mel e a cera das flores, para levar para a colmeia. Temo que muitos de vocês etc..

Façam oração como o rei Ezequias. Sicut pullus hirundinis sic clamabo; meditabor ut columba3. Meditemos gemendo com a pomba, gritando como o pintainho etc..

A verdadeira ciência

2. Meus Padres e Irmãos, a verdadeira ciência é saber somen-te Jesus Cristo. De que serve a ciência se não para procurar só a Deus? Podemos dizer com sinceridade que nosso Irmão Bla-succi4, já falecido, conseguiu a verdadeira ciência, pois em to-das as coisas sabia procurar só a Deus, e por isso morreu co-mo Santo, como todos vocês sabem.

1 S. FRANCISCO DE SALES, Trattato dell’amor di Dio, p. 1, VI,, c. 2; Op. Spirit., Venezia, 1732, 265, col. 2

2 No texto, “cantarella”, da família dos coleópteros.

3 Is 38,14 (Gritarei como o filhote de andorinha; meditarei como a pomba.)

4 Domenico Blasucci, clérigo estudante redentorista, morto em1752, em Materdomini. 4

Oração contínua

3. Meus Padres e Irmãos, uma vez que a Regra nos aponta a oração5, digo-lhes nesta tarde que a sua vida deve ser uma oração contínua. Cada um de vocês deve ter um grande desejo de se tornar grande na oração: cada um deve procurar roubar um pouco de tempo, quando pode, para fazer oração. Assim fizeram os santos, e assim fazia o nosso mencionado irmão falecido.

Procurar sempre a Deus

4. É verdade, não o nego, que devemos ter alguma recreação; mas também é verdade que, mesmo então, devemos procurar só a Deus; devemos recrear-nos só porque Deus o quer, e só por Deus.

Moderação no descanso

5. Meus Padres e Irmãos, para dizer a verdade, não posso su-portar em alguns confrades essa avidez, essa ânsia por folgas e recreações.

É fácil santificar-se na Congregação

6. É certo, meus Padres e Irmãos, que Deus nos deu uma grande graça ao chamar-nos a esta santa Congregação. É bas-tante, muito difícil alguém salvar-se no meio do mundo; mas na Congregação não apenas é muito fácil salvar-nos, mas até o santificar-nos. 2 de dezembro. Pe. Villani.

7. Na Congregação Deus nos dá todos os meios para fazer-nos santos.

8. O Senhor quer esta Congregação, e até se vê que a protege de modo especial. Mas, se não nos comportarmos bem, Deus afastará sua mão. Meus Padres e Irmãos, comportemo-nos bem, comportemo-nos bem e Deus haverá de nos abençoar.

5 Era, pois, o mês de novembro. 5

9. O Senhor quer que sejamos santos, e santos humildes, vis e desprezados, como Jesus Cristo. Quer também que sejamos pobres, e por isso vai afastando todos os obstáculos; se vivês-semos uma vida cômoda, e tivéssemos riquezas, logo estaría-mos folgados, e iria por terra a observância.

10. Agarremo-nos com Jesus Cristo, com verdadeira humilda-de; repito: agarremo-nos e o Senhor será fiel, e não nos deixa-rá faltar nada.

11. Deus quer-nos santos; e para fazer-nos santos, temos de fazer força, temos de nos mortificar. Assim fizeram todos os santos. Temos de mortificar nossa vontade própria.

12. Agarremo-nos, pois, volto a dizer, agarremo-nos com ver-dadeira humildade e com mortificação, agarremo-nos a uma exata observância e ao Espírito de Jesus Cristo.

13. Meus diletíssimos. Deus quer que nos comportemos bem, e se assim o fizermos, ela haverá de nos abençoar, e o rei6 etc.. Se nos comportarmos mal, Deus nos abandonará e o rei have-rá de nos despedir.

14. Deus quer, o rei quer que procedamos bem, e eu também o quero. Defeitos e imperfeições voluntárias, isso o Senhor não o quer tolerar, nem eu.

Pelos mais abandonados

15. Meus Padres e Irmãos, uma vez que nosso Instituto nos obriga a dedicar-nos ao auxílio das almas mais abandonadas, procuremos ter no coração um amor terno, e um afeto especial pelas almas mais necessitadas e abandonadas. Meus Padres e

6 Alude ao rei de Nápoles que, mesmo não concedendo o exequatur ao Bre-ve de aprovação pontifícia da Congregação do Ss. Redentor (1749), a tole-rava por causa das frutuosas missões que pregava entre o povo mais aban-donado da zona rural. 6

Irmãos, se fosse preciso pregar uma missão em Nápoles, e estivéssemos em tal situação que não pudéssemos ao mesmo tempo fazê-lo nas terras de vaqueiros7 de Salerno, seria preci-so fazer antes estas nas terras de vaqueiros, deixando para depois a de Nápoles. Isso porque essa é a finalidade de nosso Instituto.

16. Vocês, jovens, tomem gosto pela ajuda às almas mais ne-cessitadas, agora que são enviados a fazer catequese8. Vão com um grande desejo de ajudar essas pobres crianças. Meus irmãos, não pensem que isso seja alguma coisa pequena.

Sem vaidades no pregar

17. Meus jovens, não deixem entrar em seu coração ares de vaidade, ou a ambição de pregar, ou sei lá o que. Há mais ne-cessidade de instruir o povo do que de fazer pregações. Os princípios ficam mais impressos pelas instruções do que pelas pregações.

Cuidados com a pobreza

18. Meus Padres, a pobreza não consiste apenas em conten-tar-nos com o que nos dá a comunidade, mas também em con-servar com cuidado as coisas da comunidade; é defeito contra a pobreza estragar a roupa etc..

Abnegação

19. A abnegação consiste em mortificar e quebrar a vontade própria. Quem não começou a caminhar nessa virtude, nem começou a seguir Jesus Cristo. Dezembro de 1752.

20. Cuidemos de quebrar essas vontadezinhas, esses desejo-zinhos que vêm do coração. Quanto mais alguém avança nes-

7 “Terras de vaqueiros”, ou «procoje» como, no século 18, eram designadas algumas localidades incultas, para onde confluíam os boiadeiros; tais eram algumas zonas do Cilento e da Campanha Romana.

8 Até 1855, aos domingos faziam a catequese nas paróquias. 7

se quebrar a vontade própria, tanto mais se adianta no segui-mento de Jesus Cristo.

21. Meus Padres e Irmãos, é grande coisa quebrar a vontade própria e as inclinações próprias, mesmo nas pequenas coisas. Quando, por exemplo, tenho vontade de dizer uma palavra, de olhar, ou qualquer outra coisa, e me contenho, e me mortifico, quanto gosto isso dá a Deus! Meus Padres, tanto mais avança-remos na perfeição quanto mais força fizermos para isso.

Na enfermidade

22. O tempo da enfermidade é tempo de grandes lucros. Virtus in infirmitate perficitur9.

Se alguém faz disciplina até o sangue, se faz uma grande pre-gação, se se cansa com muito zelo nas santas missões, se o dia todo fica suando até arrebentar-se no confessionário, nisso tudo pode encontrar algum alimento o amor próprio, a estima própria, o desejo de aparecer; nisso o amor próprio pode en-contrar satisfação, vendo-se aplaudido por todos, e considera-do servo de Deus. Receperunt mercedem, etc..10 Digo que, se um operário não está sempre atento, não vigia muitíssimo suas ações, seus desejos e os movimentos de seu coração, dificil-mente receberá o mérito condigno de suas fadigas.

Mas quando alguém está enfermo, abandonado, sem forças, com o espírito enfraquecido etc., se suportar com paciência a enfermidade, aí não se encontra o amor próprio etc.. P. R. M.

Oração que santifica

23. Meus diletíssimos, já deveríamos ser santos, uma vez que há tanto tempo fazemos oração. Muitos de nós, porém, são imperfeitos, falo por mim; a causa é não fazermos bem a ora-ção.

Para fazer bem a oração, deveríamos fazer bem a preparação, tanto a remota como a próxima; o mesmo se diga do corpo da

9 2Cor 12,9 (A virtude aperfeiçoa-se na fraqueza.)

10 Mt 6,2 (Já receberam sua paga.) 8

oração e da sua conclusão. A preparação remota consiste em não nos dispersar nas coisas exteriores. Cada um de nós tem ocupações distrativas: um deve estudar; outro, pregar; outro ainda, cozinhar. Não devemos mergulhar totalmente nessas obrigações, a ponto de nos esquecer de Deus. De vez em quando, pelo menos no começo, no meio e no fim de qualquer ação, digamos alguma oração jaculatória. Façamos como o timoneiro, que tem um olho fixo na bússola e com a mão regula o leme da nave; façamos como o marinheiro, que está com os olhos voltados para as velas, para ver como sopra o vento, e com as mãos no [leme]; sejamos como o compasso, que man-tém uma perna fixa, enquanto com a outra vai traçando o círcu-lo; assim também nós etc..

Façamos bem a preparação próxima, sempre o ato de fé; diz Sta. Teresa11 que não devemos imaginar Deus longe de nós, mas bem dentro de nosso coração. Costumava dizer um mes-tre espiritual12 que algumas almas por ele dirigidas caminhavam muito bem, porque faziam na oração o ato de fé.

Façamos bem o corpo da oração, meditando, como fazem as abelhas sobre as flores.

A conclusão seja feita sempre com toda a atenção possível. Se não se faz bem a preparação no início da oração, isso pode ser remediado; mas na conclusão... não façamos muitos propósi-tos, façamos um, e particularizado; comecemos a combater um vício, e por isso na oração lembrem-se daquilo que diz S. Fran-cisco de Sales13 sobre o ramalhete de flores. A pessoa entra no jardim e faz um ramalhete de flores, e durante o dia fica apre-ciando seu perfume.

11 S. TERESA, Op. spir., II, Venezia 1739, Sentenziario del Cammino di perfezione, 269, n. 238

12 M. SAGLIOCCO, Compendio delle virtù del Card. Innico Caracciolo, Napoli 1760, ed. II, 22. Cfr La vera sposa di G. Cristo, c. XV, par. 2, n. 6; Napoli 1761, 89.

13 S. FRANÇOIS DE SALES, Introduction à la vie devote, p. II, ch. 7; Oeuvres, III, Annecy, 1893, 82 9

Aridez na oração

24. Existem algumas almas que gostariam de sempre ser con-soladas na oração. Se acontece terem um pouco de aridez, logo querem etc.. Tudo isso é trapaça do demônio, que assim procura arruiná-las irremediavelmente. Sabemos que muitas almas se mantém na graça de Deus pela oração.

Hoje, porém, quero falar-lhes das fontes de onde pode nascer essa aridez. São três: o demônio, Deus, nós mesmos.

Vem do demônio quando fazemos [oração] perturbados, e quando dela nos erguemos igualmente perturbados. Que de-vemos fazer então? Rir-nos.

Se vem de nós porque, por exemplo, nos dissipamos em pro-sas e conversas, então devemos afastar etc..

Vem de Deus quando, ao ir para a oração não temos devoção sensível; a alma está amargurada, mas gostaria de estar quie-ta, totalmente unida com Deus; nesse caso temos de nos con-solar.

Se tivéssemos sempre consolações, falando dos caminhos or-dinários e da providência normal de Deus, não poderíamos chegar à perfeição. O dia é composto de dia e de noite; se fos-se sempre dia ou sempre noite, as criaturas morreriam e se corromperiam. Se alguém come sempre coisas de açúcar, vermes nascem em seu ventre.

Assim que devemos estar convencidos que nossa vida deve ser entremeada de consolações e de trabalhos. Como se tece o pano? Um fio perpendicular e o outro atravessado; assim o tecido de nossa vida. Os santos, que conheceram seu valor, etc..

Pode alguém dizer-me: “Padre, que adiante fazer oração, se a faço como se fosse uma estátua de sal?” Sim, é verdade, mas você não deve etc..

Diga-me: não ajudam as vestes sacerdotais, episcopais e ponti-ficais? A belas pinturas de Jesus Cristo, de Maria Santíssima etc., não ajudam os preciosos ornamentos dos altares etc.; de fato, não ajudam positivamente etc.. Assim também você etc.. 10

Três coisas a abandonar

25. Meus Padres e Irmãos, três coisas deve fazer o congrega-do; primeiro, deixar os pecados. Que desastre seria se um congregado cometesse de propósito pecados veniais. Segun-do, deixar as coisas indiferentes, comodidades, bens desta ter-ra, lazeres, gostos e outras coisas. Terceiro, deixar as imperfei-ções, e tratar de caminhar sempre avante na estrada da perfei-ção. Dezembro.

Procurar a santidade

26. Meus senhores, estando na Congregação, temos obrigação de aspirar à santidade. E para isso o Senhor deu-nos tantos meios, como não os têm nem o rei nem o papa. Nunca deve-mos dizer: chega; jamais devemos parar, nem contentar-nos com a mediocridade. Porém, sempre devemos avançar cada dia mais que o outro, se queremos lá chegar.

27. Meus irmãos, para fazer-nos santos devemos sofrer, sofri-mentos internos e externos, e seria uma loucura querer tornar-se santo sem sofrer. Todos os santos andaram pelo caminho do sofrimento e da cruz, e assim chegaram a ser santos.

Exigências da vocação

28. Meus Padres e Irmãos, Deus concedeu-nos uma grande graça trazendo-nos à Congregação; e esse é um motivo que continuamente nos deve impelir a caminhar para a frente. Digo-lhes até: quando se sentirem frios e sem vontade, especialmen-te na oração, pensem no grande benefício que Deus lhes fez retirando-os do meio do mundo, e mantendo-os em sua casa. Esse pensamento certamente deve obrigar cada um a abando-nar o estado de imperfeição.

Evitar o mundanismo

29. Nossa vida deve estar totalmente afastada das coisas mundanas; na maneira de nos relacionar, nas brincadeiras en-11

tre nós, e também no escrever não devemos ter as maneiras dos que são do mundo.

30. Ao tratar com seculares, devemos sempre insinuar princí-pios espirituais.

31. Meus Padres e Irmãos, Devemos fugir das conversas sobre coisas do mundo, principalmente na recreação da noite, como é antigo uso da nossa Congregação, que nos foi deixado por Mons. Falcoia14.

Simplicidade nas pregações

32. Muito mais devemos fugir, mais ainda nas pregações, do uso desses pensamentos sublimes. Meus Padres e Irmãos, isto é o que mantém o espírito do Instituto: pregar com estilo sim-ples e popular; assim deve fazer quem quer levar almas a Je-sus Cristo.

Não freqüentar parentes

33. Meus Padres e Irmãos, que desgosto haveria de me dar um congregado que procurasse ir até sua casa para encontrar os parentes. Porque isso traz grande prejuízo, como a experiência de muitos me mostrou.

Tibieza

34. Meus diletíssimos, a tibieza no serviço de Deus é conse-qüência da falta de fé. 20 de janeiro.

Agradar a Deus

35. Quando vejo o que alguns da nobreza fazem para conse-guir a amizade e a boa graça do rei, e nada se faz para conse-guir a de Deus ... tudo por falta de fé.

14 Mons. Tommaso Falcoia (1663-1743), da Congregação dos Pios Operá-rios e depois bispo de Castellammare di Stabia; de 1732 até a morte foi diretor espiritual de Sto. Afonso. (cf. O. GREGORIO, Mons. T. Falcoia, Roma 1955, 125 ss.). 12

36. Filii hujus saeculi sapientiores filiis lucis15: bem que nos po-demos chamar filhos da luz, porque Deus nos fez compreender que nada importa tanto no mundo como entregar-nos totalmen-te a Deus.

37. Meus diletíssimos, nós que somos servos de um Senhor tão bom e tão grande, se temos uma fé viva, devemos esforçar-nos por agradar a este Senhor, e cuidar de avançar sempre mais na sua amizade e na sua graça.

38. Sabe-se que alguém age por Deus se, quando faz alguma coisa, ou pretende fazer, e não o pode fazer, ou deve deixar para depois porque a obediência manda outra coisa, se então não se perturba, mas faz o que é mandado pela obediência, com a mesma alegria com que faria qualquer outra coisa tam-bém por Deus.

39. Quando aquilo que faz, o faz com espírito e com fervor, pa-ra agradar a Deus e para dar gosto a Deus; quando não se es-panta nem recua diante das dificuldades que encontra, nem deixa de agir por causa do sofrimento ou das fadigas; então verdadeiramente age por Deus, e não por inclinação ou pelo amor próprio.

Pobreza e obediência

40. Meus diletíssimos, vocês já sabem que são duas as pupilas de nossa Congregação; a pobreza e a obediência. Elas man-têm a Congregação, e se faltarem a Congregação está perdida. Março.

41. Meus Padres e Irmãos, estejamos atentos a não abrir a por-ta contra a pobreza; porque acontecerá o que aconteceu a al-gumas ordens religiosas que, antes tão observantes, decaíram depois. Assim acontecerá à Congregação se não formos muito

15 Lc 16,8 (Os filhos deste mundo são mais sábios que os filhos da luz.) 13

exatos na observância da pobreza. A isso os superiores devem estar muito atentos.

42. A outra pupila da Congregação é a obediência; esta é a virtude que nos faz ser religiosos. Se se perde a obediência, a Congregação já não é Congregação, já não é casa de Deus.

43. Nas ordens mais relaxadas a obediência é rigorosa, e tudo se faz para manter esse rigor.

Mansidão

44. Meus Padres e Irmãos, a mansidão é virtude própria dos religiosos, e ninguém é manso se não é humilde; a mansidão faz que a alma fique em paz, em tudo que acontece. 25 agosto 1752.

45. A mansidão é muito necessária, para nós mesmos e para os outros, especialmente nas coisas adversas.

46. Quando as coisas vão bem, todos estão alegres e em paz; se acontece, porém, alguma coisa contrária, perturbam-se. Si-nal que falta a mansidão.

47. Especialmente nas enfermidades, meus irmãos, é que se conhece se uma pessoa tem a virtude da mansidão. Quantos, na enfermidade, se descobrem [rebeldes]16, porque não têm mansidão.

Na doença

48. Meus irmãos, estejamos atentos nas enfermidade; esse é tempo para ter grandes lucros e adquirir grande tesouro. Se não tivermos mansidão e humildade, nada conseguiremos.

16 Palavra ilegível. 14

49. Se por acaso um doente se queixasse: “Que coisa! Estou abandonado; esqueceram-se de mim”, isso é mau sinal, sinal que você não se entregou totalmente a Deus. Quem se entrega totalmente a Deus, não se importa de ser abandonado. Quanto mais alguém é abandonado pelos homens, mais está unido com Deus; porque o Senhor prope est iis que tribulati sunt cor-de17.

Mortificação

50. A mortificação, meus irmãos, consiste no re[nunciar]; nada amar que não seja Deus e por Deus, não odiar senão o peca-do. Dezembro 53.

Único mal

51. Um só mal existe no mundo, o pecado. A enfermidade é um mal? não; os desprezos, a pobreza, as calúnias são males? não. Só o pecado é mal; todas essas coisas são bens, se as aceitamos por Deus.

52. É um mal estar numa casa, onde se está enfermo? não; é um bem especialmente quando ali se está por obediência.

Desapego total

53. Para não amar nada fora de Deus é preciso estar desape-gado de todas as criaturas.

54. Em todas as coisas devemos procurar somente a Deus, e por isso devemos estar desapegados de todas as coisas, tam-bém das espirituais.

55. Procura somente a Deus quem está apegado ao estudo, às pregações? Não.

17 Sl 30,19 (está perto dos corações atribulados.) 15

56. Nem mesmo procura só a Deus quem está apegado às consolações espirituais. É verdade que as consolações vêm de Deus; mas procurar as consolações e estar apegado a elas não é procurar somente a Deus.

Mortificação

57. Da falta de mortificação vêm aquele pouco de antipatia por um confrade: esforce-se um pouco; mas ele faltou com a cari-dade comigo.

58. Agora você precisa exercitar a mortificação; fale com doçu-ra e mansidão.

Perfeição e santidade

59. A perfeição consiste na união com Jesus Cristo e no desa-pego das criaturas. 22 setembro 1753.

60. Quanto mais alguém está desapegado das criaturas, tanto mais está unido a Jesus Cristo.

61. Nisto está a santidade, em manter a alma desapegada de qualquer coisa criada.

62. Quando se diz: aquela é uma alma desapegada, é o mes-mo que dizer: é uma grande alma, uma alma santa.

63. Sim, é verdade que os defeitos não impedem nossa santi-dade; somos miseráveis; quem cai em defeitos, humilha-se di-ante de Deus; desgosta-se deles; resolve não os continuar co-metendo. Deus tem compaixão de nossa fraqueza.

64. Mas, se alguém está apegado a alguma coisa, ah!, esse sim é que Deus não pode suportar. Esse jamais irá avante, ja-mais haverá de se tornar santo, andará sempre para trás, e acabará saindo da Congregação... etc.. 16

Finalidade da Congregação

65. A finalidade de nossa Congregação é fazer-nos semelhan-tes a Jesus Cristo, humilhado, pobre e desprezado. Para isso tendem todas as Regras; e este tem sido seu fim principal. Por isso, quem não se puser isso na cabeça, não apenas não a-vançará, mas irá sempre para trás, para trás.

Amor próprio

66. Estima própria? Essa maldita palavra arruinou e continua arruinando tantos leigos, tantos padres, tantas casas religiosas; manda tantos ao purgatório e também ao inferno.

67. Alguns alegam aquela passagem “Honorem meum”18. Essa passagem refere-se em primeiro lugar à honra devida a Deus; em segundo lugar refere-se à honra de Jesus Cristo; e a honra de Jesus Cristo consistiu em ser desprezado, humilhado etc..

68. Que Deus não o permita, mas se na Congregação se in-troduzisse esse espírito de estima própria, seria melhor que a Congregação fosse destruída. E peço sempre a Deus que a faça destruir antes que nela se introduzam sentimentos tão pestíferos.

69. A nossa estima própria deve estar em transformar-nos em cinza, postos debaixo dos pés de todos, cobertos de vergonha por amor de Jesus Cristo. Esse é o exemplo que nos deixou Jesus Cristo. Amaldiçoado não amaldiçoava... (2Pd 2,23). Felizes vocês quando os amaldiçoarem e insultarem (Mt 5,2). E volto a dizer: peço a Deus que a Congregação seja destruída antes de etc.. Pois de que serviria a Congregação?

70. Se um congregado me apresentasse semelhantes idéias, eu teria a impressão de estar diante de um condenado. Quem faz afirmações desse tipo, é preciso dizê-lo, não acredita na fé,

18 Is 42,8; 48,11 (Minha honra.) 17

não acredita no evangelho. E é preciso que eu peça a Deus e a ele me recomende, que não me deixe cometer atos de ódio contra uma pessoa assim.

71. Quanto a mim, não sei como pessoas assim podem fazer oração, como podem encontrar paz na oração. Porque se vão à oração, Deus as repele; se vão à comunhão, Deus as repele etc.. Deus superbis resistit19.

72. Por isso, se alguém de hoje em diante me apresentasse semelhantes pretensões, eu iria perder o conceito que tenho dele. A nossa glória é sermos desprezados e envergonhados por causa de Jesus Cristo.

73. Muitos que saíram da Congregação, não sei, mas talvez saíram por um pouco de apego à estima própria. E quem sabe algum outro ainda nos deixará etc., porque jamais poderá estar tranquilo na Congregação. Jamais poderá ter paz e estará sempre inquieto.

Finalidade do estudo

74. Vere magnus est, qui magnam habet charitatem20. Meus diletíssimos, acerta de fato aquele candidato que procura tor-nar-se santo com todas as suas forças. É preciso estudar, é verdade, uma vez que somos operários [apostólicos]; isso não obstante, temos de estar persuadidos que a única coisa meritó-ria é cuidar da própria salvação. Uma só coisa é necessária (Lc 10,42). O estudo, pois, deve ter sempre por finalidade úni-ca agradar a Deus; caso contrário, para nada servirá, a não ser para sermos atormentados muito na outra vida, no purgatório; e não permita Deus que alguém, estudando apenas pelo estudo, ainda seja atormentado no inferno. É por isso que lhes peço

19 Tg 4,6; 1Pd 5,5 (Deus resiste aos soberbos.)

20 Imitação de Cristo, l.1, c.3 (Verdadeiramente grande é aquele que tem grande caridade.) 18

dirijam sempre sua intenção quando estiverem estudando; e quando se apresentar alguma ocasião de serem considerados ignorantes, abracem-na etc..

75. Três são as regras dadas por Tomás de Kempis (l.1, c.2) para quem estuda:

1. Não queira saber muito. Vocês devem procurar saber ape-nas as coisas necessárias, e as coisas úteis com a devida mo-deração.

2. Não queira exaltar-se. De que nos serve a ciência, se não nos faz crescer nas virtudes, especialmente na santa humilda-de? Escreveu o cardeal Teruggi ao seu sobrinho, que se retira-ra junto aos padres franciscanos: que se dedicasse principal-mente a fazer-se santo, uma vez que na sua ordem eram mais numerosos os santos que tinham sido ignorantes.

3. Noli videri sapiens21: se se deve dizer etc..

Pobreza de Jesus

76. Cada um de nós gloria-se de ser seguidor de Jesus Cristo, nosso Redentor e Mestre. No entanto, não quer viver seus san-tos ensinamentos, nem pôr em prática o que ele fez para o nosso bem e exemplo.

Meu padre, dir-me-á alguém, em que estou falhando? Sem falar de outras coisas, digo somente que vocês falham na virtu-de da pobreza: como pode você guardar essa virtude, ser um pobre em espírito, como o foi Jesus Cristo?

Pois de sua boca saem tantos lamentos, quando o que lhe dá a comunidade em comida ou roupa não corresponde aos seus desejos. E não permita Deus que lhe falte alguma coisas, se-não etc.. As perturbações interiores só você e Deus as conhe-cem. Será você, pois, verdadeira seguidor de Jesus Cristo, verdadeiro pobre em espírito? É certo que não! Jesus Cristo,

21 Imitação de Cristo, l. 1, c .2. (Não queira ser considerado como sábio.) 19

Senhor do céu e da terra não tinha etc.. “O Filho do homem porém não tem onde reclinar sua cabeça...22

Portanto, meus caríssimos, entremos em nós mesmos, veja-mos bem para que viemos à Congregação, para que Deus aqui nos mantém, e sendo a pobreza a virtude deste mês procure-mos etc..

Disponibilidade

77. A todos os da Congregação deve ser indiferente estar nu-ma casa ou em outra. Somos peregrinos e por isso deixamos todos o mundo: e agora vamos querer apegar-nos... O mártir encarcerado pela fé em Jesus Cristo [deixou] todos os bens da terra; por acaso, depois de os ter desprezado por amor de Je-sus Cristo, irá apegar-se ao cárcere? Certamente que não.

E se isso acontecesse, seria uma loucura. Viemos para a Con-gregação, deixamos [?], aqui estamos para nos martirizar, para domar nossas paixões, e por isso não nos devemos apegar ao cárcere o a qualquer casa. Devemos estar indiferentes.

Padre, não encontro paz naquela casa, ali está um superior... Meu filho, se resolves viver a obediência, certamente que etc.., e se te falta a consolação exterior etc..

Consolação divina

78. Certa mulher, por não querer aderir aos erros de Ario, foi exilada de sua pátria, longe dos parentes. Perguntaram-lhe se queria ser mandada para um lugar perto de seus parentes; respondeu: se me faltam as consolações humanas, Deus não me faltará com as divinas.

Cuidados com a castidade

79. Este é o mês da virtude da castidade. Nós, meus queridos, devemos ser diligentíssimos na guarda dessa virtude tão bela e tão nobre, que de certa forma nos faz semelhantes aos pró-

22 Mt 8,20 20

prios Anjos do céu. Devemos empregar todos os meios: jamais dizer basta, nem confiar em nós mesmos, porque essa é uma virtude muito ciumenta. E o meio eficacíssimo para conservar essa virtude é a modéstia dos olhos.

É verdade que alguns eclesiásticos fora da Congregação e, o que é mais triste e penoso, alguns da nossa própria Congrega-ção andaram dizendo que a virtude da modéstia é uma virtude para noviços, e não de operários [evangélicos]. Dizem ainda que se a estes é proibido, e não seja coisa boa por causa do perigo, olhar para algum objeto escandaloso, não haveria mal, seria permitido olhar alguma pessoa serva de Deus, virgem inocente. Para dizer a verdade, penso que isso seja um erro muito grande, pois é certo que assim não pensam o Santos Padres, nem assim se comportaram os santos. S. Luís Gonza-ga, nem a mãe; o Beato Boaventura de Potenza jamais olhou para o rosto de qualquer de suas penitentes. Por isso peço-lhes, pelas entranhas de Jesus Cristo, que não tomem essa liberdade.

Pureza de intenção

80. Tremo ao pensar no que disse um dia o santo bispo de Castellamare, Mons. Falcoia. Disse um dia esse servo de Deus que tremia, da cabeça aos pés, ao pensar que teria de dar con-tas de todas as suas ações diante do justíssimo e muito tre-mendo tribunal de Deus, por não saber se as tinha feito por Deus, com verdadeira pureza de intenção. E ele, no entanto, tinha conservado a inocência batismal, era delicadíssimo de consciência, empregara quarenta anos na pregação das santas Missões.

Quanto mais devemos temer nós que etc.. Meus diletíssimos, é importante ter essa pureza de intenção, porque [do contrário] no fim de nossa vida, depois de termos trabalhado tanto tempo especialmente na pregação, teremos nas mãos apenas um pu-nhado de moscas; e até, em vez de merecimentos, teremos deméritos por o termos feito talvez para nossa própria satisfa-ção e para sermos louvados. E se querem saber quais os si-21

nais para saber se temos pureza de intenção em nosso agir, agora lhes direi.

1. Se para a pessoa é indiferente fazer isto ou aquilo; se hou-ver apego, é sinal que está agindo por si mesma.

2. Se não se entristece quando o resultado não é o que espe-rava.

3. Se se alegra com as grandes obras, especialmente para a salvação das almas, feitas por um outro operário [evangéli-co], da Congregação ou não, como se fossem feitas por ele mesmo.

4. Se não ouve com gosto os louvores.

Mortificação

81. Uma vez a Irmã Maria Crucifixa, estando em sua cela, ou-viu junto à porta uma virgem que se lamentava, sofrendo com sua situação. Saindo, a serva de Deus perguntou-lhe quem era e qual a causa etc., respondeu ser a virtude da mortificação, e que se lamentava porque fora expulsa de todos os corações cristãos: pedia, por isso, que lhe desse acolhida em seu cora-ção.

Meus diletíssimos, eu também fico imaginando a virtude da mortificação a chorar diante das portas de nossas celas, espe-cialmente da minha, a procurar ser por mim abraçada e amada.

Por isso é que hoje se vê que não é segundo o espírito de Je-sus Cristo que vivemos eu e algum outro confrade meu; é claro que não com o espírito de Jesus Cristo, pois não há mortifica-ção no comer, não há a mortificação das penitências exteriores; vê-se que fala sem medida, vê-se a sua imodéstia, e, o que mais dá na vista, não abraça nem mesmo as mortificações en-viadas por Deus. Até exteriormente se lamenta se a comida não é bem temperada, se as roupas não estão a gosto, se a obediência manda alguma coisa difícil.

Meu Deus! Esse é o seu espírito? o que você veio fazer na Congregação? Veio para se fazer santo, para seguir as pegada de Jesus Cristo, não é isso? E Jesus Cristo que vida levou? 22

Termino fazendo ressoar aos ouvidos: Qui sunt Christi, carnem suam23 etc.. Tiremos as conclusões: portanto etc., por isso nes-te mês tomemos a decisão etc. peçamos a Maria Santíssima etc..

Amor a Deus e amor próprio

82. Em nossa alma tentam viver dois amores: o amor de Deus e o amor próprio, por nós mesmos. Se, porém, um vive em nós, é preciso que o outro não exista. Se vive o amor de Deus, ve-jamos que amor vive em nós? Ao que parece, em nós outro não existe senão o amor próprio.

Vemos em nossa Congregação tantos confrades que se lamen-tam continuamente das coisas adversas que lhes acontecem: vê-se que a obediência já quase não se pratica: pois se o Su-perior dá uma ordem, um responde: não tenho forças para isso; outro diz que não está passando muito bem; aquele escapa com um pretexto; este reclama que só lhe cabem os trabalhos, enquanto os outros folgam; outros ainda buscam apenas des-cansos e recreios.

Meu Deus! E é preciso examinar muito para ver que em nós não vive o amor de Deus? Se em nós houvesse esse amor, nada faria diferença para nós: todos abraçaríamos as contrari-edades, e viveríamos em perfeita obediência.

Meus diletíssimos, fico sem jeito aos ler aquelas poucas pala-vras da Regra! Nada tenham de vontade própria24; fico sem jei-to, digo, porque vejo que não a observo de modo nenhum, e o mesmo fazem tantos confrades meus. E, no entanto, compro-metemo-nos a observá-la. Mas, mesmo que não tivéssemos essa regra, não é verdade que para fazer-nos santos viemos para a Congregação? Mas para fazer-nos santos temos de nos despojar etc. por isso etc..

23 Os que são de Jesus Cristo crucificaram sua carne... (Gl 5,24)

24 Costituzioni e regole della Congr. del ss. Redentore, p. II, c. I, par. 3, 2: 23

Recolhimento de espírito

83. Temos agora a Regra do recolhimento, meus diletíssimos; essa é a Regra das regras; se a observarmos pontualmente, ficaremos santos, e santos depressa. Mas o mal é que, ao que parece, essa Regra foi exilada de nossa Congregação.

Vê-se que quase todos saem do quarto sem necessidade; vê-se que tantos falam sem medida nos lugares proibidos, na co-zinha, no refeitório. Um lamenta-se da comida; outro, das ves-tes; aquele, do superior; este murmura daqui, aquele de lá. Eu, pois, para me animar em primeiro lugar, e depois a algum outro confrade meu, quero colocar diante de seus olhos estes dois motivos:

Primeiro, viemos à Congregação para imitar mais de perto Je-sus Cristo; por trinta anos ficou em silêncio; falou por três; e de que falou? da Doutrina que recebera de seu eterno Pai, e mesmo assim passava a noite em silêncio, a fazer oração.

Segundo: diz Tomás de Kempis25: In silentio proficit anima de-vota, ibi discit abscondita scripturarum, ibi invenit fluenta lacry-marum. Na solidão é que verdadeiramente progride a alma de-vota.

Lembrem-se daquilo que os naturalistas dizem da concha: que à noite vem à flor da água e, tendo recolhido uma gota de orva-lho, fecha-se muito bem, e vai-se para o fundo do mar, e ali trabalha a pérola. Se acontece que entra um pouco de água, etc.. O mesmo acontece com uma alma recolhida: se prega, se fala, inflama etc.. Ao contrário etc.. Uma alma recolhida é con-solada pelo Senhor com o dom das lágrimas etc.. Meu irmão, você se lamenta que é dissipado etc. que é duro de coração etc..

Amor total a Cristo

84. É belo amar Jesus Cristo de todo o coração. Mas quão pouco são aqueles homens, aqueles religiosos e, digamos até,

25 Livro I, cap. 20. (No silêncio progride a alma devota, ali apreende s segre-dos da Escritura, ali encontra a fonte das lágrimas.) 24

aqueles de nossa Congregação que verdadeiramente nutrem em seu coração um tal afeto. Por isso vemos, com a experiên-cia, que o amor de muitos, e não me engano se digo que da maioria não só dos cristãos mas até das pessoas chamadas a uma vida santa e perfeita, é feito apenas de palavras, e pouco ou quase nada de fatos como deveria ser.

Que significa amar a Deus de todo o coração? Em se tratando de um simples cristão, significa que observe pontualmente to-dos os dez mandamentos de Deus. Em se tratando de religio-sos, que, além de observar a lei de Deus e da Igreja, procure tornar-se santo, observar pontualmente os três votos e a sua Regra.

Mas, e quanto a nós, que significa amar? Significa que um membro da nossa Congregação, um Padre, um Irmão, um No-viço observe pontualmente a nossa Regra, que se mantenha em contínuo recolhimento, que não saia do quarto sem neces-sidade, que não fale em tempo de silêncio, nem nos lugares de silêncio; significa receber com humildade as correções que lhe forem feitas, especialmente as dos Superiores; significa que deve amar os desprezos, como os santos os amaram, ou pelo menos os suportar com paciência e sem irritar-se; significa que deve amar a mortificação interna e externa; ou que ao menos suporte o que Deus lhe manda, especialmente à mesa, se a comida etc., se as vestes etc.; significa que deve ser como um pouco de argila na mão do oleiro, ou ao menos que se vença e não desobedeça voluntariamente: Façam vocês etc.. Tenho grande pena, medo etc.. Envergonhemo-nos etc.; recomende-mo-nos a Maria Santíssima.

Oração de meditação

85. Temos agora a Regra da oração, que pode ser ou de medi-tação, ou de súplica, ou vocal. Quero falar-lhes da meditação, e quero fazer que vejam que é preciso meditar freqüentemente nas máximas eternas. O inferno, o paraíso etc., não apenas para observar nossas Regras, nossos votos, não apenas para fazer-nos santos, mas também para viver como cristãos. 25

Diz o Senhor: Desolatione etc.26 e em outro lugar: Memorare27 freqüentemente as máximas eternas. O inferno, o paraíso etc.: não apenas viveram como bons cristãos, mas também deixa-ram etc..

Lemos que Sta. Teresa viveu dezoito anos na tibieza mas, tempo depois, meditando naquele horrível lugar de fogo que, numa visão, o Senhor lhe mostrou como preparado para ela se não afastava os pequenos apegos, se não melhorava, se não reformava seus costumes: melhorou sua vida, fez-se santa e grande santa. São Francisco Xavier medita aquelas palavras do Evangelho: Quid prodest28 etc.. Sto. Antão Abade, aos de-zoito anos, filho único, nobre, ouve ler na igreja: Si vis (Mt 18) perfectus esse, vade, et vende quae habes, et da pauperibus, et habebis thesaurum in caelis, et veni et sequere me29. Ao ou-vir isso, pôs-se a considerar os bens da outra vida; decidiu dei-xar o mundo, como de fato deixou. Irmã Maria Crucifixa, ao pensar nas penas do inferno, tratava de mortificar-se. S. Jerô-nimo, ao pensar continuamente no juízo universal, levava uma vida duríssima, santíssima no deserto de Belém. S. Francisco Bórgia, pensando na morte, ao ver o cadáver da imperatriz, deixou o mundo.

E nós, se não tivéssemos meditado com a graça de Deus, nem mesmo estaríamos neste lugar etc., e se não meditarmos cer-tamente não apenas facilmente deixaremos a Congregação, não observaremos as Regras, mas faremos pecados. Dizia Da-vi no Salmo 118: Nisi quod meditatio mea est; tunc forte periis-sem in humilitate mea30. Por isso etc..

26 Jr 12,11 (.. na desolação está desolada toda a terra, porque não há quem medite em seu coração...)

27 Eclo 7,40 (... em todas as tuas obras lembra-te de teu fim, e jamais peca-rás...)

28 ... que adianta...

29 Se queres ser perfeito, vai, vende tudo que tens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu, e vem, segu-me.

30 O texto completo (Sl 118,92) é: se vossa lei não fosse minha meditação, talvez tivesse perecido em minha pequenez... 26

Oração mental

86. Além da oração, além das orações vocais, parece, ou me-lhor, é certo que devemos amar a meditação, devemos amar muito a oração mental se queremos seguir pelo caminho da perfeição, se queremos tornar-nos santos, se queremos cum-prir dignamente as obrigações do nosso estado: na oração consegue-se a força para vencer as paixões e as tentações do demônio; a oração é um espelho muito claro para se conhece-rem os defeitos, as imperfeições, as misérias; na oração er-guemo-nos acima de nós mesmos, acima das criaturas e uni-mos-nos a Deus.

Mas, Padre, irá dizer-me alguém: reconheço a necessidade da oração, vejo o proveito que me traz ; mas pouco amo a oração e pouco rezo; aliás, gostaria até de deixá-la de todo, porque nela encontro muita aridez; na oração encontro muitas tenta-ções; quando vou para a oração é como se estivesse indo para o martírio.

Eu, porém, respondo que tanto mais se deve amar a oração quanto mais aridez nela se encontra, porque assim mais ela é agradável e aceita a Deus, e tanto mais proveitosa para a alma. Quero além disso mostrar-lhe de onde vem, de onde possa vir essa aridez, para lhe oferecer os remédios convenientes:

1. Pode vir do demônio, e sinal disso é como tantas vezes du-ra tão pouco. O remédio é não lhe dar importância, mas re-comendar-se fervorosamente ao Senhor.

2. Pode vir de você mesmo, porque não está sempre vigilante para afastar as distrações, que lhe ocorrem porque você não mortifica seu corpo, especialmente no falar, ouvir, ver etc.; o remédio é etc..

3. Pode vir de Deus, e então você deve alegrar-se muito, por-que o Senhor o está tratando como filho, e quer aperfeiçoá-lo nas virtudes.

Quando alguém recebe consolações, desprende-se das criatu-ras, mas não de si mesmo; mas quando sofre aridez e desola-ções, então, por mais que lhe pareça estar longe de Deus, de ser por ele abandonado, de fato está mais próximo dele, e des-27

prende-se não apenas das criaturas mas também de si mesmo, e tanto mais se aperfeiçoa nas virtudes cristãs.

Se alguém conseguiu com as consolações alguma virtude, es-sa não é sólida, é apenas uma aparência de virtude, cheia das escórias do amor próprio. Mas quando conquista alguma virtu-de no sofrimento, essa é sólida, forte e maciça; nas minas às vezes se encontra ouro, mas com tanta escória que para sepa-rá-la se gasta mais do que o valor do próprio ouro: assim certas almas têm alguma virtude, mas tão cheia de escória e de amor próprio etc.. Assim como é maior lucro encontrar um pouco de ouro puro, assim também é melhor para a alma. E também, em vez de lamentar o modo de agir de Deus, devemos agradecer-lhe porque nos trata com tanta misericórdia.

Terminando, gostaria que apenas esta máxima ficasse impres-sa em seu coração: não devemos fazer oração para agradar a nós, mas para dar gosto a Deus. Por isso roguemos a Maria Santíssima que etc..

Tibieza

87.O anjo disse ao bispo do Apocalipse: Utinam frigidus31 etc.. O mesmo digo em primeiro lugar a mim mesmo, e depois a al-gum confrade meu: Meu irmão muito amado, eu preferiria, o que não queira Deus nem permita em sua nascente comunida-de, que você fosse frio, que tivesse cometido um pecado grave, mas que não fosse tíbio, não levasse uma vida... etc..

Porque, se você fosse frio, haveria mais esperança de emenda e salvação. Sendo porém tíbio, cometendo esses defeitos vo-luntários, falando voluntariamente nos momentos de silêncio, não obedecendo prontamente, mostrando-se sensível a qual-quer desprezo, evitando receber ordens, procurando apenas os alívios, distraindo-se voluntariamente na oração, tenho um me-do muito grande que dificilmente se emendará; por isso Deus o vomitará de sua graça, permitindo que cai em faltas graves, e ainda o expulsará da Congregação.

31 Ap 3,15 (Oxalá fosses frio...) 28

Diga-me: pode-se beber água morna? Não! Se é fria, pode-se beber; também se é quente; não porém se é mistura de água fria e quente. Ora, sendo você água morna, outra coisa não pode esperar senão...

Em nossa Congregação há os mornos e os fervorosos. Mas os mornos são mais numerosos que os fervorosos. Vocês, de que grupo querem ser? E pensem: que vieram fazer na Congrega-ção? Se tivessem vindo para servir a algum príncipe... Sto. Iná-cio disse a um Irmão que... Peçamos a Jesus Cristo e a Maria Santíssima que...

Amar a Cruz

88. Neste mês temos a virtude da Cruz. Cada um de nós que abraçar a Cruz, quer amar o sofrer, mas isso é pura veleidade, coisa apenas de palavras. Pois bem, os três braços da Cruz são o amor dos sofrimentos, o amor dos desprezos, o amor da pobreza.

Foi assim que Jesus Cristo a carregou, e todos os santos. Há entre nós quem queira suportar a Cruz, que tem esses três braços? Há entre nós quem ame a pobreza? Ah, se fizéssemos um exame de consciência, quanta coisa etc..

Como, vocês dizem que amam a pobreza, e depois tantas la-mentações se a comida, se a roupa etc.. Aliás, é verdade, há alguns em nossa Comunidade que amam a pobreza, mas quando é razoável; por exemplo: contentam-se com a comida e as roupas, porque vêem que a casa é pobre; mas quando per-cebem que o Superior, o Ministro ou outro encarregado poderi-am tomar alguma providência, e não o fazem, então sim, é que a Cruz da pobreza parece mais pesada, etc.. Quem ama os desprezos etc. quem ama os sofrimentos etc.. Alguns, se rece-bem alguma cruz diretamente de Deus, suportam-na, mas se? etc..

Enganam-se, porém, pois que o próprio Deus etc.; que importa se a Cruz vem imediatamente de Deus, ou imediatamente de algum irmão descuidado etc. e mediatamente do próprio Deus. 29

Aprender a amar

89. Não somos filósofos, nem estamos na Congregação para aprender filosofia; mas estamos na escola de Jesus Cristo por isso etc., para os afervorar no amor, quero levá-los a conside-rar apenas uma coisa, isto é, quem ama etc. tem o sinal mais seguro da sua predestinação, pois que se faz conforme a Jesus Cristo, Cabeça dos eleitos. Por isso, quem não ama? etc.. A-crescento o que diz o Eclesiástico: Lignum vitae est his, qui apprehendunt illud, et qui tenuerit, beatus...32 Os Santos Padres interpretam-no como se referindo à Cruz.

Notem, que o texto está no plural: qui apprehendunt. São mui-tos os que abraçam a Cruz, mas depois são poucos: qui tenue-rit. Não basta começar. Se o náufrago agarra-se a uma tábua da nave arrebentada, e não a larga em meio ao mar, salva-se: é isso. Por isso precisa gloriar-se in cruce, e não de cruce33.

Imitar Jesus

90. Meus irmãos, nós nos apresentamos como seguidores de Jesus Cristo, e depois não queremos imitar seus exemplos: no tempo do Advento, na Novena, na noite de ontem, do nasci-mento do Redentor, creio que cada um de nós de coração pe-diu que esse nosso divino Pastor e Mestre lhe comunicasse seu espírito.

Tenho, porém, um grande medo que essa oração tenha sido feita sem um ardente afeto do coração, sem um verdadeiro de-sejo, que tenha sido apenas de palavras. Isso porque entre vo-cês, entre os quais eu sou o primeiro, nota-se um horror, um enfado, um distanciamento muito grande da Cruz e do sofri-mento, que já nem parece sermos Irmãos do Santíssimo Re-dentor, mas antes piores que congregados relaxados. Digo-lhes a verdade, não sei de onde vem um tal horror da Cruz. Sabemos que nossa vida é vida passageira etc..

32 Pr 3,18 (É árvore de vida para aqueles que a abraçam, e feliz quem a segurar firme.)

33 Gl 6,14 (... gloriar-se na cruz, e não por causa da cruz) 30

Tudo porque olhamos para a Cruz de longe, e não de perto, isto é, não consideramos sua utilidade, sua necessidade etc.. Sansão34 viu de longe aquele leão, e teve medo de se aproxi-mar; mas depois chegou perto, viu que estava morto, e que tinha na boca um favo de mel, etc..

Um segundo motivo é que esse Padre, esse Irmão etc. não atentam nem consideram bem a fundo o que veio fazer Jesus Cristo no mundo, e o que nos ensina no Presépio. Ali nos ensi-na a amar os sofrimentos, enquanto ali está deitado: proposito sibi gaudio35 etc..

Que miséria a nossa! Deveríamos amar a Cruz, mas fugimos dela. Meus diletíssimos, que pelo menos não lhe tenhamos hor-ror; vamos suportá-la pacientemente. Peçamos etc..

Obediência

91. Meus diletíssimos, peço-lhes que neste mês, e em toda a sua vida, se exercitem naquela grande máxima de fé: qui vos audit... qui vos spernit36...

Quero que sejam obedientes, e não apenas ao Reitor Mor, por respeito humano; mas até a um bastão, por assim dizer, se como tal foi constituído pelo Reitor Mor...

Meu Deus! Que vieram fazer na Congregação? Para ter suces-so etc. não! Certamente me dirão que para se fazerem santos, não é isso? E eu lhes respondo que se tornarão santos se...

A Congregação pela obediência é que se mantém. Sem dizer que se colocariam em perigo; dizia o Pe. Sertório Caputo: Obe-diência e santidade são a mesma coisa. E Irmã Maria Crucifixa, por ter uma vez desobedecido ao confessor, recebeu uma bo-fetada de Cristo, e mais outra teria recebido se Maria Santíssi-ma... com o que teria perdido a vida e até ficaria aniquilada. Tremam, pois... Não deverão prestar contas se pregaram bem... se etc., mas se etc., também etc..

34 Jz 14,8

35 Hb 12,2 (Tendo-lhe sido proposto o gozo...)

36 Lc 10,16 (quem vos ouve... quem vos despreza...) 31

A exigente vocação cristã

92. Hoje gostaria de perguntar a cada um de vocês: Quem é você? A resposta será: Eu sou...etc.. Não, não é isso que quero ouvir, quero que me diga qual é seu caráter, sua condição? Certamente responderá que é o ser cristão. Pois bem, meu ir-mão, você é cristão. Mas, diga-me, onde estão as obras? Você está enganado. Para desenganá-lo, porém, quero dizer-lhe al-go sobre a excelência e a obrigação. Servirá para afervorar os tíbios e para incitar ainda mais os fervorosos.

Pode-se ver a excelência de seu estado por esse mar de gra-ças e favores de que começou a participar desde que foi bati-zado. Então, de filho da ira passou a ser filho de Deus, irmão de Jesus Cristo, herdeiro de sua glória, templo do Espírito San-to. E parece-lhe pouca essa dignidade. Se se tivesse tornado filho de um príncipe.

E não pense que isso é idéia minha: é doutrina ensinada pelos Santos Padres, especialmente por Sto. Agostinho, no Capítulo 61, I. Enarrat: Non solum Sancti, sed et filii; non solum filii, sed et heredes, et fratres Christi; non solum fratres, sed et cohere-des, et membra; non tantum membra, sed et templum; non tan-tum templum sed et organa.37 Aliás, o próprio Espírito Santo pela boca de S. João: videte qualem charitatem38 etc. e pela boca de S. Paulo: membra vestra templum sunt Spiritus Sanc-ti39; e se querem ir mais a fundo, lembrem quanto fez Jesus Cristo para fazê-los cristãos.

Ele nasceu, qui dedit semetipsum pro nobis, ut redimeret ab omni iniquitate, et mundaret sibi populum acceptabilem. Ep. ad Tit.40 Se tal é a dignidade, quanto deve ser grande a obrigação.

37 Não apenas santos, mas filhos; não só filhos, mas herdeiros e irmãos de Cristo; não só irmãos, mas co-herdeiros e membros; não apenas membros, mas templo; não só templo, mas também órgãos. No manuscrito a indicação da fonte é indecifrável.

38 1 Jo 3,1 (Vede que caridade...)

39 1 Cor 6,19 (Vossos membros são templo do Espírito Santo.)

40 Tt 2,14 (... entregou-se por nós, para nos remir de toda a iniqüidade, e purificar para si um povo que lhe fosse agradável... ) 32

É doutrina de Sto. Tomás: quem assume uma profissão etc.. Um soldado... um médico... um doutor. Quicumque profitetur aliquem statum, tenet ad ea que illi statui conveniunt.41 Vejamos agora quanto somos obrigados etc.. Temos obrigação de imitar o comportamento, as ações de Jesus Cristo.

Que fez Jesus Cristo... Humildade profundíssima... É assim que fazemos? Ai, ai! Se refletimos sobre nossa conduta, encontra-remos apenas motivo de pranto. Lembremos que nossas co-munhões não produzem fruto, que não observamos o silêncio, que facilmente nos dispensamos das obrigações da comunida-de, que com palavras e ações causamos desgosto aos nossos Irmãos.

Lembremos que a solidão nos custa, que nos pesa ficar na ce-la, que murmuramos muitas vezes contra nossos Irmãos e até contra os Superiores. Lembremos que quanto à obediência pouco fazemos, como seria preciso, que não encontramos sa-tisfação senão nas conversas com pessoas do mundo, que as nossas conversas são todas vãs e à maneira dos seculares. Lembremos que pouco pensamos em Deus, pouco nos mortifi-camos, e temos horror de qualquer Cruz que Deus nos manda: que lhes parece? Falo de mim... Senhor, envergonho-me... re-solvo... oremos a Maria Santíssima.

Chamados à santidade

93. Eu não gostaria de falar etc.. Preferiria que cada um de vo-cês, no interior de um quarto, se pusesse a considerar os defei-tos.

Seria melhor não pregar, ne ignis comedat speciosa deserti.42 Que lhes posso dizer? Que estão a fazer na Congregação.

Utinam abstin...43 aqueles que não se querem fazer santos etc.. Roguemos etc..

41 II-II q 186, a 2, ad I (Quem assume um estado, está obrigado ao que é conveniente a esse estado.)

42 Jl 1,19 (... para que o fogo não consuma as pastagens do deserto...)

43 At 15,29 ( a citação correta seria: “ut abstineatis” – que vos abstenhais -, e não “utinam abstineatis” - oxalá vos abstenhais -) 33

94. In loco pascuae ibi me collocavit.44 Meus diletíssimos, não consigo compreender o motivo por que tantos de vocês cami-nham lentamente no caminho do Senhor. Se tivessem ficado no mundo, oh! quantos defeitos, pecados veniais e mortais! Se se tivessem retirado para uma Comunidade franciscana. Não quero falar mal das Comunidades; digo apenas: agradeçam, agradeçamos a Deus que nos chamou para cá: in loco pascua-e.

É verdade que vocês padecem. Se tivessem ficado no mundo, sempre teriam de chorar. Aqui algumas vezes etc.. E mais, to-das as águas das contradições, das adversidades etc. a nós [ ] etc.. In loco etc.. Vendo Deus que nós não queremos nos fazer nenhuma violência, permite, quer que sejamos afligidos. Um porque está no meio da multidão etc. pode subir ao altar etc.. Assim etc.. Tantos auxílios, confessores, superiores etc. se um cordeiro estivesse no meio de um campo florido e não quisesse baixar a cabeça etc. e Deus etc. in loco etc.. Que estupidez etc.. Envergonhemo-nos etc..

Fugir da tibieza

95. Quia tepidus es incipiam etc..45 Tenho medo que se um de vocês etc.. Basta outro empurrão, hei-lo rejeitado por Deus... Meus Senhores, meus Padres e Irmãos, afastem a tibieza, o tíbio enfada a Deus; porque se comunga, se é sacerdote e diz a Missa, faz oração etc. é enfadonho para a comunidade etc.. Se um dedo está enfermo etc... Meu Irmão, para que você veio para a comunidade, que veio fazer? Caridade, paciência etc.. Um confrades dos primeiros tempos da Congregação tinha um pé sempre levantado, pronto para obedecer.46 Causa enfado a

44 Sl 22,2 (Levou-me às pastagens.)

45 Ap 3,16 (Porque és tíbio começarei...)

46 Parece alusão ao Pe. César Sportelli (+1750), seu primeiro discípulo, que dizia: “Como o soldado que, ao primeiro rufar do tambor, está pronto para partir, sem se importar se faz bom tempo ou não, assim nós, em qualquer circunstância, devemos estar prontos ao primeiro sinal dos superiores”. (cfr A. DE RISIO, Croniche della Congreg. del SS. Redentore, Palermo 1858, 60). 34

si mesmo etc. um fervoroso omnia bene probat47 etc. um tíbio etc.. Afastemos etc. creio etc. ego sum vitis48 etc.. Somos ra-mos etc.. Se um ramo da videira produz apenas um cacho ou nenhum etc. será cortado etc..

Compreendido? Reformem-se renovamini in spiritu mentis ves-trae49 etc. dêem uma olhada nas Regras etc. nos Votos etc. Oremos etc..

Meditar a Paixão

96. Renovem-se, meus Padres e Irmãos, no espírito da santa oração. Todas as meditações são boas, mas [é melhor] meditar na Paixão de Jesus Cristo: e nela não devemos ficar na super-fície; humildade, mortificação etc.. Palemão50 não quis, no tem-po de Páscoa, tomar sopa com óleo, porque como disse: Do-minus meus Crucifixus51. Não quero dizer-lhes que não devem contentar-se com a meia hora. Modicum orat qui tunc orat cum genua flectit.52 Pelo menos façam bem, se vocês etc..

Perseverar

97. Meus diletíssimos não levem em conta etc..

S. Bernardo Ep. 2.53 ad Euar. Vincit annos animus, et frigente jam corpore, fervet sanctum in corpore desiderium omnibusque fatiscentibus, durat tamen incolumis, propterea vigor non sentit rugosae carnis infirma: spiritus promptus; ut quid non metuat veterani domicilii minas, qui fabricam spiritualem videt in dies, in sublime comsurgere, proficere in aeternum?53

47 Provérbio latino (examina tudo bem)

48 Jo 15,1s (Eu sou a videira...)

49 Ef 4,23 (renovai-vos em vossa mente)

50 Velho monge do tempo de S. Pacômio.

51 Meu Senhor está crucificado.

52 João Cassiano: Pouco ora quem apenas ora quando dobra os joelhos.

53 O Espírito vence os anos; se o corpo já esfria, ferve no corpo um santo desejo, e tudo já a arrefecer, continua sempre vivo; seu vigor não sente as enfermidades da carne enrugada: o espírito está alerta; não teme as amea-ças da velha casa quem vê a construção espiritual dia a dia subir cada vez mais alto, avançando para a eternidade. 35

Eccli., Cap. 31. v. 27: In omnibus operibus tuis esto velox.54

Eccl. 9. v. 10: Quodcumque facere potest manus tua, instanter operare, qui nec opus, nec ratio, nec sapientia, nec scientia erunt apud inferos, quo tu properas.55

Portanto etc. Animem-se etc..

Fratres, diz o Apóstolo ad Philip., Fratres, ego non arbitror me comprehendisse. Unum autem, quae quidem retro sunt, obli-vinscens, ad ea vero quae sunt priora extendens me.56 Period. Etc.. Peçamos etc..

Breve o tempo

98. Breves anni transeunt, et per viam, per quam non revertar ambulo.57 Meus Padres e Irmãos, nossa vida acaba. Agora es-tamos todos aqui: os Padres no coro, os estudantes no estudo, os irmãos nas oficinas etc. na tabela dos sinais58 etc. mas den-tro de poucos anos, meses etc.. Breves etc..

Mas eu sou jovem, talvez diga você; e por acaso sua vida não é vento, vapor, uma sombra? Memento quod ventus est vita tua.59 Não duvide, acabam os seus dias. Breves etc..

Um dia o Padre será vestido etc.. Será tirado do quarto etc., será levado para a igreja com o cálice na mão etc. um estudan-te etc.. Breves etc..

E que nos resta? Solum nobis superest sepulchrum.60 Meus diletíssimos, não percamos tempo: dê-mos ao Senhor o precio-so e o sem valor, isto é, as coisas pequenas e grandes.

54 Sê rápido em todas as tuas obras: Eclo 31,27, segundo a Vulgata.

55 Tudo o que a tua mão achar para fazer, faze-o com presteza, porque não haverá atividade nem cogitação, nem ciência, nem sabedoria no Xeol para onde irás.

56 Fl 3,13 (não me glorio de já ter alcançado a meta. Só faço uma coisa: esquecendo o que fica para trás, com todo o meu ser continuo correndo para a frente...)

57 Jó 16,23 (Passam rápidos os anos, e caminho por uma estrada sem vol-ta...)

58 Tabela onde constavam os sinais convencionais com o sino para a cha-mada dos confrades.

59 Jó 7,7 (Lembra-te que tua vida é um sopro.) 36

Particula boni doni nos non praetereat.61 Que viemos fazer na Congregação? Para fazer-nos santos. Mas quando começa-mos? Quando, meus diletíssimos? Breves etc.. Envergonhemo-nos etc.. Arrependâmo-nos etc.. Decidamos etc.. Maria Santís-sima etc..

Corresponder ao chamado

99. Grande a graça que Deus nos fez ao nos chamar para a Congregação. Como correspondemos? Alguém chamado para ser, não digo Mordomo, mas servo do Rei, se não corresponde etc.. Agora se quero falar-lhes da resposta que devemos dar etc..

Um Irmão − no modo como você deve corresponder − talvez Deus o queira santo como S. Pascoal. Um estudante clerigo [no original “operario”, isto é, de vida ativa, operário apostólico] como um S. Luís, um Padre como um S. Francisco Régis. Se não corresponde, é de temer que se condene, pois desmere-cendo essa graça, desmerecerá etc.. Alguns Deus quer salvos como Santos, e se não o são? etc.. Portanto, é necessário cor-responder.

2. Para zombar do demônio etc.. Ele tenta mais um Congrega-do se este é fervoroso, quantas almas etc.. 4. [sic] Para agra-dar a Deus. Os Santos, não só os de vida ativa mas todos, tre-meram. I. [sic] Quanto à maneira etc. precisa corresponder sem reserva. Nemo potest duobus Dominis servire.62 2. Com preste-za etc. Deus meu, seria melhor que o Padre, o Irmão não fizes-se o trabalho: hilarem diligit Deus.63

Santa Fé. Que não seja sempre assim, um dia sim, um dia não. Sempre, sempre. Padre! Estou doente, que doente, doen-te? Você tem a alma, está obrigado aos votos, é congregado, portando deve sempre corresponder, deve abraçar todas as ocasiões de se fazer santo. Obediência... pobreza... não posso

60 Jó 22,1 (Só nos resta o sepulcro.)

61 Eclo 14,4 (Não deixes que se perca nenhuma migalha do dom.)

62 Mt 6,24 (Ninguém pode servir a dois senhores.)

63 2Cor 9,7 (Deus ama quem dá alegremente.) 37

compreender de onde possa ter vindo tanta frieza de nossa parte, donde venha tanta tibieza etc. entremos em nós mes-mos. Há quantos anos você está na Congregação? 1, 2, 5, 8? Preste atenção: breves anni.

Tomemos uma decisão etc..

Obediência

100. Falhamos na estima devida à virtude da obediência. Por-que pecado venial mas tal etc.. O Sacrifício da obediência é mais perfeito, e dela fizemos voto. 2. E com isso estamos fa-lhando no amor, e este é mais necessário que a primeira. Se alguém julga etc.. O Padre D. Paulo64 etc. se escrevia etc.. Pa-dre, esqueci-me disso etc.. É verdade que você não é culpado diante de Deus, mas demonstra pouco amor etc.. 3. Na prática etc..

A Regra diz, nada tenhamos de vontade65 etc.. Eu dependo do Reitor Mor, do Reitor local etc.. Minha vontade está nas mãos deles. Envergonhemo-nos etc..

Corresponder ao chamado

101. Gostaria de falar com lágrimas etc.. Viemos para a Con-gregação, Deus arrancou-nos do mundo, plantou-nos em sua vinha etc.. Nós, porém, em vez de corresponder etc.. Meus di-letíssimos, isso acontece porque não refletimos no grande bem que possuímos etc.. O santo profeta Davi não dizia: Feliz o Rei, ele mesmo etc.. Mas: Beatus quem elegisti et assumpsisti66 etc.. Ah!, santo Rei, teus desejos eram melhores: Quam dilecta tabernacula tua Domine virtutum67. Nós o obtivemos etc.. E, no entanto etc.. Senhor meu Deus, Deus meu. Digam-me: deixan-do de lado as Escrituras e os Santos Padres, que bens corpo-rais e espirituais nos faltam? Deus meu! agradeço-vos tudo

64 Pe. Paulo Cafaro, +1753.

65 Parte II, cap. I,parag.3,2

66 Sl 64,4 (Feliz quem escolhestes e acolhestes.)

67 Sl 83,1 (Quão amáveis vossos tabernáculos, Senhor poderoso.) 38

etc.. Eripuisti me de laqueo venatium68 etc.. E os pecados não fizeram que tardasseis? Não! Proiecisti post tergum tuum69 etc.. Meus Irmãos, grande é a graça etc. correspondamos etc.. En-vergonhemo-nos etc..

Longo o caminho

102. Quem entrou na Congregação, logo imagina ter chegado à santidade. Iam dives factus sum, iam saturatus sum70 etc..

Não é isso mesmo? Etc.. Os efeitos etc.. Vocês devem temer etc.. Padre, sou santo, Timete Dominum omnes Sancti ejus71 etc.. Os santos sempre tremeram. Você não é santo etc.. Vá relembrando quantos defeitos etc.. Nascem do não temer etc.. Juiz etc.. Que santa liberdade no falar, na falta de observância etc. se temesse, não seria assim etc.. Mais recolhimento e te-mor etc.. Corrija-se etc..

Deus irá dar-nos um ponta-pé. Peçamos etc..

Contínua vigilância

103. Qui timet Dominum, nihil negligit72. Já lhes foi falado sobre o temor etc.. Insisto no assunto. Afastem tanta confiança. Não é verdade que sejam impecáveis pelo fato de terem entrado na Congregação etc.. Judas, S. Pedro, paratus sum in carcerem etc. etiamsi oportuerit73 etc.. S. Justino, Tertuliano, Orígenes etc.. E nem sei de onde possa vir que não tenham medo etc.. Deus meu! Recordem-se dos pecados cometidos etc. vocês não têm certeza do perdão.

2. Lembrem-se que se devem salvar como santos etc.. É má-xima dos Mestres espirituais que Deus quer que alguns se sal-vem como santos etc.. Se um cristão me pergunta etc.. Quid

68 Sl 90,3 (Vós me livrastes do laço dos caçadores.)

69 Is 38,17 (Lançastes para trás …)

70 1Cor 4,9 (Já fiquei rico, já estou saciado...)

71 Sl 33,9 (Temei ao Senhor, todos os seus santos...)

72 Ecl 7,19 (Que teme ao Senhor não descuida de nada.)

73 Mt 26,35 (preparado para ir ao cárcere... ainda que fosse preciso...) 39

faciam?74 Etc.. Serva mandata75 etc.. Mas se um Congregado? Etc.. Sem falar de tantas luzes, graças etc.. Como vocês cor-respondem? Parece especialmente verdadeiro a nosso respei-to, se bem que S. Paulo o diga a todos os cristãos: Charitas Christi urget nos?76 Vocês tão negligentes etc.. Se temessem, não seria assim etc.. Beatus homo que semper est pavidus77. Qui timet Deum etc..

3. Não sabem se conseguirão a perseverança etc.. Deus cos-tuma abandonar alguns no mundo, quando se entregaram a toda sorte de maldades etc..

Os Congregados, as almas espirituais, os Religiosos ele cos-tuma abandonar por causa das pequenas faltas etc.. Que gran-de coisa é não observar o silêncio etc.. Mas Deus etc.. Por isso temor, temor. Conhecemos as quedas dos Santos etc.. E nós não somos santos, mas queremos viver com segurança etc..

Envergonhemo-nos das faltas passadas, nascidas da falta de temor etc.. Decidamos etc.. Senão etc.. Impossibile est eos qui semel sunt illuminati78 etc..

(Spicilegium Historicum CSSR, 9 (1961) pp. 447-475)

Fl.Castro,sexta-feira, 9 de abril de 2004, Sexta-feira Santa)

74 Que devo fazer?

75 Mt 19,16-17 (Que devo fazer?... Guarda os mandamentos…)

76 2Cor 5,14 (Impele-nos o amor de Cristo.)

77 Pr 28,11 (Feliz o homem que sempre anda com medo. Quem teme a Deus...)

78 Hb 6,4 (Impossível que aquele que uma vez foram iluminados...)

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